Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Raimundo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Paulo Raimundo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Camões: O poeta do povo num mundo em mudança




Intervenção de Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP

22 Novembro 2025, Coimbra



 Gostaria de agradecer a todos a  presença neste concerto, inserido no programa do PCP de comemorações do V Centenário do nascimento de Luís de Camões.

Permitam-me uma saudação particular aos artistas, aos trabalhadores da cultura, a todos os que se empenharam na concretização desta iniciativa. 

É justo questionar como é que com tanta coisa para fazer e em tempos tão difíceis que exigem tanto e cada vez mais de todos nós, tempos de aperto na vida da maioria dos jovens, das mulheres, dos trabalhadores, tempos de injustiça, promoção do ódio, divisão, de incertezas, perigos e de desesperança para o povo, porque razão o PCP se lança de forma tão profunda e empenhada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões com um programa tão diversificado como aquele que estamos a levar por diante? 

Pois bem, avançamos com estas iniciativas porque Camões é, como afirma o lema das comemorações, “o poeta do povo num mundo em mudança”.

Avançamos pela sua actualidade e porque é fundamental que o povo conheça a obra do poeta que lhe deu voz.

Avançamos nestas comemorações porque é imperativo intervir pela verdade histórica que confronta a mentira e a manipulação.

A obra de Luís de Camões foi manipulada pelo fascismo, procurando com ela dar cobertura ideológica a um regime opressivo e ao colonialismo com tudo o que o envolve. 

Camões não é o poeta dessa gente, não é o poeta do medo, do individualismo, da resignação, da manipulação de consciências, da censura, da repressão, do terror.

Camões é do Renascimento, desse pensamento novo que confronta o velho pensamento dogmático de classes dominantes que procuraram reprimir e conter, nomeadamente através da Inquisição.

Camões nunca foi protegido pelo poder nem pelos privilegiados do seu tempo, é o poeta de Os Lusíadas que tal com como Álvaro Cunhal, referiu e cito: 

«Camões não é a voz da reacção e do colonialismo. Camões é a voz do nosso povo, dos Lusíadas, a voz da insubmissão ante os privilégios, a voz do progresso social e científico, a voz da nação portuguesa, num elevado sentido humanista».

Camões é o poeta da aventura portuguesa nos oceanos, da descoberta mútua e das relações entre os povos, das trocas comerciais e culturais, das novas rotas, novas estrelas e dos novos céus.

Camões é o poeta do aguçar dos sentidos, das capacidades de descrição, raciocínio, experimentação e do conhecimento.

Como afirmou Garcia de Orta: «sabe-se mais num dia agora pelos portugueses do que se sabia em cem anos pelos romanos». 

Assinalar Camões pelo que foi, o que representa e quem representa na sua obra, é dar um contributo para o combate a ideias e concepções retrógradas, reaccionárias e bafientas que alguns procuram recuperar e difundir.

Mas é mais, é dar voz a esse povo por ele sempre exaltado, esse povo que lutou para defender a independência nacional, esse povo que com as suas mãos contraria sempre, mais cedo ou mais tarde, o conformismo que alguns querem impor. 

É esta a nossa história e assim foi nesse momento maior da vida do povo que foi a Revolução de Abril.

Essa data maior e única que alguns procuram fazer esquecer da memória colectiva, para fazer esquecer e pôr fim às suas conquistas e valores.

Essa data maior e única que alguns querem reescrever e substituir por outra qualquer, de forma a consolidar um rumo e uma política que aperta a vida da maioria e concentra a riqueza, benesses e privilégios nas mãos de uns poucos.

Um rumo de dezenas de anos, levado a cabo agora pelo Governo de turno de PSD e CDS, com uma política apoiada pelo Chega e pela Iniciativa Liberal, e que conta com a cumplicidade do PS. 

Um rumo que coloca Portugal nas mãos dos grandes grupos económicos e das multinacionais, um rumo e uma política  contrárias às necessidades da maioria dos que cá vivem e trabalham, de desinvestimento e ataque ao SNS, à escola pública, à cultura, à generalidade dos serviços públicos; de baixos salários e pensões, brutais dificuldades na habitação, manutenção e agravamento da precariedade e das condições laborais; de insistência no caminho de abdicação da soberania e da produção nacional.

Como assinalou Camões: «O fraco rei faz fraca a forte gente». 

Este rumo e esta política submissa perante os poderosos enfraquece o povo e a sua vida.

Comemorar Camões é também contribuir para fazer mais forte a nossa forte gente.

É afirmar o pensamento avançado, descobrir e respeitar as diferentes culturas, dar combate às injustiças e desigualdades, é afirmar a cooperação, solidariedade, respeito e soberania dos povos, fazer frente à guerra e lutar pela Paz.

Comemorar Camões e a sua obra é lembrar sempre que as lutas de hoje – pelos salários, as pensões e os direitos, contra o pacote laboral e na construção da greve geral, pelo direito à habitação, à escola pública, à cultura – se inscrevem no mesmo processo histórico de denúncia e combate às injustiças e desigualdades em que Camões, ressalvada a diferença de contexto e de tempo, se inseriu.   
 
É também por isto tudo que o PCP se lança, nestes tempos, de forma tão empenhada nas comemorações dos 500 anos do nascimento de Camões e que realizamos hoje mesmo este concerto.

Associemos agora ao engenho e arte de Luís de Camões, o engenho e arte dos artistas que hoje aqui vão intervir. 

segunda-feira, 19 de maio de 2025

CDU . Sobre os resultados das Eleições Legislativas de 2025

Declaração de Paulo Raimundo, Secretário-Geral do PCP

Sobre os resultados das Eleições Legislativas de 2025

18 Maio 2025, Lisboa

Nesta campanha eleitoral, nesta luta por tudo quanto importa na vida dos trabalhadores, do Povo, da juventude e do País, afirmámos a CDU como força de coragem, de seriedade e de confiança.

Saudamos os activistas da CDU, e em particular os nossos companheiros de coligação o Partido Ecologista “Os Verdes” e a associação Intervenção Democrática.

Saudamos os comunistas, ecologistas, mulheres e homens sem filiação partidária que fizeram desta campanha eleitoral uma notável jornada em defesa de um novo rumo para o País.

Saudamos a juventude, a quem nos dirigimos de forma particular ao longo da campanha e que com a sua participação deu força, alegria, criatividade a uma campanha eleitoral assente na denúncia dos problemas e nas soluções para o País. 

Saudamos todos os que votaram na CDU e em particular os que o fizeram pela primeira vez.

O resultado da CDU marcando resistência num quadro particularmente  exigente e face a múltiplos vaticínios, não reflecte nem a expressão de apoio e reconhecimento que a campanha mostrou, nem o que a situação do país exigia de uma CDU mais reforçada para  responder aos problemas, para enfrentar as forças e projectos reaccionários. 

Um resultado inseparável de factores objectivos e subjectivos em que pesaram a difusão de elementos de preconceito, a recorrente falsificação e menorização da CDU e das suas propostas, uma opção eleitoral ditada não pela resposta aos problemas de cada um mas condicionada por  alegadas disputas de maiorias eleitorais.  

Como afirmamos em toda a campanha, cada voto na CDU conta. 

Nenhum voto na CDU será desperdiçado. 

Nenhum voto na CDU será traído. 

Cada voto na CDU é uma expressão de compromisso com um outro rumo na vida política nacional, um voto de exigência de ruptura com a política de direita e que contarão para enfrentar com coragem a direita e a extrema-direita e os interesses do capital.

Podem os trabalhadores e o povo contar com iniciativa e intervenção da CDU para dar resposta e solução aos problemas que aí estão. 

Salários, pensões, saúde, habitação, educação, direitos das crianças e dos pais, das mulheres, da juventude, o ambiente, a conservação da natureza, a solidariedade com a Palestina. 

Podem contar com a CDU para defender a liberdade, democracia, a constituição e a Paz. 

A composição da Assembleia da República tem uma evolução negativa, marcada pelo crescimento da AD (PSD e CDS), do Chega e da IL.

O resultado obtido pela AD foi alcançado a partir da instrumentalização da ideia de “estabilidade governativa” a partir de uma política que promove todos os dias a instabilidade na vida de cada um, do uso e abuso ilegítimo de actos de um governo em gestão, da vitimização que procurou fomentar, associado à falta de credibilidade do PS que, não só não assumiu uma perspectiva de caminho e soluções distintas às da AD como, antecipadamente se mostrou disponível para viabilizar um seu governo.

O resultado obtido pelo Chega é inseparável dos meios – financeiros, mediáticos e outros - que hoje estão colocados pelo capital ao serviço da promoção de um quadro de valores reaccionário e anti-democrático, favorecendo forças que alimentam a demagogia, a mentira, a manipulação e o ódio, elementos amplamente evidentes nesta campanha.

O quadro institucional agora resultante, com uma maioria na AR de PSD, CDS, Chega e IL, independentemente dos arranjos que venham a verificar-se entre estas forças, comporta o perigo da intensificação da agenda retrógrada, neoliberal e anti-social. 

Este é o momento para cada um dizer com clareza e coragem, sem tactismos, ao que está e ao que vem.  

Face a estes resultados eleitorais que não subestimamos, este não é tempo de conformação ou de entendimento com a direita e as suas concepções reaccionárias, retrógradas e antidemocráticas. Este não é o tempo de dar a mão à direita, de dar suporte à sua política anti-popular.  

Este é o tempo de combate à política de baixos salários e pensões, de ataque aos direitos dos trabalhadores e aos serviços públicos, de negação do direito à habitação, de privatizações e outras grandes negociatas, de mais e mais injustiças e favores ao capital, de submissão nacional e corrida aos armamentos. 

Este é o tempo de democratas e patriotas assumirem o caminho da resistência e da luta contra o retrocesso e abrir o caminho de que Portugal precisa.

Desenganem-se os que acham que o neoliberalismo e a acção reaccionária se vão impor, que a luta dos trabalhadores e do povo vai deixar arrasar os seus direitos e fazer regredir o País. 

A situação evidencia ainda mais o papel decisivo da luta dos trabalhadores e do povo, a necessidade da acção comum de democratas e patriotas, a importância da CDU e dos seus deputados para enfrentar a política de  direita e o governo que a concretize, para enfrentar os projectos reaccionários e a revisão subversiva da Constituição da República.

Os trabalhadores, o povo e a juventude, contam com o PCP e a CDU e nós contamos e confiamos na sua força, capacidade e luta.

 https://www.pcp.pt/sobre-resultados-das-eleicoes-legislativas-de-2025

segunda-feira, 7 de novembro de 2022

João Rodrigues - Comuns

DOMINGO, 6 DE NOVEMBRO DE 2022  -  Comuns, por João Rodrigues

Não sendo militante do PCP, estou militantemente convencido que este partido é uma condição absolutamente necessária, mas naturalmente não suficiente, para uma alternativa digna do povo deste país.  

Com todas as divergências e convergências, saúdo Jerónimo de Sousa por todo um percurso, por ser um operário e um comunista em construção. 

Uma memória: acabado de chegar à universidade, em 1995, assisti a um discurso de Jerónimo. Perante uma audiência de estudantes, estimulou-nos a estudar com afinco, até para sermos merecedores do investimento do país. Disse, com a ajuda de Soeiro Pereira Gomes, que tinha sido um dos “homens que não foram meninos”. Fê-lo com naturalidade, sem qualquer ressentimento, pelo contrário, com evidente orgulho dos diferentes percursos. Ainda hoje fico emocionado.

A Paulo Raimundo desejo boa sorte. A biografia é um programa único: trata-se de sublinhar com orgulho que os que vêm de baixo, na realidade, vêm de cima. Os últimos, digamos, têm de ser mesmo os primeiros aqui, nesta terra. Há lá algo de mais importante?

https://ladroesdebicicletas.blogspot.com/2022/11/comuns.html

António Santos - Raimundo como qualquer um

* António Santos

SEGUNDA, 07 DE NOVEMBRO DE 2022

A eleição de Paulo Raimundo terá um doce simbolismo para todos esses anónimos que ganham mal e trabalham muito, que andam enlatados nos comboios e são da comissão de utentes. Numa palavra: os que lutam.

Paulo quem? Como é que eles se atrevem? A escolher para secretário-geral um anónimo, um filho da mulher das limpezas, um padeiro qualquer, um tipo que as televisões nunca chamaram para comentar nada nem fora predestinado por quem é chamado para comentar tudo, carpinteiro, ou padeiro, ou animador, ou lá qualquer coisa que se estuda à noite e que nunca ninguém tratará por doutor –  só por camarada – Paulo quem?

Paulo Raimundo é tão anónimo como nós, os que comunistas são e que por isso anónimos ficarão, excepto como o Paulo, excepto nas lembranças anónimas da refinaria de Matosinhos, nas greves anónimas dos motoristas dos autocarros de Braga, nos socalcos anónimos do Douro vinhateiro, nos intestinos anónimos dos hotéis do Algarve, nas lutas anónimas dos arquitectos do Porto.

Tal como o Paulo, Portugal é um país de gente anónima que tem de deixar de ser. Quantos escritores falariam melhor de literatura do que Marques Mendes? Quantos dirigentes sindicais explicariam melhor que José Júdice, e de forma mais informada e eloquente, as consequências sociais da inflação? Quantas vezes é que a dupla Milhazes e Rogeiro têm contraditório? Quantos milhares de nós conseguem proezas de decência, coragem e dignidade em condições de total anonimato? Paulo quem?

«Quantos escritores falariam melhor de literatura do que Marques Mendes? Quantos dirigentes sindicais explicariam melhor que José Júdice, e de forma mais informada e eloquente, as consequências sociais da inflação?»

Paulo Raimundo é anónimo porque, nas televisões e nos jornais, #ComunistaNãoEntra, mesmo que se assuma, há 30 anos, as mais altas responsabilidades políticas e mesmo que, desde então, se fale pelo PCP em conferências de imprensa que a comunicação social da classe dominante decide ignorar.

A eleição de Paulo Raimundo terá um doce simbolismo para todos esses anónimos: os que construíram Tebas e o convento de Mafra; os que arriscam o pêlo pelos colegas porque têm princípios; os que ganham mal e trabalham muito; os que vivem em bairros onde a Ana Gomes não vai; os que andam enlatados nos comboios e são da comissão de utentes; os que esticam orçamentos por famílias de quatro. Numa palavra: os que lutam.

Com ou sem mediatismo, mesmo sem nunca ter sido deputado, até sem ser licenciado. Tanto como o nosso povo. Vindo dele e sem dele sair. Como são os comunistas.

https://www.abrilabril.pt/nacional/raimundo-como-qualquer-um