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quinta-feira, 10 de junho de 2021

O feriado do 10 de junho faz hoje 110 anos. Esta é a sua história

 SOCIEDADE

A historiadora Maria Isabel João tem investigado a data do 10 de Junho, e é autora do livro “Memória e Império — Comemorações em Portugal (1880–1960)” 

 

As celebrações do 10 de Junho sobreviveram a três regimes políticos. Quase que poderemos dizer quatro, já que esta data — muito acarinhada pelos republicanos — foi evocada pela primeira vez em 1880, no reinado de D. Luís. Se quiser saber a história até aos nossos dias leia a entrevista com a investigadora Maria Isabel João

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10 JUNHO 2021 10:31

Manuela Goucha Soares  Jornalista

Um ano antes do golpe que instituiu a ditadura militar em 1926, a I República declarou que a “Festa de Portugal se celebrará no dia 10 de Junho de cada ano”. O Estado Novo manteve a data como Festa de Portugal, elevando-a à condição de feriado nacional em 1929.

O título de Dia de Portugal só surgiria décadas depois. E, apesar de ninguém saber se o poeta Luís Vaz de Camões morreu mesmo neste dia, a democracia continuou a celebrar o 10 de Junho como data da identidade nacional. Uma originalidade portuguesa que é praticamente “caso único” no mundo, segundo a professora Maria Isabel João, autora do livro “Memória e Império — Comemorações em Portugal (1880–1960)”. A historiadora lembra que a “maioria esmagadora dos países do mundo escolhe uma data que se relaciona com a fundação do Estado ou do regime político vigente”.

Como é que esta data consegue resistir a três regimes políticos como símbolo da identidade nacional?
Porque está identificada com a figura de Camões, que é o símbolo da nação desde o século XIX. É uma figura que emerge no contexto da mitologia nacional criada pelos românticos e que se transforma num símbolo da nação. O [historiador] Oliveira Martins diz que Camões é o epónimo de Portugal. E o [republicano] Teófilo Braga, num dos seus textos, diz que, se dissermos que somos portugueses no estrangeiro, ninguém nos identifica. Mas, se dissermos que somos da pátria de Camões, já nos identificam.

A I República acarinha o dia por causa de Camões?
Sim, porque na altura das comemorações do tricentenário da morte de Camões, em 1880, os republicanos, e nomeadamente Teófilo Braga, que tinha importado as conceções positivistas de Auguste Comte para Portugal, entendia que era importante substituir os símbolos religiosos por laicos. Camões surge como um símbolo laico.

Podemos dizer que Teófilo é o ‘pai‘ do Dia de Camões?
Ele é o pai da ideia da comemoração do III centenário da morte de Camões, que cria as bases para que o 10 de Junho pudesse vir a ser feriado nacional. Falou-se nisso na época, mas nunca foi feriado no período da monarquia. Teófilo empenhou-se muito, como estudioso de literatura, a estudar Camões e a obra dele, e também como mentor das comemorações do III centenário, bem como na promoção da figura de Camões como símbolo nacional. Este acontecimento adquiriu uma enorme importância, porque houve uma grande mobilização da imprensa da época, que contribuiu para que ficasse na memória.

A imprensa foi determinante para a consagração e interiorização da figura de Camões como símbolo nacional?
Teófilo Braga apareceu na imprensa [com artigos] a defender o centenário. Os republicanos impuseram um modelo de celebrações importado da França e da Revolução Francesa, o que fez com que os monárquicos e a própria Corte tivessem hesitado no modelo das comemorações sem desconfiarem da figura de Camões. A ideia de que na época iria haver uma procissão cívica no 10 de Junho era uma apropriação de rituais religiosos que foram [assim] laicizados. As comemorações mobilizaram Câmaras de todo o país, associações... E houve um grande cortejo, que partiu da Praça do Comércio e foi depor flores na estátua de Camões, que contribuiu para a afirmação dos republicanos como força política, embora o próprio rei tenha presenciado as comemorações.

A partir de 1911, o 10 de Junho passa a ser feriado municipal de Lisboa...
O regime republicano homenageou a data, tornando o dia feriado na capital. Ao longo dos anos, as comemorações do dia 10 de junho foram variando consoante as circunstâncias políticas. Em 1917, a data foi celebrada como Dia dos Aliados, porque a I Guerra Mundial mobilizava a atenção de todos. E em 1924, quando se celebrou o IV centenário do nascimento de Camões, o 10 de Junho foi a data escolhida. A imprensa da época utilizava a expressão Festa da Raça para as comemorações camonianas, e o sentido do termo ‘raça’ era vago e identificava-se com o próprio povo português. A celebração durou seis dias e teve repercussão no estrangeiro, em especial em Espanha.

É o Estado Novo que batiza a data como Dia de Portugal?
Sim, mas só em 1952. Entre 1925 e 1952, o 10 de Junho foi designado como Festa de Portugal. E só passou a ser celebrado como feriado nacional em 1929.

As pessoas precisam de símbolos. É isso que explica que o 10 de Junho tenha sobrevivido à queda da ditadura como símbolo da identidade nacional?
Exatamente, a questão simbólica é muito importante, mas isso [também] revela o quanto o 10 de Junho estava enraizado na consciência nacional. Em 1974, realizou-se uma manifestação de solidariedade com as Forças Armadas; no fim, colocaram flores na estátua de Camões [em Lisboa]. E em 1977, depois de Ramalho Eanes ter sido eleito, a data passou a Dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. No ano seguinte começou a ser celebrado como Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas [designação que mantém].

[esta entrevista foi inicialmente publicada a 10 de junho de 2017]

https://expresso.pt/sociedade/2021-06-10-O-feriado-do-10-de-junho-faz-hoje-110-anos.-Esta-e-a-sua-historia-421331ec

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Helena Pato - A Noite mais Longa de Todas as Noites



A mulher que saltou dos calabouços da PIDE para as redes sociais tem um novo livro








Tem 79 anos e sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...
TIAGO MIRANDA

Helena escreveu um livro. Helena foi professora de Matemática. Helena foi cerzideira. Helena combateu a ditadura. Helena escovou tapetes. Helena foi presa pela PIDE. Histórias de combate de muitas Helenas num novo livro de contos memoriais da luta pela liberdade, com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente Jorge Sampaio

“Agosto há-de trazer-me sempre péssimas recordações. Salvo as datas dos nascimentos das minhas mulheres queridas, que me surgem nesse mês como flores de deus no deserto, as desgraças e os dias de má sorte familiares, que me aconteceram em Agosto, teimam em não desaparecer das imagens registadas em cartões de memória que armazeno à revelia de mim própria”. Assim começa um dos contos memoriais de “A Noite mais Longa de Todas as Noites”, o novo livro de memórias da luta contra a ditadura, da autoria de Helena Pato, agora publicado pelas Edições Colibri.
“Obra de uma precisão exemplar e simultaneamente de uma beleza límpida no seu veio narrativo, enquanto tessitura de recordações assumidamente pessoais embora arreigadamente políticas”, é como o define a escritora Maria Teresa Horta no prefácio.



Capa do novo livro de Helena Pato. São contos memoriais da luta contra a ditadura com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente da República Jorge Sampaio
D.R.

Para Jorge Sampaio, “as estórias de Helena Pato valem, primeiro, pela valência pessoal de sabor autobiográfico, de grande despojamento, sobriedade e elegância, e depois por serem o retrato de uma época de resistência contra a ditadura”.
Estes contos memoriais – como lhe preferimos chamar – evocam com ternura e humor facetas duras da resistência ao Estado Novo e da luta pela democracia em Portugal.

Helena, dos calabouços da PIDE para as redes sociais, é a reportagem multimedia com a história do empenho de Helena na criação e gestão da página no Facebook “Antifascistas da Resistência”.
Esta página tem milhares de seguidores, centenas de biografias de mulheres e homens que desempenharam qualquer papel na luta contra o Estado Novo, e dá a conhecer cidadãos anónimos que podem ter dado guarida a alguém que precisava de um abrigo seguro, ou guardado livros dessas.
Neste livro que acaba de chegar às bancas, Helena Pato, consegue fazer humor com momentos de luta que tiveram os seus perigos. Terminamos com mais um cheirinho de “As férias, a PIDE e a GNR”, o conto memorial que escolhemos para iniciar este texto:
“Uma meia hora antes da hora combinada para a chegada do Zé, fui ao portão examinar novamente a rua e descubro uma chusma de GNR. Mesmo em frente, havia vários agentes num jeep e, mais adiante, na curva da descida para Portimão, mais quatro, de pé. Imaginei que a PIDE teria pedido a sua colaboração e que o meu regresso a casa lhes confirmara a nossa presença na vila. Era preciso avisar o Zé: eles que não viessem! Mas como, sem eu ter carro nem conhecidos em Monchique, que dessem uma ajuda descendo a Ferragudo? (o jeito que teria dado um telemóvel!)”

A FUGIR DA PIDE ... COM FAMA DE LADRA DE FRUTA

“Vi a solução que me permitia avisar o Zé de que a casa estava cercada. Sairia pelas traseiras, correria por aí abaixo, saltando de quinta em quinta, fora dos olhares da GNR, até parar na subida da estrada nacional, longe do centro da vila. Esperaria o carro em que o Zé vinha (...)
Por entre hortas, pomares e plantações, corri disparada, a saltar cercas e muros, e sem olhar aos arranhões nas silvas, nem a quem andava por ali. Subitamente, no silêncio do lindíssimo vale – sem que eu percebesse de onde surgira um camponês – há uma mão que me agarra com toda a força, pelo braço, ao mesmo tempo que uma voz me interpela, aos berros, ameaçadora:
— Ladra de um cabrão, queres a minha fruta ou o meu tomate, ó…?

Perdida de riso, consegui escapulir-me (...)”.

Em “A Noite mais Longa de Todas as Noites”, há mais contos memoriais com muito humor. Apesar de o livro evocar a luta contra o regime do Estado Novo, e descrever momentos desse “tempo de clandestinidade, tão intensamente (...)” – como escreveu Luís Farinha, diretor do Museu do Aljube, num outro posfácio – que nos faz uma visita guiada e viva sobre esses tempos de noites longas.

http://expresso.sapo.pt/cultura/2018-05-24-A-mulher-que-saltou-dos-calaboucos-da-PIDE-para-as-redes-sociais-tem-um-novo-livro#gs.r7bpFgQ


Helena Pato foi presa em junho de 1967. Tinha 28 anos e já era viúva. Alfredo morrera um mês depois de ser detido pela PIDE. O seu 25 de Abril chegou dois dias depois, quando o segundo marido saiu da prisão de Caxias. Foi professora do secundário e sabe que os mais novos querem conhecer a História. Foi esta uma das razões que a levaram a criar a página “Antifascistas da Resistência” no Facebook, que já tem 400 biografias e milhares de seguidores Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

MANUELA GOUCHA SOARES
Texto

Joana Beleza
JOANA BELEZA
Vídeo

Tiago Miranda
TIAGO MIRANDA
Foto

Se Helena Pato soubesse que a ditadura do Estado Novo ia cair uma semana depois, nunca teria deitado rolos e rolos de documentos proibidos pela janela. O ambiente andava agitado, “o Zé receava ter sido denunciado e decidimos sair uns dias de Lisboa” para aliviar a pressão: “Fomos a Londres, passámos lá o aniversário dele [12 de abril] e regressámos a 17, porque nos disseram que até essa altura não tinha havido denúncias. Nesse dia, decidimos limpar tudo o que estivesse em casa e nos pudesse comprometer; fizémos uma queima de papéis na casa de banho, enrolámos jornais clandestinos e cartazes e atámos uma batata a cada rolo para ganhar peso e velocidade... deitámos os rolos pela janela porque não fomos capazes de destruir aqueles materiais que tinham dado trabalho a imprimir, a fazer”.

A chuva de rolos e batatas sobre o Bairro das Colónias durou até tarde. Com a casa ‘limpa’ de papéis comprometedores, Helena e o marido, o historiador José Manuel Tengarrinha, dirigente do MDP/CDE, acreditaram que poderiam dormir descansados. Eram 6H00 da manhã quando a campainha da porta os acordou com alvoroço. A PIDE entrou e virou a casa do avesso. Ao fim de muitas horas de buscas, Tengarrinha foi para Caxias, sob prisão.

Lisboa 1974: Helena Pato no primeiro comício do PCP, no Campo Pequeno
Lisboa 1974: Helena Pato no primeiro comício do PCP, no Campo Pequeno

“O telefone começou a tocar porque nessa madrugada tinham sido presos outros dirigentes do MDP; eu achei que ele ia ter pela frente uns anos em Peniche”. Apesar da angústia, nesse 18 de abril, Helena, não teve muito mais tempo para pensar nisso: “Tínhamos dois filhos pequenos, que tinham ficado a dormir em casa dos meus pais... e eu fazia anos no dia seguinte. O meu filho já ligava à ideia dos anos e [também] por causa dos meus pais decidi fazer o jantar de família”. A crise obrigava-a a reagir, andar para a frente, como uma tocha que ilumina o caminho, ou não fosse esse o significado do seu nome em grego.

Mesmo para esta mulher de combate, que resistitu seis meses em regime de isolamento na cadeia de Caxias, foi estranha e azeda a celebração do seu 35º aniversário. “A primeira visita ao Zé estava agendada para as 11h00 de quinta-feira, 25; ficou logo marcada no dia em que o levaram. Eu ainda fui uma vez a Caxias levar roupa e comida, e recebi uma carta dele. Uma carta muito curiosa, extensa” que Tengarrinha sabia que iria ser lida pela PIDE. Em vez de se queixar da prisão, o historiador escreveu sobre o século XIX. “Quase que fez o plano de um livro”, diz Helena, que ontem [24 de abril] ofereceu este documento ao Museu do Aljube.

1969: casamento de Helena Pato (4ª da fila da frente da esquerda para a direita) com José Manuel Tengarrinha (à sua direita)
1969: casamento de Helena Pato (4ª da fila da frente da esquerda para a direita) com José Manuel Tengarrinha (à sua direita)

DR

Por volta das 4h30 da madrugada de dia 25, o telefone tocou na residência do casal Pato/Tengarrinha. Helena pegou no auscultador e ouviu alguém dizer: “Houve uma revolução e o seu marido vai sair da cadeia”. Não respondeu. Pousou o auscultador sem dar qualquer resposta e, depois de desligar, falou sozinha: “Provocadores.... fazem isto para provocar, nem me deixam dormir durante a noite”.

Minutos depois o telefone voltou a tocar. Desta vez foi a empregada que ajudava Helena a cuidar dos filhos, quem respondeu e anunciou eufórica: “Houve uma revolução ... o senhor doutor vai ser libertado!”.

Atordoada, Helena que passara a noite anterior a cozinhar para levar comida ao marido preso, deve ter ligado a rádio como todos os portugueses que já estavam acordados aquela hora. As informações eram poucas, o telefone continuava a tocar: “Arranjei-me e fui para a Av. do Uruguai, para uma reunião em casa da Julieta Correia e do marido, o jornalista Fernando Correia que creio que também estava preso, para me encontrar com familiares de outros presos políticos e combinarmos o que iríamos fazer”.

Por ironia do destino, Helena não foi capaz de festejar a Revolução no dia em que ela aconteceu. Foram dois dias de grande tensão; só conseguia pensar no marido e nos outros presos... que só deixariam a prisão de Caxias no dia 27.

Caxias: Jorge Sampaio, Pereira de Moura, Salgado Zenha e Francisco e Miguel Sousa Tavares juntaram-se aos familiares dos presos políticos para aguardar a sua libertação
Caxias: Jorge Sampaio, Pereira de Moura, Salgado Zenha e Francisco e Miguel Sousa Tavares juntaram-se aos familiares dos presos políticos para aguardar a sua libertação

A reunião na Av. do Uruguai serviu para distribuir tarefas. Helena e a sua camarada do PCP, Aida Magro, começaram por se deslocar ao Rádio Clube Português, ocupado pelos militares do MFA. Daí seguiram para o exterior da prisão de Caxias onde passaram o resto do dia.

Ao princípio da noite Helena decidiu voltar a casa; queria saber dos filhos, comer, tomar banho. Telemóveis eram coisa que não existia nem em sonhos, e as cabines telefónicas não estavam propriamente à porta da cadeia...

Veio com a sua amiga Luísa Amorim. “No meu bairro havia um clima de festa ... e de acampamento. As escadinhas ao lado da minha casa, que dão para o Bairro das Colónias, estavam cheias de soldados sentados de metralhadora” em punho. Era tarde, estava frio, “e eu e a Luísa ficámos com pena deles e decidimos fazer café e umas sandes e ir lá levar-lhes. Eu levei uns cobertores ... e só três dias depois é que dei conta que tinha ficado sem cobertores em casa”. Quem viveu a Revolução sabe que aconteceram coisas destas e que ninguém prestava atenção a minudências ... como cobertores, por muita falta que eles façam numa casa.


Na véspera dos 42 anos da queda da ditadura em Portugal, Helena colocou este post na sua página pessoal do Facebook, onde recorda os soldados a quem deu os cobertores; raramente coloca notas de caráter privado na sua página do Face.

ANTIFASCISTAS DA RESISTÊNCIA TÊM QUASE 5 MIL LIKES
Há dois anos, quando estava prestes a deixar a direção do movimento cívico Não Apaguem a Memória, Helena constatou que havia muitos professores e alunos que procuravam material sobre a resistência à ditadura. Se os arquivos da PIDE e outros, os jornais, etc, fornecem elementos, há uma parte da história que vive de outro tipo de informações e testemunhos.

Enquanto militou no Não Apaguem a Memória [fundado em 2006 para contestar a transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo], verificou que havia muita gente que era esquecida pelas formas convencionais de preservar a memória: “Há muitas biografias escritas sobre dirigentes, mas existiram muitos homens e mulheres, heróis anónimos da resistência, pessoas que tiveram vidas muito difíceis, de quem ninguém sabe nada”. E foi assim, para lembrar o papel destes heróis anónimos, que surgiu no Facebook o grupo “Fascismo nunca mais”, que tem quase 10 mil membros.

Aos 77 anos sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...
Aos 77 anos sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...

TIAGO MIRANDA

“A ideia era criar um grupo aberto; mas eu cliquei numa opção para grupo fechado e quando dei conta reportei para o Facebook. Nunca responderam e não foi possível reverter a situação. O grupo ficou mesmo fechado, e criámos uma outra página no Facebook, “Antifascistas da Resistência”, onde estão as biografias”. Esta página é pública e tem quase cinco mil seguidores

Para salvaguardar algum ataque informático [já tiveram um], ou outro clique involuntário de Helena ou de alguma das outras duas administradoras que com ela colaboram, foi criado um blogue com o mesmo nome onde está um índice das biografias com links de acesso aos textos.

Militante do Partido Comunista durante 29 anos [1962 - 1991], Helena faz questão de fazer biografias de “gente de todas as áreas que esteve envolvida em ações de resistência. E convidei para colaborarem comigo na administração das páginas, duas mulheres de outras áreas políticas: Inês de Castro, professora de História e a Benedita Vasconcelos que é de Direito”.

Nos comentários, “não são permitidas agressões que sirvam para denegrir o passado dos antifascistas”, e é uma forma de evitar querelas entre pessoas de tendências e fações diferentes.

Itália, 1964: Helena Pato com o seu primeiro marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Nolaes, que morreu em 1965 de cancro, um mês depois de ser detido pela PIDE no regresso ao país... porque queria morrer em Portugal
Itália, 1964: Helena Pato com o seu primeiro marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Nolaes, que morreu em 1965 de cancro, um mês depois de ser detido pela PIDE no regresso ao país... porque queria morrer em Portugal

DR

Maria Helena Martins dos Santos Pato Noales Rodrigues, é este nome que está escrito nas fotos da prisão que se vêem no vídeo que abre este trabalho, foi presa em junho de 1967. Tinha 28 anos e já era viúva. O marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Noales Rodrigues, com quem casara em 1960, saiu do país em 1962 para não ser preso pela PIDE. Foi para Paris e Helena foi ter com ele logo que pode; ainda não tinha acabado o curso, mudou a matrícula para a Universidade de Coimbra [muitos estudantes que tiveram ‘problemas’ com a polícia política utilizaram esta solução para acabar os cursos noutras universidades portuguesas] e vinha a Portugal uma vez por mês, de comboio – a viagem durava quase 30 horas – para tentar acompanhar as matérias e fazer exames.

Em 1964, nesta foto do jovem casal que o Expresso publica, Alfredo está visivelmente mais magro no que nas fotos que vimos do seu casamento com Helena em 1960.

Quando tiraram a foto, Helena ainda não sabia que o marido estava doente. Nem ela nem ele, porque o linfoma ainda não tinha sido diagnosticado. Na década de 1960, o tratamento das doenças oncológicas estava menos avançado do que hoje e Alfredo foi definhando. Exilado político, tinha o desejo de vir morrer a Portugal, no país onde nasceu e perto dos pais e restante família. Foram feitas diversas diligências junto da polícia política, pedindo que Alfredo pudesse sem regressar sem correr o risco de ser detido. A resposta era invariavelmente a mesma: “Poderá regressar quando houver uma declaração médica que garanta que não tem mais do que 30 dias de vida. Claro que nenhum médico poderia passar uma declaração destas…”, porque nunca se sabe qual é a verdadeira evolução do cancro em termos de tempo. Nem hoje, nem naquela época.

Alfredo voltou em novembro de 1965. Saiu do avião em cadeira de rodas, os pais estavam à espera dele… e foi detido pela PIDE para interrogatório. Morreu um mês depois, em dezembro desse ano.

Assembleia da República, janeiro de 2014: Helena Pato na abertura da sessão de homenagem aos advogados dos presos políticos
Assembleia da República, janeiro de 2014: Helena Pato na abertura da sessão de homenagem aos advogados dos presos políticos

A maioria dos portugueses não conhece a história de vida de Alfredo Noales. E também não conhece o papel de Belmira Cruz, Manuela Bernardino, Cândido Capilé, Gina Azevedo, Manuel Baridó e Olímpia Brás, e muitos mais, que Helena vai juntando no grupo fechado [por engano dela…] do Facebook “Fascismo nunca mais” e na página aberta “Antifascistas da Resistência” e no blogue com o mesmo nome, que conta com a ajuda informática de Eduardo Brissos. “Quis dar a conhecer a vida dos heróis anónimos, de pessoas com quem me cruzei, que me tocaram. Houve uma mulher que foi presa mais ou menos na mesma altura em que eu, uma operária corticeira, a Olívia, que enfrentou a ditadura com uma força extraordinária, e é quase desconhecida. Foi uma mulher que me ajudou muito…”, diz Helena, a ex-professora de Matemática que recorda nas redes sociais a história de pessoas que mal sabendo ler – ou não sabendo de todo – começaram a trabalhar por volta dos oito anos em troco de 10$00 [5 cêntimos] por mês “para pagar o pão que comiam”.

Autora de dois livros em que recorda a luta contra a ditadura, “Saudação, Flausinas, Moedas e Simones” e “Já uma estrela se levanta”, nunca gostou muito da ideia de existirem quotas na política, apesar de ter sido uma das fundadoras do Movimento Democrático das Mulheres, em 1969: “As mulheres têm de se afirmar pelas suas qualidades… e afirmam-se desde que lhes sejam dadas condições” para que isso aconteça: “O que está a acontecer com o Bloco de Esquerda é um exemplo disso”.

Aos 77 anos, tem o projeto de “reescrever um romance guardado há anos. É um romance de amor, a história de um quadrado amoroso, e tenho uma certa má consciência de ter abandonado aquelas personagens de que gosto tanto à sua sorte. Só que também gostava de fazer um blogue que funcione ao contrário da maior parte dos blogues… e acho que a net vai ganhar (risos). Um blogue onde começaria por recordar histórias da minha infância e ia enchendo de histórias, reescrevendo algumas para não me andar a repetir, até à atualidade em que começaria a escrever crónicas” sobre o que se passa. “Já disse à minha filha que quando eu ainda for viva mas não for capaz de escrever… ela pode escrever o que lhe contei, e depois de eu morrer também”.

Quanto às biografias, tem dois tabus: “Não as publico em livro, já tive uma proposta mas está fora de questão; estas biografias estão bem para a função que cumprem de divulgar histórias de pessoas, mas não têm rigor” científico. “E nunca escreverei a minha própria biografia para colocar na página. Se alguém o fizer, vou lá e PUF!”. É assim Helena, a mulher que aos 28 anos observava a vida das formigas e o nascimento das florzinhas no muro da prisão de Caxias, para enganar o regime de isolamento a que fora condenada: “Não podia ir ao recreio, não me deram os livros que pedi, nem jornais, nem papel, nem linhas, lã, agulhas para fazer tricô, ou qualquer coisa para me ocupar”.

http://expresso.sapo.pt/arquivos-expresso/2016-12-25-Helena-dos-calaboucos-da-PIDE-para-as-redes-sociais#gs.zS5qZks






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