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sexta-feira, 28 de junho de 2024

Fernanda Câncio - ATAQUE A RESTAURANTE ISRAELITA EM LISBOA

 


Um dos escritos que na noite de 11 de junho foi pichado pelo Coletivo pela Libertação da Palestina na parede do restaurante Tantura, em Lisboa. DR

26 junho 2024 às 14h16

“Não sabíamos das alegações sobre um massacre de palestinianos em Tantura”

O casal israelita que explora o restaurante Tantura - vandalizado a 11 de junho por “militantes antissionistas” - garante que quando o abriu nada sabia sobre o massacre alegadamente ocorrido em 1948 na aldeia palestiniana do mesmo nome. Para eles, dizem, é “o de uma das mais belas praias de Israel”.

Fernanda Câncio

Grande repórter

 “Tantura é um massacre”; “Free Palestine [Palestina livre]”. As duas frases foram pichadas, na noite de 11 de junho, na parede e montra do restaurante lisboeta Tantura, inaugurado em 2017 por um casal israelita. Imagens da pichagem foram publicadas na página de Instagram do Coletivo pela Libertação da Palestina (CLP), apelando ao “boicote do restaurante” em “solidariedade com a resistência palestiniana”, num ato que o CDS/PP, dias depois, qualificou como “crime de ódio antissemita”, exortando “todos os partidos democráticos” a “condenar veementemente” este tipo de crimes.

Também o embaixador de Israel em Portugal, Dor Shapira, qualificou, no Twitter, a 21 de junho, no texto que acompanha uma foto sua no restaurante abraçado aos donos, as pichagens de "vandalismo antissemita", garantindo: "A humanidade sempre dominará o ódio!"

Em resposta a perguntas enviadas pelo DN, os proprietários do restaurante, Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu, que se apresentam como “dois israelo-portugueses que se apaixonaram tanto por Portugal que decidimos viver aqui e fazer o que fazemos melhor”, não quiseram dizer se consideram as pichagens um crime de ódio ou um ato antissemita ou esperam que seja investigado como tal. Limitam-se a manifestar, através de um comunicado enviado pelo respetivo advogado, “extrema tristeza pela vandalização do restaurante” e “extremamente comovidos e agradecidos pelo nível de solidariedade que recebemos após este incidente, desde as autoridades ao cliente ocasional”.

E acrescentam: “Não somos políticos. Estamos a viver num país que amamos, aproximando pessoas e culturas através da comida. (…) Abrimos um restaurante, chamámos-lhe Tantura - nome de uma das mais bonitas praias de Israel - e o resto é história.”

Ora, de acordo com o comunicado que os autores da pichagem enviaram às redações, foi precisamente a história de Tantura, e o facto de os donos do restaurante do mesmo nome a elidirem, que motivou a ação.

“Tantura era uma pequena vila costeira palestiniana onde viviam cerca de 1500 pessoas”, lê-se no dito comunicado. “Na noite de 22 de maio de 1948, uma semana após a declaração do Estado de Israel, foi atacada e ocupada por uma brigada do exército sionista. Esta foi apenas uma das cerca de 530 aldeias palestinianas que foram destruídas para dar lugar ao Estado sionista (…) num ato de limpeza étnica (…) ao qual as pessoas palestinianas chamam Nakba - catástrofe, em árabe.”

Porém, prossegue a narrativa, “o destino de Tantura foi pior que o da maioria. Testemunhos de aldeães palestinianos e soldados israelitas afirmam que (…) o exército massacrou até 250 civis e membros da resistência palestiniana - na sua maioria jovens desarmados (…). A aldeia foi quase toda destruída. Hoje, as valas comuns onde enterraram os corpos estão sob parte de um resort de praia a que chamam Dor. No entanto, em toda a presença online ou offline do restaurante (…) não parece haver qualquer tipo de reconhecimento do massacre de Tantura ou de Tantura ser uma aldeia palestiniana destruída pelo projeto colonial israelita.”

Os testemunhos a que o CLP faz referência foram pela primeira vez revelados publicamente em 2000, na imprensa israelita, na sequência de uma tese de mestrado da Universidade de Haifa, da autoria de Ted Katz, sobre o que sucedeu a aldeias árabes/palestinanas após a declaração de independência de Israel, quando o jovem país enfrentava uma invasão por todos os seus vizinhos árabes. Katz acabaria processado por membros da brigada do exército israelita que ocupou Tantura, e, no início do julgamento, assinou uma carta na qual escreveu: “Não quis dizer que houve um massacre em Tantura e hoje digo que não houve um massacre em Tantura”. Viria depois a querer retirar essa capitulação, mas o tribunal não permitiu; apelou para o Supremo, mas este não aceitou o recurso.

22 anos depois, um documentário intitulado Tantura, do realizador israelita Alon Schwarz, recuperou a investigação de Katz, revelando entrevistas atuais de membros da brigada que reconhecem - por vezes em tom chocantemente chocarreiro - a ocorrência, após a tomada de Tantura, de execuções de palestinianos desarmados e de atos de violência sexual perpetrados pelos soldados. Malgrado estes testemunhos, a existência de um massacre no local continua a ser - até porque nunca houve uma tentativa de inumar os mortos (há comprovadas, até por documentos contemporâneos do exército israelita, valas comuns na área) - controversa (como veremos mais à frente).

Questionados pelo DN sobre o seu silêncio - confirmado pelo jornal quer no site do restaurante e respetivo menu quer em entrevistas concedidas desde 2017 a 2024 - em relação à história de Tantura, Elad e Itamar justificam-se, no citado comunicado: “Quando abrimos o restaurante, em 2017, não conhecíamos as referidas alegações [sobre o massacre] sobre Tantura. O documentário [cujo link o jornal lhes enviou] só saiu em 2022.”

“Devem ler sobre o que os vossos ancestrais [portugueses] andaram a fazer”

Não fica claro quando Elad e Itamar se deram conta das ditas alegações e ainda menos o que pensam delas (perguntas que lhes foram feitas pelo DN). Nem por que motivo se referem, em várias entrevistas, inclusive em 2024, e também no site do restaurante, a Tantura como “uma aldeia israelita (…) de onde “chegámos a Lisboa”; "onde se conheceram e casaram"; na qual teriam vivido “quatro anos; onde teriam “uma pequena empresa de catering”; onde Itamar, que tem 45 anos, nasceu, e onde a sua família explorou “um pequeno negócio de arrendamento turístico”Na resposta enviada ao jornal, nenhuma das perguntas sobre a ligação do casal ao local a que dão o nome de Tantura foi esclarecida, nomeadamente se ali viveram, se Itamar ali nasceu e, nesse caso, desde quando a sua família ali residiu.

Ora é incontroverso que Tantura foi o nome de uma aldeia árabe/palestiniana ocupada pelo exército israelita logo a seguir à fundação de Israel, há 76 anos, e que o local, após a saída/expulsão dos palestinianos, passou a chamar-se Dor (recuperando a antiga designação Dor - ou Dar, em hebraico antigo - da povoação portuária de Canaã, a bíblica “terra prometida dos judeus, que existiu ali há milhares de anos).

Aliás, colocando no Google a palavra Tantura não surge qualquer referência a um local contemporâneo em Israel; nem sequer nos sites dos resorts/hotéis de Dor consultados pelo DN se encontrou esse nome. Na Encyclopedia Britannica, na entrada Dor, lê-se: “A aldeia árabe de Tantura que existia no local foi tomada pelo IDF [Israeli Defense Forces, ou Forças de Defesa Israelitas] em maio de 1948; no ano seguinte foi ali estabelecida, por imigrantes judeus-gregos, a povoação moderna de Dor. A norte de Dor, situa-se o kibbutz de Nahsolim, fundado em 1948.” De acordo com a informação encontrada pelo jornal, Dor terá cerca de 465 habitantes.

Inquiridos especificamente sobre se o nome Tantura ainda é usado em Israel para designar Dor, Elad e Itamar não responderam.

Já em junho de 2023 a equipa do restaurante teria sido questionada, por email, sobre a referida ausência de menção, em materiais promocionais, ao facto de o nome Tantura ser o de uma aldeia palestiniana. É o Coletivo pela Libertação da Palestina que o garante num panfleto intitulado “Tantura, sabores de um massacre”, e que terá sido distribuído na festa de aniversário do restaurante. Segundo o panfleto, a equipa respondeu ao contacto do CLP remetendo para a história de Portugal: “Antes de discutirmos as nossas visões políticas, acho que devem ler um pouco sobre história portuguesa, para verem o que os vossos ancestrais andaram a fazer no passado (…). Antes de decidirem quem tem razão façam uma pesquisa mais aprofundada. Se precisarem de ajuda, poderemos dar-vos alguma informação.”

A crer neste relato do CLP, a informação aludida nunca terá sido enviada. Também na resposta às perguntas enviadas pelo DN a Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu, como já referido, não foi adiantada qualquer informação, ou posição, sobre a história da localidade que designam de Tantura.

“As pessoas escolhem esquecer o que não é conveniente”

“Muitos israelitas não conhecem a história do país. Muitos acreditam naquela história ingénua de que os palestinianos fugiram de motu proprio.” As palavras são de Alon Schwarz, o autor do já citado documentário Tantura, numa entrevista de dezembro de 2022 sobre o filme. O qual, explica, além de ser sobre a expulsão dos palestinianos das zonas ocupadas pelo novo Estado judeu - zonas delineadas pelo plano de partição decidido pela Organização das Nações Unidas em 1947 - e sobre os crimes de guerra cometidos durante a mesma, e portanto sobre o que designa de “a história não contada do mito fundador de Israel”, é também sobre “como as pessoas escolhem esquecer, ou não lembrar, o que é inconveniente”, “como escolhemos dulcificar a história do nosso país”.

Trata-se assim, para Schwarz, de uma mistura entre ignorância genuína e deliberação de ignorar. Como acusam vários académicos que entrevistou para o documentário: “Quando em 1988 Israel celebrou os 40 anos da guerra da independência, era suposto as Forças de Defesa Israelitas divulgarem a documentação sobre a guerra. Mas quando foram ver o arquivo disseram: ‘Não podemos divulgar isto.’ E escreveram uma ordem detalhando o critério para divulgar documentos”, afirma o historiador Adam Ratz, autor do livro, a publicar em setembro, Loot. How Israel Stole Palestinian Property/Saque. Como Israel roubou a propriedade palestiniana, enquanto mostra o documento em causa. “O Estado decidiu que não quer divulgar material que diga respeito a ‘deportação de árabes’; ‘evacuação de comunidades e residentes’; ou, e esta é a minha preferida, ‘comportamento violento em relação a prisioneiros, que viole a convenção de Genebra’ ou ‘comportamento violento dirigido à população árabe e atos de crueldade, homicídio, mortes que não ocorram em combate, violação, roubo, saque’, material ‘que possa afetar a imagem das IDF, apresentando-as como um exército de ocupação, destituído de princípios éticos’.”

Que aprendemos com isto, pergunta Ratz, e responde: “Que o Estado de Israel quer preservar, de todas as formas possíveis, o mito fundador da ‘israelidade’: de que somos o exército e a sociedade mais morais do mundo. O que nós, o público, encontramos, quando vamos aos arquivos, é o que passou este filtro. Ou seja, material que mostra que não houve expulsão, que não houve transferência de população, não houve destruição de aldeias. Mas isso é mentira.  E o Estado, sabendo que o é, investe tremendos recursos para impedir que, não as pessoas de fora, mas as deste país, descubram a verdade sobre o seu passado”.

Partindo do material recolhido por Ted Katz, o já citado investigador da Universidade de Haifa que no final do século XX fez a sua tese de mestrado sobre a ocupação e depopulação de várias aldeias palestinianas, entrevistando ex-moradores e membros da brigada do exército israelita que tomou Tantura - a brigada Alexandroni -, o documentário vai à procura das testemunhas que restam, incluindo Katz. Este é apresentado como um homem destruído pelo que lhe sucedeu - o processo, a carta de abjuração que assinou e que, por sua vez, quis, sem sucesso, abjurar, e o facto de a sua universidade, que lhe tinha outorgado uma ótima nota na defesa da tese, lhe ter imposto que a revisse, impedido-o de prosseguir o doutoramento.

O filme é um documento avassalador, sobretudo pelos testemunhos de membros da brigada Alexandroni que reconhecem a existência de crimes de guerra e contra a humanidade - execução de prisioneiros desarmados, violação de mulheres, ocultação dos mortos em valas comuns. Ainda assim, há quem o considere, e ao alegado “grande massacre”, uma fraude. É o caso do historiador Ben Morris, que diz ter sido entrevistado por Schwarz “durante mais de duas horas” e descoberto que nem aparece no documentário.

Se houve um massacre em Tantura, porque não é referido na historiografia árabe?

Num artigo publicado em 2022 no diário israelita de esquerda Haaretz, Morris, que recentemente qualificou a ocupação israelita da Cisjordânia como “um regime de apartheid baseado não na raça, como o da África do Sul, mas no nacionalismo”, diz que Schwarz não quis incluir no filme a sua visão porque contradizia a narrativa que queria vender, a de que “os judeus se portaram como nazis”. A visão de Morris, que explica no texto, é que se há historiadores israelitas, como ele próprio - num artigo de 2004 intitulado The Tantura “massacre” affair- a reconhecer que os soldados israelitas cometeram “pequenos crimes de guerra” em Tantura [execução de sete snipers palestinianos, violações e saques], rejeitam a narrativa do “grande massacre”. 

“Se houve um massacre de 200 a 250 pessoas em Tantura, terá sido o maior dos massacres de 1948. Mas não existe nenhum documento disponível de 1948 que mencione um massacre em Tantura (…). Estranho, muito estranho, porque todos os massacres perpetrados por judeus em 1948 são pelo menos mencionados, se não mesmo descritos, em documentos de 1948 (…). Deir Yassin, Burayr, Ein Zeitun, Lod, Hunin, Dawayima, Eilabun, Arab al-Mawasi, Majd al-Kurum, Saliha, Jish, Safsaf, Bi’na-Deir al Asad – os massacres perpetrados pelos judeus nestes locais e outros são todos mencionados em documentos contemporâneos, alguns em detalhe. Só não o de Tantura - nenhuma menção”, escreveu Morris no artigo de 2022, perguntando: "Alguém acredita que entre os mil deportados, que já não estavam sob controlo judaico, nem um se tenha incomodado em dizer aos oficiais iraquianos ou à ONU ou à Cruz Vermelha que, já agora, tinham assistido a um massacre horrendo dos seus pais, irmãos, filhos (…)?” E conclui: “É simplesmente inconcebível, se tivesse ocorrido um massacre em larga escala que eles tivessem testemunhado ou do qual pelo menos tivessem ouvido falar.”

Outro argumento que lhe parece decisivo no sentido de refutar a narrativa do “grande massacre de Tantura” é a inexistência de menção na historiografia árabe/palestiniana credível: “Um memorando do Alto Comissariado Árabe intitulado ‘As atrocidades dos judeus’, enviado para a ONU em julho de 1948, não menciona Tantura (…). O livro considerado a bíblia da Nakba, os seis volumes intitulados Al-Nakba, publicados entre 1956 e 1960 pelo cronista Are al-Aref, não menciona um massacre em Tantura. Tão-pouco Walid Khalidi, o mais importante e mais sério dos historiadores palestinianos, menciona um massacre em Tantura, apesar de dedicar duas páginas e meia à aldeia no seu enciclopédico livro de 1992 sobre as aldeias perdidas, All that remains/Tudo o que resta.” 

Por fim, respondendo ao artigo, também no Haaretz, em que, segundo ele, Schwarz o tenta apresentar como um negacionista da Nakba, Morris adverte: “É possível sustentar que não houve ‘um massacre em larga escala’ em Tantura e ainda assim afirmar que judeus massacraram árabes noutros locais e que os palestinianos sofreram uma ‘nakba’ (catástrofe).”

O DN tentou chegar à fala com membros do Coletivo pela Libertação da Palestina para os confrontar com a acusação, expressa pelo CDS/PP referindo a ação contra o restaurante de Elad Budenshtiin e Itamar Eliyahu, de crime de ódio e antissemitismo. O CLP, que no seu manifesto assevera rejeitar “qualquer tipo de perseguição ou discriminação de pessoas com base nas suas características, como retórica anti-árabe ou antissemita” e só criticar “posições políticas”, optou por não responder.

Em 14 de junho, o DN pediu à PGR informação sobre a eventual abertura de um inquérito relacionado com a pichagem do Tantura, e sobre se este, a existir, investigaria o eventual cometimento de um crime tipificado no artigo 240º do Código Penal (Discriminação e incitamento ao ódio e à violência), não tendo obtido resposta até ao momento. 

https://www.dn.pt/2909639589/nao-sabiamos-das-alegacoes-sobre-um-massacre-de-palestinianos-em-tantura/

terça-feira, 15 de agosto de 2023

Fernanda Câncio - Clericalismo e anticlericalismo, uma introdução

 OPINIÃO

* Fernanda Câncio 

15 Agosto 2023 

Mais de um século após a 1ª República e no ano em que finalmente se revelou a diabólica dimensão dos crimes de abuso na Igreja Católica portuguesa, descobrimos que um furor clerical tomou conta dos representantes do Estado e das autarquias, e que ser anticlerical é descrito como ódio e fobia. Há coisas do demónio.

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Achava que já tinha escrito que chegasse a propósito da Jornada Mundial da Juventude, mas a possessão beata dos representantes do Estado e autarquias portuguesas não permite mudar de assunto.

Não bastou, portanto, torrar dezenas de milhões de euros numa semana de propaganda religiosa de uma igreja, nem vermos o primeiro-ministro a determinar, definitivo e autocrático, como "absurdas essas polémicas" - as sobre os gastos - assegurando de seguida que o tal retorno incrível que ia haver de todo esse investimento é "imaterial" (em lugares no céu?). Não chegou termos a conversão televisiva do presidente da Câmara de Lisboa em porta-cruzes. Não chegou termos todos os canais de televisão trasladados em canção da boa-nova ou lá como se chama aquilo. Não chegou sermos setenta vezes sete vezes esbofeteados com a certificação de que como "80% do país é católico porque Censos" quem não for católico ou quem, sendo-o, defenda a laicidade tem mais é de ficar bem caladinho e perguntar se querem mais um café ou um copo de água ou umas dezenas de milhões de euros, por obséquio.

Não: tínhamos ainda de ver uma autarquia - a de Oeiras - mandar retirar, na véspera da chegada do papa, um cartaz que, custeado por um crowdfunding de 300 cidadãos, lembrava e honrava, à guisa do memorial prometido que não aconteceu, as 4800 vítimas estimadas de abuso sexual na Igreja Católica portuguesa desde 1950. Tínhamos de ver uma autarquia - a de Loures - "convidar para a missa" os seus munícipes, como se uma missa, católica ou de outro culto qualquer, fosse uma espécie de concerto do Tony Carreira ou dos Xutos oferecido pelo município para alegrar os cidadãos. Tínhamos de ver um autarca - Moedas, de novo - a anunciar que decidira nomear um equipamento público, a ponte sobre o rio Trancão, "Cardeal Dom Manuel Clemente", calcando as regras municipais para a toponímia que implicam não apenas votação camarária e apreciação pela comissão criada para esse efeito como, por regra, só atribuir o nome de quem tenha morrido há pelo menos cinco anos (isto para não falar da genuflexão daquele "Dom"). E tínhamos ainda de ver a conta Twitter oficial da Câmara de Lisboa a "ocultar" (censurar, portanto) respostas a esse anúncio que se limitavam a reproduzir o cartaz com o número de vítimas de abuso, chegando até a bloquear quem assim respondia. Uma conta oficial de uma autarquia a tratar como difamação, insulto ou calúnia os números da comissão nomeada pela própria Igreja Católica.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Fernanda Câncio - Bem-vindos à fakedemocracia

Primeiro nos EUA e depois no Brasil, o assalto aos símbolos do poder democrático por quem recusa, em nome do "povo", o resultado de escrutínios eleitorais coloca-nos perante a evidência de que democracia, justiça e bem são noções que variam de acordo com quem ganha ou perde - como no futebol.

Fernanda Câncio

10 Janeiro 2023 

Neste domingo em Brasília, como a 6 de janeiro de 2021 no assalto ao Capitólio, pudemos ver em direto, ou quase em direto, as imagens dos assaltantes por si próprios, filmando tudo e filmando-se, através da partilha orgulhosa nas redes sociais - como quem não coloca sequer a hipótese de estar a cometer um crime e portanto a oferecer às autoridades as provas e identificação necessárias para os encontrarem e processarem.

Podemos, é claro, explicar isso com a excitação, aliada à falta de inteligência - ou ingenuidade, se quisermos ser caridosos. Mas sendo do conhecimento geral que muitos dos assaltantes do Capitólio foram identificados e acusados com base nas imagens partilhadas pelos próprios ou por companheiros de assalto, talvez seja avisado pensar noutras explicações.

Além de todos os motivos tontos, que também existem, como o da compulsão da selfie, aquelas pessoas querem mostrar-se naquele assalto porque consideram estar a fazer algo heroico, pelo bem, e ter com elas, por elas, muita gente, que pensam poder "levantar", contagiar, ganhar, com a partilha. Não é só o assalto que é uma ação política - a partilha faz parte da ação, como modo ostensivo de demonstrar que não só quem protagoniza não aceita a ideia de estar a cometer um crime como despreza quem assim o possa considerar. Porque, e o sequestro das cores do país e da sua bandeira como símbolos do movimento significam isso, para quem ali está, aquele é "o verdadeiro Brasil", o verdadeiro "povo".

Justamente, na entrada de um dos edifícios, ouve-se um dos assaltantes dizer: "Já está tomado, estamos na casa do povo." Se a casa é do povo, e se aquele é o povo, não há crime, pelo contrário; trata-se de retomar legitimamente o que foi roubado, segundo o princípio básico da democracia - um governo do povo, para o povo e pelo povo.

E nesse sentido não há nada mais simbólico que as filmagens da entrada no Supremo Tribunal e da sua destruição, como o empunhar ante a multidão, por um dos assaltantes, daquilo que sabemos agora ser uma cópia da Constituição de 1988 (a filmagem começou por ser partilhada referindo que se tratava do original).

Que vemos ali? Uma deslegitimação do regime através da dessacralização da sua lei fundamental e do tribunal que tem por função interpretá-la e aferir por ela quaisquer leis e práticas, ou uma pretensa recuperação, pelo "povo" que os assaltantes creem representar, dos princípios constitucionais que proclamam dar-lhes razão (um dos artigos da Constituição tem sido sistematicamente invocado pelos bolsonaristas como fundamento para um golpe militar)?

Na verdade, para aquelas pessoas, como para os assaltantes do Capitólio, a convicção de que estão perante um roubo não tem sequer de se fundar na ideia, alegada quer por Trump e trumpistas quer por Bolsonaro e bolsonaristas, de que houve uma fraude eleitoral. Há uma espécie de conclusão tautológica: se não foi ao seu lado, ao seu candidato, que foi reconhecida a vitória, então a eleição não foi justa. Como para os fanáticos futeboleiros, qualquer derrota só pode explicar-se por "roubo", qualquer resultado que não o desejado só pode ser ilegítimo.

Assim, as mesmas regras e instituições que serviram para dar a vitória a Trump e Bolsonaro deixam de ser credíveis quando são derrotados. A democracia só é democracia se ganharem; as leis e os tribunais só são para respeitar se prenderem Lula; quando o soltam passam a não valer nada.

Os mesmos que exigiam "lei e ordem" e uma "intervenção militar" para "repor a legalidade" podem então escavacar edifícios públicos, roubar artefactos valiosos, esfaquear quadros, defecar nos gabinetes, espancar polícias (os polícias que os enfrentaram; também os houve) e os seus cavalos, num festim de ódio e absurdo.

Queremos acreditar que este espectáculo indecente terá o efeito contrário do pretendido; que nos muitos milhões que votaram em Trump e Bolsonaro - lembremos que perderam por muito pouco - há uma maioria que não se revê nos assaltos de janeiro de 2021 e 2023. Que acontecimentos como estes contribuem para enfraquecer a respetiva base de apoio, alienando muita gente, e são por isso erros políticos - e Lula, depois de uma primeira reação destemperada no domingo, soube esta segunda-feira corrigir o tom e o discurso de modo a ir ao encontro de quem, não tendo votado nele, se queira demarcar do ocorrido.

Aliás, de tal modo o que aconteceu pode revelar-se danoso para o bolsonarismo que há quem esteja já a pôr a hipótese de que a aparatosa ausência de reação policial em Brasília foi fruto de um maquiavelismo - o de permitir que os vândalos agissem à vontade, de modo a que Bolsonaro e o seu movimento caíssem em desgraça, perdendo apoio nacional e internacional.

É verdade que internacionalmente Bolsonaro viu até líderes de extrema-direita como a primeira-ministra italiana Giorgia Meloni demarcarem-se de modo inequívoco do sucedido (quiçá vêm daí as fortes dores de barriga que, dizem-nos, o acometeram na Florida), e que o próprio, isolado, amedrontado e sonso, acabou por fazer o mesmo. Mas aquilo a que assistimos nos EUA e agora no Brasil (e mais ainda porque se repetiu no Brasil depois de acontecer nos EUA, em óbvia remake do filme americano) não é apenas um sinal daquilo que já sabemos - que no seio das democracias estão a crescer exponencialmente movimentos cujo intuito, consciente ou inconsciente, é derrubá-las, chegando ao paradoxo de exigir, como o fazem os bolsonaristas, a implantação de ditaduras militares como "salvação" do país e do próprio regime democrático.

Estes acontecimentos medonhos demonstram que a ideia de democracia se transformou, para muita gente, num conceito plástico, vazio, que não corresponde a qualquer conjunto de princípios. Uma espécie de fakedemocracia, ou democracia alternativa - como as fake news e os factos alternativos, é o que der jeito no momento.

 

https://www.dn.pt/opiniao/bem-vindos-a-fakedemocracia-15629461.html

terça-feira, 27 de abril de 2021

Fernanda Câncio - "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo"

COLONIALISMO

Relatórios da administração colonial que denunciam "o bafio da escravatura" e uma diplomacia que tenta negar as acusações internacionais e adiar ao máximo a mudança: Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, de José Pedro Monteiro, é um testemunho poderoso sobre o ocaso do Império português.

Fernanda Cânciocoo

29 Dezembro 2018 — 15:00 

"Tratados como animais bravios", agrilhoados, chicoteados, espancados, "arrebanhados no mato", com alta taxa de morte no transporte, mantidos décadas longe da família, à qual eram por vezes devolvidos em "estado de morto de pé", "grávidas e mulheres com filhos monstruosamente espancadas por abandonarem o trabalho": as descrições e observações encontradas nos relatórios da administração colonial portuguesa chocam pela crueza e naturalização daquilo a que um inspetor chama, em 1949, "o cheiro a bafio da escravatura".

Apesar de os castigos físicos serem proibidos por lei e de o próprio trabalho forçado ter sido, a partir da publicação do Código de Trabalho Indígena, de 1928, interditado exceto "para fins públicos" - e mesmo assim apenas quando estivesse em causa o interesse das populações que eram para ele mobilizadas --, as autoridades coloniais continuaram, pelo menos até aos anos 1960 (o Código de Trabalho Indígena só é revogado em 1962, sendo substituído pelo Código de Trabalho Rural, que deixa de ter referência racial e proíbe todas as formas de trabalho forçado, incluindo para fins públicos), a servir de recrutadoras compulsivas para privados - tratava-se, na linguagem de então, de "contratos com facilidades" -- e a aceitar as punições corporais com naturalidade, como vários relatórios reconhecem.

A candura destes relatórios e a forma como alguns inspetores ou outros membros da administração colonial exprimem a sua discordância e até revolta face à situação - um deles chega a escrever, referindo, em 1949 em S. Tomé, a existência de "grilhetas superiores a dois metros" e o facto e de o governador certificar que "só ele podia ordenar punições": "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo!" - é, para o leitor não especialista, uma das grandes surpresas que resulta da leitura de Portugal e a Questão do Trabalho Forçado/Um império sob escrutínio (1944-1962), do historiador José Pedro Monteiro, publicado este mês, e que, nas palavras do próprio, "mobilizando fontes inéditas, ilustra, pela voz de administradores imperiais e locais e de testemunhas autóctones, algumas realidades laborais e sociais vigentes nas colónias, permitindo, deste modo, cotejá-las tanto com as denúncias que se produziram internacionalmente como com os esforços de refutação oficial, frequentemente de natureza propagandística."

"É impressionante, no mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos por ofensas corporais" ", escrevia, por exemplo, em 1944, o inspetor Nunes de Oliveira; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles, por essa razão; eles constituem uma considerável multidão, de algumas dezenas de milhar, dispersos pela densa floresta, e os agentes dos patrões que têm de os conduzir, só tal conseguem impondo-lhes uma disciplina severa, disciplina que só se consegue por meio de sanções expeditas e bem sentidas."

"É impressionante, no mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos por ofensas corporais" ", escrevia em 1944 um inspetor; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles,"

É, recorda José Pedro Monteiro, o mesmo ano do célebre relatório choque que o inspetor-geral da Administração Colonial Henrique Galvão apresenta à Comissão das Colónias da Assembleia Nacional (o nome então dado ao parlamento), no qual informa que "o trabalho forçado ou "contratado" era a norma, as condições de vida miseráveis, a corrupção entre as autoridades generalizada", chegando mesmo a dizer que os escravos eram melhor tratados que os trabalhadores forçados, já que aos primeiros, sendo sua propriedade, o dono se esforçava por manter vivos e com saúde, enquanto que os segundos, se morriam de fome ou exaustão, eram substituídos por mais trabalhadores "recrutados" pelo Estado. Um excerto do relatório de Galvão: "A mortalidade infantil atingia a percentagem de 60%. O índice de mortalidade era de 40%, mesmo entre os trabalhadores na plenitude da vida. As figuras era mudas, estáticas. Não gritavam, não falavam de dor. Era preciso ver com os próprios olhos, era preciso encorajar até aqueles que queriam ver"

"Grilhetas ao pescoço" e chicote

Nada que devesse surpreender quem vinha lendo os documentos das inspeções "normais". Seis anos antes, diz José Pedro Monteiro, "um relatório do Curador Geral dos Indígenas de Angola relatava que os "indígenas" sentiam tal "horror" pelo contrato que, no Lobito, se tinha dado um episódio em que uns quantos se tinham lançado ao mar para lhe escapar. (...) O mesmo curador relembrava uma nota confidencial, relativa à intendência do Moxico, em que se informava que não havia capacidade para recrutar trabalhadores para a Companhia de Diamantes de Angola porque todos os "indígenas" que podiam ser recrutados tinham desaparecido. "A excepcional mortalidade entre os indígenas em serviço naquela companhia e o "Estado de Morto em pé" com que todos têm sido repatriados, alguns indígenas que morrem pouco depois [de aqui] chegar, e, ainda, os que com o corpo mutilado conservam a vida e vivem actualmente pedindo esmola, sem receber qualquer indemnização da Companhia, constituem, como todos nós sabemos, a razão da relutância que os indígenas mostram por aquele serviço"".

E em 1945, lê-se em Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em "contrato", a receber metade do salário (...). Invocava-se ainda um relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, em que se relatava a existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados, do que decorria, segundo o raciocínio do inspetor, que era preciso pensar estes incidentes à luz do que vinha ocorrendo nos fora internacionais, onde os Estados Unidos vinham censurando a solução colonial."

"Em 1945 o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em "contrato", a receber metade do salário (...)". Num relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, relatava-se a existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados."

Já em 1951, o encarregado de serviços da Inspeção Superior de Negócios Indígenas, após um introito no qual "enaltecia a essência humanista e benévola da intervenção portuguesa em territórios coloniais", prosseguia "desfiando um rol de iniquidades e abusos. Referia-se à taxa de mortalidade no transporte de 650 indígenas que era de 15,38 por mil quando comparados com os 4,25 por mil registados nas minas da África do Sul, um trabalho, já de si, extremamente perigoso; aos acidentes de trabalho que eram dados como ocorridos nas horas de descanso, como forma de desresponsabilização, o mesmo recurso estatístico usado também para os classificar como "agonias e congestões"; aos inválidos que eram obrigados a trabalhar em S. Tomé ("verdadeiros farrapos humanos") por salários miseráveis; que não eram pagas às famílias as indemnizações por morte de trabalhadores em S. Tomé; que milhares de "indígenas" ficaram mais de uma década para além do termo oficial do seu contrato sem serem repatriados; que os salários em Moçambique e especialmente em Angola chegavam a constituir cerca de um sétimo dos valores na África do Sul e menos de metade dos salários da Rodésia; que mulheres de trabalhadores eram sistematicamente violadas por grupos de serviçais enquanto outras grávidas e mulheres com filhos eram "monstruosamente espancadas com mais de 50 palmatoadas" por terem abandonado o trabalho.""

Muito impressionante também é um relato de 1949, referente ao "caso dos Tongas" (filhos de trabalhadores deslocados de outras colónias para trabalho em São Tomé, que nunca tinham vivido na colónia dos seus pais): "Muitos deles alegavam que desejavam reencontrar suas famílias, mas o governador-geral de S. Tomé simplesmente entendia que era um desejo descabido, visto não conhecerem as famílias, não saberem onde estavam nem sequer se ainda existiam. Ressalve-se que eram indivíduos com todas as obrigações fiscais e militares cumpridas. Mas eram também "fortes e saudáveis, educados numa vida de trabalho" e, como tal, o seu repatriamento devia-lhes ser negado, justificava o governador."

Não é possível saber, escreve José Pedro Monteiro, "o destino destas populações, mas a simples ideia de que o governador entendia possível mantê-las em S. Tomé revela os termos do debate em matéria de liberdade de trabalho. O relatório é ainda ilustrativo no sentido em que o funcionário da ISNI, no ensejo de contrariar a vontade do governador, elencava um conjunto de informação crítica. Desde logo, referia que serviçais havia que tinham estado entre 10 a 30 anos nas ilhas e que, se o seu contrato tivesse sido cumprido, o problema dos "Tongas" simplesmente não se punha. Recuperava um trecho do relatório do curador que os descrevia como "acabrunhados e tristes" e sem qualquer ideia do que era um contrato livre. Como finalizava o relator: "As expressões "os meus tongas" ou "tongas das roças" "embora se autorizem a mudar de situação", como se diz no ofício, cheiram ainda a bafio de escravatura"."

As descrições são arrasadoras, e muitas até agora inéditas. Constituindo uma versão editada e revista da tese de doutoramento do autor, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o livro procura dar a compreender "como e porquê as modalidades de trabalho coercivo se mantiveram política e socialmente aceitáveis no seio da burocracia imperial portuguesa por um período consideravelmente mais longo que noutros impérios europeus; porque estavam as propostas que procuravam pôr-lhes termo tão recuadas face às normas internacionais; e, finalmente, porque e como foi finalmente concretizada a reforma que lhes pôs termo, ainda que de modo meramente formal."

O historiador, de 34 anos, que investigou em vários arquivos -- no arquivo Histórico Diplomático, no Arquivo Histórico Ultramarino, na Torre do Tombo ("Onde havia pouca coisa"), e também nos da Organização Internacional do Trabalho em Genebra, da ONU, nos National Archives nos EUA bem como nos arquivos britânicos, em Kew - conversou com o DN sobre o seu trabalho.

Houve alguma coisa que o tenha surpreendido ou chocado particularmente nas suas leituras?

Houve relatórios que li, que fiquei... Uma pessoa pode-se chocar. Nos debates sobre a escravatura diz-se muito que é preciso olhar com os olhos daquele tempo. Curiosamente esse é um dos motivos pelos quais o facto de a abolição da escravatura ter resultado na generalização do trabalho forçado faz com que com que nas discussões públicas a questão do trabalho forçado quase não apareça. Porque se torna um bocadinho mais complicado poder dizer "ah, temos de olhar com os olhos daquele tempo." Não, aos olhos daquele tempo o trabalho forçado já era condenado de forma unânime. Não é por acaso que nos debates sobre a escravatura se alguém quer falar do trabalho forçado vem o "isso era outra coisa". Reforçando uma distinção legal que não é confirmada pela continuidade das práticas.

https://www.dn.pt/pais/e-manda-ainda-o-senhor-deus-pretos-a-este-mundo-10343094.html


Fernanda Câncio - Marcelo e o Portugal mais que imperfeito

* Fernanda Câncio

Em 2017, oito alunos de história do 12.º ano do Liceu Camões aceitaram falar com o DN sobre a forma como viam o passado imperial e colonial português. Para estranheza da própria professora, a maioria reproduziu o mito de que Portugal foi pioneiro na abolição da escravatura, em 1761 (altura em que foi abolida a escravatura apenas no território de Portugal "metropolitano" e mesmo assim não completamente). Do mesmo modo, quando questionados sobre o que sucedera aos escravos depois de em 1869 se ter dado a oficial abolição da escravatura em todos os territórios nacionais, muitos ficaram interditos. Um afirmou: "Então, deram-lhes o estatuto igual aos das outras pessoas."

Não é espantoso. A maioria esmagadora dos portugueses, atrevo-me a dizer - eis uma sondagem que gostava de ver - continua a achar que "fomos os primeiros a abolir" e desconhece totalmente o facto de à escravatura dos negros se ter seguido o trabalho forçado, só formalmente abolido em 1962. Essa realidade do trabalho forçado, que em pouco se distinguia da escravatura, atravessou o final do século XIX, a Primeira República e praticamente todo o Estado Novo. Nas leis, os negros classificados como "indígenas", ou seja a maioria da população de Moçambique, Angola e Guiné, eram excluídos da cidadania e tratados como sub-humanos - constatação que o próprio regime salazarista fez através dos seus documentos internos, como demonstra o historiador José Pedro Monteiro em Portugal e a questão do trabalho forçado (Edições 70, 2018).

A esmagadora maioria dos portugueses, dizia, desconhece estes factos, e desconhece-os não porque eles não estejam amplamente estudados por gerações de historiadores e investigadores académicos, com vasta obra publicada sobre a matéria, mas porque disso pouco tem passado quer para a discussão pública quer, o que é fundamental, para aquilo que se aprende na escola e se lê nos manuais do ensino básico e secundário. E não passa porque haja uma determinação consciente e malévola de mentir, mas porque coletivamente nos apegámos à mistificação.

O problema não é, ao contrário do que se possa crer, exclusivo de pessoas "pouco cultas". Ainda há poucos meses um reputado constitucionalista português me asseverava que o "nosso" regime colonial não foi racista. Quando lhe retorqui com alguns factos básicos - nomeadamente a instituição do trabalho forçado e a lei do indigenato - respondeu-me "era assim também nos outros países". Só ficou sem argumentos quando lhe lembrei que data de 1930 a convenção da Organização Internacional do Trabalho - só ratificada por Portugal em 1956, com prazo de cinco anos para aplicação - obrigando os signatários a acabar com o trabalho forçado no mais curto prazo possível, e que os próprios relatórios dos funcionários coloniais portugueses comparavam, até ao final dos anos 1950, a realidade do trabalho forçado à da escravatura, descrevendo castigos corporais com chicote e grilhetas e chegando a dizer que o primeiro era pior que a segunda, já que nesta ao menos o dono não estava interessado em matar o escravo já que pagara por ele, enquanto no trabalho forçado tanto lhe fazia: se morria pedia outro.

A ideia de que "não se pode olhar para a realidade do passado com os olhos de hoje", tão usada a propósito da história imperial e colonial portuguesa, soçobra perante a evidência de que estamos também a falar de coisas que se passaram há menos de 100 anos, quando outros países ocidentais já tinham iniciado a descolonização e quando eram muitas as vozes, inclusive em Portugal e nas colónias, a criticar - e a lutar contra - o que se passava. Muitos dos olhos de então já olhavam aquela realidade como a olhamos hoje, como iníqua, ilegítima e brutal.

E sim, vem todo este grande introito a propósito do discurso de Marcelo neste 25 de abril - um discurso notável, talvez o melhor que já lhe ouvi, e no qual teve a inteligência de sublinhar a sua condição de filho do último ministro das Colónias e de um dos últimos governadores de Moçambique, testemunha privilegiada (em vários sentidos) do ocaso do império e da ditadura colonial.

Esta assunção da sua condição pessoal - que aliás repetiria a seguir num encontro com capitães de Abril e jovens, no qual também fez um discurso muitíssimo interessante - tem um propósito mais ou menos claro: o de demonstrar, e bem, que o 25 de Abril é simultaneamente rutura e continuidade. Como ele, filho de um alto dignitário da ditadura que faria parte da Assembleia Constituinte de 1975 e acabaria duas vezes eleito presidente da democracia, os militares que fizeram o golpe "não vieram de outras galáxias, nem surgiram num ápice daquela madrugada para fazerem história. Traziam já consigo a sua história." E a sua história eram "as suas comissões em África, uma, duas, três, até quatro, (...) tudo em situações em que a linha que separa o viver ou morrer é muito ténue."

Eram pois os soldados do regime colonial, algozes, ocupantes, matadores, até serem os heróis da libertação. Sabemo-lo, ou devemos sabê-lo - mas saberá Marcelo distinguir entre quem retirou dessa experiência a deliberação de acabar com ela e quem, como Marcelino da Mata, a cujo enterro foi há meses como presidente, ou seja em nome de todos nós, se gabava dos seus crimes nessa guerra e louvava a ditadura?

É que esse é o problema: distinguir. E Marcelo, como a maioria esmagadora dos políticos da democracia, sejam como ele filhos de homens da ditadura ou como António Costa de oposicionistas, têm mostrado dificuldade nessa distinção e nesse olhar para trás, na capacidade de traçar a linha entre o que é admissível e até celebrável e o que deve ser censurado - porque é preciso dizer que houve coisas censuráveis e criminosas, por mais que tenham feito parte de um contexto.

Daí que seja tão bem-vinda a exortação do presidente para "que se faça história, história da história, que se tirem lições de uma e de outra, sem temores sem complexos", o reconhecimento de que "é prioritário estudar o passado e nele dissecar tudo, o que houve de bom e o que houve de mau. (...) Que saibamos fazer dessa história lição de presente e de futuro. Sem álibis nem omissões (...)."

É isso mesmo. Ou seria, se a seguir não acrescentasse: "É prioritário assumir tudo, todo esse passado, sem autojustificações ou autocontemplações globais indevidas nem autoflagelações globais excessivas (...) nem apoucamentos injustificados." É de novo a preocupação com "a visão auto flageladora da nossa história" que vimos recentemente em António Costa, preocupação extraordinária num país que até hoje se encarniça em negar "o que houve de mau" ou chega mesmo a celebrá-lo; preocupação contraditória num discurso presidencial que nos diz que temos de olhar a história também "pelo olhar dos colonizados".

Olharmo-nos pelo olhar dos "descobertos", dos submetidos, dos colonizados e dos seus descendentes não é só dizer que "nunca houve um Portugal perfeito" - a melhor frase do discurso do presidente. É sobretudo reconhecer o que desse passado mais que imperfeito resta em nós como país, denunciá-lo e combatê-lo. Aquilo, suspeito, a que Marcelo chama "excesso".

Jornalista

NOTA:

Na semana passada, escrevi sobre o Primeiro Plano Nacional Contra o Racismo e o ensino de história no básico e secundário, sob o título Implodir o padrão dos descobrimentos. Cometi erros no que escrevi e fui para isso alertada pela Associação dos Professores de História, por via de um email do seu presidente, Miguel Monteiro de Barros, pelo que me apresso a corrigir, agradecendo a retificação, que foi também colocada no artigo em questão.

Nesse artigo, lê-se: O programa de história do básico e secundário não mexe desde 2002 - ou seja há praticamente 20 anos. A responsabilidade pelos programas, como pela aprovação dos manuais, é das associações de professores - neste caso os de história; os governos limitam-se a homologar. É pois importante saber como a Associação dos Professores de História tenciona pôr em prática o plano de combate ao racismo na sua disciplina; como pensam contribuir para desfazer estereótipos e complexificar a visão romantizada dos "descobrimentos" e daquilo que se lhes seguiu, exorcizando a ideia verdadeiramente insultuosa de que o colonialismo português "não foi racista".

A APH retifica: "O documento curricular de referência já não são os programas, mas as Aprendizagens Essenciais (AE), elaboradas pela Associação de Professores de História, após consulta pública, e homologadas pela DGE (Direção Geral da Educação). O processo de elaboração das AE iniciou-se em 2016, tendo estas sido homologadas em 2018. Esta foi a primeira vez que a Associação de Professores de História foi parceira no processo de elaboração de um documento curricular basilar, nunca antes participou na elaboração de qualquer programa disciplinar, apenas foi consultora."

Parte do erro deveu-se ao facto de me ter baseado na informação que tinha recolhido em 2017 para um artigo sobre os programas e manuais, não me tendo dado conta de que entretanto (em 2018) tinha havido alterações.

Mais uma vez baseando-me nessas informações recolhidas em 2017, afirmei também no referido artigo de opinião que os manuais escolares eram aprovados (querendo dizer certificados) pela APH. Esta nega: "A Associação de Professores de História, tal como acontece com os programas, não possui quaisquer competências para "aprovar manuais". As editoras editam os manuais, sendo estes certificados, atualmente, por centros de certificação existentes em diversas universidades e institutos politécnicos, designados pela tutela. A Associação de Professores de História não tem nada a dizer sobre o assunto."


https://www.dn.pt/opiniao/marcelo-e-o-pais-mais-que-imperfeito-13614976.html

sábado, 6 de março de 2021

Fernanda Câncio - "Não houve nenhum comunista que não tivesse morrido sem ver a utopia realizada"

O que é, como é, para que é ser comunista em 2021, em Portugal, 173 anos após a publicação do manifesto comunista e no centenário do PCP? Como se lida com o declínio da expressão eleitoral, a "falência das grandes narrativas", o abjurar dos regimes farol e a conversão ao parlamentarismo? Sete jovens comunistas respondem.

Fernanda Câncio

06 Março 2021 — 00:29

"Quando os comunistas aparecem na vida de alguém é uma faca de dois gumes. Porque nos acordam para o que nos rodeia e ficamos quase deprimidos com a vantagem que o capitalismo nos leva. Mas também nos inserem num coletivo que dá esperança."

Guilherme Freches, 28 anos, foi uma das pessoas que responderam ao apelo feito no Twitter para que "comunistas novos, médios e antigos" falassem para esta reportagem.

E comunista é, declara. O que passa por "dois pontos: acordar para as contradições do sistema capitalista em que vivemos, perceber que existe uma classe de exploradores e outra de explorados, e que isso não tem nada a ver com o nível de riqueza do explorado - posso trabalhar na Google e receber 250 mil euros por ano e continuo a ser explorado por causa da mais-valia do meu trabalho -, e a ação no dia-a-dia, de acordo com a realidade onde vivemos." Que significa, explica, "mesmo não havendo as condições para passar para a sociedade sem classes, lutar para minimizar as consequências do capitalismo. Ser comunista não é só dizer que o capitalismo é mau. Não é por exemplo um aumento de 10 euros nos salários que vai trazer o socialismo - mas vai melhorar as condições de vida das pessoas. Fazemos o que podemos."

Natural do Fundão e engenheiro, Guilherme, que está a fazer uma tese de doutoramento sobre neurociência na Holanda depois de ter feito investigação em Portugal e de ter trabalhado na banca, foi cabeça de lista pela CDU à Assembleia Municipal nas últimas autárquicas e eleito como deputado municipal. Mas apesar de ter entrado na Juventude Comunista Portuguesa (JCP) aos 16 e de sempre ter votado no PCP não é militante do partido por, explica, "não me conseguir descrever como marxista-leninista."

Marxismo tudo bem, prossegue. "Mas o PCP é marxista-leninista e tenho uma discordância respeitosa com o leninismo. Não concordo com a ideia do partido de vanguarda, em que há a figura dos revolucionários profissionais, os que têm de fazer a revolução antes dos trabalhadores. Acho que antes de se fazer uma revolução tem de se pôr o povo desse lado."

Além disso, diz, "trabalho em ciências exatas, não sou um filósofo, não tenho bagagem de pensamento marxista muito pura. Tenho receio de dizer coisas da boca para fora que possam chocar com o partido, mesmo se nunca senti marginalização por exprimir certas opiniões que não iam ao encontro da opinião maioritária, tenho uma relação muito boa com o partido mesmo se às vezes discordo."

De resto, o chamado "centralismo democrático" não o preocupa. "Há uma discussão forte dentro do partido e depois chega-se a uma conclusão e para."

"Não posso fingir que não vivo no mundo onde vivo"

A eutanásia é uma das suas discordâncias face à linha oficial. Mas crê injusta a crítica recorrente que se faz ao PCP de ser "muito conservador em termos de costumes": "Acho que tem mais a ver com o partido não concordar com lutas que podem ser instrumentalizadas. Mas admito que o Bloco - que não vejo como adversário - apanhou as lutas contra a homofobia e o machismo, por exemplo, e o PCP perdeu por falta de comparência. E por vezes não tem conseguido passar bem a mensagem."

Aquilo que é descrito como "ortodoxia", uma das acusações mais comummente feitas ao PCP, não o incomoda, porém. "Não acho que seja necessariamente uma coisa má, porque associo à consistência. Mesmo se não tenho problemas em votar num partido que muda de opinião". Por exemplo "o PCP tem feito um esforço, nos últimos tempos, para mostrar que não tem modelos em regimes doutros países, e não foi sempre assim."

Não foi decerto - e nota-se que o PCP só se demarcou dos regimes de leste ou de determinadas lideranças - Estaline, é um caso flagrante - quando estes caíram; enquanto estavam de pé recusava qualquer crítica e alegava não poder julgar por "não ter conhecimento". Guilherme justifica: "Há análises, sobre a URSS, por exemplo, que só mais tarde se fazem. O PCP com a sua longa idade entende que há processos que só ao longo de um certo tempo se percebem. E tem uma ligação emocional que não lhe permite fazer um corte de relações, por causa das relações de amizade que teve com os países." É ligação emocional ou incapacidade de reconhecer erros? Guilherme responde por si: "Se faço elogios à Coreia do Norte só pelo facto de resistirem ao imperialismo americano? Não, não faço."

Nascido numa família "que vota à esquerda mas sem tradição comunista", mãe animadora cultural e pai engenheiro civil, entrou na JCP depois de uma epifania na apanha da framboesa. "É um trabalho muito duro. Ganhava 23 euros ao dia e nas conversas da hora do almoço percebi que aquilo era vendido a 40 euros o quilo em Inglaterra." Fez as contas ao lucro e percebeu a exploração de que era objeto - a noção do roubo da mais-valia do seu trabalho. Falou com os pais e a mãe, que trabalhava na zona da Cova da Beira, comentou com colegas, alguns deles comunistas, a revolta do filho. "Houve um contacto da JCP comigo e comecei a fazer o percurso normal de ações de organização na escola, de encher autocarros para a festa do Avante!, etc. Quando fui para Lisboa, para estudar no Instituto Superior Técnico, continuei a militância na JCP, cheguei a ser membro da direção da Associação de Estudantes."

Entre as duas fases de investigação, esteve no setor financeiro. "Trabalhar na banca ajuda a descobrir os truques do capitalismo", comenta com uma gargalhada. E pergunta: "Mas onde é que eu como comunista posso trabalhar sendo consentâneo com os meus valores?" A ideia de que o comunista tem de fazer voto de pobreza é, conclui, ridícula: "Não posso fingir que não vivo no mundo onde vivo. É hipócrita participar no sistema enquanto tento derrubá-lo? Não me parece."

"Não vamos derrubar o atual regime pela força"

Derrubar o sistema. Na entrevista que deu à TVI na semana que passou, e a propósito dos 100 anos do partido de que é secretário-geral há quase 17 (desde novembro de 2004), Jerónimo de Sousa disse, enquanto fazia um gesto com a mão como se afastasse algo, uma frase que causou alguma sensação: "Isso da "revolução já" é uma coisa que não acontecerá."

Lida a frase tem duas interpretações possíveis, mas a entoação não parece deixar dúvidas: "a revolução já", ou seja, no imediato, "é uma coisa que não vai acontecer". Como o entrevistador não perguntou se o entrevistado continua a acreditar na revolução, e já agora o que entende por revolução, fica a interrogação, no entanto, sobre o alcance último do que o líder comunista disse.

O açoriano de São Jorge António Machado, 27 anos, militante desde os 18 e como Guilherme deputado municipal da CDU, acha porém "muito fácil perceber o que Jerónimo quis dizer: não vamos derrubar o atual regime pela força e pela via revolucionária." Ri. "Não vivemos propriamente num regime fascista - aí justificava-se uma revolução armada. Eventualmente quem terá ficado chocado são aqueles supostos comunistas que não se identificam com as nossas posições. Estamos entalados entre os que dizem que somos demasiado moderados e outros que dizem que somos a extrema-esquerda. Mas se queremos participar como partido democrático temos de respeitar a Constituição - aliás defendemo-la com unhas e dentes. O que não nos impede de continuarmos a ser o partido revolucionário que nasceu há 100 anos. Nunca nos desfazemos dos princípios. O que passa é que se calhar quando somos mais jovens somos mais radicais, depois ficamos mais calejados."

Calejado aos 27? De um lado e de outro do telefonema há risos. Filho de um político que foi candidato autárquico, como independente, quer do PSD quer do PS e CDU, António, que é licenciado em História e está a terminar o mestrado, sendo professor no terceiro ciclo e secundário, assume ter tido "uma educação muito conservadora", que em nada apontava para a sua opção ideológica - como de resto o lugar onde vive, "não propriamente um viveiro de comunistas, mesmo se ser comunista já foi mais malvisto aqui - havia a ideia de que os comunistas queriam acabar com o tudo o que é propriedade privada, dar tudo aos pobres. Acho que já perceberam que não é assim."

Mas foi lendo coisas - "fui muito autodidata" - e ao chegar aos 18 estava já completamente convicto não só do seu comunismo como de querer fazer parte do PCP. E é o quê, isso? "Acho que o que distingue o PCP dos outros partidos é nunca abandonar o barco da luta por quem trabalha - sempre estivemos ao lado dos trabalhadores, por mais pequena que seja a causa -, e os valores humanos de quem quer estar ao lado dos que precisam."

Uma deliberação de generosidade, solidariedade e empatia que parece no entanto congregar cada vez menos gente - desde os anos 1990 que o PCP/CDU tem vindo a perder eleitorado, e nas últimas legislativas não chegou aos 7%. António puxa da perspetiva histórica: "Estamos a celebrar 100 anos; já nos passaram o atestado de óbito demasiadas vezes para acreditar que isso vai acontecer. Como historiador acredito que são ciclos. E há ciclos negativos, já passámos alguns."

"Poderá nunca acontecer comunismo"

Ainda assim, o PCP é, entre os partidos comunistas da Europa ocidental, dos que mais resistiram; a maioria ou desapareceu ou foi reduzida à insignificância na sequência da chamada derrocada do Bloco de Leste. E ao fim de 41 anos de democracia como partido de oposição com o PS como inimigo íntimo (famosa expressão de Mário Soares sobre a sua relação com Álvaro Cunhal), ao qual acusava consecutivamente de prosseguir "políticas de direita", fez um acordo de governação. Princípio de um novo ciclo ou de um fim antecipado?

António não vê "o PCP a entrar num governo com o PS - dificilmente eu apoiaria isso". Mas o acordo de 2015 foi "a decisão certa: temos de analisar as coisas à luz dos acontecimentos, e vínhamos de uma governação de CDS/PSD em que se tinha batido tanto no fundo que não poderíamos permitir mais. Se é a solução ideal? Obviamente não é, mas não acho que seja um sapo que tenha de engolir. Apoiei o partido nisso. Acredito que em parte nos responsabilizem por erros do PS - mas tivemos de assumir um compromisso. Parece que há camaradas que se desligaram do partido por isso, mas não conheço ninguém que o tenha feito."

Em todo o caso o andar da carruagem, com a irrupção da extrema-direita, parece condenar os partidos à esquerda do PS a manter uma aliança cujos efeitos no seu eleitorado não são fáceis de interpretar. António, bem consciente do que se passou nos Açores, com a aliança de PSD, CDS e PPM com Chega e Iniciativa Liberal para viabilizar o governo dos primeiros, assente: "Obviamente que se a única solução for o PCP dar a mão ao PS para impedir a extrema-direita de chegar ao poder..."

A ideia de sair da moeda única - "que tanto baixou o nosso poder de compra" - e mesmo da UE, que considera "já não servir o país nos moldes atuais, tendo-nos feito perder o nosso ADN, com a retirada de soberania e de capacidade de produção" parece assim uma miragem cada vez mais longínqua. Mas, reconhece António, "é preciso trabalhar com o que há." Mesmo se, vinca, "não se aceita tudo o que nos dão."

O PCP não como motor da história, então, mas como uma influência de moderação? "Esta nova realidade está a transformar a esquerda num discurso muito social-democrata", admite João Lázaro, 35 anos, militante do PCP há 18. "E ainda bem. Não há força para todas as batalhas e é preciso proteger o trabalho, a democracia, o SNS, o Estado de direito. Se isso pode ser uma negação do ideal comunista?" Hesita. "O comunismo tem um lado muito utópico. Poderá nunca acontecer comunismo. Mas com os novos atores políticos a ganharem mais terreno, se calhar o movimento sindical tem de se moderar para preservar o que há. Eu por exemplo sinto-me muito mais moderado com esta nova conjuntura. Porque agora o que está em jogo é a Constituição - é preciso defender o Serviço Nacional de Saúde, resgatar os direitos perdidos com a troika e com os avanços da extrema-direita. E não há se calhar força suficiente para um contra-ataque."

A ideia de social-democracia que refere, especifica, não é certamente a do PSD. "É a do Karl Marx, a social-democracia revolucionária. E é preciso lembrar que o PCP é um dos partidos que fundou este regime. Tive algumas discussões com camaradas sobre o PCP não ser partido de sistema, mas claro que é um partido de sistema. Não é um partido revolucionário."

"Gostava de ver uma crítica mais profunda ao "socialismo real""

Como António, João, que vive na área metropolitana de Lisboa e trabalha como investigador do CIES-ISCTE, é de História. Está a fazer um tese de doutoramento sobre o movimento operário do século XIX em que analisa a correspondência entre Marx e Engels. "Como investigador de História tenho uma posição mais de crítica e de análise. E desde o 25 de Abril tem havido em Portugal um retrocesso no campo operário e no sindicalismo."

Afastado, por "falta de disponibilidade", da vida interna do partido depois de a dada altura ter tido "tarefas de organização", continua no entanto a pagar quotas e a comprar o Avante!, o órgão oficial. Quando entrou na JCP, em 2003, era, confessa "muito pouco politizado". "A minha entrada foi um bocado ligada à música. Fui a um concerto em que estavam a distribuir uma convocatória da JCP para uma manifestação contra a guerra do Iraque, fui à manifestação e inscrevi-me. Estive na guerra contra as propinas no secundário, depois trabalhei em fábricas. Só entrei na faculdade aos 22 anos, já filiado no PCP."

Gostou muito do que viu no partido - "Aprendi muito e conheci camaradas e militantes que dão muito à causa sem ter nada em troca" - mas "com o passar dos anos há divergências, é normal. Porque o comunismo, que nunca foi realizado em lado nenhum, é diferente para cada um dos comunistas. Nesta lógica de nunca se ter lá chegado e se calhar nunca se ir chegar."

Como Guilherme, gostaria que o partido tivesse votado a favor da eutanásia, e se opusesse à tourada ("Rompe com uma longa tradição no movimento operário português contra as touradas, iniciada em 1869 no Centro Promotor, que vai continuar a existir no antigo Partido Socialista, que é uma voz crítica à construção da praça de Touros no Campo Pequeno, e no I Congresso do PCP, em 1923, quando é aprovada a proposta de "extinção dos espetáculos de tauromaquia" - cito de cabeça"). E de "ver uma crítica mais profunda ao "socialismo real". Porque a meu ver a URSS é uma experiência fracassada que teve aspetos positivos mas era necessário aprofundar esse debate. Teria de se fazer uma crítica mais profunda dessas experiências."

Há quem, pelo contrário, ache que está bem assim. Caso de Mónica, a única militante do PCP, de todas as contactadas, que aceitou falar com o DN, e que prefere não divulgar o apelido: "Acho que o PCP sempre se demarcou das experiencias que não correram bem nos países que se disseram comunistas. Para mim aquilo nunca foi comunismo."

"O PCP é demasiado bem comportado, pouco revolucionário"

Nascida há 37 anos em Lisboa, Mónica, licenciada em Estudos Asiáticos e mestranda em Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa, trabalha como intérprete para uma empresa mineira, e reside normalmente em Antuérpia, na Bélgica. Inscreveu-se no PCP em 2018. "Fui simpatizante toda a vida mas só agora decidi ser militante. Fui para o PCP sozinha: a minha família é de esquerda mas não se motivam muito pela política e nem entre os meus amigos há comunistas. À minha volta não tenho ninguém com as minhas ideias. Porém desde a adolescência que acho que é o partido que sempre lutou mais pelos direitos das pessoas. E sinto um orgulho imenso e um sentimento de pertença. Há um lado de grande emoção coletiva e entusiasmo que este partido tem, principalmente pela parte das pessoas que estiveram na luta antifascista. Tenho memória histórica apesar de não ter vivido isso."

Sente também, porém, que "o PCP não é muito bem visto. Há um grande preconceito. As pessoas de fora, quer em Portugal quer na Bélgica, não compreendem a dinâmica do partido. Há a ideia de que é uma coisa desatualizada." A sua voz, porém, atesta a paixão. "Sabe, há coisas muito bonitas que as pessoas de fora desconhecem, a extraordinária solidariedade que existe entre camaradas. Por exemplo se alguém estiver doente e não tiver dinheiro alguém indica um médico comunista que não cobra a consulta."

Pedindo-se-lhe para definir o que é ser comunista, Mónica começa pela tautologia: "Desde logo é pertencer ao PCP, respeitar os estatutos do partido, tentar implementar uma sociedade socialista mais igualitária." Hesita. "Não pensei no que é essa definição. Mas é lutar por uma sociedade que possa combater as injustiças sociais, acabar com a pobreza, querer um sistema de saúde que sirva a todos, um serviço de educação que dê oportunidades a todos. A igualdade de direitos, a fraternidade e a solidariedade humana numa sociedade aberta ao mundo."

Afonso Franco, 20 anos, tem problemas com a definição de Mónica do que é ser comunista. Desde logo porque se afirma como tal e não é do PCP, e não quer ser - "Não para já pelo menos."

Porquê? "Há algumas coisas que o PCP faz que não percebo. Falta-lhe uma veia verdadeiramente revolucionária, como ao Bloco. Em O esquerdismo, doença infantil do comunismo [ensaio de 1920], Lenine fala dos legalismos e diz que até o próprio parlamentarismo pode ser usado como meio de descredibilizar as instituições. Mas o PCP é demasiado respeitador das instituições, demasiado bem comportado, pouco revolucionário. E acho que não há grande hipótese de deixar de ser isso."

Exemplifica: "João Ferreira fez uma campanha presidencial toda à volta da Constituição e da sua defesa. Mas a Constituição defende a propriedade privada." E como imagina este estudante de jornalismo no Instituto Politécnico de Portalegre um partido revolucionário numa democracia parlamentar? Afonso não se atrapalha: "Poderia ser o tal partido comunista revolucionário que se recusava a participar no parlamento ou em qualquer mecanismo democrata. Ou podia, como o partido bolchevique russo, participar no parlamento e conseguir fazer uma revolução sem ter a maioria. Um partido pode participar nas eleições democráticas e mesmo assim ser revolucionário. Pode haver margem de negociação com outros partidos mas não sempre."

"Como é que fazes uma revolução hoje?"

A negociação da "geringonça", por exemplo, pareceu-lhe bem. "Não tenho muita opinião sobre isso, mas acho que a situação foi a melhor para tirar a direita do poder. Se foi mau para o PCP não sei nem me interessa muito, foi bom para o país."

Tendo-se descoberto comunista há nove meses - "Foi um processo de radicalização na pandemia mais por causa do Twitter, comecei a seguir comunistas, a concordar demasiado com eles (o que me afastou mais do Bloco foi a posição sobre a prostituição) e decidi comprar uns livros" - ganhou interesse por uma organização chamada Esquerda Revolucionária que faz parte, explica, de "um movimento internacional". "Têm bibliografia recomendada. Li o Manifesto Comunista, de Marx e Engels, O Estado e a revolução, de Lenine, uns livros de Cunhal e agora vou começar no Trotsky - autor que o PCP não recomenda, naturalmente."

E como defines ser comunista? "Hum. Talvez como afirmação de um traço de caráter de uma pessoa. Perceber como se situa no espectro da esquerda - se defende verdadeiramente o homem livre, aquele que não depende de nada para tomar as suas decisões. No capitalismo não se pode ser livre. Sinto um sentimento de revolta em relação a isso: as pessoas se quiserem parar de trabalhar um dia não podem, porque morrem à fome."

Afirmando-se "contra o trabalho assalariado", Afonso admite "esperar bem ter um salário. Por eu defender uma sociedade diferente desta não quer dizer que não aceite viver nos termos desta e lutar para que o trabalho seja mais bem recompensado e reconhecido enquanto a outra sociedade não vem."

Ri: "Os meus pais foram sempre ligados à política - a minha mãe é do Bloco e chegou a ser candidata à Câmara, embora já não seja militante agora, e o meu pai oscila entre o BE e o PS. Com a sua veia reformista, perguntam-me: como é que fazes uma revolução hoje? Lenine defendia que se ocupava a praça e Trotsky ocupou as companhias de eletricidade e os jornais..."

E os jornais e o jornalismo continuam, cem anos depois, acha Afonso, a ser muito importantes. "Por exemplo há vários meses que os agricultores indianos estão a fazer manifestações de protesto, coordenados pelos partidos comunistas da Índia, e não se fala disso nos media."

Este outro entrevistado concorre: "Estamos a voltar um bocadinho à clandestinidade. Há muitas notícias que só encontro no Avante! O fundamental para aferir as intenções de voto das pessoas hoje tem a ver com a comunicação social clássica. A comunicação social manipulada por interesses económicos desinforma as pessoas. Se todos os portugueses se dessem ao trabalho de espreitar o jornal Avante! se calhar pensariam de forma muito diferente sobre o PCP."

"A minha militância tem de ser ainda, em 2021, clandestina"

Quando fala em clandestinidade o novo entrevistado não está exatamente a ser metafórico. O seu mail de resposta ao apelo no Twitter começa assim: "Teria um grande gosto em ajudar mas por infelizmente o preconceito e a discriminação relativamente a quem defende uma sociedade sem classes sociais, dita comunista, ser uma realidade que temos de enfrentar diariamente, com fortes represálias profissionais, impedimento no acesso a direitos e exclusão social, não está ao meu alcance a possibilidade de tornar pública a minha militância política e partidária, sob pena de prejudicar, mais do que a mim mesmo, aqueles com quem trabalho, vivo e com quem assumi o compromisso de ter projetos de longo prazo." Assina Pedro, 34 anos, lisboeta, trabalhador na área da cultura, militante do PCP há seis meses. "A minha militância tem infelizmente de ser, ainda hoje em 2021, clandestina. Por medo de represálias. Tal como acontece com a militância de muitos milhares entre os cerca de 50 mil afetos ao PCP"

Fala pois com o DN sob condição de anonimato. Sem militâncias políticas na família, votara ao longo da vida no BE, PS e CDU, até se encontrar com esta identidade. Um encontro para o qual teve importância "sentir que por mais que trabalhe a minha qualidade de vida não melhora".

Na definição é taxativo: "Sou comunista porque é a única proposta que encontro na história das ideias que permite que através dela se chegue a uma sociedade sem classes sociais. Acredito nisso e acho que seríamos todos felizes. O marxismo-leninismo é uma ideia que resiste."

Como conseguir continuar a acreditar numa coisa que ninguém conseguiu pôr em prática? É Pedro que coloca a questão clássica e lhe responde: "Houve muito poucas tentativas. Nos momentos em que correu mal foi justamente quando se traiu o ideal comunista. Porque se temos um ditador isso já é uma negação do ideal; o comunismo tem a ver com o coletivo. Mas temos no planeta todo, neste sistema capitalista que supostamente funciona, milhares de pessoas a morrer à fome."

Neto de operários que se considera "de algum modo operário, mas não numa fábrica", e filho de duas pessoas que "graças ao 25 de abril conseguiram entrar na universidade, quando antes não tinham perspetivas disso", tenta explicar o estigma associado um partido, que crê ter sido e ser ainda fundamental para o país. "É-me difícil perceber os preconceitos das pessoas. Mas se olharmos para a TV não vemos o PCP representado de forma natural. É um partido que não existe nos meios de comunicação. E depois ser do PCP é associado a ser pobre - e as pessoas não gostam de ser vistas como pobres."

Foi a noção desse olhar que o levou a só se inscrever agora. Mas sentiu que era a altura: "Tomei esta posição muito pelo crescimento da extrema-direita e por perceber que só o PCP oferece uma oposição coerente e consistente. Tem um legado de como saber lidar com a extrema-direita."

"O comunismo existe nas brechas do capitalismo"

Nuno André Patrício é o único nesta reportagem a ter nascido numa casa comunista. O pai, que morreu em janeiro, de Covid, foi militante ainda na clandestinidade, desde a tropa, a mão tinha sido da JCP. "O comunismo sempre existiu na minha casa. E havia aquelas conversas à mesa em que eu perguntava: "Então e a URSS? Então e a Coreia do Norte?"" Ri. "E o meu pai chamava-me pequeno-burguês e saía chateado da sala. As provocações do Twitter nessa altura eram à mesa de jantar."

Mas aos 37 anos Nuno, urbanista e arquiteto que trabalha, na sua própria descrição, em "políticas urbanas e direito à cidade", é militante há apenas "sete ou oito meses." Votava quase sempre no PCP, porém "tinha aquela coisa de pensar sou de esquerda mas não há nenhum partido com o qual me identifique".

Havia "o laço afetivo e familiar com o histórico do partido e a consciência de que muito do que temos hoje foi em grande parte contributo da sua luta", mas que o fez avançar foi, crê, a sua experiência no Brasil. "Estive nove anos no Rio de Janeiro, onde trabalhei com urbanização de favelas e habitação social, e percebi a importância da militância. Estar organizado e militar numa organização é importante. Podemos estar no Twitter e fazer o nosso trabalho mas é muito diferente estar organizado. Os trabalhadores organizados têm muito poder."

Também pesou a ascensão de Bolsonaro: "No Brasil perdeu-se a ligação às bases, e os evangélicos trabalharam isso. O vazio é sempre ocupado. Então achei que tinha de ultrapassar a visão mais individualista de não me identificar com tudo. Sabemos que há partidos que têm implantação no meio académico, numa elite urbana - posso-me considerar como classe média com estudos académicos - mas pensar o que serve mais os meus interesses não me faz muito sentido. Quero estar com quem representa aqueles que têm menos voz. Acho que a luta de classes ainda faz sentido."

Ser comunista é então "resistir, lutar contra a opressão deste sistema que está a destruir o planeta." Faz uma pausa, a voz volta mais suave. "Os comunistas têm muito esta coisa da perda das narrativas - "Perdemos, nunca se chegou lá". Mas acho que há comunismo todos os dias, sempre que há relações não mercantis, comunitárias. Há comunismo nas brechas do capitalismo."

"Porque é que a defesa do capitalismo não é um extremismo?"

Conta uma história: "Houve uma experiência no bairro de Francos, no Porto. Havia um terreno abandonado e as pessoas que viviam à volta, sobretudo as de um bairro social, começaram a cultivar, a fazer hortas, a criar galinhas, coelhos. Durante décadas. Produziam muita coisa, acudiam a carências sociais. Fui lá algumas vezes. Não se consideravam comunistas, mas para mim aquilo é o comunismo - quando as pessoas fazem coisas fora do sistema mercantil. A meu ver o que se pode construir do comunismo é abrir estas brechas. Mais do que trazer informação difícil de mastigar sobre o fim do capitalismo, fazer a pedagogia para a autonomia. Há um inglês, John Holloway, que escreveu um livro, Change the World Without Taking Power/Mudar o mundo sem tomar o poder, em que diz que o comunismo nunca existiu como regime mas existe nestas situações."

No Brasil, Nuno conheceu uma experiência dessas em grande escala, a Rede Ecológica, que consiste numa associação de agricultores de cultura familiar que vendem diretamente aos consumidores, a um preço mais baixo que o do supermercdo, e cuja certificação biológica é feita pelos próprios consumidores organizados. "O que considero ser comunista é muito este trabalho de base com pessoas. A melhor forma de tentar superar os problemas é de forma coletiva, organizada. Estou muito mais próximo disso, de um comunismo que lá na frente não precisa do Estado porque as pessoas vão conseguir organizar-se."

Sorri. "Não sou um grande teórico. Li o Capital, e nem sequer todo. E sei que isto que estou a dizer parece um sonho, é bonito - mas as pessoas chateiam-se umas com as outras, é normal." E não são todas boas; talvez ninguém o seja. George Orwell fez em Animal Farm uma fábula dolorosa sobre a traição do sonho, sobre como se abrem brechas nas brechas. Sobre a perda de horizonte, várias décadas antes de alguém usar a expressão "derrocada das grandes narrativas".

Sim, é complicado, admite Guilherme Freches. Mas estado natural do ser humano é o capitalismo e tudo o resto é extremismo?, pergunta. E responde: "Há muita gente que diz que o PCP e o Bloco são extrema-esquerda. Mas se são extremos porque se opõem ao capitalismo, porque é que a defesa do capitalismo não é um extremismo?"

É verdade que não houve, conclui, "nenhum comunista que não tivesse morrido sem ver a utopia realizada. Mas todos os passos nesse sentido são positivos. Gosto muito daquela frase de Jerónimo de Sousa: nem sempre se ganha mas sem lutar perde-se sempre."

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