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terça-feira, 26 de maio de 2026

Rui Zink - MANUAL DO BOM FASCISTA

 

» Rui Zink

O BOM FASCISTA NÃO GOSTA DE SER CHAMADO FASCISTA

Acha que o retrato não lhe faz justiça. E a justiça é muito importante para o bom fascista. Ele não suporta injustiças. E, afinal de contas, o que significa "ser fascista"? Nada. Salazar, por exemplo. Passam a vida a chamar-lhe fascista, mas «não era fascista» [sic — estas coisas não se inventam]. Já muitos e bons doutores explicaram que Salazar não era fascista. Fascistas eram Hitler e Mussolini. E Salazar era muito diferente de Hitler e de Mussolini. Para começar, Hitler falava alemão e Mussolini italiano. Ora, Salazar não falava nem alemão nem italiano, falava português. Para terminar, Mussolini era gordo e careca e Hitler tinha bigode a Charlot. Já Salazar, embora tivesse cabelo, não usava bigode. Só não vê quem não quer ver! Haverá provas mais científicas de que nunca houve ditadura em Portugal? Ora bem.

Depois, há todo um ror de infinitas e subtis (mas significativas) diferenças. Salazar nao comia tagliatelle nem sauerkraut, ele era patrioticamente mais aderente a dieta lusitana: bacalhau a Gomes de Sá, arroz de cabidela, iscas com elas, chocos sem tinta.

Pimba.

E há mais:

«(...) Enquanto Mussolini, Hitler ou Franco discursavam e apareciam em púbico em trajes militares, Salazar nunca o fez.»

Inteira razão, doutor Campos e Cunha, só não vê quem não quer ver. Salazar era apenas, admitamos (sendo contemporizadores após este momento de retórico triunfo), talvez "um bocadinho autoritário".

Mas isso era para o bem do país. E não enriqueceu. A prova é que não deixou nada aos filhos nem pôs a empresa em nome da mulher.

*

O BOM FASCISTA NÃO SE ARMA EM ESQUISITO

O bom fascista alimenta-se de mentiras e distorções, é essa a sua dieta favorita, mas, se não houver mais nada para comer, também não desdenha a um facto. O bom fascista gosta de tasquinhar, e até acha graça à ocasional verdade, desde que esses exóticos produtos chamados factos cumpram o requisito fundamental: confirmarem aquilo que pensa.

Quando vê o noticiário, um bom fascista não se deixa dispersar nem enganar: só escuta aquilo que já sabe. Um telejornal pode mostrar golfinhos no Tejo, um incêndio em Los Angeles, uma entrevista um ministro estrangeiro, greves em França, o julgamento dos separatistas em Espanha, uma declaração do Papa sobre recentes escândalos, uma cimeira entre a Ucrânia e a Rússia. Tudo isso o bom fascista vê com o ar adormecido de um velho crocodilo a jogar bingo. Só quando sai o número certo — digamos, “cigano/muçulmano atacou alguém" — é que o crocodilo lá abre um olho, subitamente alerta. E comenta, satisfeito com a sua visão periférica:

«Eu sabia. Esta gente...»

*

O BOM FASCISTA NÃO SE METE EM POLÍTICA

Até porque a sua política é o trabalho.

E muito gosta o bom fascista do trabalho. Ao contrário dos outros, que «não querem é trabalhar», o bom fascista quer trabalhar. E não tem medo do trabalho. A sério, não tem. Consegue aproximar-se do trabalho sem medo — desde que tenha um chicote, uma cadeira e, bem entendido, o trabalho esteja devidamente açaimado e/ou acorrentado à parede.

Se o bom fascista tem um chicote e uma cadeira, e o trabalho estiver devidamente açaimado, o trabalho que se cuide. Com ele não faz farinha.

Quando interrompe o trânsito e os carros de trás começam a buzinar, o bom fascista ruge:

«Estou a trabalhar!»

E quando não o deixam passar, aí é o bom fascista que carrega na buzina, e grita:

«Tira daí essa merda que tenho de ir trabalhar!»

Todavia, por vezes, o bom fascista também gosta de dizer, rindo com gosto, que «o trabalho é bom é para o preto». Isto é, aliás, por definição, o que faz rir o bom fascista: imaginar alguém a ser pisado, maltratado, espezinhado. E a levar porrada no lombo, se refilar, para aprender a da próxima vez ficar quietinho.

O bom fascista, quando ri, ri de cima para baixo.

O que nem sempre é fácil, convenhamos. Sobretudo quando estamos cheios de trabalho.

O bom fascista gosta tanto de trabalhar que, quando não está a trabalhar, finge que está a trabalhar.

*

O BOM FASCISTA TOLERA PRETOS, DESDE QUE SAIBAM O SEU LUGAR

Esta não é a terra deles, diz o mesmo bom fascista que antes achava que a terra deles era "nossa". Esta terra é a nossa terra e se não gostam voltem para a terra deles. Quem não está bem, muda-se. E calem-se. Parem com a chinfrineira sobre o "colonialismo" e o “tráfico de escravos”. Quem não está bem emudece.

Eles são eles e nós somos nós e assim é que é bonito. O bom fascista desconfia do até do turismo: pode ser imigração encapotada. E tecnicamente até é, só que  imigração por pouco tempo — tal como a imigração pode ser também vista como turismo prolongado.

De igual modo, aquilo a que chamam "tráfico de escravos" pode ter sido apenas a invenção, ainda titubeante, do turismo moderno. Afinal, quando levaram pretos de África para o Brasil, não estariam os nossos gloriosos antepassados apenas a criar a primeira Agência Abreu da História? Certo, as condições no porão talvez não fossem as melhores, mas os lugares na Ryanair e na EasyJet também são apertados. E desde quando quem viaja quase à borla (ou mesmo à borla, no caso dos escravos) tem direito a queixar-se?

O bom fascista nada tem contra os pretos, atenção, só acha é que não têm a nossa cultura, não partilham os nossos valores e está mal se vêm para cá surrupiar os nossos empregos e, com os seus mastodônticos marsápios, ficar com as nossas mulheres.

O BOM FASCISTA NÃO TEM SAUDADES DE SALAZAR

Nem precisa. Por que raio precisaria se Salazar continua vivo em nossos corações, fígados, bocas e mentes?

Factos são factos. Mesmo passado meio século, o bom homem continua a polonizar-nos o imaginário, qual abelhinha redentora.

Qual santa da ladeira, continua a escutar e a reciclar os nossos pecados.

Qual el-rei D. Sebastião em modo de rancho-melhorado, não precisa de voltar numa noite de nevoeiro — pois ele mesmo é nevoeiro.

O bom fascista sabe que Salazar «sempre quis o melhor para o país». E concede que (está bem, melga) aqui e ali terá sido um bocadinho autoritário e que a PIDE terá feito coisas, das quais ele até nem não sabia, porque não lhe diziam tudo. Agora fascista, Salazar? Isso não.

Foi o quê. então? Foi, digamos, um bocadinho autoritário.

A verdade é que, vendendo volfrâmio aos alemães e emprestando a base das Lajes aos americanos, «Salazar salvou-nos da guerra». E fê-lo com a mesma camponesa manha com que acomodava espiões aliados no Hotel Vitória (hoje, ó ironia, sede do PCP) e espiões nazis no Tivoli (hoje, oh ironia, ainda um belo hotel).

E Salazar foi sempre humilde e discreto. Certo, viveu quarenta anos num palácio — mas acaso era seu? Ah, bom. Tava a ver. E, modesto e humilde, nunca foi agarrado ao poder. O poder é que se lhe agarrou às mãos como um irritante adesivo se cola aos dedos. Acaso uma pessoa é culpada por um adesivo se lhe colar aos dedos?

Ná, o bom fascista não tem saudades de Salazar. Acha apenas que Portugal precisa de um outro Salazar. Alguém que pusesse isto no eixo.

(“Manual do Bom Fascista”, Rui Zink. Ideias de Ler, 2019)

Caricaturas de João Abel Manta (​1928-​2026, Lisboa)


Postado por O BÁRBARO às 14:50  segunda-feira, 25 de maio de 2026

https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2026/05/manual-de-bom-fascista.html

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Manuel Augusto Araújo - João Abel Manta, cronista de Abril


* Manuel Augusto Araújo

32 anos depois da Revolução de Abril, rever os «cartoons» de João Abel Manta, é reviver alguns dos momentos fortes que balizaram a história daquele tempo que se viveu em aceleração apaixonada, entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro.

Se naquela altura radiografavam à velocidade do pensamento o que estava a acontecer, hoje são parte imprescindível da história da Revolução. Não perderem a ironia, feroz e subtil, com que João Abel Manta dissecava os sucessos desses dias traçando um mapa que nos continua a orientar pelas estradas vertiginosas do que ficou conhecido por PREC.

Eram comentários urgentes e acutilantes, feitos em cima do acontecimento e o que era e continua a ser espantoso, é nunca perderem o norte e acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu.

Em João Abel Manta a inteligência cortante, ancorada numa vasta e sempre actualizada cultura, distingue os seus «cartoons» desde os primeiros publicados na revista de Arquitectura aos que se seguiram no Al­ma­naque ou no suplemento literário do Diário de Lisboa ou nas ilustrações do «Di­nos­sauro Ex­ce­len­tís­simo», personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires em que se retratava Salazar-o-Botas, parceria que continuou no «Burro em pé», uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa mas muito popular por essas paragens.

Arquitecto de profissão (um dos melhores conjuntos arquitectónicos de Lisboa, os blocos na avenida Infante Santo, são projecto que realizou com Alberto Pessoa e Hernani Gandra), pintor e desenhador por vocação, cartonista por gozo pessoal e para nosso gozo, o traço mesmo quando é grosso é de um rigor deslumbrante e filia João Abel Manta entre os Bordalos, os Steinbergs, os Daumier ou os François, colocando-o como um dos melhores cartonistas de todos os tempos

É evidente que não é indiferente ao risco dos «cartoons» o saber adquirido enquanto desenhador e pintor onde evidencia um saber, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

A história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas contradanças dos mar­ke­tings mais diversos, não tem dado a devida atenção a este artista que ocupa um lugar destacado na pintura, no desenho, na ilustração, no cartoon, nas maquetas de cenários, na tapeçaria e na arquitectura. Raramente alguém verteu o seu talento invulgar por tão diversas áreas, realizando obras como, por exemplo, os cenários para Shakespeare, a tapeçaria que foi premiada e figura no salão nobre da Gulbenkian, as ilustrações da «Arte de Furtar», o desenho distinguido na II Exposição Gulbenkian ou o já referido bloco de habitações na avenida Infante Santo.

Já é tempo de se realizar uma retrospectiva de toda a sua obra.

Em Abril há que lembrar que a história de Portugal entre Junho de 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os «cartoons» de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do país está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Olhar hoje para os «cartoons» de João Abel é reviver um tempo que alguns de nós vivemos exaltantemente, mas é igualmente descobrir como o seu fazedor coloca o cartonismo entre as artes maiores.

Avante nº 1602 - 2006 94 27

200https://www.avante.pt/pt/1691//13990

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O regresso dos cartoons de João Abel Manta

A Tinta da China re­e­dita, hoje, o livro com os «icó­nicos car­toons» (1969-1975) de João Abel Manta, um dos «me­lhores de­se­nha­dores e ilus­tra­dores por­tu­gueses» das úl­timas dé­cadas do sé­culo XX, que, desde cedo, re­velou a sua opo­sição à di­ta­dura fas­cista.

«Ao fim de 48 anos, esta é a pri­meira re­e­dição deste tí­tulo: levou, pois, quase tanto tempo a que estes de­se­nhos re­gres­sassem ao con­vívio dos lei­tores por­tu­gueses como o que durou o re­gime der­ru­bado pela Re­vo­lução de Abril de 1974. Fe­chados já os jor­nais para onde eles foram en­vi­ados, ama­re­le­cidos ou apo­dre­cidas as edi­ções onde foram im­pressos, es­que­cidos até al­guns dos mo­mentos ou per­so­na­gens neles re­pre­sen­tados, aqui os temos de novo, tão bri­lhantes e per­ti­nentes como quando saíram do es­ti­rador de João Abel Manta», des­creve a edi­tora, no texto de apre­sen­tação da obra.

Neste livro in­cluem-se car­toons an­te­ri­ores a 1975 que não cons­tavam da pri­meira edição e todos os pos­te­ri­ores a esse ano, com notas, da­tação ri­go­rosa, or­ga­ni­zação cro­no­ló­gica e uma in­tro­dução con­tex­tu­a­li­zada deste tra­balho.

Avante nº 2577 - 2023 04 20 

https://www.avante.pt/pt/2577//171296

domingo, 17 de maio de 2026

Frederico Duarte Carvalho - Abel Manta em três cartoons




` Frederico Duarte Carvalho 

17 de maio de 2026

ACTA DIURNA

O que está em causa?

Com a morte de João Abel Manta, figura do mundo artístico e homem livre, que se notabilizou na Imprensa pelos seus cartoons, resolvemos destacar três dos seus trabalhos mais icónicos. Assim, temos o caso da obra 'Muito Prazer em Conhecer Vocelências', seguido do igualmente conhecido 'Um Problema Difícil' e ainda o 'Metamorfose'. Havia muitos mais trabalhos e a vida de uma pessoa que faleceu com 98 anos não poderia ser resumida apenas com base nestas escolhas. No entanto, representam momentos que nos resume a todos. E esse era o génio do artista que agora nos deixa. O nosso Obrigado.
 

Viveu 98 anos, mas há muito que era eterno. João Abel Manta, que faleceu na sexta-feira, dia 15, nasceu em Lisboa, a 28 de Janeiro de 1928. Cresceu num ambiente intelectual e artístico ligado à oposição cultural ao Estado Novo, convivendo desde cedo com escritores, artistas e professores universitários.

Licenciou-se em Arquitetura em 1951, mas foi com o desenho, pintura, ilustração e cartoon que se tornou popular. E a sua ‘marca’ artística faz dele um artista maior. A partir do final da década de 1960 tornou-se uma presença regular na imprensa portuguesa, sobretudo no Diário de Lisboa, mas também no Diário de Notícias e mais tarde em O Jornal.



“Acima de tudo, foi um homem livre”.

Teve dissabores com a censura, como foi o caso, por exemplo, do cartoon Monumento Nacional, que fez para o Diário de Lisboa, em finais de 1969. A imagem de um enorme rebanho de carneiros em torno de uma televisão, em tamanho monumental, não agradou a um regime que usava aquele meio de comunicação de massas para ‘educar‘ todo um povo.

Em Novembro de 1972, com o poster Festival, dedicado ao festival da canção, onde a bandeira nacional se misturava com a figura de um cantor, Abel Manta foi processado por abuso da liberdade de Imprensa. Julgado por ofensa à bandeira nacional, foi absolvido, mas fez um interregno na carreira. Até que chegou Abril, em 1974.

A revolução será feita também com os cartoons de João Abel Manta. Ficará famoso aquele da campanha de dinamização cultural do Movimento das Forças Armadas (MFA), com o título Muito Prazer em Conhecer Vocelências. Vemos uma família nuclear portuguesa, com aspecto modesto, de pés descalços, a ser apresentada por um militar aos grande nomes das artes e da ciência. Reconhecemos, facilmente, entre outros, Einstein, Shakespeare, Picasso, Marx, Camões, Chaplin e Freud.



Muito Prazer em Conhecer Vocelências

A este cartoon, juntar-se-á ainda o não menos famoso Um Problema Difícil, onde um grupo de famosas personalidades internacionais da filosofia e política, estão sentados a olhar para um quadro perto onde está desenhado o mapa de Portugal.

Vemos na imagem, com o traço único do artista, figuras como Lenine, Marx, Fidel Castro, Che Guevara ou Sartre. Todos com um caderno e lápis na mão, disciplinados a olharem com atenção para Portugal após a revolução, como se estivessem numa escola, perante um “problema difícil” escrito no quadro.

Nesse cartoon, o detalhe de um Henry Kissinger, minúsculo, sentando no fim da fila, à direita, com orelhas de burro, é o toque de génio de Abel Manta.


Um Problema Difícil.

Outra imagem icónica – e havia tantas e tantas – será ainda a Metamorfose. São dois desenhos, lado a lado. No primeiro, há uma data a identificar o momento: 24 de Abril de 1974, o dia anterior à revolução. Nele, vemos uma funcionário sentado na sua secretária e, na parede, estão os quadros com as fotos do Presidente da República, Américo Thomaz, e do Presidente do Conselho, Marcello Caetano.

Em cima da mesa deste funcionário, de um lado, está uma estatueta de um padrão da época dos Descobrimentos, com a cruz da Ordem de Cristo e o brasão das quinas. Depois, do outro lado, estão os carimbos no devido suporte.

A imagem seguinte, é alusiva a quatro meses depois: 24 de Agosto de 1974, onde a pena, genial, de Abel Manta já registava toda a diferença radical nesse curto espaço de tempo: As fotos dos líderes deram lugar a um poster de Che Guevara. O funcionário, entretanto, deixou crescer o cabelo e bigode, trocou a gravata por um colar com o símbolo da Paz e a estatueta levou com uma imagem de uma guerrlheira em cima. Em vez de carimbos, há cravos.


Metamorfose.

Com estes três cartoons, podemos encontrar aqui o retrato daquilo que Abril nos deu. São obras maiores de um homem com muito talento. E explicam tanto sobre quem éramos, e o que ainda podemos ser.

A pena de João Abel Manta, sobretudo com a sua visão da época imediata do pós-25 de Abril, há muito que é património de um povo que quer aprender com o mundo, mas também é um problema difícil. E, no fundo, é um povo se adapta a tudo. Por isso, dizemos: Obrigado, João.


https://contraprova.pt/posts/abel-manta-em-tres-cartoons

quarta-feira, 25 de dezembro de 2024

Cartoons natalícios



Presentes de Natal


 Natal em Portugal (2024) - irmaolucia_works (Pedro Vieira), Baltazar e as percepções 

Natal na Palestina


Banksy - Natal na Palestina


Banksy - Natal na Palestina


Banksy - O muro da vergonha


Natal na Palestina


Natal na Palestina



Natal e consumismo


Natal e consumismo


Natal e consumismo


Natal e consumismo


Natal e consumismo

Natal e consumismo

VER

Festas felizes… da parte de Banksy

sábado, 18 de maio de 2024

Miguel Sousa Tavares - Quando os alarmes soam

 

* Miguel Sousa Tavares 

(EXPRESSO 2024 05 18)
2 - Em 24 de Fevereiro de 2022 a Rússia invadiu a Ucrânia naquilo a que Vladimir Putin chamou uma “operação militar espe­cial”. Para trás tinham ficado meses de infrutíferas negociações destinadas a evitar a guerra, envolvendo sobretudo a Alemanha e a França, enquanto Inglaterra se mantinha ao largo e a NATO e os Estados Unidos se limitavam a dizer que a invasão estava iminente e nada faziam para a evitar. Num muito mediatizado encontro com Putin no Kremlin, o Presidente francês, Emmanuel Macron, saiu dizendo que estabelecera com o Presidente russo as bases para um acordo, retomando os princípios do Acordo Minsk II. Interrogado sobre esta declaração, Putin disse, no dia seguinte, mais ou menos isto: “Sim, com ele estamos de acordo. O problema é que não é ele quem manda na NATO, mas sim os Estados Unidos.” Pouco depois da invasão, logo em 10 de Março, os ministros dos Negócios Estrangeiros da Rússia e da Ucrânia reuniram-se para conversações de paz em Antalya, na Turquia, com mediação turca e israelita. Aí ficou estabelecido um acordo em 15 pontos, prevendo desde logo um cessar-fogo e a retirada russa, mas, quando tudo parecia pronto para ser assinado, Zelensky recuou. Segundo contou depois o então PM israelita Naftali Bennett, o acordo falhou porque Boris Johnson e Joe Biden convenceram Zelensky a não assinar, garantindo-lhe todo o apoio militar necessário para uma vitória sobre os russos. E em Abril, quando a possibilidade de novo acordo estava em cima da mesa, Boris Johnson voou para Kiev para de novo dissuadir Zelensky de o assinar. De então para cá cessaram todas as tentativas de parar a guerra e os poucos que se atreveram a falar de paz, incluindo o Papa, foram tratados como “amigos de Putin”. Hoje, o ex-PM inglês ganha centenas de milhares de euros a fazer conferências pelo mundo fora pregando a necessidade de apoiar a Ucrânia indefinidamente. E o complexo militar industrial inglês e americano ganha milhares de milhões a vender armas para a guerra da Ucrânia, pagas pelos contribuintes desses países e dos países europeus.
Entretanto, no campo de batalha passou-se alternadamente do medo de uma rápida vitória russa para a euforia prematura de uma vitória ucraniana e daí para a situação actual: o avanço consistente e continuado dos russos e a iminência de uma derrota ucraniana. As linhas vermelhas no apoio militar fornecido foram sendo sucessivamente ultrapassadas — em tanques, aviões, sistemas de defesa anti-aérea e mísseis de longo alcance, incluindo até a presença de “conselheiros militares” —, tornando claro que esta não é apenas uma guerra da Ucrânia contra a Rússia, mas da Ucrânia e da NATO contra a Rússia. Porém, mesmo o fornecimento, em qualidade e em quantidades impensáveis, de armamento ocidental à Ucrânia está a tornar-se impotente face a um último e decisivo factor: o factor humano. A Ucrânia está a ficar sem homens para a defender: os que estão fora não querem voltar, os que estão dentro tudo fazem para não ir para a frente. Para evitar a derrota da Ucrânia falta então dar o último passo, aquele que Macron — outrora mediador da paz — agora propõe: o envio de tropas ocidentais para combater na Ucrânia contra a Rússia. A Terceira Guerra Mundial.
Sejamos claros: a derrota da Ucrânia será uma catástrofe. Uma catástrofe para a Ucrânia, primeiro que tudo, e para os ucranianos, que já sofreram mais do que lhes podem exigir. E seria também uma séria ameaça para a Europa. É fácil, ironicamente fácil, compreender a dimensão do que seria a ameaça de ver a Rússia de novo uns milhares de quilómetros adentro das fronteiras da Europa “livre”: basta imaginar a ameaça que os russos sentem ao verem a NATO avançar paulatinamente em direcção às suas fronteiras desde 1991. Viver em segurança ou em estado de ameaça latente não mudou hoje em relação ao que era no tempo da “Guerra Fria”: mede-se nos minutos que leva o míssil disparado pelo outro a atingir uma grande cidade nossa, dando-nos ou não tempo para ripostar de igual forma. Chama-se “equilíbrio do terror” e tudo passa, portanto, pela demarcação de fronteiras entre os dois lados. Quando Putin avisa que vai reposicionar mísseis nucleares junto à fronteira com a Finlândia e a imprensa ocidental logo noticia que “Putin volta a ameaçar com a guerra nuclear”, o que ele está a fazer é simplesmente a repor o equilíbrio alterado pela adesão da Finlândia à NATO e pelos mil quilómetros de fronteira com a Rússia assim acrescentados.
Porém — e isto é uma tese que vale o que vale —, eu acredito que Putin não tem nada a ganhar com a ocupação de uma Ucrânia derrotada e hostil, nem sequer para efeitos de propaganda interna. De volta a Macron, dizia ele — o Macron pró-paz e quando a guerra não corria tão bem a Putin — que era preciso ajudar a Rússia a sair da Ucrânia sem ser humilhada. A frase, embora ele já não a subscreva, continua actual, porque só há duas maneiras de acabar com uma guerra: ou pela derrota e humilhação de um dos lados ou por um acordo de paz. Ao contrário do que afirma o nosso actual ministro da Defesa, nem as eleições europeias nem a política europeia se resumem a escolher entre “os amigos da Ucrânia e os amigos de Putin”. Os verdadeiros amigos da Ucrânia querem que a Ucrânia deixe de ser massacrada e que Putin saia da Ucrânia, e isso consegue-se negociando um acordo de paz em que ambas as partes terão de ceder e os únicos que sairão a perder são os amigos da guerra.
MIGUEL SOUSA TAVARES ESCREVE DE ACORDO COM A ANTIGA ORTOGRAFIA

https://expresso.pt/opiniao/2024-05-16-quando-os-alarmes-soam-1dc1f354

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2024

Ricardo Araújo Pereira - Bem-vindos a mais um esclarecedor debate



Bem-vindos a mais um esclarecedor debate

* Ricardo Araújo Pereira

Humorista

08 FEVEREIRO 2024

Bom, eu gostaria de começar por dizer que...

— Não, isso é falso.

— Desculpe, eu estava a falar.

— Ah, pois. Não quer ouvir. Não quer ouvir. Não quer ouvir.

— O que eu estava a dizer era que...

— Não quer ouvir.

— ...o meu partido considera que...

— Não quer ouvir.

— ...bom, assim é impossível.

— Pois, é, porque não quer ouvir.

— Se eu puder completar o meu raciocínio...

— Eu sei que custa. Eu sei que custa.

— Nós temos uma proposta para resolver o problema da habitação.

— Ai é? Então e esta folha A4 que eu trouxe que é a fotocópia de uma notícia antiga?

— A proposta consiste em...

— Não, mas olhe aqui esta fotocópia de uma notícia antiga que eu trouxe.

— ...investir em habitação pública.

— Não quer falar sobre esta notícia antiga, não é? Não interessa. Não pode negar. Isto veio nos jornais.

— Ainda ontem li no jornal que as propostas do seu partido levam o país à ruína.

— Desculpe lá, isso só pode ser para nós nos rirmos. Os jornais só dizem mentiras.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não, desculpe lá.

— Não interrompa, por favor. Eu não o interrompi.

— Não quer ouvir, não é? Não quer ouvir.

— O seu partido tem nas suas listas de candidatos a deputados pessoas que foram constituídas arguidas por serem suspeitas de crimes.

— Mas a minha gravata é azul.

— O que é que isso tem a ver com o que eu disse?

— É mentira?

— Não tem nada a ver com o que eu disse.

— Mas é mentira? Responda à pergunta. É mentira?

— Posso falar?

— Não quer responder. A verdade incomoda, não é? Por isso é que as sondagens dão um péssimo resultado ao seu partido.

— As últimas sondagens também dão o seu partido a descer.

— As sondagens são uma vigarice e têm o único objectivo de prejudicar o meu partido. A sondagem que interessa é o voto do povo, nas urnas. O povo é que interessa.

— O povo tem dado maiorias a outros partidos, que não o seu.

— O povo não percebe nada, está completamente dependente da máquina do Estado, por isso é que vota sempre nos mesmos.

— Posso falar?

— Ai, coitadinho. A vítima. Lá vêm as queixinhas. Isto é política, habitue-se. É por causa deste tipo de político que o país está como está. O Parlamento tem deputados a mais, que não estão lá a fazer nada.

— É o caso do seu grupo parlamentar, que aprovou zero propostas.

— É mentira.

— Que propostas é que aprovaram?

— Nenhuma, porque não nos deixaram. Chumbaram as nossas propostas de propósito.

— Está a queixar-se? Então isso não é política? Desculpe, isto é uma bandalheira.

— Não é, não. Eu e o meu partido viemos precisamente para acabar com a bandalheira. Agora vou defecar na mão e arremessar-lhe as fezes.

 

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia