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quarta-feira, 20 de maio de 2026

Fernando Serrano - O Sr. Ventura falou...falou...falou...

* Fernando Serrano

14 de abril  de 2026

O Sr. Ventura falou...falou...falou...

Mas negou a verdade, que talvez saiba, mas não quis dizer...

Primeiro escondeu que o Povo Português deu a Salazar, seu ídolo, 13 anos para que fizesse a descolonização bem feita, e Salazar não a fez. Salazar não soube, ou não quis fazer. Salazar falhou.

Mesmo depois do desastre da Índia, não aprendeu nada. Nem ele, nem os seus sequazes.

Salazar tratou os heróis da Índia como traidores, negando-se a trazê-los para Portugal. Salazar negou os seus soldados. Salazar desprezou os filhos das Mães de Portugal. Salazar não tinha filhos. Nunca ninguém lhe chamou pai. Não tivesse sido a ONU ainda hoje ali estariam...

Puniu, humilhou, severamente, o general Vassalo e Silva e o brigadeiro António Leitão porque se negaram a sacrificar os filhos das mães de Portugal numa luta impossível de vencer.

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O Sr. Ventura mentiu quando diz que o retornados foram abandonados.

O Sr. Ventura não conhece o célebre decreto de Mário Soares que dava prioridade absoluta na colocação aos retornados que fossem funcionários públicos, e aos outros se a estes lugares que concor ressem?!

Só depois de todos os retornados terem sido colocados, os portugueses de Portugal teriam direito a concorrer. V.Exª, senhor Ventura, não tem conhecimento disto?

Os portugueses de Portugal receberam os retornados muito bem.

Tivesse sido o contrário, os portugueses de Portugal a terem de procurar refúgio em Angola ou Moçambique e a música seria bem diferente.

Basta que se saiba a forma como éramos olhados, mesmo quando estávamos ali para lhes defender os interesses...Total desprezo...Eles eram uma raça superior e nós os animais domésticos...

Não fazíamos lá falta, e só lá íamos para encher os bolsos… Diziam

eles.

O Sr. Ventura não sabe isto...Não passou por lá. O Sr. Ventura fala do que não conheceu, nem conhece.

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Uma descolonização não se faz em dois anos, nem em três, nem em quatro...

Uma descolonização bem feita teria de levar, pelo menos, mais 10 anos a fazer.

Estaria o Povo Português disposto a suportar uma guerra por mais 10 anos?

Eu não estava... 80% dos que lá fomos não estávamos. A guerra tinha que acabar.

O tempo de ser negociada a descolonização tinha passado....Salazar falhou.

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Quanto aos presos políticos.

48 anos de repressão…a PIDE ...de prisões...de mortes…Aljube...Peniche...Caxias...Tarrafal...

Catarina Eufémia- Dias Coelho- Humberto Delgado e tantos outros…

«A morte saiu à rua num dia assim...»

Comparar este tempo- 48anos - com 1ano e 6 meses...é desonesto, Sr. Ventura...Muito desonesto.

O Sr. Ventura quer destruir o 25 de Abril e baralha tudo. O Sr. Ventura quer comparar os Homens de Abril com a canalha da extrema esquerda, igual à extrema direita, que durante 18 meses lançou a desordem nesta terra. A bandalheira acabou com o 25 de Novembro, que veio restaurar a pureza de Abril, conspurcado pelos referidos grupelhos de extrema direita e extrema esquerda.

E sabe, Sr.Ventura, os autores desta miséria eram rapazotes da extrema esquerda. Sem princípios nem valores…Tal como a extrema direita que o Sr representa, e basta ver como se comporta na AR.

Após o 25 de Novembro de 1975 as coisas entraram na ordem...

Não houve mais um preso político...Hoje, posso responder ou contrariar a opinião dos políticos que me governam sem ter medo de ser preso, se o fizer com elevação. Até quando, não sei. Sabê-lo-ei no dia em que o sr.Ventura tiver poder, se ainda for vivo, espero que não, pois uma vez chega.

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O Sr. André não viveu o antes de Abril, mas eu vivi. O Sr. André não foi à guerra, mas eu fui.

O Sr André não viu camaradas morrerem, mas vi morrer dois nos meus braços.

O Sr. André não chorou de dor e de revolta, mas eu chorei de dor, de revolta, de saudade e desespero.

O Sr.André Ventura foi desonesto e Pacheco Pereira não soube acabar-lhe com o «cacarejar...

Quanto aos massacres da UPA... Sr. André Ventura, tem razão...

E o rebola a bola que a bola é cabeça de preto em Angola?

E o Napalm na Guiné?!...

E Wiryamu em Moçambique?

E os guerrilheiros mortos no momento da rendição?

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Ó senhor Ventura, deixe de falar nos antigos combatentes...

Se estamos abandonados o seu querido Salazar é culpado. Mandava-nos para a guerra e nem sequer nos assegurava o regresso...Muito menos condições de adaptação ao fim de 30 meses de guerra, à nova situação...

Um combatente eu vi que entrar no Hospital Militar num sábado, acabado de regressar, doente com doença adquirida em serviço, mas porque já tinha passado à disponibilidade ser expulso, na segunda-feira, da Medicina 3 do HMP, pelo director do mesmo.

O médico que lhe deu entrada e o enfermeiro que o recebeu foram repreendidos, porque o aceitaram...

Hoje, 50 anos depois de Abril, esse homem seria tratado com respeito e carinho em qualquer hospital militar.

Salazar foi o tal que abandonou os seus soldados.

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56 anos depois de regressar da guerra- repare que eu digo 56 anos depois de regressar da guerra onde foi severamente ferido em combate, um ex-combatente, viu ser-lhe reconhecido o direito a uma indemnização por deficiência de 34%, e vai receber uma pensão que é devida desde 1970, porque Salazar não quis saber dos estilhaços que tem espalhados por todo o corpo...Os estilhaços estão lá, provocam dores, mas não o impediam de trabalhar... logo não tinha direito a nada... Antes de Abril, não teve direitos...Depois de Abril, sim. Abril não esqueceu os antigos combatentes... Salazar, sim.

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O senhor Ventura não sabe que a dita guerra do ultramar não começou em 1961...Em 1961 recomeçou...

Não esqueça as campanhas africanas que acabaram com a prisão do Gungunhana e sobre as quais Salazar mandou fazer o célebre filme« CHAIMITE»...Para propaganda do regime, onde os maus eram os negros, que perderam sempre… Marracuene… Coolela…Magul…Macontene…Mas não foi bem assim.

Entre 1910 e 1961 houve sempre uma paz aparente. Os negros sempre que podiam acertavam-nos o passo, como dizer sói…

Em 1961 a guerra recomeçava. Desta vez os negros tinham aprendido muito e já não avançavam para o quadrado a peito descoberto. Começava uma guerra de guerrilha…Eu estive nesta guerra.

E sabe por quê? Por amar a minha Pátria, por amar a minha família, por amar a minha noiva.

Se não fosse Salazar tirava-me o direito se ser Português, proibia-me de ver a minha família, proibia-me de amar uma portuguesa. Ou ia, ou Salazar prendia-me, ou exilava-me. Salazar fazia chantagem com os jovens de Portugal.

O senhor Ventura mentiu quando disse que Salazar nunca mandou prender ninguém. Mentiu por ignorância ou por maldade?!

Salazar ordenou a Silva Pais, o patrão da PIDE-DGS, que prendesse todos os que se negassem ir pra a guerra. Não me diga que não sabia isto?! Então fique a saber…

Eu sei como as coisas se passavam, porque estive lá. Eles jogavam às escondidas connosco.

Leia...informe-se e talvez compreenda que uma guerra contra um Povo que luta ela sua liberdade, só é ganha, se se exterminar esse Povo.

Recorde-1143-1385-1640…E Junot…Soult…Massena ( o filho querido da vitória), que o digam.

Salazar enganou os nossos colonos. Prometeu-lhes aquilo que não podia dar-lhe. Garantiu-lhes que Angola, Moçambique e Guiné eram terras de Portugal e, na verdade, não eram. Eram colónias e o tempo das colónias tinha os dias contados. Bastava saber ler os ventos da História…

Diz o Povo…«Se vires as barbas do teu vizinho a arder…põe as tuas de molho.»

Espanha descolonizou…Inglaterra descolonizou…França descolonizou…Bélgica descolonizou…Holanda descolonizou…

Salazar, « O Grande »…Levou-nos ao que levou. Orgulhosamente, sós! O país mais pobre da Europa Ocidental…

Uma taxa de analfabetismo de 45%. Acesso a uma Escola Superior só para elites com dinheiro.

Mas com uma moeda fortíssima, sim. Com muito ouro nos cofres, sim. Ouro roubado aos mineiros moçambicanos da África do Sul. Sabia, Sr. Ventura?!

Um Povo Explorado até ao tutano. Os servos da gleba e duas classes de altos privilégios- Clero e Nobreza.

O Sr. Ventura sabe que a guerra acabou em 1945, mas em 1951 ainda havia racionamento em Portugal?

Salazar obrigava o Povo Português a passar fome. Salazar obrigava os Povo Português a emigrar a salto, arriscando a vida, mas depois ficava-lhe com o dinheiro que para cá mandava e servia-se desse dinheiro, não para desenvolver as regiões de onde os emigrantes eram naturais, mas para investir nas colónias.

Salazar explorava o Povo Português em favor das colónias.

Claro que não sabe? O Sr. Já nasceu depois de Abril…

Esse Abril que nos ofertou a Liberdade. Prenda que eu duvido que o senhor mereça.

Respeitosamente,

Um Português de Portugal, Patriota.

Antigo combatente que ama o seu país e a liberdade.

25 de Abril sempre… 

2026 04  14
https://www.facebook.com/fernando.serrano.7399/

domingo, 12 de abril de 2026

Prabhat Patnaik - Duas fracturas provocadas pelo neoliberalismo – Competição darwiniana entre os países do Sul Global


Prabhat Patnaik [*]
 
A posição do governo indiano em relação à guerra dos EUA e dos israelenses contra o Irão revela um grau inacreditável de pusilanimidade. A Índia participou na recente reunião de cerca de cinquenta países convocada pelo Reino Unido, onde o Irão foi fortemente criticado por ter fechado o Estreito de Ormuz, mas não proferiu uma única palavra contra a agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão. Da mesma forma, a Índia foi um dos patrocinadores de uma resolução na Assembleia Geral da ONU que criticava o Irão por atacar outros países do Golfo (embora o Irão estivesse a atacar apenas as bases militares americanas localizadas nesses países); mas, mais uma vez, não foi proferida uma única palavra nessa resolução condenando a agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão. É também digno de nota que a Índia demorou vários dias a manifestar qualquer pesar pelo assassinato do líder supremo do Irão, o aiatolá Ali Khamenei, e várias semanas a manifestar qualquer choque pelo covarde assassinato de 175 alunas inocentes em Minab.

Tal pusilanimidade, no entanto, não se limita à Índia: nada menos que 135 países foram co-patrocinadores da resolução desonesta e hipócrita da AGNU mencionada acima, com medo de que, caso contrário, ofendessem os americanos. Na verdade, com exceção de um punhado de países em todo o mundo, nenhum teve a coragem de condenar inequivocamente a guerra flagrantemente ilegal e imoral desencadeada pela aliança EUA-israelense contra o Irão. Trata-se de um assunto de extrema preocupação, pois o ataque ao Irão revoga o conceito de soberania das nações, que fora o conceito central na luta pela descolonização e que esteve na base de toda a ordem pós-colonial; destrói, por outras palavras, a própria razão de ser da descolonização.

Esta pusilanimidade por parte dos países do Terceiro Mundo é também motivo de grande perplexidade:   afinal, trata-se de países que travaram longas e árduas lutas anticoloniais para alcançar o estatuto de Estados independentes e soberanos; como podem permanecer em silêncio quando essa mesma soberania está a ser violada, no caso de um Estado do Terceiro Mundo, pelo poderio armado do imperialismo norte-americano?

A resposta a esta questão, sem dúvida complexa, deve, no entanto, incorporar o reconhecimento de pelo menos duas fraturas que o neoliberalismo introduziu no nosso mundo. Uma delas é a fragmentação do conceito de "nação", cuja concretização havia sido alcançada pela luta anticolonial. Este conceito de "nação" diferia fundamentalmente do conceito europeu, que se desenvolvera na sequência dos Tratados de Paz de Westfália, pelo menos em três aspetos:   em primeiro lugar, era inclusivo e não identificava qualquer "inimigo interno"; segundo, ao contrário do nacionalismo europeu, rejeitava quaisquer ambições imperiais próprias, no sentido de ter pretensões sobre os recursos de terras distantes; e terceiro, não idolatrava a nação como estando acima do povo, cujo "dever" supostamente era servi-la.

O surgimento deste conceito inclusivo de "nação" foi, por sua vez, um reflexo do facto de a luta anticolonial ser uma luta multi-classista; e o regime económico dirigista que foi erigido após a independência, embora promovesse o desenvolvimento capitalista, também procurava colocar freios ao capitalismo desenfreado em nome da consecução do desenvolvimento "nacional". Isto visava preservar a sua base de apoio multiclasse, à qual nem mesmo os capitalistas monopolistas se opunham naquela altura, uma vez que desejavam uma trajetória de desenvolvimento em que o Estado exercesse relativa autonomia face ao imperialismo. A existência de um vasto setor público fazia parte dessa trajetória. Além disso, a política de não alinhamento seguida por estes regimes dirigistas complementou essa busca pelo desenvolvimento em relativa autonomia face ao imperialismo. Michal Kalecki, o conhecido economista, errou ao chamar tais regimes de "regimes intermediários" e ao sugerir que as classes médias detinham o poder decisivo nesses regimes; mas acertou ao identificar o capitalismo de Estado (setor público) e o não alinhamento como as duas características mais distintivas desses regimes.

Com a globalização do capital, no entanto, as coisas mudaram. A burguesia monopolista interna integrou-se ao capital globalizado e abandonou a sua agenda de seguir uma trajetória de desenvolvimento relativamente autónoma da metrópole. Segmentos das classes profissionais e burocráticas superiores da sociedade, ansiosos por enviar os seus filhos para estudar e estabelecer-se na metrópole, juntaram-se como apoiantes do regime neoliberal que surgiu sob a égide desse capital globalizado. Os ricos proprietários de terras também procuraram a sua sorte dentro desta nova ordem neoliberal, que não só promoveu um capitalismo desenfreado e sem restrições, mas também se voltou fortemente contra os trabalhadores, camponeses, trabalhadores agrícolas, pequenos produtores e a classe assalariada mais baixa. Produziu-se uma cisão na aliança de classes que tinha sido forjada no decorrer da luta anticolonial.

Já não era a "nação" contra a metrópole que estava em foco, mas o grande capital, incluindo o capital multinacional, contra os grupos sociais que se interpunham à instauração de um "desenvolvimento" rápido, definido exclusivamente em termos de taxas de crescimento do PIB. O interesse do grande capital foi, por um truque de prestidigitação, identificado como "interesse nacional", e o dever de todas as classes era promovê-lo. Esta mudança no significado do termo "nação" significou, na prática, uma fractura da "nação" cuja concretização era o desiderato da luta anticolonial. A libertação da "nação" do domínio imperialista, longe de ser o objectivo primordial, deixou de ser sequer um objectivo desejado ou relevante para o governo num contexto neoliberal.

Este é o primeiro caso de "fractura" referido acima. Devido a esta fractura, o critério com base no qual o governo de um regime neoliberal toma decisões não é se uma determinada posição defende a soberania nacional, mas se promove os interesses materiais do grande capital, que são considerados idênticos aos da "nação" no seu novo significado. Alinhar-se com a aliança EUA-israelense parece, em suma, mais vantajoso do que apoiar o Irão, vítima de agressão, do ponto de vista dos interesses do grande capital nos países do Sul global; isto ajudaria a explicar, em certa medida, os silêncios ensurdecedores, mencionados anteriormente, na AGNU e noutras resoluções.

Existe também uma segunda "fratura" provocada pelo regime neoliberal. Embora o regime neoliberal seja "vendido" ao Sul global como o portador de um crescimento impulsionado pelas exportações que traria uma taxa de crescimento do PIB mais elevada para todos os países em comparação com o regime dirigista anterior, esta afirmação é completamente falsa. Uma vez que a taxa de crescimento da procura mundial agregada não aumenta quando mais países seguem uma estratégia de crescimento impulsionado pelas exportações, o regime neoliberal que generaliza esta estratégia entre todos os países está, na prática, a forçá-los a envolver-se numa competição darwiniana entre si, ou seja, a seguir uma estratégia de "empobrecer o vizinho".

A taxa de crescimento mais elevada de alguns países do que antes, ao abrigo da estratégia de crescimento impulsionado pelas exportações, deve, por conseguinte, ser à custa de outros países que agora registam uma taxa de crescimento mais baixa do que antes. Os países envolvidos numa corrida para se superarem uns aos outros dificilmente podem ser considerados como "cooperando" entre si. O efeito da busca generalizada da estratégia neoliberal é, portanto, um abandono de facto do não-alinhamento, de uma trajetória em que os países do Sul global se mantinham unidos para enfrentar o imperialismo. Agora, os países do Sul global, cada um obcecado em alcançar um maior crescimento do PIB e, consequentemente, dentro do paradigma neoliberal, obcecado em atrair mais investimento metropolitano para esse fim, preferem bajular o imperialismo a fim de superar os seus vizinhos. Isto conduz a uma fragmentação do movimento de não alinhamento, que é a segunda fragmentação que mencionámos anteriormente.

O silêncio da maioria dos países do Sul global face à agressão dos EUA e dos israelenses ao Irão, que pode parecer intrigante à primeira vista, não é assim tão intrigante afinal. O neoliberalismo tem vindo a atuar há já algum tempo na subversão tanto do conceito de nação como do conceito de não-alinhamento, abandonando o núcleo anti-imperialista que caracterizava estes conceitos e substituindo-os por conceitos alternativos que dão prioridade à tarefa de angariar o favor do imperialismo acima de tudo o resto. O resultado deste processo é o que vemos hoje.

O capitalismo é invariavelmente hostil a qualquer prática coletiva contra si, mesmo que essa prática coletiva assuma a forma de uma simples ação sindical. Ele acredita na atomização dos agentes económicos. O capitalismo neoliberal, que representa um regresso ao capitalismo desenfreado e descontrolado, traz mais uma vez à tona esta tendência para a atomização dos agentes económicos, através da ruptura da aliança de classes que participara na luta anticolonial e através da subversão do movimento dos não-alinhados, que representava a oposição coletiva dos países do Sul global à hegemonia imperialista.

Cabe aos povos do Sul global, e não aos governos que atualmente promovem os interesses da grande burguesia dominante, estender a solidariedade ao povo do Irão; a luta do Irão contra a aliança EUA-Israel é de importância crucial para a recuperação da soberania do Sul global.

12/Abril/2026
[*] Economista, indiano, ver Wikipedia
O original encontra-se em peoplesdemocracy.in/2026/0412_pd/two-fractures-effected-neo-liberalism

segunda-feira, 22 de setembro de 2025

Artur Queiroz - Angola | Criaturas de um Deus Menor


< Artur Queiroz*, Luanda >

A liberdade só existe se estiverem reunidas todas as condições que lhe dão expressão concreta: Paz, pão, saúde, educação, trabalho, habitação. Isto quer dizer que no planeta há poucos povos livres. Em Angola a paz social é um mito. O pão falta na mesa de uma grande parte da população. Trabalho com salários dignos é raridade em vias de extinção. Habitação está ao nível do casebre de lata e da cubata. Educação é um sonho para milhões de crianças fora do sistema de ensino. Escolas sem professores são um pesadelo para as comunidades. Uma desilusão para estudantes do ensino superior. Estamos malé, malé, malé. 

Angola nasceu socialista. Mas o socialismo só serviu enquanto foi necessário mobilizar todo um povo contra os invasores estrangeiros. O regime socialista e os valores do socialismo permitiram triunfar na guerra pela Soberania Nacional e a Integridade Territorial. 

O socialismo foi arma estratégica para derrotar o regime racista de Pretória e a sua unidade especial UNITA. O socialismo foi a ideia libertadora que voou de Angola para a Namíbia Zimbabwe e África do Sul. Quando o regime de apartheid capitulou e a maioria negra triunfou, Angola abandonou a via do socialismo. Mas o MPLA continuou guardião dos valores socialistas no seu Manifesto. Por isso faz parte da Internacional Socialista. 

Angola aderiu à economia de mercado e à democracia representativa, quando o Presidente José Eduardo dos Santos assinou com Jonas Savimbi o Acordo de Bicesse. Os socialistas deram a mão aos fascistas que sobrevieram ao 25 de Abril e à queda do regime de apartheid. Uma coisa contra natura. Para não se notar muito, a democracia popular e o socialismo ficaram para a História. Ou uma nostalgia para muitos que se bateram contra os invasores estrangeiros na Guerra pela Soberania Nacional e a Integridade Territorial.

A direcção do MPLA tomou esta decisão e as primeiras eleições multipartidárias, em 1992, provaram que tinha razão. O partido ganhou com maioria absoluta e nenhum concorrente se apresentou ao eleitorado defendendo o socialismo. Mau sinal. 

O oportunismo é a doença cancerígena do capitalismo. Está provado com resultados à vista. Descontando a armadilha que nos foi colocada no caminho entre 1992 e 2002 (rebelião armada de Savimbi) os “anos de paz” ainda não foram suficientes para garantir ao Povo Angolano paz, pão, saúde, educação, trabalho, habitação. Tudo se esvai por obra e graça dos oportunistas que pululam no MPLA, da base ao topo. Mas também em toda a sociedade, até nas igrejas. Em 2017 entrámos em retrocesso. E vamos andando de marcha atrás. Os recuos vão continuar até 2026. 

O congresso do MPLA vai responder se as nossas vidas vão continuar a andar para trás ou finalmente o Povo Angolano vai ter a vida que merece. Convém que ninguém esqueça o essencial. A mudança só é possível se formos capazes de explorar e colocar ao nosso serviço, os recursos naturais. Se apostarmos rudo na educação. Se formos capazes de dar máximo protagonismo á investigação científica. 

A ladainha da pobreza e da miséria não leva a lado nenhum. Os senhores bispos da Igreja bem podem pôr um padre desmiolado a perorar sobre miséria e fome. Podem prometer o céu aos famintos. Podem garantir aos mortos o paraíso no Além. Nada disso adianta. O paraíso tem de ser criado cá, nos nossos becos, nas nossas ruas, nos nossos bairros, nas nossas sanzalas, nas nossas casas. A liberdade religiosa é garantida a todos. Mas não enganem os crentes. 

O papel de enganar está reservado â UNITA. Desde sempre. Nasceu no seio do colonialismo. Savimbi, nas suas cartas de traição, reverenciava e elogiava os chefes fascistas de Lisboa. Os cabos de guerra colonialistas (genocidas). Não hesitou em lutar de armas na mão contra a Independência Nacional. 

O Galo Negro é filho do regime fascista e teve sempre uma prática fascista. Centenas de homens armados da UNITA reforçaram os Flechas da PIDE. Quando os Capitães de Abril derrubaram o regime fascista, a UNITA continuou incólume, ainda que fosse uma organização portuguesa ao nível da PIDE, da Legião ou da OPVDCA, as milícias nazis criadas em Angola depois da Grande Insurreição em 15 de Março 1961. O Povo Angolano foi enganado pelos libertadores de Lisboa. Valores mais altos se alevantaram.

Após o 25 de Abril 1974, a UNITA não hesitou em apoiar os independentistas brancos. Uma vez derrotados, Savimbi foi trabalhar directamente com o regime racista de Pretória. Nazis puros e duros. O chefe do Galo Negro mostrou uma coerência de betão. A UNITA nasceu no seio do fascismo. Cresceu ao serviço dos colonialistas. Serviu de armas na mão o regime racista de Pretória. Pratica a xenofobia. Sempre na senda da traição.

Em Portugal ganhou expressão, um partido que congrega os herdeiros dos fascistas derrubados em 25 de Abril 1974. Chama-se Chega. É um antro de fascistas, racistas e xenófobos. A UNITA tem uma ligação umbilical à Carta de Madrid. Faz parte da internacional Fascista. Tal como o Chega. São partidos irmãos. O MPLA em Portugal é irmão do Partido Comunista e do Partido Socialista. Primo direito do PSD. A UNITA é irmã do Chega. Coerência.

A igreja regressou ao passado mais problemático da sua existência, quando pôs a cruz ao serviço dos colonialistas. Benzeu as espadas que mataram civis inocentes. Participou nas Cruzadas. Ateou as fogueiras da Inquisição. Se Deus existe, vai preciar de milénios para vo perdoar. Agora os senhores bispos mandaram este recado pelo padre Pio: “O MPLA está ultrapassado!” Ai sim? Então digam quem está em condições de governar Angola com políticas actualizadas e políticos mais competentes. Mas digam já. É feio baterem e depois esconderem a mão. Foge-lhes sempre a conversa para o reaccionarismo mais primário.

Pobres criaturas de um deus menor!

* Jornalista

at setembro 22, 2025 

https://paginaglobal.blogspot.com/2025/09/angola-criaturas-de-um-deus-menor.html#more

sábado, 8 de março de 2025

Jailme Nogueira Pinto - A Europa e a decadência,

 Opinião

* Jaime Nogueira Pinto

DN 07 Mar 2025, 00:27

Por vezes a resposta à realidade desagradável é ignorá-la; outras vezes é passar a tratá-la ao modo de Cruzada contra o Mal, o mal absoluto, contra o qual vale tudo; e nessa narrativa alternativa, concentrar tudo o que possa contraditar a realidade, usando argumentos laterais, colaterais, formais, por importantes que sejam, mas fugindo ao cerne da questão.

É este o juízo que me parece mais próprio, vendo o alheado agitar, esbracejar e passarinhar dos líderes europeus para longe do centro da intriga (o almejado fim do conflito Rússia-Ucrânia), perante a nova Administração americana e o seu dilúvio diplomático e executivo.

Em vez de caírem na realidade e nas consequências da realidade, “os europeus”, ou seja, essencialmente o duo Macron-Stamer (a que Merz ameaça juntar-se), continuam em manobras de diversão que, além de inconsequentes, se podem tornar perigosas.

Isto porque a Europa mudou neste último século. A Europa foi o centro do poder e da economia mundial até à Grande Guerra de 1914-1918. E saiu da guerra com os impérios alemão e austro-húngaro vencidos e desfeitos e com o vizinho império otomano também vencido e esfrangalhado.

Entretanto, na Rússia, dera-se uma revolução radical de esquerda, utópica e marxista, que praticava e prometia o genocídio de classe. Uma revolução que, posta em marcha, ameaçava a Europa, onde vários Estados - da Itália fascista ao Portugal da Ditadura Militar - adoptaram soluções autoritárias.

Para vencer a Alemanha, os aliados franco-britânicos tinham trazido os norte-americanos que, com o presidente Wilson, um cruzado da democracia mundial com nostalgias sulistas, quebravam o isolacionismo dos Founding Fathers e de Monroe.

Na Segunda Guerra passou-se algo semelhante; outra vez, contra uma forte corrente isolacionista, liderada pelo então “herói americano” Charles Lindbergh e pelo seu movimento America First, F.D. Roosevelt, depois de os japoneses atacarem Pearl Harbour, conseguiu levar a América para a guerra. E outra vez os americanos - com os russos de Estaline a vir do Leste atrás dos invasores hitlerianos - desembarcaram na Europa e resgataram os Ocidentais, vencidos e ocupados pelos alemães.

Estas “guerras civis europeias” - fosse qual fosse a sua justiça e sentido - além de causarem grandes destruições humanas, materiais e morais, marcaram o fim do mundo eurocêntrico. Na verdade, para ganhar a guerra e lograr o concurso dos seus colonizados no esforço de guerra contra a Alemanha e o Japão, os Aliados tiveram de lhes prometer o autogoverno. Nem de outro modo podia ser. Os impérios ultramarinos iam ser a principal vítima colateral da nova ordem mundial, redigida e fixada na Carta das Nações Unidas. E a Europa vencida, constrita e ocupada, iria avançar com projectos de união aduaneira e económica e até, para algumas elites políticas e tecno-burocráticas, de união e federação, sonhando e copiando o que acontecera nos Estados Unidos.

E face ao perigo comunista, que ocupara uma série de países da Europa Oriental, confiou-se com gratidão no amigo americano, a nova superpotência que, arcando com a defesa comum, libertava aos europeus recursos para, em democracia, construírem o Estado Social.

É isso que, agora, pode estar para acabar: os Estados Unidos não vão abandonar a NATO nos próximos tempos, mas também não parecem dispostos a tolerar o jogo duplo dos que vão a Washington ao beija-mão, mas bloqueiam a paz; dos que falam em rearmamento, mas se encolhem quando se trata dos seus filhos ou do seu dinheiro; dos que mandam os outros fazer peito aos poderosos e depois estender-lhes a mão.

Politólogo e escritor

O autor escreve de acordo com a antiga ortografia

https://www.dn.pt/opiniao/a-europa-e-a-decad%C3%AAncia?utm_source=website&utm_medium=related-stories

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Sergei V. Lavrov - A ONU deve de novo tornar-se um centro de harmonização das acções das nações

*  Sergei V. Lavrov

     10.Feb.25      

Nos 80 anos da Cimeira de Ialta, um importante balanço sintético do trajecto histórico decorrido. A constatação de que as potências ocidentais nela participantes – EUA e Grã-Bretanha – se subscreveram os acordos posteriores e a Carta das Nações Unidas neles incluída, o fizeram sem qualquer genuína intenção de os respeitar e cumprir. Hoje há vozes nos EUA que declaram abertamente que os acordos Ialta-Potsdam lhes seriam prejudiciais. Mais, declaram que a sua própria “ordem baseada em regras” também já não lhes servirá. Ignoram que as condições demográficas, económicas, sociais e geopolíticas mudaram irreversivelmente. É uma figura diplomática da estatura de Lavrov quem o recorda. E recorda também que, a não serem reconhecidas essas novas condições, se poderá estar a caminhar para o caos.

Não é demasiado tarde para dar à ONU um novo sopro de vida. Mas isso não deveria ser feito através de ilusórias cimeiras e declarações, mas sim através da restauração da confiança baseada no princípio da igualdade soberana de todos os Estados enunciado na Carta. Infelizmente, não está a acontecer.

Há oitenta anos, em 4 de Fevereiro de 1945, os líderes dos vencedores da Segunda Guerra Mundial - a União Soviética, os Estados Unidos e a Grã-Bretanha - abriram a Conferência de Ialta para determinar os contornos do mundo do pós-guerra. Apesar das diferenças ideológicas, concordaram em erradicar o nazismo alemão e o militarismo japonês. Os acordos alcançados na Crimeia foram reafirmados e aprofundados na Conferência de Potsdam, em Julho-Agosto de 1945.

Um dos resultados das negociações foi a criação das Nações Unidas e a aprovação da Carta das Nações Unidas, que permanece, até hoje, a principal fonte do direito internacional. A Carta estabeleceu objectivos e princípios para o comportamento internacional dos países, destinados a assegurar a sua coexistência pacífica e o seu desenvolvimento sustentado. O princípio da igualdade soberana dos Estados lançou a base do sistema de Ialta-Potsdam: nenhum pode reivindicar o domínio, uma vez que todos são formalmente iguais, independentemente do território, da população, das capacidades militares ou de outros parâmetros.

Apesar de todas as suas forças e fraquezas, sobre as quais os académicos ainda discutem, a ordem de Ialta-Potsdam forneceu durante oito décadas o quadro normativo e jurídico do sistema internacional. A ordem mundial baseada na ONU cumpre a sua principal tarefa - proteger toda a gente contra uma nova guerra mundial. Na verdade, “a ONU não nos trouxe o paraíso mas salvou-nos do inferno” [1]. O poder de veto consagrado na Carta - que não é um “privilégio”, mas um ónus de responsabilidade especial para salvaguardar a paz - serve como uma barreira sólida contra decisões imprudentes e oferece espaço para encontrar compromissos baseados num equilíbrio de interesses. Enquanto núcleo político do sistema Ialta-Potsdam, a ONU tem servido como uma plataforma universal única para o desenvolvimento de respostas colectivas a desafios comuns, quer para a paz e a segurança internacionais, quer para o desenvolvimento socioeconómico.

Foi na ONU que, com um papel fundamental desempenhado pela URSS, foram lançadas as bases para o mundo multipolar que está agora a emergir perante os nossos olhos. Em particular, o processo de descolonização foi legalmente implementado através da Declaração sobre a Concessão da Independência aos Países e Povos Coloniais, adoptada em 1960 por iniciativa da União Soviética. Nessa época, dezenas de povos, anteriormente oprimidos pelas potências coloniais, obtiveram pela primeira vez a independência e uma oportunidade de se tornarem Estados. Hoje, algumas destas antigas colónias podem afirmar-se como centros de poder no mundo multipolar, enquanto outras pertencem a uniões supranacionais com alcance civilizacional regional ou continental.

Como os académicos russos correctamente observam, qualquer instituição internacional é, acima de tudo, “uma forma de limitar o egoísmo natural dos Estados.” [2] A ONU, com a sua Carta adoptada por consenso, não é excepção.

A Rússia, tal como a maioria da comunidade mundial, nunca teve qualquer dificuldade em fazê-lo. Mas o Ocidente nunca se curou do sua síndroma de excepcionalismo e mantém os seus hábitos neocoloniais, ou seja, de viver à custa dos outros. As relações inter-estatais baseadas no respeito pelo direito internacional não foram, desde o início, do agrado do Ocidente.

A antiga subsecretária de Estado norte-americana Victoria Nuland admitiu uma vez, numa entrevista, que “Ialta não foi um bom acordo para nós, não foi um acordo que devêssemos ter feito”. Este tipo de atitude explica em grande parte o comportamento internacional dos Estados Unidos; em 1945, Washington foi praticamente forçado a aceitar de má vontade a ordem mundial do pós-guerra, já vista como um obstáculo pela elite americana, que rapidamente procurou revê-la. A revisão começou com o infame discurso da Cortina de Ferro de Winston Churchill, em Fulton, 1946, que essencialmente declarou uma Guerra Fria contra a União Soviética. Entendendo os acordos de Ialta-Potsdam como uma concessão táctica, os Estados Unidos e os seus aliados nunca seguiram o princípio fundamental da Carta das Nações Unidas da igualdade soberana dos Estados.

O Ocidente teve uma oportunidade fatídica de corrigir o seu rumo, de mostrar prudência e visão, quando a União Soviética se desmoronou juntamente com o campo socialista mundial. No entanto, os instintos egoístas prevaleceram. Dirigindo-se ao Congresso, a 11 de Setembro de 1990, inebriado pela “vitória na Guerra Fria”, o presidente americano George H. W. Bush proclamou o advento de uma nova ordem mundial [3], uma ordem que os estrategas americanos entendiam como o domínio total dos Estados Unidos na cena internacional, como uma janela de oportunidade para agir unilateralmente, sem ter em conta as restrições legais inscritas na Carta das Nações Unidas.

Uma manifestação da “ordem baseada em regras” foi a política de Washington de absorver geopoliticamente a Europa de Leste. A Rússia foi forçada a eliminar as suas explosivas consequências com a Operação Militar Especial.

Em 2025, com a administração republicana de Donald Trump de volta ao poder, a interpretação de Washington dos processos internacionais desde a Segunda Guerra Mundial assumiu uma nova dimensão, como vividamente descrito ao Senado pelo novo Secretário de Estado Marco Rubio em 15 de Janeiro: não só a ordem mundial do pós-guerra está ultrapassada, como foi transformada numa arma contra os interesses dos EUA [4]. Por outras palavras, não só a ordem de Ialta-Potsdam é indesejável, como também a “ordem baseada em regras” que parecia encarnar o egoísmo e a arrogância do Ocidente liderado pelos EUA após a Guerra Fria. “A América primeiro” é assustadoramente semelhante ao slogan hitleriano ‘A Alemanha acima de tudo’, e uma aposta na ‘paz através da força’ pode ser o golpe final para a diplomacia. Para não mencionar que tais declarações e construções ideológicas não demonstram o mínimo respeito pelas obrigações legais internacionais de Washington ao abrigo da Carta das Nações Unidas.

No entanto, hoje não estamos em 1991 ou mesmo em 2017, quando o actual Presidente dos EUA assumiu o leme pela primeira vez. Os analistas russos observam, com razão, que “não haverá regresso à situação anterior, que os EUA e os seus aliados ainda procuram, porque as condições demográficas, económicas, sociais e geopolíticas mudaram irreversivelmente.” [5] Também é provável que haja verdade na previsão de que, eventualmente, “os Estados Unidos compreenderão que não devem alargar demasiado a sua área de responsabilidade nos assuntos internacionais e viverão de forma bastante harmoniosa como um dos Estados líderes, mas já não como um hegemon.” [6]

A multipolaridade está a ganhar impulso e, em vez de se oporem a ela, os EUA poderão, num futuro previsível, tornar-se um centro de poder responsável, juntamente com a Rússia, a China e outros Estados do Sul, do Leste, do Norte e do Oeste globais. De momento, parece que a nova administração dos EUA vai lançar ataques de cowboys para testar os limites e a durabilidade do actual sistema centrado na ONU face aos interesses americanos. Mas tenho a certeza de que também esta administração compreenderá em breve que a realidade internacional é muito mais complexa do que as caricaturas que tem a liberdade de apresentar ao público interno americano ou a obedientes aliados geopolíticos.

Enquanto esperamos que os americanos fiquem sóbrios e se apercebam disso, continuaremos a trabalhar conscienciosamente com os nossos parceiros que partilham a mesma opinião para adaptar os mecanismos das relações inter-estatais à multipolaridade e ao consenso jurídico internacional de Ialta-Potsdam, que está consagrado na Carta das Nações Unidas. Vale a pena referir a Declaração de Kazan dos BRICS, de 23 de Outubro de 2024, que reafirma claramente o “compromisso unido da Maioria Mundial com o multilateralismo e a defesa do direito internacional, incluindo os Objectivos e Princípios consagrados na Carta das Nações Unidas como a sua pedra angular indispensável e o papel central da ONU no sistema internacional.” [7] Esta abordagem foi formulada por Estados líderes que moldam o mundo moderno e representam a maioria da sua população. Sim, os nossos parceiros do Sul e do Leste têm desejos muito legítimos no que diz respeito à sua participação na governação mundial. Ao contrário do Ocidente, eles, e nós, estamos prontos para discussões honestas e abertas sobre todas as questões.

A nossa posição sobre a reforma do Conselho de Segurança da ONU é bem conhecida. A Rússia procura tornar este órgão mais democrático, alargando a representação da Maioria Mundial: Ásia, África e América Latina. Apoiamos as candidaturas do Brasil e da Índia a lugares permanentes no Conselho de Segurança, ao mesmo tempo que trabalhamos para corrigir - por meios acordados pelos próprios africanos - a injustiça histórica para com o continente africano. A atribuição de lugares adicionais a países do Ocidente colectivo, já sobre-representados no Conselho de Segurança, é contraproducente. A Alemanha e o Japão, tendo delegado grande parte da sua soberania ao seu patrono ultramarino e tendo começado a reavivar os fantasmas do nazismo e do militarismo no seu país, não podem trazer nada de novo ao trabalho do Conselho de Segurança.

Estamos fortemente empenhados na inviolabilidade das prerrogativas dos membros permanentes do CSNU. Dada a política imprevisível da minoria ocidental, só o poder de veto pode garantir que as decisões do Conselho tenham em conta os interesses de todas as partes.

A política de pessoal do Secretariado da ONU continua a ser um insulto à Maioria Mundial, uma vez que os ocidentais continuam a predominar em todas as posições-chave. O alinhamento da burocracia das Nações Unidas com o mapa geopolítico mundial não pode ser adiado, tal como afirmado de forma inequívoca na Declaração de Kazan dos BRICS acima referida. Veremos até que ponto a administração da ONU, habituada a servir os interesses de um grupo restrito de países ocidentais, será receptiva a este apelo.

Quanto ao quadro normativo da Carta das Nações Unidas, estou convencido de que responde de forma óptima às necessidades da era multipolar, uma era em que todos devem observar - não apenas em palavras, mas em actos - os princípios da igualdade soberana dos Estados, da não interferência nos seus assuntos internos e outros princípios fundamentais. Entre estes princípios, conta-se o direito dos povos à autodeterminação, cuja interpretação consensual está consagrada na Declaração das Nações Unidas sobre os Princípios do Direito Internacional de 1970: a integridade territorial de um Estado deve ser respeitada se o seu governo representar a totalidade da sua população. Escusado será dizer que, desde o golpe de Estado de Fevereiro de 2014, o regime de Kiev não representa os povos da Crimeia, do Donbass ou da Novorossiya, tal como as potências ocidentais não representavam os povos dos territórios coloniais que exploravam.

As tentativas descaradas de reordenar o mundo no seu próprio interesse, violando os princípios da ONU, podem gerar instabilidade, confrontos e até catástrofes. Dado o actual nível de conflitos internacionais, a rejeição imprudente do sistema de Ialta-Potsdam, com a ONU e a Carta das Nações Unidas no seu centro, conduzirá inevitavelmente ao caos.

É frequente ouvir-se dizer que é prematuro falar da ordem mundial desejada numa altura em que ainda estamos a lutar para suprimir as forças do regime racista em Kiev apoiadas pelo Ocidente. Esta é, a nosso ver, uma abordagem perversa. Os contornos da ordem mundial do pós-guerra e os pontos-chave da Carta das Nações Unidas foram discutidos pelos Aliados no auge da Segunda Guerra Mundial, incluindo a Conferência de Moscovo dos Ministros dos Negócios Estrangeiros e a Conferência de Teerão dos Chefes de Estado e de Governo, em 1943, e durante outros contactos entre as futuras potências vitoriosas, até às Conferências de Ialta e Potsdam, em 1945. Embora os nossos aliados já tivessem uma agenda secreta, isso não diminuiu a importância duradoura dos princípios supremos da igualdade, da não ingerência nos assuntos internos, da resolução pacífica de litígios e do “respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais para todos, sem distinção de raça, sexo, língua ou religião”.

É evidente que o Ocidente subscreveu estes princípios com segundas intenções e depois violou-os grosseiramente na Jugoslávia, no Iraque, na Líbia e na Ucrânia, mas isso não significa que devamos isentar os Estados Unidos e os seus satélites de responsabilidade moral e legal, ou que devamos abandonar o legado único dos fundadores da ONU, tal como está consagrado na Carta das Nações Unidas. Se, Deus nos livre, alguém tentar reescrevê-la (sob o pretexto de se livrar do sistema “ultrapassado” de Ialta-Potsdam), o mundo deixará de ter valores orientadores comuns.

A iniciativa do Presidente Vladimir Putin de 2020 para uma reunião dos líderes dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, que têm “uma responsabilidade especial pela preservação da civilização”, [8] procurava um diálogo equitativo sobre todas estas questões. Por razões bem conhecidas e fora do controlo da Rússia, esta iniciativa não foi avante. Mas mantemos as nossas esperanças, embora os participantes e o formato dessas reuniões possam agora ser diferentes. O mais importante, segundo Putin, é “recuperar a compreensão daquilo para que as Nações Unidas foram criadas e seguir os princípios estabelecidos nos seus documentos fundadores.” [9] Esta deve ser a principal directriz para regular as relações internacionais na era multipolar que já despontou.

Referências

[1] RGP, 2020. Бордачёв Т.В. ООН не привела нас к раю, но спасла от ада // Можно ли представить мир без ООН? [Bordatchov T.V., Podemos imaginar um mundo sem a ONU?]. Debate em mesa redonda do CFDP e da Fundação Gorchakov Rossiya v globalnoi politike, 26 de Novembro. Disponível em: https://globalaffairs.ru/articles/mozhno-li-predstavit-mir-bez-oon// [Acedido em 31 de Janeiro de 2025].

[2] Ibid.

[3] Bush, George H.W., 1990. Address Before a Joint Session of the Congress on the Persian Gulf Crisis and the Federal Budget Deficit [Discurso perante uma sessão conjunta do Congresso sobre a crise do Golfo Pérsico e o défice orçamental federal]. The American Presidency Project. Disponível em: https://www.state.gov/opening-remarks-by-secretary-of-state-designate-marco-rubio-before-the-senate-foreign-relations-committee [Acedido em 31 de Janeiro de 2025].

[4] Rubio, M., 2025. Opening Remarks by Secretary of State-Designate Marco Rubio Before the Senate Foreign Relations Committee, 15 de Janeiro. Os sítios Web oficiais utilizam .gov. Disponível em: https://www.state.gov/opening-remarks-by-secretary-of-state-designate-marco-rubio-before-the-senate-foreign-relations-committee / [Acedido em 31 de Janeiro de 2025].

[5] Lukyanov, F.A., 2025. Downward. Russia in Global Affairs, 23(1). Disponível em: https://eng.globalaffairs.ru/articles/downward-lukyanov// [Acedido em 31 de Janeiro de 2025].

[6] Sushentsov, A.A., 2023. The Crumbling of the World Order and a Vision of Multipolarity: The Position of Russia and the West. Clube de Discussão Valdai, 20 de Novembro. Disponível em: https://valdaiclub.com/a/highlights/the-crumbling-of-the-world-order-and-a-vision/ [Acedido em 31 de janeiro de 2025].

[7] XVI Cimeira dos BRICS, 2024. Declaração de Kazan. Reforço do Multilateralismo para um Desenvolvimento e Segurança Globais Justos. Kazan, Federação Russa, 23 de Outubro. Disponível em: https://cdn.bricsrussia2024.ru/upload/docs/Kazan_Declaration_FINAL.pdf?1729693488349783 [Acedido em 31 de Janeiro de 2025].

[8] Putin, V., 2020. Recordar o Holocausto: Fórum sobre a luta contra o antissemitismo. 23 de Janeiro. Presidente da Rússia. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/news/62646 [Acedido em 31 de janeiro de 2025].

[9] Putin, V., 2025. Conferência de imprensa após as conversações russo-iranianas. 17 de Janeiro. Presidente da Rússia. Disponível em: http://en.kremlin.ru/events/president/transcripts/76126 [Acedido em 31 de Janeiro de 2025].

 https://www.odiario.info/a-onu-deve-de-novo-tornar/

sábado, 11 de maio de 2024

António Guerreiro - O jornalismo em extinção


Protesto de jornalistas do grupo português Global Media NUNO FERREIRA SANTOS

Crónica Acção Paralela 


“Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.


* António Guerreiro

10 de Maio de 2024
 

A palavra “extinção” começa a aparecer com alguma frequência em artigos sobre a crise – em boa verdade, uma devastação – que atinge actualmente os jornais e o jornalismo.

Encontrámo-la recentemente nos títulos de dois diagnósticos desta situação nos Estados Unidos: um, publicado no final de Janeiro na revista Atlantic, assinado por Paul Farhi, que foi um importante repórter do Washington Post; outro, no mês seguinte, da autoria de Clare Malone, na The New Yorker.

Usando um acento catastrófico que uma prudente interrogação não consegue relativizar, ambos evocam a extinção como um horizonte plausível. O primeiro pergunta: “Is American Journalism Headed Toward an ‘Extinction-Level Event?’”; a segunda insiste quase com os mesmos termos: “Is the Media
 Prepared for an Extinction-Level Event?”. Não é ainda um requiem, mas está próximo.

O que se passa nos Estados Unidos, neste domínio, não é certamente muito diferente do que se passa na Europa, só que talvez num grau mais elevado e com algum avanço no tempo. O horizonte é o mesmo.

O que ficamos então a saber acerca do estado de coisas nos Estados Unidos, informados por estes e outros artigos sobre o mesmo assunto? Ficamos a saber que a hemorragia mais forte é a da imprensa regional: em média, todas as semanas morrem duas publicações e meia (jornais diários, semanários, mensais).

Num país tão extenso como os Estados Unidos, os jornais regionais tiveram sempre um papel importantíssimo e foram um factor fundamental dos equilíbrios democráticos e da vida cultural e comunitária. Quando esse espaço é ocupado pelas redes sociais, ficam à solta as teorias do complot, as fake news, os conteúdos gerados pela inteligência artificial que multiplicam a desinformação, o caos, o convite à passagem aos actos de violência. O ambiente de radicalização e pré-guerra civil que se vive nos Estados Unidos faz parte deste panorama que promove e alimenta a divisão e os extremismos.

Há uma pergunta que começa a ser posta e que leva a pensar os caminhos que estão a tomar as tradicionais democracias liberais: “Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.

Alguns números fornecidos nos artigos citados: em 2023 foram eliminados nos Estados Unidos 21.400 postos de trabalho nos media tradicionais. Grandes jornais como o Los Angeles Times (que despediu mais de 20% da sua redacção) e o Washington Post não foram poupados. Este último teve no ano passado um défice de cem milhões de dólares. No entanto, tinha sido um dos que mais prosperou durante a presidência de Donald Trump. Como é sabido, o “espectáculo” Trump proporcionou aos jornais um festim permanente que lhes valeu um grande aumento de leitores.

O declínio dos meios de comunicação tradicionais já suscita esta pergunta formulada pela autora do artigo da New Yorker: “Estamos a assistir ao fim da era dos meios de comunicação de massa?”. Este declínio já começou há décadas, mas foi acelerado pela Internet, pela digitalização generalizada, pelas plataformas. As receitas publicitárias que garantiam o negócio dos jornais passaram a fluir na direcção de colossos como a Google. Quando deixa de ser possível sustentar o jornalismo como um negócio, muitas publicações usam um pseudojornalismo como operação de fachada para outros negócios e entram numa zona obscura.

De todas as “grandes regressões” que se deram desde o início deste século, esta é uma das mais velozes e contundentes. O seu efeito político é bem visível, no avanço de factores que levam à degradação do espaço público, ao enorme teor de conflito social e político, ao empobrecimento cultural. As noções de pós-verdade e pós-democracia assentam nestes terrenos onde vacila tudo o que dantes parecia seguro.

E assim estão criadas as condições para promover um mundo em que já nem serve a distinção entre o verdadeiro e o falso, nem faz apelo a uma ideologia dotada de uma coerência sistemática, como acontecia nos regimes totalitários do século XX. A mentira ideológica e a propaganda eram ainda uma peça da engrenagem da política moderna. Aquilo a que hoje se chama pós-verdade tem que ver com a hegemonia das novas fontes de informação e dos meios de produção e circulação de notícias, dados e visões do mundo que apelam à divisão e à violência, subtraindo-se a qualquer controlo editorial.

Perante isto, o jornalismo está a revelar-se tanto mais impotente quanto está obrigado a investir a sua energia na luta pela própria sobrevivência.

Livros de recitações


“Sempre achei que pedir desculpa é uma solução fácil”
Marcelo Rebelo de Sousa, referindo-se a um dos gestos de “reparação”

Da saúde mental do Presidente ou, pelo menos, da sua “irresponsabilidade”, a merecer que seja colocado sob condição de tutela, já muito se falou na última semana. E foram sobretudo os que faziam parte das suas hostes que lançaram as repreensões mais fortes. Mas, ao manifestar a sua reserva em relação ao “pedido de desculpa”, Marcelo bem intuiu que se trata de um gesto problemático. O pedido de desculpa parte de um pressuposto que, se não se cumprir, implica uma declaração de guerra: um país soberano que pede desculpa a outro coloca-o sob chantagem. Se este não aceita, se responde com o argumento do “imprescritível”, tal pedido desencadeia uma situação de hostilidade, também ela irreparável. E, no entanto, nenhum verdadeiro pedido de desculpa pode ter um carácter impositivo e não admitir resposta negativa, sob pena de acrescentar um outro dano àqueles que pretende reparar.


https://www.publico.pt/2024/05/10/culturaipsilon/cronica/jornalismo-extincao-2089557 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Rui Mingas (1939 / 2024)




Ruy Mingas (1939-2024), músico lutador pela liberdade, cantor feito homem político

Nome maior da música angolana, co-autor de Meninos do Huambo, Ruy Mingas foi antes atleta recordista, foi depois ministro e embaixador da Angola independente. Tinha 84 anos.


4 de Janeiro de 2024, 19:03




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Ruy Mingas foi nos anos 1980 e 1990 ministro da Educação Física e Desportos e embaixador de Angola em Portugal DR

O seu percurso de vida está intimamente ligado ao de Angola independente. Foi, afinal, co-autor do hino de Angola com o escritor e dramaturgo Manuel Rui e foi também ministro da Educação Física e Desportos angolano entre 1979 e 1989 e, entre 1990 e 1995, embaixador da nação africana em Portugal. Homem de talentos multifacetados, Ruy Mingas, falecido esta quinta-feira em Lisboa, aos 84 anos, foi também recordista português do salto em altura. Mas foi, acima de tudo, poeta, cantor e compositor, um nome maior da música angolana e co-autor, por exemplo, da Meninos do Huambo popularizada em 1985 por Paulo de Carvalho.

Nascido em Luanda a 12 de Maio de 1939, Ruy Mingas destacou-se primeiro no desporto. Atleta do Benfica nas categorias de 110 metros barreiras e salto em altura, bateria o recorde nacional da segunda em 1960. Porém, tal como outro angolano seu contemporâneo em Lisboa, Barceló de Carvalho, que conhecemos hoje como Bonga, mas que foi também campeão de atletismo, pelo mesmo clube, na década de 1960, Ruy Mingas seguiria outra musa. No seu caso, podemos mesmo afirmar que houve uma certa inevitabilidade na sua dedicação à música e ao seu envolvimento empenhado na luta independentista e anticolonialista angolana.

Ruy Mingas era, afinal, sobrinho de Liceu Vieira Dias, figura fundamental da música popular angolana, co-fundador dos míticos N’Gola Ritmos no final dos anos 1940, um lutador contra a opressão colonial portuguesa que o Estado Novo encarcerou durante vários anos no Tarrafal, o temido campo de concentração para presos políticos em Cabo Verde.

Desse exemplo familiar bebeu abundantemente Ruy Mingas, como o comprovam uma canção como Monangambé (1974), sob poema de António Jacinto ("Naquela roça grande tem café maduro/ e aquele vermelho-cereja/ são gotas do meu sangue feitas seiva"), ou álbuns como Angola (1970) e Temas Angolanos (1974). Neles, como escrevia Kalaf Epalanga em 2020, numa crónica para a revista brasileira Quatro Cinco Um, ouvíamos “o homem que deu voz às aspirações do povo angolano e cantou como poucos nossa dor e ânsia por liberdade”.

O grande público contactou pela primeira vez com Ruy Mingas em Portugal quando actuou em 1969 no Zip Zip, o histórico programa da RTP apresentado por Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz – a acompanhá-lo nas percussões estava Bonga. No ano seguinte, editou o seu primeiro álbum, Angola, que viria a ser lançado, além de Portugal, em Itália, Espanha ou França – o seu prestígio neste país levou mesmo à sua distinção, em 2010, com o Prémio de Arte, Cultura e Letras da Academia Francesa de Educação.

Sem que o público português o soubesse, porém, Ruy Mingas já interviera de forma marcante na música portuguesa, ainda que por interposta pessoa: foi ele a apresentar aos Sheiks de Carlos Mendes e Paulo de Carvalho o clássico Summertime, de George Gershwin, que a grande banda do yé yé português gravou em 1965 como o seu primeiro single. Nesse período, movendo-se no seio dos estudantes africanos em Portugal, desenvolveu a sua consciência e actividade política e integrou os Ngola Kizomba, banda emanada da Casa dos Estudantes do Império na Capital Portuguesa.

Através das suas composições, musicando poetas da luta independentista angolana como Viriato Cruz, o supracitado António Jacinto ou o futuro Presidente da República Agostinho Neto, ou colaborando com Manuel Rui (além do hino de Angola, compuseram em conjunto, em 1976, Meninos do Huambo, entre outras), Ruy Mingas legou à música angolana, na sua voz cheia, expressiva e ponderada, temas como Birin birin, Ixi ami, Poema da farra, Adeus à hora da largada ou a já referida Monangambé.

Após o 25 de Abril e a independência de Angola, vestiu a farda de político e tornou-se ministro, primeiro, e depois embaixador. Em 1995, foi agraciado por Portugal com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. No início deste século, defensor da educação como alavanca decisiva para a prosperidade do seu povo, impulsionou a fundação da Universidade Lusíada em Angola, a primeira instituição de ensino superior privada no país, com pólos em Luanda, Cabinda e Benguela. A música, porém, continuava presente.

Em 2011, o pai da cantora Katila Mingas e da modelo Nayma, editou Memória, álbum em que compilou originais e novas versões das suas canções, qual testemunho artístico feito ponte entre o passado e o presente.


terça-feira, 2 de janeiro de 2024

Artur Queiroz - Quando For Grande Quero Ser Historiador

segunda-feira, 1 de janeiro de 2024

* Artur Queiroz


Se eu tivesse formação em História fazia tudo para que o Presidente João Lourenço compreendesse a diferença entre a notícia e narrativa histórica. A mensagem informativa só existe se tiver actualidade. O tempo é a sua marca distintiva. Os fragmentos de informação, devidamente recortados, são a matéria-prima. Os jornalistas sabem fazer isso. Os repórteres vão mais longe contando como aconteceu e porque aconteceu. Os jornalistas trabalham o acontecimento. 

Os historiadores consultam pacientemente as fontes. Mergulham no passado longínquo, usando ferramentas que permitam estudar o Homem e as suas actividades no tempo e no espaço. Analisam cientificamente processos ocorridos no passado. A História não é o tempo real dos meios audiovisuais. Não é o dia dos jornais diários. Não é a semana dos semanários. Não é o directo da Rádio e da Televisão. 

Se já soubesse estas coisinhas, o Presidente João Lourenço nunca teria dito que a guerra na Ucrânia começou no dia 24 de Fevereiro de 2022. Isso dizia eu, que sou repórter e mesmo a cair da tripeça ainda vivo em cima do acontecimento, sempre pronto para a notícia e a reportagem. Mesmo nessa pele velha e endurecida, se produzisse uma mensagem informativa sobre o acontecimento, sempre referia como lastro e “enquadramento” os movimentos “Euromaidan” em Kiev, iniciados no ano de 2014 e orquestrados pela CIA. O golpe de estado que depôs o presidente eleito, Viktor Yanukovych.

Eu, repórter, ao noticiar os acontecimentos ocorridos no dia 24 de Fevereiro na Ucrânia, dedicava pelo menos um parágrafo ao massacre da Casa dos Sindicatos em Odessa, executado pelos grupos de extrema-direita, assumidamente nazis. Referia a guerra no Donbass contra as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e de Luhansk. Fazia uma referência ao relatório da Agência da ONU para os Direitos Humanos que denunciou uma limpeza étnica de hordas nazis no Leste da Ucrânia. Em Kiev mandam os nazis do Sector Direita, Bandera e Batalhão Azov. Referia os Acordos de Minsk e como eles foram rasgados.

Um repórter decente não produzia uma mensagem informativa sobre a “guerra na Ucrânia” sem referir o avanço das bases da OTAN (ou NATO) rumo às fronteiras da Federação Russa. Apesar da guerra, já chegaram à fronteira com a Finlândia e brevemente com a Suécia, tornando o Mar Báltico um espaço exclusivo do bloco militar ao serviço dos EUA. Um historiador medíocre, com o diploma comprado no Mercado dos Congoleses, ao pronunciar-se sobre a “operação militar especial” iniciada em 24 de Fevereiro de 2022 pelas tropas russas, só escrevia sobre o assunto, indo às origens do conflito.

Um político decente só abre a boca sobre a guerra na Ucrânia depois de cruzar as fontes, consultar documentos e recolher testemunhos. Só assim pode falar dessa carnificina com propriedade e devidamente informado. A não ser que seja boca de aluguer do estado terrorista mais perigoso do mundo, da União Europeia, da OTAN (ou NATO) e do Reino Unido, a coligação que assumidamente quer infringir à Federação Russa “uma derrota estratégica”. Fica mal a qualquer Chefe de Estado desempenhar esse papel. E particularmente ao Presidente da República de Angola. Quanto mais não seja, por uma questão de respeito pelos 48 anos de Independência Nacional e os 13 anos de Luta Armada de Libertação. 
O Presidente João Lourenço desejou paz na República Democrática do Congo, no Sudão, na Ucrânia, na Palestina e em Israel. A Federação Russa foi excluída. Se eu fosse seu assessor ou consultor explicava-lhe que essa exclusão é ofensiva e inamistosa para o Povo Russo, que tanto deu ao Povo Angolano durante a primeira e a segunda Luta Armada de Libertação Nacional e na Guerra pela Soberania e Integridade Territorial.

Os russos são vítimas de uma guerra imposta pelo “ocidente alargado” por procuração passada à Ucrânia. Atenção! Os mentores dessa agressão anunciaram que o objectivo é infringir ao país amigo do Povo Angolano uma “derrota estratégica”. Qualquer político medíocre, mesmo o Adalberto da Costa Júnior e todos os outros sicários da UNITA, sabe o que isso significa: Pôr fim à existência da Federação Russa. João Lourenço está do lado errado da História. Colocou Angola e o Povo Angolano contra os amigos de sempre e ao lado dos inimigos que hoje fingem ser “parceiros estratégicos”.

João Lourenço desejou paz na Palestina e em Israel. Esta parte é inexplicável. Incompreensível. Mas fazendo um esforço chego a esta conclusão: O Presidente da República persiste no erro de olhar para a História como se tratasse do ontem. No dia 7 de Outubro, combatentes palestinos atacaram unidades militares e estruturas militarizadas (Kibutz) em Israel e já está! Começou uma guerra entre Israel e a Palestina. 

Marcelo Rebelo de Sousa disse ao embaixador da Palestina em Lisboa: “Foram vocês que começaram a guerra no dia 7 de Outubro”. Quando ele era menino os fascistas, em casa, na rua, na escola, na sacristia, fizeram-lhe a cabeça, é natural que pense assim. Mas João Lourenço é uma vítima do colonialismo e do imperialismo. Ouvi dizer que tem uma licenciatura em História. Por essas e por outras devia saber que a guerra entre Israel e a Palestina começou há mais de 70 anos. Israel ocupa a Palestina há quase 60 anos! 

Os nazis de Telavive fizeram da Faixa de Gaza uma imensa prisão a céu aberto. Instalam “colonatos” na Cisjordânia. Rasgaram o Acordo de Oslo. Com a tomada de posse do actual governo, dominado por sionistas nazis, foi posta em marcha uma operação para expulsar os palestinos de Gaza e da Cisjordânia. A resistência era inevitável. 

Depois do dia 7 de Outubro, os nazis de Telavive cortaram a água, energia, medicamentos, energia e alimentação à Faixa de Gaza. Estão a matar milhões de palestinos à fome, à sede, com doenças. Bombardeiam diariamente o território sabendo que uma bomba que cai na região mata seguramente civis indefesos. Fazem incursões nos campos de refugiados, matando mulheres e crianças. Matam jornalistas para não existirem testemunhas. Matam funcionários da ONU deliberadamente porque o secretário-geral não se calou ante o genocídio em curso. Matam médicos e outro pessoal da Saúde. 

Israel ocupa a Palestina. Israel extermina os palestinos. Israel tem legislação que oficializa um regime de apartheid. Só por sabujice alguém deseja paz aos genocidas e às suas vítimas. Só obedecendo cegamente aos amos de Washington um político ofende tão cruelmente um povo vítima da ocupação estrangeira. Os ocupantes em menos de três meses já mataram 21 mil civis indefesos, mais de 70 por cento crianças e Mamãs.

O Governo da África do Sul, em sentido contrário, apresentou uma queixa contra Israel no Tribunal Internacional de Justiça das Nações Unidas por violação das obrigações que constam na Convenção sobre a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio. As voltas que o mundo dá! Os angolanos em armas ajudaram Namíbia, Zimbabwe e África do Sul a libertarem-se do criminoso regime de apartheid. Hoje os sul-africanos libertados dão-nos lições de dignidade e de como respeitar a Liberdade e os Direitos Humanos.

Com a conivência dos poderes públicos, o embaixador de Israel em Angola, Shimon Solomon, faz propaganda do regime nazi e apartheid de Telavive. Qual não foi o meu espanto quando vi na manchete do Jornal de Angola “online” esta notícia: “Embaixada de Israel em Angola e IESA Preparam Acordo de Cooperação”. 

A Igreja Evangélica Sinodal de Angola (IESA) e os nazis de Telavive, segundo o Jornal de Angola, “vão dinamizar projectos sociais nas comunidades”. E transportar para Angola as experiências dos genocidas. Esta é a resposta à recente declaração da direcção do MPLA na qual se solidariza com a Palestina. Não é melhor explicar ao Presidente Lourenço que Angola é um país independente há 48 anos? Nem o sobado do Dambi alinha em tão graves irresponsabilidades.

Feliz Ano Novo. Estou em festa, Mais um dia de vida!

* Jornalista

at janeiro 01, 2024 

segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

António Rodrigues ENTREVISTA SALIKOKO MUFWENE

 


A língua de Darwin ou a linguagem em estado de permanente evolução

Por entre palavras mortas, germinam viçosas novas espécies. O linguista Salikoko Mufwene diz que “falar da evolução da linguagem não é metáfora”. Uma teoria geral das espécies aplicada à comunicação.

António Rodrigues (texto) e

Matilde Fieschi (fotografia)

24 de Dezembro de 2023, 8:02

  

Todos os dias morrem palavras, todos os dias nascem palavras. A forma como falávamos ontem não é a forma como falamos hoje e não será igual à maneira de falar de amanhã. “Há palavras comuns hoje que vão estar extintas no futuro.” Nesta constante evolução das espécies aplicada à linguagem, uma pessoa de 60 anos já não fala como uma de 40 e muito menos como uma de 20. “Somos parte de gerações diferentes, as nossas experiências não são idênticas e a perda de identidade vem com a perda de algumas palavras.”

Salikoko Mufwene, professor de Linguística da Universidade de Chicago, uma das grandes referências mundiais na área, escreveu em 2001 um livro fundamental para compreender a evolução natural da língua, The Ecology of Language Evolution – uma teoria geral da evolução das espécies aplicada à linguagem.


Ecology Of Language Evolution

Autoria: Salikoko S. Mufwene

Editora: Cambridge University Press

274 págs., 46,34€

Já nas livrarias


“A linguagem que usamos evolui porque nos adaptamos uns aos outros, ao mesmo tempo que nós próprios evoluímos”, explica Mufwene, que em 1979 se doutorou na Universidade de Chicago, onde ensina desde 1991. “As linguagens reflectem as formas como evoluímos socialmente. Não é evidente que as pessoas se apercebam da nossa evolução biológica, mas, de uma forma geral, com as práticas sociais, estão sempre a evoluir.”

É como se em todos os momentos tivéssemos a teoria de Darwin na ponta da língua, salvo seja.

“Falar da evolução da linguagem não é uma metáfora, porque a evolução tem lugar em qualquer espécie, em qualquer comunidade”, sublinha o professor, nascido na República Democrática do Congo há 76 anos, mas a viver nos Estados Unidos desde os anos 1970 e com nacionalidade norte-americana desde 1996.

“A linguagem que usamos evolui porque nos adaptamos uns aos outros, ao mesmo tempo que nós próprios evoluímos”, explica Mufwene

“As linguagens evoluem de uma forma muito similar aos vírus, sabe? Por exemplo, o vírus da constipação. Eu tenho-o. Alguém pode ter sido contaminado por mim e apanhá-lo. Mas esse vírus adapta-se ao novo hospedeiro e pode ser transmitido a outra pessoa e volta a adaptar-se. Esse é um dos problemas para curar uma população de uma dita epidemia, porque o vírus passa por mutações e cada mutação é uma espécie de evolução.”

Com as palavras acontece o mesmo. Por mais que as academias queiram fixar a língua, esta passa o tempo a fintar pontos finais parágrafos de dicionários.

De uma forma muito simples, a linguagem serve para comunicar, logo, ela está sempre a adaptar-se para melhor transmitir aquilo que quer comunicar e para estabelecer uma “espécie de relação especial com o outro”. Cada vez que usamos uma linguagem em particular estamos “indirectamente a estabelecer um vínculo”, a nossa forma de falar também se pode adaptar, pois, a quem nos escuta.

“Vivemos em sociedades e é aqui que entra a dimensão social, porque as pessoas com quem interagimos, mais ou menos determinam a forma como iremos comunicar com elas e como moldamos as peculiaridades das nossas línguas”, explica. É assim ao longo do tempo, porque “somos uma população migrante”. Como estamos sempre a mudar, de um lugar para outro, de um bairro para outro, “continuamos a fazer ajustamentos às nossas línguas, particularmente cruciais a outro nível” – em vez da palavra que habitualmente usamos, vemo-nos obrigados a usar outra: “O ónus de aprendermos a palavra que eles usam recai sobre nós [, mas,] se são eles a migrar para a nossa comunidade, acontece o contrário.”

“As nossas línguas entram em contacto com as outras indirectamente, através das nossas interacções e vão sendo remodeladas e é isso que vemos na história da humanidade. Tomemos o português, por exemplo – foi levado para o Brasil, mas o português falado no Brasil já não é como o português falado em Portugal.”

Evolução não é uniforme

Fazemos a linguagem que falamos e “modificamo-la de acordo com as nossas necessidades e de acordo com as pressões dos diferentes lugares onde evoluímos”. Porque a evolução não pára na interacção, porque nós próprios evoluímos e a linguagem connosco.

E a evolução da linguagem é tudo menos um processo uniforme, muito menos quando se lida com uma população, afirma Salikoko Mufwene, numa conversa na Faculdade de Letras de Lisboa. Veja-se o que aconteceu com o português em Angola.

“Os portugueses colonizaram Angola, mas não falavam português com todas as pessoas. E como o número de administradores era bastante limitado por razões financeiras, era mais prático ter funcionários coloniais indígenas que ajudavam na administração da colónia e essas pessoas aprendiam português e tornavam-se o intermediário entre a população colonizadora e a população colonizada.”

A seguir, aos poucos, as pessoas começaram a ir à escola e, se passavam um certo nível, esperava-se que falassem português. “Mas nem todos temos a mesma atitude de aprendizagem, alguns têm mais aptidão para aprender outras línguas do que outros.” E, mesmo para quem tinha as mesmas aptidões, nem sempre tinham “as mesmas oportunidades para interagir com pessoas fluentes em português”.

“Falar da evolução da linguagem não é uma metáfora, porque a evolução tem lugar em qualquer espécie, em qualquer comunidade”

O que acontece, então, é um “fenómeno a que se chama ‘interferência’”, quando elementos da linguagem que a pessoa vinha usando se intrometem na nova linguagem. A forma como um angolano fala “é influenciada pelas práticas de comunicação, o que explica porque o português de Angola não é falado da mesma maneira que o português em Portugal, nem da mesma maneira que o português do Brasil”.

É uma questão de ecologias, explica Mufwene, mas também uma questão prática. “Quem são as pessoas que precisam do português para conseguir emprego? Qual a extensão da família que ainda vive no campo e não encontra qualquer uso para o português?” As elites podem decidir cortar com a família mais extensa por razões de estatuto e “educar os filhos em português para lhes dar uma vantagem competitiva”.

“Há outras partes em África onde não se falam línguas indígenas, sim”, como acontece em Luanda. “Há uma minoria que, no entanto, pode não saber falar a sua língua ancestral, mas compreende-a. E essa é a diferença entre competência activa e competência passiva.”

Todavia, como explica, podem ser fluentes em “outra linguagem indígena, como a linguagem da cultura popular, e podem ser fluentes nessa linguagem específica”. “Não sei muito sobre Angola nesse aspecto, mas no Congo, por exemplo, se vives em Kinshasa, não podes sentir-te realmente integrado, se não falares lingala.”

Em Luanda, usam uma linguagem urbana que assume o quimbundo, que o mistura com o português urbano, eivado de corruptelas e neologismos, como uma forma de identidade, uma identidade luandense, uma linguagem que não podia ser de outro lugar.

“Exactamente, é simbólico. Têm de mostrar que ainda há valor na cultura indígena.”

O que importa saber é que “a evolução de uma linguagem ou de uma cultura em particular não é uniforme, que uma linguagem varia de acordo com a geração, de acordo com o género, de acordo com a subcultura e de acordo com o tempo”.

O importante é que as línguas estão sempre a evoluir – por exemplo, as palavras que entram na forma de falar dos portugueses vindas directamente de Angola ou do Brasil, ou passadas de Angola para o Brasil e depois arribadas a Portugal pela aculturação das telenovelas. Haverá, no entanto, algum momento em que essa contínua introdução de termos de outras línguas deixa de ser bom. Pode uma língua morrer por invasão de estrangeirismos?

Invasão do inglês

“Não vejo que seja mau para uma linguagem, porque há termos que são mais bem expressados com palavras estrangeiras do que com as nossas próprias palavras. Os europeus colonizaram, mas também aprenderam uma série de coisas novas que não conheciam, familiarizaram-se com novos alimentos e a melhor forma de os nomear foi usar as palavras indígenas. Veja-se, por exemplo, a palavra ‘piripiri’.”

Mas hoje a forma como o inglês se tornou omnipresente na linguagem urbana de muitas cidades do mundo não é por si ameaça?

Mufwene escreveu um artigo sobre o assunto, intitulado English as a lingua franca: Myths and Facts (O inglês como língua franca: mitos e factos, em tradução livre) em que refere que “o inglês se espalhou pelo mundo à custa da sua indigenização nos novos contextos de actualização, à medida que se adapta às necessidades comunicativas e aos hábitos comunicativos anteriores dos seus novos falantes”.

“Há palavras inglesas noutras línguas, porque, provavelmente, é mais fácil transmitir o significado com as palavras inglesas do que com as palavras indígenas. Mas é também uma forma de mostrar que alguém está actualizado no conhecimento do mundo. No entanto, se olharmos para o inglês em si, muito do seu vocabulário vem de outras línguas. Tem, por exemplo, palavras do francês, sobretudo, mas também de línguas africanas: a palavra ‘banana’ de onde vem?”to com as outras indirectamente, através das nossas interacções e vão sendo remodeladas e é isso que vemos na história da humanidade

Aos que temem ver o mundo todo a falar inglês, Salikoko Mufwene responde: não vai ser assim. “Não penso que o inglês vá substituir outras línguas.” E lembra como no Brasil lutou para se fazer entender; como em Belo Horizonte comeu por acaso uma refeição que não sabia nomear, porque ninguém falava inglês e ele não falava português.

“Quando fui à China, reparei numa coisa muito interessante. Fui a um mercado de artesanato e, para minha surpresa, os vendedores eram bastante fluentes no inglês, ao contrário de alguns professores universitários que o não eram. “Quando precisamos da língua, fazemos um esforço para a aprender. No mercado, precisavam do inglês para vender as suas peças, enquanto para um professor que aprendeu em chinês e dá aulas em chinês, o inglês é secundário.”

Silogismo: se o inglês é útil para comunicar e as línguas são feitas para comunicar, logo o inglês será usado para comunicar. Mas um português não vai falar inglês com um português, nem um espanhol inglês com outro espanhol.

“É certo que se pode esperar encontrar alguém que fale um pouco de inglês, mesmo em alguns dos lugares mais remotos do mundo actual, em grande parte graças ao empenho dos sistemas educativos nacionais no mundo não anglófono em ensinar inglês como língua estrangeira.” Porém, “mesmo que o inglês se tenha tornado uma língua franca útil em todo o mundo, não podemos deixar-nos enganar e contar muito com isso”, porque o seu “valor de mercado varia consoante os indivíduos, nomeadamente do local onde se vive e do que se pretende ganhar com isso”.

É comércio e não invasão, soft power e não conquista. O inglês faz-se útil, quer-se útil.

O inglês não é um império, mesmo que a superpotência que mais contribui para o exportar tenha tiques imperialistas. Aliás, para o professor americano-congolês isso de a língua ser uma pátria, como Fernando Pessoa alegava em relação ao português, só serve para países onde a hegemonia interna deixou língua e território com a mesma fronteira, como Portugal.

Para Mufwene, nascido num país como a República Democrática do Congo, que tem uma língua oficial (francês), quatro línguas nacionais (kituba, lingala, suaíli e tshiluba) e 250 línguas étnicas, a afirmação pessoana não faz qualquer sentido.

“Para quem é de um país tão diverso linguisticamente como Angola ou o Congo, não podemos realmente pôr as coisas nesses termos ou acabaríamos com pequenas nações monolingues, como existiam antes da colonização”, explica. Os Estados que saíram das lutas de autodeterminação assumiram outros critérios para se definir. Em vez de tentarem reverter o colonialismo, assumiram as fronteiras fictícias da herança, com base nas quais construíram os seus Estados plurilinguísticos.

Mesmo os Estados Unidos não têm o inglês como língua oficial a nível federal (é-o em 32 estados), apesar de volta e meia a ala mais à direita levantar essa bandeira. O ex-Presidente Donald Trump falou muito disso durante a campanha eleitoral de 2016, mas acabou por não concretizar nada em relação ao assunto durante o seu tempo na Casa Branca.

A ideia de uma língua/uma nação, diz o linguista, é uma política introduzida no século XIX na Europa que “não funciona muito bem noutras partes do mundo”. Aliás, “mesmo aqui na Europa, estamos sempre a ser lembrados de que há pessoas que não se sentem confortáveis com isso”.

tp.ocilbup@seugirdor.oinotna

tp.ocilbup@oleber.edlitam

 https://www.publico.pt/2023/12/24/mundo/entrevista/lingua-darwin-linguagem-estado-permanente-evolucao-2073527