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sábado, 23 de maio de 2026

Eduardo Maltez Silva - Uma opinião sobre Sócrates e o futuro do PS

 


* Eduardo Maltez Silva

Esta é uma opinião controversa — e convém dizê-lo logo à partida: nada disto desculpa, apaga ou relativiza a mancha negra de corrupção que paira sobre José Sócrates.

Quem quer defender a verdade histórica não precisa de branquear a ferida democrática que esse caso abriu. Isso fica claro.

Mas reduzir todo o ciclo Sócrates à corrupção é intelectualmente desonesto.

Porque, goste-se ou não, houve ali uma coisa que hoje quase desapareceu da política portuguesa:

VISÃO DE PAÍS.

Sócrates teve vícios, arrogância, erros, obras discutíveis e uma relação perigosa com o poder económico. Mas também teve uma ideia de modernização nacional.

E muitas das coisas que, na altura, foram ridicularizadas, atacadas ou tratadas como propaganda são hoje absolutamente essenciais.

Foi assim com o Cartão de Cidadão.

Hoje, ninguém imagina voltar ao tempo em que cada pessoa andava com bilhete de identidade, cartão de contribuinte, cartão da Segurança Social, cartão de eleitor e cartão de utente separados. Mas, quando surgiu, foi apresentado como mais uma “mania modernizadora”.

O mesmo vale para o Simplex, a Empresa na Hora, o Documento Único Automóvel e a desmaterialização dos serviços públicos. Hoje parece banal. Na altura, era um gasto.

Foi assim com o Magalhães e com a escola digital.

O computador foi gozado até à exaustão. Era o “computadorzinho”, era a “propaganda”, era a “modernice”que só servia para jogarem jogos.

Mas a ideia era simples: pôr tecnologia nas mãos dos alunos, reduzir a desigualdade digital e aproximar a escola pública do futuro.

Hoje, quando o Estado distribui computadores a alunos e professores, ninguém acha isso uma loucura.

A forma podia ser discutível. A direção estava certa.

Foi assim com a lei do tabaco. Proibir fumar em restaurantes, cafés e locais de trabalho parecia, para muitos, uma violência contra a liberdade individual. Vieram os discursos do costume: “já não se pode fazer nada”, “é o Estado a meter-se na vida das pessoas”.

Hoje, entrar num restaurante cheio de fumo parece pré-histórico.

Foi assim com a escolaridade obrigatória até aos 18 anos e com a universalização do pré-escolar a partir dos 5 anos.

Hoje parece óbvio. Na altura, foi uma decisão política de fundo — com muitas críticas.

Foi assim com direitos civis.

A interrupção voluntária da gravidez foi despenalizada em 2007; o casamento civil entre pessoas do mesmo sexo foi aprovado em 2010.

Hoje, para uma parte significativa do país, isto já é normalidade democrática.

Na altura, a histeria conservadora dizia que vinha aí o colapso moral da família, da sociedade e da civilização.

Não veio. Veio apenas mais liberdade, mais dignidade e mais igualdade perante a lei.

Foi assim com o Complemento Solidário para Idosos, criado para combater a pobreza entre os mais velhos com rendimentos mais baixos.

Hoje, ninguém sério deveria achar estranho que o Estado proteja idosos pobres.

Mas é precisamente o tipo de política que a direita económica detesta em silêncio — porque prova que o Estado social não é uma abstração ideológica.

É comida, aquecimento, medicamentos e dignidade na vida concreta das pessoas.

Foi assim também com a reforma dos cuidados de saúde primários e com as Unidades de Saúde Familiar.

Não resolveu tudo, não impediu a degradação posterior do SNS, mas introduziu uma lógica mais próxima, organizada e eficaz nos cuidados de primeira linha.

E depois há as energias renováveis.

Hoje, Portugal é elogiado como uma das histórias solares e renováveis mais interessantes da Europa. Mas isto não caiu do céu.

A viragem começou antes. Em 2007, o Governo Sócrates assumia a meta de 45% da eletricidade consumida a partir de fontes renováveis até 2010.

Em 2010, a Estratégia Nacional para a Energia 2020 afirmava expressamente que Portugal queria reforçar o seu estatuto de referência nas renováveis e na eficiência energética. A potência eólica instalada passou de 537 MW em 2004 para mais de 3500 MW em 2009.

Portugal não se tornou líder nas renováveis por acidente.

Houve uma decisão política deliberada: pegar num país sem petróleo, sem gás, sem carvão competitivo, mas com sol, vento, água, território e capacidade técnica, e transformar isso em soberania energética.

Durante anos, a direita gozou com isto. Chamou-lhe fantasia verde, custo excessivo, capricho ideológico.

Em 2024, as renováveis abasteceram 71% do consumo elétrico nacional. Que falem agora.

Também no turismo houve visão.

Sócrates não inventou a promoção turística. Mas o Plano Estratégico Nacional do Turismo, aprovado em 2007, tratou o setor como estratégico a sério: marcas, mercados, produtos, qualificação, inovação, articulação entre Estado e empresas.

E até no aeroporto a história tem uma ironia brutal.

A localização em Alcochete, decidida em 2008, foi atacada, adiada, enterrada, ressuscitada, trocada pelo Montijo e novamente discutida — e, no fim, muitos anos e muitos milhões desperdiçados depois, o país voltou exatamente ao mesmo ponto.

Em 2024, o Governo Montenegro anunciou o novo Aeroporto Luís de Camões no Campo de Tiro de Alcochete.

A decisão que tantos trataram como delírio era, afinal, a solução estrutural.

O atraso custou tempo, capacidade, competitividade, dinheiro e décadas de saturação na Portela. Parabéns a todos.

Depois veio 2008.

E aqui também é preciso limpar a propaganda de uma vez por todas.

A crise não nasceu em Lisboa.

Não nasceu porque Portugal deu computadores a crianças.

Não nasceu porque se investiu em eólicas, escolas, tecnologia, cartões digitais ou modernização administrativa.

A crise nasceu na banca desregulada dos Estados Unidos, no subprime, na engenharia financeira tóxica, no colapso de confiança que atravessou o Atlântico e rebentou na zona euro.

Portugal tinha fragilidades? Tinha.

Défices, dívida a subir, dependência externa, PPP, problemas de competitividade. Tinha.

Mas transformar tudo numa historinha infantil sobre “Sócrates gastou demais e, por isso, veio a troika” sempre foi propaganda — e a prova disso foi a forma desastrosa como a austeridade de Passos Coelho empobreceu o país e agravou a dívida em percentagem do PIB, precisamente a dívida que dizia combater.

Em 2025, segundo o Banco de Portugal, a dívida pública ainda representava 89,7% do PIB.

Temos mais dívida hoje do que no tempo de Sócrates, mas hoje somos vistos com uma das melhores economias no mundo...embora extremamente desigual.

Muitos países que estavam a investir no futuro foram apanhados pela mesma tempestade financeira global. Uns estavam mais preparados, outros menos. Portugal estava vulnerável.

Mas não foi um Governo português que inventou o subprime, a banca-sombra, os derivados tóxicos, o colapso do Lehman Brothers ou a arquitetura europeia inflexível que transformou uma crise bancária numa crise de Estados.

O que a direita fez depois foi genial do ponto de vista propagandístico: pegou numa crise global, numa zona euro mal desenhada, em fragilidades portuguesas reais, em erros do Governo Sócrates e na podridão posterior da Operação Marquês, misturou tudo numa panela e vendeu uma moralina simples: “o socialismo destruiu Portugal”.

Só que esse “socialismo” nem sequer existia.

O que existia era social-democracia reformista — com defeitos, vícios e alguns erros —, mas também com uma ideia clara: modernizar o Estado, digitalizar serviços, qualificar a escola, apostar em renováveis, proteger direitos civis, combater a pobreza, planear o turismo, pensar infraestruturas e tentar colocar Portugal no século XXI.

Compare-se isso com o que temos hoje.

Com todos os seus defeitos, Sócrates tinha uma ideia de país. Podia falhar. Podia exagerar. Podia construir mal. Mas queria construir.

Hoje, temos um Governo que parece não querer construir nada.

Gere o dia a dia.

Faz conferências de imprensa. Distribui slogans. Chama “reforma” a cortes. Chama “responsabilidade” à resignação. Chama “modernização” a entregar o país aos mesmos de sempre.

E há uma diferença simbólica terrível entre a corrupção de ontem e a zona cinzenta de hoje.

No caso Sócrates, a imagem pública ficou associada a envelopes com dinheiro, motoristas, contas na Suíça, amigos e dinheiro escondido.

Era a corrupção clássica, clandestina, subterrânea, cinematográfica.

Hoje, a corrupção modernizou-se.

Já não precisa de envelope entregue às escondidas, nem escondidos em caixas de vinho.

Pode aparecer com fatura, empresa familiar, avenças, consultoria, clientes, sigilo profissional e “trabalhos” que o cidadão comum nunca consegue verdadeiramente escrutinar.

A única coisa que se modernizou verdadeiramente foi a sofisticação da zona cinzenta.

Foi o Simplex da corrupção.

E, enquanto isto acontece nos bastidores, a sociedade foi domesticada para odiar um “socialismo” que nunca existiu.

Confundiram socialismo com social-democracia. Confundiram proteção social com preguiça. Confundiram Estado social com desperdício. Confundiram direitos com privilégios.

Criaram medo e ódio pelos de baixo para proteger os de cima — e assim convenceram muita gente a votar contra aquilo que a protege: SNS, escola pública, pensões, salários dignos, habitação acessível, direitos laborais, serviços públicos.

Sempre foi assim.

Disseram que o divórcio destruía a família. Disseram que a IVG destruía a moral.

Disseram que o casamento entre pessoas do mesmo sexo destruía a sociedade.

Disseram que não fumar em restaurantes destruía os cafés.

Disseram que computadores nas escolas eram propaganda.

Disseram que as renováveis eram fantasia e desperdício.

Disseram que o Estado digital era mania tecnocrática.

Depois, o país avança, o avanço torna-se normal e os mesmos que gritaram contra acabam a viver dentro do mundo que outros tiveram a coragem de construir.

Sem nunca agradecer.

Sem nunca assumir que estavam errados.

Por isso, está na hora de recuperar a palavra sem medo.

Não como dogma. Não como nostalgia.

Mas como aquilo que fez dos países mais livres, mais justos e mais desenvolvidos do mundo sociedades decentes: uma social-democracia corajosa, reformista, popular e democrática.

O novo PS tem de deixar de parecer uma versão educada da direita.

Tem de abandonar essa moderação bafienta que chama responsabilidade à resignação.

Tem de deixar de pedir licença aos mercados, aos comentadores, às televisões e aos salões onde nunca falta nada a ninguém.

O PS tem de voltar a ser progressista, popular, democrático e combativo: com a coragem de Pedro Nuno, o reformismo de Sócrates sem os seus vícios, a inteligência de Costa, a honestidade de Sampaio, o punho erguido de Mário Soares e o sentido social de Guterres.

Tem de parar de olhar para as elites — para os mercados, para os equilíbrios de salão, para os donos disto tudo — e voltar a olhar para baixo e para o meio: para quem paga renda, para quem espera no SNS, para quem educa filhos com salários curtos, para quem trabalha uma vida inteira e continua sem segurança.

Um PS que faz a diferença não pede desculpa por proteger as pessoas.

Reforma o Estado.

Enfrenta privilégios.

Combate desigualdades.

Investe no futuro.

Protege os serviços públicos.

Moderniza sem entregar o país aos privados.

Simplifica sem fragilizar o interesse público.

Cresce sem abandonar quem trabalha.

Precidamos de visão para o país...e ela nunca virá da direita.

Make social democracy great again.


2026  05 23

 https://www.facebook.com/Eduardo.Maltez.Silva/posts/

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Manuel Cardoso - José Sócrates não se lembra se o jantar estava Salgado

* Manuel Cardoso

Humoista

Habitualmente, "fui jantar" é uma frase que garante que ocorreu um jantar. Não para José Sócrates

Nesta terça-feira, realizou-se a sexta sessão do julgamento da Operação Marquês. O procurador do Ministério Público questionou José Sócrates sobre um jantar que terá acontecido na casa de Ricardo Salgado. José Sócrates negou a ocorrência desse repasto. Ora, reproduziu-se uma escuta em que José Sócrates faz um convite a Fernanda Câncio, namorada à altura, para um jantar em casa de Ricardo Salgado que teria lugar nessa mesma noite - que a jornalista rejeita. Perante isto, José Sócrates admite ao tribunal que foi "convidado para jantar, mas o jantar não aconteceu".

Até aqui, tudo bem. Todos nós já fomos alvo de cancelamentos de última hora. Ricardo Salgado pode ter entupido uma sanita, pode ter queimado a lasanha, pode ter-se esquecido de acondicionar as litrosas no congelador. O banqueiro pode ter ficado demasiado nervoso com o dilema de pedir ou não pedir a José Sócrates para retirar os sapatos à entrada e calçar uns chinelos felpudos com a forma de animais da savana.

Depois, outra escuta é reproduzida. Desta vez, é uma conversa entre José Sócrates e Manuel Pinho, no dia seguinte ao alegado jantar. "Fui jantar com o teu patrão", terá dito José Sócrates ao ex-ministro da Economia, condenado a dez anos de prisão efectiva por, entre outros crimes, ter sido corrompido por Ricardo Salgado. Habitualmente, "fui jantar" é uma frase que garante que ocorreu um jantar. Não para José Sócrates. No tribunal, indicou que "foi uma forma de falar, porque o jantar não aconteceu."

É uma força de expressão, claro, comum quando nos referimos a compromissos sociais. O leitor poderá experimentá-la em contexto conjugal. Vai concluir que, se disser em casa "Estive no IBIS com a Mónica do departamento de vendas", vai ser obviamente interpretado como "Que disparate. Ele de modo algum esteve no IBIS com a Mónica do departamento de vendas."

José Sócrates é um criativo de novas e desconhecidas ambiguidades semânticas. Quanto foi confrontado, por alturas da detenção, em 2014, com uma escuta em que Carlos Santos Silva lhe perguntava se "podia" mudar a cor do chão da casa em Paris, que era supostamente do amigo, José Sócrates também inventou uma rebuscada natureza polissémica para uma frase muito clara: "Talvez ele até pensasse que… que eu tenho melhor gosto. E é muito importante que se perceba o seguinte: há muitas pessoas que por gentileza… referem… o verbo… poder, em vez de dever." . Um génio.

Apesar do convincente esclarecimento, o procurador não desistiu de provar que o jantar aconteceu. Rómulo Mateus apresentou um documento com a análise da geolocalização do telemóvel de Sócrates, que mostra que este se ligou à antena que cobre a casa de Salgado por volta das 20 horas e que se desligou por volta da meia-noite - portanto, José Sócrates teria estado quatro horas em casa do banqueiro. "Estive lá meia hora", contrapôs o ex-primeiro-ministro em tribunal, revelando que seguiu para uma casa a cerca de 200 metros, que não identificou, alegando tratar-se da sua vida privada.

Há três hipóteses: ou José Sócrates está a mentir, o que seria surpreendente; ou José Sócrates esteve, de facto, quatro horas em casa de Ricardo Salgado, mas este não lhe ofereceu jantar, o que é mais vergonhoso do que qualquer ato de corrupção que pudesse estar a ser combinado; ou José Sócrates esteve de facto só meia-hora em casa de Ricardo Salgado, bebeu um whisky em jejum, despediu-se, percorreu tropegamente o jardim do banqueiro, adormeceu na casota do cão e não se lembra de nada. O que é certo é que José Sócrates saiu da casa de Salgado com fome, tanto é que ainda hoje tenta comer-nos por parvos.

 (Expresso 2025 09 03)


sábado, 2 de junho de 2018

Alberto Gonçalves - O Grupo de Lesados do “eng.” Sócrates

* Alberto Gonçalves

CASO JOSÉ SÓCRATES
O Grupo de Lesados do “eng.” Sócrates 
11/5/2018, 23:08 

O argumento central do Grupo de Lesados do “eng.” Sócrates passava por invocar, com voz firme, a presunção de inocência devida ao “animal feroz”. Agora exigem que se presuma a inocência deles próprios

Nos últimos dias, os socialistas oficiais e os socialistas oficiosos que enchem os “media” e os partidos adjacentes ao PS descobriram o que o cidadão médio sabe desde o início dos tempos: José Sócrates não é um modelo de honestidade. Assim à primeira vista, é uma redundância tão grande quanto descobrir o Brasil em 1900 (ou descobrir em 2075 que o brasileiro Lula possui inclinações criminosas). E é uma coincidência espantosa que toda essa gente o fizesse em simultâneo, sobretudo tendo em conta que, além da divulgação televisiva dos interrogatórios, não houve nenhum facto jurídico que de súbito transformasse a vítima de conspirações malignas num exemplo de delinquência a expelir da sociedade. Sucedeu apenas que, uma bela manhã (ou duas), essa gente acordou com uma luz intensa, teve uma epifania e concluiu que o “eng.” Sócrates está mesmo metido em trafulhices sem fim.

Essa gente é dada a coincidências e misticismos. Durante anos, as exactas personalidades que querem exilar o “eng.” Sócrates em Timbuktu ou na cadeia também afirmaram em uníssono a sua indignação pelo martírio do ex-governante. À época, leia-se até há duas semanas, o “eng.” Sócrates era o maior estadista português depois de Viriato, um portento cuja competência e cuja “dinâmica” (?) inspiravam o ódio de “neoliberais”, a luxúria da imprensa sem escrúpulos e a perseguição a cargo de magistrados com “agenda”. Cada sólido indício de que o nível de vida do homem fugia um bocadinho ao nível dos seus rendimentos merecia discursos épicos acerca do carácter sagrado do segredo de justiça. Os “empréstimos”, os apartamentos, os amigos, as escutas, as férias, os familiares, os contactos, os compadres, os tráficos, as mulheres, as contas, as roupas, os levantamentos, os motoristas e os carros não suscitavam qualquer suspeita, só a certeza da má-fé dos inimigos do “eng.” Sócrates.

Hoje, os antigos devotos garantem que foram enganados e reclamam medalhas pela franqueza ligeiramente tardia, com que confessam o logro em que caíram. Criaturas que beneficiaram directa ou indirectamente, em géneros ou numerário, da rede de influências em que o “eng.” Sócrates se movia desataram a jurar pelos santinhos que nem sonhavam a geral ilicitude daquilo. É para levar a sério?

Podemos tentar. A argumentação central do Grupo de Lesados do “eng.” Sócrates passava por invocar, com voz firme, a presunção de inocência, então devida ao “animal feroz”. Agora, exigem que se presuma a inocência deles próprios. Eles, que acreditaram de alma lavada nas patranhas que o “eng.” Sócrates lhes contava sobre a origem dos seus proventos, ignoravam o óbvio, logo são inocentes. E ingénuos. E estúpidos que nem portas.

É uma possibilidade a considerar. Afinal, falamos de espécimes propensos a acreditar no que calha. Se Fulana acredita que a militância em “causas” infantis se confunde com jornalismo, é possível acreditar que três ou quatro mil euros mensais permitem férias de 70 mil. Se Sicrano acredita que o PEC IV salvaria a nação, é possível acreditar na trivialidade de viver a expensas de um compincha a quem se entregou negócios públicos. Se Beltrano acredita que o socialismo se preocupa com as “pessoas reais” (por oposição às imaginárias?), é possível acreditar na honorabilidade das casas de Paris e Lisboa e dos fatinhos de Rodeo Drive e da fortuna de família e da amizade desinteressada. Crentes desta dimensão ficam impecavelmente em cultos religiosos, creches ou manicómios, mas não em jornais, sociedades de advogados, parlamentos ou governos. É de esperar que os inocentes presunçosos calculem as consequências da confissão inicial e confessem que, por volumoso excesso de idiotia, são inaptos para funções inadequadas a idades superiores a cinco anos – ou 25 em chimpanzés.

Por fim, há ainda a hipótese, meramente académica, de essa gente não acreditar em nada, excepto na disposição do eleitorado para acreditar em tudo – principalmente na inexistência de um sistema criminoso e profundamente corrupto que transcende o PS, embora prefira o PS no poder por facilidades logísticas e vocação. Ou que o linchamento brusco do “autor” de “A Tortura no Mundo” e de alguns dos respectivos ministros não é o típico sacrifício de uns comparsas a fim de salvar a quadrilha. Nas imortais palavras do dr. Marques Mendes, um símbolo justo dos bandos em questão, há o PS “mau” do “eng.” Sócrates, e o PS “bom” do dr. Costa. Ou de quem lá estiver no momento, a coordenar os arranjinhos e a “estabilidade”. Se o “eng.” Sócrates abrir a boca e perturbar ambos, prometo comprar-lhe a obra completa. Lê-la é outra história.


https://observador.pt/opiniao/o-grupo-de-lesados-do-eng-socrates/

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

[Soneto] Não lamentes, oh Sócrates, o teu estado

submitted  by Vasco_da_Gamba
Adaptação do "Soneto de todas as Putas" de Bocage.
Não lamentes, oh Sócrates, o teu estado
Corrupta tem sido muita gente boa
Corrompidos deputados tem Lisboa
Milhares de vezes corruptos têm governado

Major Valentim,corrupto, desde os tempos de soldado
Já Vara, pescou robalos sem ver mar nem proa
E tu,Cavaco, não me esqueço da tua pessoa
Nem da tua fidelidade a Salgado

Esse da Madeira, dinossauro famoso,
Que odeia o chinês, o bastardo e o rabeta
Entre mil ponchas fez legado penoso

E lá nas finanças deixou funda greta
Não fiques pois, oh Sócrates, duvidoso
Que isso de político honesto é tudo peta
https://www.reddit.com/r/portugal/comments/75qpb5/soneto_n%C3%A3o_lamentes_oh_s%C3%B3crates_o_teu_estado/

Soneto de Todas as Putas

Não lamentes, oh Nise, o teu estado;
Puta tem sido muita gente boa;
Putíssimas fidalgas tem Lisboa,
Milhões de vezes putas têm reinado:

Dido foi puta, e puta d'um soldado;
Cleópatra por puta alcança a c'roa;
Tu, Lucrécia, com toda a tua proa,
O teu cono não passa por honrado:

Essa da Rússia imperatriz famosa,
Que inda há pouco morreu (diz a Gazeta)
Entre mil porras expirou vaidosa:

Todas no mundo dão a sua greta:
Não fiques pois, oh Nise, duvidosa
Que isso de virgo e honra é tudo peta.

Manuel Maria de Barbosa l'Hedois du Bocage
(✩ 15/09/1765 — † 21/12/1805)
Autores Clássicos no Luso-Poemas


Leia mais: https://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=205416 © Luso-Poemas

quinta-feira, 17 de março de 2016

Ricardo Araújo Pereira - Da Amizade



http://entreostextosdamemoria.blogspot.pt/2016/03/visao-17032016-p90.html

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Socialismo Reaccionário



* Marcelo Alves


socrates2006.jpg
O nosso Primeiro-ministro, José Sócrates, afirmou no primeiro aniversário do seu governo que "do ano passado há uma coisa que ninguém diz que é que ficou tudo na mesma".
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E não é que o homem tem mesmo razão. Nada ficou na mesma, tudo piorou.
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De facto nada nos fazia adivinhar que um socialista (e digo isto com toda a reserva, o do socialista, é claro) que foi ministro do governo de António Guterres, o executivo mais esbanjador de dinheiros públicos do pós 25 de Abril, seria o primeiro-ministro de outro governo que prima pela total falta de princípios genuinamente democráticos, de respeito pelas conquistas sociais da revolução e pelo incumprimento de todas as promessas eleitorais. E se as promessas que nos diz que vai efectuando são péssimas, então aquelas que nos escondeu são de bradar aos céus. Uma pergunta se nos impõe: se em tempos de vacas gordas concordou por completo com o destruir das contas públicas, o que o leva agora, em tempo de crise, a ser pior que Marcelo Caetano?
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A sua arrogância pseudo democrática tem fortes tiques de autoritarismo e a sua total insensibilidade social e política tem laivos de iluminismo serôdio e reaccionário. Então a sua teimosia leva-o a campos perfeitamente delirantes.
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Por exemplo, um dos seus tiques mais estúpidos está relacionado com a atitude que o próprio e os seus governantes revelam em relação aos sindicatos ou outra qualquer manifestação de cariz social ou político. E patenteiam o seu profundo desprezo quando afirmam: "estão no seu direito de se manifestarem, mas o governo tem de governar". E é nesta falta de diálogo que reside a atitude mais pré-fascista da nossa recente democracia. É como quem pensa, berrai para aí seus agitadores de rua, que nós estamo-nos pura e simplesmente borrifando para isso. Como a querer dizer: ainda vos deixamos manifestar, mas daqui a algum tempo nem isso vos será permitido. Trabalhai vadios. Eu é que sei o que vos faz falta. Vós sois quase todos uns inconscientes e agitadores comunistas.
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O nosso primeiro pensa como Salazar: se soubessem quanta custa governar, todos vós preferiríeis ser governados.
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E a prova do que afirmo está nas afirmações de um ex-governante socialista, o economista Daniel Bessa, que afirmou ao Público: "Os sindicatos são muitas vezes mais parte do problema do que da solução".
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Claro que são. São parte do problema dos trabalhadores. Coisa que Daniel Bessa já esqueceu porque farejou o inebriante cheiro do dinheiro.
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Sinais dos tempos são as afirmações que o líder dos patrões da indústria portuguesa, Francis Van Zeller, proferiu em entrevista à revista Visão:
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"adoro governos autoritários". Isto referindo-se ao governo de José Sócrates. Por isso é que não nos custa nada admitir que este governo é o mais à direita depois do 25 de Abril. Mas o seu maior problema, a sua incongruência não reside no facto de ser de direita, o busílis da questão está no facto de se afirmar socialista e ser mais à direita do que um hipotético governo do senhor Paulo Portas. Essa é que é essa.
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Não custa nada afirmar que as políticas económicas e sociais da ex-ministra Manuela Ferreira Leite ao pé das praticadas pelo governo do engenheiro Sócrates são de extrema-esquerda. Afinal a senhora era uma perigosa socialista. Os rapazes desapiedados escondiam-se debaixo do manto pardacento do Partido Socialista.
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A verdade dos factos diz-nos que a economia atravessa uma fase indecente. Pois mesmo com o crescimento económico no zero, com meio milhão de pessoas no desemprego, com os salários mais baixos da Europa, com o tecido empresarial das pequenas e médias empresas estrangulado, chega a ser escandalosa a pompa e o reclame que fazem aos anúncios dos lucros multimilionários da banca, das seguradoras e das empresas de energia e telecomunicações. Bem vistas as coisas, esses lucros escandalosos só são possíveis devido à sobreexploração dos clientes, pagadores de impostos e consumidores. Mas o mais aberrante da situação relaciona-se com o facto dessas empresas serem quase todas fortemente participadas pelo Estado, explorando privilegiadamente certas redes de serviços públicos. É tudo isto um verdadeiro escândalo.
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A sensação que nos fica é a de que os desequilíbrios sociais e económicos em Portugal regrediram para níveis anteriores ao 25 de Abril. E isto muito por causa deste dito socialista que mais parece um prestidigitador e trapezista suplente num circo de província.
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Para vos provar o que acima fica dito, proponho que voltemos ao senhor Van Zeller. Disse ele: "Gosto muito da autoridade, adoro governos autoritários, não me afligem absolutamente nada. Nós, latinos, portugueses, gostamos muito disso. Tanto assim é que José Sócrates está com uma quota de aprovação elevada. Os portugueses apreciam, de facto, a autoridade".
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Ora este paleio de plutocrata remete-nos para os velhos tempos do salazarismo quando também se defendia que o povo português queria era ser mandado, tal e qual um rebanho de cordeiros.
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Sinal dos tempos é também esta sua dedução: "Se Portugal crescesse três ou quatro por cento ao ano, os excluídos aumentavam." Ou seja, se tudo ficar como está, tudo fica mal. Mas se a economia crescer tudo fica ainda pior do lado de quem trabalha.
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Triste dilema o nosso: se a doença nos tem prostrados na cama, a cura parece que vai levar-nos à morte.


Posted by carmim at 02:06 AM

março 22, 2006 in pinpao