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quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Anabela Fino - Palavras

* Anabela Fino

Aos votos para o novo ano é necessário acrescentar, se é que ainda ninguém o fez, o pedido urgente de um novo léxico. As palavras que usamos já não servem para exprimir a realidade, estão gastas. Não pelo uso, não, longe disso, mas pelo abuso a que são sujeitas todos os dias, em todas as línguas, em todos os azimutes.

Diz-se amor e ódio com a displicência com que se fala do dia ou da noite. Declara-se amor à t shirt da moda, ao brunch vegan, à namorada ou ao jardim da Estrela com a mesma ligeireza com que se afirma odiar a couve de Bruxelasos bombons de Joana Vasconcelos ou as peúgas de homem brancas.

Fala-se de dor e tortura para contar uma ida ao dentista onde as intervenções são feitas sob anestesia. Morre-se de fome quando se falha ou atrasa uma refeição. Morre-se de medo a ver um filme de terror e a comer pipocas. Equipara-se uns dias de bloqueio de estrada e a perda do Natal com a família à vida nos campos de refugiados. Classifica-se de humanitário o extermínio de milhões de seres humanos em fornos crematórios.

Nos discursos oficiais, fala-se com pompa e circunstância da justiça e da igualdade, ainda que a força bruta de realidade grite o contrário. «A justiça e a igualdade de acesso sempre foram essenciais e ver a vacinação começar em todos os estados-membros, sejam pequenos ou grandes, é um momento importante de solidariedade da UE», garantiu há dias a comissária europeia da Saúde, Stella Kyriakides, numa nota à comunicação social, asseverando que a «UE atravessou esta pandemia em unidade e agora também estamos a iniciar o processo para pôr um fim duradouro à pandemia, juntos e unidos». Seria cómico se não fosse tão trágico.

Depois de se ter assistido ao salve-se quem puder no início da pandemia, com cada Estado-Membro a olhar para o umbigo e a fechar-se, literalmente, em casa, a que se seguiu o indecoroso espectáculo do regateio das ajudas para sobreviver à crise, a que se junta agora a distribuição, segundo critérios não divulgados, de vacinas adquiridas num (mais um) negócio sigiloso, depois de tudo isto, dizia, ocorre perguntar o que significa justiça, igualdade, solidariedade, unidade...

Parafraseando o poema de Chico Buarque – ... de muito gorda a porca já não anda / de muito usada a faca já não corta / como é difícil, pai, abrir a porta / essa palavra presa na garganta... –, o vocabulário a uso de tão torcido já não serve, de tão deturpado já não presta, de tão conspurcado já não assiste ao que verdadeiramente importa.

Neste início de ano ainda por estragar, e porque é nosso dever falar, fazemos nossas as palavras do poeta francês Léon-Paul Fargue: «É preciso que cada palavra que cai seja o fruto bem maduro da suculência interior». Bom ano.

https://www.avante.pt/pt/2457/opiniao/161787/Palavras.htm


quinta-feira, 23 de abril de 2020

Anabela Fino - Aos que deram tudo


  • Anabela Fino


Aos que deram tudo
«Foi a descoberta mais importante de toda a sua vida. Sabia ler. Possuía o antídoto contra a venenosa peçonha da velhice». As palavras de Luis Sepúlveda, o escritor, jornalista e activista político chileno que há dias nos deixou, vítima de Covid-19, dão-nos um vislumbre do que significava escrever – a sua forma de contar o mundo – para quem cedo descobriu que a América Latina limita ao Norte com o ódio e não tem mais pontos cardeais.Membro activo da Unidade Popular chilena nos anos 70, Sepúlveda estava no Palácio de La Moneda a fazer guarda ao Presidente Allende aquando do golpe militar fascista liderado por Pinochet, com o apoio dos EUA, a 11 de Setembro de 1973. Como escreveria 30 anos depois, no seu Memorial dos anos felizes, «Cada uma e cada um tem na sua memória um álbum particular de recordações felizes daqueles dias em que demos tudo, e parecia-nos que dávamos muito pouco, porque tínhamos gravado na pele os versos do poeta cubano Fayad Jamis: “por esta revolução haverá que dar tudo, haverá que dar tudo, e nunca será o suficiente”».

Um entre tantos que lutaram para fazer do Chile um país justo, feliz e digno, o escritor para quem seria insuportável ser imortal orgulhava-se de fazer parte dos que «não renunciaram à sua dignidade, dos que resistiram nos interrogatórios, dos que morreram no exílio, dos que regressaram para lutar contra a ditadura, dos que ainda assim sonham e se organizam, dos que não participam na farsa pseudodemocrática dos administradores do legado da ditadura».

São homens como estes que guardamos na memória, gratos por nos lembrarem que só voa quem se atreve a fazê-lo. Com eles, na despedida, «bebamos com orgulho o vinho digno das mulheres e dos homens que deram tudo, que deram tudo pensando que não era o suficiente».

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Os impérios também se abatem



A TALHE DE FOICE • Anabela Fino

A responsabilidade dos EUA no genocídio de meio milhão de pessoas, na Indonésia, estão agora disponíveis na Internet. Os acontecimentos remontam aos anos 60 e ocupam 800 páginas oficiais que ilustram a dimensão da barbárie. A sua divulgação não estava prevista. Ao que parece, tanto a CIA como o Departamento de Estado preferiam que a história ficasse para sempre enterrada nos ficheiros secretos que é suposto não virem ao conhecimento do público.

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Não foi assim. Por um qualquer erro burocrático, a Imprensa Nacional norte-americana pôs à distância de um clique o que muitos sabiam e uns quantos preferiam ignorar, de forma a que ninguém possa agora afirmar desconhecer.

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Foi em 1965, quando os EUA se conluiaram com os sectores mais reaccionários da Indonésia para afastar do poder o presidente Sukarno, o fundador da nação. O resultado foi a ascensão de Suharto ao poder e a instauração de uma ditadura que durou 32 anos.

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Falar de banho de sangue é dizer muito pouco do que então aconteceu. A própria CIA revela nos seus documentos alguma dificuldade em exprimir a enormidade da caça às bruxas que patrocinou: «Em termos de número de mortos, os massacres anti-PKI [Partido Comunista da Indonésia, apoiante de Sukarno] figuram entre os piores assassinatos em massa do século XX.»

A matança foi de tal monta que os carniceiros de Washington em serviço na Indonésia sentiram necessidade de ocultar o número de vítimas. É o que afirma o então embaixador Marshall Green, numa informação datada de 15 de Abril de 1966 e recentemente citada pelo diário francês Le Monde: «Não sabemos se o número exacto [de comunistas mortos] está mais próximo dos 100 mil ou do milhão, mas achamos que é mais sensato admitir o número mais baixo, sobretudo face à imprensa». Outro diplomata, Richard Cabot Howland, propôs que se ficasse pelo número oficial de 105 mil mortos, para não manchar (!!!) a imagem de Suharto.

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A documentação agora vinda a público não deixa dúvidas sobre o envolvimento de Washington no golpe de Estado que levou à ditadura militar: a par do treino, armamento e dinheiro dado aos militares e a grupos terroristas (como o tenebroso Kap-Gestapu), a embaixada norte-americana forneceu ainda a lista de dirigentes do PKI que foram abatidos, juntamente com toda a família.

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Meio milhão de pessoas foi chacinada. Milhares de outras foram presas e condenadas à morte lenta em décadas de prisão.

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Os cães de fila do capitalismo não se limitaram a fechar os olhos. Houve até quem aplaudisse. Na época, a circunspecta revista Time não resistiu a aclamar esta «vitória da democracia», classificando os acontecimentos na Indonésia como «as melhores notícias da Ásia para o Ocidente dos últimos anos».

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A linguagem hoje mudou. A defesa dos direitos humanos está na ordem do dia e serve de pretexto a todas as intervenções, armadas ou outras, seja no Iraque ou em Cuba, na Sérvia ou no Médio Oriente.

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Mas para o imperialismo, um bom comunista continua a ser um comunista morto. E comunistas são todos os que não se submetem aos seus desígnios. Terrível história esta, em que o criminoso dita a lei.

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Mas é sabido que não há crimes perfeitos. Os impérios caem, os povos permanecem. E há sempre alguém que resiste. É isso que faz tremer os senhores do mundo: não são eternos.

«Avante!» Nº 1445 - 9.Agosto.2001
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