Birmingham, no estado americano do Alabama, era um lugar horrível para um negro viver. Tudo lá era segregado - negros não podiam nem sonhar em entrar nos parques, nas lojas, nos bares, nas escolas, nos hospitais e nas igrejas dos brancos. Os políticos bradavam frases racistas. Até o governador se enchia de orgulho para dizer: "Segregação já, segregação amanhã, segregação sempre!" Aí, em 1963, um pastor protestante chamado Martin Luther King Jr. chegou à cidade. Na época, ele já tinha alguma fama, graças a um boicote contra as empresas de ônibus que insistiam em tratar negros de modo diferente dos brancos. Mas ele nunca tinha enfrentado um inimigo tão violento, tão raivoso. King iniciou um boicote dos negros contra os comerciantes racistas e organizou protestos pacíficos nas ruas. Com base em uma lei absurda, botaram o cara na cadeia. Lá, dentro da cela, ele pegou um jornal para ler. E, no jornal, havia uma mensagem para ele. Oito clérigos do Alabama, todos brancos, criticavam as manifestações, chamavam King de extremista, anarquista, pediam respeito à lei. Em resposta aos clérigos, naquela cela escura, em confi namento solitário, King escreveu um dos textos mais poderosos da história, nas margens brancas do jornal, porque os carceireiros se negaram a lhe dar uma folha. Se você quer viver em paz com sua consciência, se quer ser um defensor da justiça, se quer fazer o bem e melhorar o mundo, leia a Carta da Prisão de Birmingham - a receita disso tudo está lá, expressa com clareza e sem margem para dúvidas. Veja só: "Há dois tipos de lei: as justas e as injustas", escreveu ele. "É nossa obrigação nãoapenas legal mas moral obedecer as leis justas. Por outro lado, temos a responsabilidade moral de desobedecer leis injustas." Mas ele não defende o mero desrespeito à lei, cometido de maneira envergonhada, por debaixo do pano. "Isso levaria à anarquia. Aquele que quebra a lei deve fazê-lo abertamente, amorosamente, e disposto a aceitar a pena." Ou seja, ele prega a desobediência civil, mas desde que se aceitem as conseqüências dos seus atos, como ele mesmo estava fazendo naquela cela escura e suja. E desde que seja sem violência, sem machucar ninguém, sem destruir nada - é assim que se estabelece a superioridade moral de quem está com a razão. King vai além. "Estou quase chegando à lamentável conclusão de que o maior obstáculo do negro no seu avanço em direção à liberdade não é a Ku Klux Klan, mas o branco moderado, que dá mais importância à ordem do que à justiça." Mais nociva que a minoria de homens maus que criam a injustiça é a maioria de homens "bons" que não fazem nada para denunciá-la. Mais perigoso que os policiais que torturam e matam, que os bandidos e os mentirosos psicopatas, os destruidores da natureza, os ladrões, os malandros, é o homem de bem que assiste a tudo isso adormecido e ri de quem tenta mudar alguma coisa. No dia 4 de abril de 1968, há 40 anos, uma bala de revólver acertou King na sacada de um hotel, atravessou sua bochecha e rompeu sua espinha antes de se alojar no seu ombro. King morreu aos 39 anos. Será que não aprendemos nada com ele?
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Denis Russo Burgierman é jornalista e acredita na força transformadora da não-violência.mundolivre@abril.com.br
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