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terça-feira, 3 de março de 2026

Michael Hudson - Da negociação à detonação



– O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso ao Irão) é uma perfídia que ficará na história.
– Podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, ao Irão como o verdadeiro gatilho da Terceira Guerra Mundial.
– O ataque dos EUA pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado.
– Momento propício para a transferir a sede da ONU para fora dos próprios Estados Unidos.
– Não pode haver Estado de direito enquanto o controlo sobre a ONU e as suas agências permanecer nas mãos dos EUA e dos seus satélites europeus.

Michael Hudson [*]

Na última sexta-feira, o mediador das negociações nucleares entre os EUA e o Irão em Omã, o ministro das Relações Exteriores daquele país, Badr Albusaidi, desmascarou a pretensão enganosa do presidente Trump de ameaçar uma guerra com o Irão. Porquê? Porque este país havia recusado as suas exigências de desistir do que ele alegava ser a sua própria bomba atómica. O ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã explicou no programa Face the Nation da CBS que a equipa iraniana concordou em não acumular urânio enriquecido e ofereceu "uma verificação completa e abrangente pela AIEA". Esta nova concessão foi um "avanço nunca antes alcançado. E acho que, se conseguirmos aproveitar isso e construir sobre essa base, acho que um acordo está ao nosso alcance“ para alcançar ”um acordo de que o Irão nunca, jamais terá material nuclear que possa ser usado para fabricar uma bomba. Acho que isso é uma grande conquista".

Salientando que este avanço "foi muito ignorado pelos meios de comunicação social", ele enfatizou que exigir "zero armazenamento" foi muito além do que havia sido negociado durante o governo do presidente Obama, porque "se não se pode armazenar material enriquecido, não há como realmente criar uma bomba".

O aiatolá Ali Khamenei — que já havia emitido uma fatwa contra tal ato e repetido essa posição ano após ano — convocou os líderes xiitas e o chefe militar do Irão para discutir a ratificação do acordo de cessar o controle do urânio enriquecido, a fim de evitar uma guerra.

Mas tal capitulação era precisamente o que nem os Estados Unidos nem Israel podiam aceitar. Uma resolução pacífica teria impedido o plano de longo prazo dos EUA de consolidar e militarizar o seu controlo sobre o petróleo do Médio Oriente, o seu transporte e o investimento das suas receitas de exportação de petróleo, e de usar Israel e a Al Qaeda/ISIS como seus exércitos clientes para impedir que os países produtores de petróleo independentes agissem em seus próprios interesses soberanos.

A inteligência israelense aparentemente alertou as forças armadas dos EUA, sugerindo que a reunião no complexo do aiatolá oferecia uma grande oportunidade para decapitar todos os principais tomadores de decisão. Isto seguiu o conselho do manual militar dos EUA de que matar um líder político que os EUA consideram antidemocrático libertará os sonhos populares de mudança de regime. Essa era a esperança do bombardeamento da residência de campo do presidente Putin no mês passado, e estava em linha com a recente tentativa dos EUA de mobilizar a oposição popular para a revolução no Irão.

O ataque conjunto dos EUA e israelenses deixa claro que não havia nada que o Irão pudesse ter concedido que tivesse dissuadido a longa campanha dos EUA para controlar o petróleo do Médio Oriente, juntamente com o uso de Israel e dos exércitos clientes do ISIS/Al Qaeda a fim de impedir que nações soberanas da região emergissem e assumissem o controlo das suas reservas de petróleo. Esse controlo continua a ser um braço essencial da política externa dos EUA. É a chave para a capacidade dos EUA de prejudicar outras economias, negando-lhes acesso à energia se não aderirem à política externa dos EUA. Essa insistência em bloquear o acesso do mundo a fontes de energia que não estejam sob o controlo americano é a razão pela qual os EUA atacaram a Venezuela, a Síria, o Iraque, a Líbia e a Rússia.

O ataque aos negociadores (a segunda vez que os Estados Unidos fazem isso ao Irão) é uma perfídia que ficará na história. O objetivo era impedir a intenção do Irão de avançar para a paz, antes que os seus líderes pudessem refutar a falsa alegação de Trump de que o Irão se recusara a desistir do seu desejo de obter a sua própria bomba atómica.

Seria interessante saber quantos dos colaboradores de Trump apostaram alto em que os preços do petróleo iriam disparar quando os mercados abrissem na segunda-feira de manhã.

Na semana passada, os mercados subestimaram enormemente o risco de fechar o Golfo do Petróleo. As empresas petrolíferas americanas vão lucrar muito. A China e outros importadores de petróleo vão sofrer. Os especuladores financeiros americanos também vão lucrar muito, porque a sua produção de petróleo é interna. Este facto pode até ter desempenhado um papel na decisão dos EUA de acabar com o acesso mundial ao petróleo do Médio Oriente por um período que promete ser longo.

A perturbação comercial e financeira será, de facto, tão mundial que penso que podemos considerar o ataque de sábado, 28 de fevereiro, ao Irão como o verdadeiro gatilho da Terceira Guerra Mundial. Para a maior parte do mundo, a crise financeira iminente (para não falar da indignação moral) definirá a próxima década de reestruturação política e económica internacional.

Os países europeus, asiáticos e do Sul Global não conseguirão obter petróleo, exceto a preços que tornarão muitas indústrias não rentáveis e muitos orçamentos familiares inviáveis. O aumento dos preços do petróleo também tornará impossível para os países do Sul Global pagar as suas dívidas em dólares vencidas aos detentores de títulos ocidentais, bancos e ao FMI.

Os países só poderão evitar a imposição de austeridade interna, desvalorização da moeda e inflação se reconhecerem que o ataque dos EUA (apoiado pela Grã-Bretanha e pela Arábia Saudita, com a aquiescência ambígua da Turquia) pôs fim à ordem unipolar dos EUA – e, com ela, ao sistema financeiro internacional dolarizado. Se isso não for reconhecido, a aquiescência continuará até se tornar insustentável em qualquer caso.

Se esta é a batalha inaugural da Terceira Guerra Mundial, é, em muitos aspetos, uma batalha final para decidir o que foi a Segunda Guerra Mundial. Será que o direito internacional entrará em colapso como resultado da relutância de um número suficiente de países em proteger as regras do direito civilizado que sustentam os princípios da soberania nacional livre de interferência estrangeira e coerção, desde a Paz de Westfália de 1648 até à Carta das Nações Unidas? E no que diz respeito às guerras que inevitavelmente serão travadas, elas pouparão civis e não beligerantes, ou serão como o ataque da Ucrânia à sua população de língua russa nas províncias orientais, o genocídio de Israel contra a etnia palestina, a limpeza religiosa wahabi das populações árabes não sunitas, ou mesmo as populações iraniana, cubana e outras sob ataque patrocinado pelos EUA?

Será que as Nações Unidas podem ser salvas sem se libertarem a si próprias e aos seus países membros do controlo dos EUA? Um teste decisivo inicial para saber onde as alianças se estão a formar será quais os países que se juntarão à ação legal para declarar Donald Trump e o seu gabinete criminosos de guerra. É necessário algo mais do que o atual TPI, dados os ataques pessoais do governo dos EUA aos juízes do TPI que consideraram Netanyahu culpado.

O que é necessário é um julgamento à escala de Nuremberga contra a política militar ocidental que tem procurado mergulhar o mundo inteiro no caos político e económico se este não se submeter à ordem unipolar dos EUA. Se outros países não criarem uma alternativa à ofensiva dos EUA, Europa, Japão e Wahabi, sofrerão o que o secretário de Estado dos EUA, Rubio, chamou (em seu recente discurso em Munique) de ressurgimento da história ocidental de conquista [com o abandono] dos princípios básicos do direito internacional e da equidade.

Uma alternativa requer a reestruturação das Nações Unidas para acabar com a capacidade dos EUA de bloquear resoluções da maioria. Tendo em conta que o secretário-geral da ONU, António Guterres, afirmou que a organização poderá estar falida em agosto e ter de fechar a sua sede em Nova Iorque, este é um momento propício para a transferir para fora dos próprios Estados Unidos. Os EUA proibiram Francesca Albanese de entrar no país devido ao seu relatório que descreve o genocídio israelense em Gaza. Não pode haver Estado de direito enquanto o controlo sobre a ONU e as suas agências permanecer nas mãos dos EUA e dos seus satélites europeus.

02/Março/2026

https://resistir.info/m_hudson/detonacao_02mar26.html

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Nate Bear - MENTIRAS POR OMISSÃO




MENTIRAS POR OMISSÃO ENQUANTO NOVOS CRIMES DE GUERRA AMERICANOS SE APROXIMAM

* Nate Bear, 
Substack. Trad. O’Lima.

Os EUA reuniram a maior força militar no Médio Oriente desde a invasão do Iraque há quase 23 anos e estão novamente preparados para cometer assassinatos em massa e perpetrar alegremente uma quantidade impressionante de crimes de guerra.

Ontem, [18 de fevereiro] um grande número de aviões, desde caças a tanques de reabastecimento aéreo e aviões de comando e controlo, partiram dos EUA com destino ao Médio Oriente. Os aviões fizeram escalas em bases militares americanas na Inglaterra e na Alemanha, porque nenhum crime de guerra imperial está completo sem o envolvimento da Europa.


Captura de ecrã (às 11.27 de 18 de fevereiro de 2026)de aviões militares dos EUA a voar dos EUA para a

Um ataque dos EUA ao Irão, uma violação flagrante do direito internacional, se é que isso ainda vale a pena mencionar, parece iminente. Porquê? Por Israel, pelo petróleo, pela projeção de poder, pelo legado de Trump. Porque a lógica do complexo militar-industrial exige que 1 bilião de dólares por ano e uma impressionante variedade de máquinas de matar não fiquem paradas. Porque é isso que os impérios fazem. Porque os EUA são violência. E não há demonstração mais impressionante da violência americana do que uma grande guerra.

Os EUA estiveram em guerra durante 222 dos 239 anos desde 1776. O país dificilmente vai parar agora, especialmente com as estrelas a alinharem-se para um projeto que o eixo EUA-Israel-sionista tem procurado desesperadamente realizar há quase 50 anos.

E apesar do facto de uma nação em guerra quase constante ir atacar um país que iniciou a última guerra há quase 300 anos, os EUA e Israel vão-se apresentar como salvadores e pacificadores. Os líderes desses países vão autoproclamar-se como tal, enquanto os ocidentais submeterão os seus leitores e telespectadores a uma exibição vertiginosa de propaganda para permitir os assassinatos e encobrir os crimes.

O trabalho preparatório

Mas a propaganda não começará no dia do ataque. A verdade é que não estaríamos nesta situação sem o trabalho preparatório realizado pela mídia ao longo dos anos. Não estaríamos à beira de outra grande guerra dos EUA sem as mentiras por omissão, muitas vezes subtis, que há décadas caracterizam a cobertura ocidental sobre o Irão e que têm sido especialmente evidentes nos últimos meses. Vamos examinar algumas delas.

Mudança de narrativas

Em primeiro lugar, e mais importante, a premissa para um ataque. Em junho passado, Trump disse que os EUA tinham «destruído» as instalações nucleares do Irão. Mas agora, oito meses depois, os EUA aparentemente precisam de travar uma guerra muito maior para eliminar o programa nuclear do Irão. Ninguém fará a pergunta óbvia. A premissa de que o programa nuclear do Irão é uma ameaça permanecerá firme e inquestionável na mente do consumidor ocidental dos media propagandísticos, que há apenas oito meses foi informado de que tudo havia sido destruído.

Termos carregados

«Programa nuclear do Irão». As próprias palavras estão carregadas de uma intenção que raramente é examinada ou explicada. Nunca vêm acompanhadas de qualquer contexto e são propositadamente concebidas para silenciar qualquer pensamento crítico. Os media ocidentais nunca explicam que o Irão é um dos maiores produtores mundiais de radiofármacos utilizados no diagnóstico e tratamento do cancro. E para diagnosticar o cancro e fabricar medicamentos contra o cancro, são necessários isótopos médicos. E não é possível fabricar isótopos médicos sem enriquecer urânio. O Irão está entre os cinco maiores exportadores mundiais de medicamentos radioativos, fornecendo medicamentos nucleares a quinze países, incluindo países europeus. E as sanções contra o Irão proíbem a importação de radiofármacos. Portanto, sem o seu «programa nuclear» deliberadamente deturpado, o Irão teria dificuldade, se não impossibilidade, em diagnosticar e tratar pessoas com cancro e outras doenças.

O acordo nuclear

Os media nunca explicam isso e também nunca explicam os antecedentes das ameaças dos EUA ao Irão em relação a esse programa. No quadro da cobertura das negociações e possíveis acordos, os media ocidentais nunca mencionam o facto de que, em 2018, o próprio Trump rasgou um acordo, assinado em 2016, que estava funcionando muito bem. Esse acordo, ratificado pelo Conselho de Segurança da ONU, facilitava inspeções regulares ao local e permitia ao Irão fabricar material nuclear para medicina e energia. Os media nunca nos lembram disso, nem que a última inspeção da Agência Internacional de Energia Atómica relatou que o Irão estava em total conformidade com as suas obrigações.

Nunca nos dizem que Trump, sob pressão dos seus apoiantes sionistas para criar uma crise que pudesse levar os EUA e Israel à guerra, e ansioso por desfazer um raro sucesso de Obama, criou deliberadamente um problema para resolver. E, como estamos prestes a descobrir, nunca houve qualquer intenção de resolvê-lo pacificamente.

Mas os media continuarão fingindo que essas foram negociações de boa-fé que fracassaram por causa das exigências do Irão. E não nos dirão que essas exigências incluíam a capacidade de diagnosticar e tratar o cancro.

Unilateralismo

O facto de os EUA se terem retirado unilateralmente do acordo anterior também é uma omissão importante na cobertura. Porque lembrar aos leitores que a crise foi desencadeada pelos EUA pode fazer com que os EUA, e não o Irão, pareçam o Estado rebelde.

O facto do unilateralismo americano é frequentemente ocultado pelos media ocidentais. É por isso que ouvimos tão pouco sobre as 66 organizações e tratados internacionais dos quais os EUA anunciaram em janeiro que se retirariam. E caso você se sinta tentado a pensar que esse unilateralismo é culpa exclusiva de Trump, o governo Biden retirou-se do Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio e do Tratado de Céus Abertos, ambos elementos-chave de uma estrutura internacional para evitar a guerra nuclear.

Os EUA são um Estado pária que opera deliberadamente, e tenta-se a todo o custo para ocultar esse facto. Porque se as pessoas compreendessem os EUA como um Estado pária, poderiam questionar se a sua violência constante não é a violência de um pacificador ou de um combatente pela liberdade, mas sim a violência de um delinquente. Poderiam questionar quem, na verdade, são os vilões.

As armas nucleares de Israel

Ao falar de Estados rebeldes, os media nunca examinam a premissa fundamental subjacente a toda a questão da capacidade nuclear iraniana. Nunca questionarão por que Israel tem permissão para ter armas nucleares, mas o Irão não. Nunca levarão os leitores ou telespectadores a questionar por que o agressor proeminente da região, perpetrador de genocídio e violador constante de leis e normas, é aquele a quem se confia a arma mais destrutiva da história da humanidade. Porque então teriam de enquadrar Israel como o agressor. Então teriam de explicar o império. Então, teriam de examinar os evidentes padrões duplos e hipocrisias e introduzir as pessoas ao pensamento crítico, que não leva ao apoio reflexivo ao império.

E isso é um grande tabu. Afinal, é muito mais fácil fabricar consentimento para a guerra se uma grande parte da população pensa que vocês são os bons que defendem a liberdade e a paz.

Novos pretextos

Se tem acompanhado as notícias, deve estar ciente de que as últimas negociações vão além do programa nuclear e introduzem novos pretextos para a guerra, um dos quais é o programa de mísseis balísticos do Irão.

Israel, chocado com a capacidade do Irão de atacar o seu território em junho passado, quer que o novo acordo inclua a eliminação de todos os mísseis de longo alcance do Irão.

Quando os EUA e Israel atacarem, dir-nos-ão que a culpa é do Irão. Dir-nos-ão que querer manter a capacidade defensiva face a um inimigo expansionista e genocida, que se comprometeu abertamente a destruir-nos, é uma posição irracional. O Guardian, entre outros, já começou a defender esta linha.

Em contrapartida, não nos pedirão para refletirmos sobre por que razão Israel pode ter todas as armas que desejar. Não nos pedirão para refletirmos sobre por que razão os EUA entrariam em guerra para impedir um país de se defender de Israel. Isto será simplesmente apresentado como a ordem natural das coisas.

Violência americana

A guerra que se aproxima contra o Irão será uma guerra completamente ilegal de agressão não provocada cometida pelos EUA contra um país a 7200 km de distância que não representa nenhuma ameaça.

No entanto, duvido que um único americano a servir nas Forças Armadas dos EUA se oponha. Porque crimes de guerra em massa são uma tradição americana. Porque os EUA são violência. Será que os EUA algum dia vão prestar contas pela natureza fundamentalmente violenta e imperialista da sua sociedade? A julgar pelas alternativas políticas atualmente disponíveis, não.

Alexandria Ocasio Cortez, considerada por muitos como a principal figura de esquerda do Partido Democrata e uma viável candidata à presidência no futuro, acaba de participar na conferência de segurança de Munique para estabelecer as suas credenciais imperiais. Falando numa sessão patrocinada pela Palantir, ela recusou-se a condenar o reforço militar de Trump, enquanto espalhava propaganda anti-Irão a favor de uma mudança de regime. Ao mesmo tempo, tentou flanquear Trump pela direita em relação à Venezuela, dizendo que ele deveria ter-se comprometido com uma mudança de regime e derrubado todo o governo. Com amigos esquerdistas amantes da paz como AOC, quem precisa de inimigos belicistas como Trump, não é?

Liberdade

À medida que a guerra começa e as bombas caem, os políticos e os media vão regurgitar propaganda falsa sobre atrocidades relacionadas com o número de mortos nos recentes protestos para nos convencer de que a violência que vemos nos nossos ecrãs é a violência do libertador. Vamos ouvir falar dos «mullahs», dos aiatolás e do autoritarismo. O consumidor médio dos media ocidentais ficará convencido de que os iranianos vivem numa sociedade sem cor, liderada por fanáticos religiosos que rotineiramente apedrejam mulheres até a morte, quando uma simples pesquisa no YouTube mostra uma realidade muito diferente. Cenas das ruas e centros comerciais de Teerã que poderiam ter sido filmadas em qualquer cidade ocidental estão a um clique de distância, mas os consumidores dos media nunca serão direcionados a essas fontes.

Tudo o que ouviremos é sobre a necessidade da violência imperial. Ouviremos que o Irão não conseguiu chegar a um acordo em histórias fora do contexto. Ouviremos que os americanos estão a ajudar a libertar os iranianos da tirania e que isso será bom para o mundo, quando, na realidade, o único caminho para a paz é libertar os americanos da tirania do seu próprio império.

https://onda7.blogspot.com/2026/02/leituras-marginais_0361484924.html
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Posted by OLima at sexta-feira, fevereiro 20, 2026 

sábado, 14 de fevereiro de 2026

Discurso de Marco Rubio na Conferência de Segurança de Munique



* Marco Rubio

14 Fevereiro 2026

Muito obrigado. Estamos reunidos aqui hoje como membros de uma aliança histórica, uma aliança que salvou e transformou o mundo. Quando esta conferência começou em 1963, ela ocorreu em uma nação – na verdade, em um continente – que estava dividido internamente. A linha divisória entre o comunismo e a liberdade atravessava o coração da Alemanha. As primeiras cercas de arame farpado do Muro de Berlim haviam sido erguidas apenas dois anos antes. 

E apenas alguns meses antes daquela primeira conferência, antes que nossos predecessores se reunissem aqui pela primeira vez, em Munique, a Crise dos Mísseis de Cuba havia levado o mundo à beira da destruição nuclear. Mesmo enquanto a Segunda Guerra Mundial ainda viva na memória de americanos e europeus, nos vimos diante de uma nova catástrofe global – uma com potencial para um novo tipo de destruição, mais apocalíptica e definitiva do que qualquer outra antes na história da humanidade.  

Na época daquele primeiro encontro, o comunismo soviético estava em expansão. Milhares de anos da civilização ocidental estavam em jogo. Naquele momento, a vitória estava longe de ser certa. Mas éramos movidos por um propósito comum. Estávamos unidos não apenas por aquilo contra o que combatíamos, mas também por aquilo que defendíamos. E juntos, a Europa e a América prevaleceram e um continente foi reconstruído. Nossos povos prosperaram. Com o tempo, os blocos do Leste e do Oeste se reuniram. Uma civilização tornou-se novamente inteira.  

Aquele infame muro que havia dividido esta nação em duas partes caiu, e com ele um império maligno, e o Oriente e o Ocidente se tornaram um só novamente. Mas a euforia desse triunfo nos levou a uma ilusão perigosa: a de que havíamos entrado, entre aspas, “no fim da história”; que todas as nações seriam agora democracias liberais; que os laços formados pelo comércio e pelas trocas comerciais, por si só, substituiriam a nacionalidade; que a ordem global baseada em regras – um termo banalizado – substituiria o interesse nacional; e que passaríamos a viver agora em um mundo sem fronteiras, no qual todos se tornariam cidadãos do mundo.  

Essa foi uma ideia insensata que ignorou tanto a natureza humana quanto as lições de mais de 5 mil anos de história humana registrada. E isso nos custou caro. Nessa ilusão, abraçamos uma visão dogmática de comércio livre e irrestrito, mesmo enquanto algumas nações protegiam suas economias e subsidiavam suas empresas para prejudicar sistematicamente as nossas – fechando nossas fábricas, resultando na desindustrialização de grande parte de nossas sociedades, na transferência de milhões de empregos da classe trabalhadora e da classe média para o exterior e na entrega do controle de nossas cadeias de suprimentos essenciais tanto a adversários quanto a rivais. 

Cada vez mais, terceirizamos nossa soberania para instituições internacionais, enquanto muitas nações investiam em enormes estados de bem-estar social, em detrimento de manter a capacidade de se defender. Isso enquanto outros países investiram na mais rápida expansão militar de toda a história da humanidade e não hesitaram em usar a força para perseguir seus próprios interesses. Para apaziguar um culto climático, impusemos a nós mesmos políticas energéticas que estão empobrecendo nosso povo, enquanto nossos concorrentes exploram petróleo, carvão, gás natural e tudo o mais – não apenas para impulsionar suas economias, mas também para usá-las como forma de pressionar a nossa. 

E na busca por um mundo sem fronteiras, abrimos nossas portas a uma onda sem precedentes de migração em massa que ameaça a coesão de nossas sociedades, a continuidade de nossa cultura e o futuro de nosso povo. Cometemos esses erros juntos e, agora, juntos, devemos ao nosso povo encarar esses fatos e seguir em frente, para reconstruir. 

Sob a liderança do presidente Trump, os Estados Unidos da América assumirão mais uma vez a tarefa de renovação e restauração, impulsionados por uma visão de um futuro tão orgulhosa, soberana e vital quanto o passado de nossa civilização. E embora estejamos preparados, se necessário, para fazer isso sozinhos, é nossa preferência e nossa esperança fazê-lo em conjunto com vocês, nossos amigos aqui na Europa. 

Para os Estados Unidos e a Europa, pertencemos uns aos outros. Os Estados Unidos foram fundados há 250 anos, mas suas raízes começaram aqui, neste continente, muito antes. O homem que colonizou e construiu a nação onde nasci chegou em nosso território trazendo consigo as memórias, as tradições e a fé cristã de seus antepassados como uma herança sagrada, um elo indissolúvel entre o velho mundo e o novo. 

Fazemos parte de uma única civilização – a civilização ocidental. Estamos unidos pelos laços mais profundos que as nações podem compartilhar, forjados por séculos de história comum, fé cristã, cultura, herança, idioma, ancestralidade e pelos sacrifícios que nossos antepassados fizeram juntos pela civilização comum da qual somos herdeiros. 

E é por isso que nós, americanos, às vezes podemos parecer um pouco diretos e insistentes em nossos conselhos. É por isso que o presidente Trump exige seriedade e reciprocidade de nossos amigos aqui na Europa. A razão, meus amigos, é porque nos importamos profundamente. Nós nos importamos profundamente com o futuro de vocês e com o nosso. E se, por vezes, discordamos, nossas discordâncias decorrem de nossa profunda preocupação com uma Europa com a qual estamos conectados – não apenas economicamente, não apenas militarmente. Estamos conectados espiritual e culturalmente. Desejamos que a Europa seja forte. Acreditamos que a Europa deve sobreviver, porque as duas grandes guerras do século passado servem para nós como um lembrete constante da história de que, em última análise, nosso destino está e sempre estará entrelaçado com o de vocês, porque sabemos – (aplausos) – porque sabemos que o destino da Europa jamais será irrelevante para o nosso. 

Segurança nacional, tema central desta conferência, não se resume a uma série de questões técnicas – quanto gastamos em defesa ou onde, como a utilizamos, são questões importantes. Sem dúvida. Mas não são a questão fundamental. A questão fundamental que devemos responder desde o início é: o que exatamente estamos defendendo? Porque os exércitos não lutam por abstrações. Os exércitos lutam por um povo; lutam por uma nação. Exércitos lutam por um modo de vida. E é isso que estamos defendendo: uma grande civilização que tem todos os motivos para se orgulhar de sua história, estar confiante em seu futuro e almejar sempre ser dona de seu próprio destino econômico e político.  

Foi aqui na Europa que nasceram as ideias que plantaram as sementes da liberdade que transformaram o mundo. Foi aqui, na Europa, que surgiram as ideias que deram ao mundo o Estado de Direito, as universidades e a revolução científica. Foi este continente que produziu o gênio de Mozart e Beethoven, de Dante e Shakespeare, de Michelangelo e Da Vinci, dos Beatles e dos Rolling Stones. E é aqui que a abóboda da Capela Sistina e as torres imponentes da grande catedral de Colônia testemunham não apenas a grandeza de nosso passado ou a fé em Deus que inspirou essas maravilhas. Eles prenunciam as maravilhas que nos aguardam no futuro. Mas somente se não nos desculparmos pela nossa herança e nos orgulharmos dessa herança comum, poderemos juntos começar o trabalho de imaginar e moldar nosso futuro econômico e político. 

A desindustrialização não foi inevitável. Foi uma escolha política consciente, um empreendimento econômico de décadas que privou nossas nações de sua riqueza, de sua capacidade produtiva e de sua independência. E a perda de nossa soberania sobre nossas cadeias de suprimentos não foi consequência de um sistema de comércio global próspero e saudável. Foi insensata. Foi uma transformação insensata, porém voluntária, de nossa economia, que nos deixou dependentes de outros para suprir nossas necessidades e perigosamente vulneráveis a crises. 

A migração em massa não é, nunca foi, nem é uma preocupação marginal de pouca importância. Foi e continua sendo uma crise que está transformando e desestabilizando sociedades em todo o Ocidente. Juntos, podemos reindustrializar nossas economias e reconstruir nossa capacidade de defender nosso povo. Mas o trabalho dessa nova aliança não deve se concentrar apenas na cooperação militar e na recuperação das indústrias do passado. Deve também se concentrar em, juntos, promover nossos interesses mútuos e novas fronteiras, libertando nossa engenhosidade, nossa criatividade e o espírito dinâmico para construir um novo século para o Ocidente. Viagens espaciais comerciais e inteligência artificial de ponta; automação industrial e manufatura flexível; criação de uma cadeia de suprimentos ocidental para minerais críticos que não seja vulnerável à extorsão de outras potências; e um esforço unificado para competir por participação de mercado nas economias do Sul Global. Juntos, podemos não apenas retomar o controle de nossas próprias indústrias e cadeias de suprimentos, como também prosperar nas áreas que definirão o século 21. 

Mas também precisamos retomar o controle de nossas fronteiras nacionais. Controlar quem e quantas pessoas entram em nossos países não é uma expressão de xenofobia. Não é ódio. É um ato fundamental de soberania nacional. E deixar de fazê-lo não é apenas uma abdicação de um dos nossos deveres mais básicos para com o nosso povo. É uma ameaça urgente ao tecido de nossas sociedades e à própria sobrevivência de nossa civilização. 

E, finalmente, não podemos mais colocar a chamada ordem global acima dos interesses vitais de nossos povos e nações. Não precisamos abandonar o sistema de cooperação internacional que criamos, nem precisamos desmantelar as instituições globais da antiga ordem que construímos juntos. Mas elas precisam ser reformadas. Precisam ser reconstruídas. 

Por exemplo, as Nações Unidas ainda têm um enorme potencial para ser uma ferramenta para o bem no mundo. Mas não podemos ignorar que hoje, nas questões mais prementes que enfrentamos, não têm respostas e praticamente não desempenham nenhum papel. Não conseguiram resolver a guerra em Gaza. Em vez disso, foi a liderança americana que libertou prisioneiros de bárbaros e estabeleceu uma trégua frágil. Não resolveram a guerra na Ucrânia. Foram necessárias a liderança americana e a parceria com muitos dos países aqui presentes para levar os dois lados à mesa de negociações em busca de uma paz ainda difícil de alcançar.  

Os EUA foram impotentes para conter o programa nuclear de clérigos xiitas radicais em Teerã. Isso exigiu 14 bombas lançadas com precisão por bombardeiros B-2 americanos. E também foram incapazes de lidar com a ameaça à nossa segurança representada por um ditador narcoterrorista na Venezuela. Em vez disso, foi necessária a intervenção das Forças Especiais americanas para levar esse fugitivo à justiça.  

Em um mundo ideal, todos esses problemas e muitos outros seriam resolvidos por diplomatas e resoluções redigidas em termos firmes. Mas não vivemos em um mundo perfeito e não podemos continuar permitindo que aqueles que ameaçam aberta e descaradamente nossos cidadãos e colocam em risco nossa estabilidade global se escondam atrás de abstrações do Direito Internacional que eles próprios violam rotineiramente. 

Este é o caminho que o presidente Trump e os Estados Unidos trilharam. É o caminho que pedimos que vocês, aqui na Europa, se juntem a nós para percorrer. É um caminho que já percorremos juntos e que esperamos percorrer juntos novamente. Durante cinco séculos, antes do fim da Segunda Guerra Mundial, o Ocidente esteve em expansão – seus missionários, seus peregrinos, seus soldados, seus exploradores partindo de suas costas para cruzar oceanos, colonizar novos continentes, construir vastos impérios que se estendiam por todo o globo.  

Mas em 1945, pela primeira vez desde a época de Colombo, a Europa estava em retração. A Europa estava em ruínas. Metade dela vivia atrás de uma Cortina de Ferro e o resto parecia destinado a seguir o mesmo caminho. Os grandes impérios ocidentais haviam entrado em declínio terminal, acelerado por revoluções comunistas ateias e por levantes anticoloniais que transformariam o mundo e estampariam a foice e o martelo vermelhos em vastas extensões do mapa nos anos seguintes.  

Diante desse cenário, então como agora, muitos passaram a acreditar que a era de domínio do Ocidente havia chegado ao fim e que nosso futuro estava fadado a ser um eco fraco e pálido do nosso passado. Mas juntos, nossos predecessores reconheceram que o declínio era uma escolha, e uma escolha que se recusaram a fazer. Foi isso que fizemos juntos uma vez antes, e é isso que o presidente Trump e os Estados Unidos querem fazer novamente agora, junto com vocês. 

E é por isso que não queremos que nossos aliados sejam fracos, pois isso nos torna mais fracos. Queremos aliados que possam se defender, para que nenhum adversário jamais se sinta tentado a testar nossa força coletiva. É por isso que não queremos que nossos aliados estejam acorrentados pela culpa e pela vergonha. Queremos aliados que se orgulhem de sua cultura e de sua herança, que compreendam que somos herdeiros da mesma grande e nobre civilização e que, juntamente conosco, estejam dispostos e sejam capazes de defendê-la. 

E é por isso que não queremos que nossos aliados racionalizem o status quo fracassado em vez de enfrentar o que é necessário para corrigi-lo, pois nós, nos Estados Unidos, não temos interesse em sermos guardiões educados e ordeiros do declínio administrado do Ocidente. Não buscamos a separação, mas sim revitalizar uma antiga amizade e renovar a maior civilização da história da humanidade. O que queremos é uma aliança revigorada que reconheça que o que aflige nossas sociedades não é apenas um conjunto de políticas equivocadas, mas um mal-estar de desesperança e complacência. Uma aliança – a aliança que desejamos é aquela que não fica paralisada pelo medo – medo das mudanças climáticas, medo da guerra, medo da tecnologia. Em vez disso, queremos uma aliança que avance audaciosamente rumo ao futuro. E o único medo que temos é o medo da vergonha de não deixarmos nossas nações mais orgulhosas, mais fortes e mais ricas para nossos filhos. 

Uma aliança pronta para defender nosso povo, salvaguardar nossos interesses e preservar a liberdade de ação que nos permite moldar nosso próprio destino – não uma aliança que exista para operar um estado de bem-estar social global e expiar os supostos pecados das gerações passadas. Uma aliança que não permita que seu poder seja terceirizado, restringido ou subordinado a sistemas fora de seu controle; uma aliança que não dependa de outros para as necessidades essenciais de sua vida nacional; e uma aliança que não mantenha a pretensão polida de que nosso modo de vida é apenas mais um entre muitos e que peça permissão antes de agir. E, acima de tudo, uma aliança baseada no reconhecimento de que nós, o Ocidente, herdamos juntos – aquilo que herdamos juntos é algo único, distinto e insubstituível, pois essa é, afinal, a própria base do vínculo transatlântico. 

Agindo juntos dessa forma, não apenas ajudaremos a recuperar uma política externa sensata. Isso nos devolverá uma compreensão mais clara de quem somos. Restituirá a nós um lugar no mundo e, ao fazê-lo, repreenderá e dissuadirá as forças de apagamento civilizacional que hoje ameaçam tanto a América quanto a Europa.  

Então, em tempos de manchetes anunciando o fim da era transatlântica, que fique claro para todos que esse não é nosso objetivo nem nosso desejo – porque, para nós, americanos, nosso lar pode estar no Continente Americano, mas sempre seremos filhos da Europa. (Aplausos.) 

Nossa história começou com um explorador italiano cuja aventura rumo ao grande desconhecido, em busca de um novo mundo, levou o cristianismo para as Américas – e se tornou a lenda que definiu o imaginário de nossa nação pioneira. 

Nossas primeiras colônias foram construídas por colonos ingleses, aos quais devemos não apenas o idioma que falamos, mas também todo o nosso sistema político e jurídico. Nossas fronteiras foram moldadas pelos escoceses-irlandeses – aquele clã orgulhoso e aguerrido das colinas do Ulster que nos deu Davy Crockett, Mark Twain, Teddy Roosevelt e Neil Armonstrong. 

Nossa grande região central do Meio-Oeste foi construída por agricultores e artesãos alemães que transformaram planícies vazias em uma potência agrícola global – e, aliás, melhoraram drasticamente a qualidade da cerveja americana. (Risos.) 

Nossa expansão para o interior seguiu os passos de comerciantes de peles e exploradores franceses, cujos nomes, aliás, ainda adornam placas de rua e nomes de cidades por todo o Vale do Mississippi. Nossos cavalos, nossos ranchos, nossos rodeios – todo o romantismo do arquétipo do caubói que se tornou sinônimo do Oeste americano – tudo isso nasceu na Espanha. E nossa maior e mais icônica cidade se chamava Nova Amsterdã antes de se chamar Nova York. 

E vocês sabiam que, no ano em que meu país foi fundado, Lorenzo e Catalina Geroldi viviam em Casale Monferrato, no Reino do Piemonte-Sardenha? E José e Manuela Reina viviam em Sevilha, na Espanha? Não sei o que, se é que sabiam algo, eles sabiam sobre as 13 colônias que haviam conquistado sua independência do Império Britânico, mas eis de uma coisa tenho certeza: jamais poderiam imaginar que, 250 anos depois, um de seus descendentes diretos estaria de volta aqui, neste continente, como o principal diplomata daquela jovem nação. E, no entanto, aqui estou eu, lembrado pela minha própria história de que tanto nossas histórias quanto nossos destinos sempre estarão interligados. 

Juntos, reconstruímos um continente devastado após duas guerras mundiais catastróficas. Quando nos vimos novamente divididos pela Cortina de Ferro, o Ocidente livre uniu forças com os corajosos dissidentes que lutavam contra a tirania no Leste para derrotar o comunismo soviético. Lutamos uns contra os outros, depois nos reconciliamos, depois lutamos, e depois nos reconciliamos novamente. E sangramos e morremos lado a lado em campos de batalha de Kapyong a Kandahar. 

E estou aqui hoje para deixar claro que os Estados Unidos estão traçando o caminho para um novo século de prosperidade e que, mais uma vez, queremos fazer isso junto com vocês, nossos estimados aliados e nossos amigos de longa data. (Aplausos.) 

Queremos fazer isso juntos com vocês, com uma Europa orgulhosa de sua herança e de sua história; com uma Europa que tenha o espírito criador da liberdade que enviou navios a mares desconhecidos e deu origem à nossa civilização; com uma Europa que tenha os meios para se defender e a vontade de sobreviver. Devemos nos orgulhar do que conquistamos juntos no século passado, mas agora precisamos enfrentar e abraçar as oportunidades de um novo século – porque o ontem já passou, o futuro é inevitável e nosso destino juntos nos aguarda. Obrigado. (Aplausos.) 

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

PERGUNTA: Sr. secretário, não tenho certeza se o senhor ouviu o suspiro de alívio que ecoou por este salão quando acabamos de ouvir o que interpreto como uma mensagem de tranquilização, de parceria. O senhor falou sobre as relações entrelaçadas entre os Estados Unidos e a Europa – isso me lembra declarações feitas décadas atrás por seus predecessores, quando a discussão era: os Estados Unidos são realmente uma potência europeia? Os Estados Unidos são uma potência na Europa? Agradeço por transmitir essa mensagem de tranquilização sobre nossa parceria.    

Na verdade, esta não é a primeira vez que Marco Rubio está aqui na Conferência de Segurança de Munique – ele já esteve aqui algumas vezes, mas é a primeira vez que ele vem como palestrante na qualidade de secretário de Estado. Então, obrigado novamente. Temos apenas alguns minutos agora para algumas perguntas e, se me permitem, coletamos algumas perguntas da plateia.  

Uma das questões-chave aqui ontem, e hoje, é, claro – e continua sendo – como lidar com a guerra na Ucrânia. Muitos de nós, nas discussões ao longo do último dia, das últimas 24 horas, expressamos a impressão de que os russos – para usar uma expressão coloquial – estão ganhando tempo, não estão realmente interessados em uma solução significativa. Não há indicação de que estejam dispostos a ceder em nenhum de seus objetivos maximalistas. Se possível, gostaria que nos apresentasse sua avaliação de onde estamos e para onde o senhor acredita que podemos ir. 

SECRETÁRIO RUBIO: Bem, acho que onde estamos neste momento é que as questões em jogo que precisam ser enfrentadas foram delimitadas. Essa é a boa notícia. A má notícia é que elas foram reduzidas às questões mais difíceis de responder, e ainda há trabalho a ser feito nesse sentido. Entendo seu ponto de vista – a resposta é que não sabemos. Não sabemos se os russos estão falando sério sobre acabar com a guerra; eles dizem que sim – e sob quais termos estariam dispostos a fazê-lo, e se podemos encontrar termos aceitáveis para a Ucrânia que a Rússia sempre aceitará. Mas vamos continuar testando isso. 

Enquanto isso, tudo o mais continua acontecendo. Os Estados Unidos impuseram sanções adicionais ao petróleo russo. Em nossas conversas com a Índia, obtivemos o compromisso deles de interromper compras adicionais de petróleo russo. A Europa tomou suas medidas para seguir em frente. O Programa PURL continua, por meio do qual armamentos americanos estão sendo vendidos para o esforço de guerra ucraniano. Portanto, tudo isso continua. Nada foi interrompido nesse ínterim. Logo, não há como ganhar tempo nesse sentido. 

O que não podemos responder – mas continuaremos a testar – é se há um desfecho com o qual a Ucrânia possa conviver e que a Rússia aceite. E eu diria que tem sido elusivo até o momento. Fizemos progresso no sentido de que, pela primeira vez, acredito que em anos, pelo menos no nível técnico, houve autoridades militares de ambos os lados que se reuniram na semana passada, e haverá novas reuniões na terça-feira, embora talvez não com o mesmo grupo de pessoas. 

Vejam, vamos continuar fazendo tudo o que pudermos para desempenhar esse papel de pôr fim a esta guerra. Não creio que alguém nesta sala seja contra uma solução negociada para esta guerra, desde que as condições sejam justas e sustentáveis. E é isso que pretendemos alcançar, e vamos continuar tentando alcançar, mesmo enquanto todas essas outras medidas continuem acontecendo na frente das sanções e assim por diante. 

PERGUNTA: Muito obrigado. Tenho certeza de que, se tivéssemos mais tempo, haveria muitas perguntas sobre a Ucrânia. Mas me permitam-me concluir com uma pergunta sobre algo completamente diferente. O próximo orador, daqui a alguns minutos, será o ministro das Relações Exteriores da China. Quando o senhor era senador, era considerado um crítico ferrenho da China. 

SECRETÁRIO RUBIO: Eles também. 

PERGUNTA: E foi mesmo? 

SECRETÁRIO RUBIO: Sim. 

PERGUNTA: Sabemos que haverá, daqui a cerca de dois meses, uma reunião de cúpula entre o presidente Trump e o presidente Xi Jinping. Quais são as suas expectativas? O senhor está otimista? Pode haver um, entre aspas, “acordo” com a China? O que o senhor espera? 

SECRETÁRIO RUBIO: Bem, eu diria o seguinte. As duas maiores economias do mundo, duas das grandes potências do planeta, temos a obrigação de nos comunicar e dialogar, assim como muitos de vocês fazem bilateralmente. Quero dizer, seria um erro geopolítico grave não manter conversas com a China. Eu diria o seguinte: como somos dois grandes países com enormes interesses globais, nossos interesses nacionais muitas vezes não estarão alinhados. Os interesses nacionais deles e os nossos não estarão alinhados, e devemos ao mundo tentar administrar isso da melhor maneira possível, obviamente evitando conflitos, tanto econômicos quanto piores. E isso – portanto, é importante para nós mantermos comunicação com eles nesse sentido. 

 Nas áreas em que nossos interesses estejam alinhados, acredito que podemos trabalhar juntos para gerar um impacto positivo no mundo, e buscamos oportunidades para isso com eles. Portanto, precisamos manter uma relação com a China. E qualquer um dos países aqui representados hoje terá de manter uma relação com a China, sempre entendendo que nada do que acordarmos pode ocorrer às custas de nosso interesse nacional. E, francamente, esperamos que a China aja em seu interesse nacional, assim como esperamos que todos os Estados-nações ajam em seu interesse nacional. E o objetivo da diplomacia é tentar navegar os momentos em que nossos interesses nacionais entram em conflito, sempre buscando fazê-lo de maneira pacífica. 

Penso que também temos uma obrigação especial, porque tudo o que acontece entre os EUA e a China em matéria de comércio tem implicações globais. Portanto, existem desafios de longo prazo que enfrentamos e que teremos de enfrentar e que serão fontes de tensão em nossa relação com a China. Isso não se aplica apenas aos Estados Unidos; aplica-se a todo o Ocidente. Mas acredito que precisamos tentar administrar isso da melhor forma possível a fim de evitar atritos desnecessários, se possível. Ninguém, no entanto, está sob ilusões. Existem alguns desafios fundamentais entre nossos países e entre o Ocidente e a China que persistirão em um futuro previsível por uma série de razões, e são algumas das questões em que esperamos trabalhar em conjunto com vocês.  

PERGUNTA: Muito obrigado, Sr. secretário. Nosso tempo se esgotou. Lamento não poder atender a todos que desejavam fazer perguntas. Sr. secretário de Estado, agradeço por esta mensagem tranquilizadora. Creio que ela foi muito bem recebida aqui no salão. Vamos oferecer uma salva de palmas. (Aplausos.) 

https://www.state.gov/translations/portuguese/secretario-de-estado-marco-rubio-na-conferencia-de-seguranca-de-munique

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Helder Moura - (570) A arte de virar o bico ao prego

 * hélder moura

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, Mark Carney, 1º Ministro do Canadá.

 Se não estão à mesa, estão no menu, Mark Carney.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

  

No dia 20 de janeiro de 2026, Mark Carney, ex-banqueiro central e atual primeiro-ministro do Canadá, proferiu um notável discurso (vídeotranscrição) no Fórum Económico Mundial, em Davos.

Tratou-se aparentemente de um ataque à “ordem internacional baseada em regras”, o conceito que as nações ocidentais com impérios impuseram, promoveram e utilizaram para poderem justificar os seus inúmeros desvios e abusos ao direito internacional. Eis, o que entre outros, Carney disse:

 

“Esta noite falarei de uma rutura na ordem mundial, do fim de uma ficção agradável e do início de uma dura realidade onde a geopolítica – onde a grande potência dominante – não está sujeita a limites nem restrições. […]”

“[…] Parece que todos os dias somos recordados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências. De que a ordem baseada em regras está a desaparecer. De que os fortes fazem o que podem e os fracos devem sofrer o que devem.”

“[…] Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos uma ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos seguir políticas externas baseadas nesses valores sob a sua proteção.

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam quando lhes conviesse. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variável consoante a identidade do arguido ou da vítima.

Esta ficção era útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de litígios.

Assim, pendurámos a placa na janela. Participámos nos rituais. E, em grande parte, evitámos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este acordo já não funciona.

Deixem-me ser direto: estamos no meio de uma rutura, não de uma transição.

Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas das finanças, da saúde, da energia e da geopolítica expuseram os riscos da integração global extrema.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a utilizar a integração económica como arma. As tarifas como forma de pressão. Infraestrutura financeira como coerção. Cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a explorar.

Não se pode “viver na mentira” do benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação.”

“[…] E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a pretensão de regras e valores em prol da busca irrestrita do seu poder e interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornar-se-ão mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem monetizar continuamente os seus relacionamentos.

Os aliados diversificar-se-ão para se protegerem contra a incerteza. Contratarão seguros. Aumentarão as opções. Isto reconstrói a soberania – soberania que antes se baseava em regras, mas que estará cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão clássica do risco tem um preço, mas este custo da autonomia estratégica, da soberania, também pode ser partilhado. Os investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Os padrões partilhados reduzem a fragmentação. As complementaridades são um resultado positivo.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se se devem adaptar a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos – ou se podemos fazer algo mais ambicioso.”

 

Mas, atenção: Carney não defende um regresso completo ao Estado de Direito. Não pede que o direito internacional seja aplicado de forma igual a todas as nações. Defende uma colaboração entre as "potências médias" para resistir à hegemonia e poderem continuar a explorar o resto do mundo:

 

“As potências médias devem agir em conjunto porque, se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm a dimensão do mercado, a capacidade militar, a influência para ditar as regras. As potências médias não. Mas quando negociamos apenas bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos entre nós para sermos os mais complacentes.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países intermédios têm uma escolha: competir entre si pela influência ou unir-se para criar um terceiro caminho com impacto.”

“[…] Não devemos permitir que a ascensão do poder coercivo nos impeça de ver que o poder da legitimidade, da integridade e das regras se manterá forte — se optarmos por exercê-lo em conjunto.”

 

Carney está a implorar aos vassalos da potência hegemónica que resistam coletivamente ao seu poder e, ao mesmo tempo, apelando às "médias potências" para que se juntem ao Canadá no novo clube.

Descartar a “ordem baseada em regras”, expô-la como a mentira que sempre foi, é um bom passo na direção certa. É uma mudança fundamental na forma de ver o mundo.

Mas também há que ter cuidado para não se cair na armadilha do significado que querem atribuir à ovação de pé que Carney escutou em Davos.

Recorde-se que os “liberais” como Carney, depois de patrocinarem o genocídio em Gaza, de saudarem o rapto de Nicolás Maduro, de celebrarem o bombardeamento do Irão, de apoiarem os ataques mortais contra Beirute e Iraque e aplaudirem o assassinato do governo do Iémen, de repente, quando Trump tenta tomar a Gronelândia, pregam a adesão ao direito internacional.

Recorde-se que estes mesmos líderes da França, Alemanha, Itália, Polónia, Reino Unido e outros, que numa declaração conjunta, afirmaram que o futuro da Gronelândia só poderia ser decidido “respeitando os princípios da Carta da ONU, incluindo a soberania, a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras”, que pouco mais de duas semanas antes, tinham apoiado o ataque dos EUA à Venezuela e o rapto de Maduro.

A "ordem internacional baseada em regras" foi útil para alguns até deixar de o ser. Agora que foi declarada morta, fica a dúvida sobre que outro conceito fictício será inventado.

E quando os tidos como principais órgãos de comunicação social relatam que o discurso, escrito pelo próprio Carney, foi recebido com aplausos de pé, talvez queiram com isso dizer que os aplausos de pé possam ser tomados como prova de legitimidade, quando são meramente sinais de aprovação da elite.

É que talvez seja desta forma eficiente, educada e sob aplausos estrondosos que o modelo avança.  Provavelmente já nem está na fase de modelo ….

 https://otempoemquevivemosotempoemquevivemos.blogs.sapo.pt/

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia
E a Dinamarca? E a UE? Não têm nada a dizer?

Há dias acabei um artigo com um poema de Fernando Pessoa (heterónimo Alberto Caeiro) . Hoje começo este com outro poema, no caso de Eduardo Alves da Costa, um poeta brasileiro não muito conhecido, texto que é erroneamente muitas vezes atribuído a Maiakovsky, talvez por causa de seu título:

NO CAMINHO, COM MAIAKOVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Vem isto a propósito de como Mark Rutte decidiu entregar parte da Groenlândia aos EUA, concedendo-lhes o direito de instalar por lá as bases militares que entendessem e possuindo DE FACTO os territórios onde tais bases vierem a ser construídas.

Naturalmente, na versão de Donald Trump além dos locais onde tais bases venham a ser instaladas, os EUA possuiriam também todo o direito de explorar os recursos energéticos e minerais da grande ilha. Estamos portanto na fase em que os ladrões do poema de Maiakovsky já pisaram as flores.

Deve Mark Rutte ficar preocupado? Foi ele foi o cão que não ladrou quando a primeira flor foi roubada. Ele será a próxima vítima? Talvez não, dependendo de quem seja o seu dono.

De qualquer forma, está a esgotar-se o tempo da Dinamarca e seus supostos aliados europeus dizerem alguma coisa, antes que suas vozes lhes sejam arrancadas das gargantas

https://antoniojfgil.substack.com/p/mark-ruttes-greenland-bargain? 

Pedro Tadeu - TEMOS DE SER VASSALOS OU ESCRAVOS DE TRAMP?

🤔
Por Pedro Tadeu - Jornalista 

"Ser um vassalo feliz é uma coisa. Ser um escravo infeliz é outra coisa.” Esta frase de protesto contra o presidente norte-americano, Donald Trump, dita na segunda-feira em Davos no Forum Económico Mundial, pelo primeiro-ministro da Bélgica, Bart de Wever, desvenda, por um lado, como as elites europeias sempre aceitaram pacificamente uma subserviência com características medievais face aos Estados Unidos da América e, por outro lado, como não desejam o fim desta forma de feudalismo e aceitam ter um suserano desde que ele, magnânimo, lhes dê algumas benesses.

Durante décadas a União Europeia e o Reino Unido viveram numa condição de subserviência estratégica, disfarçada de aliança e parceria. A narrativa que nos contaram após o fim da União Soviética era a de que passava a vigorar uma “ordem internacional baseada em regras”. A União Europeia até integrou a definição no artigo 21.º do Tratado da UE, mas ligou-a ao cumprimento do direito internacional e da Carta das Nações Unidas. Contudo, essa ordem continha, desde o seu início, a semente da hegemonia norte-americana, que sempre se esteve nas tintas para a ONU.~

Tivemos assim a intervenção da NATO na Jugoslávia (1999). Esta ação não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU, a Carta da ONU. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos a invasão do Iraque pela coligação liderada pelos EUA e pelo Reino Unido em 2003, também sem aprovação do Conselho de Segurança, baseada em justificações falsas, como a alegação de armas de destruição massiva. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Tivemos intervenções com “mudança de regime” e uso abusivo de mandados da ONU, como foi o caso da Líbia, em 2011. Os europeus, vassalos, aceitaram e participaram.

Temos o caso do embargo a Cuba. Desde 1962, os EUA mantêm um embargo e, ano após ano, a ampla maioria dos países vota na Assembleia Geral da ONU a condenação dessa política. Os europeus, vassalos, aceitam a vontade norte-americana.

Temos casos de duplo-padrão na adesão às instituições jurídicas internacionais. Por exemplo, a Convenção da ONU sobre o Direito do Mar (UNCLOS): os EUA não ratificaram o tratado, mas invocam as suas disposições em patrulhas de “liberdade de navegação” no Mar do Sul da China.

O mesmo se passa no caso do Tribunal Penal Internacional (TPI): os EUA recusaram aderir ao Estatuto de Roma, mas apoiam o recurso ao TPI contra lideranças de países adversários.

E há o duplo-critério. Um exemplo recorrente é a relação dos EUA com Israel, que viola imensas resoluções do Conselho de Segurança e da Assembleia-Geral, mas tem uma garantia de excecionalidade que até lhe permitiu fazer um verdadeiro genocídio em Gaza.

Os europeus são cúmplices e participantes de tudo isto.

Esta subserviência política, esta aceitação de um sistema de “regras” definidas por Washington, foi consentida e alimentada durante décadas pelos europeus, muito antes de Trump decidir que quer ficar com a Gronelândia, de raptar o presidente da Venezuela, de fazer uma “ONU privada” com o seu Conselho da Paz e de querer dominar todo o continente americano. É uma “ordem internacional baseadas em regras” variáveis, como acontece desde o fim da Guerra Fria, mas agora com vítimas que se achavam donas do mundo e se vêem agora no papel de vassalos ou, pior, de escravos.~

Por mim, nem vassalagem, nem escravidão.


23 Jan 2026

 https://www.dn.pt/opiniao/temos-de-ser-vassalos-ou-escravos-de-trump

quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

Ricardo E. Rubenstein - As intervenções ignóbeis de Trump: como o “imperialismo regional” leva à guerra mundial

Ricardo E. Rubenstein

Pouco depois da primeira eleição de Donald Trump como presidente, alguém me perguntou num fórum público se eu o considerava um fascista. Respondi que Trump era um conservador ultranacionalista que tentaria privatizar os serviços públicos, fortalecer ainda mais os oligarcas e reverter muitas políticas sociais liberais – mas que dois aspetos essenciais do fascismo estavam ausentes de sua agenda MAGA. Um deles era o compromisso de conduzir guerras agressivas contra nações “inferiores” consideradas ameaças à segurança da Pátria Sagrada. O segundo era a militarização da sociedade civil, acompanhada por um poder executivo descontrolado, negação generalizada dos direitos civis e campanhas de terror de Estado contra os oponentes reais ou imaginários do Líder.

Esses dois aspetos do fascismo, como Hannah Arendt apontou há 50 anos em As Origens do Totalitarismo, estão organicamente relacionados. As técnicas de conquista e dominação de populações subjugadas, utilizadas em guerras imperialistas, são trazidas de volta para casa pelos belicistas e tornam-se ferramentas essenciais da governação interna. Primeiro, os fascistas decapitam, dividem e conquistam as nações “de merda” (para citar o Sr. Trump). Depois, fazem o mesmo com elementos “de merda” da população da sua própria nação.

Na minha opinião, esse processo ainda não foi concluído nos Estados Unidos. Apesar dos graves abusos do poder executivo por parte de Trump, das políticas desumanizadoras do movimento MAGA e dos excessos violentos do ICE, a militarização interna ainda não chegou ao ponto de terrorismo de Estado contra a maioria dos cidadãos americanos. Mas a direção dessas políticas é inegável. O ataque à Venezuela, na sequência do genocídio financiado pelos EUA em Gaza, é um passo claro em direção a uma política externa fascista, cuja prossecução gera guerras globais.

O que obscurece essa realidade no momento e confunde a cobertura mediática da situação é a invocação, por Trump, da Doutrina Monroe (também conhecida como Doutrina Don-Roe) para justificar a sua viragem brusca em direção ao intervencionismo. Sim, ele sequestrou os Maduros, matou soldados venezuelanos e cubanos, declarou-se dono do petróleo da Venezuela, destruiu ou capturou navios e tripulações que partiam de portos venezuelanos, ameaçou os governantes da Colômbia, Cuba, México e Brasil e prometeu anexar a Groenlândia. Ele também interveio direta e indiretamente no Médio Oriente, na Ucrânia, na África e noutros lugares. Mesmo assim, muitos comentadores concluem que a intenção de Trump é exercer o poder militar principalmente no “quintal” caribenho e latino-americano dos EUA, enquanto outras potências regionais, como a China e a Rússia, agem como bem entendem nas suas próprias esferas de influência.

Essa versão autoritária da multipolaridade pode satisfazer os membros da coligação MAGA que querem acreditar que o aspirante ao Nobel permanecerá fiel à sua promessa original de evitar “guerras intermináveis”. Ela até ganhou aceitação entre alguns analistas de publicações de política externa e ONGs tradicionais. Aceitar esse foco regional, no entanto, significa fechar os olhos para a história e para a dinâmica do imperialismo.

História.   No meio da enxurrada de artigos e transmissões sobre a aventura venezuelana de Trump, encontram-se poucas análises que comparam a agressão dos EUA com as guerras imperiais da década de 1930: em particular, a anexação da Manchúria pelo Japão, a invasão da Etiópia por Mussolini e as intervenções de Hitler na Europa Central e na Guerra Civil Espanhola. Mas a analogia é surpreendente. Assim como as ações recentes de Trump, esses foram ataques assimétricos e de curto prazo contra nações que resistiam à dominação de uma potência hegemónica regional. O seu impacto foi minimizado ao serem caracterizados como guerras limitadas, conduzidas na esfera de influência de alguma potência imperial. Mas hoje entendemos que também foram passos significativos rumo a uma guerra mundial.

Por quê? Por que motivo esse tipo de violência não permanece restrito à esfera regional, em vez de gerar conflitos globais? O primeiro motivo é que essas intervenções visam concorrentes imperialistas, não apenas resistentes locais. A guerra da Itália na Etiópia tinha como alvo os interesses britânicos no Corno de África, a agressão do Japão na Manchúria visava os interesses chineses e russos, e as maquinações da Alemanha na Europa visavam os interesses ocidentais e russos. Quarenta anos depois, Richard Nixon e Henry Kissinger derrubaram o regime de Allende no Chile e instalaram a ditadura de Pinochet porque consideravam Allende um potencial aliado soviético (e cubano). Da mesma forma, o objetivo principal de Trump na América Latina é limitar a crescente influência da China (e a influência menos substancial da Rússia) naquele continente.

Dinâmica. Deixando de lado as doutrinas Don-Roe, o aparente foco local de operações como o ataque à Venezuela é uma ilusão. O fato de o alvo principal ser um império rival obriga outras nações da região afetada a tomar partido – um processo polarizador que tende a criar blocos multinacionais armados e uma ordem mundial bipolar. A obra clássica de Barbara Tuchman, Os Canhões de Agosto, mostra exatamente como isso funcionou para produzir a incrivelmente destrutiva “guerra para acabar com todas as guerras” em 1914. É provável que vejamos essa polarização ocorrer com intensidade crescente nos próximos anos na América Latina, África e Ásia Oriental.

Mas isso não é tudo. As potências imperiais, impedidas de adquirir recursos industriais essenciais em regiões reivindicadas pelos seus concorrentes, tendem a retaliar tomando o controlo de outras regiões onde esses recursos podem ser obtidos. Em 1931, as tentativas ocidentais de enfraquecer e conter os japoneses levaram o regime de Tóquio a forjar um incidente de “falsa bandeira” na Manchúria para se apoderar do carvão e do ferro daquela nação. Uma década depois, os imperialistas japoneses conquistaram o Vietname, a Indonésia e a Malásia para garantir o petróleo, a borracha, o estanho e outros materiais industriais monopolizados pelos imperialistas franceses, holandeses e britânicos no que até então era considerado o quintal da Europa.

Qual é a moral da história? Todos os impérios modernos são globais. Os EUA e os seus rivais não são como os antigos impérios que conquistavam nações mais fracas por desporto, cobrando tributos dos seus governantes, mas geralmente deixando os povos subjugados à própria sorte. Os impérios modernos são potências do capitalismo tardio, impulsionadas a competir globalmente por matérias-primas industriais essenciais, mercados e oportunidades de investimento, e compelidas a “desenvolver” ou transformar as sociedades que dominam. Não há como manter as suas classes dominantes confinadas nos seus próprios territórios – e quando viajam para o exterior (como precisam de fazer para manter a sua própria viabilidade), vão armadas até aos dentes.

Comentadores liberais e conservadores podem ser relutantes a admitir, mas a obra de Lenine sobre o imperialismo acertou em cheio. Por períodos limitados, enquanto emitem ameaças de violência e realizam operações secretas, os construtores de impérios podem até conseguir negociar as suas diferenças “pacificamente”. Mas esses períodos de relativa tranquilidade não duram. Incapazes de resolver os problemas globais que os seus próprios sistemas dominados pelo lucro exacerbam – problemas como a desigualdade social radical, as mudanças climáticas causadas pelo homem e a migração em massa –, eles empregam ameaças de guerra e a própria guerra como métodos prediletos de gestão de conflitos. Chamam a essa estratégia a “paz pela força”, mas entendemos que o que realmente querem dizer é o Império em Primeiro Lugar, por quaisquer meios necessários.

O facto de a guerra estar agora totalmente industrializada e de as armas de destruição em massa, incluindo as nucleares, estarem proliferando a um ritmo vertiginoso não altera essa dinâmica. Tampouco a existência de uma Organização das Nações Unidas lamentavelmente enfraquecida oferece muita esperança de que os conflitos inter-imperiais possam ser controlados antes que se tornem parte de mais um prenúncio de violência global. Mais uma vez, a história faz ecoar alarmes que qualquer pessoa que não esteja ensurdecida pela cacofonia atual deveria ser capaz de ouvir. Foi precisamente quando a Liga das Nações se mostrou incapaz de deter a agressão localizada do Japão, da Itália e da Alemanha que o Pacto Kellogg-Briand, que proibia a guerra como instrumento de política nacional – um tratado assinado por quase todas as nações do mundo – se tornou letra morta. Então e agora, o imperialismo regional intensificado era um sintoma de uma guerra global iminente.

O intervencionismo de Donald Trump representa, portanto, uma significativa guinada rumo ao fascismo – mas a sua importância já está a ser minimizada não apenas pelos seguidores fanáticos do MAGA, mas também por uma ampla gama de liberais do establishment, centristas de ambos os partidos, especialistas em política externa e pela grande mídia.

Devotados ao dogma da “paz pela força”, líderes do Partido Democrata como Chuck Schumer e Hakeem Jeffries são incapazes de criticar as aventuras militares de Trump, exceto para reclamar que ele não consulta o Congresso como deveria e, às vezes, age de forma “imprudente”. Com o Iraque em mente, os editores do New York Times alertam que tentar ocupar nações que não querem ser ocupadas é uma má ideia. Mas se Trump conseguir apoderar-se do petróleo venezuelano sem provocar uma guerra de guerrilha, desestabilizar Cuba sem um novo ataque na Baía dos Porcos, estabelecer o seu “Conselho de Paz” colonialista para a devastada Faixa de Gaza ou anexar a Groenlândia por meio de ameaças e subornos, não ouviremos uma palavra de crítica séria dos defensores da “liderança mundial” dos EUA.

Sejam anti-Trump ou pró-Trump, os nossos líderes imperialistas e os seus parceiros corporativos ignoram as conexões entre guerras regionais, a militarização da sociedade doméstica e a crescente probabilidade de uma guerra mundial. Essa é a má notícia. A boa notícia é que o intervencionismo cada vez mais descontrolado e impenitente de Trump está a despertar as pessoas em diversas frentes. Império, imperialismo e o complexo militar-industrial não são mais palavras e conceitos tabu. Até mesmo Marjorie Taylor Greene entende que a promessa de Trump de ser um bom isolacionista era uma mentira e que a atual onda de intervenções militares dos EUA é um sintoma de um império em declínio.

Enquanto isso, os cidadãos do Minnesota e de vários outros estados americanos estão a aprender o que é ser súbdito da dominação imperial. Os agentes mascarados e armados do ICE, agindo por medo e raiva num ambiente cada vez mais hostil, poderiam estar a invadir Fallujah tanto quanto Minneapolis. Levará algum tempo até que o nosso despertar se torne geral, mas isso acontecerá, espero e rezo, antes que a violência trumpista gere um movimento irreversível rumo a uma guerra mundial.

Para citar a faixa que aparece no final do filme antinuclear de Stanley Kramer de 1959, “A Hora Final” (On the Beach): “Ainda há tempo…irmão”.

21 de janeiro de 2026

Fonte aqui.

https://www.counterpunch.org/2026/01/21/trumps-ignoble-interventions-how-regional-imperialism-leads-to-world-war/

https://estatuadesal.com/2026/01/22/as-intervencoes-ignobeis-de-trump-como-o-imperialismo-regional-leva-a-guerra-mundial