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segunda-feira, 20 de fevereiro de 2023

Nuno Júdice - Epitáfio para uma Europa

* Nuno Júdice

Limpo do Espírito o unto da Europa, e deito-o

nas feridas do ocidente para que sequem mais

depressa. A Europa impregna-me com a sua febre,

que eu acalmo com a água de um ócio de

culturas. A Europa atravanca os passeios da memória,

e obriga a empurrá-la para deixar passar

os que chegam. Às vezes, a Europa encosta-se

às esquinas, como se não fizesse nada,

e confundem-na com a puta da noite, como

se ela estivesse à venda; mas o que ela faz

é oferecer o corpo a quem quiser. De outras

vezes, a Europa é a virgem que não quer

descer do altar, como se alguém a adorasse,

ainda, e lhe acendesse as velas de uma devoção

de milénios. "Tirem-me a Europa

da frente", dizem os que querem chegar

mais depressa aos lugares que a Europa

já descobriu, e perdeu, há muito. "Quero ser

como a Europa", dizem outros — os que

andaram atrás dela, e não souberam acompanhar-lhe

o passo, e caíram no primeiro obstáculo,

vendo acumularem-se por cima de si os corpos

de quem vinha atrás. A Europa enlouqueceu,

e pede que a fechem para que ninguém mais

acredite no que ela diz. A Europa é o mocho sábio

da fábula, e as crianças juntam-se à sua volta

a pensar que vão aprender alguma coisa. Tiro

a Europa do mapa e meto-a no bolso. E quando

alguém me pedir lume para o cigarro, vou puxar

por ela e acendo-a. Se o mundo arder, a culpa é

de quem me pediu lume; se a Europa se apagar,

deito-a fora e troco de isqueiro.


sexta-feira, 25 de setembro de 2020

Nuno Júdice - uma coisa simples

* Nuno Júdice

Quero dizer-te uma coisa simples:
a tua ausência dói-me.
Refiro-me a essa dor que não magoa, que se limita à alma;
mas que não deixa, por isso,
de deixar alguns sinais -
um peso nos olhos, no lugar da tua imagem, e um vazio nas mãos.
Como se as tuas mãos lhes tivessem roubado o tacto.

Porém, é o sonho que me traz a tua memória;
e a realidade aproxima-me de ti,
agora que os dias correm mais depressa,
e as palavras ficam presas numa refracção de instantes,
quando a tua voz me chama de dentro de mim -
e me faz responder-te uma coisa simples,
como dizer que a tua ausência me dói.


domingo, 6 de março de 2016

Nuno Júdice - Nos teus olhos

* Nuno Júdice

É nos teus olhos que o mundo inteiro cabe,
mesmo quando as suas voltas me levam para longe de ti;
e se outras voltas me fazem ver nos teus
os meus olhos, não é porque o mundo parou, mas
porque esse breve olhar nos fez imaginar que
só nós é que o fazemos andar.


sábado, 5 de fevereiro de 2011

Plano - Nuno Júdice

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.

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domingo, 7 de março de 2010

ARTE POÉTICA . com Citação de Holderlin - Nuno Júdice

Assunto: ASA DE CONDOR
Data: 3/Mar 15:18
VIVER SÓ, É UMA SABEDORIA E UMA VIRTUDE, DIZEM-ME. AGUÇA A INTELIGÊNCIA, FAVORECE A ANÁLISE CORRECTA DOS FACTOS A NÓS ESTRANHOS, DEIXA-NOS SABOREAR MELHOR A SENSAÇÃO DE LIBERDADE. SEM LAÇOS, SEM AFECTOS, CAMINHAMOS COMO NOS APETECE, SEM QUE TENHAMOS QUE PRESTAR CONTAS A NINGUÉM. NADA NOS É IMPOSTO E OS LIMITES, SE OS QUEREMOS TER, SOMOS NÓS QUE OS DEFINIMOS...TEM GRAÇA...QUEM ME PASSA ESTA FILOSOFIA COM AR SÉRIO, LAMENTA SEMPRE A SUA LIMITAÇÃO...SUA CONDIÇÃO DE PRISIONEIRO DE ALGUÉM...SERÁ QUE NÃO OLHAM PARA MIM? NÃO SE APERCEBEM DESTA NUVEM PERMANENTE SOBRE O MEU SER,DA CARÊNCIA DA MINHA MÃO ABERTA NO VAZIO? DO RETRATO DA SAUDADE QUE MORA NO MEU OLHAR? NESTE PEDIDO MUDO DE QUE ALGUÉM CAMINHE AO MEU LADO?...MAL ESCOLHIDOS DA VIDA...ENTENDEM TUDO AO CONTRÁRIO...E EU...QUE PERDIDA ME SINTO...SEI EXACTAMENTE COMO VIVER DE MÃO DADA COM UM AFECTO...ASA DE CONDOR CORTANDO OS ARES RUMO AO INFINITO AZUL...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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ARTE POÉTICA
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com Citação de Holderlin
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O poema lírico
nasceu de uma roseira. Não
digo que fosse a rosa de cima, aquela que todos
olham, primeiro que tudo, pensando
em cortá-la para a levarem consigo. É
a rosa nem branca nem vermelha, a rosa pálida,
vestida com a substância da terra:
a que toma a cor dos olhos de quem a fixa, por
acaso, e ela agarra, como se tivesse
mãos abstractas por dentro das suas folhas.
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Colhi esse poema. Meti-o dentro de água,
como a rosa, para que flutuasse ao longo de um rio
de versos. O seu corpo, nu como o dessa mulher
que amei num sonho obscuro, bebeu a seiva
dos lagos, os veios subterrâneos das humidades
ancestrais, e abriu-se como o ventre da
própria flor. Levou atrás de si os meus olhos,
num barco tão fundo como a sua própria
morte.
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Abracei esse poema. Estendi-o na areia
das margens, tapando a sua nudez com os ramos
de arbustos fluviais. Arranquei os botões
que nasciam dos seus seios, bebendo a sua cor
verde como os charcos coalhados do outono. Pedi-lhe
que me falasse, como se ele só ainda soubesse
as últimas palavras do amor.
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(Metáfora
contínua de um único sentimento).
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NUNO JÚDICE 
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

A Vida - Nuno Júdice

A Vida
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A vida, as suas perdas e os seus ganhos, a sua
mais que perfeita imprecisão, os dias que contam
quando não se espera, o atraso na preocupação
dos teus olhos, e as nuvens que caíram
mais depressa, nessa tarde, o círculo das relações
a abrir-se para dentro e para fora
dos sentidos que nada têm a ver com círculos,
quadrados, rectângulos, nas linhas
rectas e paralelas que se cruzam com as
linhas da mão;
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a vida que traz consigo as emoções e os acasos,
a luz inexorável das profecias que nunca se realizaram
e dos encontros que sempre se soube que
se iriam dar, mesmo que nunca se soubesse com
quem e onde, nem quando; essa vida que leva consigo
o rosto sonhado numa hesitação de madrugada,
sob a luz indecisa que apenas mostra
as paredes nuas, de manchas húmidas
no gesso da memória;
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a vida feita dos seus
corpos obscuros e das suas palavras
próximas.
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Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"
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Enviado por Cecília (hi5) - 26/Out/2009 19:38
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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O Sexo dos Anjos . Nuno Júdice

Assunto:
O sexo dos Anjos
Data:
13/Jan 23:53


Photobucket

O SEXO DOS ANJOS

Foi em Bizâncio, antes da queda.

Discutiam o sexo dos anjos, e a discussão ficou interrompida

quando os turcos cortaram o fio à meada, se é que não cortaram mesmo o sexo aos anjos.

Bizâncio, então, podia ter caído uns dias mais tarde:

talvez, durante esses dias, se pudesse chegar a uma conclusão

sobre qual era, afinal, o sexo dos anjos;

e o assunto interessa-me porque os únicos anjos que conheço são em estátua,

e não é possível espreitar o sexo de uma estátua!

A queda de um império, é verdade, dá-nos estas coisas imprevisíveis:

dá-nos um voo de argumentos teológicos sobre o sexo;

e traz-me, de súbito, o teu rosto,

inquietante na sua fixidez de enigma grego – esse rosto de perfil,

e também gosto dos perfis, mesmo quando não são de anjos

ou não têm a linha pura dos ícones gregos.

Basta-me, então, saber que é o teu rosto;


ouvir ainda as tuas últimas palavras de despedida,

que me soaram demasiado secas

(mas que outro tom se pode usar numa despedida para não ser patético,

como esses que ainda discutiam o sexo dos anjos

num conflito cercado pelos turcos?)

– e dizer-te, agora, que não há voltas a dar ao amor

quando o céu muda a cada instante, e é preciso, apesar de tudo,

que alguma coisa permaneça intacta em tempos de mudança.

Que outros impérios terão de cair para isso?

Em que novo concílio ouvirei discutir o sexo dos anjos?

Ouve, então, de novo:

em Bizâncio, uma tarde, foram todos degolados à beira da conclusão.


Nuno Júdice - 16 DE ABRIL DE 2009 
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.Enviado por Carmen (hi5)
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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

Modus vivendi


Súplica

Agora que o silêncio é um mar sem ondas,
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.
Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo a tua voz seria
Matar a sede com água salgada.
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Miguel Torga
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Esta manhã encontrei o teu nome

Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.
No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida
foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama
e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.
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Maria do Rosário Pedreira
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07 de janeiro de 2010

Paul Signac

signac-paul-03.JPG
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amanhã, o sol
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A vila

A vila
o canto longínquo do tempo
deixa-me para sempre. É pouco.
nas dunas crescem as flores novas.
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João Miguel Fernandes Jorge
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Vem, serenidade!

Vem, serenidade!
Vem cobrir a longa
fadiga dos homens,
este antigo desejo de nunca ser feliz
a não ser pela dupla humidade das bocas.
Vem, serenidade!
faz com que os beijos cheguem à altura dos ombros
e com que os ombros subam à altura dos lábios,
faz com que os lábios cheguem à altura dos beijos.
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Raul de Carvalho
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Joos de Momper II

Joos%20de%20Momper%20II.jpg
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inverno, ainda...

06 de janeiro de 2010

Ausência

Eu deixarei que morra
em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado.
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face.
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada.
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite.
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa.
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço.
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos.
Mas eu te possuirei como ninguém porque poderei partir.
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas.
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.
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Vinicius de Moraes
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Ghirlandaio

Ghirlandaio%20D-2_jpg.jpg
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a real adoração
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domingo, 6 de dezembro de 2009

Requiem por Muitos Maios - Nuno Júdice

Requiem por Muitos Maios
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Conheci tipos que viveram muito. Estão
mortos, quase todos: de suicídio, de cansaço.
de álcool, da obrigação de viver
que os consumia. Que ficou das suas vidas? Que
mulheres os lembram com a nostalgia
de um abraço? Que amigos falam ainda, por vezes,
para o lado, como se eles estivessem à sua
beira?
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No entanto, invejo-os. Acompanhei-os
em noites de bares e insónia até ao fundo
da madrugada; despejei o fundo dos seus copos,
onde só os restos de vinho manchavam
o vidro; respirei o fumo dessas salas onde as suas
vozes se amontoavam como cadeiras num fim
de festa. Vi-os partir, um a um, na secura
das despedidas.
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E ouvi os queixumes dessas a quem
roubaram a vida. Recolhi as suas palavras em versos
feitos de lágrimas e silêncios. Encostei-me
à palidez dos seus rostos, perguntando por eles - os
amantes luminosos da noite. O sol limpava-lhes
as olheiras; uma saudade marítima caía-lhes
dos ombros nus. Amei-as sem nada lhes dizer - nem do amor,
nem do destino desses que elas amaram.
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Conheci tipos que viveram muito - os
que nunca souberam nada da própria vida.
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Nuno Júdice, in "Teoria Geral do Sentimento"
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Enviado por Yolanda (hi5) - 1/Dez 0:59
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

BRAILE - Nuno Júdice

Leio o amor no livro
da tua pele; demoro-me em cada
sílaba, no sulco macio
das vogais, num breve obstáculo
de consoantes, em que os meus dedos
penetram, até chegarem
ao fundo dos sentidos. Desfolho
as páginas que o teu desejo me abre,
ouvindo o murmúrio de um roçar
de palavras que se
juntam, como corpos, no abraço
de cada frase. E chego ao fim
para voltar ao princípio, decorando
o que já sei, e é sempre novo
quando o leio na tua pele.

NUNO JÚDICE
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Enviado por Moranguinho Pereira (hi5)
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terça-feira, 23 de outubro de 2007

Nuno Júdice - poemas


* Nuno Júdice
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Plano

Trabalho o poema sobre uma hipótese: o amor
que se despeja no copo da vida, até meio, como se
o pudéssemos beber de um trago. No fundo,
como o vinho turvo, deixa um gosto amargo na
boca. Pergunto onde está a transparência do
vidro, a pureza do líquido inicial, a energia
de quem procura esvaziar a garrafa; e a resposta
são estes cacos que nos cortam as mãos, a mesa
da alma suja de restos, palavras espalhadas
num cansaço de sentidos. Volto, então, à primeira
hipótese. O amor. Mas sem o gastar de uma vez,
esperando que o tempo encha o copo até cima,
para que o possa erguer à luz do teu corpo
e veja, através dele, o teu rosto inteiro.





Nunca são as coisas mais simples que aparecem
quando as esperamos. O que é mais simples,
como o amor, ou o mais evidente dos sorrisos, não se
encontra no curso previsível da vida. Porém, se
nos distraímos do calendário, ou se o acaso dos passos
nos empurrou para fora do caminho habitual,
então as coisas são outras. Nada do que se espera
transforma o que somos se não for isso:
um desvio no olhar; ou a mão que se demora
no teu ombro, forçando uma aproximação
dos lábios.
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Para saber mais visitar:

A a Z Blog de Nuno Júdice