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quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Novo livro da saga Millennium, sem Stieg Larsson

LITERATURA

Novo livro da saga Millennium, sem Stieg Larsson, editado em Portugal em 2015

Oceanos editará o quarto livro da saga best-seller, que será escrito pelo sueco David Lagercrantz, autor da biografia do futebolista sueco Zlatan Ibrahimovic

Joana Amaral Cardoso

18 de Dezembro de 2013, 13:2

Um novo livro da saga Millennium de Stieg Larsson, já assinado por um novo escritor, será editado em Portugal em 2015, confirmou esta quarta-feira ao PÚBLICO a LeYa, que através da sua chancela Oceanos publicou já Os Homens que Odeiam as MulheresA Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar. Na terça-feira, a editora sueca Norstedts anunciou que a trilogia terá uma sequela, desta feita assinada pelo sueco David Lagercrantz – autor da biografia I am Zlatan, do futebolista sueco Zlatan Ibrahimovic, que se tornou no livro mais rapidamente vendido da Suécia em 2011.

O livro de Lagercrantz está previsto para Agosto de 2015 na Suécia, exactamente dez anos depois do lançamento do primeiro volume da trilogia Millennium, que vendeu mais 75 milhões de livros em todo o mundo e é um dos fenómenos literários da primeira década do século XXI. Em Portugal, segundo dados da LeYa, os três livros venderam já mais de 157 mil exemplares (119 mil na sua edição original e quase 38 mil na versão BIS, a colecção de livros de bolso).

Pouco se sabe ainda sobre o caminho que a história da hacker Lisbeth Salander e do jornalista de investigação Mikael Blomkvist tomará nas mãos de Lagercrantz, também ele um ex-jornalista que começou a sua carreira a cobrir casos de crimes e serial-killers, como diz o britânico Telegraph. A BBC escreve que o novo livro contará com as personagens centrais da história de Larsson e que algumas das linhas narrativas da intriga dos três primeiros livros serão recuperadas.

Mas a directora da editora sueca, Eva Gedin, garantiu à Associated Press (AP) que este quarto livro é independente dos anteriores tomos e que será uma obra original que nada contém do esboço não terminado deixado por Larsson antes da sua morte. Para ela, citada pelo diário sueco Aftonbladet, as personagens criadas por Larsson são tão fortes que hoje se sustentam por si e agora terão uma segunda vida às mãos de Lagercrantz. Eva Gabrielsson, companheira de Larsson até à sua morte, manifestou ao jornal sueco a sua preocupação com o facto de Lagercrantz poder não lidar correctamente com os temas sociais e políticos subjacentes à intriga policial da obra de Larsson. E foi taxativa: “Stieg nunca o teria permitido. Ele era muito cuidadoso com a sua obra”, disse, acrescentando que “é de mau gosto tentar fazer mais dinheiro” a partir destes livros.  

A história da feitura da trilogia Millennium, ela própria digna de um romance com uma intriga finalizada com um revés dramático, é bem conhecida: Stieg Larsson, jornalista e escritor, terminou os primeiros três de uma série que planeava que tivesse dez livros e morreu de ataque cardíaco em Novembro de 2004, aos 50 anos, antes de ver a saga de Lisbeth Salander e do seu suposto alter-ego Mikael Blomkvist explodir em popularidade em 50 países e dar origem a quatro filmes - três suecos e um made in Hollywood.

Os policiais, e típicos page turners, viram-se envoltos na luta judicial entre o pai e o irmão de Larsson e a sua companheira Eva Gabrielsson em torno dos direitos sobre o legado literário do escritor - Gabrielsson terá o computador portátil em que o escritor tinha esboçado cerca de três quartos de um quarto volume de Millennium. Stieg Larsson morreu sem deixar em testamento os seus desejos quanto ao seu espólio e obra e, como não eram casados, a batalha judicial adensou-se e Eva Gabrielsson, também ela escritora, recusou revelar mais detalhes sobre a obra inacabada até que lhe sejam atribuídos os direitos sobre o legado literário de Larsson. 

O amigo e colega de Larsson, Kurdo Baksi, contou há três anos ao diário sueco Expressen alguns desses detalhes que Gabrielsson quererá manter em segredo, nomeadamente que os planos de Larsson nesse quarto volume davam mais protagonismo à irmã gémea de Lisbeth,Camilla, e que levaria Blomkvist a vários países, como Irlanda, Suécia e EUA. No livro de Gabrielsson, Millennium, Stieg et moi (2011), ela própria avança que o título de trabalho para o livro inacabado seria A Vingança de Deus.

À BBC, Eva Gedin explicou agora: “Decidimos deixar alguém tomar conta [da saga] e contar o que aconteceu a seguir”. "Obviamente estamos muito entusiasmados. Acreditamos ter encontrado um autor soberbo para este projecto”, disse a directora, desta feita à AP. Lagercrantz, que aos 51 anos é autor de vários romances e de livros de não-ficção como I Am Zlatan, é também citado pela BBC dizendo que “já começou a escrevê-lo” e que “é terrivelmente divertido. É um mundo fantástico onde entrar”.

Lagercrantz vive no bairro sueco de Södermalm que Larsson retratou nos seus policiais e que é agora uma espécie de local de romaria para turistas literários que visitam os cenários dos livros e dos filmes. A Nordstedts descreve-o em comunicado como alguém que “procurou constantemente na sua escrita personagens bizarras e génios complexos”.
 
 

 https://www.publico.pt/2013/12/18/culturaipsilon/noticia/quarto-livro-da-saga-millennium-sem-stieg-larsson-editado-em-portugal-em-2015-1616751


sábado, 21 de agosto de 2010

Marilyn, a intelectual

Ípsilon


Novo livro

Marilyn, a intelectual

18.08.2010 - Joana Amaral Cardoso



"Fragments", conjunto de escritos de Marilyn Monroe até agora inéditos, mostra que havia, por trás do corpo com mais "sex-appeal" de todo o século XX, uma actriz apaixonada por Whitman, Joyce, Yeats e Beckett
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Marilyn não acaba. Marilyn é para sempre. Marilyn tinha diamantes como melhores amigos, era a loira que os "gentlemen" preferiam. Agora, novo capítulo Marilyn. Imagens inéditas - já são (quase) todas conhecidas. Radiografias únicas - também já foram vendidas (35 mil euros para levar o peito de Marilyn para casa). Escritos inéditos, por Marilyn a própria - isto sim é novo. Em Outubro (dia 12 em França, e algures em mais dez países), chega Marilyn Monroe autora em "Fragments", livro-compilação em que a actriz revela a sua frustração por ver o seu lado intelectual ignorado, por se ver confundida com os seus papéis.
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"Fragments" são páginas de diário, poemas e apontamentos breves, cartas fac-similadas, recortes de jornal e fotografias pessoais que datam de 1943 até às vésperas da morte da actriz, em 1962. Além da perspectiva de Marilyn sobre aspectos da vida sentimental (diz a editora americana que ela fala sobre todos os seus amores), encontramos, "nos seus textos muito pessoais, James Joyce, que ela tinha descoberto aos 26 anos ao interpretar os extractos do mítico monólogo de Molly", explicou Bernard Comment, o editor francês de "Fragments", ao "Le Figaro".
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Mais: "Ela também admirava Samuel Beckett desde que começou a frequenter o Actor's Studio. Mais surpreendente ainda, a sua fascinação pelo bardo Walt Whitman, fundador da poesia americana moderna".
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A edição, franco-americana (parceria das Editions du Seuil com a Farrar, Straus & Giroux), parte do espólio de Marilyn, agora nas mãos de Anna Strasberg, viúva de Lee Strasberg (fundador do Actor's Studio). No final de 2008, Bernard Comment ouviu falar dos escritos dispersos de Marilyn num jantar. Editor na Seuil, Comment coligiu-os com o produtor Stanley Buchtahl. Estavam apontados em cadernos de argolas, papel de carta de hotel...
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No prefácio, escreve Antonio Tabucchi: "No interior deste corpo vivia a alma de uma intelectual e poeta de que ninguém tinha um pingo de suspeita". Não será totalmente verdade. Em 1999, o seu exemplar de "Ulisses", de Joyce, foi vendido por 7100 euros num leilão da Christie's.
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"Às vezes eu costumava escrever poesia, mas normalmente quando estava deprimida. Os poucos a quem a mostrei (na verdade, a duas pessoas) disseram que os deprimia - um deles chorou, mas era um amigo que eu conhecia há muito tempo", escreveu Marilyn ao poeta e amigo recente Norman Rosten no Verão de 1955.
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Esse bilhete, escrito em papel timbrado do hotel Waldorf-Astoria, é recuperado em "Goddess - The Secret Lives of Marilyn Monroe" (Sphere), que por seu turno cita Rosten no seu "Marilyn: An Untold Story", de 1967. Aí se fala das preferências literárias da actriz, de W.B. Yeats, de quem Marilyn fez uma leitura embriagada, a Walt Whitman. "Ela gostava de poesia. Era um atalho para ela. Percebia, com o instinto de um poeta, que ela conduz directamente ao coração da experiência". Graças às visitas aos Rosten, a estrela que tinha uma gigantesca biblioteca carregada de George Bernard Shaw, Ernest Hemingway, Tennessee Williams, D.H. Lawrence, F. Scott Fitzgerald ou John Steinbeck, voltou a escrever. Participava em leituras de poemas de autores reconhecidos - "Ela pensava que os poetas eram místicos. Tentei tirar-lhe essa ideia", dizia Rosten - e enviava ao novo amigo as suas novas tentativas poéticas.
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Agora, finalmente, esta Marilyn mais desconhecida chega num livro organizado cronologicamente e acompanhado por cerca de 30 imagens (de 1951 a 1962). "Há um certo tom melancólico ao longo do livro, e o que é muito belo em algumas das notas é a forma como se vê a associação entre ideias", diz o seu editor ao "Figaro". "Penso que ela não só gostava, como sentia a necessidade [de escrever], de organizar a sua vida e de tentar firmar os sentimentos extremamente agudos que podia ter em reacção a certas situações".
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A vingança de Marilyn
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Marilyn no divã, introspecção, e aquilo que a imprensa arrisca poder vir a ser uma caução intelectual, literata, culta da "Rapariga da Paragem de Autocarro". Marilyn é até hoje refém da sua aura sensual-inocente, uma espécie de mãe de todas as anedotas de (tínhamos que aqui chegar) loiras burras que não era bem uma actriz aos olhos de um Truman Capote embevecido - ele considerava-a uma luz tão ténue que câmara alguma conseguiria captar. Em "Fragments", Monroe escreve sobre as suas leituras de Samuel Beckett ou James Joyce. "Era uma grande leitora e [tinha] verdadeira classe na escrita. Há fragmentos de poesia que são mesmo bastante belos, que nos param o olhar", disse Courtney Hodell, a editora americana, à Reuters.
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O livro terá uma edição alternativa, de luxo. Nele, Marilyn Monroe também escreve sobre o que é ser actriz e manda uma carta a Lee Strasberg. Fala sobre Arthur Miller, o dramaturgo de "Os Inadaptados" e "Morte dum Caixeiro Viajante", o seu terceiro marido, e assina um ensaio sobre o primeiro, James Dougherty.
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Marilyn Monroe, nascida Norma Jean Baker, é ao mesmo tempo o toque de Midas e o canto da sereia. Desde a sua morte que se publicam livros, biografias, investigações, álbuns fotográficos - e há 48 anos que romancistas se encantam com ela. Norman Mailer com a biografia "Marilyn" (1973) e as suas "Memórias Imaginárias" (1980); Joyce Carol Oates com "Blonde" (2000), um tributo de mil páginas. Agora, Marilyn por Marilyn, auto-retrato estilhaçado, é a vingança póstuma de que fala o "Figaro": a derradeira prova (será?) de que uma "blonde bombshell" também pensa. 
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