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segunda-feira, 4 de novembro de 2019

Guilherme Duarte - Review à carta aberta do Manuel Bourbon Ribeiro

* Guilherme Duarte
4 novembro 2016

Estão todos a par do texto publicado no Observador de um tal de Manuel Bourbon Ribeiro? Um rapaz de 17 anos que decidiu fazer uma "Carta Aberta ao meu país" onde disserta sobre os grandes problemas de Portugal que passo a comentar, de seguida. Relembro que é um miúdo de 17 anos e que, por isso, vou ser meiguinho que o meu objectivo não é fazer bullying a menores, mas é normal que perca o autocontrolo a meio e o ofenda de alguma forma. Comecemos:

"Se esta carta fosse escrita há 500 anos provavelmente estava com medo de te escrever. Provavelmente a tua grandeza ter-me-ia me assustado e não teria coragem de te dirigir a palavra, mas, a verdade é que não és tão grande como outrora."

Se a carta fosse escrita há 500 anos muito dificilmente saberias escrever porque mais de 95% da população era analfabeta. Bem sei que será difícil imaginares-te como parte da maioria e não de uma minoria privilegiada que vive na sua bolha, mas ya, provavelmente até já tinhas morrido de disenteria com 17 anos. Esse discurso é o mesmo que alguns russos podem ter quando choram a queda do império soviético ou alguns alemães que acham que a Alemanha já não é grande porque já não tem o controlo da Polónia e da França e que o senhor de bigode até fez umas coisas boas. Curioso referires o D. Sebastião porque encontro vários paralelismos entre ti e ele: ambos loirinhos de olhos claros e ambos bastante novos e mal preparados para mandar bitaites sobre o país. A tua sorte é que se fores a Marrocos é para passear e não para combater os mouros, mas sim, antigamente é que era bom.

"Não tenho qualquer autoridade para te criticar ou emitir juízos de valor acerca de ti, mas já que toda a gente o faz, mesmo quem nada percebe, arrisquei fazê-lo."

Bom, ao menos admites, já não é mau. O primeiro passo para a cura é sair da negação.

"Como é que eu posso fazer algo grande se em vez de me ensinares os grandes feitos por ti alcançados no passado e de me fazeres ter orgulho por fazer parte de ti, te preocupas em impingir-me coisas sem sentido como seja a ausência de diferenças entre raparigas e rapazes numa idade em que nem sei ler? Ensina-me a pensar, ensina-me Ciências ou História porque de sexo não percebes nada."

Vamos por partes. Sim, acho que a história não deve ser apagada só porque é "ofensiva" e que os acontecimentos passados não podem ser interpretados à luz da consciência social actual. Estamos de acordo, os Descobrimentos continuam a ser um grande feito apesar de todas as atrocidades cometidas. Sim, a escravatura foi das marcas mais negras (salvo seja) da história, mas aconteceu e todos nós usufruímos dela quando vamos a um monumento admirar a sua imponência. Os Jerónimos foram construídos com dinheiro roubado e com mão de obra escrava. É por isso que não devemos admirar ou devemos demolir? Acho que não, mas falar sobre o assunto só nos torna mais cultos e até podemos tirar boas ideias para depois fazer obras em casa que com a escravatura, parecendo que não, as coisas ficavam mais dentro do orçamento e não atrasavam tanto.

Sim, também acho que não reconhecer diferenças biológicas entre homens e mulheres é palermice, mas não sei se é isso que se ensina nas escolas. Nunca vi nenhum livro de ciências da natureza que dissesse "Mesmo que tenhas vagina, podes urinar em pé", mas eu já saí da escola há muitos anos, pode estar mudado. Não deixa de ser curioso achares que o Estado de sexo não percebe nada quanto tu apoias a Igreja Católica, instituição que mais dicas tenta dar sobre sexo a todo o mundo, sobre como, quando e com quem fazer sexo e se há alguém que não tem experiência na matéria são os padres, excepto aqueles 10% que praticam com modelos de escala menor.

"Mas, pensando melhor, como é que eu posso escolher o meu futuro se nem sequer a escola onde estudo posso escolher?"

Escolher a escola onde andas? Tu nem andaste na escola, andaste no colégio, deixa de chorar como se não fizesses parte dos privilegiados cujos pais podem pagar a educação toda que quiseres sem nunca teres de trabalhar para sustentar os teus estudos. Os meus pais também me pagaram as propinas e não me vês a queixar que eram muito caras até porque andei lá 8 anos a gastar-lhes o dinheiro, mas pode ser que se se portarem bem eu depois os meta num bom lar.

"Dá-me a liberdade para escolher!"

Acho importante retermos todos esta frase porque aposto que vai dar jeito daqui a pouco.

"Como é que me dizes que sou livre se me tiras mais rendimentos hoje do que alguma vez me tiraste?"

Tu não tens rendimentos. Tu tens mesada ou semanada e que eu saiba isso não paga impostos porque duvido que passes recibo ao teus pais. Há impostos a mais? Claro, mas não te preocupes que, por norma, o pessoal que ganha bem e tem contactos na política, consegue fugir e meter dinheiro em offshores.

"Portugal, tu estás diferente. Onde é que estão os grandes governantes a que me habituaste? Antigamente os reis e ministros iam parar ao panteão. Hoje quem governa, ou suborna ou vai parar à prisão."

Grandes governantes tipo o Salazar, suponho. Relembro que um dos líderes que tu gostas muito, suponho, o Paulo Portas, também tem submarinos no armário, por isso esquerda ou direita acaba por ser tudo um bocado a mesma coisa em termos de corrupção, nisso concordamos. Aliás, a tua mãe foi deputada pelo CDS-PP e não me lembro de a ter visto fazer pressão sobre esses assuntos. Ah e o teu tio foi chefe de gabinete enquanto ele era ministro de Estado. Boas connections que tu tens e eu aqui todo contente porque conheço bem o Kaló, dealer da Damaia.

"Como é que eu, com 17 anos, não posso escolher o destino do meu país, mas posso mudar de sexo?"

Bom, então e o que escreveste há bocado "Dá-me a liberdade para escolher!"? Como é que ficamos? A minha pergunta é: como é que tu com 17 anos tens um artigo bastante fraco publicado num jornal? Essa é que devia ser a pergunta. Andasses tu nas escolas onde eu andei e levavas no focinho no intervalo grande depois de veres uma coisa destas sem jeito nenhum publicada. Sorte que no teu meio não há bullying porque os bullies só se juntam para atacar os mais fracos e desfavorecidos.

"Achas que me estás a ajudar se me incentivas a ser outra pessoa que não aquela que veio ao mundo com o meu nome? Achas que com 16 anos tenho capacidade de negar aquilo que sou?"

Bom, acho que não há incentivo a mudar de sexo. Nunca vi um cabeleireiro a dizer a uma criança de 10 anos "Maria, que acha de raparmos o cabelinho e trocar esse pipi por uma pichota cheia de veias lindas?". 

"Pareces mais parvo que eu quando decido escolher o caminho mais fácil por imaturidade. Posso ainda nem ser maior de idade, mas sei que a vida é tudo menos fácil."

O caminho mais fácil tipo ter um texto publicado no Observador só porque se pode? Não sei se sabes bem isso de a vida ser tudo menos fácil. Estou a ser preconceituoso, claro, podes ter nascido no meio privilegiado à partida, mas não o seres. Conheço rapazes como tu que foram obrigados a ir para medicina por estatuto e pressão familiar e ficaram adultos profundamente infelizes. Mais privilegiado serei eu que tive a liberdade para ser quem quis e os meus pais só iam sofrendo para dentro sem me cortar as asas. 

"Porque é que me ajudas a acabar com a minha própria vida sem me tentares ajudar primeiro?"

E a liberdade para escolheres, Bourbon? Onde anda ela? Esta gente pensa que a eutanásia é prescrita numa consulta do médico de família porque um gajo tem dor ciática. Ninguém receita eutanásia sem esgotar todos os recursos primeiro. Eutanásia não é alternativa ao Kompensan.

"Uma vida nunca é insignificante e até um embrião é uma pessoa. Porque é que me incentivas a matá-lo e não me ajudas a ser feliz com ele?"

Portanto, tu queres liberdade para escolher menos se for na temática do aborto, da mudança de sexo, da eutanásia. Ou seja, queres liberdade para escolher sobre a vida dos outros, é isso? Eu percebo, na tua idade eu também pensava que sabia tudo da vida e que os outros é que estavam mal. Ainda penso, na verdade. Não, um embrião não é uma pessoa e tu que tanto que falas de ensinar ciência na escola, esqueceste-te de ir às aulas de biologia. Estou a partir do princípio que estás no agrupamento de ciências porque não tens pinta de artista e se foste para humanidades deixa-me dizer-te que escreves mal e devias reconsiderar.

"Porque é que uma mãe sem condições financeiras não tem uma creche gratuita para poder trabalhar enquanto cria o seu filho? Isso faz com que as pessoas não tenham filhos. E, digo-te já, estás a criar um problema gravíssimo. Os meus pais tiveram 6 filhos por terem condições e são felicíssimos."

São felicíssimos é o que eles dizem, mas garanto-te que em 6 há pelo menos um que é um otário e que eles se arrependem de ter tido. Não estou a dizer que és tu, pode ser o Bernardo ou a Francisca ou o José Maria, mas um de vocês deve ter saído estragado. Quanto a uma mãe solteira sem condições ter creche gratuita, estamos de acordo, mas para isso é preciso que quem ganha mais dinheiro esteja disposto a pagar mais impostos e isso é coisa que resvala para o socialismo. Queres ver que és socialista e não sabias?

"Neste momento estou a estudar Direito e, apesar de terem passado poucos meses desde que comecei, aprendi muitas coisas."

Ahhh estás a estudar Direito, ok. Felizmente estás numa área mais fácil de ter iniciativa privada, porque basta abrires um escritório para teres a tua empresa montada sem ser preciso grande investimento. Depois o resto é feito com qualidade e com contactos e uma dessas coisas tu já tens.

"Será que estás a dar o exemplo do que é uma Democracia quando quem governou durante 4 anos nem sequer ganhou as eleições? Que país é este que se diz democrático, mas que não faz a vontade ao povo?"

Bom, com este ponto mostras que não sabes como funciona a democracia. Vou explicar: nas eleições elegem-se deputados e não partidos vencedores. A vontade do povo – que foi votar – foi expressa na chamada geringonça porque era a que tinha a maioria dos deputados escolhidos pela população. Percebeste? É muito comum em países ditos desenvolvidos este tipo de dinâmicas de de acordos pós-eleitorais. Quanto ao resto, não digo que foi por mérito, pode ter sido contexto económico europeu e mundial, mas olhando para todos os índices estamos melhor do que quando saiu de lá o Passos Coelho. Mas, já que falas em fazer a vontade ao povo (curioso chamares povo e não plebe) então e a questão do aborto? O povo votou e decidiu, que tal calares-te com esse assunto e respeitares a decisão da maioria?

"Que país é este que ao ver a sua defesa ameaçada e roubada, como aconteceu em Tancos, não sabe punir e responsabilizar os intervenientes? Que país é este que perante quase metade da percentagem de abstenção, resultante de uma colossal indiferença do seu povo perante a vida política, fica de braços cruzados a lamentar-se, sem quaisquer medidas concretas para o resolver?"

Estamos de acordo em relação à abstenção e a Tancos, mas acho que toda a gente que leia isto estará de acordo o que significa que estás apenas a dizer coisas do senso comum e nada de inovador. Eu sou do tempo em que para publicar coisas num jornal era preciso ter alguma coisa nova a dizer e que as pessoas ainda não soubessem.

"As pessoas que mandam estão há mais anos no poder do que eu na vida. Temos um sistema político ultrapassado e as pessoas estão fartas. Como é que não percebes isso, Portugal?"

Concordo Bourbon, queres ver que ainda acabamos isto a formar um partido juntos? Eu faço os abortos enquanto tu reanimas os fetos a rezar.

"Que país és tu que não garante, de modo algum, a segurança dos seus cidadãos?"

Bourbon, somos o terceiro país mais seguro do mundo e aposto que a tua zona deve ser das mais seguras de Portugal.

"Um país que está mais preocupado em descobrir de quem é a culpa do que a resolver os problemas causados."

Tens de te decidir. Em Tancos dizes que ninguém foi responsabilizado, aqui dizes que se preocupam demasiado em descobrir de quem é a culpa. Assim não dá, Bourbon. Estás a estudar Direito, não podes estar aqui a mudar de opinião e a ser incoerente.

"Como é que é possível que o trabalho dos polícias não seja valorizado como devia?"

Concordo. Os polícias são mal pagos e mal vistos na sociedade e fazem um trabalho importante, mas comprar pulseirinhas para mostrar e ganhar votos não é solução.

"Daqui a cinco anos devo entrar no mercado de trabalho e tenho de me fazer à vida."

Ah ah ah, ó Bourbon, arranjar uma cunha para trabalhar não é bem fazer à vida. Repara, não digo isto por preconceito de teres três nomes, ar de beto, e vires de boas famílias. Digo isto porque publicaste um texto mal escrito e sem nada de novo num jornal de referência em Portugal. Logo, se já tens essas cunhas com 17 anos, imagino que não tenhas de te preocupar muito com o teu futuro no mercado de trabalho. Aposto que nem vais ter de fazer um CV para ser chamado para entrevistas. Estranho, até, não tires ido a nenhuma das rádios da Media Capital, seja à Comercial, Cidade FM ou M80, dizer este teu texto. O teu pai é o CEO dessas rádios e podia ter-te dado uma ajuda. Queres que tente meter uma cunha por ti? Deves tratá-lo por você e se calhar têm uma relação distante e eu podia ajudar. É que acho estranho tu seres filho de uma ex-deputada do CDS e do CEO das rádios da Media Capital e o melhor que te arranjaram foi o Observador? Os teus pais não gostam muito de ti, puto, lamento informar. E eu fui à Rádio Observador hoje de manhã dar uma entrevista, mas convenhamos que não tive liberdade para escolher entre eles e a Comercial.

A culpa não é tua. É normal que um adolescente que viveu numa bolha pense como um adolescente que viveu numa bolha. É normal que a religião que te foi enfiada pela goela desde criança te tolde a forma de ver o mundo e que queiras liberdade para escolher quando não ta deram a ti, ao educarem-te assim. Não és mau miúdo, se calhar até queres mudar o mundo e torna-lo melhor para todos. Sai da tua bolha, lê, ouve os dois lados. Precisamos de miúdos como tu que se preocupam e que têm iniciativa. Precisamos é que se preocupem com as coisas certas. Percebo que queiras exigir muitas coisa do teu país, mas embora a diferença entre "pais" e "país" seja apenas um acento, mas não é por aí que ambos têm de te fazer as vontades todas e te dar tudo o que queres.

***

Isabel Costa - (Des)carta aberta a Manuel Bourbon Ribeiro

* Isabel Costa
Mestre em Filosofia pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra.

4 de Novembro de 2019, 13:22

Caro Manuel,

Tenho 28 anos e uma vida pela frente. Sinto e sei que posso fazer algo pelo meu país. Logo, vou pôr as mãos ao trabalho. Não vai ser fácil. Não é só o meu país que é difícil, é o mundo e a vida. Não é só a sua geração que sente dificuldade, são todas. Não há exclusividade, apenas a sua ilusão.

Se esta carta fosse escrita há 500 anos faria todo o sentido. O problema é esse. Os saudosismos e os queixumes só nos fazem andar atrás da nossa própria sombra.

É verdade que eu não frequentei um colégio de topo. Também é verdade que não o podia escolher. Mas, a julgar pela sua carta, ainda bem. A minha professora de História, aquela que tive numa escola pública, ensinou-me os grandes feitos de Portugal, assim como os seus custos e consequências. Também aprendi, com a minha professora de Português, que o “Quinto Império” simboliza um Portugal regenerado cultural e espiritualmente. Infelizmente, não temos como pedir algum esclarecimento a Fernando Pessoa, mas julgo que o autor não estava a pensar em investimentos privados. Entre a História e as Ciências, também houve espaço para educação sexual e formação cívica. Não se deve confundir sexo com identidade de género. São coisas muito diferentes, mas não se preocupe, há muita literatura sobre o assunto. Contudo, adquirir a sensibilidade necessária para perceber a diferença entre poder votar e mudar de género já é um processo mais complexo. São questões incomparáveis, dado que não apresentam as mesmas variáveis, o mesmo substrato, a mesma fórmula. Enfim, é confundir alhos com bugalhos.

“Não se deve confundir sexo com identidade de género. São coisas muito diferentes, mas não se preocupe, há muita literatura sobre o assunto. Contudo, adquirir a sensibilidade necessária para perceber a diferença entre poder votar e mudar de género já é um processo mais complexo.”
Talvez, nestes intensos dois meses de aulas de Direito, ainda não tenha aprendido que as eleições legislativas são para eleger os 230 deputados da Assembleia da República. O Governo é formado posteriormente, tendo em consideração a maioria parlamentar. E o Governo de que fala foi formado tão legitimamente como outras coligações passadas. A essência da Democracia representativa estava lá. Pode é não lhe ter agradado.

Também ainda não sabe que um dos indícios mais evidentes da demagogia e do populismo é confundir a “vontade do povo” com os interesses e opiniões do próprio. Maior liberdade implica maior escolha, mas não é apenas sobre aquilo que nos convém. A liberdade de escolha não se reduz a escolher um colégio em vez de uma escola pública, nem a políticas de incentivo ao investimento privado. A liberdade de escolha implica respeitar outros modos de vida, outras concepções de mundo e outros valores morais. A verdadeira liberdade nasce da tolerância que somos capazes de ter para com quem pensa de forma diferente. E o desafio da Democracia é saber construir um espaço público capaz de responder à diferença que existe entre nós. Entre mim e o Manuel. Entre o eu e o outro. Compreendo perfeitamente que o relativismo existencial assuste e preocupe, mas fingir que ele não existe não resolve problema nenhum.

Sem dúvida que há muito para melhorar, em todos os sectores da sociedade portuguesa: contudo, nem é tão fácil como pensa nem através das aparentes soluções que apresenta.

Sei que tem apenas 17 anos, mas dizer, através de um órgão de comunicação social, que o país “parece parvo” apenas porque não corresponde aos seus anseios, ultrapassa os limites da imaturidade.

Lúcia Gomes - Carta aberta a um fascista de 17 anos

* LÚCIA GOMES
3.11.19

Tem 17 anos e já transpira colonialismo e saudosismo bafiento em cada palavra. A sua genealogia ditou que pudesse ser publicado num jornal de referência do mofo salazarista mas o seu artigo é, para além de decadente (porque o jovem com tanto para dar mais parece uma criatura mumificada acabada de encontrar num qualquer cenotáfio de um panteão com festas de uma startup), perigoso e sintomático de uma pretensa elitezinha que acha que o país precisa deles.

Vou dizer-te uma coisa, Manuel Bourbon Ribeiro: o país não precisa de ti. Nem precisa das tuas reflexões. O país teve décadas de gente como tu, ainda os tem, em lugares de poder. No teu caso, nem sequer se pode falar em meritocracia porque o que tu tens é a conta bancária dos papás e um família que enriqueceu à custa da apropriação da mais valia criada por outros e assim construiu a sua fortuna. Sabes, Manelinho, essa grandiosidade de que falas e que gabas ao longo da tua composição, foi feita à custa da escravização dos povos. Do nosso e dos povos africanos, dos povos indígenas da América Latina. À custa da espoliação das riquezas naturais que lhes pertenciam e que nós dissemos serem nossas, desbaratando-as nesse império de tão grandes feitos e deixando algumas remanescências naquilo que alguns chamam museus mas que eu gosto de chamar arquivos do imperialismo. É que - e tu estás a estudar Direito, Manelinho, já deves ter aprendido uma ou outra coisa - esses tesouros foram roubados (sim, roubados - com violência. Não chegaram sequer a ser furtados, sabes a diferença, não é, Manelinho?) - e com eles há muitas histórias que podem ser contadas.

Mas como eu não quero chatear-te com coisas do passado, embora claramente prefiras viver nele, posso aconselhar-te alguns filmes, para não perderes muito tempo, em que com algumas horas do teu tempo certamente preenchido com actividades que mais ninguém com 17 anos pode ter - porque não tem dinheiro, Manelinho - poderás apreender a violência, a brutalidade, a desumanidade da grandiosidade que apregoas. Olha: podes começar com o Silence, do Martin Scorsese. Sabes que mesmo para contar esses factos históricos houve quem fosse preso pela PIDE, em 1964, interrogado, ameaçado, por simplesmente escrever sobre eles? Podes ler as  “Raízes da Expansão Portuguesa”, de António Borges Coelho, historiador, combatente antifascista, que esteve 6 anos encarcerado por um regime que seguramente gostarás - enquadra-se nas tuas palavras e no que tu pretendes recuperar e dar ao teu país - durante seis anos, parte dos quais no isolamento onde "só há a memória”, que vai “a horizontes completamente inconcebíveis”. “Esse isolamento é quebrado para interrogatório e para ir à tortura, mas a maior tortura é para muitos precisamente esse isolamento contínuo, contínuo, contínuo, sem haver nada”.

Podes mesmo viajar até outros países, porque o teu continua num negacionismo sem paralelo, e ver fotografias, relatos, provas de que a quimera e os sonhos que dizes ter e que são os que outrora Portugal teve, se materializaram no facto de o povo português ser o mais bárbaro na sua tortura colonizadora. Sim, o mais bárbaro. Mais do que os ingleses e os holandeses e não deve ser tarefa fácil! É que, Manelinho, para indicarem que o território onde tinham chegado agora era seu, os portugueses colocavam à entrada estacas com indígenas empalados para que toda a gente soubesse quem estava no comando. Ou enfiavam nativos que se recusassem à conversão católica em buracos subterrâneos, presos pelos pés, para que morressem lentamente. Presumo que seja a isto que te referes quando falas em grandiosidade. Porque, Manelinho, especiarias e tecidos podiam ter trazido sem estas práticas. Mapas, também os podiam desenhar sem subjugar e dizimar povos e natureza.

Mas vê por ti, vai ao Merseyside Maritime Museum em Liverpool (aproveitas para tirar umas fotos para o teu Instagram a dizer como és tão culto e conheces os Beatles, não precisas de dizer a ninguém que foste a este museu) e lê. Lê, Manelinho. Tu deves saber várias línguas. Até deves compreender isto:
"To most white people, slavery and colonialism are just part of a distant memory of nothing in particular. For whites, slavery did not last particularly long, its benefits accrued only to a tiny proportion of white people and the evils of slavery are overshadowed by the role played by British abolitionists. In any case, the rise of Western nations, Britain, and the United States in particular, as the industrial supremos of the world, is explicable to them simply in terms of English innate genius. Poverty and penury in Africa, and racial inequality in the West, is explained in terms of black inability, incompetence or laziness. To black people, though, slavery and colonialism reiterate themselves in our everyday lives, and evoke poignant and immediate memories of suffering, brutalisation and terror. For black people, Western nations achieved their industrial growth and economic prosperity on the backs of slaves, abolished slavery primarily for economic reasons, have discriminated against black people ever since, and are unrepentant about any of it. African under-development and racial inequality in the West is understood primarily in terms of racism and racist hostility of whites.”

Depois, Manelinho, não tentes - a sério, nem tentes - fingir que sabes o que é uma mãe não ter dinheiro para uma creche - até porque deves ser contra as famílias monoparentais, por exemplo, porque irão contra a tua noção patética de família. Não digas que não te deixam escolher hospitais: tu tens dinheiro para ir onde quiseres e nós, os que não temos, temos um Serviço Nacional de Saúde que é dos melhores do mundo. E sim, precisa de investimento, mas não para podermos ir a um privado. Porque no público temos os melhores profissionais, a melhor tecnologia, os melhores assistentes operacionais e enfermeiros e tu serás melhor tratado num hospital público do que num qualquer privado, ainda que não tenhas um quarto só para ti e wifi para navegares. Porque quando falas em liberdade de escolha o que queres dizer é desvio de recursos para financiamento dos grupos económicos que enchem os bolsos de famílias como a tua. Seja na saúde, seja na educação. Porque é a escola pública que garante a igualdade, o progresso, o desenvolvimento integral. Que permite que pessoas como tu, racistas, supremacistas, aprendam valores de solidariedade, tenham uma educação de excelência reconhecida mundialmente, progridam em todos os ciclos de ensino sem que o dinheiro dos papás seja condição para terem a educação até ao grau que pretendem ter.

Não pretendas saber, Manelinho, o que é não ter dinheiro para comprar livros, para ir até à escola porque não se tem carro, para ir comprar medicação, o que é o isolamento dos idosos, o que é estar endividado. Sabes porquê, Manelinho? Porque nós, os que estudámos com livros emprestados, os que tínhamos boleia de vizinhos ou íamos a pé quilómetros até à escola, os que vimos os nossos avós a morrerem sozinhos, os que vimos os nossos pais morrerem de cancro aos 54 anos, os que só comíamos sopa porque o salário das nossas mães não dava para mais do que pagar a casa, as roupas e a alimentação (e olha que roupa só era comprada duas vezes ao ano, de resto era dada), os que sempre passamos férias em casa, os que temos vários tios (porque os nossos avós tinham 8 filhos mas não eram como os teus seis irmãos, trabalhavam desde os 12 nesses tempos áureos que evocas), os que trabalhamos para pagar os nossos cursos, sabemos bem que os salários dos nossos pais são baixos porque os salários dos teus são altos (e são eles que detêm as empresas que exploram os nossos pais), porque as leis são feitas por e para os teus pais e os amigos dos teus pais, porque tu só escreves nos jornais porque os donos deles são os amigos dos teus pais e um dia serão os teus.

Não pretendas, Manelinho, jamais, achar que o teu curso de Direito valerá algum dia mais do que o meu, porque eu exerço-o do lado certo da barricada. Não julgues que os teus 17 anos algum dia darão a este país mais do que os meus 17 porque nessa idade já eu combatia, com tantos outros, racismos, xenofobias, classismos, opressão e exploração. E jamais penses que este país precisa de ti. Este país precisa de Serviço Nacional de Saúde público, gratuito, universal e de qualidade. Precisa da escola pública, gratuita e universal. Precisa de combater o preconceito - em função do sexo, da orientação sexual, da deficiência, da classe. Precisa de dar a conhecer em todo o lado - na escola, na rua, no parlamento - a Constituição, o combate ao fascismo, as histórias dos antifascistas, os relatos da tortura, a barbárie dos Descobrimentos, precisa de melhores salários para os trabalhadores, precisa de uma Administração Pública de qualidade que dignifique os seus trabalhadores e utentes, precisa de mais e mais serviços públicos, precisa de combater a violência policial.

Manelinho: nenhum fascista é necessário. Nem em Portugal nem em lado nenhum. E tu, com os teus 17 anos, deverias sentir uma profunda e enorme vergonha por estares do lado opressor da história. Porque não é a ti que ela dará razão.


Manuel Bourbon Ribeiro - Carta aberta ao meu país

* Manuel Bourbon Ribeiro 
03 nov 2019, 00:18

Querido Portugal,

Se esta carta fosse escrita há 500 anos provavelmente estava com medo de te escrever. Provavelmente a tua grandeza ter-me-ia me assustado e não teria coragem de te dirigir a palavra, mas, a verdade é que não és tão grande como outrora. O mundo já não fala a tua língua e já não tens qualquer influência nas políticas internacionais. Já não és o centro do comércio e nem sequer és mais inovador que os outros. Tu mudaste. Talvez a culpa seja nossa, portugueses. O aparecimento do Quinto Império, profetizado por Fernando Pessoa, teima em não surgir e, arrisco-me a dizer, está tão próximo como o regresso de D. Sebastião.

Não tenho qualquer autoridade para te criticar ou emitir juízos de valor acerca de ti, mas já que toda a gente o faz, mesmo quem nada percebe, arrisquei fazê-lo.

Eu tenho 17 anos e uma vida pela frente. Sinto que posso fazer algo pelo meu país, podemos todos. Porém, tu parece que não queres que eu o faça. Aliás, não queres que eu o faça nem ninguém da minha geração. Nós somos sonhadores, também já tiveste a nossa idade. Achamos que podemos fazer tudo e alcançar o céu. E a verdade é que conseguimos mesmo. Mas tens que nos ajudar, tens de nos encorajar e proporcionar-nos uma educação que nos permita sonhar. Precisamos de acreditar que podemos fazer a diferença. Não nos mandes para fora, este é o nosso país, foi aqui que crescemos e tem de ser aqui que vamos singrar. Só precisas de nos ajudar. O resto? O resto fazemos nós, tal como os nossos antepassados fizeram nessa tal altura em que eras grande, lembras-te?

Mas como é que eu posso fazer algo grande do modo que tu estás?

Como é que eu posso fazer algo grande se em vez de me ensinares os grandes feitos por ti alcançados no passado e de me fazeres ter orgulho por fazer parte de ti, te preocupas em impingir-me coisas sem sentido como seja a ausência de diferenças entre raparigas e rapazes numa idade em que nem sei ler? Ensina-me a pensar, ensina-me Ciências ou História porque de sexo não percebes nada. Já se dizia que temos de olhar para a História para preparar o futuro. Mas, pensando melhor, como é que eu posso escolher o meu futuro se nem sequer a escola onde estudo posso escolher? Como é que posso confiar em ti se nem me deixas escolher o hospital onde quero ir? Como é que me dizes que sou livre se depois não me deixas ser? Já está na hora de perceberes que eu decido melhor que tu, quando o tema é a minha educação ou saúde. Já é tempo de perceberes que se continuares assim vão continuar a morrer pessoas à espera de consultas. Dá-me a liberdade para escolher!

Como é que me dizes que sou livre se me tiras mais rendimentos hoje do que alguma vez me tiraste? Por outras palavras: como é que me dizes que sou livre se grande parte do dinheiro que eu ganho vai para ti e nem sei bem o que fazes com ele? Por que é que não me ajudas a criar o meu negócio através de poucos impostos? Ao cortares as pernas à iniciativa privada estás a impedir-me de progredir. Estás a impedir-me de te ajudar. Estás a desajudar e não a ajudar. Como é que não percebes isso?

Portugal, tu estás diferente. Onde é que estão os grandes governantes a que me habituaste? Antigamente os reis e ministros iam parar ao panteão. Hoje quem governa, ou suborna ou vai parar à prisão.

Depois admiras-te que quase metade de nós não vai votar. Como é que eu, com 17 anos, não posso escolher o destino do meu país, mas posso mudar de sexo? Não reclamo que a idade para votar seja mais baixa, mas mudar de sexo?! Achas que me estás a ajudar se me incentivas a ser outra pessoa que não aquela que veio ao mundo com o meu nome? Achas que com 16 anos tenho capacidade de negar aquilo que sou? Pareces mais parvo que eu quando decido escolher o caminho mais fácil por imaturidade. Posso ainda nem ser maior de idade, mas sei que a vida é tudo menos fácil.

A vida não é fácil, mas é algo valioso, o mais valioso que temos. Infelizmente não o é para todos. Olha o exemplo dos doentes terminais. Achas que a melhor maneira de melhorar a sua vida é acabando com ela? Claro que não. Quem és tu, Portugal, senão aquele que me deve proteger? Quem és tu senão aquele que me deve proporcionar uma vida boa, independentemente das minhas circunstâncias? Porque é que me ajudas a acabar com a minha própria vida sem me tentares ajudar primeiro? Porque é que em vez de me matares não me dás uma nova vida, nem que seja por uma semana? Porque é que em vez de investires dinheiro em matar-me não investes em cuidados paliativos para que, pelo menos quando morrer, possa estar a sorrir e não anestesiado?

Porque é que não defendes a vida humana por tão pequena que ela seja? Uma vida nunca é insignificante e até um embrião é uma pessoa. Porque é que me incentivas a matá-lo e não me ajudas a ser feliz com ele?

Porque é que uma mãe sem condições financeiras não tem uma creche gratuita para poder trabalhar enquanto cria o seu filho? Isso faz com que as pessoas não tenham filhos. E, digo-te já, estás a criar um problema gravíssimo. Os meus pais tiveram 6 filhos por terem condições e são felicíssimos. Porque é que não dás também essa possibilidade a outras famílias que não tenham as mesmas condições que a minha, mas também querem ser felizes?

Neste momento estou a estudar Direito e, apesar de terem passado poucos meses desde que comecei, aprendi muitas coisas. Uma delas, e que é comum a muitos autores que eu estudei como Thomas More, Marsílio de Pádua ou São Tomás de Aquino, é que o principal intuito do estado deve ser o bem viver das pessoas. Será que é isso que estás a fazer? Será que me estás a dar a melhor vida possível?

Será que estás a dar o exemplo do que é uma Democracia quando quem governou durante 4 anos nem sequer ganhou as eleições? Que país é este que se diz democrático, mas que não faz a vontade ao povo? Que país é este que ao ver a sua defesa ameaçada e roubada, como aconteceu em Tancos, não sabe punir e responsabilizar os intervenientes? Que país é este que perante quase metade da percentagem de abstenção, resultante de uma colossal indiferença do seu povo perante a vida política, fica de braços cruzados a lamentar-se, sem quaisquer medidas concretas para o resolver?

Encoraja as pessoas a votar. Faz-lhes acreditar que conseguem melhorar a sua vida. Estás aborrecido, Portugal. Hoje em dia não há discussões políticas saudáveis. Não há trocas de ideias interessantes, nem argumentos válidos. As pessoas que mandam estão há mais anos no poder do que eu na vida. Temos um sistema político ultrapassado e as pessoas estão fartas. Como é que não percebes isso, Portugal? Como é que não percebes que precisamos de caras novas e lufadas de ar fresco para todos aqueles que já desistiram de ti? Desde as pessoas da minha idade que só querem ir para fora porque “Portugal não me valoriza”, até aos idosos que vivem sem animo e são totalmente comprados pelos demagogos que lhe oferecem promessas de pensões maiores em troca de votos.

Que país és tu que não garante, de modo algum, a segurança dos seus cidadãos? Que deixa que vidas de trabalho sejam desperdiçadas por pura incompetência, como aconteceu em Pedrogão? Um país que está mais preocupado em descobrir de quem é a culpa do que a resolver os problemas causados. Porque é que tiveram que morrer pessoas para perceberes que a prevenção de incêndios é um tema fulcral da nossa sociedade, Portugal? Porque é que és um país que não torna o trabalho dos milhares de bombeiros voluntários mais fácil e só o complicas por incompetência do estado?

E por falar em trabalhos difíceis. Como é que é possível que o trabalho dos polícias não seja valorizado como devia? Porquê, Portugal? Não são eles afinal que controlam a ordem pública e que protegem os cidadãos? Será que não é um trabalho suficientemente digno?

Posso ter 17 anos, mas sei perfeitamente que não estás bem. Mesmo que me tentem convencer com manipulação de números. Mesmo que me ofereçam, de forma demagoga, passes sociais porque mais tarde ou mais cedo vou ter de os pagar, eu percebo que não estás bem. Daqui a cinco anos devo entrar no mercado de trabalho e tenho de me fazer à vida. Gostava muito que me ajudasses a ajudar-te. A mim e à minha geração. Nós, portugueses, somos melhores do que tu achas. Não nos subestimes, ajuda-nos.