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sábado, 23 de janeiro de 2010

Uma Biblioteca Árabe no Brasil - Lejeune Mirhan *


 

Colunas

Vermelho - 24 de Setembro de 2009 - 19h52

Uma Biblioteca Árabe no Brasil

Lejeune Mirhan *

Nestes quase oito anos ininterruptos de coluna sobre Oriente Médio no Portal Vermelho, fizemos, na maior parte das matérias, análise sobre a situação política no mundo árabe. Algumas vezes falamos de poesia, cultura, tradições árabes. E apenas uma vez, fizemos uma entrevista. Desta feita, publicamos uma segunda entrevista com o Prof. Dr. Paulo Daniel Farah, da USP, um dos mais renomados arabistas e tradutores de árabe de nosso país.

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Quem é Paulo Daniel Farah?


Paulo Daniel Farah é Professor Doutor no programa de graduação e de pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Possui mestrado em Linguística e em Computação e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada. Fez pós-doutorado em História Social. Além de lecionar na FFLCH-USP, orienta diversas pesquisas em literatura, linguística, história e cultura árabe, em nível de pós-graduação, na própria USP.
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É autor de diversas obras, entre elas Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali (obra em português, árabe e espanhol). Rio de Janeiro, Argel, Caracas: Edições BibliASPA em co-edição com Fundação Biblioteca Nacional, Bibliothèque Nationale d’Algérie e Biblioteca Nacional de Caracas, 2007, 476 pp, ABC do Mundo Árabe (São Paulo: SM, 2006; traduzido para o espanhol e o francês e editado na América Latina e na Europa), O Islã (São Paulo: Publifolha, 2000) e Glossário de Termos Islâmicos (São Paulo: Cálamo, 1996), entre outras obras, e co-autor de Diálogo América do Sul - Países Árabes, de Por que nós brasileiros somos contra a guerra no Iraque e de Edward Said.
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Morou durante vários anos no Oriente Médio e na África, onde participou de diversos cursos de pós-graduação na área de literatura e história, incluindo a Universidade do Cairo, no Egito, a Universidade de Damasco, na Síria e a Universidade do Kuwait.
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Traduziu diversas obras do árabe, francês, inglês, alemão e quissuaíli, entre elas O Edifício Yacubian. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, de Alaa al-Aswani, e A terra nos é estreita e outros poemas. São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, de Mahmud Darwich, O Dicionário e Outros Contos de Machado de Assis (tradução do português para o árabe). São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, A Terceira Margem do Rio e Outros Contos de João Guimarães Rosa (tradução do português para o árabe). São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, O Beco do Pilão (São Paulo: Editora Planeta, 2003), de Naguib Mahfuz. Compreende, fala, lê e escreve em português, árabe, francês, quissuaíli, espanhol, inglês, italiano e alemão.
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É membro da Brasa (Brazilian Studies Association), co-fundador e membro da diretoria do grupo internacional de estudos árabes e islâmicos MELN. É também pesquisador do CNPq, onde atua como parecerista desse órgão e de outros (incluindo a Edusp e a Fapesp) e edita a Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-americanos (que pode ser lida no site www.bibliaspa.com.br).
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Diretor da BibliASPA (Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul - Países Árabes, www.bibliaspa.com.br), da qual participam acadêmicos de mais de 40 países que estudam literatura, linguística, antropologia e história, entre outras temáticas.
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Sobre a BibliASPA

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A BibliASPA foi formada a partir de 2003. Desde seu início, teve o intuito de realizar pesquisas, estimular a produção cultural e promover o conhecimento mútuo e a reflexão crítica entre árabes e sul-americanos, através de publicações, traduções e edições. Ela publica obras diversas, como a Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-Americanos, editada em cinco idiomas (árabe, português, espanhol, francês e inglês) e com um Conselho formado por especialistas de mais de 25 países.
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O portal deste centro de pesquisa (www.bibliaspa.com.br) promove, em mais de 20 seções, um fórum de debate aberto à participação de todos. O portal é totalmente trilíngue (português, espanhol e árabe), oferece obras eletrônicas na íntegra para leitura, possui seções de poemas, textos e artigos sobre temas das humanidades, como literatura, história, geografia, linguística, antropologia, sociologia, artes plásticas e cinema, entre outros.
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Na perspectiva de contemplar representações e reflexões, ademais de questionar visões de sociedade e do pensamento limitantes e que acabam por promover distâncias e exclusão, as Edições BibliASPA propõem-se a publicar textos que contemplem as principais áreas de conhecimento relacionadas às letras, artes e ciências humanas. A intenção é formar acervos bibliográficos especializados em temas sul-americanos, árabes e africanos a fim de suprir a carência nessa área.
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Entre as obras, a BibliASPA se destacou pela publicação de Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali, de Paulo Daniel Farah, que trata do relato de viagem pelo Brasil de um clérigo muçulmano no século XIX, no período do Império. Uma obra monumental em três línguas, publicada com apoio inclusive do Itamaraty.
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O Centro Educativo e de Formação da BibliASPA visa à conscientização social acerca das culturas representadas por meio de cursos diversos sobre música, literatura, história, linguística e dança, entre outros temas. Alguns exemplos de curso referem-se ao Curso de Música Árabe em seis módulos, Curso de História da África, em três módulos, o Curso de Contos Árabes, Africanos e Sul-Americanos, oferecidos a 200 estudantes e professores da rede pública de São Paulo e a públicos semelhantes em Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e outras cidades.
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Ademais, a BibliASPA organiza seminários, palestras, exposições de artes plásticas, fotografias, esculturas, apresentações de música e dança árabe, africana e sul-americana e mostras de cinema acompanhadas de debate. Para isso, congrega pesquisadores em mais de 40 países, de áreas diversas, que promovem o respeito à diversidade e ao multiculturalismo e procuram tornar o saber acessível ao maior número possível de pessoas. São diversas as linhas de pesquisa.
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A intenção é unir pelo conhecimento. Sabe-se que os estereótipos culturais e as representações politicamente motivadas acerca de árabes, africanos e sul-americanos só podem ter seu efeito negativo contrabalançado pela produção constante de saberes, embasados em pesquisas empíricas de qualidade, bem como pela disponibilidade em português/espanhol de textos representativos da produção cultural árabe e africana e, em idioma árabe, de textos representativos da produção cultural sul-americana.
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A entrevista com Paulo Daniel Farah
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Temos a honra de realizar esta entrevista. Você enobrece o povo e a nação árabe com seu valoroso trabalho de difusão da língua e da literatura árabe. Em primeiro lugar, queremos saber um pouco de sua trajetória, sua vida pessoal, suas origens árabes, sua família, seu nome, enfim, fale-nos sobre quem é Paulo Farah.
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Nasci em uma família de origem árabe que sempre prezou a leitura, o estudo e as artes. Entre outras pessoas importantes, admiro meu avô, por seus escritos que considero especiais tanto do ponto de vista formal quanto do de conteúdo. Era um homem bastante espiritualizado, e em minha família sempre houve – e continua a haver – uma diversidade religiosa marcada por respeito e aprendizado mútuo. Sabemos que contemos “multitudes”, para usar o termo de Whitman.
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Procurei desde cedo me dedicar à literatura, à música (toco alguns instrumentos) e à pintura. Tenho muito apreço pelo ensino, em ser educador, desde jovem, pois acredito plenamente na capacidade de transformação que a educação possui. Ainda na adolescência, lecionei em escolas de idiomas e de literatura e sempre procurei participar de projetos educativos.
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Conte-nos agora sua trajetória de jornalista, bem como a trajetória acadêmica, o mestrado, doutorado, pós-doutorado, o ingresso na USP.
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Ingressei no jornalismo jovem, escrevi, sobretudo a respeito de cultura, literatura, linguística, história, religião e política internacional. Fui editor de cadernos de notícias internacionais em jornais de grande circulação e fiz coberturas de conflitos, congressos, festivais artísticos e religiosos, entre outros.
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Minha trajetória acadêmica é marcada por cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior que tiveram importante papel em minha carreira e em minha atuação como educador e pesquisador.
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Na década de 1990, comecei a lecionar na universidade, depois de ter ensinado em diversos outros locais. Atualmente, leciono na graduação e na pós-graduação e oriento vários alunos na iniciação científica e na pós-graduação, além de escrever artigos acadêmicos e livros e redigir pareceres.

Você já possui diversas obras publicadas, por várias editoras. Fale-nos um pouco delas todas, a qual gostou mais, a que mais lhe deu trabalho ao escrever.
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Escrevi obras de ficção e de não-ficção, muitas delas com o objetivo de mostrar que as identidades múltiplas do humano devem ser respeitadas e valorizadas. Entre as obras que publiquei, posso destacar algumas pelas quais nutro um afeto especial. ABC do Mundo Árabe foi traduzido para o espanhol e o francês e recebeu prêmio literário, O Islã procura demonstrar que não existe um choque de civilizações, mas um choque de desconhecimentos e Por que nós, brasileiros, dizemos não à guerra no Iraque teve como intuito demonstrar a insanidade da guerra. O livro Deleite do Estrangeiro em Tudo o que é Espantoso e Maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali reúne a tradução anotada e o estudo de um manuscrito do século XIX sobre a estada do imã bagdali Abdurrahmán al-Baghdádi no Brasil. Após chegar a bordo de um navio do Império Otomano, morou no Rio de Janeiro, em Salvador e Recife ao longo de três anos, em meados do século XIX.
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Redigido em caracteres árabes, o manuscrito contém termos em árabe, turco otomano, persa, francês, grego, português e tupi. Constitui o principal documento acerca da situação dos muçulmanos no Brasil no século XIX, especialmente após o levante dos malês (1835), muçulmanos de origem africana que lideraram a principal revolta de escravos urbanos das Américas, o levante dos malês, em 1835, na cidade de Salvador. Trata-se também do único registro até agora conhecido de um olhar árabe - e muçulmano - sobre a paisagem tropical e a sociedade multiétnica e multiconfessional que se formava à época no Brasil.
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No manuscrito, o imã discorre ainda sobre a fauna, a flora, as tradições e as populações brasileiras sob o prisma de um erudito. A obra, editada pela Biblioteca América do Sul - Países Árabes (BibliASPA), em co-edição com as Bibliotecas Nacionais de Argel, Caracas e Rio de Janeiro e a Biblioteca Ayacucho (Venezuela), reproduz todo o manuscrito original. Inteiramente trilíngue, em árabe, português e espanhol, faz-se introduzir por textos de análise e comentário e possui um caderno de imagens do século XIX.
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Erudito muçulmano que estudara árabe, persa, literatura, jurisprudência e teologia, entre outras disciplinas, Al-Baghdádi veio ao Brasil do Oitocentos em um navio a vapor do Império Otomano. A corveta, enviada em 1865 (1282 da hégira) pelo sultão Abdulaziz (1277-1293 da hégira ou 1861-1876 d.C.), de Istambul a Basra, teve sua rota desviada por uma série de tempestades (segundo seu relato) e veio a aportar no Rio de Janeiro, onde o imã árabe decidiu permanecer após identificar na cidade a presença de muçulmanos de origem africana.
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Convidado pela comunidade muçulmana da Bahia e de Pernambuco a prolongar a missão de cunho didático que atribuíra a si e o fizera abandonar o vapor para instalar-se na capital do Império do Brasil, ao passo que seu comandante prosseguiu rumo a Basra, Al-Baghdádi continuou seu périplo e relato, no qual descreve, de forma minuciosa e especializada, as práticas e as crenças da comunidade muçulmana e, em particular, dos remanescentes dos malês na Bahia.
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Fonte de informação histórica, geográfica, antropológica, política, religiosa e literária sobre o Brasil, a África, os árabes e os otomanos, este manuscrito apresenta uma linguagem rebuscada e poética. No relato de Al-Baghdádi, o africano escravizado e o índio ocupam um lugar especial, em uma época marcada pela Guerra do Paraguai (1864-1870) e pela guerra civil norte-americana (1861-1865), à qual faz alusão em seus escritos.

A tradução anotada desse testemunho detalhado que abrange cerca de três anos (como atestam os três Ramadãs que Al-Baghdádi jejuou no Brasil) e a pesquisa minuciosa integram um esforço de ampliar as pesquisas e a produção de conhecimento acerca da América do Sul, dos países árabes e da África.
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Há também um conjunto de traduções já feitas no Brasil direto do árabe, sob sua responsabilidade direta. Fale-nos sobre essas obras, de como você as seleciona no mundo árabe e do grau de dificuldades nesses trabalhos.
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Temos a preocupação de selecionar obras de épocas distintas com o intuito de demonstrar que a cultura árabe já produziu importante reflexão crítica e que continua a fazê-lo. Dessa forma, trabalhamos com obras escritas um milênio ou alguns anos atrás. A intenção tem sido publicar obras traduzidas diretamente do árabe (ou do português para o árabe) e contemplar distintas áreas do conhecimento.
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São diversas as obras traduzidas. Para citar algumas mais recentes, traduzimos pela primeira vez para o árabe João Guimarães Rosa e Machado de Assis, autores que têm sido muito bem recebidos pelos leitores de expressão árabe.
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Como sabemos, Guimarães Rosa utiliza-se de arcaísmos, regionalismos, indigenismos, neologismos e onomatopéias; revela-se, assim, um dos escritores que mais se utilizam das potencialidades da língua portuguesa. Nesta tradução, procuramos reproduzir essas características, seus experimentos linguísticos, e preservar ao máximo a riqueza lexical nas denominações da fauna e da flora. Para citar um exemplo, em “Famigerado”, ao descrever os três cavaleiros que observavam à porta o médico inquirido, o escritor diz que estavam “mumumudos”. Em árabe, repetimos a primeira sílaba do vocábulo correspondente três vezes e procuramos explicar em nota de rodapé que o autor lançou mão da repetição para permitir que o leitor observasse cada uma das personagens.
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A importância que Guimarães Rosa atribui à linguagem é tão expressiva que esse é o tema do conto citado, no qual o conhecimento e o domínio linguístico determinam as posições sociais. E o poder da força (Damásio) opõe-se ao poder da instrução e do saber.
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Já a obra de Machado de Assis abrange praticamente todos os gêneros literários. Jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, na contística refletiu sobre a cultura popular urbana e retratou o ambiente político, cultural e social do Rio de Janeiro no século XIX e na virada para o século XX. No decorrer do quase meio século da produção literária de Machado de Assis, de 1864 até sua morte, o Brasil testemunhou um ciclo de modernização, que aparece na obra do autor com suas contradições e dilemas. Em seus romances e contos, além das crônicas, pode-se acompanhar a história do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil e microcosmo de sua história urbana.
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Algumas outras obras traduzidas são O Beco do Pilão, de Naguib Mahfuz (Prêmio Nobel de Literatura em 1988), Poemas de Mahmud Darwich, descrito por Edward Said, em Reflexões sobre o exílio, como um “artista que dá voz a exilados enraizados e às dificuldades dos refugiados presos em armadilhas, a fronteiras em dissolução e identidades em mudança, a exigências radicais e novas linguagens”, e o romance Homens ao sol, de Ghassan Kanafani. Publicado em 1963, é um marco da literatura árabe e palestina – descrito por alguns críticos como a principal criação literária palestina. A caracterização das personagens é complexa e abriu caminho para uma tendência no romance palestino.
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A obra narra a história de três palestinos que não se conhecem, mas que estão, ao mesmo tempo, em Basra (Iraque), de onde tentam cruzar ilegalmente a fronteira para o Kuait. Cada um deles descobre que não pode pagar o preço exigido pelos contrabandistas profissionais e tenta, à sua própria maneira, descobrir um meio de partir, até que finalmente se encontram uns aos outros e ao contrabandista que se oferece para levá-los ao Kuait por um valor menor, mas ainda elevado. Esse contrabandista, Abul-Khayzuran, é motorista de um caminhão-pipa que pertence a um rico comerciante kuaitiano.
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O plano de Abul-Khayzuran para contrabandeá-los do Iraque para o Kuait mostra-se simples. Como ele é obrigado a voltar com o caminhão vazio para o Kuait, pode levar os três homens. Durante a maior parte da viagem, eles vão ao seu lado na cabine, mas, um pouco antes da fronteira, devem se esconder dentro do tanque de água vazio. Depois de a polícia conferir seus documentos e ele se distanciar um pouco da fronteira, eles podem sair e completar a viagem ao seu lado. Os três palestinos não gostam do plano. Abu-Qays, o mais velho, não ficara satisfeito desde o início, pois compreende que é uma aventura extremamente arriscada. Ele está mais inclinado a viajar com um contrabandista profissional, apesar do preço exorbitante. Marwan, o mais jovem, se sente confuso e não consegue se decidir. Assim, recai sobre As‘ad, o mais consciente politicamente, a responsabilidade de tomar a decisão.
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As‘ad faz Abul-Khayzuran admitir que seu trabalho não é realmente o de transportar água, mas, sim, o de contrabandear mercadorias para o comerciante kuaitiano. O tráfico de seres humanos é um trabalho que lhe proporciona uma renda extra. O fato de que Abul-Khayzuran admite realizar essas atividades ilegais e aceita receber o pagamento na chegada ao Kuait, não antes (como exigira insistentemente desde o início das negociações), dá autoridade a As‘ad para fazer com que Abu-Qays e Marwan concordem com a decisão que ele próprio tomou. Ele aceita o risco porque, na verdade, não tem outra escolha.
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Abul-Khayzuran diz “prestar um serviço” aos outros ao promover o tráfico de seres humanos. Garante que já fizera isso antes com sucesso. Nessa viagem, contudo, sua sorte muda. Enquanto o caminhão fica exposto ao sol do deserto, os burocratas da fronteira começam a fazer piadas sobre a vida sexual de Abul-Khayzuran. Suas tentativas de encerrar a conversa dos oficiais da fronteira são inúteis e, quando ele retorna ao caminhão, dirige-o por uma curta distância e pára para abrir o tanque, mas já é tarde demais. Os três homens estão mortos, sufocados.
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Ferido pelo remorso, inicialmente ele planeja oferecer um enterro decente aos corpos, mas o choque da tragédia logo se dissipa e ele decide que é mais fácil descarregar os corpos, na calada da noite, em um depósito de lixo municipal nos arredores da cidade do Kuait. Ele faz isso, mas não antes de roubar o relógio de Marwan e de despojar os outros corpos de todas as suas escassas posses. Dessa forma, ele os deixa tão pobres e anônimos na morte como foram em vida.
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As quatro personagens palestinas do romance – Abu-Qays, As‘ad, Marwan e Abul-Khayzuran – pertencem a quatro faixas etárias diferentes e fornecem, assim, uma amostra significativa do povo palestino.
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Uma série de flashbacks introspectivos familiariza o leitor com o passado das personagens ao oferecer uma descrição de seus sonhos, esperanças, objetivos e medos mais íntimos. Homens ao sol enfatiza, além disso, a futilidade do esforço dos refugiados palestinos em procurar um novo lar, um novo futuro e uma nova identidade fora da Palestina. A tentativa de buscar trabalho no exterior passa pela provação do deserto entre Basra, no Iraque, e o Kuait, mas o deserto não leva à redenção. Ao contrário, sufoca até a morte os que vêm da Palestina. O autor afirma que é preciso vencer o deserto para chegar à Palestina, não para abandoná-la.
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O deserto causticante em Homens ao Sol representa uma antítese à terra na qual as personagens viveram um dia, um não-lugar, uma negação de sua própria existência. Os pensamentos das personagens transitam rapidamente entre o presente e o passado conforme o sol e a areia brilhante do deserto atacam a consciência. Em um trecho do livro, o sol brilhante se torna a luz da sala de operações na qual o contrabandista palestino acordara após a batalha na qual se ferira em 1948. Em outro momento, a areia molhada próxima ao canal do Chatt Al-‘arab torna-se o solo umedecido pela chuva do campo perdido de Abu-Qays.
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No próximo mês, será publicada a importante obra Rihla, de Ibn Battuta. Nascido em Tanger, Muhammad Ibn Battuta (1304-1368) viajou durante mais de 30 anos por uma parte considerável da África, da Europa e da Ásia. Vinha de uma família de jurisconsultos que praticavam a profissão em Marrocos e na Andaluzia. Em sua juventude, Ibn Battuta aprendeu as ciências religiosas e jurídicas – exegese corânica, as tradições do Profeta (ahadith), gramática, retórica, teologia, lógica e direito. E logo se revelou um alim (sábio).
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A civilização islâmica era altamente cosmopolita no século XIV em dois aspectos. Em primeiro lugar, as cidades islâmicas tinham as populações mais heterogêneas de habitantes e visitantes transitórios do mundo. Isso se aplicava especialmente às cidades do interior do mundo islâmico, em parte porque a região entre o Egito e a Pérsia (denominada atualmente de Oriente Médio) era geograficamente o local através do qual passavam as rotas comerciais entre o Ocidente e o Oriente. Árabes, persas, judeus, curdos, berberes, turcos, gregos, italianos e catalães viviam em Damasco, Alepo, Jerusalém, Tabriz, Alexandria e Cairo.
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Entre os viajantes que se dispunham a enfrentar as trilhas de caravanas e as rotas marítimas do século XIV, os muçulmanos predominavam. Como as terras do Islã dominavam o centro do hemisfério oriental, os mercadores e os sábios muçulmanos se moviam por entre as maiores regiões da Eurásia e da África. Muitos faziam a peregrinação sagrada a Meca (o hajj) e Medina, na Arábia, uma jornada que um peregrino pobre podia levar vários anos para realizar. Outros ainda viajavam como emissários diplomáticos, mensageiros imperiais, místicos, andarilhos ou estudiosos em busca de livros e professores renomados.
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O internacionalismo islâmico também era evidenciado na vida coletiva dos ulemás, os muçulmanos versados na lei e na religião. De acordo com a tradição islâmica, valorizavam-se os indivíduos que viajavam para fazer o hajj ou para aprimorar a sua educação nas ciências religiosas. Ibn Battuta iniciou sua viagem com o intuito de realizar a peregrinação para dedicar-se ao estudo da geografia, da história e das sociedades que visitava.
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Os muçulmanos letrados do norte da África (caso de Ibn Battuta) ou do sul da Espanha estavam particularmente inclinados a fazer longas viagens ao exterior, em parte para realizar as obrigações religiosas do hajj, em parte para fazer viagens de estudo a outros centros de saber, como o Cairo, Damasco e outras cidades universitárias do Oriente Médio.
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Ibn Battuta testemunhou acontecimentos trágicos como a Peste Negra e os problemas econômicos, os colapsos políticos e as transformações sociais que dela advieram. Viu e analisou mais do Dar al-Islam (as terras do Islã) do que qualquer outra pessoa já vira anteriormente. E viajou também entre territórios não-muçulmanos.
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A “Rihla” representa ainda o único relato de testemunha ocular que temos sobre as cidades-estado da África oriental e o império mali no século XIV; seu relato inclui descrições detalhadas do governo real desse império.
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O relato de Ibn Battuta sobre as cidades da África oriental de Mogadishu, Mombasa e Kilwa é extremamente informativo historicamente. Suas descrições de Damasco, Jerusalém, Meca, Kufa (no atual Iraque), Cairo e muitas outras cidades testemunham de forma ímpar os eventos históricos, as paisagens, a arquitetura, as culturas e o modo como essas sociedades viviam; de fato, muitas das tradições por ele retratadas e dos cenários por ele descritos se mantêm. Por essas razões, a obra que descreve seu périplo de 30 anos tornou-se uma referência fundamental para geógrafos, historiadores, críticos literários, lingüistas e antropólogos, entre outros.
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Agora, queremos saber um pouco da BibliASPA, de como surgiu essa ideia, de quais países principais estão dando apoio, dos grandes projetos que você tem para os próximos anos. Soube inclusive que a Biblioteca terá uma nova sede nos próximos meses, onde será possível realizarmos cursos, exposições, passarmos filmes árabes.
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A BibliASPA surgiu da constatação da existência de uma grande carência por ações na área da cultura e da educação vinculadas a temas árabes, africanos e sul-americanos. Entre seus objetivos, propõe-se a promover a integração entre entidades (não-sectárias) ligadas à literatura, às humanidades e à cultura, em geral, e à cultura sul-americana, árabe ou africana, em participar; promover a aproximação e o conhecimento mútuo entre a América do Sul, a África e os países árabes; incentivar a reflexão crítica, a pesquisa, a produção e a difusão de saberes entre as regiões envolvidas e aprofundar a pesquisa sobre a presença árabe na América do Sul (temos muitos projetos nesse campo).
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Quanto à nova sede, com certeza continuará a desenvolver e intensificará a realização de cursos, palestras, mostras de cinema e exposições, pois de fato há muito que fazer nessa área.
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São muitos os países que atuam neste projeto, em diversas instâncias. A participação de importantes intelectuais, tanto no Brasil quanto no exterior, desde o início foi essencial. Edward Said, com quem tive a oportunidade de conversar, entre outros temas, sobre essa necessidade de refletir criticamente a respeito dessas temáticas fundamentais, foi um dos incentivadores para que esse processo ocorresse.
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A BibliASPA tem atraído apoios importantes em universidades e centros de cultura e pesquisa, ademais de órgãos governamentais e não-governamentais. O lançamento do livro Deleite do Estrangeiro em Tudo o que é Espantoso e Maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali, por exemplo, contou com a presença do então ministro da Cultura, Gilberto Gil, e do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Nessa ocasião e em outras, ambos enfatizaram a importância do projeto. Sem dúvida, o respaldo e o interesse têm sido muito claros.
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Convido a todos a acessar nosso portal, a ler a Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-americanos e a participar de nossas atividades. Será um prazer conversar com os interessados. Ahlan wa Sahlan!
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Gostaríamos agora de falar um pouco de política em geral. É possível difundir a cultura milenar árabe sem entrar em questões políticas que tanto envolvem os países no Oriente Médio? Como é o seu engajamento pessoal nas questões de solidariedade ao povo árabe em geral e aos palestinos em particular?
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Generalizações indevidas caracterizam, na maioria das vezes, a visão que europeus e norte-americanos têm dos países árabes. E a representação que se faz dessas culturas com frequência têm objetivos políticos de deturpação.
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Quanto maior o afastamento, mais distantes da realidade se revelam as representações.
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Uma forma clara de aproximação passa pelo respeito de ambas as partes e por políticas externas que não privilegiem um determinado grupo unilateralmente. Nesse sentido, é fundamental implementar as resoluções internacionais da ONU, por exemplo, no que diz respeito à Palestina, para garantir a desocupação dos territórios ocupados, um Estado viável e uma convivência pacífica entre os diversos grupos.
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A Assembléia Geral ou o Conselho de Segurança da ONU já aprovou diversas resoluções referentes à questão palestina que propõem uma solução pacífica para o conflito que leve ao fim da ocupação; é necessário implementá-las o quanto antes.
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Os eventos que sucederam à criação de Israel tiveram um triste impacto sobre o povo palestino. Ao final do processo inicial de desapropriação, mais de quatrocentas cidades e aldeias árabes da Galiléia, da região costeira, da área entre Jaffa e Jerusalém e da região sul da Palestina tinham sido despovoadas. 
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Uma questão central é identificar (e buscar soluções para) questões cruciais do conflito, entre as quais: Jerusalém, os recursos hídricos e os refugiados.
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Entendo que uma solução pacífica para a questão da Palestina e que restitua os direitos de seu povo terá consequências positivas para a região e para o mundo todo e reduzirá instabilidades e focos de conflito, além de significar o reconhecimento e a valorização do humano.

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* Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, escritor, arabista e professor. Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association.
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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  • Paulo Farah

    14/10/2009 7h21
    Adorei conhecer Paulo Farah. Gostaria que ele, ou alguém com quem tenha contato, me indicasse onde encontrar artigos sobre a história do povo árabe, em Português, se possível. Se a fonte estiver na internet, tanto melhor; favor indicar o "caminho".Eu escrevo para vários jornais virtuais e gostaria de escever algo interessante e inédito, se possível, sobre o povo ou folclore (melhor seria)árabe.Alguém me ajuda?
    ACAS
    São Paulo - SP
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sexta-feira, 21 de março de 2008

Maomé, líder e profeta de um povo


por Lejeune Mirhan*

Esta coluna, que completou em 28 de março quatro anos ininterruptos de artigos (194 no total), tratou ao longo desses anos de temas diversos, seja sobre os palestinos, sobre a situação do Iraque, Síria, Israel, mas também sobre a Turquia e Irã. Comentamos vários livros, artigos de autores conceituados. Falamos também o Islã, religião que mais cresce no mundo hoje e já supera, em termos de adeptos, a católica (mas não ainda os cristãos de todas as confissões).



Maomé no cavalo alado
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Esta coluna, que completou em 28 de março quatro anos ininterruptos de artigos (194 no total), tratou ao longo desses anos de temas diversos, seja sobre os palestinos, sobre a situação do Iraque, Síria, Israel, mas também sobre a Turquia e Irã. Comentamos vários livros, artigos de autores conceituados. Falamos também o Islã, religião que mais cresce no mundo hoje e já supera, em termos de adeptos, a católica (mas não ainda os cristãos de todas as confissões). O perfil da coluna não é acadêmico. Ela se caracteriza por artigos curtos, sem muitas citações, quase que jornalísticos ou de reportagens curtas.
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Hoje, resolvemos falar sobre um personagem que marcou a história não só dos povos árabes, mas inseriu seu nome na história mundial: Maomé. A melhor forma de escrevermos o nome do Profeta do Islã deveria ser Mohammad, como em alguns momentos já o fizemos. No entanto, a grafia ocidental de Maomé esta amplamente difundida e assim a usaremos.
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As pessoas sabem que não sou um crente. Como dizia Isaac Asimov, grande cientista e ficcionista, posso dizer que tenho fé e crença, mas minha fé e mina crença partem do princípio de que todas as coisas do Universo são explicadas pelas leis gerais que regem esse próprio Universo. Essa é a minha fé e minha crença.
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Também aqui, para falar de Maomé, eu o faço como sociólogo, como estudioso das relações sociais e a própria religião que ele criou e se desenvolveu, deve ser estudada como um fenômeno social, objeto de estudo dos sociólogos. E, claro, para falarmos desse árabe do século VI e VII, devemos também ter olhos de historiador, procurando entender o contexto em que as suas revelações divinas teriam ocorrido e as transformações que elas acarretaram nos povos da região da Arábia, os impactos sociais, políticos e econômicos.
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A origem, em Meca
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As datas não são precisas, mas Maomé deve ter nascido no em 29 de agosto de 570, do calendário cristão. Já nasceu órfão de pai e com seis anos fica órfão também de mãe. Foi criado por seu avô Abd Al Muttalib e integrava a tribo mais importante e tradicional de Meca, que era a dos coraixitas. Uma espécie de classe dominante, classe alta. Dentro dos coraixitas, pertencia ao clã de Beni Hashemi, um ramo um pouco mais pobre da tribo. Conta uma tradição religiosa que logo quando era criança, teria avistado dois seres iluminados, que teriam retirado de seu peito um coágulo negro, que o teria salvado (1). Mas também Muttalib morreu em seguida, e Maomé passou à tutela de seu tio, também poderoso, Abu Talib.
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A cidade de Meca era uma espécie de parada obrigatória das caravanas de comércio que vinham da Índia e rumavam para a Europa, atravessando o Mediterrâneo. Ainda que localizada no deserto da Arábia, hoje Saudita, tinha vários oásis por perto sendo que o mais famoso deles era a cidade de Yathrib, hoje chamada de Medina, onde Maomé teria se abrigado depois de tantas perseguições a que sofreu depois do início de sua pregação como profeta de Deus aos 40 anos. Por uns anos, abrigou-se na vizinha Abissínia, que era dominada por cristãos, que também o receberam bem. A sua estada em Medina foi um exílio e inicia-se em 622, quando ele tinha apenas 42 anos. Essa data, conhecida como a Hégira, para os muçulmanos é considerado o ano 1 do seu calendário, que é lunar e não solar como o nosso (o ano lunar tem 11 dias a menos que o solar, ainda que seus meses sejam em número de 12 como o nosso).
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As revelações
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A vida de Maomé não era diferente de outros jovens de família abastada. Logo iam aprender o comércio e integravam as caravanas que saiam de Meca ou que por ela passavam. Os lucros dessas expedições deveriam ser guardados e bem planejados para um e dois anos até, pelo fato que tais trabalhos eram demorados e não eram rotineiros.
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Já com 25 anos, Maomé decide se casar com Khadija, uma mulher bonita, viúva e sem filhos, e muito rica para os padrões locais. Maomé passa a administrar uma espécie de central comercial que ela tinha e ganha bastante dinheiro com isso. Com Khadija tem quatro filhas mulheres e dois homens, mas estes morrem quando criança. Mesmo entre as mulheres, apenas Fátima lhe deu netos. Ela se casa com um primo de Maomé, Ali, que se tornaria o seu quarto sucessor, conhecidos como Califas (os filhos de Fátima e Ali, que se chamavam Hassan e Hussein, são considerados pelos xiitas, uma espécie de fundadores dessa corrente religiosa).
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Maomé era conhecido como um dos homens mais íntegro de sua tribo. Mas também religioso. Gostava de fazer meditações, especialmente em uma montanha chamada Hira, nas proximidades de Meca. Foi exatamente numa dessas longas meditações, que ela relata um fenômeno que lhe teria ocorrido. O arcanjo Gabriel aparece a Maomé. Como sabemos, Gabriel, na literatura bíblica é o mesmo que aparece para a Abrahão e lhe pede que sacrifique seu filho e o que anuncia para Maria, que ela seria mãe de Jesus. O arcanjo pede que Maomé leia um pergaminho em seda escrito em árabe que lhe é entregue. Maomé, espantado e apavorado diz que não sabia ler, quando o anjo recita a primeira Sura do que viria a ser o Corão, livro sagrado dos muçulmanos, que é chamada de Shahada (é quando os muçulmanos declaram a sua profissão de fé, tanto em um só único Deus, que é Alá, como em seu Profeta e Mensageiro, que é Maomé). Nesse momento histórico, a ocorrer como Maomé relatou a seus seguidores, ele teria sido então ungido por Deus como o último dos Profetas do chamado ramo abrâmico, que fecharia o ciclo profético com as revelações que, a partir desse momento, lhe seriam feitas.
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Há riqueza de detalhes na descrição desse processo de revelações e são várias as fontes. Maomé entrava em um transe, perdia peso, suava muito, enfim, era um extremo desgaste. Isso é típico de estados de transe, sejam eles de qualquer ordem. A mente fica concentrada em uma só fato e isso gera grande perda de energia. As suas revelações eram transmitidas ao seu círculo mais íntimo da família e podemos dizer que sua esposa, Khadija, pode ser considerada, portanto, a primeira muçulmana da história, pois foi a que primeiro teve contato e sua grande incentivadora para que revelasse ao mundo o que o anjo Gabriel estava lhe contando.
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Os primeiros anos foram muito difíceis. Isso porque a cidade de Meca era pagã, idólatra, ou seja, viviam em um sistema politeísta, adoravam vários deuses e ícones, estátuas. Dentro da pedra negra, chamada de Caaba, que se supõe ter sido construída por Abrahão, a partir de um meteorito que caiu na terra, estavam vários símbolos de divindades pagãs. As deusas mais importantes da região eram Al Ozza, Al Lât e Manât. A pregação de Maomé caminha na linha do judaísmo e do cristianismo, da qual ele recebe influência pelas tribos que viviam tanto em Meca como em Medina (que, em árabe, quer dizer literalmente “cidade do profeta”). A região como um todo era completamente avessa ao monoteísmo e isso dificultou os primeiros anos da vida do Profeta.
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Como ocorreram com os profetas que o antecederam (e o Corão fala em 25 profetas), todos foram desacreditados pelos fiéis. Estes, como na maioria dos casos, sempre exigiram realizações de milagres e, na maioria das vezes, isso não ocorria. No caso de Maomé, nunca ocorreu. Ele não se proclamava, como Jesus, “filho de Deus”, mas simplesmente o Profeta de Deus (2).
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Assim, ele nunca participou de cura alguma. Sua pregação era religiosa, mas também se relacionava com costumes que eram novos para a época e para a região. E eram avançados para a sua época, como a pregação da igualdade e o desprendimento das pessoas, a exigência de que estas deveriam repartir as coisas com as pessoas e deveriam ser desprendidas com relação à suas propriedades (ainda que reconheça o direito a tê-las).
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A cidade escolhida, Medina, lhe acolhe muito bem. Boa parte de seus moradores, quando ele chega por lá no seu exílio, a partir de 28 de junho de 622 (data da Hégira, que em árabe quer dizer exílio), já estão convertidas ao Islã, à exceção dos que são cristãos e judeus que seguem com suas próprias profissões de fé. Todos oferecem suas casas, mas Maomé prefere construir uma nova, que seria a atual mesquita da cidade, a mais importante.
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A consolidação do Islã
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Tal qual outras grandes religiões, o Islã começa frágil, mas pela extrema habilidade, desprendimento, humildade entre tantos outros valores que Maomé tinha, os adeptos vão aumentado a cada dia. No entanto, a expansão das idéias do Islã não ocorre pacificamente. Ainda que o plano inicial de Maomé fosse no sentido de que as revelações seriam apenas para os árabes, ela se expande para outros povos e outras regiões da terra, na Ásia e África e parte da Europa. Essa expansão se dá mais depois da morte do profeta em 532, pelos quatro Califas que o sucederam (são os “bem guiados”), que foram, pela ordem Abu Baker, Omar, Othman e Ali. A expansão ultrapassa a península arábica, estende-se ao Norte da África, conhecida como Maghreb, atravessa o mediterrâneo na península ibérica e à Leste da Arábia, ganha a Índia e parte da China.
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Essa expansão se dá pela combinação de vários fatores, mas fundamentalmente pela personalidade do Profeta, pelas idéias que ela difundia e pela força da armas. Alguns autores chamam o Islã da “religião guerreira”. Esse fenômeno é observado também pelo cristianismo. No entanto, há que se registrar historicamente que o Islã é de todas as religiões, a mais tolerante delas. Certa vez o sociólogo francês, Gustave Le Bon, disse que é verdade que não existiu nenhum império “bonzinho”, mas entre todos, o menos ruim, que causou menos dados aos povos conquistados, foi o Árabe-Muçulmano.
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Aqui também há que se levar em conta a habilidade do Profeta, sua diplomacia, os acordos que estabelecia – e os cumpria à risca. Também aqui pesaram até alguns de seus 11 casamentos (ainda que o Corão fale em que o muçulmano possa ter só quatro esposas, uma revelação especial foi feita pelo anjo Gabriel para permitir que o Profeta casasse mais vezes).
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Maomé usa a força da religião para impor novos costumes, novas idéias, uma nova moral e novos valores a um povo que vinha de uma situação de adoração de imagens e estátuas, que era idólatra. Introduziu hábitos saudáveis de higiene e saúde. Exemplo disso são as cinco vezes ao dia que os fiéis devem se lavar antes das suas orações. Veja o aspecto interessante sobre alimentação. Maomé proibiu o consumo de carne de porco (que já havia alguma restrição antes, mas não era vedado). Numa região em que a temperatura média é de 40 graus imaginem o quanto mal faz o consumo dessa carne, ainda mais criado na época sem quase nenhum rigor higiênico.
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Os estudiosos do Corão (que em árabe quer dizer “revelação”) costumam dividir as Suratas reveladas, que são 114 ao todo, com mais de seis mil versículos, em quatro grandes blocos: as que tratam da crença e da fé (Al Agida), as que tratam do culto em si (Al Ibáda), as que tratam da moralidade (Al Akilád) e por fim, as que tratam das relações sociais entre as pessoas (Al Muamalád). Este quarto bloco é que normatiza as relações entre as pessoas, entre os cidadãos, trata dos direitos e deveres, aborda a questão da propriedade, fala dos direitos da mulher – pela primeira vez no século VII -, fala do casamento, da herança, do divórcio e tantas outras normas e questões sociais. Para a sua época e em certa medida ainda nos dias atuais, pode-se dizer que a mensagem do Islã é uma mensagem progressista, avançada, igualitária e libertária. Não é de se estranhar que hoje o imperialismo norte-americano tenha ódio mortal dessa religião e de seus seguidores. Além do livro sagrado dos muçulmanos, existem dois outros que são importantes: a Sunna, que trata das tradições e do comportamento do Profeta e os Haddits, que trata das palavras do Profeta e seus atos, descritos a partir de seus principais seguidores. Tal qual os livros sagrados do cristianismo, o Corão só foi sistematizado na forma atual, entre os anos de 650 e 656 da nossa era, ou seja, pelo menos entre 18 e 24 anos da morte do Profeta, sob o Califado de Othman, o terceiro Califa Hashidun (em árabe, “bem guiado”).
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Na fase final de sua vida, Maomé mostrava-se um homem cada vez mais desprendido de coisas materiais. Ainda que muitas batalhas tivessem sido necessário para a conquista das cidades na região da Arábia, uma a uma elas foram se convertendo ao domínio do Islã e respeitando as orientações e as normas emanadas do Profeta. A sua última peregrinação à Meca, saindo de Medina, acompanhado de mais de 80 mil fiéis, mostra a consolidação da sua liderança como chefe religioso, como chefe político e militar de um povo que agora tinha um rumo, um norte, orientações clara e unificadoras de sua maneira de ser, ainda que emanadas de preceitos religiosos, mas também sociais e até econômicos. Meca foi completamente subjugada, prostrou-se completamente ante ao Profeta Maomé. Nessa entrada triunfal na cidade, nenhum tiro foi disparado. Os primeiros fiéis que emigraram com ele reencontraram seus familiares, foi uma grande confraternização, uma festa. Os seguidores de Maomé, que o observam em tudo que ele fazia, viram que ele adentrou a cidade com apenas um manto branco, simples e despossuídos de todas as roupas do corpo e andando à pé. Adentro na pedra negra da Caaba, e lá dentro destruiu todas as imagens que ainda lá estavam. Nesse sentido, também é um avanço com relação a outras religiões, como a católica e as ortodoxas, que adoram imagens e ícones.
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Maomé na história
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Acho que ainda a história, pelo menos a Ocidental, não fez justiça ainda a essa figura chamada Maomé. Sua morte em 632, aos 62 anos, fez consolidar um império que seria um dos maiores que a história conheceria, mas até hoje, de meu ponto de vista, ele não é estudado e reconhecido como a dimensão que deveria ter tido desde então.
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Diferente de Jesus e os que o antecederam, outros profetas judeus e mesmo Gautama Sidarta, da religião budista, onde quase não há registro histórico algum de suas existências, no caso de Maomé, esta fartamente documentado. Seu túmulo é local de peregrinação, a sua casa é uma mesquita e seus atos foram amplamente documentados por historiadores. Mensagens que ele enviou estão guardadas em locais sagrados os islamismo.
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De qualquer forma, independente disso, a sua figura contribuiu para o desenvolvimento da região,seja do ponto de vista econômico, seja político e social. As idéias que ele pregou, para a época foram avançadas, como a abolição da escravidão e a repartição dos bens, com a ajuda aos mais pobres. Os direitos que ele defendeu para as mulheres são avançados para a sua época, ainda que precisem ser atualizados para os dias atuais (os povos árabes ainda são extremamente patriarcais).
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Maomé, como já dissemos, não era um super-homem, nem se proclama filho de Deus. Tinha seus defeitos, seus problemas, suas dores e suas doenças. Gostava das mulheres e cuidava bem delas, desposando-as corretamente dentro das normas e leis islâmicas (Roger Garaudy, ex-membro do Partido Comunista Francês, convertido ao Islã, afirma que a legalização da poligamia nessa religião desfaz a hipocrisia da monogamia professada pelos cristãos, pois legaliza as amantes perante a sociedade).
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Sua morte em 632, por mais que ele se proclamasse um simples mortal, acabou por abalar e transtornar todos os árabes da península. Em seus últimos momentos de vida, acometido de febre muito alta por dez dias seguidos, ele foi cuidado por Aisha, uma de suas esposas. Mas, antes de morrer, ainda lúcido, indicou Abu Baker para conduzir as últimas preces, fato que o fez seu primeiro sucessor no comando do já imenso Império Árabe-Islâmico. Reuniu suas últimas forças para assistir a essas orações, em 8 de junho de 632, o que causou um grande furor em Medina, quando se espalhou essa notícia de sua recuperação.
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Mas não. Voltou aos braços de sua esposa. Deixo aos leitores a descrição de sua morte, nas palavras de Barnaby: “Na madrugada do décimo dia de sua febre, Maomé arrastou-se para fora do quarto de Aisha com enorme força de vontade para participar das preces. A notícia dessa melhora parcial espalhou-se por Medina como um rastilho de pólvora. Ele voltou ao quarto de Aisha logo depois, deitou a cabeça em seu colo e segurou a sua mão com firmeza. Ficou deitado, imóvel, enquanto a febre subia durante a manhã. Então Aisha sentiu que a cabeça dele ficou mais pesada e ouviu-o dizer ‘Senhor, concedei-me o perdão’. O aperto em sua mão afrouxou-se. O Profeta tinha deixado este mundo” (página 250 da biografia citada).
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(1) Revista História viva, Duetto Editorial, nº 8, junho de 2004.
(2) Recomendo aos meus leitores a leitura da biografia de Maomé, publicada pela Editora Record, de autoria de Barnaby Rogerson, intitulada O Profeta Maomé – uma biografia, 2004, RJ, traduzido por Lis Alves.
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Observação: a despeito de eu comentar aqui passagens da biografia escrita por Barnaby, indico ainda aos meus leitores outras duas, às quais conheço e avalizo: uma delas, escrita por Karen Armstrong, publicada no Brasil pela Companhia das Letras e a de Máxime Rodinson, cuja tradução para o português esta disponível pela Editorial Caminho, em Portugal (as versões em francês e em inglês são encontradas mais facilmente).
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*Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da International Sociological Association

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* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in VERMELHO - 13 DE ABRIL DE 2006 - 20h00
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sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Maomé, líder e profeta de um povo






por Lejeune Mirhan*


Esta coluna, que completou em 28 de março quatro anos ininterruptos de artigos (194 no total), tratou ao longo desses anos de temas diversos, seja sobre os palestinos, sobre a situação do Iraque, Síria, Israel, mas também sobre a Turquia e Irã. Comentamos vários livros, artigos de autores conceituados. Falamos também o Islã, religião que mais cresce no mundo hoje e já supera, em termos de adeptos, a católica (mas não ainda os cristãos de todas as confissões).





Maomé no cavalo alado

Esta coluna, que completou em 28 de março quatro anos ininterruptos de artigos (194 no total), tratou ao longo desses anos de temas diversos, seja sobre os palestinos, sobre a situação do Iraque, Síria, Israel, mas também sobre a Turquia e Irã. Comentamos vários livros, artigos de autores conceituados. Falamos também o Islã, religião que mais cresce no mundo hoje e já supera, em termos de adeptos, a católica (mas não ainda os cristãos de todas as confissões). O perfil da coluna não é acadêmico. Ela se caracteriza por artigos curtos, sem muitas citações, quase que jornalísticos ou de reportagens curtas.

Hoje, resolvemos falar sobre um personagem que marcou a história não só dos povos árabes, mas inseriu seu nome na história mundial: Maomé. A melhor forma de escrevermos o nome do Profeta do Islã deveria ser Mohammad, como em alguns momentos já o fizemos. No entanto, a grafia ocidental de Maomé esta amplamente difundida e assim a usaremos.

As pessoas sabem que não sou um crente. Como dizia Isaac Asimov, grande cientista e ficcionista, posso dizer que tenho fé e crença, mas minha fé e mina crença partem do princípio de que todas as coisas do Universo são explicadas pelas leis gerais que regem esse próprio Universo. Essa é a minha fé e minha crença.

Também aqui, para falar de Maomé, eu o faço como sociólogo, como estudioso das relações sociais e a própria religião que ele criou e se desenvolveu, deve ser estudada como um fenômeno social, objeto de estudo dos sociólogos. E, claro, para falarmos desse árabe do século VI e VII, devemos também ter olhos de historiador, procurando entender o contexto em que as suas revelações divinas teriam ocorrido e as transformações que elas acarretaram nos povos da região da Arábia, os impactos sociais, políticos e econômicos.

A origem, em Meca

As datas não são precisas, mas Maomé deve ter nascido no em 29 de agosto de 570, do calendário cristão. Já nasceu órfão de pai e com seis anos fica órfão também de mãe. Foi criado por seu avô Abd Al Muttalib e integrava a tribo mais importante e tradicional de Meca, que era a dos coraixitas. Uma espécie de classe dominante, classe alta. Dentro dos coraixitas, pertencia ao clã de Beni Hashemi, um ramo um pouco mais pobre da tribo. Conta uma tradição religiosa que logo quando era criança, teria avistado dois seres iluminados, que teriam retirado de seu peito um coágulo negro, que o teria salvado (1). Mas também Muttalib morreu em seguida, e Maomé passou à tutela de seu tio, também poderoso, Abu Talib.

A cidade de Meca era uma espécie d parada obrigatória das caravanas de comércio que vinham da Índia e rumavam para a Europa, atravessando o Mediterrâneo. Ainda que localizada no deserto da Arábia, hoje Saudita, tinha vários oásis por perto sendo que o mais famoso deles era a cidade de Yathrib, hoje chamada de Medina, onde Maomé teria se abrigado depois de tantas perseguições a que sofreu depois do início de sua pregação como profeta de Deus aos 40 anos. Por uns anos, abrigou-se na vizinha Abissínia, que era dominada por cristãos, que também o receberam bem. A sua estada em Medina foi um exílio e inicia-se em 622, quando ele tinha apenas 42 anos. Essa data, conhecida como a Hégira, para os muçulmanos é considerado o ano 1 do seu calendário, que é lunar e não solar como o nosso (o ano lunar tem 11 dias a menos que o solar, ainda que seus meses sejam em número de 12 como o nosso).

As revelações

A vida de Maomé não era diferente de outros jovens de família abastada. Logo iam aprender o comércio e integravam as caravanas que saiam de Meca ou que por ela passavam. Os lucros dessas expedições deveriam ser guardados e bem planejados para um e dois anos até, pelo fato que tais trabalhos eram demorados e não eram rotineiros.

Já com 25 anos, Maomé decide se casar com Khadija, uma mulher bonita, viúva e sem filhos, e muito rica para os padrões locais. Maomé passa a administrar uma espécie de central comercial que ela tinha e ganha bastante dinheiro com isso. Com Khadija tem quatro filhas mulheres e dois homens, mas estes morrem quando criança. Mesmo entre as mulheres, apenas Fátima lhe deu netos. Ela se casa com um primo de Maomé, Ali, que se tornaria o seu quarto sucessor, conhecidos como Califas (os filhos de Fátima e Ali, que se chamavam Hassan e Hussein, são considerados pelos xiitas, uma espécie de fundadores dessa corrente religiosa).

Maomé era conhecido como um dos homens mais íntegro de sua tribo. Mas também religioso. Gostava de fazer meditações, especialmente em uma montanha chamada Hira, nas proximidades de Meca. Foi exatamente numa dessas longas meditações, que ela relata um fenômeno que lhe teria ocorrido. O arcanjo Gabriel aparece a Maomé. Como sabemos, Gabriel, na literatura bíblica é o mesmo que aparece para a Abrahão e lhe pede que sacrifique seu filho e o que anuncia para Maria, que ela seria mãe de Jesus. O arcanjo pede que Maomé leia um pergaminho em seda escrito em árabe que lhe é entregue. Maomé, espantado e apavorado diz que não sabia ler, quando o anjo recita a primeira Sura do que viria a ser o Corão, livro sagrado dos muçulmanos, que é chamada de Shahada (é quando os muçulmanos declaram a sua profissão de fé, tanto em um só único Deus, que é Alá, como em seu Profeta e Mensageiro, que é Maomé). Nesse momento histórico, a ocorrer como Maomé relatou a seus seguidores, ele teria sido então ungido por Deus como o último dos Profetas do chamado ramo abrâmico, que fecharia o ciclo profético com as revelações que, a partir desse momento, lhe seriam feitas.

Há riqueza de detalhes na descrição desse processo de revelações e são várias as fontes. Maomé entrava em um transe, perdia peso, suava muito, enfim, era um extremo desgaste. Isso é típico de estados de transe, sejam eles de qualquer ordem. A mente fica concentrada em uma só fato e isso gera grande perda de energia. As suas revelações eram transmitidas ao seu círculo mais íntimo da família e podemos dizer que sua esposa, Khadija, pode ser considerada, portanto, a primeira muçulmana da história, pois foi a que primeiro teve contato e sua grande incentivadora para que revelasse ao mundo o que o anjo Gabriel estava lhe contando.

Os primeiros anos foram muito difíceis. Isso porque a cidade de Meca era pagã, idólatra, ou seja, viviam em um sistema politeísta, adoravam vários deuses e ícones, estátuas. Dentro da pedra negra, chamada de Caaba, que se supõe ter sido construída por Abrahão, a partir de um meteorito que caiu na terra, estavam vários símbolos de divindades pagãs. As deusas mais importantes da região eram Al Ozza, Al Lât e Manât. A pregação de Maomé caminha na linha do judaísmo e do cristianismo, da qual ele recebe influência pelas tribos que viviam tanto em Meca como em Medina (que, em árabe, quer dizer literalmente “cidade do profeta”). A região como um todo era completamente avessa ao monoteísmo e isso dificultou os primeiros anos da vida do Profeta.

Como ocorreram com os profetas que o antecederam (e o Corão fala em 25 profetas), todos foram desacreditados pelos fiéis. Estes, como na maioria dos casos, sempre exigiram realizações de milagres e, na maioria das vezes, isso não ocorria. No caso de Maomé, nunca ocorreu. Ele não se proclamava, como Jesus, “filho de Deus”, mas simplesmente o Profeta de Deus (2).

Assim, ele nunca participou de cura alguma. Sua pregação era religiosa, mas também se relacionava com costumes que eram novos para a época e para a região. E eram avançados para a sua época, como a pregação da igualdade e o desprendimento das pessoas, a exigência de que estas deveriam repartir as coisas com as pessoas e deveriam ser desprendidas com relação à suas propriedades (ainda que reconheça o direito a tê-las).

A cidade escolhida, Medina, lhe acolhe muito bem. Boa parte de seus moradores, quando ele chega por lá no seu exílio, a partir de 28 de junho de 622 (data da Hégira, que em árabe quer dizer exílio), já estão convertidas ao Islã, à exceção dos que são cristãos e judeus que seguem com suas próprias profissões de fé. Todos oferecem suas casas, mas Maomé prefere construir uma nova, que seria a atual mesquita da cidade, a mais importante.

A consolidação do Islã

Tal qual outras grandes religiões, o Islã começa frágil, mas pela extrema habilidade, desprendimento, humildade entre tantos outros valores que Maomé tinha, os adeptos vão aumentado a cada dia. No entanto, a expansão das idéias do Islã não ocorre pacificamente. Ainda que o plano inicial de Maomé fosse no sentido de que as revelações seriam apenas para os árabes, ela se expande para outros povos e outras regiões da terra, na Ásia e África e parte da Europa. Essa expansão se dá mais depois da morte do profeta em 532, pelos quatro Califas que o sucederam (são os “bem guiados”), que foram, pela ordem Abu Baker, Omar, Othman e Ali. A expansão ultrapassa a península arábica, estende-se ao Norte da África, conhecida como Maghreb, atravessa o mediterrâneo na península ibérica e à Leste da Arábia, ganha a Índia e parte da China.

Essa expansão se dá pela combinação de vários fatores, mas fundamentalmente pela personalidade do Profeta, pelas idéias que ela difundia e pela força da armas. Alguns autores chamam o Islã da “religião guerreira”. Esse fenômeno é observado também pelo cristianismo. No entanto, há que se registrar historicamente que o Islã é de todas as religiões, a mais tolerante delas. Certa vez o sociólogo francês, Gustave Le Bon, disse que é verdade que não existiu nenhum império “bonzinho”, mas entre todos, o menos ruim, que causou menos dados aos povos conquistados, foi o Árabe-Muçulmano.

Aqui também há que se levar em conta a habilidade do Profeta, sua diplomacia, os acordos que estabelecia – e os cumpria à risca. Também aqui pesaram até alguns de seus 11 casamentos (ainda que o Corão fale em que o muçulmano possa ter só quatro esposas, uma revelação especial foi feita pelo anjo Gabriel para permitir que o Profeta casasse mais vezes).

Maomé usa a força da religião para impor novos costumes, novas idéias, uma nova moral e novos valores a um povo que vinha de uma situação de adoração de imagens e estátuas, que era idólatra. Introduziu hábitos saudáveis de higiene e saúde. Exemplo disso são as cinco vezes ao dia que os fiéis devem se lavar antes das suas orações. Veja o aspecto interessante sobre alimentação. Maomé proibiu o consumo de carne de porco (que já havia alguma restrição antes, mas não era vedado). Numa região em que a temperatura média é de 40 graus imaginem o quanto mal faz o consumo dessa carne, ainda mais criado na época sem quase nenhum rigor higiênico.

Os estudiosos do Corão (que em árabe quer dizer “revelação”) costumam dividir as Suratas reveladas, que são 114 ao todo, com mais de seis mil versículos, em quatro grandes blocos: as que tratam da crença e da fé (Al Agida), as que tratam do culto em si (Al Ibáda), as que tratam da moralidade (Al Akilád) e por fim, as que tratam das relações sociais entre as pessoas (Al Muamalád). Este quarto bloco é que normatiza as relações entre as pessoas, entre os cidadãos, trata dos direitos e deveres, aborda a questão da propriedade, fala dos direitos da mulher – pela primeira vez no século VII -, fala do casamento, da herança, do divórcio e tantas outras normas e questões sociais. Para a sua época e em certa medida ainda nos dias atuais, pode-se dizer que a mensagem do Islã é uma mensagem progressista, avançada, igualitária e libertária. Não é de se estranhar que hoje o imperialismo norte-americano tenha ódio mortal dessa religião e de seus seguidores. Além do livro sagrado dos muçulmanos, existem dois outros que são importantes: a Sunna, que trata das tradições e do comportamento do Profeta e os Haddits, que trata das palavras do Profeta e seus atos, descritos a partir de seus principais seguidores. Tal qual os livros sagrados do cristianismo, o Corão só foi sistematizado na forma atual, entre os anos de 650 e 656 da nossa era, ou seja, pelo menos entre 18 e 24 anos da morte do Profeta, sob o Califado de Othman, o terceiro Califa Hashidun (em árabe, “bem guiado”).

Na fase final de sua vida, Maomé mostrava-se um homem cada vez mais desprendido de coisas materiais. Ainda que muitas batalhas tivessem sido necessário para a conquista das cidades na região da Arábia, uma a uma elas foram se convertendo ao domínio do Islã e respeitando as orientações e as normas emanadas do Profeta. A sua última peregrinação à Meca, saindo de Medina, acompanhado de mais de 80 mil fiéis, mostra a consolidação da sua liderança como chefe religioso, como chefe político e militar de um povo que agora tinha um rumo, um norte, orientações clara e unificadoras de sua maneira de ser, ainda que emanadas de preceitos religiosos, mas também sociais e até econômicos. Meca foi completamente subjugada, prostrou-se completamente ante ao Profeta Maomé. Nessa entrada triunfal na cidade, nenhum tiro foi disparado. Os primeiros fiéis que emigraram com ele reencontraram seus familiares, foi uma grande confraternização, uma festa. Os seguidores de Maomé, que o observam em tudo que ele fazia, viram que ele adentrou a cidade com apenas um manto branco, simples e despossuídos de todas as roupas do corpo e andando à pé. Adentro na pedra negra da Caaba, e lá dentro destruiu todas as imagens que ainda lá estavam. Nesse sentido, também é um avanço com relação a outras religiões, como a católica e as ortodoxas, que adoram imagens e ícones.


Maomé na história

Acho que ainda a história, pelo menos a Ocidental, não fez justiça ainda a essa figura chamada Maomé. Sua morte em 632, aos 62 anos, fez consolidar um império que seria um dos maiores que a história conheceria, mas até hoje, de meu ponto de vista, ele não é estudado e reconhecido como a dimensão que deveria ter tido desde então.

Diferente de Jesus e os que o antecederam, outros profetas judeus e mesmo Gautama Sidarta, da religião budista, onde quase não há registro histórico algum de suas existências, no caso de Maomé, esta fartamente documentado. Seu túmulo é local de peregrinação, a sua casa é uma mesquita e seus atos foram amplamente documentados por historiadores. Mensagens que ele enviou estão guardadas em locais sagrados os islamismo.

De qualquer forma, independente disso, a sua figura contribuiu para o desenvolvimento da região,seja do ponto de vista econômico, seja político e social. As idéias que ele pregou, para a época foram avançadas, como a abolição da escravidão e a repartição dos bens, com a ajuda aos mais pobres. Os direitos que ele defendeu para as mulheres são avançados para a sua época, ainda que precisem ser atualizados para os dias atuais (os povos árabes ainda são extremamente patriarcais).

Maomé, como já dissemos, não era um super-homem, nem se proclama filho de Deus. Tinha seus defeitos, seus problemas, suas dores e suas doenças. Gostava das mulheres e cuidava bem delas, desposando-as corretamente dentro das normas e leis islâmicas (Roger Garaudy, ex-membro do Partido Comunista Francês, convertido ao Islã, afirma que a legalização da poligamia nessa religião desfaz a hipocrisia da monogamia professada pelos cristãos, pois legaliza as amantes perante a sociedade).

Sua morte em 632, por mais que ele se proclamasse um simples mortal, acabou por abalar e transtornar todos os árabes da península. Em seus últimos momentos de vida, acometido de febre muito alta por dez dias seguidos, ele foi cuidado por Aisha, uma de suas esposas. Mas, antes de morrer, ainda lúcido, indicou Abu Baker para conduzir as últimas preces, fato que o fez seu primeiro sucessor no comando do já imenso Império Árabe-Islâmico. Reuniu suas últimas forças para assistir a essas orações, em 8 de junho de 632, o que causou um grande furor em Medina, quando se espalhou essa notícia de sua recuperação. Mas não. Voltou aos braços de sua esposa. Deixo aos leitores a descrição de sua morte, nas palavras de Barnaby: “Na madrugada do décimo dia de sua febre, Maomé arrastou-se para fora do quarto de Aisha com enorme força de vontade para participar das preces. A notícia dessa melhora parcial espalhou-se por Medina como um rastilho de pólvora. Ele voltou ao quarto de Aisha logo depois, deitou a cabeça em seu colo e segurou a sua mão com firmeza. Ficou deitado, imóvel, enquanto a febre subia durante a manhã. Então Aisha sentiu que a cabeça dele ficou mais pesada e ouviu-o dizer ‘Senhor, concedei-me o perdão’. O aperto em sua mão afrouxou-se. O Profeta tinha deixado este mundo” (página 250 da biografia citada).
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(1) Revista História viva, Duetto Editorial, nº 8, junho de 2004.
(2) Recomendo aos meus leitores a leitura da biografia de Maomé, publicada pela Editora Record, de autoria de Barnaby Rogerson, intitulada O Profeta Maomé – uma biografia, 2004, RJ, traduzido por Lis Alves.
Observação: a despeito de eu comentar aqui passagens da biografia escrita por Barnaby, indico ainda aos meus leitores outras duas, às quais conheço e avalizo: uma delas, escrita por Karen Armstrong, publicada no Brasil pela Companhia das Letras e a de Máxime Rodinson, cuja tradução para o português esta disponível pela Editorial caminho, em Portugal (as versões em francês e em inglês são encontradas mais facilmente).








*Lejeune Mirhan, sociólogo da Fundação Unesp, arabista e professor. Presidente do Sindicato dos Sociólogos, membro da Academia de Altos Estudos Ibero-árabe de Lisboa e da International Sociological Association
in Vermelho - 13 DE ABRIL DE 2006 - 20h00

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Gravura - O nome Muhammad (Maomé) em caligrafia árabe