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quarta-feira, 15 de abril de 2026

José Cid - Tenho a Força de Mil Homens


Foto victor nogueira - Setúbal - Avenida 5 de Outubro, com as buganvílias em flor. (Canon 180_05 2020 05 31 IMG_1505)

"Todo o mundo / há-de ouvir / Todo o mundo / há-de sentir / Tenho a força / de mil homens / para o que há-de vir." "Mantenham-se seguros / Em breve estamos juntos."

Tenho a Força de Mil Homens

Autor: José Cid

Tenho a Força de Mil Homens

Autor: José Cid

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir

 

Tudo o que eu sofri

Tudo o que eu chorei

Ninguém sabe, ninguém viu

Mas eu sei que não errei

 

Vou gritar ao vento

Vou gritar ao mar

Que o amor é um momento

Que não pode acabar

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir

 

Nas noites de solidão

Nas horas de amargura

Eu sinto no coração

Uma força que perdura

 

E quando o sol brilhar

E a paz nos envolver

Nós vamos todos cantar

E o medo vai morrer

 

Todo o mundo há-de ouvir

Todo o mundo há-de sentir

Tenho a força de mil homens

Para o que há-de vir


Nota: A frase final que referiste anteriormente ("Mantenham-se seguros / Em breve estamos juntos") foi um aditamento pessoal feito pelo próprio José Cid num vídeo viral gravado durante o confinamento de 2020, adaptando a sua música ao contexto da pandemia. Não faz parte da letra original da canção de 1989. Embora a canção seja um clássico da sua carreira, o texto ganhou uma nova vida e um significado emocional profundo durante a pandemia de COVID-19, em 2020. (Google Gemini)

segunda-feira, 4 de março de 2024

Tiago Tavares - 15 expressões saídas da publicidade que usamos vezes sem conta


1. Em Portugal, aproximam-se as eleições para a Assembleia da República, a terem lugar em 10 de março. A campanha eleitoral arranca em 25 de fevereiro, e neste contexto bem como no do rescaldo das eleições para a Assembleia Legislativa da Região Autónoma dos Açores, Luís Montenegro, presidente do PSD, opinou que o partido Chega terá de se submeter «[a]o teste do algodão»  quando for votado o programa de governo minoritário da coligação da Aliança Democrática nos Açores. É uma expressão curiosa, que encontra referência no Ciberdúvidas (ver "15 expressões saídas da publicidade que usamos vezes sem conta", do jornalista Tiago Tavares) e que tem origem em «o algodão não engana», frase publicitária que, em anúncios dos anos 90 do século passado, em Portugal, rematava a demonstração da eficácia de um produto de limpeza. Na verdade, a frase em português era a tradução de outra em espanhol – «el algodón no engaña» – que se tornou popular em 1984, com a publicidade de um produto de limpeza semelhante, vendido em Espanha. Na Internet, é possível recolher vários exemplos quer de «teste do algodão» quer de «o algodão não engana», que, em transposição metafórica, significará «momento decisivo ou crítico, que conduz a uma clarificação». Trata-se, portanto, de mais um caso da linguagem publicitária como fonte de renovação fraseológica no português.

Sobre o contributo da publicidade para o aparecimento de novos usos idiomáticos em Portugal, leia-se "Publicidade e expressões idiomáticas". Na imagem, o mordomo que no anúncio de 1984 da campanha publicitária espanhola fazia o «teste do algodão» depois de aplicado o detergente Tenn, um produto da Henkel.'

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/aberturas/teste-do-algodao-lagarto-naos-epicenos-lingua-materna-duvidas-gramaticais-e-o-portugues-no-senegal/2853 [consultado em 04-03-2024]

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* Tiago Tavares  

29 jun. 2018 

15 frases que perduraram muito para além do fim das suas campanhas em Portugal

 
1. Primeiro estranha-se, depois entranha-se

O anúncio que marcaria a entrada da Coca-Cola em Portugal foi encomendado à agência Hora, onde trabalhava Fernando Pessoa, nos finais dos anos 20. O poeta foi responsável pelo slogan, mas a campanha não saiu do papel e a bebida foi proibida por intervenção do diretor de Saúde de Lisboa, Ricardo Jorge — o médico que dá nome ao Instituto –, por um duplo motivo: se o produto continha coca, da qual se extraía a cocaína, não podia ser vendido ao público; se não tinha coca, então anunciá-lo com esse nome seria publicidade enganosa. A marca só começou a ser vendida em Portugal em 1977, mas a frase ficou para a história.

2. Há mar e mar, há ir e voltar

Outro poeta a dar cartas na publicidade foi Alexandre O’Neill. Devemos-lhe esta frase elevada a provérbio, criada para uma campanha do Instituto de Socorros a Náufragos para prevenir os afogamentos nas praias portuguesas.

3. Se conduzir, não beba

No campo das campanhas institucionais, esta foi outra frase que fixámos neste anúncio de 1986 e que continuamos a repetir. 

4. Aquela máquina

Podemos até já nem nos lembrar bem do que fazia “o Homem da Regisconta”, mas certamente que nos ecoa na memória a voz forte de Fernando Girão a cantar “Aquela máquina!”, num anúncio repetido entre 1974 e meados dos anos 80. E todos nós, seja em que tarefa for, gostamos de ser “aquela máquina”.

5. Acredita nos glutões?

Quem foi criança nos anos 80 provavelmente terá acreditado que existiam mesmo uns bonequinhos verdes que saíam da embalagem do detergente Presto para dar conta das nódoas mais difíceis. «Acreditar nos glutões» passou a ser sinónimo da ingenuidade de crer em coisas pouco razoáveis.

6. O que é Nacional é bom

Muito antes de Scolari nos encher as janelas e os carros de bandeiras portuguesas, já a secular marca de massas, farinhas, cereais e bolachas apelava ao nosso patriotismo. No léxico comum, o slogan extravasou o âmbito da marca nascida em 1849 e serve hoje para exaltar a qualidade de todo o tipo de produtos portugueses.

7. Vá para fora cá dentro

O slogan lançado pelo então Ministério do Comércio e Turismo em 1995, numa campanha que desafiava os portugueses a passear pelo seu país, tornou-se tão natural como a nossa sede — e aqui está outra frase herdada da publicidade — de escapadinhas turísticas.

8. Sensação de absorção

Num anúncio dos anos 90, designava o efeito da aplicação da pomada Clearasil nas borbulhas de uma adolescente. A expressão foi absorvida por ainda mais gente quando Herman José, criador de mil expressões, a adaptou para «sensação de absorção, mas ao contrário».

9. Apetecia-me tomar algo

O pedido feito pela madame ao motorista Ambrósio entrou para a história da publicidade orelhuda em 1995, prestando-se a algumas conotações menos ortodoxas no imaginário popular das relações patroa-motorista.

10. O algodão não engana

A visibilidade de Ambrósio é comparável à do zeloso mordomo que descobre toda a sujidade invisível a olho nu, através do infalível teste do algodão. A expressão deu nome a uma canção dos Tara Perdida e a um projeto musical de Pacman (agora Carlão), mas é usada sobretudo quando queremos desmascarar aquilo que, à primeira vista, parecia «limpinho, limpinho».

11. Sobral de Monte Agraço já tem um parque infantil

Por falar em limpeza, há uma vila no distrito de Lisboa cujo nome foi repetido à exaustão por Vítor de Sousa num anúncio do Tide (detergente igualmente responsável pelo «branco mais branco não há»). Embora a frase não dê para aplicar em muitos contextos, sabemos de fonte segura que os habitantes de Sobral de Monte Agraço ainda hoje são questionados acerca do seu parque infantil.

12. Papa a papa

Se uma frase entra no ouvido de muita gente, uma canção entra muito mais. E apostamos que em casa de muitos leitores com filhos pequenos, quando chega a hora de dar a papa, esta adaptação do Frère Jacques mantém a eficácia de 1992, quando a campanha estreou.

13. Falta-te um bocadinho assim

Ora aqui está uma expressão com gesto incorporado. Quando estamos quase a conseguir atingir um objetivo, mas ainda falta o quase, há sempre alguém que aproxima o indicador do polegar e nos manda comer um Danoninho.

14. Há uma linha que separa…

Esta expressão é mais recente, embora a marca de telecomunicações já tenha entretanto mudado de nome. Andou na boca de todos no início desta década e até o então líder do PS, António José Seguro, glosou o slogan: «Há uma linha que separa a austeridade da imoralidade», disse em 2012, em relação à proposta do Governo para descer a TSU.

15. Poder, podia, mas não era a mesma coisa

Poucos anos antes, aquando da introdução da fibra na sua oferta de serviços, a Zon teve uma campanha com figuras públicas, cujo mote foi repetido vezes sem conta, substituindo o nome da marca por aquilo que se quisesse, como por exemplo: «Podia viver sem o Lifestyle do Observador? Poder, podia, mas não era a mesma coisa.»

 
 Cf. O Teste do Algodão'

in Ciberdúvidas da Língua Portuguesa, https://ciberduvidas.iscte-iul.pt/artigos/rubricas/idioma/15-expressoes-saidas-da-publicidade-que-usamos-vezes-sem-conta/3650 [consultado em 04-03-2024]

sábado, 17 de fevereiro de 2024

José Pacheco Pereira - A São na campanha do PS

* José Pacheco Pereira

17 de Fevereiro de 2024


Pedro Nuno Santos não é único, a São está por todo o lado nos textos eleitorais, mas ele pôs-se mais a jeito.


Cartaz de propaganda eleitoral do Partido Socialista, Fevereiro de 2024 DR

  Experimentem dizer alto “Ação”. Os mais velhos, que têm a memória de como se diz “Acção”, dirão direito, os mais novos educados já na novilíngua, e os mais velhos modernaços e oficialmente muito obedientes, dirão “A São”. Entrou, pois, a São na campanha eleitoral do PS, e Pedro Nuno Santos quer “mais a São”.

 Por que raio quer ele mais a São? Não sei, mas duvido que haja muitas razões benévolas para isso, e as perversas ficam para as redes sociais. Repito o plebeísmo, que é sempre apropriado para estas coisas enquanto não for proibido. Por que raio Pedro Nuno Santos resolveu, logo no seu primeiro cartaz de propaganda eleitoral, usar uma das palavras que ficaram mais estragadas com o novo acordo ortográfico? Indiferença é de certeza, ignorância também, mas fico-me pela primeira, que é, junto com a inércia, a grande força motora do novo acordo ortográfico, em bom rigor, a única. Pedro Nuno Santos não é único, a São está por todo o lado nos textos eleitorais, mas ele pôs-se mais a jeito.

 Por que raio Pedro Nuno Santos resolveu, logo no seu primeiro cartaz de propaganda eleitoral, usar uma das palavras que ficaram mais estragadas com o novo acordo ortográfico? Indiferença é de certeza, ignorância também, mas fico-me pela primeira

O Acordo Ortográfico de 1990, pomposamente assinado pela maioria dos países de língua portuguesa, foi um dos maiores desastres diplomáticos dos últimos anos, com países como Angola e Moçambique a continuarem na mesma e todos os outros com diferentes graus de implementação. E, mesmo no Brasil, cada um escreve como quer, o que é aliás um dos factores do dinamismo do português do Brasil, fruto da pujança da sociedade brasileira, para o bem e para o mal.

Os resultados do Acordo foram separar ainda mais, uns dos outros, os países cuja língua oficial é o português e, dentro de cada um, haver na prática duas ortografias, como se vê neste jornal. Mesmo quando todos os passos legais para a sua implementação foram dados, quem escreve português bem, recusa o Acordo. E mais: considera uma questão de princípio escrever com a ortografia antiga, o que torna muito mais radical a divisão. Basta comparar os jornais dos vários países da CPLP para perceber isso, já para não falar de Portugal. Só que em Portugal deu-se um passo, cuja legalidade é contestada, de obrigar instituições, escolas e outras dependências do Estado a usar esse abastardamento da língua portuguesa que é o Acordo de 1990. E isso trouxe, como aliás a decisão de fazer o Acordo, muitos interesses económicos em jogo, que só se têm reforçado e hoje são um lóbi poderoso.

Apesar de uma enorme contestação, por que razão não se volta a escrever o português que tem a riqueza da memória da língua? A razão principal é que os nossos governantes, do PSD ao PS, estão-se literalmente nas tintas para o que é importante na nossa identidade cultural, mesmo quando se mostram muito indignados com a bandeirinha vermelha e verde, cuja história também desconhecem, ou se esquecem de colocar no orçamento as verbas para comemorar o Camões.

 (No Arquivo Ephemera não nos ensaiamos nada para colocar o episódio do Velho do Restelo em painéis pelas cidades com estes versos em negrito

"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça

Desta vaidade, a quem chamamos Fama!

para envergonhar a São…)

A memória de uma língua, que muitas vezes se traduz na ortografia – e não me venham com o “pharmacia”, que é outra coisa –,​ faz parte da sua riqueza, nunca impediu ninguém que fale português no Brasil, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde ou na Guiné, de ler Camões, Vieira, Camilo, Eça de Queirós ou Pessoa. Aliás, são mais lidos no Brasil do que cá. O que atenta contra essa capacidade de ler é outra coisa, é o ataque à leitura em papel, é a progressiva desaparição dos livros nas escolas, como se os ecrãs os substituíssem, é a desaparição da herança cultural das histórias da mitologia clássica ou da Bíblia, que são indispensáveis para ler, por exemplo, Os Maias, que é suposto ser lido nas escolas e que eu duvido muito se possa ler sem essas histórias, e, por fim, a progressiva limitação do vocabulário circulante, que empobrece a capacidade de expressão, logo, o poder de quem fala ou escreve.

 Quando o Ministério Público está a espatifar o sistema político e a democracia, entre a intencionalidade e a irresponsabilidade, quando a campanha eleitoral foge de tudo o que é importante cá dentro e lá fora, quando Trump apela à invasão russa da Europa, quando a traição à Ucrânia e aos palestinianos mostra a nossa cobardia e vergonha, quando Putin assassina na cadeia o seu principal opositor, porque é que a São é relevante? Porque a diferença entre a São e a Acção tem que ver connosco, com a nossa identidade, com a nossa língua, com a nossa cultura, com a nossa capacidade de falar bem, logo, de pensar bem, logo, de sermos mais fortes. E vamos muito precisar de ser mais fortes nos tempos que aí vêm.

 

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2024/02/17/opiniao/opiniao/sao-campanha-ps-2080597


quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Bárbara Reis - Um anúncio fez rir e pôs pessoas a ler notícias



LIVRE DE ESTILO
 
Uma newsletter de Bárbara Reis sobre o outro lado do jornalismo e dos media.
 
24 de janeiro de 2024

E, de repente, uma notícia que publicámos há quase três meses, teve hoje um pico de leitura no site do PÚBLICO.

A notícia foi "redescoberta" e lida por uns bons milhares de leitores. O título era Escondidos em livros estavam 75.800 euros em dinheiro no gabinete de Vítor Escária, que publicámos a 9 de Novembro, sobre a descoberta de dinheiro nas estantes do escritório do chefe de gabinete do primeiro-ministro, no Palácio de São Bento.

E fiquei a pensar: o que levou tantas pessoas a irem ler uma notícia velha e factual, o primeiro de muitos artigos que se escreveram nos últimos meses sobre essa incrível descoberta?

É raro e, quando acontece, é com artigos intemporais, que vale a pena ler hoje ou daqui a um ano ou uma década.

A resposta é simples: o número "75.800 euros" está na nova campanha publicitária do Ikea.

Se estou a pensar bem, milhares de pessoas que viram a campanha ficaram curiosas e quiseram saber o que significava aquele valor no cartaz. Ou seja, milhares de pessoas não sabiam dos 75.800 euros, uma das razões que levaram António Costa a demitir-se, que foi, digamos, a notícia do ano.

A campanha da empresa sueca anuncia uma estante e diz: "Boa para guardar livros. Ou 75.800€." É uma "peça" publicitária que faz parte de um conjunto todo ligado às eleições portuguesas de Março: "A nossa geringonça contra o frio" (e mostra uma manta); "Puxamos o tapete à inflação" (e tem um tapete); "Para se aquecerem sozinhos ou coligados" (um edredão).

É daquelas campanhas que se adora ou se odeia. Faz rir, mas também faz pensar nos limites do humor. Falei com três publicitários. Numa coisa, estão de acordo: a campanha já ganhou.

"Alguém que vê e sorri, está ganho. Alguém que vê, sorri e comenta, mais ganho está. Alguém que vê, sorri, comenta e partilha, é o ultimate", diz João Ribeiro, managing partner da Stream and Tough Guy (os publicitários, como os economistas, os gestores e outras profissões, adoram inglês).

"Conseguiram ser notícia, estão virais nas redes, têm partilhas, há ressonância com as pessoas, entrou no quotidiano. O risco compensa", diz Ribeiro. A campanha "não quer vender estantes, quer construir marca, criar good will" (eu avisei) "e conseguiu".

Porquê risco? "Nós gostamos de tudo", diz Ribeiro, "mas as empresas fogem de religião, política, sexo e guerra".

A alegria do publicitário resume-se numa frase: "A maior parte da publicidade que vemos é ruído e lixo, campanhas sem retorno. Gastam-se milhões, as pessoas olham e não retêm nada. Esta é uma indústria com muito desperdício. Aqui é o inverso." 

Miguel Barros, CEO da Havas Creative em Portugal, é dos publicitários que gostam de ver marcas a tomar partido por causas. "Há sempre alguém que diz 'isto é política, as marcas não se devem meter', mas eu gosto de ver que a marca tem cabeça, que pensa, que faz julgamentos, que toma partido. Consigo imaginar uma marca a dizer: 'Não gostamos de Donald Trump' ou 'Somos a favor do direito ao aborto'. Gosto de marcas com atitude."

E neste caso? "Pode dizer-se que não é boa para o PS, mas não me parece que tenha esse propósito. O que vejo aqui é o desinteresse que tem uma estante e o interessante que é falar sobre isto."

Todos concordam com duas coisas: a marca "agarrou a oportunidade" (há eleições em breve) e não está a tomar partido por ninguém. "Não fazem um juízo de valor. Estão a brincar com as eleições e a ser provocadores. Mas não me parece que se possa dizer que o Ikea é contra o PS. Brinca com os 75.800 euros, mas não diz se é certo, se é errado", diz Pedro Bexiga, co-fundador da Coming Soon.

Só uma coisa espanta publicitários e jornalistas: há pessoas que viram a campanha e não sabiam a que propósito estava ali aquele número, 75.800. Esses, na linguagem publicitária, não tiveram "gratificação imediata". Viram, não conseguiram descodificar, logo, não tiveram prémio. 

Na linguagem dos jornalistas, dizemos outra coisa.

https://www.publico.pt/2024/01/24/newsletter/livre-estilo


sábado, 12 de agosto de 2023

António Guerreiro . Deus ex Media

 * António Guerreiro

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA  

11 de Agosto de 2023 (Público)

A relação entre os media e a religião, ou antes, entre os media e o catolicismo romano, é um ângulo de análise imperativo para perceber o acontecimento da Jornada Mundial da Juventude. Ali, até os confessionários foram concebidos e “instalados” (no sentido em que se fala de uma instalação artística) para serem telegénicos e resultarem numa “bela” exibição fotográfica e televisiva: eis o eloquente emblema da negociação entre o público e o privado, em que o primeiro goza de grandes vantagens. Esta mediatização, de preferência sob a forma da televisualização, é um fenómeno aceite e promovido nas cerimónias cristãs, mas não é uma prática judaica nem islâmica.

O filósofo Jacques Derrida dedicou a este assunto uma longa intervenção, num colóquio em Paris, em 1997, que teve por título “Surtout pas de journalistes!” (“Sobretudo nada de jornalistas!). Tal injunção, imagina Derrida recorrendo a uma óbvia anacronia, teria sido aquela que Deus, do Velho Testamento, inculcou tacitamente em Abraão, quando o mandou subir ao monte onde deveria sacrificar Isaac, o seu único filho. Para designar o fenómeno fundamentalmente cristão da mundialização televisiva da religião, Derrida engendra um neologismo que evoca a sede romana: “mundialatinização”. No entanto, esta “mundialatinização” está sempre ligada, na sua produção, a fenómenos nacionais. Isso tornou-se muito óbvio na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. Derrida sugere até que o tão famoso “regresso do religioso” tem de ser avaliado e compreendido em função destas manifestações eminentemente mediáticas.

Como não podia deixar de ser, há um preço a pagar por isto, que a televisão, sobretudo, cobra com juros altíssimos. Consistem esses custos no triunfo do Kitsch. É conhecida uma frase do gramático Pierre Fontanier (1765-1844), no seu tratado sobre as figuras do discurso, sobre os tropos, onde ele diz, ecoando uma afirmação de Boileau, que se produzem mais figuras de estilo, num só dia, no mercado parisiense de Les Halles, do que em toda a Eneida. Do acontecimento religioso da semana passada podemos dizer o mesmo: produziu-se mais Kitsch, em Lisboa, durante uma semana, do que em décadas de produção literária e artística.

Kitsch monumental esteve bem patente nos palcos-altares e em toda a parafernália para ser tele-vista. Quem conhece os gostos e os instrumentos do Kitsch ideológico, encontrava ali material para frutuosas comparações. Mas se quisermos analisar o acontecimento quanto ao fluxo de Kitsch produzido, temos de ir além da concepção tradicional que vê esse conceito por um prisma meramente estético que usamos para identificar os objectos de uma arte de massa, estereotipada, de “mau gosto”. Devemos uma noção de Kitsch muito mais alargada, que não se fica pelas propriedades formais de certos objectos, ao escritor vienense Hermann Broch, que foi ao ponto de elaborar filosoficamente o que seria o Kitsch como “modo de vida”, abrindo assim essa noção ao registo mais vasto da atitude existencial e a um tipo de actividades e experiências humanas. Aquela emoção estética a que assistimos, a satisfação emocionada com que cada imagem, cada testemunho, cada relato, cada comentário, cada citação, diziam uma única coisa, “vejam como é belo e emocionante!”, é um gesto que consiste em olhar-se ao espelho do embelezamento, fazendo surgir imediatamente a mentira do Kitsch.

Este “vejam como é belo!” ou “vejam como nos satisfazemos de emoção pela emoção que nós próprios produzimos” é uma ilustração perfeita do modo como Broch definiu o Kitsch: a subversão da ética pelo efeito estético. Não é o acontecimento em si que é Kitsch, não estou a sugerir que um acontecimento religioso como aquele que teve lugar em Lisboa tem, em primeiro lugar, um vínculo necessário com o Kitsch.

Kitsch é a sua encenação, o modo como ele é produzido e reproduzido pelos media, isto é, o discurso e as imagens de segundo grau que ele engendra e que, muito embora fazendo parte da lógica da mediatização cristã, muito facilmente vão para além dos seus próprios fins. Há momentos em que o Kitsch se pode tornar uma coisa nauseabunda e é difícil imaginar que a própria hierarquia da Igreja não o reconheça e não se sinta incomodada por ela. A vida Kitscht visa fazer coincidir a esfera do ideal com a esfera da realidade, aquilo a que Broch chamou “a ligação entre o céu e a terra”. Momentos desses, sobretudo nas televisões, fluíram ao longo da semana numa torrente imparável. Foi um dilúvio.

Livro de recitações

“Cada um fala a sua língua, mas entendemo-nos todos porque é a linguagem do amor”
In Expresso online, 3/08/2023

Tomo, um pouco ao acaso, este título de uma breve reportagem do Expresso onde se citam as declarações de um “peregrino” a uma jornalista. Kundera, que seguiu a lição de Hermann Broch, para a analisar o “Kitsch ideológico” dos regimes totalitários, concluindo que no mundo idealizado do Kitsch “a merda não existe”, deu este exemplo: uma criança a correr feliz atrás de uma bola num prado florido não tem em si nada de Kitsch. O Kitsch nasce a partir do momento em que alguém diz ou representa assim esse acontecimento: “Vejam como é belo uma criança a correr atrás de uma bola num prado florido!”. Este redobramento, que visa relatar uma verdade emocionante, através do embelezamento, da mentira da linguagem emocional estereotipada e portanto induzida, é aquele que podemos ver neste título (a não ser que ele tenha um sentido irónico), que é apenas uma gota no vasto oceano do Kitsch produzido ao longo de uma semana pela

https://www.publico.pt/2023/08/11/culturaipsilon/cronica/deus-ex-media-2059609

sexta-feira, 22 de maio de 2020

António Guerreiro - Mortos de riso

* António Guerreiro

Cultura-Ípsilon - CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

22 de Maio de 2020, 9:43

 A palavra “propaganda” ficou tão associada aos modos de comunicação e de doutrinação ideológica que deixou de ser utilizada tanto na sua dimensão comercial (a que chamamos hoje “publicidade”, aludindo assim à ideia de esfera pública) como no metadiscurso político em vigor nos regimes democráticos. Mas é preciso referirmo-nos ao sentido e aos processos da propaganda para termos um entendimento crítico do discurso totalitário a que temos sido submetidos.

Não discuto se ele advém de boas razões e se é legitimado por uma boa causa, ou seja, pelo sentido de perigo e de extrema precaução exigidos aos nossos gestos e comportamentos quotidianos, em nome não apenas da saúde individual, mas também — ou sobretudo — da saúde pública. O que se tornou entretanto evidente é que a resposta à reclamação de absoluta segurança (algo impossível de alcançar, mas sempre presente nos tempos actuais) foi para além dos seus fins e agora nem os governos nem todos aqueles que, nos media, substituíram a informação pela propaganda e pelo moralismo sabem como atenuar a overdose de medo inoculado à população. Ao medo do vírus, sucedeu agora o medo de que os efeitos do confinamento e de todo o discurso público que o acompanhou — sempre informado pela lógica do pior — se tenham tornado permanentes.

As medidas do governo até podem ter sido prudentes e na medida certa (é pelo menos o que nos dizem muitos epidemiologistas cujo conhecimento desta matéria foi tido em conta, sabendo-se que não há nem pode haver aqui unanimidade), mas todo o discurso que as acompanhou, particularmente exacerbado em muitos canais de televisão, tem sempre como pressuposto a menoridade intelectual dos espectadores. Os elogios públicos ao civismo dos portugueses ganhou o sentido de um auto-elogio que se podia traduzir nestes termos: “Vejam como somos eficazes e performativos, vejam como a nossa acção é importante para que população (e é de população que se trata, não de povo) seja disciplinada e obediente”.

Face a um inimigo invisível que é o vírus, assistimos a uma operação de propaganda que construiu um medo útil, mas de acção mais duradoura e em dose mais exagerada do que seria agora conveniente. Uma operação de propaganda desta dimensão, no nosso tempo, só a encontramos na reacção a um outro inimigo que também legitimou uma política do medo: o terrorismo.

Para esta propaganda total contribuiu também a publicidade. Todos reparámos certamente que os spots publicitários não desapareceram, mas foram atacados pelo vírus do pudor e do didactismo moralista, paternalista e geralmente piegas. Deixaram de dizer “compre”, “pague um e leve dois”, “X lava mais branco”, para passarem a dizer: “seja responsável”, “fique feliz em casa: carpe diem”, “o nosso automóvel é experiente em curvas, saiba como achatar esta com que estamos confrontados”, “tudo vai ficar bem com a nossa ajuda”. De maneira mais ou menos directa, a publicidade passou a só falar do vírus. Tornou-se tão insuportável como as afectações “poéticas” de alguns apresentadores dos jornais televisivos, ilustrando na perfeição a verdade enfática dos propagandistas. E foi assim que ficámos não apenas reféns do medo, mas também dos bons sentimentos, das afecções da alma. Distanciamento social? Não, o que houve foi a “partilha” em modo superlativo. Fechados em casa, mas a partilhar e a receber de todos os lados — da publicidade, do jornalismo, do discurso público dominante —  mensagens de medo e de bons sentimentos. E o medo como o melhor dos sentimentos. O que fazer agora, com todo o medo que sobra?

Há ainda as máscaras. Como usá-las? Como fazê-las em casa? Que percentagem de gotículas elas filtram? Porque é que o seu uso indevido as pode tornar perigosas? A que certificação têm que estar sujeitas? Todas estas instruções são tão necessárias como as próprias máscaras. Mas até quando aguentamos um mundo de gente mascarada? E os políticos mascarados em todas as suas frequentes aparições públicas — o que é que isso contribui para a erosão do poder político? Não sabemos ainda, mas começamos a sentir que isto não se pode prolongar por muito tempo. A catástrofe está a tornar-se uma paródia e vamos todos acabar mortos de riso.