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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

Helena Pato - "O pior que nos pode acontecer, é rendermo-nos à burguesia"... (Francisco Miguel)



"O pior que nos pode acontecer, é rendermo-nos à burguesia"...
(Francisco Miguel)

FRANCISCO MIGUEL (1907 – 1988)

(notas da sua biografia por Helena Pato)Homem franzino, discreto, pouco expansivo, de uma grande sensibilidade, era amado por todos no PCP. Um símbolo, pela sua vida de décadas (66 anos) ao serviço dos seus ideais e pelo comportamento exemplar que sempre tivera na polícia e nas cadeias. Homem de grande afabilidade, era muito acarinhado por quem privava com ele. Foi exemplar na sua dedicação à luta antifascita, na coragem com que enfrentou as mais duras provas a que foi submetido e pela modéstia com que falava da sua vida e do seu passado.

Cinco prisões: 1938, 1939, 1947, 1950 e 1960. Quatro fugas das cadeias fascistas.

Destacado dirigente do PCP, Francisco Miguel Duarte nasceu em Baleizão, a 18 de Dezembro de 1907 e morreu a 21 de Maio de 1988. Operário, filho de camponeses pobres, abraçou a causa da luta pela liberdade e justiça social quando era ainda muito jovem. Foi um dos dois presos políticos que mais tempo passaram na cadeia: um total de 21 anos, 10 dos quais no “Tarrafal". Julgado nos tribunais fascistas, evade-se por 4 vezes, durante o cumprimento das penas, e regressa sempre à luta.

Publicou poesia.

I – Em 1914 Francisco tinha sete anos quando a família se muda para Vale de Zorras, para uma herdade a cinco quilómetros de Serpa, que era a localidade onde existia a escola mais próxima. Fica assim impedido de estudar e começa a ajudar os pais nos trabalhos do campo. Com 13 anos torna-se aprendiz de sapateiro, em Serpa. Ainda adolescente, já é um activo animador das iniciativas de duas associações profissionais: a dos sapateiros e uma outra, de trabalhadores rurais.

Aos 16 anos, revoltado com a dureza da vida dos trabalhadores alentejanos, entra para o Partido Comunista. Em 1929 era, em Serpa, o responsável pelo Socorro Vermelho Internacional.

Em 1931, quando um dia umas centenas de trabalhadores se concentravam em frente aos Paços do Concelho para reclamarem “pão e trabalho”, Francisco Miguel sobe para cima de um banco e faz a sua primeira intervenção pública, falando sobre a situação dos camponeses e da ausência de soluções por parte das autoridades fascistas. A GNR tenta prendê-lo, mas a multidão protege-o na fuga.

Em 1935 parte para Moscovo a fim de frequentar uma escola leninista. Conhece então José Gregório, Álvaro Cunhal e Bento Gonçalves, que estavam naquela cidade para congressos da Internacional Comunista e da Internacional da Juventude Comunista. Em 1937 regressa a Portugal, entra na clandestinidade, em breve integra o comité central do PCP e, pouco tempo depois, o seu secretariado.

Em 1 de Dezembro de 1939 é detido em Lisboa pela PVDE. Acusado de ser funcionário clandestino do partido, Francisco Miguel iria definir a orientação que, durante mais de três décadas, foi conhecida pelos militantes do PCP para o seu comportamento na cadeia. Até então, face aos interrogatórios policiais, era prática dos presos tentarem encontrar fantasiosas histórias que iludissem a polícia. O método era por vezes perigoso, uma vez que, entre invenções e silêncios, a experiência policial acabava por descortinar pistas e contradições, tornando mais difícil a resistência a torturas e, consequentemente, a firmeza dos presos. FM, usando da experiência que colhera nas cadeias fascistas, toma uma decisão: “nem histórias grandes nem pequenas, nem frases curtas ou compridas. Face aos interrogatórios - silêncio absoluto. Na polícia não se prestam declarações.”

Em 1940 evade-se da cadeia de Caxias com Augusto Valdez, e, em finais dos anos 40, já era um dos responsáveis pela direcção da actividade partidária no Alentejo e da publicação do jornal “O Camponês”.

Em 1947, é novamente preso, agora em Évora. De novo brutalmente torturado (a tortura do sono e a “estátua”) e, após ter sido deixado em rigorosa incomunicabilidade, é levado para Peniche. Em 1950, volta a evadir-se do Forte, com Jaime Serra. Porém, desta feita, ao contrário do seu camarada, não chega a sair de Peniche, sendo apanhado pela GNR e enviado para o Tarrafal.

Em 1953 quando, cedendo à campanha internacional contra o campo de concentração, o salazarismo o encerra, os presos vão, pouco a pouco, sendo trazidos de Cabo Verde. Francisco Miguel vai-se despedindo de todos, até ficar sozinho com os guardas. Durante seis meses, a sós com os carcereiros, este homem conhece, uma vez mais, um limite dos crimes do fascismo.

A 26 de Janeiro de 1954, regressa ao “continente” e é levado novamente para a prisão de Peniche. Seis anos depois, e 3 de Janeiro de 1960, integra o grupo dos 10 destacados dirigentes do PCP que protagonizam a histórica fuga.

Não chega a desenvolver grande trabalho no PCP, nem a sentir a vida fora dos muros da prisão durante muito tempo: em Julho desse ano, é detido em Elvas e levado para Caxias. No ano seguinte, a 4 de Dezembro de 1961, foge (pela 4ª vez), no grupo dos sete militantes que se evadem no carro blindado que pertencia a Salazar. Regressa à clandestinidade, até ao 25 de Abril. Sem esmorecer na sua bravura.

Quando, em meados/finais da década de 60, se preparavam as primeiras operações da ARA (visando a sabotagem do aparelho militar colonial), Francisco Miguel fazia parte da direcção daquele “braço armado” do PCP. Insistiu, então, junto da direcção do seu partido, para participar numa das previstas concretizações e viu satisfeita a sua pretensão. Já com Jaime Serra no Comando central da ARA, após preparação específica para a acção, FM iria juntar-se (em Outubro de 1970) aos militantes operacionais, destacados para a colocação de um engenho explosivo no navio Cunene_ que se preparava para transportar armamento para a guerra colonial. (A direcção do PCP terá sido muito relutante em aceder à pretensão de FM, dada a sua idade e porque não o queria ver de novo na prisão, sendo que o risco não era pequeno... Mas, em 1968, Francisco Miguel acabou por frequentar, com mais alguns voluntários, um curso para as ações armadas “directas”).

II - Após o 25 de Abril, Francisco Miguel acarinhou com empenho e alegria a construção do Estado Democrático, envolvendo-se em numerosas actividades. Foi deputado pelo círculo de Beja na Assembleia Constituinte, em 1975, e na Assembleia da República, entre 1976 e 1985. Participou em encontros, comícios e sessões de esclarecimento no Alentejo. Nos trabalhos da Assembleia da República, sobretudo em defesa da Reforma Agrária, foi uma voz conhecedora da realidade social do Alentejo. Na discussão da Constituição em elaboração na AR, dirigiu-se a todos os deputados, em Julho de 1975, para dizer: « Se não houver coragem para fazer uma reforma agrária profunda, não servimos o progresso do País».

Em 1978, desempenhou um papel determinante na organização do regresso a Portugal dos restos mortais dos 32 tarrafalistas, assassinados no “Campo da morte Lenta” e enterrados em Cabo Verde.

III – Também escritor e poeta, Francisco Miguel escreveu vários livros em prosa e verso, entre os quais "Das Prisões à Liberdade" (1986). Da obra poética, destacam-se o livro «Rosas Antigas» prefaciado por José Manuel Mendes, com capa de Teresa Dias Coelho (1980) e «Poesias» (1986).

IV - "Chico Sapateiro", como era conhecido por camaradas e amigos, morreu com 81 anos a 21 de Maio de 1988, no Seixal, onde participava num convívio com militantes e simpatizantes do PCP.

Foi membro do CC do PCP durante 49 anos. O PCP assinalou os 100 anos do seu nascimento na Biblioteca Municipal José Saramago, em Beja, numa sessão evocativa com inauguração de uma exposição, sobre a vida e a obra de Francisco Miguel. Na mesma ocasião, a Câmara de Beja prestou-lhe homenagem, atribuindo o seu nome à então Rua 1º de Maio.

sexta-feira, 25 de maio de 2018

Helena Pato - A Noite mais Longa de Todas as Noites



A mulher que saltou dos calabouços da PIDE para as redes sociais tem um novo livro








Tem 79 anos e sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...
TIAGO MIRANDA

Helena escreveu um livro. Helena foi professora de Matemática. Helena foi cerzideira. Helena combateu a ditadura. Helena escovou tapetes. Helena foi presa pela PIDE. Histórias de combate de muitas Helenas num novo livro de contos memoriais da luta pela liberdade, com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente Jorge Sampaio

“Agosto há-de trazer-me sempre péssimas recordações. Salvo as datas dos nascimentos das minhas mulheres queridas, que me surgem nesse mês como flores de deus no deserto, as desgraças e os dias de má sorte familiares, que me aconteceram em Agosto, teimam em não desaparecer das imagens registadas em cartões de memória que armazeno à revelia de mim própria”. Assim começa um dos contos memoriais de “A Noite mais Longa de Todas as Noites”, o novo livro de memórias da luta contra a ditadura, da autoria de Helena Pato, agora publicado pelas Edições Colibri.
“Obra de uma precisão exemplar e simultaneamente de uma beleza límpida no seu veio narrativo, enquanto tessitura de recordações assumidamente pessoais embora arreigadamente políticas”, é como o define a escritora Maria Teresa Horta no prefácio.



Capa do novo livro de Helena Pato. São contos memoriais da luta contra a ditadura com prefácio de Maria Teresa Horta e posfácio do ex-Presidente da República Jorge Sampaio
D.R.

Para Jorge Sampaio, “as estórias de Helena Pato valem, primeiro, pela valência pessoal de sabor autobiográfico, de grande despojamento, sobriedade e elegância, e depois por serem o retrato de uma época de resistência contra a ditadura”.
Estes contos memoriais – como lhe preferimos chamar – evocam com ternura e humor facetas duras da resistência ao Estado Novo e da luta pela democracia em Portugal.

Helena, dos calabouços da PIDE para as redes sociais, é a reportagem multimedia com a história do empenho de Helena na criação e gestão da página no Facebook “Antifascistas da Resistência”.
Esta página tem milhares de seguidores, centenas de biografias de mulheres e homens que desempenharam qualquer papel na luta contra o Estado Novo, e dá a conhecer cidadãos anónimos que podem ter dado guarida a alguém que precisava de um abrigo seguro, ou guardado livros dessas.
Neste livro que acaba de chegar às bancas, Helena Pato, consegue fazer humor com momentos de luta que tiveram os seus perigos. Terminamos com mais um cheirinho de “As férias, a PIDE e a GNR”, o conto memorial que escolhemos para iniciar este texto:
“Uma meia hora antes da hora combinada para a chegada do Zé, fui ao portão examinar novamente a rua e descubro uma chusma de GNR. Mesmo em frente, havia vários agentes num jeep e, mais adiante, na curva da descida para Portimão, mais quatro, de pé. Imaginei que a PIDE teria pedido a sua colaboração e que o meu regresso a casa lhes confirmara a nossa presença na vila. Era preciso avisar o Zé: eles que não viessem! Mas como, sem eu ter carro nem conhecidos em Monchique, que dessem uma ajuda descendo a Ferragudo? (o jeito que teria dado um telemóvel!)”

A FUGIR DA PIDE ... COM FAMA DE LADRA DE FRUTA

“Vi a solução que me permitia avisar o Zé de que a casa estava cercada. Sairia pelas traseiras, correria por aí abaixo, saltando de quinta em quinta, fora dos olhares da GNR, até parar na subida da estrada nacional, longe do centro da vila. Esperaria o carro em que o Zé vinha (...)
Por entre hortas, pomares e plantações, corri disparada, a saltar cercas e muros, e sem olhar aos arranhões nas silvas, nem a quem andava por ali. Subitamente, no silêncio do lindíssimo vale – sem que eu percebesse de onde surgira um camponês – há uma mão que me agarra com toda a força, pelo braço, ao mesmo tempo que uma voz me interpela, aos berros, ameaçadora:
— Ladra de um cabrão, queres a minha fruta ou o meu tomate, ó…?

Perdida de riso, consegui escapulir-me (...)”.

Em “A Noite mais Longa de Todas as Noites”, há mais contos memoriais com muito humor. Apesar de o livro evocar a luta contra o regime do Estado Novo, e descrever momentos desse “tempo de clandestinidade, tão intensamente (...)” – como escreveu Luís Farinha, diretor do Museu do Aljube, num outro posfácio – que nos faz uma visita guiada e viva sobre esses tempos de noites longas.

http://expresso.sapo.pt/cultura/2018-05-24-A-mulher-que-saltou-dos-calaboucos-da-PIDE-para-as-redes-sociais-tem-um-novo-livro#gs.r7bpFgQ


Helena Pato foi presa em junho de 1967. Tinha 28 anos e já era viúva. Alfredo morrera um mês depois de ser detido pela PIDE. O seu 25 de Abril chegou dois dias depois, quando o segundo marido saiu da prisão de Caxias. Foi professora do secundário e sabe que os mais novos querem conhecer a História. Foi esta uma das razões que a levaram a criar a página “Antifascistas da Resistência” no Facebook, que já tem 400 biografias e milhares de seguidores Neste fim de semana em que celebramos a família e nos preparamos para o ano que há de vir, o Expresso republica histórias, reportagens, conversas, narrativas, dúvidas, considerações, certezas e revelações que fizeram de 2016 um ano preenchido. Todos estes artigos são publicados tal como saíram inicialmente

MANUELA GOUCHA SOARES
Texto

Joana Beleza
JOANA BELEZA
Vídeo

Tiago Miranda
TIAGO MIRANDA
Foto

Se Helena Pato soubesse que a ditadura do Estado Novo ia cair uma semana depois, nunca teria deitado rolos e rolos de documentos proibidos pela janela. O ambiente andava agitado, “o Zé receava ter sido denunciado e decidimos sair uns dias de Lisboa” para aliviar a pressão: “Fomos a Londres, passámos lá o aniversário dele [12 de abril] e regressámos a 17, porque nos disseram que até essa altura não tinha havido denúncias. Nesse dia, decidimos limpar tudo o que estivesse em casa e nos pudesse comprometer; fizémos uma queima de papéis na casa de banho, enrolámos jornais clandestinos e cartazes e atámos uma batata a cada rolo para ganhar peso e velocidade... deitámos os rolos pela janela porque não fomos capazes de destruir aqueles materiais que tinham dado trabalho a imprimir, a fazer”.

A chuva de rolos e batatas sobre o Bairro das Colónias durou até tarde. Com a casa ‘limpa’ de papéis comprometedores, Helena e o marido, o historiador José Manuel Tengarrinha, dirigente do MDP/CDE, acreditaram que poderiam dormir descansados. Eram 6H00 da manhã quando a campainha da porta os acordou com alvoroço. A PIDE entrou e virou a casa do avesso. Ao fim de muitas horas de buscas, Tengarrinha foi para Caxias, sob prisão.

Lisboa 1974: Helena Pato no primeiro comício do PCP, no Campo Pequeno
Lisboa 1974: Helena Pato no primeiro comício do PCP, no Campo Pequeno

“O telefone começou a tocar porque nessa madrugada tinham sido presos outros dirigentes do MDP; eu achei que ele ia ter pela frente uns anos em Peniche”. Apesar da angústia, nesse 18 de abril, Helena, não teve muito mais tempo para pensar nisso: “Tínhamos dois filhos pequenos, que tinham ficado a dormir em casa dos meus pais... e eu fazia anos no dia seguinte. O meu filho já ligava à ideia dos anos e [também] por causa dos meus pais decidi fazer o jantar de família”. A crise obrigava-a a reagir, andar para a frente, como uma tocha que ilumina o caminho, ou não fosse esse o significado do seu nome em grego.

Mesmo para esta mulher de combate, que resistitu seis meses em regime de isolamento na cadeia de Caxias, foi estranha e azeda a celebração do seu 35º aniversário. “A primeira visita ao Zé estava agendada para as 11h00 de quinta-feira, 25; ficou logo marcada no dia em que o levaram. Eu ainda fui uma vez a Caxias levar roupa e comida, e recebi uma carta dele. Uma carta muito curiosa, extensa” que Tengarrinha sabia que iria ser lida pela PIDE. Em vez de se queixar da prisão, o historiador escreveu sobre o século XIX. “Quase que fez o plano de um livro”, diz Helena, que ontem [24 de abril] ofereceu este documento ao Museu do Aljube.

1969: casamento de Helena Pato (4ª da fila da frente da esquerda para a direita) com José Manuel Tengarrinha (à sua direita)
1969: casamento de Helena Pato (4ª da fila da frente da esquerda para a direita) com José Manuel Tengarrinha (à sua direita)

DR

Por volta das 4h30 da madrugada de dia 25, o telefone tocou na residência do casal Pato/Tengarrinha. Helena pegou no auscultador e ouviu alguém dizer: “Houve uma revolução e o seu marido vai sair da cadeia”. Não respondeu. Pousou o auscultador sem dar qualquer resposta e, depois de desligar, falou sozinha: “Provocadores.... fazem isto para provocar, nem me deixam dormir durante a noite”.

Minutos depois o telefone voltou a tocar. Desta vez foi a empregada que ajudava Helena a cuidar dos filhos, quem respondeu e anunciou eufórica: “Houve uma revolução ... o senhor doutor vai ser libertado!”.

Atordoada, Helena que passara a noite anterior a cozinhar para levar comida ao marido preso, deve ter ligado a rádio como todos os portugueses que já estavam acordados aquela hora. As informações eram poucas, o telefone continuava a tocar: “Arranjei-me e fui para a Av. do Uruguai, para uma reunião em casa da Julieta Correia e do marido, o jornalista Fernando Correia que creio que também estava preso, para me encontrar com familiares de outros presos políticos e combinarmos o que iríamos fazer”.

Por ironia do destino, Helena não foi capaz de festejar a Revolução no dia em que ela aconteceu. Foram dois dias de grande tensão; só conseguia pensar no marido e nos outros presos... que só deixariam a prisão de Caxias no dia 27.

Caxias: Jorge Sampaio, Pereira de Moura, Salgado Zenha e Francisco e Miguel Sousa Tavares juntaram-se aos familiares dos presos políticos para aguardar a sua libertação
Caxias: Jorge Sampaio, Pereira de Moura, Salgado Zenha e Francisco e Miguel Sousa Tavares juntaram-se aos familiares dos presos políticos para aguardar a sua libertação

A reunião na Av. do Uruguai serviu para distribuir tarefas. Helena e a sua camarada do PCP, Aida Magro, começaram por se deslocar ao Rádio Clube Português, ocupado pelos militares do MFA. Daí seguiram para o exterior da prisão de Caxias onde passaram o resto do dia.

Ao princípio da noite Helena decidiu voltar a casa; queria saber dos filhos, comer, tomar banho. Telemóveis eram coisa que não existia nem em sonhos, e as cabines telefónicas não estavam propriamente à porta da cadeia...

Veio com a sua amiga Luísa Amorim. “No meu bairro havia um clima de festa ... e de acampamento. As escadinhas ao lado da minha casa, que dão para o Bairro das Colónias, estavam cheias de soldados sentados de metralhadora” em punho. Era tarde, estava frio, “e eu e a Luísa ficámos com pena deles e decidimos fazer café e umas sandes e ir lá levar-lhes. Eu levei uns cobertores ... e só três dias depois é que dei conta que tinha ficado sem cobertores em casa”. Quem viveu a Revolução sabe que aconteceram coisas destas e que ninguém prestava atenção a minudências ... como cobertores, por muita falta que eles façam numa casa.


Na véspera dos 42 anos da queda da ditadura em Portugal, Helena colocou este post na sua página pessoal do Facebook, onde recorda os soldados a quem deu os cobertores; raramente coloca notas de caráter privado na sua página do Face.

ANTIFASCISTAS DA RESISTÊNCIA TÊM QUASE 5 MIL LIKES
Há dois anos, quando estava prestes a deixar a direção do movimento cívico Não Apaguem a Memória, Helena constatou que havia muitos professores e alunos que procuravam material sobre a resistência à ditadura. Se os arquivos da PIDE e outros, os jornais, etc, fornecem elementos, há uma parte da história que vive de outro tipo de informações e testemunhos.

Enquanto militou no Não Apaguem a Memória [fundado em 2006 para contestar a transformação da sede da PIDE em condomínio de luxo], verificou que havia muita gente que era esquecida pelas formas convencionais de preservar a memória: “Há muitas biografias escritas sobre dirigentes, mas existiram muitos homens e mulheres, heróis anónimos da resistência, pessoas que tiveram vidas muito difíceis, de quem ninguém sabe nada”. E foi assim, para lembrar o papel destes heróis anónimos, que surgiu no Facebook o grupo “Fascismo nunca mais”, que tem quase 10 mil membros.

Aos 77 anos sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...
Aos 77 anos sabe que as redes sociais podem a ajudam a conquistar os mais novos para a História da luta contra a ditadura. Helena Pato e seu amigo computador...

TIAGO MIRANDA

“A ideia era criar um grupo aberto; mas eu cliquei numa opção para grupo fechado e quando dei conta reportei para o Facebook. Nunca responderam e não foi possível reverter a situação. O grupo ficou mesmo fechado, e criámos uma outra página no Facebook, “Antifascistas da Resistência”, onde estão as biografias”. Esta página é pública e tem quase cinco mil seguidores

Para salvaguardar algum ataque informático [já tiveram um], ou outro clique involuntário de Helena ou de alguma das outras duas administradoras que com ela colaboram, foi criado um blogue com o mesmo nome onde está um índice das biografias com links de acesso aos textos.

Militante do Partido Comunista durante 29 anos [1962 - 1991], Helena faz questão de fazer biografias de “gente de todas as áreas que esteve envolvida em ações de resistência. E convidei para colaborarem comigo na administração das páginas, duas mulheres de outras áreas políticas: Inês de Castro, professora de História e a Benedita Vasconcelos que é de Direito”.

Nos comentários, “não são permitidas agressões que sirvam para denegrir o passado dos antifascistas”, e é uma forma de evitar querelas entre pessoas de tendências e fações diferentes.

Itália, 1964: Helena Pato com o seu primeiro marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Nolaes, que morreu em 1965 de cancro, um mês depois de ser detido pela PIDE no regresso ao país... porque queria morrer em Portugal
Itália, 1964: Helena Pato com o seu primeiro marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Nolaes, que morreu em 1965 de cancro, um mês depois de ser detido pela PIDE no regresso ao país... porque queria morrer em Portugal

DR

Maria Helena Martins dos Santos Pato Noales Rodrigues, é este nome que está escrito nas fotos da prisão que se vêem no vídeo que abre este trabalho, foi presa em junho de 1967. Tinha 28 anos e já era viúva. O marido, o jornalista e dirigente estudantil, Alfredo Noales Rodrigues, com quem casara em 1960, saiu do país em 1962 para não ser preso pela PIDE. Foi para Paris e Helena foi ter com ele logo que pode; ainda não tinha acabado o curso, mudou a matrícula para a Universidade de Coimbra [muitos estudantes que tiveram ‘problemas’ com a polícia política utilizaram esta solução para acabar os cursos noutras universidades portuguesas] e vinha a Portugal uma vez por mês, de comboio – a viagem durava quase 30 horas – para tentar acompanhar as matérias e fazer exames.

Em 1964, nesta foto do jovem casal que o Expresso publica, Alfredo está visivelmente mais magro no que nas fotos que vimos do seu casamento com Helena em 1960.

Quando tiraram a foto, Helena ainda não sabia que o marido estava doente. Nem ela nem ele, porque o linfoma ainda não tinha sido diagnosticado. Na década de 1960, o tratamento das doenças oncológicas estava menos avançado do que hoje e Alfredo foi definhando. Exilado político, tinha o desejo de vir morrer a Portugal, no país onde nasceu e perto dos pais e restante família. Foram feitas diversas diligências junto da polícia política, pedindo que Alfredo pudesse sem regressar sem correr o risco de ser detido. A resposta era invariavelmente a mesma: “Poderá regressar quando houver uma declaração médica que garanta que não tem mais do que 30 dias de vida. Claro que nenhum médico poderia passar uma declaração destas…”, porque nunca se sabe qual é a verdadeira evolução do cancro em termos de tempo. Nem hoje, nem naquela época.

Alfredo voltou em novembro de 1965. Saiu do avião em cadeira de rodas, os pais estavam à espera dele… e foi detido pela PIDE para interrogatório. Morreu um mês depois, em dezembro desse ano.

Assembleia da República, janeiro de 2014: Helena Pato na abertura da sessão de homenagem aos advogados dos presos políticos
Assembleia da República, janeiro de 2014: Helena Pato na abertura da sessão de homenagem aos advogados dos presos políticos

A maioria dos portugueses não conhece a história de vida de Alfredo Noales. E também não conhece o papel de Belmira Cruz, Manuela Bernardino, Cândido Capilé, Gina Azevedo, Manuel Baridó e Olímpia Brás, e muitos mais, que Helena vai juntando no grupo fechado [por engano dela…] do Facebook “Fascismo nunca mais” e na página aberta “Antifascistas da Resistência” e no blogue com o mesmo nome, que conta com a ajuda informática de Eduardo Brissos. “Quis dar a conhecer a vida dos heróis anónimos, de pessoas com quem me cruzei, que me tocaram. Houve uma mulher que foi presa mais ou menos na mesma altura em que eu, uma operária corticeira, a Olívia, que enfrentou a ditadura com uma força extraordinária, e é quase desconhecida. Foi uma mulher que me ajudou muito…”, diz Helena, a ex-professora de Matemática que recorda nas redes sociais a história de pessoas que mal sabendo ler – ou não sabendo de todo – começaram a trabalhar por volta dos oito anos em troco de 10$00 [5 cêntimos] por mês “para pagar o pão que comiam”.

Autora de dois livros em que recorda a luta contra a ditadura, “Saudação, Flausinas, Moedas e Simones” e “Já uma estrela se levanta”, nunca gostou muito da ideia de existirem quotas na política, apesar de ter sido uma das fundadoras do Movimento Democrático das Mulheres, em 1969: “As mulheres têm de se afirmar pelas suas qualidades… e afirmam-se desde que lhes sejam dadas condições” para que isso aconteça: “O que está a acontecer com o Bloco de Esquerda é um exemplo disso”.

Aos 77 anos, tem o projeto de “reescrever um romance guardado há anos. É um romance de amor, a história de um quadrado amoroso, e tenho uma certa má consciência de ter abandonado aquelas personagens de que gosto tanto à sua sorte. Só que também gostava de fazer um blogue que funcione ao contrário da maior parte dos blogues… e acho que a net vai ganhar (risos). Um blogue onde começaria por recordar histórias da minha infância e ia enchendo de histórias, reescrevendo algumas para não me andar a repetir, até à atualidade em que começaria a escrever crónicas” sobre o que se passa. “Já disse à minha filha que quando eu ainda for viva mas não for capaz de escrever… ela pode escrever o que lhe contei, e depois de eu morrer também”.

Quanto às biografias, tem dois tabus: “Não as publico em livro, já tive uma proposta mas está fora de questão; estas biografias estão bem para a função que cumprem de divulgar histórias de pessoas, mas não têm rigor” científico. “E nunca escreverei a minha própria biografia para colocar na página. Se alguém o fizer, vou lá e PUF!”. É assim Helena, a mulher que aos 28 anos observava a vida das formigas e o nascimento das florzinhas no muro da prisão de Caxias, para enganar o regime de isolamento a que fora condenada: “Não podia ir ao recreio, não me deram os livros que pedi, nem jornais, nem papel, nem linhas, lã, agulhas para fazer tricô, ou qualquer coisa para me ocupar”.

http://expresso.sapo.pt/arquivos-expresso/2016-12-25-Helena-dos-calaboucos-da-PIDE-para-as-redes-sociais#gs.zS5qZks






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