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segunda-feira, 1 de março de 2021

Raquel Varela - Jornalismo e desinformação

PELOS CAMINHOS DE PORTUGAL
por Raquel Varela   23 JAN, 2021

Este foi o ano em que todos os líderes mundiais alertaram para o grave “problema da desinformação”. Supostamente a sua origem seriam as redes sociais, que divulgariam notícias “falsas”. Não restam dúvidas que hoje há uma enorme circulação de propaganda duvidosa e notícias falsas. Não creio, porém, que o seu problema esteja, principalmente, nas redes sociais. O jornalismo está ele próprio – e com a pandemia adensou-se esta questão – numa encruzilhada. Ou há uma rutura com as práticas atuais como a precariedade e a ausência de trabalho em redação ou o seu declínio é ineludível. Vive-se no jornalismo o que chama uma crise total: crise dos proprietários, crise dos meios, crise dos jornalistas, crise de formação. A demonização das redes sociais não resolverá o problema.
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Nas redes sociais não há tempo nem meios para se produzir pensamento e reflexão, mas são um excelente lugar de divulgação desse pensamento.
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Desde logo nas redes sociais há de tudo – banalidades, vida pessoal, mentiras; mas também divulgadores científicos notáveis, trabalhos seríssimos de académicos, intelectuais e artistas com obras maravilhosas. É uma questão de escala -, tudo é grande: o mau, mas também o bom. Se o que tem má qualidade aumentou, o mesmo acontece com o que tem boa qualidade. Sublinho – as redes sociais não produzem trabalho sério, nem podem fazer. Nas redes sociais não há tempo nem meios para se produzir pensamento e reflexão, mas são um excelente lugar de divulgação desse pensamento.
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O problema hoje não é tanto saber distinguir o certo do errado – esse é um problema geral de educação. O problema das redes é que elas são o inferno de excesso de informação – para se chegar a um belo artigo crítico sobre um determinado tema é preciso navegar, durante horas, por textos nem bons nem maus, selfies, memes, anúncios de férias e casas para alugar. Exige um tempo de que não dispomos.
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É aí que volta a entrar o lugar que o jornalismo pode ter. Os jornais diários passaram a substituir, com frequência, reportagens e jornalismo por opinião – casa vez mais superficial. Talvez a solução esteja num retorno ao início. Em vez de fact-check a posteriori precisamos de fact-check a montante, que não é senão outro nome para o Jornalismo. Esperamos do jornalismo artigos de 1 ou 2 páginas, que condensam um trabalho de 2 ou 4 semanas de um profissional, culto, com capacidade de reflexão intelectual, que pensa e investiga, e escreve – sem medo, em diálogo com as melhores práticas, com redações sólidas experientes, trabalho cooperativo, e, evidentemente, com boas condições de trabalho.
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https://regiaodecister.pt/opiniao/jornalismo-e-desinformacao

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Antero de Quental - Amor vivo


Antero de Quental....Fazia hoje 170 anos!!

Amor vivo

Amar! Mas dum amor que tenha vida...

Não sejam sempre tímidos harpejos,

não sejam só delírios e desejos

duma doida cabeça escandecida...




Amor que viva e brilhe! Luz fundida

Que penetre o meu ser - e não só de beijos

dados no ar - delírios e desejos -

mas amor... dos amores que têm vida...


Sim, vivo e quente! E já a luz do dia

não virá dissipá-lo nos meus braços

como névoa de vaga fantasia...


Nem murchará o sol

quinta-feira, 19 de abril de 2012

Maria Teresa Horta - Joelho

b

MARIA TERESA HORTA, in SÓ DE AMOR (Quetzal, 1999)

JOELHO

Ponho um beijo
demorado
no topo do teu joelho

Desço-te a perna
arrastando
a saliva pelo meio

Onde a língua
segue o trilho
até onde vai o beijo

Não há nada
que disfarce
de ti aquilo que vejo

Em torno um mar
tão revolto
no cume o cimo do tempo

E os lençóis desalinhados
como se fosse
de vento

Volto então ao teu
joelho
entreabrindo-te as pernas

Deixando a boca
faminta
seguir o desejo nelas

*

Óleo s/ tela: Lady on knees, por Smadar Katz

*

(LT)


foto de Quem lê Sophia de Mello Breyner Andresen.


Pablo Neruda - Tu és o resultado de ti mesmo


 foto de PABLO NERUDA POEMAS DA ALMA. 

Não culpes a nada, nunca te queixes de nada nem de ninguém, porque fundamentalmente tu tens feito tua vida.
Aceita a responsabilidade de edificar a ti mesmo e o valor de acusar-te no fracasso para voltar a começar;
corrigindo-te, o triunfo do verdadeiro homem emerge das cinzas do erro.
Nunca te queixes do meio ou dos que te rodeiam, há em teu meio, aqueles que souberam vencer, as circunstâncias
são boas ou más segundo a vontade ou fortaleza de teu coração.
Aprende a converter toda situação difícil em uma arma para brigar.
Não te queixes de tua pobreza, de tua solidão ou de tua sorte, enfrenta com valor e aceita que de um outra maneira,
tudo dependerá de ti; não te amargures com teu próprio fracasso, nem culpes a ninguém por isso, aceita agora ou seguirás
justificando-te como um menino, relembra que qualquer momento é bom para começar e que nenhum é tão terrível para claudicar.
Pare já de enganar-se, és a causa de ti mesmo, de tua necessidade, de tua dor, de teu fracasso.
Se, tu tens sido o ignorante, o irresponsável, tu, unicamente tu, ninguém pode haver feito por ti.
Não esqueças que a causa de teu presente é teu passado, como a causa de teu futuro é teu presente.
Aprende com os fortes, os audazes, imita aos enérgicos, aos vencedores, aos que não aceitam situações, aos que venceram apesar de tudo.
Pensa menos em teus problemas e mais em teu trabalho e teus problemas sem alimento morrerão.
Aprende a nascer desde a dor e a ser maior, que o maior dos obstáculos.
Veja-te no espelho de ti mesmo.
Começa a ser sincero contigo mesmo. Reconhecendo-te pelo teu valor, pela tua vontade e por tua fragilidade para justificar-te.
Recogió-te dentro de ti mesmo, mais livre e forte, deixarás de ser um boneco das circunstâncias, porque
teu mesmo és responsável cabelo teu destino
E nada pode substituir-te na construção de teu destino.
Levanta-te olha as manhãs e respira a luz do amanhecer.
Tua és parte dá força dá vida.
Agora desperta, caminha, luta.
Decide-te e triunfarás na vida
Nunca penses na sorte, porque a sorte é o pretexto dos fracassados.

PABLO NERUDA

José Saramago - Tão fundo o silêncio

Victor Nogueira partilhou a foto de Artes & Poesias


É tão fundo o silêncio entre as estrelas.
Nem o som da palavra se propaga,
nem o canto das aves milagrosas.
Mas, lá, entre as estrelas, onde somos
um astro recriado, é que se ouve
o íntimo rubor que abre as rosas.
*


Pessoas que gostam disto

*