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terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Carta aberta às televisões generalistas nacionais

OPINIÃO

Como cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

23 de Fevereiro de 2021, 0:30

Sabemos que há uma pandemia – e que o SARS-CoV-2, em vez de se deixar ficar a dizimar pessoas no chamado Terceiro Mundo, resolveu ser mais igualitário e fazer pesadas baixas em países menos habituados a essas crises sanitárias.

Sabemos que não há poções mágicas – as vacinas não se fazem à velocidade desejada e as farmacêuticas são poderosas entidades mercantis.


Sabemos que, mesmo cumprindo os cuidados tantas vezes repetidos – distância física, máscara a tapar boca e nariz, lavagem insistente das mãos, confinamento máximo –, qualquer um de nós, ou um dos nossos familiares e amigos, pode ser vítima da doença e que isso causa medo a todos, incluindo a jornalistas, fazedores de opinião e responsáveis de órgãos de informação.

Sabemos também que os média estão em crise, que sofrem a ameaça das redes sociais, a competição por audiências, as redações desfalcadas, os ritmos de trabalho acelerados impostos aos que nelas restam, a precariedade laboral de muitos jornalistas.

Mas mesmo sabendo tudo isto, assinalamos a excessiva duração dos telejornais, contraproducente em termos informativos. Não aceitamos o tom agressivo, quase inquisitorial, usado em algumas entrevistas, condicionando o pensamento e a respostas dos entrevistados. Não aceitamos a obsessão opinativa, destinada a condicionar a receção da notícia, em detrimento de uma saudável preocupação pedagógica de informar. E não podemos admitir o estilo acusatório com que vários jornalistas se insurgem contra governantes, cientistas e até o infatigável pessoal de saúde por, alegadamente, não terem sabido prever o imprevisível – doenças desconhecidas, mutações virais – nem antever medidas definitivas, soluções que nos permitissem, a nós, felizes desconhecedores das agruras do método científico, sair à rua sem máscara e sem medo, perspetivar o futuro.

Sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo

Mesmo sabendo a importância da informação sobre a pandemia, não podemos aceitar o apontar incessante de culpados, os libelos acusatórios contra responsáveis do Governo e da DGS, as pseudonotícias (que só contribuem para lançar o pânico) sobre o “caos” nos hospitais, a “catástrofe”, a “rutura” sempre anunciada, com a hipotética “escolha entre quem vive e quem morre”, a sistemática invasão dos espaços hospitalares, incluindo enfermarias, a falta de respeito pela privacidade dos doentes, a ladainha dos números de infetados e mortos que acaba por os banalizar, o tempo de antena dado a falsos especialistas, as entrevistas feitas a pessoas que nada sabem do assunto, as imagens, repetidas até à náusea, de agulhas a serem espetadas em braços, ventiladores, filas de ambulâncias, médicos, enfermeiros e auxiliares em corredores e salas de hospitais. Para não falar das mesmas imagens repetidas constantemente ao longo dos telejornais do mesmo dia ou até de vários dias, ou da omnipresença de representantes das mesmas corporações profissionais, mais interessados em promoção pessoal do que em pedagogia da pandemia.

Enfim, sabemos que há uma pandemia causada pelo SARS-CoV-2, mas também sabemos que há uma diferença entre informação, especulação e espetáculo. E entre bom e mau jornalismo.

Consideramos inaceitável a agenda política dos diversos canais televisivos generalistas, sobretudo no Serviço Público de Televisão.

Como cidadãs e cidadãos, exigimos uma informação que respeite princípios éticos, sobriedade e contenção. E, sobretudo, que respeite a democracia.

Subscritores
Abílio Hernandez, Professor universitário; Alberto Melo, Dirigente associativo; Alfredo Caldeira, Jurista; Alice Vieira, Escritora; Ana Benavente, Professora universitária; Ana Maria Pereirinha, Tradutora; António Rodrigues, Médico; António Teodoro, Professor universitário; Avelino Rodrigues, Jornalista; Bárbara Bulhosa, Editora; Diana Andringa, Jornalista; Eduardo Paz Ferreira, Professor universitário; Elísio Estanque, Professor universitário; Fernando Mora Ramos, Encenador; Graça Aníbal, Professora; Graça Castanheira, Realizadora; Helder Mateus da Costa, Encenador; Helena Cabeçadas, Antropóloga; Helena Pato, Professora; Isabel do Carmo, Médica; J.-M. Nobre-Correia, Professor universitário; Jorge Silva Melo, Encenador; José Rebelo, Professor universitário; José Reis, Professor universitário; José Vítor Malheiros, Consultor de Comunicação de Ciência; Luís Farinha, Investigador; Luís Januário, Médico; Manuel Carvalho da Silva, Sociólogo; Manuela Vieira da Silva, Médica; Maria do Rosário Gama, Professora; Maria Emília Brederode Santos, Pedagoga; Maria Manuel Viana, Escritora; Maria Teresa Horta, Escritora; Mário de Carvalho, Escritor; Paula Coutinho, Médica intensivista; Pedro Campiche, Artista multidisciplinar; Rita Rato, Directora do Museu do Aljube; Rui Bebiano, Professor universitário; Rui Pato, Médico; São José Lapa, Actriz; Tiago Rodrigues, Encenador; Vasco Lourenço, Capitão de Abril

Os autores escrevem segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2021/02/23/opiniao/opiniao/carta-aberta-televisoes-generalistas-nacionais-1951298

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Myriam Zaluar ~ Carta aberta ao Senhor Primeiro Ministro


 

Aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Por Myriam Zaluar.
Exmo Senhor Primeiro Ministro,
Começo por me apresentar, uma vez que estou certa que nunca ouviu falar de mim. Chamo-me Myriam. Myriam Zaluar é o meu nome "de guerra". Basilio é o apelido pelo qual me conhecem os meus amigos mais antigos e também os que, não sendo amigos, se lembram de mim em anos mais recuados.
Nasci em França, porque o meu pai teve de deixar o seu país aos 20 e poucos anos. Fê-lo porque se recusou a combater numa guerra contra a qual se erguia. Fê-lo porque se recusou a continuar num país onde não havia liberdade de dizer, de fazer, de pensar, de crescer. Estou feliz por o meu pai ter emigrado, porque se não o tivesse feito, eu não estaria aqui. Nasci em França, porque a minha mãe teve de deixar o seu país aos 19 anos. Fê-lo porque não tinha hipóteses de estudar e desenvolver o seu potencial no país onde nasceu. Foi para França estudar e trabalhar e estou feliz por tê-lo feito, pois se assim não fosse eu não estaria aqui. Estou feliz por os meus pais terem emigrado, caso contrário nunca se teriam conhecido e eu não estaria aqui. Não tenho porém a ingenuidade de pensar que foi fácil para eles sair do país onde nasceram. Durante anos o meu pai não pôde entrar no seu país, pois se o fizesse seria preso. A minha mãe não pôde despedir-se de pessoas que amava porque viveu sempre longe delas. Mais tarde, o 25 de Abril abriu as portas ao regresso do meu pai e viemos todos para o país que era o dele e que passou a ser o nosso. Viemos para viver, sonhar e crescer.
Cresci. Na escola, distingui-me dos demais. Fui rebelde e nem sempre uma menina exemplar mas entrei na faculdade com 17 anos e com a melhor média daquele ano: 17,6. Naquela altura, só havia três cursos em Portugal onde era mais dificil entrar do que no meu. Não quero com isto dizer que era uma super-estudante, longe disso. Baldei-me a algumas aulas, deixei cadeiras para trás, saí, curti, namorei, vivi intensamente, mas mesmo assim licenciei-me com 23 anos. Durante a licenciatura dei explicações, fiz traduções, escrevi textos para rádio, coleccionei estágios, desperdicei algumas oportunidades, aproveitei outras, aprendi muito, esqueci-me de muito do que tinha aprendido.
Cresci. Conquistei o meu primeiro emprego sozinha. Trabalhei. Ganhei a vida. Despedi-me. Conquistei outro emprego, mais uma vez sem ajudas. Trabalhei mais. Saí de casa dos meus pais. Paguei o meu primeiro carro, a minha primeira viagem, a minha primeira renda. Fiquei efectiva. Tornei-me personna non grata no meu local de trabalho. "És provavelmente aquela que melhor escreve e que mais produz aqui dentro." - disseram-me - "Mas tenho de te mandar embora porque te ris demasiado alto na redacção". Fiquei.
Aos 27 anos conheci a prateleira. Tive o meu primeiro filho. Aos 28 anos conheci o desemprego. "Não há-de ser nada, pensei. Sou jovem, tenho um bom curriculo, arranjarei trabalho num instante". Não arranjei. Aos 29 anos conheci a precariedade. Desde então nunca deixei de trabalhar mas nunca mais conheci outra coisa que não fosse a precariedade. Aos 37 anos, idade com que o senhor se licenciou, tinha eu dois filhos, 15 anos de licenciatura, 15 de carteira profissional de jornalista e carreira 'congelada'. Tinha também 18 anos de experiência profissional como jornalista, tradutora e professora, vários cursos, um CAP caducado, domínio total de três línguas, duas das quais como "nativa". Tinha como ordenado 'fixo' 485 euros x 7 meses por ano. Tinha iniciado um mestrado que tive depois de suspender pois foi preciso escolher entre trabalhar para pagar as contas ou para completar o curso. O meu dia, senhor primeiro ministro, só tinha 24 horas...
Cresci mais. Aos 38 anos conheci o mobbying. Conheci as insónias noites a fio. Conheci o medo do amanhã. Conheci, pela vigésima vez, a passagem de bestial a besta. Conheci o desespero. Conheci - felizmente! - também outras pessoas que partilhavam comigo a revolta. Percebi que não estava só. Percebi que a culpa não era minha. Cresci. Conheci-me melhor. Percebi que tinha valor.
Senhor primeiro-ministro, vou poupá-lo a mais pormenores sobre a minha vida. Tenho a dizer-lhe o seguinte: faço hoje 42 anos. Sou doutoranda e investigadora da Universidade do Minho. Os meus pais, que deviam estar a reformar-se, depois de uma vida dedicada à investigação, ao ensino, ao crescimento deste país e das suas filhas e netos, os meus pais, que deviam estar a comprar uma casinha na praia para conhecerem algum descanso e descontracção, continuam a trabalhar e estão a assegurar aos meus filhos aquilo que eu não posso. Material escolar. Roupa. Sapatos. Dinheiro de bolso. Lazeres. Actividades extra-escolares. Quanto a mim, tenho actualmente como ordenado fixo 405 euros X 7 meses por ano. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. A universidade na qual lecciono há 16 anos conseguiu mais uma vez reduzir-me o ordenado. Todo o trabalho que arranjo é extra e a recibos verdes. Não sou independente, senhor primeiro ministro. Sempre que tenho extras tenho de contar com apoios familiares para que os meus filhos não fiquem sozinhos em casa. Tenho uma dívida de mais de cinco anos à Segurança Social que, por sua vez, deveria ter fornecido um dossier ao Tribunal de Família e Menores há mais de três a fim que os meus filhos possam receber a pensão de alimentos a que têm direito pois sou mãe solteira. Até hoje, não o fez.
Tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: nunca fui administradora de coisa nenhuma e o salário mais elevado que auferi até hoje não chegava aos mil euros. Isto foi ainda no tempo dos escudos, na altura em que eu enchia o depósito do meu renault clio com cinco contos e ia jantar fora e acampar todos os fins-de-semana. Talvez isso fosse viver acima das minhas possibilidades. Talvez as duas viagens que fiz a Cabo-Verde e ao Brasil e que paguei com o dinheiro que ganhei com o meu trabalho tivessem sido luxos. Talvez o carro de 12 anos que conduzo e que me custou 2 mil euros a pronto pagamento seja um excesso, mas sabe, senhor primeiro-ministro, por mais que faça e refaça as contas, e por mais que a gasolina teime em aumentar, continua a sair-me mais em conta andar neste carro do que de transportes públicos. Talvez a casa que comprei e que devo ao banco tenha sido uma inconsciência mas na altura saía mais barato do que arrendar uma, sabe, senhor primeiro-ministro. Mesmo assim nunca me passou pela cabeça emigrar...
Mas hoje, senhor primeiro-ministro, hoje passa. Hoje faço 42 anos e tenho a dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: Tenho mais habilitações literárias que o senhor. Tenho mais experiência profissional que o senhor. Escrevo e falo português melhor do que o senhor. Falo inglês melhor que o senhor. Francês então nem se fale. Não falo alemão mas duvido que o senhor fale e também não vejo, sinceramente, a utilidade de saber tal língua. Em compensação falo castelhano melhor do que o senhor. Mas como o senhor é o primeiro-ministro e dá tão bons conselhos aos seus governados, quero pedir-lhe um conselho, apesar de não ter votado em si. Agora que penso emigrar, que me aconselha a fazer em relação aos meus dois filhos, que nasceram em Portugal e têm cá todas as suas referências? Devo arrancá-los do seu país, separá-los da família, dos amigos, de tudo aquilo que conhecem e amam? E, já agora, que lhes devo dizer? Que devo responder ao meu filho de 14 anos quando me pergunta que caminho seguir nos estudos? Que vale a pena seguir os seus interesses e aptidões, como os meus pais me disseram a mim? Ou que mais vale enveredar já por outra via (já agora diga-me qual, senhor primeiro-ministro) para que não se torne também ele um excedentário no seu próprio país? Ou, ainda, que venha comigo para Angola ou para o Brasil por que ali será com certeza muito mais valorizado e feliz do que no seu país, um país que deveria dar-lhe as melhores condições para crescer pois ele é um dos seus melhores - e cada vez mais raros - valores: um ser humano em formação.
Bom, esta carta que, estou praticamente certa, o senhor não irá ler já vai longa. Quero apenas dizer-lhe o seguinte, senhor primeiro-ministro: aos 42 anos já dei muito mais a este país do que o senhor. Já trabalhei mais, esforcei-me mais, lutei mais e não tenho qualquer dúvida de que sofri muito mais. Ganhei, claro, infinitamente menos. Para ser mais exacta o meu IRS do ano passado foi de 4 mil euros. Sim, leu bem, senhor primeiro-ministro. No ano passado ganhei 4 mil euros. Deve ser das minhas baixas qualificações. Da minha preguiça. Da minha incapacidade. Do meu excedentarismo. Portanto, é o seguinte, senhor primeiro-ministro: emigre você, senhor primeiro-ministro. E leve consigo os seus ministros. O da mota. O da fala lenta. O que veio do estrangeiro. E o resto da maralha. Leve-os, senhor primeiro-ministro, para longe. Olhe, leve-os para o Deserto do Sahara. Pode ser que os outros dois aprendam alguma coisa sobre acordos de pesca.
Com o mais elevado desprezo e desconsideração, desejo-lhe, ainda assim, feliz natal OU feliz ano novo à sua escolha, senhor primeiro-ministro
e como eu sou aqui sem dúvida o elo mais fraco, adeus

Myriam Zaluar, 19/12/2011

domingo, 25 de abril de 2010

Carta aberta de Hans Kung aos bispos de todo o mundo

JERRY LAMPEN/REUTERS
 
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Público 2010.04.24
Hans Kung, antigo colega de Ratzinger na Universidade de Tubingen, onde é professor emérito de Teologia Ecuménica, é uma das vozes mais críticas ao papado de Bento XVI e exige um novo concílio para salvar a Igreja católica. Por Hans Kung


Veneráveis bispos

Joseph Ratzinger, agora Papa Bento XVI, e eu éramos os mais jovens teólogos no Concílio Vaticano II, entre 1962 e 1965. Agora somos os mais velhos, e os únicos que continuam em plena actividade. Sempre entendi o meu trabalho teológico como sendo um serviço à Igreja Católica Romana. Por esta razão, por ocasião do quinto aniversário da eleição do Papa Bento XVI, faço-lhe este apelo em forma de carta aberta. Faço-o motivado pela minha profunda preocupação acerca da nossa Igreja, que se encontra na pior crise de credibilidade desde a Reforma. Desculpe-me ser na forma de carta aberta; infelizmente, não tenho outra forma de o contactar.

Apreciei imenso que o Papa me tenha convidado, a mim que sou abertamente seu crítico, para nos encontrarmos para uma amigável conversa de quatro horas, pouco após ter ascendido ao seu cargo. Este convite acordou em mim a esperança de que o meu antigo colega da Universidade de Tubingen poderia encontrar o seu caminho e promover uma contínua renovação da Igreja e uma aproximação ecuménica dentro do espírito do Concílio Vaticano II.

Infelizmente, as minhas esperanças, e as de tantos homens e mulheres católicos empenhados, não foram cumpridas. E na minha subsequente correspondência com o Papa apontei-lhe muitas vezes este facto. Não há dúvida de que ele desempenha conscienciosamente os seus deveres diários de Papa, e deu-nos três úteis encíclicas sobre fé, esperança e caridade. Mas quando se trata de enfrentar os grandes desafios do nosso tempo, o seu pontificado desperdiçou mais oportunidades do que as aproveitou:

- Perdeu a oportunidade de aproximação às Igrejas protestantes. Em vez disso, tem-lhes sido negado o estatuto de Igrejas no verdadeiro sentido da palavra e, por essa razão, os seus ministros não são reconhecidos e a intercomunhão não é possível.

- Perdeu a oportunidade de uma reconciliação duradoura com os judeus. Em vez disso, o Papa reintroduziu na liturgia uma oração pré-conciliar pela iluminação dos judeus, recebeu de novo em comunhão com a Igreja bispos notoriamente anti-semitas e cismáticos, e está activamente a promover a beatificação do Papa Pio XII, que tem sido acusado de não ter oferecido suficiente protecção aos judeus na Alemanha nazi.

A verdade é que Bento vê no judaísmo apenas a raiz histórica do cristianismo; não a toma a sério como uma comunidade religiosa que continua a oferecer o seu próprio caminho em direcção à salvação. A recente comparação entre as actuais críticas que o Papa enfrenta e as campanhas de ódio anti-semita - feita pelo reverendo Raniero Cantalamessa durante uma cerimónia religiosa oficial na sexta-feira de Páscoa no Vaticano - desencadeou uma tempestade de indignação no seio de judeus um pouco por todo o mundo.

- Perdeu a oportunidade de dialogar com os muçulmanos numa atmosfera de respeito mútuo. Em vez disso, na sua impensada mas sintomática palestra de 2006 em Regensburg, Bento caricaturizou o islão como uma religião de violência e desumanidade, assim atraindo a continuação da desconfiança muçulmana.

- Perdeu a oportunidade de reconciliação com os povos indígenas colonizados da América Latina. Em vez disso, o Papa afirmou com toda a seriedade que eles estavam "à espera e desejosos" da religião dos seus conquistadores europeus.

- Perdeu a oportunidade de ajudar o povo africano, não permitindo o controlo de natalidade para combater o excesso de população, nem os preservativos para combater a propagação da sida.

- Perdeu a oportunidade de fazer as pazes com ciência moderna, não reconhecendo claramente a teoria da evolução, nem aceitando as investigações de células estaminais.

- Perdeu a oportunidade de fazer do espírito do Concílio Vaticano II a bússola para toda a Igreja Católica, incluindo o próprio Vaticano, e assim promover as necessárias reformas no interior da Igreja.

Este último ponto, respeitáveis bispos, é o mais importante de todos. Vezes sem conta, este Papa acrescentou qualificações aos textos conciliares e interpretou-os de forma contrária ao espírito dos pais da assembleia. Vezes sem conta, tomou expressamente posições contra o Concílio Ecuménico, que, de acordo com a lei canónica, representa a mais alta autoridade na Igreja Católica:

- Recebeu de regresso à Igreja, sem quaisquer condições, os bispos da tradicionalista Sociedade Pio X - bispos que foram ilegalmente consagrados fora da Igreja Católica e que rejeitam os pontos centrais do Concílio Vaticano II (incluindo a reforma litúrgica, a liberdade religiosa e a aproximação ao judaísmo).

- Promove por todos os meios a medieval massa tridentina e ocasionalmente celebra a eucaristia em latim de costas para a congregação.

- Recusa colocar em prática a aproximação à Igreja Anglicana, que foi inscrita em documentos ecuménicos oficiais pela Comissão Internacional Anglicana-Católica Romana, e em vez disso tem tentado atrair à Igreja Católica Romana clérigos anglicanos casados, libertando-os da mesma regra de celibato que tem forçado dezenas de milhares de padres católicos romanos a abandonarem os seus lugares.

- Tem activamente reforçado as correntes anticonciliares na Igreja, nomeando elementos reaccionários para lugares-chaves na Cúria (incluindo a Secretaria de Estado e posições na comissão litúrgica) e nomeando bispos reaccionários em todo o mundo.

O Papa Bento XVI parece estar cada vez mais afastado da grande maioria dos membros da Igreja, que cada vez têm menos consideração por Roma e, na melhor das hipóteses, apenas se identificam com a sua paróquia e o seu bispo.

Sei que muitos de vós estais sentidos com esta situação. Na sua política anticonciliar, o Papa recebe o apoio total da Cúria Romana. A Cúria faz todos os esforços para rebater as críticas ao episcopado e à Igreja como um todo e para desacreditar os críticos com todos os meios ao seu dispor. Com o regresso à pompa e ao espectáculo a agarrar a atenção dos meios de comunicação social, as forças reaccionárias em Roma têm tentado mostrar-se perante nós como uma Igreja forte chefiada por um "vigário de Cristo" absolutista que junta apenas nas suas mãos os poderes legislativo, executivo e judicial da Igreja. Mas a política de restauração de Bento XVI falhou. Todas as suas espectaculares aparições, viagens de exibição e declarações públicas falharam, não influenciando as opiniões da maioria dos católicos em assuntos controversos. Isto é especialmente verdade no tocante a matérias de moral sexual. Até os encontros papais com a juventude, aos quais vão especialmente os grupos conservadores carismáticos, não têm conseguido parar a contínua perda daqueles que abandonam a Igreja, nem têm conseguido atrair mais vocações para o sacerdócio.

Vós os bispos, em particular, tendes razões para estar muito pesarosos. Dezenas de milhares de padres têm abandonado o sacerdócio desde o Concílio Vaticano II, a maior parte devido à regra do celibato. Vocações para o sacerdócio, mas também para as ordens religiosas, irmandades e fraternidades laicas estão em baixa - não apenas quantitativamente mas também qualitativamente. Resignação e frustração estão a espalhar-se rapidamente, tanto entre o clero como entre os laicos activos. Muitos sentem que foram abandonados com as suas necessidades pessoais, e muitos estão profundamente preocupados com o estado da Igreja. Em muitas das vossas dioceses passa-se o mesmo: cada vez mais igrejas vazias, seminários vazios e residências paroquiais vazias. Em muitos países, devido à falta de padres, mais e mais paróquias estão a fundir-se, muitas vezes contra a vontade dos seus membros, em cada vez maiores "unidades pastorais", nas quais se exige de mais aos poucos sacerdotes sobreviventes. Isto é uma reforma de Igreja mais fingida do que real!

E agora, para além de todas estas crises, chega um escândalo de bradar aos céus - a revelação do abuso por parte de clérigos de milhares de crianças e adolescentes, primeiro nos Estados Unidos, depois na Irlanda, e agora na Alemanha e noutros países. E para piorar a situação, a maneira como estes casos têm sido tratados tem levado a uma crise de liderança sem precedentes e a um colapso na confiança na liderança da Igreja.

Não se pode negar o facto de que o esquema a nível mundial de cobertura de casos de crimes sexuais cometidos por clérigos foi idealizado pela Congregação para a Doutrina da Fé sob a direcção do cardeal Ratzinger (1981-2005). Durante o reinado do Papa João Paulo II, essa congregação já tinha tomado conta de todos esses casos, debaixo de juramento do mais estrito silêncio. O próprio Ratzinger, a 18 de Maio de 2001, enviou a todos os bispos um documento solene em que tratava de crimes severos (epistula de delictis gravioribus, no qual os casos de abuso eram selados sob o secretum pontificium), cuja violação poderia originar graves penalidades eclesiásticas. Assim, muitas pessoas, e com razão, esperaram um mea culpa pessoal da parte do antigo prefeito e actual Papa. Em vez disso, o Papa desperdiçou a oportunidade dada pela Semana Santa: no Domingo de Páscoa, teve a sua inocência proclamada urbi et orbi pelo reitor do Colégio Cardinalício.

As consequências de todos estes escândalos para a reputação da Igreja Católica são desastrosas. Importantes líderes religiosos já o admitiram. Numerosos pastores e educadores inocentes e empenhados estão a sofrer debaixo do estigma de suspeição que agora cobre a Igreja. Vós, reverendos bispos, deveis enfrentar a questão: o que acontecerá à nossa Igreja e à vossa diocese no futuro? Não é minha intenção esboçar um novo programa de reforma da Igreja. Isso já o fiz mais do que o suficiente, tanto antes como depois do concílio. Em vez disso, quero somente deixar à vossa consideração seis propostas que estou convencido que serão apoiadas por milhões de católicos que não têm voz activa na actual situação.

1.

Não vos mantenhais silenciosos. Ao ficardes em silêncio em face de tantas e tão sérias queixas, sujai-vos a vós próprios com culpa. Quando sentirdes que determinadas leis, directivas e medidas são contraprodutivas, deveis dizê-lo em público. Enviai a Roma não declarações da vossa devoção, mas sim pedidos de reformas!

2.

Definai reformas. Demasiados elementos na Igreja e no episcopado queixam-se sobre Roma, mas eles próprios não fazem nada. Quando as pessoas já não vão à igreja numa diocese, quando o padre pouco consegue, quando o público é mantido na ignorância acerca das necessidades do mundo, quando a cooperação ecuménica é reduzida ao mínimo, então a culpa não pode apenas ser atirada para cima de Roma. Bispos, padres, leigos ou leigas - todos podem fazer algo pela renovação da Igreja, dentro das suas esferas de influência, sejam estas grandes ou pequenas. Muitas das grandes realizações que foram conseguidas nas paróquias e na Igreja em geral devem a sua origem à iniciativa de um indivíduo ou de um pequeno grupo. Como bispos, deveis apoiar iniciativas deste género e, especialmente dada a presente situação, deveis responder às justas queixas dos fiéis.

3.

Aji de forma colegial. Após um aceso debate e contra a persistente oposição da Cúria, o Concílio Vaticano II decretou a colegialidade do Papa e dos bispos. Fê-lo no sentido dos Actos dos Apóstolos, nos quais Pedro não actuava sozinho sem a assembleia dos apóstolos. Mas na era pós-conciliar o Papa e a Cúria têm ignorado este decreto. Apenas dois anos após o concílio, o Papa Paulo VI publicou uma encíclica defendendo a controversa lei do celibato sem efectuar qualquer consulta aos bispos. Desde então, as políticas papais e o magistério papal têm continuado a desenvolver-se na antiga forma, não colegial. Mesmo em questões litúrgicas, o Papa reina como um autocrata acima de e contra os bispos. Não se importa de os ter à sua volta, desde que não sejam mais do que figurantes sem voz ou direito de voto. É por isto, veneráveis bispos, que não deveis agir apenas por vós, mas também em comunidade com os outros bispos, os padres e os homens e mulheres que compõem a Igreja.

4.

Obediência incondicional é devida apenas a Deus. Apesar de na vossa consagração episcopal terem tido que efectuar um juramento de obediência incondicional ao Papa, sabeis que tal obediência incondicional nunca pode ser dirigida a qualquer autoridade humana, apenas pode ser dada a Deus. Por esta razão, não deveis sentir que o vosso juramento vos impede de dizer a verdade acerca da actual crise que enfrenta a Igreja, a vossa diocese e o vosso país. O vosso modelo deve ser o apóstolo Paulo, que se atreveu a opor-se a Pedro "na sua presença, pois ele estava manifestamente errado" (Carta aos Gálatas, 2:11)! Pressionar as autoridades romanas dentro do espírito de fraternidade cristã pode ser admissível e mesmo necessário quando elas não conseguem estar à altura do espírito do Evangelho e da sua missão. O uso das línguas vernáculas na liturgia, as mudanças nos regulamentos que regem os casamentos entre pessoas de diferentes religiões, a afirmação da tolerância, da democracia e dos direitos humanos, a abertura a uma aproximação ecuménica, e muitas outras reformas do Vaticano II apenas foram alcançadas devido à tenaz pressão vinda de baixo.

5.

Trabalhai em prol de soluções regionais. O Vaticano tem frequentemente feito orelhas moucas aos bens fundamentados pedidos do episcopado, dos padres e dos leigos, o que é mais uma razão para se procurar soluções regionais sensatas. Como muito bem sabeis, a regra do celibato, herdada da Idade Média, representa um problema particularmente delicado. No contexto do actual escândalo de abuso por parte de clérigos, a prática tem sido cada vez mais posta em causa. Contra a vontade expressa de Roma, uma mudança dificilmente será possível - mas tal não é razão para resignação passiva. Quando um padre, após uma matura consideração, deseja casar-se, não há razão para que automaticamente se demita do seu lugar, se o seu bispo e a sua paróquia decidirem continuar a apoiá-lo. Diferentes conferências episcopais poderiam dar o exemplo com soluções regionais. No entanto, seria melhor procurar uma solução para toda a Igreja. Assim:

6.

Pedi um concílio. Tal como a obtenção de reforma litúrgica, liberdade religiosa, ecumenismo e diálogo inter-religioso exigiu um concílio ecuménico, também agora é necessário um concílio para resolver os problemas que se avolumam dramaticamente e que clamam por uma reforma. No século anterior à Reforma, o Concílio de Constança decretou que os concílios se deveriam realizar a cada cinco anos, mas a Cúria Romana conseguiu contornar esta regra. É perfeitamente claro que a Cúria Romana, temendo limitações ao seu poder, fará tudo o que estiver ao seu alcance para evitar que um concílio se reúna nas presentes condições. É por isso que está nas vossas mãos fazer pressão para a convocação de um concílio, ou pelo menos uma assembleia de bispos representativa.

Com a Igreja em profunda crise, este é o meu apelo a vós, veneráveis bispos. Ponde a funcionar a autoridade episcopal que foi reafirmada pelo Concílio Vaticano II. Nesta situação de emergência, os olhos do mundo viram-se para vós. Inúmeras pessoas já perderam a confiança na Igreja Católica. Apenas reconhecendo aberta e honestamente estes problemas e resolutamente efectivando as necessárias reformas pode a sua confiança ser recuperada. Com o devido respeito, peço-vos que façais a vossa parte - juntamente com os vossos irmãos bispos, na medida do possível, mas também sozinhos se tal for necessário - com "intrepidez" apostólica (Actos dos Apóstolos, 4:29, 31). Dai aos vossos fiéis sinais de esperança e encorajamento, e dai à nossa Igreja uma perspectiva de futuro.

Com calorosas saudações

em comunidade de fé cristã

Vosso, Hans Kung


Exclusivo PÚBLICO/The New York Times. Tradução de Eurico Monchique
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