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terça-feira, 16 de junho de 2026

Bruno Amaral de Carvalho - Relembrando Odair Moniz e tantos outros


* Bruno Amaral de Carvalho, in Facebook, 16/06/2026, Revisão da Estátua)

Acanção Alto Cutelo, de Ildo Lobo (ouvir aqui), é um hino que fala das mulheres e homens que partiram de Cabo Verde à procura de uma vida melhor em Portugal. Aqui, encontraram miséria e exploração. Construíram hospitais privados onde não conseguem entrar, universidades onde não conseguem estudar e prédios onde não conseguem viver.

Eu cresci com os filhos desses operários na Amadora. Por isso, falar de Odair Moniz é falar da minha cidade. Já contei várias vezes que cresci num prédio em que havia um sapateiro, uma costureira, um mecânico, um padeiro, um pedreiro, um operário fabril e várias mulheres que trabalhavam em casa a cuidar da casa e das crianças. A minha cidade era um formigueiro de trabalhadores que tinham orgulho em ser trabalhadores. A maioria não era dali. Vieram do Alentejo, de Trás-os-Montes, da Beira Alta, de Cabo Verde, da ex-União Soviética ou de Angola.

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Boaventura Sousa Santos - Em Leninegrado, a pensar em Cuba e Gaza

* Boaventura Sousa Santos 

Ao longo da história, o cerco de populações foi muito utilizado como estratégia para obter a rendição das forças políticas e militares defensoras dos territórios cercados. A razão fundamental para crer na eficácia do cerco era a fome e a doença impostas à população civil. Alguns cercos duraram meses, outros duraram anos. Todos provocaram um sofrimento inaudito às populações, sobretudo às populações civis, as populações não diretamente envolvidas nos combates. Os militares e todos os funcionários de serviços de que dependiam, bem como os líderes políticos, sempre tiveram alguns privilégios.

A história sobre o êxito ou o fracasso dos cercos é fascinante. Se é verdade que muitas populações cercadas sucumbiram, em muitos outros casos resistiram e obrigaram os atacantes a retirar. Em tempos de autarcia das populações, o cerco era literal, à volta das muralhas, impedindo saídas e entradas e recorrendo muitas vezes à táctica da “terra arrasada”: queima de colheitas, abate de gado, envenenamento dos poços. Desde a era moderna, com a globalização do capitalismo e a liberalização do comércio internacional de mercadorias (e de pessoas), criaram-se tantas formas de interdependência entre os povos que novos instrumentos de encercamento foram postos à disposição dos atacantes (guetos, bloqueios, embargos, sanções, políticas anti-imigração, espaços aéreos fechados, criminalização internacional de líderes políticos, etc.). Reciprocamente, tais interdependências tornaram possíveis às populações cercadas novas táticas de resistência.

Não é objetivo deste texto analisar as virtualidades bélicas dos cercos. Centro-me exclusivamente no sofrimento humano que os cercos causam às populações civis cercadas. Para ilustrar esse sofrimento, escolho o cerco mais brutal da história contemporânea, o cerco de Leninegrado pelo exército Nazi entre Setembro de 1941 e Janeiro de 1944. Escolho-o pela sua brutalidade, mas também por ilustrar um caso de derrota do atacante, aliás, considerado ao tempo do cerco um inimigo todo poderoso. Faço-o a pensar em Cuba e na Palestina. Sobretudo tendo em mente que o mundo da comunicação social tem tido o papel nefasto de trivializar o sofrimento, mesmo quando aparentemente o dramatiza. Por esta razão, não se cria uma população mundial horrorizada e mobilizada contra o sofrimento humano injusto. Em vez disso, delega-se a má consciência a pequenos grupos de corajosos ativistas que, pela sua natureza, revelam tanto a possibilidade da resistência como a fatalidade da sua derrota.

Como me centro no sofrimento humano, socorro-me das descrições do cerco por parte daqueles que o viveram. A descrição deles e delas é mais poderosa do que qualquer análise abstrata. Entre muitas descrições, seleccionei a de Constantine Krypton (pseudónimo?) publicado em 1954 na revista Russian Review, vol 13:4, pp 255-265.[i] É uma longa citação:

O inimigo não conseguiu destruir os edifícios de pedra; conseguiu, sim, uma aniquilação terrível da vida dentro deles. A causa principal da destruição entre a população foi a fome. De acordo com o recenseamento oficial de 1939, a população de Leninegrado era de 3.191.304 habitantes. O processo de aniquilação da população começou no final do mês de Novembro de 1941. O seu sinal exterior na vida da cidade foi o aparecimento nas ruas de todo o tipo de trenós, principalmente trenós de crianças atrelados uns aos outros com cadáveres sobre eles. Mais tarde, transportavam frequentemente os mortos em trenós individuais, especialmente se fossem mais compridos. Envolviam os cadáveres em lençóis, cobertores, tapetes, sacos de todo o tipo e todo o tipo de trapos. Dia após dia, o número destes trenós aumentava, criando, num determinado período, no final de Dezembro e início de Janeiro, uma procissão interminável ao longo das ruas principais.

O processo de morte da população de Leninegrado recebeu, na linguagem médica, o nome de «distrofia». A distrofia tinha três fases. A distrofia da primeira fase caracterizava-se por um enfraquecimento geral do organismo e uma grande perda de peso. A distrofia do segundo estágio trazia ainda maior fraqueza e perda de peso, juntamente com uma série de doenças que apresentavam, em particular, os seguintes sintomas: gengivas escamosas, formigueiros na parte superior do abdómen, úlceras, inchaço, dormência, problemas de estômago e similares. Esses sintomas já estavam parcialmente presentes no primeiro estágio. Na segunda fase, as pessoas começaram, como se dizia naquela época, «a devorar os seus músculos». A distrofia da terceira fase, com duração média de duas semanas, caracterizava-se pelo colapso completo da pessoa, depois a morte. Diz-se que aqueles que passavam para a terceira fase da distrofia não podiam ser salvos. Tive a oportunidade de observar dois casos em que familiares de uma pessoa distrófica acamada obtiveram manteiga e outros alimentos nutritivos, mas era absolutamente impossível proporcionar qualquer alívio real.

As pessoas que tinham entrado no período crítico permaneciam indiferentes a tudo à sua volta, num estado de completa apatia. As pessoas caíam e morriam inesperadamente enquanto caminhavam na rua, estavam na fila, no trabalho ou em casa. Certa vez, ao chegar ao Instituto, onde nas salas frias e sem aquecimento ainda decorriam aulas com três ou quatro pessoas, fui literalmente atacado por um homem bastante baixo. A mim, na qualidade de reitor da faculdade, ele expressou com grande ênfase a sua indignação pelo facto de tão poucos estudantes comparecerem às aulas. Parece que este homem era um professor de desenho técnico, que eu ainda não tinha conhecido. No semestre seguinte, ele iria dar um curso. Quanto ao número de alunos, ele teria sete. Então eu disse-lhe: «O facto de ter sete alunos, em vez dos habituais quatro ou cinco, demonstra um progresso notável, que só pode ser explicado pelo grande interesse na sua disciplina.» Isso acalmou-o um pouco, mas, dirigindo-se ao grupo de alunos, gritou com toda a força: «Sim, mas eu quero ter 25 alunos. Quero lutar por cem por cento.» Trinta ou trinta e cinco minutos depois, uma jovem aluna veio a correr ter comigo para informar que o professor de desenho técnico estava morto.

A taxa de mortalidade era excecional entre aqueles que estavam a concluir os seus estudos. Aqui, a competição cobrou o seu preço. Essas pessoas, apesar de todos os obstáculos, queriam concluir o seu trabalho de graduação e concluí-lo bem. Sem comida, em dormitórios frios, trabalhavam teimosamente e escreviam os seus trabalhos. Não viviam muito tempo depois disso — cerca de dez a quinze dias. O esforço intelectual excessivo com o estômago vazio tinha esgotado qualquer reserva de força que eles tivessem.

Na opinião dos médicos, no início de Dezembro de 1941, uma grande percentagem da população de Leninegrado encontrava-se na segunda fase de distrofia. O mês de Dezembro foi o período de transição para a segunda fase para a grande maioria da população. As condições de vida contribuíram fortemente para isso. A distribuição de alimentos em Dezembro tornou-se totalmente insignificante. Os trabalhadores recebiam 200 gramas de pão por dia; os funcionários civis e seus dependentes, ainda menos. A ração de cereais permitia preparar sopa apenas três ou quatro vezes por semana. As batatas tinham sido distribuídas pela última vez em Setembro. O número de cartões de trabalhadores (primeira categoria), que garantiam mais pão e cereais, era estritamente limitado. Um titular de uma cátedra nas escolas superiores de um instituto recebeu esses cartões apenas em Janeiro de 1942; mas os docentes, estudantes de pós-graduação e outros tinham os cartões de funcionários civis (segunda categoria).

Os suprimentos privados pertencentes à população esgotaram-se em meados ou, no máximo, no final de Novembro. Durante esse mês, as pessoas comiam gatos na cidade. Enquanto esperava na fila pelos cartões de racionamento de Dezembro, ouvi involuntariamente a conversa de alguns estudantes. Eles tinham descoberto que a carne de gato era muito saborosa; era algo semelhante à de coelho e só havia uma coisa desagradável: matar o gato. Os gatos defendem-se desesperadamente. Mas logo deixei de ouvir tais conversas — já não havia mais gatos para matar. Em Dezembro, as pessoas começaram a comer ratazanas, ratos e pombos. A uma mulher idosa que estava a morrer, a sua jovem sobrinha trouxe meio rato que tinha conseguido apanhar e deu-lho. No entanto, a mulher moribunda e a sua sobrinha, juntamente com os seus familiares, morreram pouco tempo depois. Seguiram-se os cães.

Os músculos eram a fonte básica de vida. Os médicos recomendavam em particular que as pessoas caminhassem menos e gastassem este recurso de forma mais razoável, uma vez que não seriam capazes de o reconstruir. Em condições especiais, os trabalhadores do NKVD (Comissariado do Povo para Assuntos Internos), o pessoal do estado-maior de guerra, os principais quadros do partido e a maioria dos trabalhadores responsáveis recebiam provisões alimentares. Estas pessoas, claro, não conheciam a fome. Os membros do Partido tinham alguns privilégios. No entanto, para além de porções extra de sopa sem cartões de racionamento e de um ou dois cartões adicionais, esses privilégios não ultrapassavam a quota legal. Aqueles que tinham alguma ligação com o abastecimento, como um serviço de refeições em alguma instituição, saíam-se um pouco melhor. A alimentação de alguns membros muito necessários do pessoal técnico de engenharia era melhor. Eram obrigados a viver em instalações governamentais, onde eram alimentados em refeitórios especiais e recebiam alguma comida para levar consigo. No entanto, quando um dos engenheiros levou a mãe para partilhar a sua comida com ela, recebeu uma repreensão do director. A melhor alimentação destinava-se a garantir a sua máxima capacidade de trabalho. A mãe teve de ir directamente para casa, a fim de partilhar o destino comum da população.

No final de Novembro e início de Dezembro, os ataques aéreos alemães chegaram ao fim. Isso, ao que parecia, poderia facilitar a aplicação dos conselhos médicos sobre a economia de energia física. A população poderia dormir tranquilamente à noite; não seria necessário correr para os abrigos antiaéreos nem apagar incêndios. No entanto, em vez dos bombardeamentos que tinham esgotado as suas forças físicas, a vida assumiu algo de novo e mais árduo. Em primeiro lugar, os eléctricos tinham deixado completamente de circular na cidade. Enquanto pela calçada se movia uma sucessão de trenós com cadáveres, nas calçadas, e por vezes nas ruas, havia um grande número de pessoas a caminhar, uma vez que careciam de qualquer outro meio de transporte. Para onde quer que se fosse, era preciso ir a pé: para o trabalho, para fazer recados diversos, simplesmente para visitar as casas das pessoas vizinhas. Todos tinham de fazer um esforço colossal e gastar uma quantidade extraordinária de energia. Uma grande desgraça foi o início do frio, e mais tarde o frio extremo do Inverno, chegando a 50 graus negativos.

Todos os esforços para salvar o sistema de água foram em vão, e toda a população da cidade começou a dirigir-se às bombas próximas que ainda estavam em funcionamento. Durante muito tempo, um buraco aberto na rua por um projétil de artilharia, a oito ou dez minutos a pé da nossa casa, salvou-me. Havia sempre água ali, que as pessoas dos apartamentos próximos vinham buscar. Muitas pessoas, não tendo uma bomba na vizinhança, nem buracos na rua, tiveram de percorrer longas distâncias, por vezes até ao rio, para ir buscar água. O problema da casa de banho foi resolvido despejando tudo na neve nos quintais.

Era impossível aquecer esses quartos. Era preciso dormir vestido, vestindo todas as peças de roupa disponíveis para se manter aquecido. Devido ao frio e à falta de água, muitas pessoas deixaram completamente de se lavar. Cozinhas e quartos de hóspedes irremediavelmente gelados foram transformados em locais de armazenamento. Aqui, frequentemente, eram construídas casas de banho. Uma circunstância extremamente difícil era a completa falta de luz eléctrica. Pequenas lâmpadas fumegantes da época da guerra civil lançavam luz apenas suficiente para permitir que alguém se movimentasse pela sala.

Entretanto, em Leninegrado, no final de Dezembro e em Janeiro, a situação assumiu um carácter catastrófico. O número diário de mortos disparou para entre 25.000 e 30.000. Possivelmente, para a parte da população que estava a morrer, esta foi a transição natural para o período crítico, com as suas consequências inevitáveis. As autoridades administrativas, literalmente sobrecarregadas pelo aumento da taxa de mortalidade, deram ordens para abrir os necrotérios. Estes surgiram nos pátios das casas de Leninegrado. Era escolhido um pátio de grandes dimensões para cada sete a dez casas, dependendo do número de residentes. Era afixado um cartaz e, através do administrador do prédio, era feita uma notificação adequada. Todos podiam agora levar os seus mortos para o necrotério. Para remover os cadáveres das ruas, foram atribuídos camiões, mas estes encontravam-se frequentemente em condições insatisfatórias. Era um trabalho difícil para os carregadores de camiões. Frequentemente, no meio das suas tarefas, caíam mortos e era necessário procurar substitutos. Em média, dez ou doze camiões carregados de cadáveres passavam pela nossa rua todos os dias. Nas ruas principais, o seu número era muito maior.

Embora a maioria das pessoas, independentemente do seu sofrimento, permanecesse notavelmente controlada, ocasionalmente ouvia-se falar de algum comportamento particularmente agressivo [ii]. Em meados de Dezembro, uma conhecida minha, uma senhora idosa, cuja filha estava num campo de concentração, saiu à rua, segurando o seu amado cão pela trela. O cão estava com ela há muito tempo. Antes que a senhora se apercebesse, vários homens lançaram-se sobre ela. Alguns queriam agarrar o cão; outros tentavam arrancar-lhe a trela da mão. Todos disputavam entre si, gritando: «o cão é meu.» Nesse momento, outros transeuntes chegaram a tempo de deter os agressores e afastá-los. A velha senhora regressou, agradecida, a casa com o cão, mas, mesmo assim, três ou quatro semanas depois, acabou por comer o próprio animal.

Aconselhava-se as pessoas a andarem com cuidado nas escadas escuras de madrugada. Ocorreram casos em que, partindo do princípio de que uma pessoa ia buscar pão, alguém lhe batia na cabeça e lhe roubava os cartões de racionamento. Normalmente, era necessário ter cuidado nessas escadas escuras depois de o pão ter sido adquirido. O pão tinha de ser transportado embrulhado e escondido. Por vezes, nas filas nas instalações da loja, os rapazes aventuravam-se a roubar o pão aos donos. Esperavam pelo momento certo e, então, cravavam os dentes num pedaço de pão nas mãos de alguém, tentando morder um pedaço. Por acaso, eu próprio observei uma cena dessas. A dona do pão em que o menino tinha cravado os dentes agarrou-o com grande violência pelo pescoço e não o deixava engolir; depois, a chorar, disse que tinha um menino como ele que estava a morrer em casa. Todas estas coisas eram excessos individuais, resultando num certo aumento da ilegalidade.

É possível até falar de novos tipos de «crime». Um deles era chamado de «esconder cadáveres». Ao manter o cadáver em casa durante cerca de uma semana e ocultar a morte, algumas pessoas conseguiam acumular pão suficiente no cartão do falecido para pagar a escavação da sepultura. Outras faziam-no para ficar com o pão e outros cartões de racionamento do falecido para uso pessoal. Conservar um cadáver nos apartamentos gelados daquela época não era tarefa difícil.

Eu conhecia uma funcionária civil que conseguiu esconder a sua tia morta durante quase um mês inteiro. Mais tarde, ela lamentou não ter feito o mesmo com a sua mãe, que tinha morrido dois ou três dias antes da tia. Mais tarde ainda, ela própria morreu, e um vizinho conseguiu escondê-la também durante cinco dias. Na prática, era difícil usar os cartões de uma pessoa morta por mais de doze ou catorze dias. Além disso, apenas uma pequena percentagem da população se dedicava a esta prática. Durante a segunda quinzena de Janeiro, dizia-se que a taxa de mortalidade tinha descido para 9.000 ou 10.000 por dia. Isto pode ter-se devido ao facto de as pessoas mais fracas já terem morrido ou, possivelmente, a uma alteração na qualidade do pão racionado. Seja como for, a melhoria das condições foi de curta duração. Uma nova desgraça abateu-se sobre a cidade. As fortes geadas e o estado geral de degradação dos edifícios da cidade levaram à paralisação do trabalho nas padarias da cidade e a maior parte das lojas ficou sem pão. Em algumas lojas onde o pão chegou, formaram-se filas enormes que se mantiveram desde o início da manhã até ao fim da tarde. Multidões de pessoas, após esperarem dez ou doze horas sob temperaturas geladas, saíram de mãos vazias. A falta de pão, juntamente com a exaustão extrema causada pela espera no frio, fez com que a taxa de mortalidade disparasse de imediato para o valor anterior de 25.000 a 30.000. Algumas pessoas morreram na fila; muitas morreram nas ruas, depois de correrem desesperadamente de loja em loja para perguntar se havia alguma esperança de uma entrega de pão.

No início de 1942, ocorreram alguns acontecimentos que foram muito embaraçosos para as autoridades militares e civis da cidade. Multidões de pessoas que estavam na fila assaltaram várias padarias. Mais impactante do que a pilhagem de algumas mercearias, considerando as condições particulares da vida soviética, foi um acontecimento de significado político. Duas organizações de mulheres (Trabalhadoras da Engenharia Técnica) uniram-se e apresentaram uma petição na qual solicitavam, em nome das crianças moribundas, a rendição da cidade. Elas apontavam para a prática geral das relações internacionais e, especialmente, para o recente anúncio de que Paris seria declarada uma «cidade aberta». Se esta petição conseguiu chegar a algum representante de nível superior a Pyotr Popkov, o presidente do Soviete de Leninegrado, nunca vim a saber. Na cidade, a petição não causou grande impressão, embora muitas pessoas soubessem da sua existência. Algumas mulheres trabalhadoras do Partido chegaram mesmo a discutir o assunto comigo, apesar de eu não ser membro do Partido e, o que é mais surpreendente, não condenaram as mulheres que tinham redigido a petição.”

A brutalidade do sofrimento humano do cerco de Leninegrado – um milhão e meio de mortos – não é qualitativamente diferente dos muitos genocídios coloniais e imperiais entre o século XVI e o século XX: os vários genocídios de povos originários das Américas e de África pelos colonizadores europeus e seus descendentes, o genocídio do povo herero e nama da Namíbia pelo Império Alemão entre 1904 e1908, o genocídio do povo arménio entre 1915-1923 pelo Império Otomano, o genocídio do povo judeu pela Alemanha Nazi, o genocídio do povo tutsi pela elite hútu no Ruanda em 1994, genocídio dos bósnios muçulmanos pelas forças sérvias entre 1992 e 1995 e o genocídio do povo rohingya pelo exército e polícia de Mianmar ao longo das duas últimas décadas.

O que distingue Leninegrado é a forma-cerco levada ao extremo. A mesma forma-cerco está em curso, de modos diferentes, na Palestina e em Cuba. Apesar do seu extremismo, o cerco de Leninegrado foi repelido e estou confiante que mais tarde ou mais cedo será também repelido na Palestina e em Cuba. Para isso é fundamental a solidariedade internacional.

Se Cuba e Palestina não romperem o cerco, seremos todos nós os derrotados, acordando tarde demais para o facto de que o cerco à volta da Palestina e de Cuba está já germinando à nossa volta, multiplicando-se, qual Hidra de Lerna, graças à nossa passividade. Começa a ser tarde demais para a intervenção de Hércules!

Cuba vencerá! Palestina vencerá!

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NOTAS
[i] Trata-se da tradução reduzida de dois capítulos do livro do autor, Osada Leningrad, N. Y., Chekhov Publishing House, 1952. Esta descrição tem as suas limitações, sobretudo tendo em vista a documentação oficial e de arquivo diarista que veio a lume posteriormente. Torna a história do cerco ainda mais dramática. Consultar sobre esta bibliografia Sarah Gruszka, «L’historiographie du siège de Leningrad», Revue des études slaves, Vol. 83:1, 2012, pp. 269-281.

[ii] À luz do que escreve Gruszka, op. cit., houve muita criminalidade e alguma bem grave. É o caso de canibalismo e do comércio de carne humana. Estes crimes eram severamente punidos. A punição de crimes políticos foi igualmente severa.

24 de Maio de 2026

https://estatuadesal.com/2026/05/25/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza/
https://aviagemdosargonautas.net/2026/05/24/em-leninegrado-a-pensar-em-cuba-e-gaza-por-boaventura-de-sousa-santos/
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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Eduardo Maltez Silva - Que belos cromos à pala do orçamento

 


* Eduardo Maltez Silva

in Facebook, 23/02/2026, Revisão da Estátua

O Governo contrata por 11 mil euros, em ajuste direto, maquilhadores e cabeleireiros para embelezar a imagem do Governo. (é mesmo verdade, não é sátira, ver notícia aqui).

Porque quando a substância falha, entra a maquilhagem. Quando a política rebenta tudo, entra o styling. Quando a governação é incompetente, entra o verniz.

Este executivo especializou-se nisso: Cosmética Política.

Pegou no que estava a funcionar e implodiu. Pegou no que já estava frágil e deixou degradar.

E, no meio disto tudo, investe na única área onde tem mostrado verdadeira consistência: gestão de imagem e PowerPoints.

Tal como a Spinumviva operava na lógica do balcão de interesses, este Governo move-se com a mesma fluidez entre o público e o privado — sempre com uma bússola muito clara: quem ganha com isto no topo da pirâmide?

Enquanto isso:

— a saúde pública ficou muito pior.

— as negociatas e transferência de dinheiro da classe média para os mais ricos está nos máximos.

— os pacotes laborais para esmagar quem trabalha em nome dos lucros de quem manda são desenhados às escondidas.

— a habitação transforma-se num parque de extração para especuladores e bilionários.

Mas calma — a franja está impecável para a conferência de imprensa.

Isto não é governar…tal como a chuva falsa nos vídeos do CHEGA, isto é performance para enganar patetas.

Muito ruído. Muito enquadramento. Muito spin. Muito “a culpa era dos outros” E cada vez menos Estado a funcionar.

No fim do dia, a mensagem implícita é simples: não te veem como cidadão — veem-te como dador de votos que precisa de uma boa imagem no ecrã para não olhar demasiado para os números.

É o CHEGA 2.0, com menos tom de taberna, mais bem barbeado e com melhor maquilhagem.

https://estatuadesal.com/2026/02/24/que-belos-cromos-a-pala-do-orcamento/

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Edward Curtin - A espontaneidade cuidadosamente calculada da divulgação “chocante” dos ficheiros de Epstein


(Edward Curtin, in Contercurrents.org, 19/02/2026, Trad. Estátua)

Sempre que um “escândalo” com o impacto dos arquivos de Epstein domina as notícias, podemos ter certeza de que se trata de uma manobra para desviar a atenção de algo mais sinistro que está para vir.

Os arquivos de Epstein estão na posse do FBI há oito anos ou mais. Então, por que é que os arquivos, com trechos censurados, foram apenas divulgados recentemente?  Cui bono ?

E quem está por detrás da divulgação que não ocorreu durante o primeiro mandato de Trump e o primeiro mandato de Biden?  Cui bono ?

O genocídio em Gaza e a guerra por procuração dos EUA contra a Rússia, ambos apoiados por Biden e Trump, encaixam-se no cronograma e nas omissões, visto que podemos presumir que o Mossad, a CIA, a NSA e o MI6 também tiveram acesso aos arquivos por muito tempo? Um ataque dos EUA/Israel ao Irão?   Porque, como nos filmes, toda a propaganda e encobrimentos têm datas de divulgação cuidadosamente escolhidas.

Última pergunta: por que é que alguém ficaria chocado com o conteúdo dos ficheiros de Epstein, embora muitas pessoas pareçam estar? Sim, mais nomes foram adicionados à lista de elites degeneradas que, alegremente, faziam parte da organização criminosa de Epstein, mas a revelação de mais nomes apenas confirma o quanto ela era extensa.

Há muito tempo que sabemos das atividades criminosas do degenerado Epstein, dos financiadores, celebridades, políticos e figuras públicas que se juntaram a ele. Chantagem sexual, cooperação entre agências de serviços secretos e o submundo, acordos financeiros secretos, planeamento de guerras em nome da paz, etc., são formas de como, há muito, o capitalismo tem operado. Embora aqueles que investigam estas coisas já há muito soubessem da sua existência (ver, por exemplo, One Nation Under Blackmail, de Whitney Webb, em dois volumes), as pessoas comuns podem estar, finalmente, a compreender; mas chocante não é. E o “podem” deve ser enfatizado. Todos nós vivemos há muito tempo numa cultura de crescente «choque», onde as notícias e o entretenimento mais grotescos são elementos básicos dos meios de comunicação social, desde Washington D.C. a Hollywood e em toda a Internet, o macaco perseguiu a doninha. Os macacos pensaram que era tudo uma brincadeira, e então Pop! lá se foi a doninha.

Ficar chocado parece estar na moda; apimenta a vida, induz aquele calafrio que só o sexo, a morte e o tempo podem trazer às conversas diárias. “Dá para acreditar?” e “Inacreditável!” ouvem-se a toda a hora e brotam dos lábios, dos ecrãs e dos sites em toda a parte, convidando-nos a vir até àquele sítio para ficarmos estupefactos e com a cabeça a girar vertiginosamente. Pessoas comuns tornaram-se Regan MacNeil, a jovem possuída por um demónio em O Exorcista.

Se os meios de comunicação social mainstream alguma vez aprofundassem o assunto a fundo, teriam que expor-se como agentes das mesmas forças que se encontram por detrás da ascensão de Epstein ao poder. Com que frequência é que esses meios de comunicação ligam Epstein a Israel, ao Mossad, à CIA, etc.? Não são só indivíduos malvados que governam, mas uma estrutura do mal, um sistema, se quiserem, um sistema social profundamente enraizado, atualmente administrado publicamente pelo idiota malvado Trump que, numa entrevista recente ao The New York Times, quando questionado se achava que havia limites para o seu poder global, disse: “Sim, há uma coisa. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que pode deter-me”.

Essa declaração revelou o segredo. É o credo do niilista, fundamental para o ethos atual. Sem honra, sem padrões éticos tradicionais, sem Deus, sem amor pela humanidade, apenas notícias falsas e enganosas destinadas a chocar e um presidente dos EUA falando como um punk adolescente. Sim. Inacreditável! «Eu conheço as palavras. Tenho as melhores palavras. Tenho as… – mas não há palavra melhor do que estúpido.» (Entra a banda sonora.)

O cineasta francês da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard, disse certa vez: “Para fazer um filme, tudo o que é preciso é uma garota e uma arma“. Bem, temos o filme sobre Epstein, no qual ele e os seus amigos venais e sórdidos tinham as garotas, mas quem detinha as armas, e não os pénis, por trás dos seus empreendimentos criminosos, é algo que permanece sem resposta.

Quando apanhados em flagrante, os meios de comunicação social adoram expor certos indivíduos que baixam as calças para fins de abuso sexual, mas consideram impossível derrubar aqueles vilões depravados que cometem atrocidades contra pessoas comuns, dia após dia, em todo o mundo. Vamos chamá-los os produtores. Eles moldam e pagam pelas notícias.

O presidente do reality show, Donald Trump — o rosto do imperialismo explícito e do regime ditatorial interno, um brutamontes grosseiro cuja máxima fundamental é “o poder faz a justiça” e cujo nome aparece várias vezes nos arquivos de Epstein —, sabe bem como o jogo é jogado. Após a sua briga televisionada com Zelensky no ano passado (ou foi antes do conflito?), disse: “Isto vai dar um excelente programa de televisão”. O mesmo se poderá dizer do filme sobre Epstein. Talvez até dê uma série.

E, como no passado, ninguém envolvido nessa atividade deplorável e criminosa – com exceção de Epstein e Ghislaine Maxwell – irá provavelmente cumprir qualquer pena de prisão. O que não é surpresa nenhuma.

Quanto a choques, é melhor assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno e ficar «chocado» com os atletas favoritos a caírem no gelo e na neve. Pelo menos essas quedas são reais.

Há uma pintura numa casa de campo ainda visível na entrada da Casa dos Vettii, nas ruínas de Pompeia, que nos diz muito sobre os arquivos de Epstein, o poder e a riqueza. Ela simboliza perfeitamente um aspecto da diferença entre as classes dominantes internacionais – ou seja, os detalhes obscenos nos documentos de Epstein, sem a resposta de quem tem conduzido a operação de chantagem e porquê – e o resto de nós. Ela retrata o deus Príapo pesando o seu pénis numa balança de moedas de ouro, como se dissesse: ouro, Deus, riqueza e poder – nós governamos. Vão-se foder! É uma velha história contada por homens niilistas desesperados para provar a sua potência dominando meninas e mulheres vulneráveis e o mundo inteiro.

Muitos têm perguntado como é possível que Epstein e todos os outros, nomeados ou não, tenham feito coisas tão más e criminosas? O mal parece deixar os intelectuais modernos muito perplexos. Será que eles acham que El Diablo é uma marca de molho de salsa?

A explicação de Hannah Arendt para o comportamento de Adolf Eichmann – a banalidade do mal – é uma das explicações que agora estão a ser usadas para dissecar o comportamento de Epstein. Outros dizem que ele não tinha consciência ou não conseguia raciocinar como um adulto; que não era muito inteligente, mas que era um excelente vigarista. Que era narcisista. Todas elas são explicações superficiais. Nenhuma delas chega ao cerne da questão. Como de costume, e de forma completamente errada, alguns culpam Nietzsche e a ideia do ubermensch (o super-homem). Nietzsche (tal como a Rússia) é frequentemente culpado por todos os males modernos por aqueles que interiorizaram noções falsas acerca da sua obra. Na verdade, Nietzsche alertou que, visto que os homens mataram Deus, “algo extraordinariamente desagradável e maligno está prestes a ocorrer”. Ele não estava nada contente com isso.

O brilhante e subestimado escritor Edward Dahlberg, num ensaio sobre Nietzsche – “O Verdadeiro Nietzsche ” – diz o seguinte sobre o filósofo: “Ele denunciou a política racial, outro termo para antissemita, chamando-se a si mesmo de ‘bom europeu’, ‘anti-antissemita’… Nada adiantou; os anti-judeus do Partido Nacional-Socialista Alemão (NSDAP) apresentaram-no ao público como um político teutónico. E é assim ele que ele é apresentado até hoje, distorcido para fins ideológicos. É de se perguntar quem é que ainda lê hoje em dia.

A propósito do uso da linguagem e da degradação da compreensão, Dahlberg acrescenta: “Tornámos a linguagem tão comum que deixámos de ser leitores simbólicos. A menos que examinemos o intelecto total do poeta como o seu texto, interpretaremos mal Blake ou Shakespeare, da mesma forma tola em que Nietzsche tem sido distorcido”.

Compreender as palavras simbolicamente é entender como os bons escritores as usam nos seus múltiplos significados, não apenas literalmente, não como lascas de pedra desprendidas de uma encosta pedregosa que atravancam uma estrada que não leva a lugar nenhum; mas como eles as fazem vibrar e brilhar, mergulhar profundamente e voar alto como pássaros luminescentes, para que outros possam contemplar profundamente e pensar uma, duas ou talvez mais vezes.

Pense no uso grosseiro da linguagem por parte de Trump; pense no de Epstein; pense na cultura em geral. Mergulhámos numa época de ignorância grosseira e a nossa decadência cultural reflete-se na decadência da nossa linguagem. Trump e Epstein refletem a cultura em geral nesse aspecto. Claramente, uma das razões para isso é a internet e os média digitais, particularmente o telemóvel com a sua câmara e mensagens de texto. É também uma razão importante para a comunicação vasta e constante entre Epstein e os seus «amigos», bem como a facilidade com que a chantagem poderia ser efetuada. Isso não é por acaso.

Alguns de nós tivemos a sorte de vivenciar, ainda jovens, a corrupção no âmago do sistema. Penso no grande jornalista  Michael Parenti, falecido recentemente, que por causa de suas opiniões pacifistas, foi excluído da carreira académica, mas que usou essa experiência para se tornar um professor livre para o mundo.

Na minha ingenuidade dos vinte e poucos anos, eu trabalhava à noite na 42ª Delegacia do Bronx, entrevistando detidos nas celas de detenção. Lá, descobri que muitos eram incriminados por polícias à paisana que colocavam drogas neles; que a delegacia tinha um stock de drogas ilegais para esse fim. Pensando que eu era seu aliado, um polícia contou-me isso e disse que «temos que tirar esses malditos bastardos das ruas» (referindo-se aos homens negros e porto-riquenhos). Isso foi quatro ou cinco anos antes de o honesto e corajoso polícia à paisana do Departamento de Polícia de Nova York, Frank Serpico (que mais tarde se tornou meu amigo), ser incriminado por outros polícias e ser baleado no rosto. Alguns anos depois, foi feito sobre ele o filme Serpico, interpretado por Al Pacino.

Há sempre um filme.

Numa escola onde eu lecionava, um homem que ocupava um cargo importante e que eu respeitava, sabendo que eu estava envolvido em atividades contra a guerra, tentou – para meu grande choque – recrutar-me para a Inteligência do Exército. Esses e muitos outros exemplos fizeram-me adotar desde cedo uma postura cética em relação às figuras de autoridade. Estou grato por essas lições iniciais.

Como todas as histórias, o filme de Epstein passa-se dentro de um sistema simbólico cultural mais amplo, que é mítico nas suas dimensões. De que outra forma se pode explicar o ódio quase inerradicável dos americanos por tudo o que é russo? Nos EUA, o grande mito é chamado Sonho Americano, no qual, segundo o falecido George Carlin, é preciso estar adormecido para acreditar, mas que, mesmo assim, existe, embora possa estar a desmoronar-se. Todas as sociedades têm um sistema simbólico desse tipo. Através das suas histórias e símbolos, são transmitidos significados e valores. E as pessoas vivem de histórias, histórias dentro de histórias. Mito significa história.

Durante muitas décadas, temos passado por uma enorme transformação simbólica, na qual a ordem simbólica controladora (do grego: juntar) está a ser substituída pelo seu oposto, uma ordem diabólica (do grego: separar, o diabo, el diablo) com novas histórias para confundir as mentes das pessoas, dissociar as suas personalidades, colocá-las umas contra as outras e criar uma sensação geral de incerteza. Deus contra o diabo.

Todo o poder é, fundamentalmente, poder para negar a mortalidade. Isso é verdade quer se trate do poder do Estado ou da Igreja, quer de grupos secretos como o de Epstein. E é sempre um poder sagrado. Sagrado ou pervertido.

Muitos perguntam por que os super-ricos e poderosos sempre querem mais. É simples. Eles desejam transcender a sua mortalidade humana e tornar-se deuses – imortais. Eles acreditam estupidamente que, se puderem dominar os outros, matar, dominar, violar, alcançar status, tornar-se bilionários, presidentes, magnatas, celebridades, etc., eles viverão de alguma forma numa estranha eternidade. Assim são Epstein e o seu círculo.

Num processo que se estendeu por, pelo menos, cento e cinquenta anos, os nossos sistemas simbólicos culturais/religiosos tradicionais foram radicalmente minados, principalmente pela criação faustiana de Lord Nuke (1). Todas as formas de imortalidade simbólica (teológica, biológica, criativa, natural e experiencial) que antes proporcionavam uma sensação de continuidade foram severamente ameaçadas. Este é o espectro assustador que paira sobre o pano de fundo da vida atual.

O que é a morte? Como derrotá-la ou transcendê-la? Qual é o número do telemóvel de Deus? Rápido. Improvise.

Homens pequenos como Epstein e aqueles que se deixaram capturar voluntariamente na sua teia, todos aqueles desesperados com as mãos nas calças, mentindo descaradamente enquanto iam com Pinóquio e o Cocheiro para a Ilha do Prazer…

Corte!

Esqueça o guião.

Ainda não vimos nada.


    (1) «Lord Nuke» não é um título muito conhecido, mas o autor refere-se, provavelmente, a Nuke (Frank Simpson), um supervilão da Marvel Comics. Ele é um soldado altamente cibernético e aprimorado, com um segundo coração, frequentemente usado pelo governo, conhecido pelas suas elevadas aptidões de combate e que aparece nos quadrinhos do Demolidor.

    (2) Edward Curtin é um escritor — difícil de classificar. O seu novo livro é “At the Lost and Found: Personal & Political Dispatches of Resistance and Hope” (Clarity Press).

    https://estatuadesal.com/2026/02/22/a-espontaneidade-cuidadosamente-calculada-da-divulgacao-chocante-dos-ficheiros-de-epstein/

    https://countercurrents.org/2026/02/the-carefully-contrived-spontaneity-of-the-shocking-epstein-files-release/


    quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

    Susana Peralta - Chega e o seu financiamento

    * Susana Peralta

    Há uma ironia deliciosa, daquelas que fariam rir se não fizessem chorar, na narrativa Venturiana do "povo contra as elites".

    André Ventura discursa contra o "sistema de interesses instalados" num hotel de luxo em Cascais onde o quarto mais barato custa mais que o salário mínimo de meio mês. Proclama-se voz dos abandonados e esquecidos enquanto janta em Monsanto com barões, condes e marqueses que financiam a sua cruzada populista com transferências de cinco dígitos. Promete "limpar Portugal" da corrupção enquanto esconde da Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) os nomes de quem realmente paga as contas do CHEGA.

    É teatro. Obviamente. Mas é teatro tão bem encenado, com cenografia tão convincente, que milhares acreditam. Acreditam que o homem financiado pela família Champalimaud — donos dos CTT, de hotéis de luxo, de participações no que resta do império BES — é verdadeiramente o paladino do povo. Que o político apoiado por comerciantes de armas, especuladores imobiliários e aristocratas ligados a redes bombistas do pós-25 de Abril é genuinamente anti-sistema. É preciso uma suspensão de descrença digna de ópera Wagneriana.

    Mas talvez o mais fascinante não seja a hipocrisia — essa é banal, universal, transversal ao espectro político. O fascinante é a elegância com que o esquema funciona. A precisão cirúrgica com que as políticas do Chega servem exactamente os interesses de quem o financia, enquanto a narrativa pública fala de outra coisa completamente diferente. É engenharia social de alto nível. Merece, no mínimo, análise.

    Comecemos pelos factos. Não as teorias da conspiração, não as especulações — os factos duros, documentados, publicados por jornalistas que fizeram o trabalho aborrecido de ler extractos bancários e cruzar transferências.

    A família Champalimaud, nas suas várias ramificações aristocráticas e empresariais, transferiu dezenas de milhares de euros para o Chega entre 2021 e 2022.

    Manuel Carlos de Melo Champalimaud, maior accionista dos CTT na altura, dez mil euros. Miguel de Mendia Montez Champalimaud, dono do The Oitavos (esse hotel de luxo onde Ventura faz comícios anti-elite), valores não especificados mas documentados. Miguel Vilardebó Sommer Champalimaud, dez mil. Mafalda Mendia Champalimaud, dez mil, repetidos. Eduardo Guedes Queiroz Mendia, ex-administrador da Espart (o braço imobiliário do Grupo Espírito Santo, aquele que implodiu levando as poupanças de milhares), também contribuiu generosamente.

    Não são os únicos. João Maria Ribeiro Bravo, empresário que vende armas e helicópteros ao Estado português e que recentemente foi alvo de buscas da PJ na operação "Torre de Controlo" sobre alegado cartel de helicópteros, não só deu cinco mil euros como organizou almoços de angariação para o Chega. Miguel Costa Félix, do sector imobiliário e turismo, 2500 euros. Isto é apenas aquilo que fácilmente se consegue confirmar e validar (apenas a ponta do novelo).

    Pedro Maria Cunha José de Mello, também presente. E há mais — condes, marqueses, barões, gente com títulos que pensávamos extintos mas que afinal andam por aí, vivos, ricos, e a financiar o partido que promete defender os pobres contra os poderosos.

    Alguns destes financiadores têm histórias particularmente saborosas. Miguel Sommer Champalimaud esteve implicado na tentativa de golpe spinolista de Setembro de 1974. Francisco Van Uden, monárquico na linha de sucessão ao trono, foi chefe operacional do ELP (Exército de Libertação de Portugal), organização terrorista de extrema-direita responsável por atentados no pós-revolução. Eduardo de Melo Mendia, quinto conde de Mendia, aparece nos Paradise Papers. Luís Mendia de Castro, quarto conde de Nova Goa, movimenta-se em instituições financeiras. São pessoas sérias. Gente de bem. Defensores da ordem, da hierarquia, da propriedade. Exactamente o tipo de aristocracia financeira que qualquer populista genuíno combateria até à morte.

    Mas Ventura não combate. Ventura agradece. E retribui.

    Porque aqui está o verdadeiro génio do esquema: as políticas do Chega alinham-se perfeitamente com os interesses de quem o financia, mas essa ligação nunca é explicitada. Nunca é discutida. Fica escondida nas entrelinhas dos programas eleitorais, camuflada por retórica sobre "povo", "nação", "soberania".

    É preciso ler com atenção — e poucos lêem — para perceber que o partido que se apresenta como defensor dos trabalhadores tem no seu programa a privatização de tudo o que o Estado ainda controla.

    Leiamos, então. Directamente do programa do Chega, página 45: "Ao Estado não compete a produção ou distribuição de bens e serviços, sejam eles serviços de Educação ou Saúde, ou sejam os bens vias de comunicação ou meios de transporte". Não é ambíguo. Não é metafórico. É literal. O Chega defende que o Estado se retire completamente da provisão de serviços. Saúde? Privada. Educação? Privada. Transportes? Privados. Tudo.

    Página 49, sobre saúde especificamente: "o Estado não deverá, idealmente, interferir como prestador de bens e serviços no Mercado da Saúde mas ser apenas, um árbitro imparcial e competente".

    Traduzindo do economês para português: acabar com o SNS. Não reformá-lo. Não melhorá-lo. Acabar com ele. Transformá-lo num sistema de seguros privados onde quem tem dinheiro tem saúde e quem não tem azar. Exactamente o modelo americano que está a fazer a esperança de vida nos EUA decrescer pela primeira vez em décadas entre países desenvolvidos. Exactamente o que beneficiaria os grandes grupos de saúde privada. Exactamente o que poderia interessar a quem tem investimentos nessas áreas.

    E a flat tax? Ah, a flat tax. A Iniciativa Liberal teve o bom senso de recuar nesta barbaridade fiscal depois de economistas a trucidarem publicamente. O Chega não. Mantém no programa a taxa única de IRS de 15%, com ambição declarada de chegar a 0%. Para quem ganha 800 euros por mês, isto é desastroso — pagaria mais impostos que no sistema actual. Para quem ganha 10.000, 50.000, 100.000 euros por mês, é o paraíso fiscal. Uma redistribuição massiva de riqueza de baixo para cima, dos que trabalham para os que especulam, dos assalariados para os rentistas.

    E o IMI? Também a 0%, segundo Ventura. Beneficiando essencialmente quem? Os grandes proprietários. As famílias com património imobiliário massivo. As fortunas fundiárias. Não as pessoas que compraram penosamente um T1 nos subúrbios. Essas pagariam através do IVA — que o Chega quer aumentar, concentrando a tributação no consumo, o imposto mais regressivo que existe, aquele que pesa mais sobre quem ganha menos.

    Há um padrão aqui. Um padrão claro, documentado, verificável. As políticas do Chega beneficiam sistematicamente os ricos. Os muito ricos. Os obscenamente ricos. Privatização de serviços públicos? Óptimo para quem pode comprar os activos privatizados. Flat tax? Maravilhoso para quem ganha rendimentos de capital. Fim do IMI? Perfeito para grandes proprietários. Parcerias público-privadas na saúde? Excelente para grupos privados do sector. Desregulamentação do mercado imobiliário? Fantástico para especuladores.

    E para o "povo" que Ventura diz representar? Para os trabalhadores precários, os jovens sem casa, os reformados com pensões miseráveis, as famílias que dependem do SNS porque não têm dinheiro para seguros privados? Para esses, o programa do Chega oferece o quê exactamente? Retórica. Indignação. Inimigos convenientes — imigrantes, ciganos, "esquerdalha". Mas soluções concretas que melhorem as suas vidas? Nenhumas. Pelo contrário: políticas que as piorariam drasticamente.

    Isto não é acidente. Não é incompetência. Não é Ventura a ser ingénuo e a deixar-se capturar por interesses que não compreende. É design. É o modelo de negócio. Mobilizar os ressentimentos legítimos das classes trabalhadoras — que existem, que são reais, que merecem atenção — e canalizá-los não para políticas redistributivas que melhorariam as suas vidas, mas para uma agenda que serve os interesses da elite financeira e aristocrática que financia o movimento. É o velho truque. Tão velho quanto a própria política. Tão eficaz quanto sempre foi. Dar aos pobres um inimigo mais pobre ainda (o imigrante, o "subsidiodependente") enquanto se rouba o que resta da sua protecção social para entregar aos ricos. É como funcionou o fascismo. Como funciona o populismo autoritário em todo o lado. Prometem ordem, nação, tradição. Entregam desregulamentação, privatização, transferência de riqueza para cima.

    E funciona porque a narrativa é convincente. Porque Ventura é bom no que faz — mobilizar emoção, criar identificação, performar autenticidade. Porque os media amplificam sem contexto. Porque os adversários políticos respondem com indignação moral em vez de exposição factual. Porque a maioria das pessoas não vai ler os programas eleitorais, os extractos bancários, as investigações jornalísticas. Vão apenas ouvir o discurso, ver as imagens, sentir a raiva.

    E há tanto por que estar com raiva. Legitimamente. O sistema político português falhou muita gente. A precariedade é real. Os salários são vergonhosos. A habitação é inacessível. Os serviços públicos estão degradados. As instituições perderam credibilidade. Tudo isto é verdade. Tudo isto precisa de resposta. Mas a resposta do Chega não é resposta — é exploração. É pegar nessa raiva legítima e usá-la para implementar exactamente as políticas que piorarão os problemas que a geraram.

    Porque quem pensa que privatizar o SNS vai melhorar o acesso à saúde dos pobres é ingénuo ou desonesto. Quem acredita que uma flat tax vai beneficiar trabalhadores precários não percebe matemática básica. Quem imagina que acabar com a regulação do mercado de trabalho vai aumentar salários desconhece história económica elementar. Estas não são soluções. São transferências de riqueza e poder para quem já tem demasiado de ambos.

    E os financiadores do Chega sabem disto. Obviamente. Não são estúpidos. São, na verdade, bastante inteligentes. Investiram em Ventura porque viram uma oportunidade. Viram um talento performativo raro combinado com ausência de escrúpulos ideológicos. Viram alguém que podia mobilizar massas enquanto servia interesses de classe. Viram o veículo perfeito para uma agenda que nunca ganharia eleições se fosse apresentada honestamente.

    Porque se Manuel Champalimaud se candidatasse às eleições com o programa "vou privatizar os CTT, o SNS, a educação pública, e baixar os impostos aos ricos", seria trucidado nas urnas. Mas Ventura pode propor exactamente isso — desde que embrulhe em bandeiras, hinos, retórica nacionalista, e acuse os outros de serem as verdadeiras elites. É marketing genial. É terrível. Mas é genial.

    E nós, espectadores mais ou menos cúmplices, assistimos. Alguns indignados, outros entusiasmados, a maioria apenas cansada. Partilhamos os escândalos, comentamos as polémicas, esquecemos os detalhes. Porque os detalhes são aborrecidos. Extractos bancários são aborrecidos. Programas eleitorais são aborrecidos. Análise de políticas fiscais é aborrecida. Ler este artigo é aborrecido. Muito mais fácil ver Ventura a gritar, a apontar dedos, a prometer limpeza e ordem.

    E enquanto isso, os Champalimauds, os Bravos, os Mendias, os condes e marqueses, vão transferindo os seus cinco e dez mil euros. Jantam em Monsanto. Almoçam no Oitavos. Financiam o homem do povo. E sorriem, imagino, com aquele sorriso de quem sabe que fez um bom investimento. Porque afinal, por uns milhares de euros — que para eles são trocos, loose change, o que gastam num fim-de-semana em Saint-Tropez — estão a comprar políticas que lhes valerão milhões.

    É um esquema elegante. Eficiente. Rentável. E completamente legal. Porque em 2017, PS, PSD, PCP, BE e PEV votaram para abolir os limites de donativos a partidos. Abriram as portas. Deixaram o dinheiro fluir livremente. E agora surpreendem-se — ou fingem surpreender-se — que haja quem aproveite.

    O Chega esconde nomes da lista de financiadores entregue à Entidade das Contas. Omite doações. "Esquece-se" de reportar transferências. E não há consequências. Porque não há fiscalização real. Porque a Entidade das Contas e Financiamentos Políticos (ECFP) tem três pessoas para fiscalizar todos os partidos. Porque o sistema foi desenhado para não funcionar. Porque a opacidade convém a todos. E assim continuamos. Ventura grita contra as elites. As elites financiam Ventura. O povo aplaude. Os ricos enriquecem. O SNS definha. Os salários estagnam. As casas ficam inacessíveis. E daqui a uns anos, quando as políticas do Chega forem implementadas — se forem —, quando os hospitais públicos forem entregues a privados, quando a flat tax transferir mais milhares de milhões para o topo, quando a última rede de protecção social for desmantelada, talvez olhemos para trás e perguntemo-nos como é que deixámos isto acontecer.

    Mas provavelmente não. Provavelmente estaremos demasiado ocupados com a próxima indignação, o próximo escândalo, o próximo inimigo conveniente que Ventura nos apontar. Porque o espetáculo não pára. Nunca pára. E nós somos simultaneamente audiência e combustível, vítimas e cúmplices.

    Bem-vindos ao populismo do século XXI. Onde os paladinos do povo têm contas nas Ilhas Caimão e os defensores dos trabalhadores jantam com marqueses. Onde a retórica é de esquerda mas as políticas são de direita radical. Onde tudo é performance, nada é real, e os únicos que ganham são precisamente aqueles contra quem o populista diz lutar.

    É deprimente. É previsível. É evitável. Mas não será evitado. Porque evitá-lo exigiria ler os programas, seguir o dinheiro, conectar os pontos. E isso dá trabalho. Muito mais trabalho que partilhar mais um vídeo de Ventura e sentirmo-nos indignados ou validados.

    Então os Champalimauds continuarão a transferir. Ventura continuará a gritar. O povo continuará a acreditar. E os condes continuarão a sorrir, porque afinal descobriram a formula perfeita: comprar uma revolução popular que serve os interesses da aristocracia.

    É quase poético. Se não fosse trágico.

    https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/02/chega-e-o-seu-financiamento-um-artigo.html
    ***
    Por Carlos Esperança - fevereiro 19, 2026

    quinta-feira, 22 de janeiro de 2026

    Ricardo E. Rubenstein - As intervenções ignóbeis de Trump: como o “imperialismo regional” leva à guerra mundial

    Ricardo E. Rubenstein

    Pouco depois da primeira eleição de Donald Trump como presidente, alguém me perguntou num fórum público se eu o considerava um fascista. Respondi que Trump era um conservador ultranacionalista que tentaria privatizar os serviços públicos, fortalecer ainda mais os oligarcas e reverter muitas políticas sociais liberais – mas que dois aspetos essenciais do fascismo estavam ausentes de sua agenda MAGA. Um deles era o compromisso de conduzir guerras agressivas contra nações “inferiores” consideradas ameaças à segurança da Pátria Sagrada. O segundo era a militarização da sociedade civil, acompanhada por um poder executivo descontrolado, negação generalizada dos direitos civis e campanhas de terror de Estado contra os oponentes reais ou imaginários do Líder.

    Esses dois aspetos do fascismo, como Hannah Arendt apontou há 50 anos em As Origens do Totalitarismo, estão organicamente relacionados. As técnicas de conquista e dominação de populações subjugadas, utilizadas em guerras imperialistas, são trazidas de volta para casa pelos belicistas e tornam-se ferramentas essenciais da governação interna. Primeiro, os fascistas decapitam, dividem e conquistam as nações “de merda” (para citar o Sr. Trump). Depois, fazem o mesmo com elementos “de merda” da população da sua própria nação.

    Na minha opinião, esse processo ainda não foi concluído nos Estados Unidos. Apesar dos graves abusos do poder executivo por parte de Trump, das políticas desumanizadoras do movimento MAGA e dos excessos violentos do ICE, a militarização interna ainda não chegou ao ponto de terrorismo de Estado contra a maioria dos cidadãos americanos. Mas a direção dessas políticas é inegável. O ataque à Venezuela, na sequência do genocídio financiado pelos EUA em Gaza, é um passo claro em direção a uma política externa fascista, cuja prossecução gera guerras globais.

    O que obscurece essa realidade no momento e confunde a cobertura mediática da situação é a invocação, por Trump, da Doutrina Monroe (também conhecida como Doutrina Don-Roe) para justificar a sua viragem brusca em direção ao intervencionismo. Sim, ele sequestrou os Maduros, matou soldados venezuelanos e cubanos, declarou-se dono do petróleo da Venezuela, destruiu ou capturou navios e tripulações que partiam de portos venezuelanos, ameaçou os governantes da Colômbia, Cuba, México e Brasil e prometeu anexar a Groenlândia. Ele também interveio direta e indiretamente no Médio Oriente, na Ucrânia, na África e noutros lugares. Mesmo assim, muitos comentadores concluem que a intenção de Trump é exercer o poder militar principalmente no “quintal” caribenho e latino-americano dos EUA, enquanto outras potências regionais, como a China e a Rússia, agem como bem entendem nas suas próprias esferas de influência.

    Essa versão autoritária da multipolaridade pode satisfazer os membros da coligação MAGA que querem acreditar que o aspirante ao Nobel permanecerá fiel à sua promessa original de evitar “guerras intermináveis”. Ela até ganhou aceitação entre alguns analistas de publicações de política externa e ONGs tradicionais. Aceitar esse foco regional, no entanto, significa fechar os olhos para a história e para a dinâmica do imperialismo.

    História.   No meio da enxurrada de artigos e transmissões sobre a aventura venezuelana de Trump, encontram-se poucas análises que comparam a agressão dos EUA com as guerras imperiais da década de 1930: em particular, a anexação da Manchúria pelo Japão, a invasão da Etiópia por Mussolini e as intervenções de Hitler na Europa Central e na Guerra Civil Espanhola. Mas a analogia é surpreendente. Assim como as ações recentes de Trump, esses foram ataques assimétricos e de curto prazo contra nações que resistiam à dominação de uma potência hegemónica regional. O seu impacto foi minimizado ao serem caracterizados como guerras limitadas, conduzidas na esfera de influência de alguma potência imperial. Mas hoje entendemos que também foram passos significativos rumo a uma guerra mundial.

    Por quê? Por que motivo esse tipo de violência não permanece restrito à esfera regional, em vez de gerar conflitos globais? O primeiro motivo é que essas intervenções visam concorrentes imperialistas, não apenas resistentes locais. A guerra da Itália na Etiópia tinha como alvo os interesses britânicos no Corno de África, a agressão do Japão na Manchúria visava os interesses chineses e russos, e as maquinações da Alemanha na Europa visavam os interesses ocidentais e russos. Quarenta anos depois, Richard Nixon e Henry Kissinger derrubaram o regime de Allende no Chile e instalaram a ditadura de Pinochet porque consideravam Allende um potencial aliado soviético (e cubano). Da mesma forma, o objetivo principal de Trump na América Latina é limitar a crescente influência da China (e a influência menos substancial da Rússia) naquele continente.

    Dinâmica. Deixando de lado as doutrinas Don-Roe, o aparente foco local de operações como o ataque à Venezuela é uma ilusão. O fato de o alvo principal ser um império rival obriga outras nações da região afetada a tomar partido – um processo polarizador que tende a criar blocos multinacionais armados e uma ordem mundial bipolar. A obra clássica de Barbara Tuchman, Os Canhões de Agosto, mostra exatamente como isso funcionou para produzir a incrivelmente destrutiva “guerra para acabar com todas as guerras” em 1914. É provável que vejamos essa polarização ocorrer com intensidade crescente nos próximos anos na América Latina, África e Ásia Oriental.

    Mas isso não é tudo. As potências imperiais, impedidas de adquirir recursos industriais essenciais em regiões reivindicadas pelos seus concorrentes, tendem a retaliar tomando o controlo de outras regiões onde esses recursos podem ser obtidos. Em 1931, as tentativas ocidentais de enfraquecer e conter os japoneses levaram o regime de Tóquio a forjar um incidente de “falsa bandeira” na Manchúria para se apoderar do carvão e do ferro daquela nação. Uma década depois, os imperialistas japoneses conquistaram o Vietname, a Indonésia e a Malásia para garantir o petróleo, a borracha, o estanho e outros materiais industriais monopolizados pelos imperialistas franceses, holandeses e britânicos no que até então era considerado o quintal da Europa.

    Qual é a moral da história? Todos os impérios modernos são globais. Os EUA e os seus rivais não são como os antigos impérios que conquistavam nações mais fracas por desporto, cobrando tributos dos seus governantes, mas geralmente deixando os povos subjugados à própria sorte. Os impérios modernos são potências do capitalismo tardio, impulsionadas a competir globalmente por matérias-primas industriais essenciais, mercados e oportunidades de investimento, e compelidas a “desenvolver” ou transformar as sociedades que dominam. Não há como manter as suas classes dominantes confinadas nos seus próprios territórios – e quando viajam para o exterior (como precisam de fazer para manter a sua própria viabilidade), vão armadas até aos dentes.

    Comentadores liberais e conservadores podem ser relutantes a admitir, mas a obra de Lenine sobre o imperialismo acertou em cheio. Por períodos limitados, enquanto emitem ameaças de violência e realizam operações secretas, os construtores de impérios podem até conseguir negociar as suas diferenças “pacificamente”. Mas esses períodos de relativa tranquilidade não duram. Incapazes de resolver os problemas globais que os seus próprios sistemas dominados pelo lucro exacerbam – problemas como a desigualdade social radical, as mudanças climáticas causadas pelo homem e a migração em massa –, eles empregam ameaças de guerra e a própria guerra como métodos prediletos de gestão de conflitos. Chamam a essa estratégia a “paz pela força”, mas entendemos que o que realmente querem dizer é o Império em Primeiro Lugar, por quaisquer meios necessários.

    O facto de a guerra estar agora totalmente industrializada e de as armas de destruição em massa, incluindo as nucleares, estarem proliferando a um ritmo vertiginoso não altera essa dinâmica. Tampouco a existência de uma Organização das Nações Unidas lamentavelmente enfraquecida oferece muita esperança de que os conflitos inter-imperiais possam ser controlados antes que se tornem parte de mais um prenúncio de violência global. Mais uma vez, a história faz ecoar alarmes que qualquer pessoa que não esteja ensurdecida pela cacofonia atual deveria ser capaz de ouvir. Foi precisamente quando a Liga das Nações se mostrou incapaz de deter a agressão localizada do Japão, da Itália e da Alemanha que o Pacto Kellogg-Briand, que proibia a guerra como instrumento de política nacional – um tratado assinado por quase todas as nações do mundo – se tornou letra morta. Então e agora, o imperialismo regional intensificado era um sintoma de uma guerra global iminente.

    O intervencionismo de Donald Trump representa, portanto, uma significativa guinada rumo ao fascismo – mas a sua importância já está a ser minimizada não apenas pelos seguidores fanáticos do MAGA, mas também por uma ampla gama de liberais do establishment, centristas de ambos os partidos, especialistas em política externa e pela grande mídia.

    Devotados ao dogma da “paz pela força”, líderes do Partido Democrata como Chuck Schumer e Hakeem Jeffries são incapazes de criticar as aventuras militares de Trump, exceto para reclamar que ele não consulta o Congresso como deveria e, às vezes, age de forma “imprudente”. Com o Iraque em mente, os editores do New York Times alertam que tentar ocupar nações que não querem ser ocupadas é uma má ideia. Mas se Trump conseguir apoderar-se do petróleo venezuelano sem provocar uma guerra de guerrilha, desestabilizar Cuba sem um novo ataque na Baía dos Porcos, estabelecer o seu “Conselho de Paz” colonialista para a devastada Faixa de Gaza ou anexar a Groenlândia por meio de ameaças e subornos, não ouviremos uma palavra de crítica séria dos defensores da “liderança mundial” dos EUA.

    Sejam anti-Trump ou pró-Trump, os nossos líderes imperialistas e os seus parceiros corporativos ignoram as conexões entre guerras regionais, a militarização da sociedade doméstica e a crescente probabilidade de uma guerra mundial. Essa é a má notícia. A boa notícia é que o intervencionismo cada vez mais descontrolado e impenitente de Trump está a despertar as pessoas em diversas frentes. Império, imperialismo e o complexo militar-industrial não são mais palavras e conceitos tabu. Até mesmo Marjorie Taylor Greene entende que a promessa de Trump de ser um bom isolacionista era uma mentira e que a atual onda de intervenções militares dos EUA é um sintoma de um império em declínio.

    Enquanto isso, os cidadãos do Minnesota e de vários outros estados americanos estão a aprender o que é ser súbdito da dominação imperial. Os agentes mascarados e armados do ICE, agindo por medo e raiva num ambiente cada vez mais hostil, poderiam estar a invadir Fallujah tanto quanto Minneapolis. Levará algum tempo até que o nosso despertar se torne geral, mas isso acontecerá, espero e rezo, antes que a violência trumpista gere um movimento irreversível rumo a uma guerra mundial.

    Para citar a faixa que aparece no final do filme antinuclear de Stanley Kramer de 1959, “A Hora Final” (On the Beach): “Ainda há tempo…irmão”.

    21 de janeiro de 2026

    Fonte aqui.

    https://www.counterpunch.org/2026/01/21/trumps-ignoble-interventions-how-regional-imperialism-leads-to-world-war/

    https://estatuadesal.com/2026/01/22/as-intervencoes-ignobeis-de-trump-como-o-imperialismo-regional-leva-a-guerra-mundial

    segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

    João Gomes - Marias Cachuchas sem sorte

    * João Gomes, 

    (Antes de mais quero dar os parabens ao autor deste texto. Pela qualidade literária, pela atualidade – devido ao recentemente badalado caso do bebé desaparecido de um hospital que o Estado se prepara para “subtrair” à mãe -, pela justeza ética dos valores que defende. Infelizmente, ainda que todas as mães sejam iguais, há sempre umas mais “iguais” que outras…

    O autor, entretanto, criou uma Petição Pública para que as autoridades competentes reexaminem o caso, denominada “Pela revisão do caso da mãe de Gaia e pelo direito ao apoio social à família” 

    ~~~~~~ooo0ooo~~~~~~

    Estátua de Sal, 06-12-2025)


    (Antes de mais quero dar os parabens ao autor deste texto. Pela qualidade literária, pela atualidade – devido ao recentemente badalado caso do bebé desaparecido de um hospital que o Estado se prepara para “subtrair” à mãe -, pela justeza ética dos valores que defende. Infelizmente, ainda que todas as mães sejam iguais, há sempre umas mais “iguais” que outras…

    O autor, entretanto, criou uma Petição Pública para que as autoridades competentes reexaminem o caso, denominada “Pela revisão do caso da mãe de Gaia e pelo direito ao apoio social à família”, a qual pode ser assinada aqui

    Estátua de Sal, 06-12-2025)

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    Diz o povo, com aquele jeito fatalista que o tempo ensinou: “É do tempo da Maria Cachucha.” Querendo dizer velho, gasto, ultrapassado. Mas talvez o povo nunca tenha percebido que a verdadeira Maria Cachucha não era sinal de antiguidade – era sinal de resistência. Uma mulher que dançava para não sucumbir, que rodopiava nos adros como quem enfrenta o mundo com os pés descalços e o coração inteiro.

    Hoje, a Maria Cachucha existe, mas já ninguém lhe conhece o nome. Perdeu-se nas vielas, nos prédios devolutos onde o vento entra melhor do que o sol, nas barracas que ainda sobrevivem por entre promessas políticas e fotografias de inaugurações. Não dança mais a cachucha – porque o tempo não lhe dá folga -, mas carrega nos braços o que o mundo insiste em lhe tirar: os filhos.

    São as Marias Cachuchas sem sorte deste país. As que aprendem cedo que a pobreza é sempre suspeita, mesmo quando é honesta; que o amor não é suficiente para provar que se é mãe; que o Estado aparece mais depressa para levar uma criança do que para garantir que uma casa tenha teto, água quente ou paredes que não caiam à chuva.

    Todas as mulheres que, como a jovem de Gaia, veem a maternidade tratada como um privilégio condicional – “podes ser mãe, mas só se tiveres condições”. Condições que ninguém lhes deu, que ninguém lhes quis dar, que ninguém se apressa a construir. Porque é mais simples retirar um bebé do que erguer uma casa; mais rápido assinar um despacho do que garantir um futuro.

    E assim, neste país que se orgulha de ser “avançado”, onde os discursos falam de natalidade como quem fala de números e metas, continuam a existir crianças que nascem nos carros à porta das maternidades fechadas, mães que chegam sozinhas aos hospitais porque os transportes públicos não passam, famílias que vivem em quartos interiores onde a esperança mal cabe.

    E quando uma mãe pobre segura o filho nos braços, o mundo olha para ela como se segurasse uma culpa.

    As Marias Cachuchas de hoje não são dançarinas de praça. São mulheres de vinte anos com um bebé ao colo e o coração apertado. São avós que defendem filhas e netos com a força que têm e a que já não têm. São mães que, em vez de ensaiar passos de dança, ensaiam justificações perante assistentes sociais: “Sim, o quarto é pequeno… sim, o frigorífico está velho… mas eu amo o meu filho.” Como se o amor fosse prova insuficiente. Como se o amor tivesse de passar no crivo das autoridades. Como se existir fosse um teste permanente que a pobreza desclassifica à partida.

    E, no entanto, estas mulheres, silenciosas e invisíveis, continuam a dançar – não com os pés, mas com a coragem. Dançam contra a burocracia, contra a humilhação, contra a estatística. Dançam para manter ao colo aquilo que o mundo lhes tenta arrancar. Dançam porque a maternidade pobre continua a ser vista como erro, quando devia ser vista como pedido de ajuda.

    A verdadeira Maria Cachucha, se ainda existisse, teria largado a mantilha e posto as mãos na anca, olhando o país com aquela altivez antiga que a lenda lhe atribui. Teria dito, entre um passo e outro: “Não é nas mães que está o problema – é no país que as deixa cair.”

    Hoje, no Natal que se aproxima com luzes caras e palavras doces, convém recordar que nem todas as crianças dormem em lares aquecidos. Convém lembrar que há mães que rezam, não por presentes, mas para que ninguém lhes leve os filhos. Convém não esquecer que, num país que não garante habitação digna, retirar uma criança por pobreza não é proteção – é punição.

    E talvez, só talvez, seja tempo de devolver às Marias Cachuchas deste país algo mais do que a memória romântica de uma dançarina. Talvez seja tempo de lhes devolver futuro. E lhes dar condições de habitabilidade. E de lhes devolver os filhos.

    Bom dia!

    in Facebook, 05/12/2025

    https://estatuadesal.com/2025/12/06/marias-cachuchas-sem-sorte