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quarta-feira, 24 de setembro de 2025

Mário Beja Santos - "O último avô"



O mais genial escritor português queimou as suas memórias da Guerra Colonial. Porquê?
        
* Mário Beja Santos   

        É um romance avassalador, dotado de uma estrutura onde não faltam histórias que se desprendem como bonecas russas, onde o inescrutável assume proporções de uma investigação quase policial, o neto do mais genial escritor português soube que o seu avô prodigioso incendiou o manuscrito do que seria a sua obra luminescente, as coisas da guerra, porque ele combatera na região de Cabinda e no estrito círculo familiar falava de horrores, de sofrimentos incalculáveis, confessava que os companheiros mortos lhe eram presenças fantasmáticas.

        O maestro da narrativa é o neto, mas há também a avó, as tias-manas, a estranha companheira do avô em fim de vida, a governanta, as lembranças da mãe, prematuramente falecida, cuja ausência é sublinhada há anos por um quarto trancado na casa do avô. Enfim, enigmas em catadupa. Falecido o escritor que era uma instituição nacional, a quem só fugira o Nobel, era esse ponto de África que corria o risco de se transformar numa lenda, ele nunca escondera em público e em privado que aquela guerra era trauma que não se apagava. Será que o grande escritor não deixara uma cópia da sua obra mais esperada?

        O escritor nomeia como testamenteiro este neto, ele abre-nos a porta à sua infância, à vida agitada por que passara a mãe, uma quase vagabunda, vivera em comunidade lá para os Algarves, numa atmosfera de indecências. Assim vai detonar uma narrativa de presente e passados, em ritmo turbilhonante: O Último Avô, por Afonso Reis Cabral, Publicações Dom Quixote, recentemente dado à estampa.

        O leitor não desarma porque a narrativa do neto é enleante, urdida de diálogos surpreendentes, rapidamente de agiganta aquele escritor tirânico, mitómano e confabulador, há sempre tempestades nos diálogos entre escritor e a sua mulher, um escritor cheio de lábia apetrechado de marketing. “Os jornalistas perguntavam-lhe se escreveria sobre Angola. Quando não lhe perguntavam, ele mesmo encaminhava a conversa, dizia que sim, um dia sim, quando estivesse à altura do tema escreveria tudo o que vira e fizera, o quanto sofrera. Ele sabia o que significava ter a G3 por confidente. Por enquanto, a arma continuaria a única guardiã das suas mágoas.”

        A mãe do narrador, conhecida por Formiga, parecia destinada a ser mais do que a confidente do genial escritor, talvez uma sucessora. Acabara por ser a grande deceção do escritor e do pai. Neto e avó convivem felizes numa casa em Azeitão, já a avó se libertara do tirânico marido. O avô faiscava admirações, daí Regina, aquela companheira muito mais nova. É à filha mais nova, a Formiga, que ele conta os seus segredos africanos. Chegava a agir brutalmente em meio familiar, o genial escritor é bem capaz de atrocidades e truculências como esmagar pássaros bicos de lacre. Seria reminiscência do que ele passara na guerra?
 
        O neto lança-se na investigação, pretende saber se existe ou não um manuscrito. Há fotografias africanas, o avô contara histórias sobre certas mulheres, ele que dizia: “Nós éramos miúdos que achavam que eram homens. A recruta bárbara meteu-nos na cabeça que éramos homens. Nas éramos miúdos que, ao fim de seis meses de uma dureza insana, tinham de ir para a guerra a achar que eram homens. Ainda hoje os admiro, amo-os, aos meus camaradas. Deram o que tinham, tantos deram tudo. E só tinham a juventude para dar.”

      Aquele avô quis fazer do neto escritor, foi mais um desencontro, o genial escritor viveu desencontros familiares em alta voltagem. A pesquisa do manuscrito é desmesurada: nos dezassete mil volumes da biblioteca, abanaram-se molduras, bateram-se nas paredes à procura de fundos falsos, as gavetas dos móveis, os ficheiros dos computadores, as pastas de arquivo. Nada. Há mais histórias do avô, uma muito comovente, já na atmosfera da guerra civil em Angola, envolvendo Zacarias, a Jóia e a Estrela da Piedade. O neto é pressionado pelas tias-manas e pelo editor, por Regina e pela sua amiga Cecília, havia que descobrir o mais perfeito diamante da herança literária do genial escritor.

        Este romance de Afonso Reis Cabral atravessa três gerações. Estou absolutamente seguro de que será procurado avidamente por gente de todas as idades. Mas haverá um segmento desse público que lhe ficará profundamente agradecido por um parágrafo inspirador, talvez único em toda a literatura portuguesa contemporânea, é uma homenagem rendida aos antigos combatentes:

        “Restam uns trezentos mil soldados da velha guerra. A estatística manda que os encontremos na rua, na sucursal do banco ou dos correios, nos cafés. Frequentam os transportes públicos e sentam-se ao nosso lado na Loja do Cidadão. São eles que conversam entre si durante horas nos bancos de jardim. Uns falam alto, outros perderam a voz. Suspeito de que muitos dos que agarramos pelos pulsos e tornozelos às camas dos hospitais, e que bradam como cercados pelo inimigo, também sejam antigos combatentes. Alguns escondem-se à paisana de velho e à paisana de soldado: como ninguém lhes dá mais de setenta anos, não parecem velhos o suficiente e ninguém desconfia de que combateram em África. Outros entraram em lares.

        Vivem nas nossas casas, comem da nossa comida, bebem da nossa água e despejam os mesmos autoclismos. Usam o nosso papel higiénico. Se os observarmos com amor e algum cuidado, espantamo-nos e compreendemos que são nossos pais e avós e que, enquanto não morrerem, estão vivos; ao mesmo tempo vivos e invisíveis, porque são velhos e não olhamos, porque são veteranos e não ligamos.”

        Não estou aqui para contar o desenlace de toda esta investigação, acreditem que será inesperado, o neto percorre arquivos, até pede uma entrevista a um camarada do genial escritor, o retrato do ex-alferes Anselmo Baltazar é outro primor literário. Fica-se a saber a verdade de tudo. É um neto queixoso, justamente iracundo, que irá preparar a vingança da História, e paradoxalmente tornar mais grada a lenda do tão esperado romance que não conhecerá a luz do dia. Como tudo isso aconteceu é matéria para que o leitor se encontre com este romance inovador em que a Guerra Colonial anda obsidiante entre a verdade e a mentira.

        Uma obra-prima.

 https://malomil.blogspot.com/2025/09/o-mais-genial-escritor-portugues.htm

sexta-feira, 12 de janeiro de 2024

Os Últimos do Estado Novo, por José Pedro Castanheira

 

 


 * Mário Beja Santos


O jornalista José Pedro Castanheira, com uma notável carreira profissional, explica de forma meridiana na apresentação deste seu livro a essência de Os Últimos do Estado Novo, Tinha da China, 2023:

“Já reformado, a organizar o meu arquivo, verifiquei, com algum espanto, que tivera oportunidade de conhecer e fazer um trabalho jornalístico com e sobre alguns dos principais derrotados do 25 de Abril – o último diretor da Censura, o último presidente do Partido Único, o último responsável pelo campo de concentração do Tarrafal, os membros do último Governo da ditadura, o último secretário particular de Marcello Caetano, o seu último porta-voz. Paralelamente, tivera o ensejo de fazer reportagens em torno de episódios e acontecimentos marcantes, precisamente por terem sido os últimos do género a ocorrer durante a ditadura: o último deportado, os últimos presos políticos, a última entrevista concedida por Oliveira Salazar. E pensei que faria sentido reunir todos estes trabalhos e publicá-los em livro.” E faz comentários sobre a natureza de entrevistas e entrevistados, ficam algumas pontas de mistério, seguramente não haverá resposta para o conteúdo da documentação que Alexandre Carvalho Neto, secretário pessoal de Marcello Caetano, destruiu na residência de S. Bento, no cumprimento das instruções dadas pelo deposto presidente do Conselho de Ministros. E o leitor que se prepare para uma viagem que tem pouco de nostálgica, permite um sem número de clarificações e, impressão minha, da própria sensibilidade manifestada pelos entrevistados, há mais reconciliação que ressabiamento pelo fim do regime ditatorial.

Eduardo Vieira Fontes, diretor do “campo de trabalho” do Tarrafal, abre as hostilidades, um cabo-verdiano que nunca quis a nacionalidade cabo-verdiana, que guarda recordações amenas de Amílcar Cabral e do seu trabalho em Angola, que considera ter agido com elevado sentido do dever no Tarrafal, reaberto em 1961, a PIDE criticava muitos dos seus procedimentos para com os presos, durante a entrevista mostra testemunhos de detidos, francamente favoráveis para a maneira como conduzia a vida no campo. “Nunca mais voltou a Cabo Verde, mas vinha quase todos os anos a Portugal. Faleceu nos EUA, em East Providence, em 9 de novembro de 2021, escassos meses após a morte da mulher. Tinha 99 anos.”

Não menos interessante é a reportagem sobre os últimos presos políticos, tudo se passou em abril de 1974, ficamos a saber quem e porquê foi detido. O mesmo se dirá do último Governo da ditadura, há para ali aspetos curiosos de escolhas de ministros e secretários de Estado, e há o depois do 25 de Abril. Pedro Feytor Pinto, que teve uma intervenção direta nos acontecimentos do 25 de Abril dá-nos as suas impressões sobre aspetos da governação de Marcello Caetano, o seu relacionamento com os liberais, os bastidores da oposição ao Governo dentro do regime, o que se passou depois da queda da ditadura. Não deixa de causar estranheza certas afirmações de Alexandre Carvalho Neto, foi secretário particular de Marcello Caetano e antes ocupara um cargo semelhante junto de Spínola na Guiné, não só diz inverdades como destrata quem não se pode defender, isto quanto à Guiné. Que antes de Spínola havia a iminência de uma derrota militar, que Schulz foi destituído e que ainda regressou a Bissau para empacotar os serviços de prata do Palácio de Bolama. Acontece que a guerra não estava perdida nessa época (1968), que Schulz não foi demitido, cumprira quatro anos na governação e como comandante-chefe e interrogo-me como era possível um governador trazer pratas de um palácio que estava em ruínas, fora abandonado em 1941, impensável deixar ali pratas, enfim, tricas com uma pontinha de maledicência, resta saber para quê. E ficamos a saber que ajudou Marcello Caetano a instalar-se no Rio de Janeiro.

O leitor jamais ficará dececionado com este repositório de entrevistas onde iremos ver discorrer Elmano Alves, o presidente da última comissão executiva da Ação Nacional Popular, Mário Bento Soares, o último diretor da Censura, o autor entrevistará o jornalista francês Roland Faure que entrevistou Salazar quando este já não era o homem todo-poderoso e vivia debilitado em S. Bento, a Censura cortou a entrevista, para o regime marcelista era totalmente inaceitável que os nostálgicos ouvissem Salazar dizer coisas como: “Conheço bem Marcello Caetano. Foi várias vezes meu ministro e aprecio-o. Ele gosta do poder: não para retirar quaisquer benefícios pessoais ou para a família; é muito honesto. Mas gosta do poder pelo poder. Para ter a impressão exaltante de deixar a sua marca nos acontecimentos. É inteligente e tem autoridade, mas está errado em não querer trabalhar connosco no Governo. Porque, como sabe, ele não faz parte do Governo.”

O leitor será confrontado com o relacionamento de Salazar com o major Silva Pais, o último diretor da PIDE, as matérias que tratavam, as informações que a PIDE fazia chegar a Salazar não só sobre acontecimentos internos como internacionais, fica perfeitamente claro que o ditador soube do assassinato do general Humberto Delgado com todos os pormenores, dando depois em discurso uma versão totalmente descabelada, atribuindo a tensões entre oposicionistas, atribuindo à oposição o crime. Iremos ler os acontecimentos da deportação de Mário Soares em S. Tomé e Príncipe. E o livro termina com uma reportagem de acontecimentos muito pouco conhecidos e praticamente não tratados pela historiografia, os sindicatos corporativos, afetos por natureza ao regime, mas que estavam em ebulição e mesmo em rutura com o então subsecretário das Corporações não só dado o agravamento do custo de vida, como os penosos horários de trabalho e salários bloqueados. Iremos viajar ao último plenário destes sindicatos, haverá reuniões com Salazar e uma reunião desse plenário no Coliseu dos Recreios. É nesse plenário que os dirigentes sindicais divulgarão o teor de uma mensagem entregue a Salazar a que o ditador fez 23 cortes e alterações no texto que lhe entregaram. O ditador será sócio honorário de 300 sindicatos. E diz-se no último plenário dos sindicatos corporativos por que a máquina corporativa sofrerá alterações de fundo com o fim da Segundo Guerra Mundial e com a agitação política trazida pelo Movimento de Unidade Democrática. Gota a gota, elementos de oposição irão infiltrando-se nos sindicatos, a aliança com a governação irá desaparecer.

Esta coletânea de entrevistas é uma preciosidade, ajuda a compreender mentalidades dominantes do salazarismo e do marcelismo e como a ditadura não ofereceu resistência a quem vinha trazer as liberdades, o desejo de viver em democracia e pôr fim à inconsequente guerra colonial.

 

                                                                                    Mário Beja Santos

Publicada por Malomil à(s) 12.1.24 

 

https://malomil.blogspot.com/2024/01/os-ultimos-do-estado-novo-por-jose.html 

segunda-feira, 26 de julho de 2021

Alexandre O’Neill - Cartinha Aberta ao Major Otelo Saraiva de Carvalho


 * Alexandre O’Neill

O major Otelo Saraiva de Carvalho diz-nos que só aceitará «a candidatura por uma verdadeira imposição popular».  Raul Rego, in A Luta, 10.5.76

«Imposição popular»,
major Otelo, jamais!
Nos versos, o pé quebrar
não faz mal, vem nos jornais…

Pé quebrado na política,
mais tempo leva a soldar.
Aos que lhe fazem requebros,
mande-os altoduquear.

Sua página está escrita
e dela guarda memória
o povo, que não impõe
as estórias à história.

Em vinte e cinco de Abril
sua página foi escrita.
Não há rasura possível.
É uma página limpa.

E uma página linda,
Otelo, meu capitão!
Que mais quererá ainda
com a palavra «imposição»?

Que venha a vaga de fundo
que o há-de levar ao cume
do tal poder popular?
Presidente, dê-me lume,
vamos mas é charutar…

Alexandre O’Neill (1924-1986)
Poesias Completas & Dispersos
(edição de Maria Antónia Oliveira)

http://malomil.blogspot.com/2021/07/cartinha-aberta-ao-major-otelo-saraiva.html

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Portugal, 1977.


quarta-feira, 2 de novembro de 2016


Portugal, 1977.




         A Lucy é uma bem-disposta. E isso vê-se a cada instante, e a sua alegria amiga é tão boa e tão fantástica que só temos de agradecer-lhe por ter decidido animar, vai para muitos anos, este país melancólico, estupidamente taciturno, ó pátria capciosa. A Lucy Pepper nasceu em Inglaterra em 1970, mas vive em Lisboa com a família, sendo ilustradora e escritora, e uma grande cronista. Saudavelmente obcecada pela culinária portuguesa, já lhe dedicou outros livros. Agora, há poucos dias, lançouComo Não Morrer de Fome em Portugal. Histórias de uma inglesa apaixonada pelo nosso país. O livro é a Lucy, um tratado de boa disposição, inteligência e humor, a felicidade serena. Não fala só de comida, ainda que a comida seja prato principal, o leite-motivo. Trata da vida, da dela e doutra gente, e do bom que é estar vivo; sobretudo aqui, em Portugal. Do livro transcreveu-se uma pequena parte constante logo da abertura, o relato da primeira vinda de Lucy Pepper ao nosso país, com sete anos de idade.   
A primeira coisa que me lembro de «comer» em Portugal foi uma vitamina. Estávamos no Verão de 1977 e viemos visitar uns amigos da família que trabalhavam na embaixada britânica. 
Foi a primeira viagem ao estrangeiro, tanto para mim, como para a minha irmã. Eu tinha sete anos, ela cinco, e, depois de atravessarmos Espanha desde o ferry de Bilbau até à fronteira portuguesa, não ficámos com boa impressão de viajar para o estrangeiro. A meio caminho, passámos a noite num hotel em Valhadolide – que era estranhamente escuro e húmido –, onde a nossa cama se partiu. Depois atravessámos o assustador deserto espanhol, em que quase ficámos sem gasolina. O nosso Renault 17 TS, um carro que, em qualquer outro dia, ficaria bem nas mãos da dupla Starsky e Hutch, não impressionou tanto o senhor daquela bomba de gasolina no meio de nenhures quanto, segundo o meu pai, tinha impressionado os habitantes das várias aldeias por que passámos até lá chegar. Ele não aceitou o nosso dinheiro estrangeiro para pagar a gasolina. Naquela altura, só nos restavam escudos e libras, depois de um almoço inesperadamente caro em que tínhamos gasto as nossas últimas pesetas. Não me lembro do que foi esse almoço. Espero que tenha valido a pena. O «duelo» da gasolina foi muito tenso, com o senhor da bomba a recusar ferozmente o nosso dinheiro; e eu tinha a certeza quase absoluta de que íamos morrer ali, no deserto. Olhei para o horizonte à procura de abutres, enquanto os meus pais procuravam e caçavam pesetas eventualmente perdidas no carro. Em vão. Finalmente, depois de uns intermináveis dez minutos de terror, o senhor da bomba acedeu, aceitou uma nota de cinco libras e pudemos sair. Ainda havia a «pequena» questão do que iríamos comer nesse dia, no que restava da viagem. Felizmente para nós, e infelizmente para os abutres espanhóis, tínhamos trazido uma garrafa de concentrado de laranja e umas caixinhas de cereais para levarmos aos nossos amigos ingleses. Eu e a minha irmã jantámos flocos de milho e concentrado de laranja diluído numa garrafa de água. Os meus pais não comeram nada. Ainda hoje olho de lado para Espanha. 
À uma da manhã estávamos a chegar a Lisboa e, a dois quilómetros da cidade, na A1, o carro decidiu parar. O meu pai é veterinário. Ele «repara» animais, não repara carros. Ficou em pânico, em silêncio, não fazendo a mínima ideia do que fazer, para além de montar o triângulo internacional uns metros atrás do carro, abrir o capô e fingir ter o ar de quem sabe do que está à procura, para que a sua mulher e as suas filhas não desistissem dele, de vez. 
Incrivelmente, foi só um dos cabos da bateria. Tinha-se soltado do sítio. Sendo a bateria o único «órgão» interno de um carro que o meu pai entendia, recolocou o cabo e instantaneamente tornou-se um herói. Ele diz-me que esse foi, simultaneamente, o pior e o melhor dia da sua vida até esse ponto. Entrámos na cidade e, depois de pedir direcções, o taxista mais simpático do mundo leu o endereço e levou-nos todo o caminho até à porta da casa no Restelo, conduzindo à frente do nosso carro. Não pediu um tostão por isso. Nem um escudo, nem uma libra e, certamente, nem uma peseta. 
A casa era branca, cheia de buganvílias, e não havia deserto à vista. E os nossos amigos tinham uma empregada em casa. Nunca tinha ido a um sítio onde houvesse empregados domésticos e, por isso, fiquei espantada. Nesses quinze dias, sei que comi lulas e que gostei, porque me lembro de a minha mãe me dizer que já tinha comido lulas, sem saber que eram lulas, e que gostei das lulas. Não teria comido as lulas se soubesse que eram lulas. Obviamente, não sabia o que eram lulas, porque tinha sete anos e era inglesa. 
Mas não me lembro a que sabiam as lulas. Obviamente, a única coisa de que me lembro é a vitamina que a empregada obrigou todas as crianças a tomar, quer as da casa quer umas coitadas de umas inglesas visitantes, que não estavam à espera de nada, que nunca sequer tinham visto uma vitamina além daquelas de laranja, que só tinham vitamina C. As vitaminas da empregada eram daquela espécie horrenda que sabe a fermento de pão e provoca arrotos com esse sabor todo o resto do dia.
Passeámos, fomos ao Alentejo, ficámos numa pousada em Estremoz, que tinha umas camas antigas de quatro postes, procurámos abutres no horizonte e voltámos para Lisboa. Os meus pais viram um discurso de Mário Soares na televisão que durou duas horas, e isso é tudo o que me lembro de Portugal em 1977. Se calhar, são as viagens de terror que realmente impressionam as mentes das crianças de sete anos, mais do que umas férias fabulosas. 
Lucy Pepper 

http://malomil.blogspot.pt/2016/11/portugal-1977.html

domingo, 23 de outubro de 2016

Lisboa, 1942.

domingo, 23 de outubro de 2016

 
Cecil Beaton (1904-1980)

         Em Junho de 1942, o fotógrafo e artista britânico Cecil Beaton (1904-1980) passou uma temporada em Lisboa, onde fotografou a cidade e, sobretudo, as suas elites (à excepção de Salazar). Vinha de Lagos, em África, tendo desembarcado num hidroavião, como conta nos seus diários (The Years Between. Diaries, 1939-1944), aqui parcialmente traduzidos e transcritos, na parte relativa a Portugal. A sua faceta de esteta e amante das artes fica bem patente nestas páginas, onde são frequentes as referências a pormenores arquitectónicos ou a mestres da pintura. A dado passo, Beaton refere-se ao «aspecto Rip van Winkle» de Lisboa, numa alusão à personagem do conto homónimo de Washington Irving; e, noutro momento, alude à famosa família Sitwell, sendo estas duas referências, porventura, as únicas que carecem de uma nota complementar que facilite a compreensão de um texto traduzido sem preocupações de rigor e fidedignidade. A passagem de Beaton por Lisboa é sobejamente conhecida, tendo já merecido até uma exposição, cuja crítica de Alexandre Pomar pode ser lida aqui.

 
Marcello Caetano, fotografado por Cecil Beaton
  
         Quando, finalmente, sobrevoámos a orla costeira montanhosa e descemos até à baía azul de Lisboa, a porta do nosso hotel flutuante abriu-se para um cenário ameno e soalheiro. Diante de nós, pequenas bandeiras agitavam-se ao vento e as ondas azul-turquesa desfaziam-se em espuma branca, como num quadro de Tissot. 

         De súbito, sentimo-nos de regresso à atmosfera anterior à guerra, ao tempo das férias passadas em Espanha ou no Sul de França.

         Saberiam alguma coisa da minha visita? Não, o adido de imprensa não sabia de nada. Mas dois jovens da embaixada, Stewart e Herbert, acompanharam-me com entusiasmo e empenho, e telefonaram para vários organismos públicos procurando saber se havia por lá algum trabalho à minha espera. Sim! O Ministério do Ar tinha procurado indagar da minha chegada, mas as investigações subsequentes nada revelaram. Tive a sensação de que talvez me encontrasse aqui por engano. Stewart era de opinião de que me deveria ir embora, uma vez que nada tinha para fazer em Portugal. Herbert, em contrapartida, afirmou que o melhor seria contactar o Ministério do Ar, pois seria péssima ideia regressar a casa para depois ser imediatamente chamado de novo a Lisboa. Stewart sorriu e marcou-me um hotel, fazendo questão de me levar pessoalmente até lá.

         Não admira que tivesse sorrido, pois o Hotel Aviz revelou ser um fenómeno. Assemelhando-se a uma mansão de um milionário vitoriano, era decorado com mobiliário de mogno ricamente trabalhado, estatuária medieval, azulejos portugueses, ferros forjados do século XVIII, enormes carpetes espanholas e terrinas incrustadas de prata, impropriamente cheias de flores horríveis. O ambiente era de tal forma opulento e diferente de tudo o que víamos desde o início da guerra que parecia que o desmesurado relógio barroco do átrio tinha sido atrasado uns vinte ou mesmo uns quarenta anos. Tendo perguntado quem estava no quarto ao lado (era uma alemã ou italiana), Stewart deixou-me ali, para que eu pudesse tomar banho, barbear-me, vestir roupa lavada e mais apropriada e, enfim, tomar uma refeição.

          O almoço era um acontecimento. Numa sala de jantar estilo Luís XVI, envolta em reflexos rosa, algumas mesas, poucas, eram ocupadas por um sortido de personagens de antes da guerra, e de várias nacionalidades. A um canto, de costas para a parede, sentava-se o Senhor Calouste Gulbenkian, rei do petróleo e do caviar e patrono das artes. Um silêncio completo dominava a sala, enquanto eram servidas as refeições mais sumptuosas e extravagantes. Os meus olhos quase saltaram das órbitas quando vi os carrinhos com as entradas a passarem diante de mim. Só as entradas já eram um banquete. Não sei como fui capaz de ingerir ainda mais três pratos, mas o certo é que quase nada comera nas últimas semanas; apesar disso, já não tive espaço para os morangos gargantuescos. 

         O meu quarto, com o seu mobiliário cor de alperce, os abajures forrados de seda na cabeceira da cama, e o marulhar das palmeiras vindo da varanda, era um oásis. A cela despida, fria e húmida da messe da RAF em Lagos foi esquecida até tirar o meu fato mais formal da mala; aí afluiu às minhas narinas o cheiro a mofo, o que me fez recordar a cama e a almofada onde dormira, pejadas de humidade e fungos.

         Como é óbvio, estava feliz por ter sido obrigado a parar aqui (ainda que continuasse a não saber por que razão!) Deambulei pela cidade e, saborosamente, saciei o meu apetite de turista. Os encantadores edifícios setecentistas e os ornatos decorativos rococó representavam algo pelo qual eu estava faminto desde que a guerra começara.

         Muitas fachadas eram pintadas com um vermelho-coral e um branco fortes, com ornatos em estuque brotando do cimo das pilastras. Nas balaustradas dos telhados, erguiam-se obeliscos e vasos de pedra. Por um acaso, passei por algumas praças gloriosas, de mármore branco, decoradas com arcos ornamentais e estátuas. Admirei jardins com bustos clássicos que surgiam de pilares completamente cobertos de folhagem. Foi delicioso sentar-me e gozar o verdor da sombra projectada por um Neptuno que contemplava a fonte formada com a água saída do cântaro que carregava num dos seus braços.

         É espantoso ver as lojas cheias de produtos alimentícios raros, guloseimas, bebidas alcoólicas, de todas aquelas coisas que não temos entre nós – meias de seda, relógios, batons. Estou também espantado com a quantidade de quiosques que vendem diversos jornais e revistas inglesas (muito mais do que aqueles que conseguimos encontrar em Inglaterra). Folheei um exemplar da Illustrated London News para ver se apareciam algumas das minhas fotografias de guerra, mas verifiquei apenas que na nossa terra os meses vão passando, que toda a gente está a usar agora roupas diferentes e que a Princesa Isabel cresceu, deixando de ser criança e tornando-se uma jovem senhora.  

         No Secretariado, percorri uma pilha de revistas de propaganda alemã. As suas fotografias de guerra, quer a cores, quer a preto e branco, são muito mais originais do que as nossas. Não só conhecem a necessidade de contenção no uso da cor como são muito mais ousados do que nós. Mostram apenas manchas trágicas – fotografias tiradas numa semiobscuridade, entre fumo, chuva ou nevoeiro, o que cria um tremendo efeito dramático. Ainda assim, é desconcertante ver que estas revistas, tão próximas do espírito contemporâneo, continuam a apelar à abolição da «arte decadente» quando, em simultâneo, o seu espírito e o seu gosto se mostram muito mais flexíveis do que o nosso.

         O aspecto Rip van Winkle de Lisboa tem as suas desvantagens. Portugal é indubitavelmente o refúgio das «ratazanas» e o Hotel Aviz é o epicentro dos colaboracionistas, que aqui vêm fazer os seus negócios. Talvez a cegueira face à situação mundial tenha custado a Portugal a perda da sua antiga grandeza, sendo este um país que vive actualmente o crepúsculo da sua existência. Mas, devo reconhecê-lo, talvez estas elucubrações tortuosas tenham resultado do mero facto de não ter conseguido encontrar um táxi. Nesta terra de luxos, só falta uma coisa – a gasolina. As ruas estão quase vazias de trânsito, e uma vez que há racionamento de carvão, tem de se poupar na electricidade, pelo que até no Hotel Aviz as luzes são desligadas às 10 da noite.

         O Ministério da Informação acabou, finalmente, por mandar um telegrama dizendo estarem interessados em que eu fotografasse todos os membros do Governo e todas as celebridades locais. Mandaram uma lista das pessoas a retratar, desde o Presidente a Salazar, desde almirantes a cardeais. Julgo que isto não vai interessar a ninguém, e certamente não terá qualquer «importância»; em todo o caso, permitir-me-á fazer um contraste com as fotografias que tenho tirado.   

         A organização deste trabalho revelou-se uma tarefa terrível. No Secretariado, um homem chamado Almeida deveria dar-me uma licença para utilizar uma câmara (ao que parece, em Lisboa pode-se ser preso por andar com uma máquina fotográfica, e por vezes passam-se semanas na cadeia até se conseguir ser libertado). Porém, a primeira dificuldade foi encontrar o senhor Almeida à sua mesa de trabalho. Devido às políticas de austeridade impostas pelas reformas de Salazar, com vista a alcançar o equilíbrio orçamental após anos e anos de caos financeiro, muitos tiveram de fazer grandes sacrifícios, incluindo os funcionários públicos. Por isso, muitos deles acumulam funções com outro emprego, pelo que nunca chegam ao serviço antes das cinco da tarde. Quando, finalmente, o Senhor Almeida apareceu, sentado à sua secretária, tratou-nos de uma forma histriónica. Rodeado de telefones como se fosse um agente de Hollywood, tinha longas conversas sempre que recebia uma chamada. Passava o tempo a marcar números, incessantemente, gritava com a telefonista, desligava e de imediato voltava a marcar outro número. Enquanto falava ao telefone, gesticulava selvaticamente, fazendo esgares parecidos aos de um louco torturado. Tendo-nos deixado ali, a mim e a Herbert, a presenciar aquela cena durante uma meia hora, Almeida disse que iria chamar três polícias, para nossa protecção. Oh, como era difícil a sua vida, que tinha de estar a trabalhar até àquela hora, enquanto a maioria das pessoas já há muito tinha ido embora, para beber cervejas ou comer gelados nos cafés! Por fim, após a sua actuação histérica ao telefone ter ido em crescendo, exclamou: «As coisas estão a ir bem e depressa!» Eu não podia deixar de rir, mas Herbert explicou-me que era mesmo assim: ter paciência é a primeira coisa a aprender para quem vive em Portugal, uma vez que o tempo, como sabemos, não existe (nenhum correspondente de guerra consegue mandar notícias para casa sem que antes passem dez dias de insistência e obstinação).

 
Fernanda de Castro, fotografada por Cecil Beaton

         Quando, por fim, me libertei daquilo, Marcus Cheke apareceu para me mostrar a cidade. Estava livre? Claro, que outra coisa tinha para fazer senão esperar? O meu regozijo foi tanto maior quanto este meu companheiro, que escreveu uma obra romanceada sobre o Directoire chamada Papilée, tinha sido uma das mais surpreendentes descobertas literárias das minhas primeiras leituras. Nenhum inglês conhece tão bem Portugal como ele; escreveu há pouco uma biografia de Pombal, o grande ditador do século XVIII. Na verdade, Cheke é, ele próprio, uma personagem do século XVIII: elusivo, excêntrico, temperamental (o que passa por «artístico»), mas impregnado de um charme discreto.   

         Encontrei nele um excelente guia, detentor de informações fascinantes. Deleita-se com os Portugueses mas considera que os lisboetas estão contaminados pelos artifícios do mundo moderno. Apesar disso, continuam a ser pouco sofisticados, ineficientes e acriançados: um dos seus maiores prazeres é o fogo-de-artifício, a ponto de um aristocrata e toureiro, cujo apelido de família se destacou durante séculos pela sua coragem, ter como passatempo visitar duas vezes por semana o jardim zoológico, onde lança foguetes para a aldeia dos macacos.

         Hoje, o nosso táxi, por puro gozo, e animado por uma fúria que só os taxistas portugueses têm, subiu a toda a brida pelas íngremes calçadas de paralelepípedos do bairro mourisco, Alfama. Esta é a parte da cidade que sobreviveu ao catastrófico terramoto de 1755, quando dois terços de Lisboa desapareceram em apenas quinze minutos. Quando observado de cima, os telhados do casario assemelham-se a uma manta de retalhos feita de um tecido grosseiro. Por perto, o mercado de peixe, onde as mulheres, levando à cabeça enormes canastas, se exaltam e brigam permanentemente, esbofeteando-se umas às outras com rodovalhos ou lagostas.

         O táxi lançou-se depois pelas colinas abaixo. Correndo em duas rodas, navegava de forma alucinante por curvas apertadas, em ruas protegidas da precipitação da chuva por delicadas grelhas de ferro. Depositou-nos à porta da escola equestre do século XVIII, onde se encontra a maior colecção de coches [do mundo?]. Além dos coches, ficamos maravilhados pelos uniformes que eram usados nos cortejos pelos cocheiros, pelos arautos, pelos músicos e pelos criados a pé. Os trajes bordados da aristocracia eram de uma enorme riqueza, com fios de ouro e prata e botões de porcelana, mosaico, esmalte e jóias. Até as fivelas dos sapatos parecem molduras feitas de joalharia. Esta visita a um museu, a primeira desde que a guerra começara, trouxe-me a memória vívida daqueles dias longínquos em que, tendo os Sitwells «descoberto» o barroco, passávamos férias na Baviera em sua companhia.

         Será possível descrever o prazer que sentimos ao visitar o Palácio de Queluz pela primeira vez? Até mesmo Beckford, nas suas cartas, foi incapaz de fazer justiça a este palácio de Cinderela, pintado de rosa e verde-pistácio. É mais belo do que tudo quanto existe na Baviera, com mais liberdade criativa e fantasia de tudo quanto existe em França. É a apoteose da arquitectura «fondant». Um dos edifícios, com empenas holandesas e o telhado em dupla mansarda, exibe uma fachada ornamentada com esfinges, anjos tocando trompetas e varandas rendilhadas. Uma mostra desarmante de pirotecnia arquitectónica.

Terça-feira, 14 de Julho

         A batalha de Alamein permitiu um período de acalmia durante cinco dias. Conseguimos causar alguns danos nas linhas inimigas e até fizemos cerca de 2.000 prisioneiros. No entanto, o perigo continua a ser tão intenso como dantes. A natureza humana permite que nos habituemos a praticamente tudo. A proximidade do inimigo a Alexandria, que até há pouco era motivo de alarme, é agora aceite com tranquilidade.

Quarta-feira, 15 de Julho

         Acabaram-se as manhãs ociosas. Finalmente, conseguiu-se obter as autorizações para usar a minha câmara, um sinal de boa vontade. Uma primeira passagem pelo Gabinete de Imprensa fez-me adivinhar que iria ter de passar vários dias a adular as pessoas mais importantes de Lisboa. Homens de Estado, marquesas vestidas de negro rodeadas de admiradores esvoaçantes, um almirante octogenário, o cardeal patriarca e outros dignitários da Igreja, os comandantes do exército, da defesa civil, da Cruz Vermelha, uma poetisa – todas estas figuras viviam num mundo à parte, só deles, muito distante do modo como intensamente então se vivia e morria em África.

         Num castelo inteiramente renovado no século XIX, o Presidente Carmona – a quem já chamaram o Botha de Salazar/Smuts – recebeu-me com a graciosidade do antigamente, apesar de ter dado havia pouco uma dolorosa piqûre na sua perna. Nascido na década de 1860, o Presidente Carmona liderou o coup d’État que em 1926 levou à fundação do actual Estado Novo português, Hoje, após quinze anos como Presidente da República, goza de tanto prestígio como um soberano regente, tem o exército como uma força unida atrás de si e é respeitado e amado por todas as classes sociais. O antigo revolucionário tornou-se um velho grand seigneur, apresentando-se com o seu modo delicado apesar do desapontamento óbvio de nenhum de nós ser o coronel que o Secretariado lhe disse que iria comparecer perante ele. Parecendo uma ilustração de Caran d’Ache com a sua figura esbelta e aprumada – uma herança dos tempos da tropa –, envergando um casaco preto e calças listradas, posava como um dândi doutros tempos. A decoração vitoriana do castelo prestava-se a fotografias maravilhosas, com as paredes forradas de brocado cor de mostarda, retratos parecendo oleografias, e um gigantesco relógio de pêndulo colocado sob uma campânula de vidro. Em algumas das muitas molduras de prata expostas, encontram-se fotografias de uma senhora que dizem ser a sua antiga cozinheira, com quem se casou recentemente. Será, porventura, boa cozinheira; não é, seguramente, uma mulher bonita.

         A cada dia que passava, mais personagens: homens idosos em uniformes resplandecentes, aristocratas em jardins forrados de azulejos azuis e brancos. Mas a cada dia surgiam também mais reservas por parte de Salazar. No fim, convenci os meus chefes que havia que pôr termo a este cansativo jogo de esconde-esconde, e autorizaram-me a regressar a casa sem o líder-Garbo [Garboesque] no meu portefólio.  

         Após a minha última sessão fotográfica (o chefe da Marinha, um almirante com um longo nariz entortado para a esquerda e cabelo cinzento cortado em franja), deixei cair a minha máquina numa escadaria de pedra. Este acidente freudiano fez com que me apercebesse da estúpida autoconfiança, mas também da incrível sorte que tive, ao ter embarcado para a minha viagem ao Médio Oriente munido apenas de uma câmara. A Rolleiflex, que me acompanhou incólume, com típica eficiência germânica, através de tempestades de areia e viagens de jipes aos solavancos, encontrava-se agora inutilizada, justamente quando eu, do ponto de vista psicológico, devia dar por terminada esta minha missão.

         Aguardo agora a autorização do Ministério da Informação para poder regressar a casa. As delícias setecentistas e frívolas desta linda cidade cor de pistácio, e os surpreendentes privilégios de uma atmosfera pacífica começam a desvanecer-se, sendo agora mais forte o desejo de regressar a casa. Além disso, não conhecendo naturais do país e sendo incapaz de falar a sua língua, sinto que abusei em excesso da hospitalidade de Marcus Cheke e de algumas pessoas da embaixada, onde sinto que começo a ser um estorvo.

         Hoje, em vez de comer sozinho, almocei no restaurante do hotel com uma jovem castelhana cujos pais tinham ido almoçar fora. Adoro a companhia de meninas desta idade, absolutamente fascinantes. Esta, então, era particularmente encantadora, dano um ar de desamparo pungente. «Oh!», disse ela, «é terrível ter catorze anos!» Não se importava de ter onze e ansiava por já ter dezanove anos – mas doze, treze, catorze, quinze, dezasseis, isso era terrível, pois pretendia assumir uma postura adulta sendo incapaz de disfarçar que era ainda uma criança. Está a escrever as suas memórias. Começam pelo «êxodo» da Alemanha quando ocorreu a rendição da França.

         É uma sensação estranha estar num país neutral e ouvir em primeira mão histórias dos territórios ocupados. A rapariguinha falou-me de Paris sob ocupação germânica e do facto de todos detestarem os boches mas não expressarem essa animosidade por receio de irem parar à prisão. Quando o seu pai a levou ao Luna Parque, dois alemães decidiram andar numas cabines que se moviam no ar como moinhos de vento. O dono da atracção viu aí uma oportunidade para se divertir e duplicou a velocidade com que a cabine se movia no céu. Uma multidão de franceses olhou para o céu, morrendo a rir à medida que os alemães iam subindo cada vez mais alto. No meio da multidão, um jovem soldado alemão virou-se para uma menina que gritava de alegria. «São muito engraçados, não são?», perguntou-lhe. A menina ficou calada, parecendo aterrorizada, e fugiu dali.  

         Os judeus têm de usar estrelas amarelas na lapela, que dizem «Eu sou judeu». A rapariga viu uma das suas colegas de escola usar o distintivo no jardim e ficou tão incomodada que não se atreveu sequer a falar com ela. «Mas os judeus não estão em pânico?», «Não, estão bem, são eles que controlam o mercado negro». A minha pequena amiga contou-me também uma série de mexericos sobre amigos comuns, sobre as suas inclinações políticas, sobre os efeitos da Ocupação no comércio («Os negócios vão de vento em popa – os alemães pagam bem!»). «Que dizem os franceses dosraids da RAF sobre França?», «Oh, estão muito divertidos!», «Não estão em pânico?», «Não, nada disso, julgam que a RAF apenas irá atingir as fábricas. Ouvem as bombas explodir e só depois é que toca a sirene de alarme». Rimo-nos juntos com histórias antigermânicas e observámos com espanto uma festa de oito hunos selvagens que estavam a devorar um almoço de oito pratos na mesa ao lado da nossa.

 Cecil Beaton

(tradução de António Araújo)


Publicada por Malomil à(s) 23.10.16 
http://malomil.blogspot.pt/2016/10/lisboa-1942_23.html

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Portugal, 1958

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Portugal, 1958


Kinglsey  Amis (1922 / 1995)

O conhecido escritor inglês Kingsley Amis (1922-1995) publicou em 1958 a novela I Like It Here,  editada entre nós pela Cotovia, em 1990, com tradução de Maria Helder Valério, tendo por título Gosto Disto Aqui. Trata-se de uma obra de ficção, mas com um forte pendor autobiográfico, sendo produto da estadia de Amis entre nós. 

 
Mesão Frio 1958

         - A censura aqui é brava, não é? - perguntou Bowen,
         Gomes reagiu como um homem que sente uma dor súbita, cerrando os maxilares e respirando fundo. Como se sentisse dificuldade em deixar sair as palavras, disse: «Se não vos aborrecer, deixem-me falar-lhes um pouco deste país maravilhoso, do qual tenho a honra de ser cidadão. Sim, é verdade, tal como você disse, a censura é muito apertada. Todas as publicações, sejam de que género forem, têm que ir à censura. Não só jornais e coisas do género, embora possa dizer que estão incluídos periódicos desportivos, compreende, e revistas de decoração, etc. - todos são examinados, à procura de algo de que o regime não goste. Bom, não faz ideia do que isto implica. Se quiser fazer um peditório, ou coisa assim, uma coisa completamente inofensiva, primeiro tem que obter autorização para isso e, se tiver um prospecto impresso, ele vai automaticamente para as mãos do censor. E aquilo de que o censor não gosta - bom, é de tudo o que possa sugerir que alguma coisa não está bem algures; não importa o quê, nem onde. Não me refiro a queixas explícitas contra o Governo: por isso, vai-se para a prisão. Sabem quem treinou a nossa polícia secreta, aquele corpo de homens de élite? O defunto e chorado Himmler, com supervisão pessoal. Mas, voltando à censura: por exemplo, nunca se fala de saúde pública nos jornais, excepto para declarações piedosas dizendo que é maravilhosa, que não podia estar melhor - com os piores bairros de lata da Europa Ocidental à nossa porta, em Lisboa. Nem sequer se pode dizer que as coisas estão a melhorar, porque isso implica que não estão perfeitas. Outra coisa, os acidentes. Nunca são referidos. Vou dar um exemplo: vê esta rede de caminho de ferro?

         Bowen respondeu afirmativamente: estava situada ao longo da costa, ligando Lisboa e Cascais e, embora, mais elegante e mais rápida, lembrara-lhe muitas vezes o comboio tipo eléctrico que ligava Swansea (Rutland Street) a Mumbles Pier: também era o caminho de ferro mais antigo das Ilhas Britânicas.

- Ora bem - diga-me se o estiver a maçar, sim - parte do talude abateu, um belo dia, e o comboio chocou com ele. Um bebé morreu, e uma mulher morrei no hospital. Houve vários feridos graves, Agora repare. Só um jornal dei esta notícia, imagino que por descuido. Os nossos valentes polícias foram lá e encerraram o jornal durante um mês, como aviso. Um aviso para não faltar à política oficial de intrujar e mentir. - Gomes disse isto de modo bem-humorado, por cima do ombro, enquanto acenava e assobiava, a chamar o empregado. - É claro que todos os cartazes de cinema são censurados. No interesse da moral pública, obviamente. Reparem bem, para a próxima, e verão o carimbo. É a Igreja que está por trás disto. Por favor, não me interpretem mal: eu sou um católico fervoroso, ou pelo menos gosto de pensar que sou. Mas não posso perdoar aos bispos o estarem sempre do lado de Salazar em tudo. E os padres. Claro que há muitos padres bons. Mas para muitos deles, compreende, ser padre é uma maneira de escapar à pobreza - é ter finalmente algum dinheiro no bolso. Não há quaisquer sentimentos religiosos. Dois amigos meus, bons católicos, criaram uma sopa dos pobres na aldeia deles, perto de Braga: sopa grátis duas vezes por dia, e pão, para os filhos dos pobres. O padre pregou contra eles de cima do púlpito; era um golpe para o seu prestígio. Na verdade, a Igreja é bastante impopular em algumas áreas, especialmente entre os pobres. Há pouco tempo estavam a reconstruir, lá para o Sul, uma igreja que tinha ardido. Bom, os pobres de lá decidiram que tinham passado muito bem sem o padre a pregar-lhes. Decidiram embebedar-se todos uma noite, e deitaram tudo abaixo outra vez. Este tipo de coisas talvez o faça sorrir. A mim, entristece-me.

Kingsley Amis