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quinta-feira, 13 de março de 2008

África Minha

Mariline Alves
Filipe Vilard Cortez consegue fazer levantar o voo mais belo: Acarinhar rostos que o Mundo esqueceu
Filipe Vilard Cortez consegue fazer levantar o voo mais belo: Acarinhar rostos que o Mundo esqueceu



Reportagem: Filipe Vilard Cortez
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* Mirian Assor
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Há sempre uma criança na vedação. Eles viram as costas à miragem triste. Alguns pseudomagnatas, que multiplicam as suas contas bancárias em Moçambique, quando passam com viaturas topo de gama naquela dura redondeza, escondem a cara com óculos escuros. Não por desprezo ou por considerar que o mal bate sempre à janela do vizinho, mas falta-lhes, dizem entre reuniões, tempo e coragem.
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O orfanato 1º de Maio é igual a todos os infernos de depósito humano; demasiadamente atroz para acreditar. Visitá-lo é capaz, rosnam os egoístas, de provocar a seguinte chatice. Os milionários podem ficar desconcentrados. Os ricaços não sabem, mas são pobres. Pior. Serão pobres. O provérbio africano “Quando o coração está fechado, a sorte não entra” é mais certeiro do que um relógio suíço.

Trinco aberto. Há uma miúda que recebe a visita com olhos acesos. São íris tão envelhecidas que comovem a memória de escrita. Dá os cinco dedinhos. A mão adulta segura-os. Nunca antes sentiu tanto calor em vida fria. “Fina” perdeu mãe e pai e os irmãos ficaram na estrada. Tem três anos e um bibe. Não se importa que a única árvore esteja seca. Da terra seca. O escorrega enferrujado. Um dia - sonha a reportagem - aquele chão mirrado de esperança será um jardim. Os brinquedos terão roda. Nenhum braço faltará à sua boneca. Mas o sonho vai sucumbir.

Subindo um lance de escadas sobe-se ao pesadelo. E as palavras, quaisquer que sejam, matam a respiração. Bebés. Dez, doze bebés. Que apetece beijar, levar e proteger, afundados em cadeirinhas de plástico, parecem anciães sem alma. Uma criatura do tamanho que nenhum mal a deva afligir interrompe o silêncio. Chora. Soluça. Engasga-se no pranto. Um pedaço de gesso arrancado na sua perna pequenina deixou grandes mazelas. Uma funcionária tenta despistar-lhe a dor. Canta uma canção. Mas a melodia não chega. Colo. Sim. É o colo que lhe devolve uma calma tremida.

A instituição estatal moçambicana ligada ao Ministério da Mulher e da Acção Social acolhe estes petizes com passados doridos. Ficaram órfãos ou foram abandonados por pais que apodrecem de HIV, de lepra, de malária, de álcool e de prostituição. É a Polícia Municipal que encontra, nos asfaltos e nos contentores do lixo, tais miniaturas de gente e, consoante vagas disponíveis, entrega-as a estabelecimentos do Estado. No orfanato, que ganhou o nome do dia do trabalhador, há, digamos, um carinho técnico. Existem muitas crianças para cuidar e poucas empregadas que tomem conta delas. Fome? Não. Não há iogurtes todas as manhãs, mas a fome, essa cabra, morreu na rua. Fruta. Papas. Leite. Arroz. Não faltam alimentos para ajudar a fortalecer os seres frágeis. E não sobram. Tal como as roupas, estendidas num corda gasta, esperam que os 37 graus as enxuguem. Os panos improvisados, lavados na água escassa, que bóiam num alguidar, são fraldas.

Mas a partir de agora, a boa nova chegou. Filipe Vilard Cortez, comandante da TAP, membro da CIC - Associação para a Cooperação, Intercâmbio e Cultura – trouxe milagres: fraldas descartáveis. Mais: através de um anónimo conseguiu que, mensalmente, não faltem fraldas. A directora do orfanato sorri. Quem diz o contrário mente; o sorriso africano é largo. Verdadeiro. Dispensa tiques. A mulher de estatura alta, derme tostada, agradece com um obrigado tímido, enquanto a miudagem festeja a segunda oferta trazida pelo senhor dos aviões: elásticos e ganchos coloridos para enfeitar cabelos. Que pena. A entrevista aguarda pela repórter. A hora marcada não consente atrasos. A mão desprende-se da de “Fina” e os quarenta anos voam com vergonha de cumprir horários.

Se no ar a pontualidade é obrigatória, em terra um atraso é mentira. Nem um minuto passa das oito e meia da manhã e o comandante já está pronto para um voo humanitário, desta vez conduzido num jipe, e com ele vem a freira Luísa - salesiana de Itália, que há décadas preferiu o caminho de missionária a rezar ajoelhada numa igreja. O Colégio Maria Auxiliadora é longe, situa-se no distrito de Namaacha, junto à fronteira com a Suazilândia e a um pulo da África do Sul, mas em Moçambique a distância, comparada com os malditos flagelos e com as malditas doenças mortíferas, muitas delas continuam a matar apenas em África, simboliza um meigo incentivo. O intuito da viagem é unicamente um: Filipe, que arrasa o Pai Natal, e também algumas associações que inventam solidariedade de nariz empinado, vai distribuir prendas aos estudantes-residentes da referida instituição católica.

Kits dentários oferecidos pela Clínica Dermoestética, enciclopédias ofertadas pelo Correio da Manhã/Sábado, roupa interior e acessórios que o próprio comprou, estão na bagageira da viatura. Mas não foi canja conseguir que os pacotes não ficassem estancados ade eternum na teimosia do pessoal alfandegário do aeroporto de Maputo. Uma garrafa de vinho e cem dólares do bolso de Filipe aceleraram, e muitíssimo depressa, a burocracia lenta e gulosa. Não é nenhuma novidade. A religiosa não conhece só o Pai Nosso. Sabe de ginjeira o nojo que representa o contínuo comércio clandestino. Um par de calças poderá representar uma pipa de massa. A freira tosse. Refresca os laivos de corrupção contando uma anedota. Depois, prefere enaltecer os homens que sabem praticar o esboço de Leonardo Da Vinci: “Um piloto está mais próximo de Deus.”

Não é o Éden, mas se calhar entrámos nas redondezas do Paraíso. Canções. Batuques. Flores. Uma carta com metáforas lindas que estremece. As boas-vindas da criançada do Colégio Maria Auxiliadora fazem crer que o Mundo anda cego e cruel e autista. Livros, escovas de dentes, camisolas interiores ou um mero laço transformam-se em ouro nas mãos de um mar de crianças e adolescentes que não desconfiam do futuro. Liliana entrará para um convento. Erika será pediatra. Beleza, diz baixinho, que quer ser bailarina. Mostra talento. Põe os pés em posição de pontas. Eleva os braços em arco. Melhor; canta o Lago de Tchaikkovsky. Inaugurado em 1965 com internato, semi-internato e ensino básico, o Colégio Maria Auxiliadora, durante a sangrenta guerra civil, que magoou o país entre 1976 e 1992, e tantas vítimas proporcionou, já viu os dias contados. Dias negros. Mais escuros que a escuridão. As nacionalizações implementadas pelo então Governo da Frelimo, chefiado por Samora Machel, não se privaram de atingir a medula das instituições religiosas. “Já viu o nosso santo?” Pergunta a irmã Benedita. Já. A figura de Cristo é uma presença constante em todas as paredes. Mas não é de Jesus que falamos. “Venham ver”. E vamos. Quando se olha para o dito santo, a boca espanta. Uma incómoda e estrondosa vontade de rir não fica para dentro. É o próprio. Ele mesmo. Vladimir Ilitch Lenin mano-a-mano com Jesus Cristo. Não que ambos quisessem, mas as reminiscências da propaganda oficial socialista fortemente laica, e, indubitavelmente, anticlerical, explicam a gravura pintada à prova de todas as substâncias e pedidos: “Já a lavámos com sabão. Com lixívia. Até já rezámos e não há meio de sair.”

MARIA PEREIRA

Maria Pereira foi mais forte do que as tintas da tropa de Machel. Forçada a largar as instalações do estabelecimento estudantil, a monja de Pinhel disse cara-a-cara aos camaradas que não iria para parte nenhuma. Ficaria ali. E ficou. O exército não baixou as armas, mas recuou. A recente arteriosclerose tirou-lhe a memória da data de nascimento, a lembrança da morada de Portugal, as deliciosas receitas culinárias, mas não conseguiu apagar esses anos de luta. Beatriz Dias abraçou o celibato em 1962, dez anos depois dos votos veio para Moçambique e lembra-se bem da odisseia política: “Queriam que nós saíssemos, mas quem é que tinha coragem de abandonar as meninas?”

As meninas, as cinquenta raparigas, dormem em camaratas limpas. Estudam. Vivem num cilindro de amor. Não têm o olhar funesto da “Fina”. Dizer-lhes adeus é uma promessa de um até já devido. Uma lição severa e ao mesmo tempo meiga. “O coração fala mais do que as palavras”, atira a freira Apoloni, natural do Ruanda, a directora. A frase não consta do Antigo Testamento nem do Evangelho, mas neste oásis a Bíblia é refeita diariamente. E também a quilómetros do colégio Maria Auxiliadora, no Centro de Acolhimento João Bosco, onde os “meninos de rua” podem viver até serem homens.

Salomão é um rapaz de um bom gosto indiscutível. Veste a camisola do Sport Lisboa e Benfica. Pisca o olho. Pede o endereço da quarentona. Promete um postal. Tomé entrou minúsculo para a instituição e já apara a barba. José vai casar. João recorda-nos que a norma da casa é muito simples: cultivar legumes para comer. Costurar roupa e fardas escolares para vestir. Fazer e vender artesanato para ajudar a custear a manutenção do centro. “Muitos garotos quando aqui chegaram, nem tinham nome”, lembra a irmã Luísa.

Para facilitar a memorização de um batalhão de crianças o baptismo recaiu em nomes equivalentes a feriados religiosos. Apesar de terem sido acolhidos pela ordem religiosa católica, a esmagadora maioria não elegeu o sacerdócio. São técnicos especializados ou concluíram o ensino académico. Tal como a porta se escancarou para que os rapazes entrassem, continua aberta para saírem sempre que desejem. Pouco acontece. “Sinto-me protegido neste sítio” adianta Salô. Não. Não há presentes para dar, mas em breve irá haver.

Filipe, desde a primeira hora que aterrou em Moçambique, não esqueceu a tonelada de roupa presenteada pela fábrica AMC - Representações Têxteis de Coimbra, cujo transporte foi oferecido pela administração da TAP, e que, por três inexplicáveis semanas, continuava retida no absurdo dos armazéns do aeroporto da capital moçambicana. Não haveria adegas e dólares americanos que bastassem para apressar a justa entrega. Depois de muitas voltas, de falar com vários secretários dos secretários de ministros, de telefonar resmas de dias e tardes para um tal doutor ou engenheiro, Filipe recebe finalmente a notícia: a tonelada de esperança foi libertada e encontra-se num gabinete do Ministério da Educação. Na manhã seguinte ao vagaroso aval ministerial, o piloto retoma o volante do jipe. Vai buscar a mercadoria com os seus braços.

Metade será entregue aos milhares de refugiados das cheias que alagaram o norte do país. Os restantes quinhentos quilos de roupa já têm dono. Filipe, que insiste dizer que não é “um gajo porreiro”, segue o itinerário emocional. Passa pelas mesmas estradas fartas de buracos. Regressa aos mesmos lugares. Cumpre a promessa. Entrega camisolas, camisas, calças. As crianças não estão só felizes. Chamam-se felicidade ou então outra designação profunda. O comandante volta a Maputo, a essa cidade ainda por construir, onde o Oceano Índico, apesar de imundo, segue, incrivelmente manso e belo.

Filipe abre a janela. Precisa de suar. Uma rajada de sol braseiro destila os vidros e o corpo. Nas calçadas de avenidas espaçosas, mulheres e homens e crianças esqueléticas procuram sombra para morrer. As imagens da execrável pobreza flagrante, inaceitável, não coincidem com a beleza-fogo africana. A terra de Moçambique é detentora de uma pujança que ultrapassa a Natureza. Há quem diga, inclusive, que África puxa-nos para um fundo carinhoso irreversível. Que nos desperta o espírito. Que nos dita a verdade pelo coração.

MUITO POUCO PARA QUEM MUITO PRECISA

Quando o comandante da TAP abriu as portas da bagageira do automóvel para entregar as boas surpresas que trazia de Portugal, algumas crianças ficaram tão felizes que muitos olhinhos lacrimejaram de tanta felicidade e outras, espontaneamente, cantavam canções africanas para agradecer a visita e os presentes. Escovas e pastas de dentes, enciclopédias, livros, roupa, ganchos e laços para o cabelo, tudo é muito pouco para quem muito precisa, afirma Filipe.

O BEM É PARA SER FEITO E PONTO FINAL

Filipe Vilard Cortez, Comandante da TAP, nasceu na cidade Invicta em 1955, é presidente da organização humanitária “Pilotos sem Fronteiras” e membro da CIC – Associação para a Cooperação, Intercâmbio e Cultura. Bisneto de um senhor bastante aventureiro cuja história serviu, inclusive, de musa para o romance de Miguel Sousa Tavares, “Rio das Flores”, Filipe, homem de cariz generoso extraordinário, sempre atento às necessidades dos mais carenciados, desde sempre se sentiu atraído pela aviação. Em 1970 tira o brevet para ingressar na Força Aérea Portuguesa. Foi piloto de caça, levantou e levanta asas a todos os aeroplanos imagináveis. Viveu nos Estados Unidos. Na Europa. Nos últimos tempos, em Sintra. Tanto faz. O comandante é um cidadão do mundo raro: o bom. Detentor de um coração fora de série de bondade, não gosta que lhe elogiem o que pratica em terra. Porque o bem é para ser feito. Ponto final. Foi o que ele fez em Moçambique. Entregou prendas e levou a esperança a um punhado de crianças. Moveu o céu e a terra para que isso acontecesse.

O 'SANTO' VLADIMIR LLITCH LENIN

É verdade que é muitíssimo estranho ver a imagem de Vladimir Ilitch Lenin na parede de uma igreja, mas existe uma explicação para tal; durante os primeiros tempos do Governo chefiado pelo, então, Presidente de Moçambique, Samora Machel, os ideais radicais da esquerda, que eram bastante anticlericais, não somente perseguiam instituições religiosas como também as transformavam nas suas sedes políticas. Foi exactamente isso o que sucedeu ao Colégio Maria Auxiliadora. Para apagar a gravura do revolucionário russo, as freiras já tentaram todos e mais alguns materiais: lixívia, sabão azul e branco, detergente para ratos. Inclusive, já rezaram a Deus. Mas, até à presente data, o esboço do teórico do Marxismo e autor do “imperialismo” contínua vivo na capela do estabelecimento salesiano. Ao que parece não há nada que o consiga fazer desaparecer.

OS GAROTOS DE MOÇAMBIQUE

Os garotos de Moçambique, que o Mundo arranjou maneira de esquecer, receberam das mãos do comandante Filipe Vilard Cabral roupa oferecida pela fábrica AMC - Representações Têxteis de Coimbra, os mais pequenos fraldas descartáveis, contribuição de alguém que quis ficar anónimo, kits dentários da Clínica Dermoestética e enciclopédias
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. Correio da Manhã/Sábado.
2008.03.09
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Terça-feira, 11 Março


- sandra preto
Foi muito bom conhecer este lado humano do cmd.villard cortez,o meu contacto é apenas a nivel profissional.Gostaria de salientar que tal como este anjo,felizmente,na TAP,existem muitos outros que anonimamente fazem o bem levamdo a mala de roupa para a estadia cheia de roupa,massas,arroz,grão,material escolar,etc.Fico feliz por ainda existir quem se preocupe com estas crianças.sandra,Alverca

- pedro
Lenine numa igreja...boa!!!!

- sidney
é bem verdade que o mundo esqueceu estas crianças.

- Sofia
as crianças que o mundo esqueceu foram acarinhadas por um grande senhor e por uma reportagem muito bonita.

- Chin
ESTES ARTIGOS NÃO SERVEM APENAS PARA ALERTAR O MUNDO EGOISTA EM QUE VIVEMOS, MAS TAMBÉM PARA MELHOR O TANTO QUE ESTÁ MAL. BEM HAJA CORREIO DA MANHÃ.

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segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Luiz Pacheco - Sócrates? Quem é? Não o conheço


* Miriam Assor


Os óculos pesam nos olhos que cegaram. À cabeceira, o jornal ‘Avante’ e um livro de José Gomes Ferreira não são bibelôs, mas companhias. Luiz Pacheco, criatura de inteligência rigorosa, de lucidez sobrenatural, um livre pensador que disse e diz coisas que não são fáceis de serem ditas, está preso a um cadeirão, tem o robe vestido, o aquecedor ligado e uma manta para o frio não lhe magoar o esqueleto. Nasceu em Lisboa, na Rua da Estefânea, a 7 de Maio de 1925, pai de oito filhos – frutos de muitos amores, na vida escolhida, que foi dura por prazer, só fez o que bem entendeu.

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O Estado Novo prendeu-o por politiquices e por ter amado menores. Frequentou o curso de Filologia Românica na Faculdade de Letras e a meio mandou o curso dar uma curva ao bilhar russo. Entretanto, a Inspecção de Espectáculos admitiu-o como agente fiscal, mas sedentarismo não combinava com o seu feitio. Preferiu a situação que considera invejável: desempregado. Depois, funda a editora Contraponto onde a corrente surrealista viu muitos dos seus autores publicados. Crítico literário e cultural, tradutor, colaborou em diversos jornais e revistas, ‘O Globo’, ‘Afinidades’, ‘Seara Nova’, ‘Diário Popular’. A sua escrita caracterizada de irreverência e de poesia esbofeteou a torpeza intelectual e desafiou o lápis azul da censura salazarista. Luiz Pacheco, que, em tempos, se fez sócio do Benfica para ir aos bailes e do Sporting para ir à natação, já não dança e não aprendeu a nadar. Apesar de ter andado perto do fundo, acaba por vir sempre à tona e ao seu ritmo.



Tinha dito que não saía do lar do Príncipe Real. Afinal, enganou-se. Vive com o seu filho.

Um gajo também se engana! A vida nos lares é uma espécie de regimento. Horários. E mais horários. E eu estive em três. O pior era a convivência com os moribundos e as moribundas. Deprimente. Os tipos iam buscar os velhos às camas e espetavam com eles num buraco a que chamavam sala do convívio. Qual convívio? Convívio nenhum! Velhotes com os olhos fechados e outros que estavam nas últimas. Ah... e havia um animador que se punha a contar de um até ao número dez. Quando a gente pensava que o tipo ia fechar a goela, desatava a dizer a numeração em forma decrescente. Ele fazia coisas incríveis! Mandava pôr a mão para cima, para trás, para os lados. Eu sei lá. O último lar era muito mau. Tinha lá uma mulata que era cleptomaníaca. Roubou uma velha muito afanada e eu também fui roubado.

O Luiz é que não está nada afanado...

Eu não estou afanado? A miúda deve estar a brincar! Eu não estou nada bem. Tenho muitas doenças, talvez umas vinte e três. Agora tenho uma m. chamada incontinência. Para um gajo é muito mau andar de fraldas. Mas a vista é a pior das mazelas.

Se fosse menos teimoso já tinha sido operado.

Não conte com isso! Tenho medo. E não é da anestesia. Medo das consequências. A merda da operação pode provocar um acidente cardiovascular e já viu o que era? Dizem que é coisa muito simples, mas isso são conversas. Nessa eu não caio!

Voltar a ler não é um estímulo?

Oh miúda, eu já li muito. Nem queira saber o que eu já li. Agora é a minha filha que me lê os artigos de jornais e algum livro que eu queira ler. Ocupo o raio do tempo a ver a RTP Memória. Estou a ver coisas que nunca tinha visto. Como por exemplo, o Júlio Isidro, o Zip-Zip. Gosto de ver velhadas. Entretenho-me com o humor fabuloso do Vasco Santana, do António Silva. O Solnado é uma merda. Uma invenção. Um disparate. O Herman José é diferente. Basta ser de origem alemã para saber o que está a fazer .

O melhor aluno do Liceu Camões gosta de velhadas...

Não me faça rir. Mas fui o melhor daquela malta toda. Entrei em 1936 e fiquei lá oito anos. Sentava-me sempre na carteira da frente, porque os meus olhos já eram dois sacanas. O avô desse tipo chamado Eduardo Prado Coelho foi meu professor. Nós cagávamo-nos no gajo.

Quem eram os seus colegas?

Lembro-me do José Manuel Serra, que foi director do Teatro Nacional de São Carlos, Lobo Saias, que chegou a ministro, e outros.

Os liceus não eram mistos, portanto, miúdas não eram peras doces...

Imagine que nem podíamos chegar ao pé de uma escola feminina. Quando chegou a altura da universidade, o convívio não foi fácil. Não estávamos habituados. Pedir um lápis emprestado era cá uma trabalheira. Só para não haver contacto, deixávamos cair o raio do lápis ao chão.

Entretanto, os contactos melhoram... esteve preso no Limoeiro devido a aventuras amorosas.

Prenderam-me por razões políticas e por ter desflorado umas garotas que eram menores. Mas atenção: eu também era menor! Uma ocasião foram duas irmãs ao mesmo tempo. Foi cá uma chatice... Antigamente, rapazes e raparigas faziam o que hoje fazem, mas com a diferença: não tinham o à-vontade que existe hoje. A pílula foi a estrondosa revolução. Ouvir dizer que, até, os homens já podem tomar essa m. Eu nunca tomei. E sou contra o aborto. Hoje em dia as garotas têm muitas facilidades...!

Um rol de contraceptivos e a pílula do dia seguinte

O que é isso? O comprimido do dia a seguir à cegada?

Sim. É contra o aborto e a favor da despenalização?

É claro! Prender moças é um autêntico disparate. Mas há malta que diz que aborta porque rejeita ter filhos indesejados. Ouça cá uma coisa: uma rapariga que se deita com um rapaz sabe do risco. E há outra malta que diz que não consegue criar filhos. Mentira. É só conversa. Eu sem cheta, desempregado, tenho oito filhos. Uma vez, fui deixar um filho à Casa Pia. Se os ‘gansos’ eram bem tratados? Coitados. Aquilo era uma miséria.

Voltando à prisão. Como era no Limoeiro?

Uma prisão para os gajos que esperavam julgamento. Havia batota que não era a feijões, mas a dinheiro. Estava lá um enfermeiro tarado que vendia penicilina misturada com água. O refeitório era umas mesas corridas e havia um tipo que distribuía a comida. Os acordos davam direito ao prato ficar mais cheio. Naquela merda havia estratos sociais. A Sala dos Menores, a Sala dos Primários, para os estreantes, a Sala Comum, que era para a maralha, e a Sala dos Bacanos, onde estavam aqueles que tinham conhecimentos fora da prisão. Como eu. Da segunda vez que estive dentro, o Artur Ramos telefonou ao pai, que era director-geral da Penitenciária e pôs-me cá fora.

Um homem que nunca gostou de regras nasceu no seio de uma família de militares...

Não venha com as perguntas feitas de casa. O meu avô materno era capitão-de-mar-guerra, engenheiro maquinista, e o meu avô paterno, coronel da artilharia, dirigiu o Arquivo histórico-militar. Eram militares, mas pareciam ser outras pessoas. Tinham boa cara. O pai do meu pai, aquando da primeira incursão monárquica, comandada pelo Paiva Couceiro, foi a Chaves dar umas bombadas nos canhões e teve de fugir. O meu pai estava a tirar o curso na Faculdade de Letras para ser diplomata, mas como aconteceu a Primeira Grande Guerra, a diplomacia foi para o galheiro. Não acabou o curso. Nem eu.

Por razões diferentes?

Sim. Os professores na Faculdade de Letras eram uns chatos. Excepto o Vitorino Nemésio (que me deu 18 valores) e o Delfim Santos. Nunca engraxei o Nemésio, eu não era igual ao Urbano e ao David. Mas espere aí, deixe-me falar do ano que antecedeu a faculdade. Em 1943, quando acabei o liceu, o meu pai disse que não tinha dinheiro para eu estudar na Faculdade. Falou com o professor João de Brito, que me deixou assistir às aulas. Eu era um aluno fantasma. Não me perguntavam nada, o que era maravilhoso. Nos intervalos ia para a biblioteca. Devorei Gil Vicente, Garcia de Resende, Fernão Lopes e outros. Por essa altura comecei a dar explicações. Portanto, aprendia e ensinava. Foi um ano em cheio! No final, fiquei muitíssimo bem classificado no exame de admissão à Faculdade de Letras de Lisboa, no Curso de Filologia Romântica, e consegui ficar isento das propinas.

Saiu da faculdade e, em 1946, foi admitido como agente fiscal da Inspecção de Espectáculos.

Aquilo era uma treta. Não inspeccionávamos nada.

Quando é que funda a editora Contraponto?

A editora começou a funcionar em 1951, logo depois do primeiro número da revista. Nasceu no ensaio de uma terceira via e só tinha um critério: os gajos do Estado Novo não podiam entrar. Vivia um bocado à mercê do facto de eu e o Jaime Salazar sermos amigos. Quando foi publicado o ‘Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano’, de Mário Cesariny, o Jaime ficou f. Pensava que a editora era só para ele. Mais tarde, o mesmo aconteceu com Cesariny, quando Herberto apareceu. Razão tinha o Gaspar Simões em chamar- -me ‘O sacristão do Surrealismo’, por publicar aquela gajada. Não faz muito tempo, vendi a editora à irmã do Manuel Alegre por um preço de m..

Era amigo de Cesariny?

Essa pergunta traz água no bico. Dizem que nós éramos amantes. Um disparate. O gajo não fazia o meu género. Eu nunca tive a mania de Paris. Ele tinha.

A sua colaboração nos jornais começou no ‘O Globo’, em 1945, e ainda há dez anos escrevia na imprensa

O Nicolau Santos, que na altura era director do jornal ‘O Público’, convidou-me para escrever uma crónica. Os gajos até pagavam bem. Mas tiveram o azar de anunciar Luiz Pacheco escritor polemista. Dava-lhes jeito que eu desse porrada. Mas durante meses não lhes fiz a vontade. Podem contar comigo para dar porrada, mas jamais por incumbência.

É verdade que, uma vez, enquanto traduzia um livro, esteve quase para ser publicado um palavrão?

Publicado não digo, mas aquilo fez-me correr. Eu estava a traduzir um livro para crianças e havia uma palavra cujo significado em Português eu não encontrava. Para não me esquecer escrevi a vermelho c. Quando me lembrei... falei à editora, que me disse que o livro já estava nas mãos do revisor. Corri para a casa do gajo. E lá estava o c. marcado a vermelho, mas fui a tempo. O c. foi substituído por penacho.

É autor de muitos livros, mas nunca escreveu romances.

Porque é preciso ter disciplina. Mas não é como escritor que posso ser importante. Se me perguntarem da minha importância é como editor. Editei muitos livros que eram muito baratos. Tinha bons autores, Raul Leal, Natália Correia, António Maria Lisboa, Herberto Hélder, Vergílio Ferreira, Mário Cesariny. Jamais editaria, por exemplo, o Fernando Namora. Ele era um aldrabão. Ou o José Agualusa, que não escreve nada. É um pateta alegre.

O que é preciso para escrever bem?

Ler muita coisa. Estar atento. E há gajos que escrevem sem nunca terem lido uma frase.

Gosta da escrita de António Lobo Antunes?

Muito. Gosto quando ele fala do bairro onde nasceu, Benfica. Tem muitas qualidades e anos de escrita. Mas é um bocado apanhado da pinha. Também tem a maluqueira de dizer que não consegue viver sem escrever. E tem razão. Ele é o escritor mais internacional de Portugal.

E José Saramago?

Também, embora de maneira diferente. Mereceu o Nobel. Saramago e o Lobo Antunes têm uma coisa em comum: são escritores que já só escrevem para o estrangeiro.

O que nos diz dos políticos?

São uns m. Comparados com eles próprios. Aquela que foi ministra das Finanças era uma tipa séria, mas era cá um camafeu.

Gosta do José Sócrates?

Quem é? Não o conheço.

Mas gosta de Pedro Santana Lopes?

É um ‘bom vivan’. Não deixou obra nenhuma, mas sabe viver. Andava nas discotecas e estes gajos – o pequeno, o gajo que é quase anão – fez-lhe a folha. O Santana é um senhor. Gosta das noites. E bebe o seu copinho. Eu deixei de beber há uma semana. Ao almoço bebia vinho – tinto, pois está claro. Quando se fala em vinho fala-se em tinto.

João Soares, quando era presidente da Câmara Municipal de Lisboa, fez-lhe uma visita e trouxe-lhe umas garrafas de tinto.

E que belo tintol! Apareceu no Natal, com um funcionário. Trouxe-me vinho, um belo presunto e livros. Vinha com a ideia maluca de eu fazer um artigo sobre o governador do Costa do Castelo.

O País reconhece as pessoas?

Não podemos falar de um só País. De Lisboa ao Porto existem dois países ou, talvez, existam quatro países em Portugal. Por exemplo, o Mário Soares, quando era Presidente da República, deu-me 650 contos. Uma vez, no Chiado pedi-lhe 20 paus emprestados. E ele deu-mos. Este presidente, o actual, que tem aquela cara, não me deu nada.

Vive de alguma pensão?

Tenho um subsídio de 120 contos, graças ao Alçada Batista. E também ao Balsemão, que teve a feliz ideia de inventar o decreto do mérito cultural. O Santana despachou um decreto que favorece pessoas que estão na minha situação. Mas não é por isso que gosto do rapaz. O tipo sabe o que é bom. O que é bom para mim são umas garotas, que vêm cá de manhã para me fazerem a higiene. Não é mau.

QUESTIONÁRIO

Um País... Montijo

Uma pessoa... D. Afonso Henriques

Um livro... ‘Gustavo, o Estroina’, de Paulo Koque

Uma música... ‘Variações’ de Golberg

Um lema... Não me lixem. Não me chatem

Um clube... Clube Jardinense, o clube do Montijo
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in Correio da Manhã 2007.04.06
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Foto Bruno Colaço - Luiz Pacheco
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Segunda-feira, 7 Janeiro


- Nelito Silva
Grande homem.. Até sempre Luiz!

Domingo, 15 Abril


- Pedro Montanha
Acima do normal dos portugueses,muito acima. Boa entrevista.

- Joaquim Marques (Braga)
Um dos mais belos e deliciosos textos que já li foi a "comunidade" de Luiz Pacheco. Recomendo, é uma pérola. Luiz Pacheco é um intelectual único e insubstituível. Muitos anos de ideias completamente desalinhadas, é o que lhe desejo.

Sabado, 14 Abril


- Anna_Canada
Já há muito tempo que não lia uma entrevista tão interessante num jornal Portugues. A este senhor com uma sabedoria impressionante que poderia dar aulas a alguns que para ai andam, que falam muito mas não dizem nada de jeito. Adorei ler este artigo de mente aberta e sem papas na "mente".

- I. Magalhaes
Excelente entrevista.Faltam mais PORTUGUESES assim!

- dores costa
Gosto desta gente sem "PAPAS NA LINGUA". Este ja nao tem nada a perder, pode dizer exactamente o que pensa. Que pena nao ser mais novo e poder "fazer politica". Sabe falar como o povo.

Segunda-feira, 9 Abril


- francisco lopes
GRANDE PACHECO! GRANDE PENSADOR! GRANDE!

- Joana Mendes de Almeida
Grande Luiz Pacheco! Sem papas na lingua! Gostei especialmente do "esvaziamento" do Solnado, o maior bluff da comédia portuguesa, e da reposição da verdade, evocando o esquecido e genuino valor do nosso Herman José! Bravo pela fantástica entrevista !

- Mano Belmonte
LUIZ PACHECO, UM DOS MELHORES PORTUGUESES DE SEMPRE!