| Assunto: | EU SEI, MAS NÃO DEVIA |
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| Data: | 16/Mar 17:10 |
EXISTEM MOMENTOS EM QUE NÃO EXISTEM MAIS PALAVRAS PARA DIZER....ESTÁ TUDO DITO. É O CASO DESTA POESIA. TEM TANTO DE MIM, DE NÓS QUE QUALQUER PALAVRA A MAIS SERIA SUPÉRFULA...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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EU SEI, MAS NÃO DEVIA .
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Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia. A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor. . E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão. . A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem. A comer sanduíche porque não dá pra almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia. . A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos. E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração. . A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisava tanto ser visto. A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita. A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar. . E a ganhar menos do que precisa. E a fazer filas para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra. . A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes. A abrir as revistas e a ver anúncios. A ligar a televisão e a ver comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos. A gente se acostuma à poluição. . As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro. A luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam na luz natural. Às bactérias da água potável. A contaminação da água do mar. A lenta morte dos rios. . Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta. A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. . Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá. Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo. . Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado. . A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele. Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito. A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma. .
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MARINA COLASANTI
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Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 18 de março de 2010
Eu sei mas não devia - Marina Colasanti
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Eu sei, mas não devia - Marina Colasanti
EU SEI, MAS NÃO DEVIA
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Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamentos de fundos e a não ter outra vista que não as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E, porque não olha para fora, logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.
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A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar o café correndo porque está atrasado.
A ler o jornal no ônibus porque não pode perder o tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá para almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.
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A gente se acostuma à poluição.
À contaminação da água do mar. À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir passarinho, a não ter galo de madrugada, a não ter sequer uma planta.
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A gente se acostuma a coisas demais, para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
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A gente se acostuma para poupar o peito, para poupar a vida.
Que aos poucos se gasta, e que, gasta de tanto acostumar, se perde de si mesma.
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(Marina Colasanti - O pequeno livro das grandes emoções; Brasília, novembro de 2009)
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sexta-feira, 26 de junho de 2009
Eu sei, mas não devia -
| Assunto: | PARA ALÉM DO ARCO-ÍRIS... |
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| Data: | 26/Jun 11:45 |
| EU SEI QUE NÃO DEVIA, MAS FUGIR PARA ONDE? OS TENTÁCULOS DESTA SOCIEDADE ALONGAM-SE RASTEJANTES, COLANTES E FEDORENTOS, PROCURAM POR TODOS OS LADOS PESSOAS COMO EU E COMO TU QUE SONHARAM OUTRA VIDA E QUE A PROCURAM ANTES DE ENLOUQUECER...NÃO IREMOS DESISTIR...NÓS AINDA TEMOS AS LEMBRANÇAS DE CRIANÇA DE CORRER ATRÁS DO ARCO-ÍRIS....OS OUTROS JÁ ESQUECERAM, OS POBRES...CHEGAREMOS...EM ANEXO UM BEIJO . Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5) . EU SEI, MAS NÃO DEVIA . . | |