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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um poema de Al Berto


AL BERTO, in SALSUGEM (1978/83), in O MEDO ( Assírio & Alvim, 1997)


[PERNOITAS EM MIM]

pernoitas em mim
e se por acaso te toco a memória...amas
ou finges morrer



pressinto o aroma luminoso dos fogos
escuto o rumor da terra molhada
a fala queimada das estrelas



é noite ainda
o corpo ausente instala-se vagarosamente
envelheço com a nómada solidão das aves



já não possuo a brancura oculta das palavras
e nenhum lume irrompe para beberes



*

Imagem: Fotografia do autor

*

(LT)

segunda-feira, 7 de março de 2011

Poesia de Al Berto

Mais Nada se Move em Cima do Papel
.
.
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, “O Medo”
.
.
Mais Nada se Move em Cima do Papel
.
.
mais nada se move em cima do papel
nenhum olho de tinta iridescente pressagia
o destino deste corpo

os dedos cintilam no húmus da terra
e eu
indiferente à sonolência da língua
ouço o eco do amor há muito soterrado

encosto a cabeça na luz e tudo esqueço
no interior desta ânfora alucinada

desço com a lentidão ruiva das feras
ao nervo onde a boca procura o sul
e os lugares dantes povoados
ah meu amigo
demoraste tanto a voltar dessa viagem

o mar subiu ao degrau das manhãs idosas
inundou o corpo quebrado pela serena desilusão

assim me habituei a morrer sem ti
com uma esferográfica cravada no coração

Al Berto, “O Medo”
.
.

terça-feira, 23 de março de 2010

Visita-me Enquanto não Envelheço - Al Berto

Visita-me Enquanto não Envelheço
.
.
visita-me enquanto não envelheço
toma estas palavras cheias de medo e surpreende-me
com teu rosto de Modigliani suicidado
.
tenho uma varanda ampla cheia de malvas
e o marulhar das noites povoadas de peixes voadores
.
ver-me antes que a bruma contamine os alicerces
as pedras nacaradas deste vulcão a lava do desejo
subindo à boca sulfurosa dos espelhos
.
antes que desperte em mim o grito
dalguma terna Jeanne Hébuterne a paixão
derrama-se quando tua ausência se prende às veias
prontas a esvaziarem-se do rubro ouro
.
perco-te no sono das marítimas paisagens
estas feridas de barro e quartzo
os olhos escancarados para a infindável água
.
com teu sabor de açúcar queimado em redor da noite
sonhar perto do coração que não sabe como tocar-te
.
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Al Berto, in 'Salsugem'..
.
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Margarida diz:
13/Mar/2010 11:28
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sexta-feira, 12 de março de 2010

Há-de flutuar uma cidade - Al Berto

Assunto: O LAGO
Data: 10/Mar 18:03
TENHO O MEU BARCO BALOUÇANDO LEVEMENTE NO LAGO QUE EU MESMA INVENTEI...ÁGUAS MANSAS, AZUIS OU VERDES CONFORME O OLHAR, A HORA DO DIA, A VONTADE DA BRISA OU O CALOR DO RAIO DE SOL. EM VOLTA, FRONDOSAS ÁRVORES, ENTRE AS QUAIS O VENTO BRINCA CANTANDO BAIXINHO. SIMPLES E COLORIDAS FLORES SILVESTRES SALPICAM A RELVA FÔFA, QUE CONVIDA A DEITAR E ADMIRAR A DELICADA DANÇA DAS NUVENS BRANCAS NUM CÉU TÃO AZUL QUE ENTRA PELO OLHAR E SEGUE ATÉ AO CORAÇÃO. UMA HARMONIOSA SINFONIA COMPOSTA PELAS NOTAS MUSICAIS DE BANDOS DE PÁSSAROS QUE PASSAM EM REVOADAS TRANSPORTA-NOS PARA OUTRAS ESFERAS. A PAZ MORA ALI. O MUNDO, A VIDA... FIQUE LÁ FORA, BEM LONGE....E EU AQUI, NO MEIO DO SONHO QUE CONSTRUI....TUDO O QUE SEJA DIFERENTE ME MATA...E EU QUERO VIVER!!!...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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HÁ-DE FLUTUAR UMA CIDADE

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há-de flutuar uma cidade no crepúscolo da vida
pensava eu... como seriam felizes as mulheres
à beira mar debruçadas para a luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
.
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos... sem ninguém
.
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta... dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca de mar ao fundo da rua
assim envelheci... acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
.
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no coração. mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
.
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas que alguma vez me visite a felicidade
.
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AL BERTO

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terça-feira, 19 de agosto de 2008

Poesia enviada por Ricardo Cardoso


Arestas de Vento



Ricardo diz:
19/Ago/2008 15:44
Amigo

Mal nos conhecemos
Inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
De boca em boca,
Um olhar bem limpo,
Uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
Um coração pronto a pulsar
Na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
Escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!
«Amigo» é o erro corrigido,

Não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
Um trabalho sem fim,
Um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!

Alexandre O’Neill, in No Reino da Dinamarca

Ricardo diz:
22/Jul/2008 18:29
As mãos pressentem...

As mãos pressentem a leveza rubra do lume
repetem gestos semelhantes a corolas de flores
voos de pássaro ferido no marulho da alba
ou ficam assim azuis
queimadas pela secular idade desta luz
encalhada como um barco nos confins do olhar

ergues de novo as cansadas e sábias mãos
tocas o vazio de muitos dias sem desejo e
o amargor húmido das noites e tanta ignorância
tanto ouro sonhado sobre a pele tanta treva
quase nada

Al Berto
Nas fotografias - Ricardo Cardoso de Arestas de Vento