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sábado, 22 de maio de 2021

António Sousa Homem - A depressão de Dona Elaine e a cozinha de Moledo

António Sousa Homem

Crónicas de um reaccionário minhoto.



  
07/12/14
A depressão de Dona Elaine e a cozinha de Moledo


Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas 

 

Desde há meses que Dona Elaine não perde um programa de cozinha na televisão. Se não o vê em directo, escolhe as horas mansas da tarde – enquanto os nossos visitantes se estendem no areal da praia, reconfortados pelo calor que, finalmente, chegou a Moledo – para verificar o que se cozinha na Austrália, nos Estados Unidos e, por vezes, em programas de viagem que atravessam a Tailândia, a Mongólia ou regiões ainda mais exóticas, como o Alto Douro ou o Alentejo. Ontem mesmo deparei com um espectáculo preocupante: a governanta deste eremitério sentada à mesa da cozinha, tendo à sua frente um caderninho comprado na mercearia, tomando notas acerca de um filete de garoupa braseado com raspa de gengibre e um caril de legumes, colorido como um Caravaggio alegre.

Dona Elaine é uma cozinheira de mérito, educada nos fogões da sua família (emigrantes no Brasil), aconchegados pela sabedoria minhota – de Cerveira. Isso significa que oscila bastante entre uma certa simplicidade e um desejo barroco que nunca é atingido: pratos suculentos e letais andam de braço dado com peixes frescos e saladas da horta. Por alturas do Verão, Dona Elaine rejuvenesce e recolhe-se à despensa, animada pela chegada dos meus sobrinhos e outros acompanhantes; limitada pela minha dieta, esta pequena multidão estival, jovem e esfomeada, é uma oportunidade para relembrar a sua arte. Surgem, então, tabuleiros de arroz de pato, travessas de escabeche, doces que fazem tremer os tempos modernos, massas folhadas que desafiam a austeridade, peixes que passam pela tortura do forno e uma grande variedade de recordações dos velhos livros de gastronomia do Alto Minho – para os quais, não raras vezes, é convocado o Dr. Barreto Nunes, que vem de Braga com mais um opúsculo raríssimo que apreciamos à hora da sesta.

Ultimamente, porém, Dona Elaine passou um período de melancolia e de certo desalento. A minha sobrinha Maria Luísa atribuiu-o ao excesso de jovens ‘chefs’ que, pela televisão, deprimem o génio da nossa brava governanta. Foi necessária uma “terapia de choque”, garantindo que detestávamos as técnicas de “empratamento” contemporâneas (onde a comida é amontoada como uma torre de Babel) e que apreciávamos como ninguém o seu frango no forno, recheado, luminoso e suculento. A crise de confiança foi debelada quando lhe pedi, de mãos juntas, que nos fizesse ovos com chouriço ou sardinhas fritas, os pratos que o Tio Alberto preparou para D. Ramon Otero Pedrayo, o insigne galego. Toda a gente compreendeu que são necessários sacrifícios para manter impoluta a mesa de Moledo.

https://antoniosousahomem.blogs.sapo.pt/a-depressao-de-dona-elaine-e-a-cozinha-21392


António Sousa Homem - Começar pelo fim

* António Sousa Homem 

SÁBADO, JANEIRO 14, 2006

Dobrei já aquilo que se chama a idade do século. O mundo não tem para mim, hoje, passados oitenta e quatro anos, menos segredos do que quando o senhor general Craveiro Lopes foi apeado da Presidência. Há quem pense que a idade é uma vantagem. Seguramente não é. Com o tempo vamos ficando maduros e tranquilos; mas com a idade vamos apenas reparando nos defeitos dos outros e quase nunca nos nossos. Reparo que os meus sobrinhos espremem a pasta dentífrica pelo meio e não pela base. Dou-me conta das mudanças de estação quando os pinhais de Moledo mudam de cor. A velocidade das coisas não me interessa, há muito que me conformei com a sua passagem e a ideia, vulgar e triste, de que há coisas novas para experimentar.

Sou um conservador, um botânico e um velho. Até como botânico sou conservador, reservando sempre o mesmo espaço para as begónias – que me lembram Júlio Diniz e “Uma Família Inglesa” – e o mesmo enlevo para os hibiscos. A velha casa de Moledo, onde a família passa os domingos e, episodicamente, os finais de semana, não acolhe memórias de um século; alberga apenas a poeira de oitenta e quatro anos assinalados, religiosamente, em Dezembro de cada ano e anunciados à família como um avanço na conservação da espécie. Tenho uma biblioteca razoável, mantida sem esforço e sem ordem. Aprendi com o velho doutor Homem (meu pai), que a abundância de livros não deve fazer-nos pensar na sabedoria mas apenas na vaidade e no prazer. Não na alegria (que raramente se retira deles); antes, no prazer que se retira do silêncio, da contemplação e da pequena vaidade.

Aos oitenta e quatro anos devia interessar-me pelas doenças do meu corpo, já que pouco me interessei pelas do meu país. Aliás, com o tempo e com a idade, simultaneamente, o meu país ficou reduzido ao Minho e ao velho Porto de que recordo amigos desaparecidos, ruas antigas, perfumes de antanho. Gosto de palavras antigas. A minha sobrinha Luísa, alimenta a minha imoderada vaidade literária, feita de clássicos, de romances baratos e de repetições. Também gosto de repetições. Gosto de lugares onde me sento sempre da mesma maneira, de urzes que mantêm a mesma cor, de livros que não mudaram de estante e de bandas de música que tocam marchas incompreensíveis e desafinadas. Hoje, sou um rural. As pessoas razoáveis do meu país, em vez de viverem e envelhecerem tranquilamente no campo, ficaram nas cidades, rodeados de médicos e de novidades como a televisão, a internet e as eleições.

O meu avô e o velho doutor Homem, meu pai, legaram-me uma ideia de felicidade doméstica que já não existe e que eu, o mais velho de seis irmãos e irmãs, devia saber explicar. Mas não sei, essa é a verdade. Era uma felicidade feita de repetições, de moderação e de pouco engenho, contentando-se com o facto de haver Inverno e de, mais tarde, poder haver Verão. A minha família atravessou os séculos e as convulsões adaptando-se ligeiramente aos factos consumados e tratando a História como um incómodo que era preciso suportar. Fomos miguelistas e mudámos de campo. Fomos indiferentes à República e achámos insuportável o doutor Salazar. A última das revoluções, em 1974, já não nos surpreendeu porque na altura tínhamos aprendido a falar no “curso da História” e no fim dos tempos. Houve uma altura em que me senti vagamente contrariado com o país. Não hoje. Sou apenas um velho homem do Minho, um pouco reaccionário, habituado ao mar de Moledo, à superfície das coisas, às memórias que não se podem mudar, como ter começado estas crónicas pelo fim. Pelos meus oitenta e quatro anos.

in Revista Notícias Sábado - 14 Janeiro 2006
POSTED BY ANTÓNIO SOUSA HOMEM AT 14.1.06

http://antonio-sousa-homem.blogspot.com/2006/01/comear-pelo-fim.html

segunda-feira, 20 de maio de 2013

José Luís Peixoto - Livro


Quero Um Livro
 07 Janeiro 2011
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"Este livro elege como cenário a extraordinária saga da emigração portuguesa para França, contada através de uma galeria de personagens inesquecíveis e da escrita luminosa de José Luís Peixoto. Entre uma vila do interior de Portugal e Paris, entre a cultura popular e as amais altas referências da literatura universal, revelam-se os sinais de um passado que levou milhares de portugueses à procura de melhores condições e de um futuro com dupla nacionalidade. Avassalador e marcante, Livro expõe a poderosa magnitude do sonho e a crueza, irónica, terna ou grotesca, da realidade. Através de histórias de vida, encontros e despedidas, os leitores de Livro são conduzidos a um final desconcertante onde se ultrapassam fronteiras da literatura."



José Luís Peixoto nunca foi um autor que me chamasse à atenção, aliás sempre achei que não gostava dele... Não faço ideia de onde vinha essa certeza, que me lembre nunca tinha lido nada dele até hoje. Pode ter acontecido ter-me passado pelas mãos algum livro dele, quando era muuuiittoooo mais nova e não ter gostado, mas sinceramente não me recordo. Aponto mais para o facto de ter, por alguma razão, confundido o nome dele com o de algum autor que não gostei. É possível, visto a minha memória para nomes ser má e o meu conhecimento de escritores portugueses contemporâneos ser vergonhosamente deficiente. :/ O importante aqui é que esse erro foi corrigido e José Luís Peixoto entrou na lista dos escritores que gosto e que quero continuar a ler. :)


Livro de José Luís Peixoto está dividido em duas partes, claramente distintas uma da outra. Na primeira parte o autor narra a história de amor de Ilídio e Adelaide, numa aldeia do interior de Portugal. Um amor feito de olhares, de sentimentos não falados, de silêncios e de desencontros gerados pela miséria, pela vergonha, pela ignorância e pela inveja. Quando Adelaide é forçada a partir para França, Ilídio parte atrás dela. Adelaide e Ilídio servem de pretexto para que conheçamos as condições duras da viagem mas, também a solidariedade dos espanhóis que ajudavam os portugueses até à fronteira francesa. É através deste dois, que partiram por razões completamente diferentes das dos seus companheiros de viagem, que José Luís Peixoto nos vai dando conta das condições difíceis que esperavam os portugueses em França com a descriminação e o trabalho duro.

Esta primeira parte do livro é angustiante, é triste, miserável como a vida de quase todos os que nele aparecem. José Luís Peixoto consegue, com as palavras e pela forma como as utiliza, transmitir emoções fortes, consegue chocar-nos, deixar-nos confusos e muitas vezes enojados, apanha-nos desprevenidos e somos confrontados com situações que nos deixam sem defesas e sem reacção, engolimos em seco. Ao mesmo tempo o Livro consegue fazer-nos sorrir, porque nem tudo na vida são desgraças, porque existem situações caricatas, estranhas, quase cómicas e porque as personagens são na sua essência puras, inocentes e a esperança acaba por ser um sentimento que vagueia pelas páginas do livro. De alguma forma, temos a certeza de que tudo acabará bem. :)

A segunda parte do livro é mais leve, o estilo de escrita muda completamente e o cenário é mais luminoso e risonho. Não será coincidência que a primeira parte acabe pouco dias depois do 25 de Abril. :) Aqui José Luís Peixoto, como diz a sinopse, ultrapassa as fronteiras da literatura e interage com o leitor, provocando-o. Esta parte termina a história, não sem alguma estranheza pela personagem que nela nos é apresentada... Quase irreal, quase uma personagem ela própria. :)

Porque vim de um livro completamente diferente (The Cider House Rules) em termos de escrita, John Irving enche as histórias de pormenores e normalmente chego ao fim dos livros dele cansada, fisicamente cansada, entrar na escrita mais simples, sem ser linear de José Luís Peixoto custou-me um pouco. Adaptar-me a uma linguagem mais próxima dos sentimentos, mais límpida foi uma questão que tive de ultrapassar no início. Mas depois desse período de adaptação a leitura, embora feita de uma forma calma, foi de certa forma compulsiva. Não acho que este livro deva ser um livro de leitura rápida mas sim um daqueles em que saboreamos as palavras e a musicalidade da escrita.

Gostei e agora gostava de ler um dos anteriores do José Luís Peixoto pois, pelo que me consta este é diferente de todos os outros.

Recomendo sem reservas!

Boas leituras!
Publicada por N. Martins à(s) 12:10 
Diário de Notícias

LIVROS

José Luís Peixoto dá vida ao rapaz 'Livro'

por Lusa25 agosto 2010Comentar
Escritor José Luís Peixoto
Escritor José Luís Peixoto
Fotografia © Dn / Gonçalo Villaverde

No novo romance de José Luís Peixoto, que chega às livrarias portuguesas a 24 de Setembro, 'Livro' é nome de pessoa, do protagonista da história, centrada na emigração portuguesa para França nas décadas de 1960 e 1970.
'A história é maravilhosa, desde a primeira frase do livro', disse hoje à Lusa Francisco José Viegas, director editorial da Quetzal, que está a reeditar a obra de José Luís Peixoto. E a primeira frase é 'A mãe pousou o livro nas mãos do filho'.
'Uma mãe abandona um filho para poder emigrar e, muitos anos depois, os seus destinos voltam a cruzar-se, num enredo de coincidências portuguesas, amores desencontrados, bibliotecas, livros de que se gosta muito -- e é já o 25 de Abril, com uma segunda geração de emigrantes que são portugueses em França e franceses em Portugal', resumiu.
O livro -- explicou o editor -- está dividido em duas partes distintas: 'A primeira trata especificamente de uma história de emigração, dramática, muito realista, cheia de histórias e de episódios que dificilmente esqueceremos'.
'A segunda trata deste personagem curioso e fascinante, que tem um nome ainda mais estranho: Livro. É o nome dele, do rapaz. Livro. E é um brilhante delírio sobre literatura, bibliofilia, Portugal, a emigração, o cruzamento de culturas...', prosseguiu.
José Luís Peixoto, de 35 anos, vencedor do Prémio Literário José Saramago em 2001 com o seu romance de estreia, 'Nenhum Olhar', publicou depois mais dois romances, 'Uma Casa na Escuridão' (2002) e 'Cemitério de Pianos' (2006), que a crítica considerou estarem ainda sob a sombra do primeiro.
Quanto a 'Livro', o quarto romance, diz Francisco José Viegas que 'é o romance dessa libertação, sem dúvida'.
'Já não é tão autobiográfico, se se quiser; é uma construção romanesca muito séria, muito trabalhada, muito pensada para além do espaço pessoal e intimista', sustentou.
'Penso que é a grande obra da maturidade de José Luís Peixoto que, mantendo os sinais e as marcas que construíram o seu universo de leitores e admiradores, vai mais além, ultrapassa o universo 'dos fãs' e conquistará certamente mais leitores', defendeu o editor.
Segundo Viegas, 'não é por acaso que este livro demorou tanto tempo a ser escrito. É o resultado de um amadurecimento. E também de uma confiança natural, que nasce do facto de o José Luís Peixoto ser um dos autores portugueses mais traduzidos, lidos e apreciados no estrangeiro'.
A Quetzal, que reeditou já, com a colaboração do autor, toda a sua ficção, desde 'Morreste-me' até 'Cemitério de Pianos', prepara-se agora para reeditar a sua poesia ('A Criança em Ruínas', 'A Casa, a Escuridão' e 'Gaveta de Papéis'), que inaugurará a colecção de poesia da editora.
'Vai ser uma colecção muito bonita -- afiançou Francisco José Viegas -- graficamente ainda mais cuidada do que já costumam ser os livros da Quetzal, onde, para abrir, além do José Luís Peixoto, vamos publicar o João Luís Barreto Guimarães e a obra completa de um grande autor cabo-verdiano, um poeta notável e praticamente desconhecido, João Vário'.
Além disso, indicou ainda, no próximo ano a editora publicará um livro infantil de José Luís Peixoto, 'Mãe, Mãe', e, em finais de 2011, um conjunto de novelas.

José Luís Peixoto
TERÇA-FEIRA, 21 DE SETEMBRO DE 2010
Romance-resumo
Crítica a Livro, in Jornal de Letras
Por Miguel Real

Desde a década de 60 que a historiografia do romance português tem provado que não só a forma (a estrutura) ilumina o conteúdo como marca indelevelmente a singularidade de cada narrativa, prestando-lhe um rosto literário específico. Estamos hoje longe, cronológica e teoreticamente, do tempo em que da prisão "António Vale"/Álvaro Cunhal ditava não ter qualquer razão de ser "a objecção de que a sobreposição do conteúdo à forma não é fecunda no ato de criação artística. No próprio processo de criação, como norma para alcançar um nível superior, é válido o princípio - primeiro o conteúdo", bem como o tempo em que Almeida Faria e Nuno Bragança submetiam o conteúdo narrativo ao primado da forma.

Possivelmente, o novo romance de José Luís Peixoto, Livro, ficará na história da literatura portuguesa como o símbolo máximo da sobredeterminação da forma face ao conteúdo. Com efeito, se o autor tivesse optado por outra organização estrutural, o romance, ainda que com o mesmo conteúdo, seria todo outro, radicalmente outro.

Neste sentido, dando primazia à forma, Livro é, espantosamente, uma síntese da história do romance português desde Eça e Camilo.

Primeiro, quando ao conteúdo, é profundamente realista ("a realidade bem observada e a observação bem exprimida", Eça), narrando a história de uma família desencontrada (sem apelido) e de uma vila (sem nome) portuguesas ao longo de 70 anos do século XX, descrevendo situações típicas do subdesenvolvimento do interior rural, bem como da reacção campesina, emigrando para França, na década de 60.

Segundo, Livro abandona-se, não raro, ao naturalismo (vida de Galopim e do irmão deficiente; mulher lobo na raia entre Portugal e Espanha; a morte da velha Lubélia; a existência diária do Daquele da Sorna...).

Terceiro, com a adolescência de Livro (nome do narrador personagem, não título do romance) em Paris, os "eus" psicológicos, até então profundamente sólidos, dotados de entidade pessoal, estilhaçam-se, multiplicando as pulsões no seu interior (Livro opera uma deriva existencial; Adelaide, sua mãe, divide-se interiormente entre educação portuguesa provinciana e os novos costumes parisienses; Constantino, seu putativo pai, falhado o maio de 68 e a Revolução dos Cravos, esquizofreniza-se, incorporando a figura revolucionária de "Lenine", tratando o filho por pai e a mulher por mãe). É a pulsão "presencista" (psicologista) do romance português, nomeadamente a multiplicação dos "eus" de O Jogo da Cabra Cega (1934), de José Régio.

Em quarto lugar, criticando o neorrealismo (p. 238), o narrador assume, na segunda parte, o desconstrutivismo das décadas de 60 e de 70, o fragmentarismo, a auto-referencialidade, o pós-modernismo (p.227), a confluência sincrética, por vezes caótica, de estilos, de textos de proveniência diversa (citação amiúde de nomes de autores, listas de livros, inquérito ao leitor...), evidencia ointelectualoidismo narrativo próprio daquelas décadas (grafia de "Heraclito, o Efésio" em grego clássico), o privilégio da conotação face à denotação...

Em quinto lugar, enquanto totalidade romanesca, recupera a categoria de "grande narrativa" (décadas de 80 e 90) como arte de contar uma história com princípio, meio e fim (as vidas de Adelaide e Ilídio).

Assim, Livro estatui-se, tanto estilisticamente quanto ao nível do conteúdo, como um romance resumo da história do romance português de Eça de Queirós a Francisco José Viegas. Parafraseando Pessoa, Livro é uma espécie de novelo narrativo com a ponta virada para fora, puxada a qual se desenrola a nossos olhos a história portuguesa dos últimos 70 anos (Salazar e a Pide; os párocos de aldeia, coniventes com o poder político; a miséria dos campos; os ricos - a família de Dona Milú - e os pobres - a vila inteira, sem esgotos, sem ruas alcatroadas, sem água canalizada; a história da emigração; o 25 de abril e a adesão à Europa; a riqueza de pato-bravo dos emigrantes; as casas de fachada forrada de azulejos de casa de banho...).

De forma circular, automanifestando a génese do narrador e das condições existenciais da narração, operando por vezes um diálogo explícito com o narratário (p.247), substituindo os capítulos clássicos por fragmentos titulados por letras, números e datas, jogando um puzzle de peças soltas unificadas pela consciência do leitor, Livro constitui um magnífico retrato, à entrada do século XXI, do modo de narração de uma história, simultaneamente obedecendo e subvertendo a tirania da cronologia.

História de uma dupla educação (Ilídio e Livro), José Luís Peixoto mantém o seu lirismo singular em Livro, estatuindo a frase entre a racionalidade do realismo descritivo e a emoção do verso poético. Porém, à medida que nos afastamos deMorreste-me e de Nenhum Olhar, suas primeiras narrativas, o lirismo tem vido a perder uma carga hiperbolizante, denotada pela figura da reiteração, amplificando fragmentos de sentido na consciência do leitor, tornando-se pragmaticamente comedido. De qualquer modo, Livro possui a explícita marca do lirismo, com o princípio da subjectividade do narrador, envolvendo e dominando o princípio da objetividade (o realismo). Lexicalmente, assiste-se a confluência entre um vocabulário rural e um vocabulário urbano, e, por vezes, sobretudo nas falas de Cosme da segunda parte, explicita-se o patuá da emigração portuguesa para França.

Se deveras não nos irritasse o prefixo da palavra "pós-modernismo" (uma mera moda literária que preenche a ausência da palavra correta que a todos nos falta para designar a literatura de hoje), estaríamos tentados a classificar Livro como o grande romance do pós-modernismo português. Preferimos, antes, chamar a atenção do leitor para o facto, iniludível, de que, com Livro, se inicia a maturidade literária de um grande escritor.
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quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

‘Cadernos de Memórias Coloniais’, de Isabela Figueiredo

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Correio da Manhã
 
26 Novembro 2009 - 00h30

Opinião

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Ontem recomendei ‘Cadernos de Memórias Coloniais’, de Isabela Figueiredo (edição Angelus Novus) – mas o assunto merece mais destaque: é uma autobiografia sobre a despedida de África e a memória de Moçambique.
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Sem cedências, sem perdão, sem conforto: tudo a nu, da cor da pele até ao horror que as despedidas no Índico provocam em alguém que enfrenta a velha Metrópole que já fora colonial e hoje é pós-colonial. Ainda não estabelecemos, com justiça, o verdadeiro papel dos retornados e dos antigos colonos de África na democratização real de Portugal. Na verdade, eles mudaram Portugal. Isabela Figueiredo, neste livro, fornece uma das imagens possíveis, explosiva, comovente, em chamas. É bom ver que, finalmente, se pode falar livremente sobre África.
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Francisco José Viegas, escritor
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José Emílio Pacheco vence o Prémio Cervantes

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Correio da Manhã
 
01 Dezembro 2009 - 00h30

Opinião

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O Prémio Cervantes, espécie de Nobel das letras hispânicas, foi atribuído ao mexicano José Emilio Pacheco.
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Poeta, ficcionista, ensaísta, professor, Pacheco não é um patriarca das letras, nem está na primeira linha da ‘diplomacia literária’ muito em voga, e onde se misturam política, esquecimento e glória terrena – a sua "resistência contra a barbárie" é uma espécie de dogma contra a mediocridade dos políticos. Acontece que Pacheco é um dos maiores escritores do espaço ibero-americano (e ao qual é dedicada a cimeira insolúvel que decorre em Cascais) e um poeta que se aproxima do irrepetível. Curiosamente, em Portugal, é publicado (pela Oficina do Livro, e graças à insistência de Marcelo Teixeira) na coleção ‘Ovelha Negra’.
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Francisco José Viegas, escritor 
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Fernando Pessoa na Biblioteca Nacional Digital

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Correio da Manhã
 
08 Dezembro 2009 - 00h30

Opinião

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Se há uma coisa boa na Internet é termos acesso a documentos originais que fazem parte da nossa cultura literária e da nossa memória nacional. O espólio de Fernando Pessoa vai, finalmente, estar disponível na Biblioteca Nacional Digital – entre outras 10 500 páginas que qualquer um pode consultar a partir de casa (Eça, Antero, Camilo, etc.).
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Uma coisa, porém, são os documentos – de cuja utilidade ninguém duvida (e era uma pena que os papéis de Pessoa ainda não estivessem totalmente digitalizados). Outra diferente é a leitura dessas obras. Não se podem confundir. O armazenamento dos clássicos, que é útil, não substitui a leitura, mais necessária – na escola ou por cada um. Por gosto e, também, por obrigação. É o nosso Bilhete de Identidade.
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Francisco José Viegas, escritor 
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Antologia ‘Poemas Portugueses’,

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Correio da Manhã - 10 Dezembro 2009 - 00h30

Opinião

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É hoje lançada em Lisboa a antologia ‘Poemas Portugueses’, organizada por Jorge Reis-Sá e Rui Lage (Porto Editora), com prefácio de Vasco Graça Moura e notas biográficas assinada por dezenas de autores.
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É um monumento de mais de duas mil páginas que percorre oito séculos de poesia e cujo índice conviria estar nas nossas escolas para consulta e divulgação. A poesia não vale grande coisa para estes dias – é uma espécie de sobressalto, de língua que vem da sombra para dar às coisas um nome flutuante. Não há grande coisa para dizer sobre a poesia. Devia ler--se. Para dentro ou em voz alta. Não que faça falta "à cidadania" ou "à sensibilidade". Às tantas, as pessoas viveriam melhor sem literatura – mas eu duvido. Faltar--lhes-ia um suplemento de beleza ou de devassidão.

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Francisco José Viegas, Escritor
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» COMENTÁRIOS no CM on line
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10 Dezembro 2009 - 18h53  | Zeferino Zacarias, Setúbal
A poesia é uma sinfonia de cores e de sons,uma alucinação deslumbrante que perpassa as janelas hiantes do vazio da alma 
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Os contos de Grimm

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Correio da Manhã
 
16 Dezembro 2009 - 00h30

Opinião

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Este período – o do Natal – elege a infância como um dos seus temas. As recordações e a alegria da infância. E até o nascimento da infância, propriamente dita, que nem é uma coisa tão antiga como isso.
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Quem contribuiu decisivamente para que a infância tivesse um destino e um sentido, além de um estatuto, foram os irmãos Grimm. O mais novo, Wilhelm, morreu há 150 anos, que deviam ser assinalados hoje. Os contos de Grimm foram decisivos para alimentar a imaginação. Muitos psicólogos e pedagogos acham que os seus contos têm bruxas e monstros a mais – e algumas das suas histórias foram banidas em nome da proteção das criancinhas, que ficam traumatizadas por tudo e por nada, ou porque "os valores mudaram". Mudaram. Mas a verdade é que nem todas as mudanças são boas.
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Francisco José Viegas, Escritor
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O Novo Acordo Ortográfico

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Correio da Manhã
 
18 Dezembro 2009 - 00h30

Opinião

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O Acordo Ortográfico entrará em vigor nas escolas apenas em 2011, supõe-se. Não se sabe quando é que o Diário da República publicará os decretos já com a nova ortografia, mas é admissível que, tal como aconteceu no Brasil, seja a imprensa a pioneira (atualmente, o diário ‘Record’ já a usa).
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Por isso, compreendem-se as cautelas evidenciadas pela ministra da Educação, uma vez que ainda não estão disponíveis todos os instrumentos pedagógicos e didáticos para acompanhar o Brasil nesta aventura delicada. Na verdade, e tirando os documentos oficiais, durante alguns anos escrever-se-á como cada um entender, até porque de ambos os lados do Atlântico há vozes autorizadas e dissonantes. Ora, o que é preciso é que se "escreva bem", o que não tem apenas a ver com a ortografia.
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Francisco José Viegas, Escritor
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A poesia de A. M. Pires Cabral

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Correio da Manhã
 
21 Dezembro 2009 - 00h30

Opinião

Blog

O Prémio de Poesia Luís Miguel Nava, pela sua independência e exigência, é um dos que vale a pena seguir. Este ano a distinção foi para ‘As Têmporas da Cinza’, de A. M. Pires Cabral (Cotovia).
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Pires Cabral é pouco conhecido, o que não significa nada. É um dos nossos raros grandes poetas; vive em Vila Real, sob a penumbra do Marão e os seus versos têm o arrebatamento de uma tarde de Outono – falam de coisas mínimas: melros, relâmpagos, cancelas das hortas, caçadores, vales escurecidos pela tarde, animais da serra, homens perdidos nas aldeias, vidas intranquilas no Nordeste.
Ler a sua poesia é um caminho para iluminar o coração. Mas não só: também para respirar, que é uma coisa antiga, com a nossa idade, com a idade da poesia. Raros poetas o conseguem com a sua limpidez.

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Francisco José Viegas, Escritor
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Literatura

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Correio da Manhã
 
22 Dezembro 2009 - 00h30

Opinião

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Ironia perfeita. Entre os dez livros mais vendidos da década, em Inglaterra (Portugal não tem estatísticas), há dois autores mortos: Shakespeare e Enid Blyton. Ou seja: a celebração da literatura, do talento e da perturbação trazida pelo autor de ‘O Mercador de Veneza’; a euforia da inocência, das férias e da primeira adolescência nos livros populares de Enid Blyton, a criadora das aventuras dos Cinco e dos Sete.
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Ambos os autores transformaram ou modelaram a minha forma de ver o mundo – o pessimismo, a ironia e melancolia de Shakespeare; e a adolescência sem fim dos Cinco. Pelo meio, na lista, há histórias de vampiros, de cretinos e de especulações sobre a felicidade. Subprodutos. Nada como a melancolia, o pessimismo, a ironia e a adolescência. Ou seja, a literatura.
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Francisco José Viegas, escritor
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