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domingo, 10 de abril de 2016

Herberto Helder. Pode o poeta perder a aura?


10 Abril 2016

Joana Emídio Marques

Depois de anos refugiado numa obscuridade sem concessões, surgiram edições sucessivas e atenção mediática. Mas o que ficará da poesia de Herberto Helder?


Durante décadas a publicação de um livro de Herberto Helder era um acontecimento. Cada livro mexia com a tectónica da poesia portuguesa que se escrevia em redor. Obrigava a que todos e cada um se reposicionassem. Mesmo os que o odiavam. Ou sobretudo esses. Uns escreviam contra ele, outros escreviam como ele, outros escreviam o oposto a ele. Mas ninguém lhe ficava imune.

Os livros surgiam de vez em quando, sem data pré-estabelecida. Os poemas eram escritos e reescritos e carburavam esse tempo lento. Eram o poema contínuo. Um trabalho incessante sobre cada palavra e as suas respetivas ressonâncias, sobre cada imagem evocada fizeram da sua uma linguagem poética única na história da poesia portuguesa. Há lugares que só ele tocou, porque, entre outras coisas, escrevia contra a linguagem do poder. Escrevia contra a linguagem banalizada por um mundo ao sabor das modas e onde tudo passa sem deixar rasto. O poema contínuo era também um tempo contínuo. Um tempo que não coincide com esta modernidade onde tudo explode, se dissolve numa rapidez estonteante.

Mas a aura de Herberto Helder foi mais construída pela sua recusa de participar no circo mediático da literatura do que pela grandiosidade da sua poesia, que afinal poucos liam. O poeta que teimosamente desprezava o mundo das aparências construía, paradoxalmente, a aparência de um mito. Livros de edições únicas (por vezes corrigidos à mão pelo próprio autor), que faziam as delícias dos alfarrabistas, mas que eram sobretudo manifestação do constante desassossego e insatisfação que ele sentia em relação às coisas que escrevia.


O livro, agora lançado pela Porto Editora, contém 33 poemas inéditos. Preço:16.60 euros

A total recusa de falar aos media, a rejeição de quaisquer prémios e honrarias valeram-lhe uma corte de admiradores. Herberto era aquele que recusava majestaticamente aquilo que todos parecem querer: fama, mundanidade, dinheiro.

Esta postura que era, para Helder Macedo, escritor e amigo de longa data do poeta, “um misto de arrogância e integridade”, terminou em 2013, com a publicação de Servidões. O “fenómeno Herberto” explodiu.

Já com a Porto Editora a trabalhar a marca Assírio & Alvim, o livro esgota as tiragens, os media percebem o elan e os críticos apressam-se. E eis Herberto chegado às redes sociais, estrela pop de um mundo que ele nem sequer conhecia. A partir daqui saiu um livro por ano: A Morte sem Mestre, Poemas Canhotos e agora Letra Aberta. O primeiro terminado e publicado ainda em vida, o segundo estava pronto para ser publicado quando o autor morreu em março de 2013. Este agora é uma recolha feita nos cadernos de Herberto pela sua viúva, Olga Lima.

No meio deste frenesi, a grande questão que o novo livro nos deixa, e porque ele nos devolve a grandiosidade da poesia de Herberto, é: uma vez rasgada a aura de mistério do poeta como sobreviverá a sua poesia?

Os estudiosos da obra herbertiana desmultiplicam-se em análises, congressos, sonham com edições de aparato crítico. As redes sociais replicam a capa e alguns poemas. Os livros são celebrados, agraciados e rapidamente esquecidos. Há notícias de que o espólio vai ser digitalizado pela Universidade do Porto, que o professor Arnaldo Saraiva vai trabalhar quadras populares deixadas pelo autor e fala-se mesmo numa arca, apelando ao mito pessoano.

No meio deste frenesi, a grande questão que o novo livro nos deixa, e porque ele nos devolve a grandiosidade da poesia de Herberto, é: uma vez rasgada a aura de mistério do poeta como sobreviverá a sua poesia?


Servidões, livro de 2013 esgotou em poucas semanas. Como era desejo do autor o livro não foi reeditado.

O mito do poeta obscuro

“Qual poeta obscuro! O Herberto nunca quis ser obscuro, pelo contrário, nunca quis ser obscurecido pela mediocridade circundante”, afirma Helder Macedo, em conversa com o Observador. Já Gastão Cruz, outro poeta amigo de longa data de Herberto, afirma: “Essa coisa do obscuro é uma invenção da Maria Estela Guedes [uma das primeiras estudiosas da obra de HH].” Isto antes de desligar o telefone com a declaração “não falo com jornais de direita”.

Outro dos autores com quem o Observador falou foi Diogo Vaz Pinto, jovem poeta, editor, e crítico dos jornais i e Sol que, em 2014, assinou uma critica duríssima sobre o livro A Morte sem Mestre. Ao que Herberto, no seu habitual estilo combativo, resolveu contra-atacar num poema que surge no seu livro seguinte Poemas Canhotos (já publicado postumamente):

(…)

um jovem ávido cheio de cotovelos

no meio da multidão

(…)

oh dêem qualquer coisa ao rapaz frenético:

um relâmpago fotográfico em cheio no rosto,

um calmante,

um sôco,

um bombom recheado de maria gloriazinha,

vai ser difícil vai ser difícil o rapaz não tem escrúpulos,

tem uma fome que vem das primeiras letras,

o rapaz é órfão de toda a gente,

ele quer à força entrar no filme:

logo a primeira imagem em plano glorioso,

mas calma aí, isso não é assim tão raro

mas não vêem vocês aí aquele rosto faminto

não vêem os olhos assassinos?

ele era capaz de matar para ter uma chamada ao palco,

ora ora o mundo está cheio disso:

rapazes que nunca foram amados quando crianças com ranho no nariz e lágrimas nos olhos ardentes (…)

Mas também este crítico literário insiste na necessidade de se “abandonar esta mitificação da pessoa e da obra de Herberto, porque isto apenas acrescenta um ruído fútil, cansativo”.

Pelo contrário, diz, “é preciso deixar a poesia que ele criou respirar, repousar, pois será ela que abrirá caminhos para si própria, para se fazer sobreviver. A poesia dele ajuda-nos a pensar o futuro da poesia em geral e o futuro da sua poesia em particular. Porque questiona, como poucas, este tempo que vivemos, esta angústia e esta permanente sensação de estarmos a viver um tempo terminal. As suas perplexidades amplificam as nossas. O vazio que ela teme e confronta é o nosso vazio. Ao fazer ressoar os milénios passados como, eventualmente, os futuros ela está a dizer-nos que há outro tempo, outra forma de viver o tempo, que não tem que ceder a esta voragem, esta leviandade que a tudo e todos arrasta. Ou seja Herberto pôs-se à margem mas apenas para ver melhor, para não se deixar arrastar, compreender melhor este mundo e nunca deixou de sofrer com isso.”

‘Letra Aberta’: um regresso depois da despedida

“um nome que me digas ou não me digas duas vezes

em dois abismos de sono, esse nome

faz-se carne no mais âmago de mim mesmo,

esse nome trabalha-me,

é igual ao segredo:pão

eu cômo-o no mais escuro do mundo,

cortado a água e mais nada,

quase como quando se morre mais devagar,

se é noite que entra:pão profundo mastigado

acaso na maior parte das noites seguidas umas à outras”

(pag.39)

Tanto Helder Macedo como Diogo Vaz Pinto (dois poetas de gerações muito diferentes, um tem 80 anos e o outro 30) concordam que nos últimos livros o poeta estava a despedir-se. Ele sentia que já se perdia nesse tempo que foi o núcleo da sua poesia. Dai a reatividade e maior fisicalidade dos seus últimos poemas. Na opinião de Helder Macedo “os últimos livros do Herberto representaram, simultaneamente, uma recuperação de atitudes (iconoclásticas, desmistificadoras, irónicas em relação a si próprio) da sua juventude e uma tentativa de encontrar uma nova voz poética em que as veiculasse, não como início mas como fim de vida. Foram por isso livros de grande coragem, em que o Herberto (um dos poetas mais imitados no nosso repetitivo panorama literário) se não imitava a si próprio.”

“Ele impõe uma resistência ao processo de canonização e a espetacularização que haveria sempre de convertê-lo num ícone”, afirma Vaz Pinto. “Neste novo livro temos a possibilidade de espreitar sobre o ombro, temos vislumbres de um irrefreado ofício em busca do ponto último, em que de tão perfeitamente maduro o sabor de um verso não mais se esquece. É, ao mesmo tempo, uma espécie de post-scriptum, esse gesto tão humano de olhar para trás e questionar-se sobre se a grandeza do esforço em que empregou a vida toda poderá sobreviver a um tempo em que nada sobrevive, um tempo de obliteração. Sabemos que estes poemas eram apenas a crisálida do que viria a ser se o poeta continuasse vivo e a trabalhá-los continuamente como era seu hábito, obrigando-os a um período de estágio na gaveta para que se gastasse o fôlego a tudo o que fosse contingente. Talvez este livro demorasse muitos anos a vir a público, e depois poderia ser chamado de volta à liça, reescrito, porque Herberto não abandonava os versos a um destino público. Ele vigiava-os, escrutinava-se. Em muitos sentidos foi dos poetas que mais se empenhou em condicionar a forma como era lido. E nesse sentido estes são poemas imperfeitos, mas que nos permitem perceber a forma como ele se embrenhava, pairando em círculos elevados, até fixar um sentido especialmente acutilante, fixá-lo nas inúmeras vertentes da linguagem, das imagens ao som e aos ritmos”, continua o poeta e crítico.

"Os seus leitores que haviam ficado perplexos (ou mesmo dececionados, como alguns ficaram) com este livro vão ficar mais sossegados. Reconhecerão aqui o poeta que amavam e não queriam que mudasse." 

Helder Macedo

“Quanto à publicação destes poemas, acho que é um ato de partilha por parte da Olga Lima, que foi a constante e discreta companheira do Herberto durante longos anos até ao fim da vida dele. E que discreta continuou a ser, no modo como os recuperou e organizou. Que eu saiba, o Herberto nunca disse que não queria que estes poemas (ou outros textos que a Olga me disse que deixou inéditos) fossem publicados. Simplesmente deixou-os ficar entre os seus papéis, até ver. É bom que agora se vejam”, completa Helder Macedo

Neste livro, constituído por poemas que Herberto ainda não teria considerado prontos para publicação, diz ainda Helder Macedo “reencontramos, paradoxalmente (ou não), o poeta anterior a esses últimos livros. Os seus leitores que haviam ficado perplexos (ou mesmo dececionados, como alguns ficaram) com este livro vão ficar mais sossegados. Reconhecerão aqui o poeta que amavam e não queriam que mudasse. Em vez da sobre-humana voz bárdica dos seus grandes poemas, temos aqui a voz precariamente humana de quem os havia escrito. É, nos seus próprios termos, um belo livro. E, no contexto da obra do Herberto, um testemunho literário importante. De algum modo, ainda bem que o Herberto não os trabalhou mais, transformando-os no que, em termos de “oficina” literária, poderiam ter sido. No contexto da restante obra poética do Herberto e como expressão de quem o Herberto se havia tornado com a proximidade da morte, não são por isso menos belos nem menos verdadeiros.”


Herberto Helder
Depois de décadas sem se deixar fotografar, Herberto surge nas fotos de Alfredo Cunha, poucas semanas antes da sua morte.

“Alguns destes poemas lembram-nos o melhor de Herberto. Lembram-nos que como ele continuou até ao fim a tentar abrir novos caminhos para a poesia. Lembram-nos como ele consegue usar o mais amplo espetro da língua para continuar a realizar inversões bruscas na paisagem, ser ainda mais claro do que os que se limitam ao método da redução e simplificação banal das coisas, denunciando muito claramente o ambiente geral de indigência em que mergulhou o país. Apesar de imperfeitos estes poemas tremem de desgosto, cada palavra busca uma refulgência própria e é a expressão de um desencanto irado que choca com o desencanto cabisbaixo que se tornou um ânimo geral”, afirma Diogo Vaz Pinto.

Herberto Helder ou o poema contínuo

Se a aura de Herberto Helder sobreviverá ou não à máquina mercantil, isso não vai mudar a natureza da sua obra. Talvez só depois de rasgada esta aura artificial, mais alimentada pelos comportamentos sociais do poeta do que pela sua poesia, se possa enfim vislumbrar melhor a amplitude do que nos deixou Herberto.

Os poemas de HH foram, ao longo dos anos, sendo reunidos em várias sumulas. estas edições tiveram muitos titulos diferentes mas, como sugere o poeta Manuel gusmão, o melhor será este que dever ser lido assim:Herberto Helder ou o poema continuo


Os poemas de HH foram, ao longo dos anos, sendo reunidos em várias súmulas. Estas edições tiveram vários títulos diferentes mas, como sugere o poeta Manuel Gusmão, o melhor será este que deve ser lido assim:”Herberto Helder ou o poema continuo”

O trabalho de reescrita continua dos poemas, que o faziam recusar fazer mais do que uma edição de cada livro, demonstra como ele compreendeu bem a essência disruptiva e ambígua da modernidade, e como soube integrar isso no seu trabalho e na sua lírica. O seu profundo desassossego, a sua compreensão de que o mundo não é feito de uma geometria racional mas por pequenas e grandes catástrofes, fez com que o poeta construísse uma obra que replica essas metamorfoses contínuas. Letra Aberta parece ser assim um testemunho poético, onde ele nos mostra, precisamente, que cada palavra está aberta ao devir e que, portanto, a sua poesia poderá ser lida, compreendida e amada em qualquer tempo que vier.

http://observador.pt/especiais/herberto-helder-poeta-perdeu-aura/

sábado, 26 de setembro de 2015

Joana Emídio Marques ~António Lobo Antunes. Ascensão e queda do ‘enfant terrible’ da literatura portuguesa

* Joana Emídio Marques
21 Fevereiro 2015
É o mais importante escritor português, mas o último romance vendeu 1600 exemplares na Fnac, quando há anos se vendiam 10 mil em três meses. Por que abandonámos este minotauro no seu labirinto?
Claudio Magris, um dos maiores pensadores da Europa contemporânea, dedicava a sua crónica no jornal Corriere della Sera, do dia 22 de janeiro, a António Lobo Antunes e chamava-lhe mesmo “um dos mais prodigiosos e fascinantes mestres”, “um Minotauro” da literatura. Ecos em Portugal deste notabilíssimo reconhecimento? Nenhuns. Apenas o blogue do projeto António Lobo Antunes na Web dava conta do acontecimento. Da editora D. Quixote, onde o escritor publica desde 1983, não houve qualquer reação nem no site, nem nas redes sociais. Aliás, na página do Facebook da chancela do grupo Leya, são escassas as referências ao escritor cujo último romance saiu apenas em outubro. Quem é que desistiu de Lobo Antunes? Os leitores ou a editora?
Pedro da Mata, diretor de comunicação da Fnac, dá-nos números arrasadores: nos três meses que passaram desde o seu lançamento, Caminho Como Uma Casa em Chamas vendeu apenas 1600 exemplares no conjunto de todas as Fnac portuguesas, que representam mais de 30% do mercado livreiro. E, apesar de a D. Quixote ter informado o Observador que o livro vai já na quarta edição, uma ronda pelas Fnac e Bertrand da cidade de Lisboa mostra que a única edição à venda é a primeira. Na livraria Bertrand do Centro Comercial da Amoreiras, uma das empregadas mostra no computador que nas outras casas deste grupo livreiro há ainda em stock entre 10 a 14 livros em cada uma.
Já a empresa GfK, que mede as vendas de livros não escolares de 80% do mercado português, confirma ao Observador que, entre 2012 e 2014, Lobo Antunes está apenas no grupo dos 40 escritores portugueses mais procurados. O grupo dos três mais vendidos é encabeçado por José Rodrigues dos Santos, cujo último livro ronda os 10 mil exemplares vendidos apenas nas lojas Fnac. Mais uma vez, Pedro da Mata resume bem a questão: “António Lobo Antunes deixou de ser um escritor da moda e tornou-se um escritor conceituado, 68% dos 1600 exemplares foram adquiridos por portadores do cartão Fnac, ou seja, são leitores cultos que compram livros todos os meses e provavelmente acompanham a obra de Lobo Antunes há muitos anos.”
Nelson de Matos, responsável editorial da D. Quixote entre 1981 e 2004, e um dos edificadores da carreira literária de Lobo Antunes, mostra-se “chocado e triste” com estes números e recorda que nos anos 80 se faziam “tiragens de 10 mil ou 15 mil livros que se vendiam em três meses”. O romance de 1999Exortação aos Crocodilos teve mesmo uma primeira edição em outubro de 1999 e uma segunda logo no mês seguinte, cada uma delas com a indicação de tiragens de 30 mil exemplares. Estamos a falar de 60 mil livros vendidos em dois meses. Mas, segundo Nelson de Matos, houve outras obras com vendas estrondosas, como A Morte de Carlos Gardel, que ultrapassou os 100 mil exemplares em pouco mais de um ano. Isto em 1994, quando não havia cadeias livreiras em todo o país, apenas pequenas livrarias.
Exortação aos Crocodilos
“Exortação aos Crocodilos”, de 1999, um dos grandes sucessos da carreira de Lobo Antunes
Sobre as muitas questões que estes números levantam, o Observador tentou sem sucesso falar com Maria da Piedade Ferreira, a editora de Lobo Antunes na D. Quixote.
Pedro da Mata considera que “há pouco investimento da editora neste autor e ele próprio não se promove, não interiorizou que as coisas mudaram. Hoje um livro e um autor vendem-se como um produto.” Seja pelas regras do mercado, seja por falta de investimento da editora ou por cansaço e pouca exigência dos leitores, a verdade é que o enfant terrible das letras portuguesas que fazia parar o país literário de cada vez que saía um livro seu, que tinha milhares de exemplares vendidos e edições esgotadas em poucos dias, desapareceu.
E desengane-se quem pensa que os seus livros de crónicas se vendem melhor. Pedro da Mata desmistifica: “quem gosta das crónicas de António Lobo Antunes vai lê-las na revista Visão e não compra o livro”. Nelson de Matos recusa esta teoria e contrapõe: “no meu tempo os livros de crónicas vendiam-se tanto como os romances, porque havia um trabalho de promoção do autor, um cuidado, um pensamento estratégico que deixou de haver por parte da D. Quixote e do grupo Leya em geral”.

A ordem natural das coisas?

Trinta e cinco anos de escrita, 25 romances, cinco livros de crónicas e um de correspondência, traduções em dezenas de línguas e pelo menos duas décadas à espera do prémio Nobel da Literatura fizeram de António Lobo Antunes “o elefante no meio da sala”, diz o escritor Bruno Vieira Amaral, 36 anos, prémio Pen Club Narrativa 2013.
“Ninguém escreve como ele. É, indiscutivelmente, o nosso maior escritor vivo e o único que pode legitimamente ambicionar o Nobel. Qualquer pessoa da minha geração que ambicione tornar-se escritor tem que passar por ele, lidar com a sua terrível força atratora, confrontar-se com o canto da sereia que é a sua escrita.” E remata: “só vende 1600 livros? Que bom para ele. Conquistou o direito de se estar nas tintas para os leitores, para o mercado e tudo isso”.
"António Lobo Antunes só vende 1600 livros? Que bom para ele. Conquistou o direito de se estar nas tintas para os leitores, para o mercado e tudo isso."
Bruno Vieira Amaral, escritor
Opinião diferente tem José Alexandre Ramos, responsável pelo projeto António Lobo Antunes na Web, que existe desde 2004 e que é provavelmente a mais bem organizada e completa base de dados sobre o escritor. Este analista financeiro, de 44 anos, aponta como determinante o facto de as editoras “só apostarem no que é vendável e não em literatura” e atira também contra a “parca” crítica literária em Portugal. “Estou convencido que muita gente continua a ler António Lobo Antunes; apenas deixou de ser moda comprar os seus livros para montra das estantes domésticas. E tem leitores cada vez mais novos. Mas a verdade é que é muito pouco o que se escreve sobre os seus livros em Portugal, e eu vejo isso no trabalho de recolha que faço. Sem falar na opinião de leitura do leitor comum, a crítica literária não sabe escrever sobre Lobo Antunes.”
Opinião idêntica tem o poeta e editor João Paulo Cotrim, que lê Lobo Antunes desde os 15 anos e considera que os livros e o escritor “não perderam o fascínio”, apesar de ele já não ser o “fenómeno mediático que foi”. José Riço Direitinho e António Guerreiro, ambos críticos literários com posições antagónicas perante a obra do escritor, lembram os tempos em que na Feira do Livro de Lisboa as mulheres faziam filas intermináveis para ter um autógrafo dele. “Era considerado o escritor português mais giro e muitas aproveitavam esse momento para lhe passarem os seus números de telefone pessoais”, conta Riço Direitinho, “depois ele dizia coisas que mais ninguém dizia, umas disparatadas outras não, e trouxe para a literatura uma novidade de temas, de estilo e de olhar”.
Por seu turno, António Guerreiro recorda: “Era um enfant terrible que depois adotou a postura de menino mimado, as pessoas queriam ouvir as suas boutades como quando ele chamava a Vergílio Ferreira ‘o Sartre de Fontanelas’.” Guerreiro, um dos críticos literários portugueses há mais tempo no ativo, tem escrito reiteradamente sobre “o excesso que se torna vazio” dos livros de António Lobo Antunes. Em 1990, assinou um texto intitulado “Crítica da faculdade de enjoar” onde se debruça sobre o livro Tratado das Paixões da Alma, afirmando que a obra de Lobo Antunes é um “kitsch de segundo grau”.
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António Guerreiro sobre “Tratado das Paixões da Alma”: “kitsch de segundo grau”
 Em 2007, o crítico Pedro Mexia quebrava a quase unanimidade que se instalou em torno do romancista, ao escrever: “o texto antuniano é hoje um melopeia cheia de repetições, parêntesis, devaneios, saltos temporais, períodos que não acabam e elidem os verbos (…) Essa concepção da escrita talvez explique o desgaste narrativo. António Lobo Antunes, sempre admirável nas duas páginas de uma crónica, tem escrito romances desnecessariamente prolixos e repetitivos.”
Nestas quase quatro décadas a viver para o oficio da escrita, António Lobo Antunes passou de um jovem, belo e promissor escritor a um homem envelhecido, descuidado com a sua imagem, como se aspirasse a fundir-se com o grotesco das suas personagens. Ao mesmo tempo, os seus livros trocaram o enredo por um trabalho sobre a linguagem que para uns é “genial”, como Riço Direitinho, João Paulo Cotrim e Bruno Vieira Amaral, e para outros, como António Guerreiro, é “vazio”.
A morte de José Saramago apagou do mapa o seu inimigo figadal e afastou aqueles que o liam como uma forma de contestar Saramago. “A geração que fez a Guerra Colonial e que lia e se revia nos seus romances foi morrendo, os currículos escolares não ajudam, nem a estúrdia coletiva em que vivem os jovens de hoje”, afirma Maria Alzira Seixo. Catedrática e especialista na obra antuniana, considera que este afastamento dos leitores de Lobo Antunes se pode ainda imputar à falta de investimento editorial e às políticas erradas do mercado de venda de livros.
"Era um enfant terrible que depois adotou a postura de menino mimado, as pessoas queriam ouvir as suas boutades como quando ele chamava a Vergílio Ferreira 'o Sartre de Fontanelas'."
António Guerreiro, crítico
“A crítica literária deixou de existir, os leitores não são convidados a pensar, a decifrar a obra. Um leitor de Lobo Antunes tem que ser envolvido pela obra, tem que aprender a lê-lo. Ora, sem uma editora que o ajude isto é uma tarefa impossível para ele”, declara Nelson de Matos.
Que elações podemos, então, tirar das escassas vendas do maior escritor português? António Lobo Antunes está morto? José Riço Direitinho é taxativo: “Lobo Antunes não está morto. Quem está morto são os leitores portugueses que só querem ler coisas fáceis, livros convencionais.”

Não entres tão depressa nessa noite escura

“A maior parte dos escritores deste país são castrados (…) fala-se em masturbação intelectual mas eu acho que nem é masturbação, são umas vagas festinhas na ponta do pirilau. Não têm sangue, não têm tripas (…) depois as pessoas queixam-se que em Portugal ninguém lê. É evidente que não leem (…) Portanto, eu compreendo que A Memória de Elefante se venda e também compreendo porque é que os outros não se vendem. Eu acho perfeitamente natural que eles não vendam porque aquilo que eles escrevem não é para ser lido a não ser por pessoas que gostam de fazer palavras cruzadas na alma ou jogar gamão dentro da cabeça, mas não viver. Não tem nada que ver com a vida (…) Tudo isso se passa ao nível da pequena cotterie com todas as suas mesquinhices, um pequeno bordel.”
Isto pode ler-se na primeira entrevista de sempre de António Lobo Antunes, publicada no extinto jornal Diário Popular, em 18 de outubro de 1979.
Quando chega à cena literária portuguesa, dominada ainda pelos neo-realistas e pelo cânone literário do crítico João Gaspar Simões, Lobo Antunes tem 36 anos, traz a nunca totalmente digerida Guerra Colonial para dentro do discurso literário, uma linguagem coloquial onde abundava o vernáculo, um estilo e um olhar absolutamente novos sobre as misérias do quotidiano da gente comum: “Ele foi uma pedrada no charco num tempo em que a escrita portuguesa era muito apetecida”, lembra o editor João Paulo Cotrim.
“O que me impressionou nele foi a liberdade de escrita, a capacidade de dizer coisas despropositadas, as suas metáforas impossíveis”, conta Riço Direitinho, que nessa altura tinha 18 anos, escrevia para o DN Jovem e tentava imitar o estilo antuniano. “Todos nós o imitávamos, a escrita dele cola-se à nossa, o olhar dele colava-se ao nosso”, diz ainda o crítico.
LISBON, PORTUGAL - SEPTEMBER 13:  A portrait of writer Antonio Lobo Antunes on November 09, 2010 in Lisbon, Portugal.  (Photo by Pedro Loureiro/Getty Images)
António Lobo Antunes em novembro de 2010 (Pedro Loureiro/Getty Images)
Se muitos aderiram e se renderam, muitos outros desconfiaram e as suas piadas e alusões a escritores mais velhos valeram-lhe muitos inimigos. A crítica não lhe perdoava o sucesso, a liberdade, a pose. Mas, em meados da década de 90, mais precisamente em 1996, com o romance Manual dos Inquisidores, quase todos acabam por se render. Entre eles o editor e escritor Luiz Pacheco, que tinha o hábito de assoar o nariz aos livros dos escritores mais novos, e Eduardo Prado Coelho, à data o mais determinante crítico literário português. No JL de 21 de novembro de 1996, depois de o chamar de “mimalho” e de lhe criticar o uso de “metáforas patetas” e o “exibicionismo cultural”, Pacheco reconhece: “gosto muito”, “venho aqui para aplaudi-lo”.
Em novembro de 2014, pouco depois da saída do livro Caminho Como Uma Casa em Chamas, António Guerreiro escrevia no jornal Público: “Nas entrevistas, António Lobo Antunes apresenta-se como um escritor que vive dentro de si a experiência da co-naturalidade com o acto criador, recuperando ideias que hoje já não subsistem, nem sequer nos nossos mitos: as ideias de inspiração, de génio, de entusiasmo (no sentido grego de possessão pelo divino).”
Ora, quem está atento ao mundo literário sabe que em cada entrevista António Lobo Antunes fala do Zé (Cardoso Pires), do Ernesto (Melo Antunes), da “mão que escreve sozinha”, dos “livros que se escrevem a si próprios”, “da infância em Benfica”, “do medo da morte”, “da possibilidade de deixar de escrever”. Conhece a postura da cabeça apoiada no dedo, da voz baixa e arrastada como se falasse sempre e só consigo mesmo, sabe que ele raramente ri, exceto nas conferências no estrangeiro. Para Maria Alzira Seixo, Lobo Antunes “é um homem encantador, com uma capacidade de riso e de ironia que ele usava na escrita e deixou de usar com muita pena minha”, lamenta a catedrática.
“A crítica literária deixou de existir, os leitores não são convidados a pensar, a decifrar a obra. Um leitor de Lobo Antunes tem que ser envolvido pela obra, tem que aprender a lê-lo. Ora, sem uma editora que o ajude isto é uma tarefa impossível para ele.”
Nelson de Matos, editor
É toda uma mitologia pessoal, um solipsismo que a pouco e pouco foram sugando a própria obra. “A sua grande personagem é ele próprio”, afirma Bruno Vieira Amaral. “Ninguém vai ler uma entrevista do Lobo Antunes para ouvir o que ele tem a dizer sobre o mundo, ou mesmo sobre os livros que escreve, mas sim para ouvir o que ele vai dizer sobre si mesmo. E é aí que reside o meu fascínio por ele. Porque ele o faz de uma maneira única.”
Já José Riço Direitinho e João Paulo Cotrim reconhecem que pode haver algum cansaço, quer pela persona que o escritor criou, quer pelo ritmo de publicação. “São livros muito exigentes, que demoram tempo a fruir e se lidos uns atrás do outros dá a impressão que estamos sempre a ler a mesma coisa”, diz Riço Direitinho, antes de lembrar como ele enche salas noutros países, “porque não têm que o ouvir dizer as mesmas coisas todos os anos”.
E Cotrim desmente mesmo o mito de Lobo Antunes ser “pouco disponível para os media”, mostrando o livro Confissões do Trapeiro, de Ana Paula Arnaut, que compila todas as entrevistas saídas na imprensa portuguesa entre 1979 e 2007, e onde se podem encontrar conversas dele com jornalistas ou escritores praticamente todos os anos. 

Se é verdade que muitas obras se esgotam prematuramente por serem demasiado admiradas, a vaidade indisfarçada de Lobo Antunes, os prémios e as honrarias, a falta de uma crítica confrontativa, não o impediram de viver para a escrita e de fazer dela a única finalidade da sua vida, o seu único ato moral e o seu eterno enigma. Ser uma coqueluche dos media não o fez desinvestir da obra para alimentar o fornalha da vaidade. Se há quem pressinta nele algo de falseado isso é, para outros, motivo de adoração.
Mas nas montras das livrarias, o grande esforço de marketing da Leya parece ter ido todo para vender o jovem Afonso Reis Cabral, de 24 anos, prémio Leya 2014, e para Inês Pedrosa, quando tem no seu catálogo o que Riço Direitinho diz ser “o único escritor genial de língua portuguesa, vivo”. O desinvestimento pode confirmar-se também nas redes sociais: a página do Facebook da D. Quixote, com os seus 6107 seguidores, tem, desde outubro até agora, apenas cinco menções a António Lobo Antunes, contra 28 posts sobre o novo romance de Inês Pedrosa (colocados em menos de um mês).
O desinvestimento da editora em Lobo Antunes pode confirmar-se nas redes sociais: a página do Facebook da D. Quixote tem, desde outubro até agora, apenas cinco menções a António Lobo Antunes, contra 28 posts sobre o novo romance de Inês Pedrosa (colocados em menos de um mês).
“O enredo não me interessa para nada”, declarava o escritor em novembro em entrevista à Visão. Desde o ano 2000, comExortação aos Crocodilos, a escrita antuniana tornou-se um depurado ofício sobre a linguagem, que torna os seus livros mais próximos do trabalho poético do que do romance convencional. “Ele é um malabarista de intensidades que está, desde o primeiro livro, a traçar um fresco sobre a sociedade portuguesa do final do século XX e início do século XXI. O que ele escreve é de uma importância tal que não pode ser arrumado só porque não é novidade”, declara João Paulo Cotrim, que recusa terminantemente ver o génio de Lobo Antunes apenas nas crónicas: “as crónicas aproximam leitores porque são fáceis de ler e cheias de sentimentalismo, mas a grande obra dele são os romances”. Nelson de Matos corrobora esta posição: “sempre me desgostou muito esta colagem da sua imagem às crónicas, porque as crónicas não são nada quando comparadas com a genialidade, a capacidade de criação escrita dos seus romances”.
José Alexandre Ramos prefere apontar que “a escrita de Lobo Antunes se tornou mais refinada”, e acrescenta: “eu tinha medo que com a idade lhe acontecesse o que aconteceu ao Saramago e a outros cujos últimos livros não são nada, mais valia que estivessem calados”. E Maria Alzira Seixo afirma mesmo que ele “tem livros perfeitos como uma tragédia de Racine”.
A realidade é que, aos 72 anos, António Lobo Antunes parece ter sido sugado para um mundo intangível pelos leitores, tal como aqueles escritores que ele criticava em 1979: “é um escritor de nicho e, no panorama português, um escritor de nicho vender 1600 exemplares em três meses não é nada mau”, afirma o diretor de comunicação da Fnac.
Voltemos então ao olhar para o que diz o astuto Luiz Pacheco:
“Lobo Antunes, e gostaria de estar equivocado, caiu numa espécie de niilismo flamejante. Aura internacional bastante, nenhuma apetência para ficar por cá. Vejam o paradoxo: tínhamos um grande romancista de subúrbio; ficaremos qualquer dia a ler Lobo Antunes em francês ou em sueco…”
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