Mostrar mensagens com a etiqueta Raquel Varela. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Raquel Varela. Mostrar todas as mensagens

sábado, 18 de julho de 2026

Raquel Varela - [Ensino, exames e pedagogia]

* Raquel Varela

Sabem o que ensinam os professores antes de um exame? Leiam atentamente as perguntas todas antes de começar a responder a cada uma delas, no fim revejam o exame todo, se há uma questão difícil passa para a próxima, e volta a esta mais tarde. Verifica os erros ortográficos. Dorme e come bem antes do exame. Quando sair a nota fazemos a correcção colectiva, na aula, e em cada exame está a correcção individual, se tens dúvidas vem falar comigo no final da aula e ficamos a ver juntos o exame e, ao teu lado, demonstro o que está mal, bem, o que podia ser melhor. 

quinta-feira, 16 de julho de 2026

Raquel Varela - [O que não deve ser a Escola]

*  Raquel Varela
 
 ·
Ontem fiquei a saber que uma professora de geografia fez sucesso ao dizer que adora classificar intens, resolvi ir ver o exame de geografia. Não ouvi a professora, confesso, estava a caminho de Ponte Sor, numa automotora que acompanha o Tejo, atravessa montados, e onde toda a gente se trata por tu, do maquinista à senhora que trabalha numa fábrica no Carregado, do revisor, que com ternura dá águas quando o ar condicionado pifa, ao agrónomo que ia me falando dos cavalos, dos javalis e , claro, dos jovens maquinistas em formação, em visita de estudo, que me dedicaram o seu sorrido, conversa e um deles até me mostrou a foto das bochechas de porco preto que comeu com a avó. Devolvi contando das grandes greves dos heróis ferroviários no século XIX. Não há calor que me tire de um comboio, o transporte mais belo do mundo. Se é uma automotora a 100 à hora, o dia foi perfeito. Walter Benjamin, filósofo, disse um dia que a revolução não é o comboio da história, é o travão de emergência. Eu, ali, na automotora a caminho de uma formação de professores, levava no colo Vigotsky, o mais importante psicólogo que explica no fundo como aprendemos e desenvolvemos o cérebro. 

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Raquel Varela - 100º aniversário do 28 de Maio de 1926

 * Raquel Varela

Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926? Como este dia, que deu início à mais longa ditadura da Europa, nos ensina a olhar o regime hoje?

Portugal teve desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro, espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente fascista.

A incapacidade de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o Parlamento – a Ditadura Militar.

Entre 1926 e 1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital, baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado, não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.

O pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.

Se a República teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a “instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social” operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa.

O golpe de 28 de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim, resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via para a ditadura que se segue.

Como lembra César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da contrarrevolução.

Contexto internacional da Ditadura Militar

Não se pode compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois de 1927.

Gramsci sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de crise orgânica do capitalismo.

Primo de Rivera liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e envolver estivadores, transportes, etc.

À semelhança de outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia “democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado – organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.

É bonapartista a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será proibida em 1935.

Após o golpe de Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário de seis para quatro anos.

Em 1928, promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses “públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A 27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira “política de austeridade” no país.

Qual regime?

Mas afinal o que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado, de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde 1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.

Não houve resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926. Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.

A repressão durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção. Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos monárquicos”.

A República decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara, para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário – os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.

Raquel Varela e Roberto Della Santa trecho da nossa Breve História de Portugal (Bertrand). Todas as referências estão no livro

 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Raquel Varela - {Entre Saramago e Mário de Carvalho}

 * Raquel Varela
 ·
Esqueci-me de dizer algo muito importante. O "Ministro da Educação" do Estado português (certamente não de quem trabalha em Portugal e tem os seus filhos na escola) disse esta coisa insólita, que junta na mesma receita Trump e Estaline, cito de cor, a alternativa a Saramago "também do Partido Comunista" Mário de Carvalho". Talvez tenha sido a IA, de que o Ministro é fervoroso adepto,  a formular tamanha barbaridade. Primeiro, comparar Saramago com Mário de Carvalho é um absurdo, não vou explicar, não é preciso, Mário de Carvalho é um grande escritor, Saramago reinventou a língua e com isso o mundo. Mas há mais, e muito pior. Essa comparação surge porque são apoiantes do PCP. Nem Saramago foi propriamente um escritor do PC, nem Mário de Carvalho pode-se reduzir a tal (embora em ambos haja algo como um sistema cultural de resistência à ditadura que criou um intelectual colectivo em que o PC teve um papel essencial). O incrível é isto - que o Ministro da "educação", sim, da educação, diz que um escritor pode ser substituído por outro...do PC. 

Como não recordar a proibição de livros ordenada por Estaline ou o movimento MAGA de Trump que já cancelou dezenas de clássicos nas escolas norte-americanas? Enfim, como dizer isto a um Ministro, vou soletrar: a arte é o campo da liberdade, li-ber-da-de. Não tem partido, embora possa ser política. O que fazer com Céline, Borges ou Vargas Llosa?, grandes escritores de direita que nos ofertaram a arte em vida? Como ouvir este ruído, este zinco a bater em ferro, que é um Ministro afirmar que há escolhas em literatura no programa...que são também partidárias?

2026 04 07

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Raquel Varela e a inteligência artificial

* Raquel Varela
 
 ·
Ouvi o vídeo do pequeno Rodrigo de 9 anos a conversar com o técnico de emergência médica do INEM para salvarem a mãe, em paragem cardíaca numa estrada. Ao mesmo tempo leio que Ventura colocou chuva fingida no vídeo em que carregava águas para as pessoas afectadas pela tempestade. E leio no Público a notícia de que 85% dos estudantes entre os 9 e os 17 anos usam IA Generativa e no destaque diz  - usam para "trabalhos escolares" e 1/4 para "apoio emocional e pessoal". Está tudo ligado.

Em primeiro lugar, o pequeno Rodrigo adquiriu conhecimentos. Ele conhece. Sem máquinas, sabe dizer onde está, o nome do lugar, explicar o que a mãe tem, cuidar dos irmãos, controlo da própria conduta (a educação é isso). O técnico do INEM é um ser humano integral, consegue não só accionar os meios, como percebe cada um dos perigos à espreita, que os irmãos bebés acordem, saiam do carro ou que o Rodrigo quando diz ouvir o ti-no-nin se lance na estrada e seja atropelado. E tudo pago por nós, cada um de nós sente que deu um pouco, como sociedade, não sabemos quem é aquela mãe, mas temos um sistema público de emergência para acudi-la, para acudir a todos nós. É tudo perfeito nesta história, que já me deixou feliz para o resto do dia. Margaret Thatcher quando chegou ao poder disse "não existe essa coisa de sociedade". Nós dizemos, com o Rodrigo e o trabalho do INEM, isto é uma sociedade.

Em contraste com o Rodrigo, todos os estudos, repito todos, incluindo das agências que fomentam o uso de tecnologia em crianças e jovens, dizem que nós, seres humanos, perdemos capacidades intelectuais, conhecimento, com o uso de IA, telemóveis, etc. A tecnologia está a fazer-nos regredir nas funções psíquicas superiores (as que nos fazem humanos, como a interpretação, raciocínio, concentração). Nos jovens é devastador porque nunca conheceram outra coisa. No entanto, um jornal como o Público destaca na gorda que o tal estudo diz que eles fazem "trabalhos de casa" na IA. Ora estudantes que o usam IA não fazem trabalhos de casa, fazem cábulas, mentem, copiam, ganham preguiça, perdem tempo de aprendizagem, plagiam em massa direitos autorais. Não aprendem, operam. Não conhecem, aplicam. Não compreendem, executam. 

E o que dizer da sensibilidade relacional, amorosa, estética de um estudante que "pede apoio" emocional a um robot?  Não há manicómios suficientes para a loucura que aí vem! 

Na aparência (fazem trabalhos de casa), na essência operam uma máquina, não fizeram nada porque trabalhos de casa pressupõe apropriação para si do conhecimento (fazer por si, ousar saber por si, isso é o conhecimento). 

Ora, qual o problema de Ventura fingir que está à chuva quando não choveu, se se pode chamar "trabalhos de casa" ao uso de IA? E "apoio emocional", que não inclui qualquer apoio, seres humanos, mas apenas uma resposta de um robot baseada em estatística de recombinação de palavras? Desde quando há apoio emocional e pessoal - características humanas - na resposta estatística de um robot? 
Sim, toda esta distopia desumanizadora que vivemos só é possível pela conivência e apoio de milhares de trabalhadores  nas esferas intelectuais (jornalismo, investigadores e professores) dispostos a abdicar da crítica. 

O grande objectivo da IA é acabar com o conhecimento. E com as relações humanas, com a confiança e a felicidade. É fazer com que o Rodrigo não saiba nada e talvez possa salvar a mãe carregando num botão. Todos os botões falharam em Leiria e em Vieira, no Apagão e em Pedrogão, nem sequer um carro se podia carregar ou sair da garagem. Mas, muito mais importante , é a epidemia de doença mental que este mundo tecnológico trouxe. De crianças, jovens e adultos todos num gigante hospital psiquiátrico em que se tornou o mundo. O Rodrigo é um ser humano, que aprendeu a falar, não a mandar mensagens a um robot, mas com muitas relações densas, aulas, e aprendeu a falar com carinho, que usou com o técnico do INEM - e este com uma doçura inexcedível com ele - o Rodrigo aprendeu a dizer onde está, sem ter GPS, o Rodrigo aprendeu a baixar a voz e dizer ao mano bebé, com ternura, que vai ficar tudo bem. O Rodrigo, com 9 anos, demonstrou-se, ele sim, um apoio emocional para o mundo, um mundo que é um manicómio, onde estamos a ser mortos dia a dia pela tecnologia, ou seja, pelo lucro de Musk e outros, ue financiam partidos amigos do Chega, a guerra e querem que a escola seja um lugar onde os alunos aprendem apenas a operar máquinas.

2026 02 11
https://www.facebook.com/raquelvarelahistoriadora

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Mistificações em torno do 25 de Novembro

 
* Ana Sousa

 ·
Da responsabilidade do esquerdismo no 25 de Abril não se fala. Não se fala de um Otelo que abandonou os seus e foi para casa. Não se fala das mistificações de Vasco Lourenço a tentar retocar a sua imagem para a posteridade . Não se fala do ElP , do MDLP e de um Carlucci maestro e financiador da contra revolução a mando do Império . 

Os ditos historiadores que participaram nos acontecimentos fazem a história pelas lunetas da sua facção, como é o caso de um Rosas ou de um  Pacheco Pereira  , no Público , no seu mal disfarçado anti comunismo , diz-nos que por alturas do 25 de Novembro eram as forças esquerdistas que dominavam as ruas de Lisboa..Coitado, nenhum oftalmologista  o consegue curar

...Até descobriu um inexistente discurso secreto de Álvaro  Cunhal que  certamente lhe terá sido dado por Zita Seabra que o terá descoberto numa das suas peregrinações ao Santuário de Fátima .

Dos mais recentes não posso deixar de citar o livro da brilhante estúpida Varela que no seu militantismo trotsquista avant lá lettre ainda não percebeu o que é a relação de forças ou a correlação de forças. Valha-nos Deus e a Santíssima Trindade 


26 Novembro 2025 
https://www.facebook.com/ 

domingo, 23 de novembro de 2025

Raquel Varela - Do 25 de Novembro aos Nossos Dias


ª Raquel Varela
 
 ·
A história é aquilo que dói, disse Frederic Jameson. Não cabe nem no entusiasmo dos saudosistas do Estado Novo, como o Chega, nem nas celebrações de Estado pilotados pelo PS e pela Associação 25 de Abril. A história do 25 de Novembro não cabe na disputa entre o PS e o Chega, há muito mais mundo lá fora. A história é uma ciência, com teorias, métodos e crítica de fontes, não é uma argamassa de memórias, usadas pelo presente para atirar aos adversários do momento. 
O golpe para acabar com a revolução, com o PREC, e retirar poder aos trabalhadores devia "parecer" um golpe de esquerda - explicaram então os seus autores; quem fez o golpe de direita (Soares, Grupo dos 9, Eanes) disse então que era para "salvar o socialismo" - estou a citar; a extrema direita que agora celebra o 25 de Novembro, estava ostracizada, barricada dentro da Igreja Católica e em Madrid, a preparar ataques terroristas com mortos, foi irrelevante em operações no 25 de Novembro, mas foi essencial na mobilização dos retornados e dos camponeses.

Cunhal e a direcção do PCP têm uma posição muito distinta da base do Partido, defendem mesmo na altura (depois de 1989 mudam de análise, mudam aliás 3 vezes) que o 25 de Novembro era uma forma também de acabar com a esquerda militar e com os revolucionários "aventureiros". Não por acaso António Filipe disse agora no debate das eleições que o PCP foi um dos vencedores do 25 de Novembro (ouviu quem quis). Tal como nós estudámos a documentação do PCP sobre o 25 de Novembro, António Filipe sabe que o PCP foi o Partido moderado de então, e que teve um papel, contra a sua base, na decapitação da esquerda militar, como o PCP face à esquerda revolucionária na Catalunha em 1937. A obediência a Ialta era maior do que aos trabalhadores. E que isso levou sectores importante do Partido, entre eles Saramago, a questionar a direcção.

Antes do páras saírem somam-se atentados de direita e mesmo a mobilização de armas para a guerra civil, quer pela direcção do PS quer por organizações como a CAP (Confederação da Agricultura Portuguesa), que se barricam horas antes. A CAP que se preparar para celebrar esse dia, com orgulho e não escondendo o que fez, armar-se para defender os latifúndios. Doa a quem doer. 

O 25 de Novembro não foi um golpe pacifico contra a revolução, uma "contenção" democrática como refere o historiador Fernando Rosas, apoiando a visão do PS e mesmo da direcção do PCP de então. Foi um golpe violento contra a revolução que implicou centenas de prisões de oficiais que ficaram sem quaisquer direitos durante meses, sem poder sequer ver as famílias, e seguiram-se, nas horas seguintes, a supressão da democracia e milhares de despedimentos, a começar, logo e principalmente, nos media públicos, afastando o jornalismo auto-organizado nas redacções, um saneamento generalizado de esquerda nas redacções e nos quartéis - dominar as armas e a comunicação era o objectivo da burguesia, que através do PS, recuperava o controlo sobre o aparelho de Estado e mediático. 

As conquistas de Abril não se perderam agora,  quase todas terminaram até ao final dos anos 1980, quando o Estado Social foi substituído pelo Estado assistencial - fim da gestão democrática nas escolas, 1976, fim do poder das comissões de trabalhadores, 1979, fim da gestão democrática dos hospitais, 1982 e por aí fora, até à entrega das empresas capitalizadas como a Banca, comunicações e transportes a accionistas privados, regressados de Copacabana, num negócio financeiro que ruiu em 2008. E cuja resposta foi a venda de solos do país para salvar os banqueiros salvos em 2008 - há um fio condutor de 25 de Novembro de 1975 até aos dias de hoje.

Logo apresentamos o nosso livro "", com apresentação do Mário Tomé e do Ricardo Cabral Fernandes. Não é a bíblia sobre o 25 de Novembro, porque não acreditamos em bíblias. Mas em debate cientifico, feito de diálogo entre conceitos e evidências, e que certamente gerará controvérsias, dúvidas e questões por resolver. Isso é a história. O que certamente não é, o nosso livro, é a história das "comemorações oficiais", que em grande medida será feita na Gulbenkian num congresso de afirmação da visão do PS sobre o 25 de Novembro, e que hoje é, paradoxalmente, a prova mais evidente do papel do PS então - tentaram ficar longe da direita contra a revolução e acabaram engolidos pela direita, porque só ao lado da revolução poderiam ter evitado chegar aqui, serem o side-car de um governo de extrema direita que criminaliza imigrantes para baixar o preço do seu salário. 

2025 11 21

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~
Joaquim Moedas Duarte
Gosto de ler as suas análises, são um exemplo de como é fácil manipular a História. Basta pormo-nos num lado da barricada e ver tudo com uns binóculos a partir dessa trincheira. Análises que vêm sempre acompanhadas de referências à cientificidade da História, para que o bom povo perceba que, baseadas em muitos estudos e leitura crítica das fontes, estas análises é que desvendam a verdade histórica.

O problema é que a História se ri das ilusões científicas, quando apresentadas como A VERDADE! 

O bom Historiador é humilde, põe hipóteses, não faz juízos de valor. Tem consciência de que a História, quanto mais contemporânea, mais amálgama de histórias ela é. O caso do 25 de Novembro de 1975 é um exemplo disso.

Por isso a historiadora Irene F. Pimentel fala do "efeito Rashomon" quando analisa o 25 de Novembro no seu livro "Do 25 de Abril de 1974 ao 25 de Novembro de 1975". O "efeito Rashomon" refere-se a situações onde diferentes pessoas têm percepções e interpretações contraditórias e opostas sobre o mesmo acontecimento, o que impossibilita a definição de uma VERDADE OBJECTIVA sobre ele. O que há são versões da verdade.

Para descrever um cubo é preciso observá-lo sob todos os ângulos, de modo a analisar as suas seis faces.

Irene Pimentel conclui "As opiniões sobre o que se passou em 25 de novembro de 1975 dividem-se consoante o lugar no espectro político em que são expressos":

Nessa perspectiva, ela limita-se a descrever as diferentes interpretações dos que estiveram envolvidos nas movimentações militares e políticas do 25 de Novembro. Não toma partido, .

Quando se toma partido cai-se facilmente na caricatura histórica, como se vê nas "comemorações" do 25 de Novembro promovidas pela direita e pelos coisos fascistas.

Receio que a profª drª Raquel Varela esteja a cair no mesmo, embora com sinal contrário...

Oscar Manuel Carvalho
Oficial de Prevenção no dia. Quartel ligado à esquerda. Na porta de armas fui chamado para acalmar sindicalistas da cintura industrial que exigiam entrar: "nós estivemos na guerra, sabemos melhor que vocês o que há a fazer. Isto é um golpe fascista e o nosso partido mandou-nos para casa"

Carlos Pernes
Um reparo importante: não foram só oficiais, foram milhares de sargentos e praças, membros das coordenadoras do MFA, nas Unidades Militares dos 3 ramos das Forças Armadas. Os oficiais e sargentos do quadro muitos foram detidos e suspensos, os oficiais, sargentos e praças milicianos foram expulsos liminarmente. Foram abertos inquéritos aos militares expulsos para denunciarem outros militares que não inspiravam confiança aos golpistas; uma autêntica caça às bruxas ponto

Margarida Varela
Espero pelo seu livro.Eu vivi-quase chorei-o 25 de Novembro.Estou farta de ouvir teses sobre o que aconteceu.Fico contente por a Raquel,que é historiadora,reponha a verdade.Obrigada

Madalena Marques
Importante este post para se saber a verdade!Mesmo que a direita e alguma esquerda venham oferecer outro ponto de vista.Claro que houve muitos jogadores nisto!

Armando Pinho
Vamos ser claros Raquel Varela queria e ainda quer que Portugal fosse a Cuba da Europa!.....aproveita as viagens low cost e vai para lá....se gostas tanto!

Joao Inacio
Concordo com a Raquel sabendo que o comitê central e seus dirigentes na altura o que fizeram foi evitar uma ameaça de guerra civil.

Deixo aqui o discurso de Álvaro Cunhal de agosto de 1975 .

Deixo também este enxerto que ilucida bem as ameaças que havia na altura.

É uma crise política, com uma vasta e aberta ofensiva terrorista da contra-revolução, com contradições e conflitos internos nos órgãos do poder, com dissidências nas duas componentes essenciais do processo (no MFA e no movimento popular e democrático), com uma vasta e activa oposição ao processo revolucionário conduzida pelos dirigentes do PS, pelo PPD e pelo CDS, com um ambiente de conspiração podendo conduzir a choques armados.

https://www.pcp.pt/intervencao-de-alvaro-cunhal-na-reuniao-plenaria-do-comite-central-do-pcp

Vladimiro Mendes Inacio
Esta senhora vem agora nesta fase da luta fazer alusões ao PCP porquê. Faz-me lembrar o MRPP na altura do PREC com a mesma actuação. Quer ressuscitar o MRPP? Esse partideco, que se apresentava pretenciosamente como educador da classe operária morreu. A luta agora está noutro nível, os trabalhadores não precisam de mais confusão, precisam de unidade e acção contra o pacote laboral. Quer discutir o Marxismo Leninismo ou os eventos do 25 de Novembro no facebook? Tenha paciência e organize-se no seu local de trabalho e não venha agora com cantilenas discutíveis e insinuosas nesta difícil fase da luta contra o grande patronano que tem o apoio do governo e dos partidos de direita.

Victor Barroso Nogueira
A História não é Ciência, é uma interpretação de factos e acontecimentos com "descrições" que resultam do olhar e das lentes de quem os "lê" ou "treslê" e sobre eles se pronuncia. Nunca é bacteriologicamente "pura". A "verdade " histórica não é absoluta mas "tendencial". Quanto muito, uma confluência ou não entre linhas paralelas, divergentes ou convergentes !

segunda-feira, 1 de março de 2021

Raquel Varela - Jornalismo e desinformação

PELOS CAMINHOS DE PORTUGAL
por Raquel Varela   23 JAN, 2021

Este foi o ano em que todos os líderes mundiais alertaram para o grave “problema da desinformação”. Supostamente a sua origem seriam as redes sociais, que divulgariam notícias “falsas”. Não restam dúvidas que hoje há uma enorme circulação de propaganda duvidosa e notícias falsas. Não creio, porém, que o seu problema esteja, principalmente, nas redes sociais. O jornalismo está ele próprio – e com a pandemia adensou-se esta questão – numa encruzilhada. Ou há uma rutura com as práticas atuais como a precariedade e a ausência de trabalho em redação ou o seu declínio é ineludível. Vive-se no jornalismo o que chama uma crise total: crise dos proprietários, crise dos meios, crise dos jornalistas, crise de formação. A demonização das redes sociais não resolverá o problema.
.
Nas redes sociais não há tempo nem meios para se produzir pensamento e reflexão, mas são um excelente lugar de divulgação desse pensamento.
.
Desde logo nas redes sociais há de tudo – banalidades, vida pessoal, mentiras; mas também divulgadores científicos notáveis, trabalhos seríssimos de académicos, intelectuais e artistas com obras maravilhosas. É uma questão de escala -, tudo é grande: o mau, mas também o bom. Se o que tem má qualidade aumentou, o mesmo acontece com o que tem boa qualidade. Sublinho – as redes sociais não produzem trabalho sério, nem podem fazer. Nas redes sociais não há tempo nem meios para se produzir pensamento e reflexão, mas são um excelente lugar de divulgação desse pensamento.
.
O problema hoje não é tanto saber distinguir o certo do errado – esse é um problema geral de educação. O problema das redes é que elas são o inferno de excesso de informação – para se chegar a um belo artigo crítico sobre um determinado tema é preciso navegar, durante horas, por textos nem bons nem maus, selfies, memes, anúncios de férias e casas para alugar. Exige um tempo de que não dispomos.
.
É aí que volta a entrar o lugar que o jornalismo pode ter. Os jornais diários passaram a substituir, com frequência, reportagens e jornalismo por opinião – casa vez mais superficial. Talvez a solução esteja num retorno ao início. Em vez de fact-check a posteriori precisamos de fact-check a montante, que não é senão outro nome para o Jornalismo. Esperamos do jornalismo artigos de 1 ou 2 páginas, que condensam um trabalho de 2 ou 4 semanas de um profissional, culto, com capacidade de reflexão intelectual, que pensa e investiga, e escreve – sem medo, em diálogo com as melhores práticas, com redações sólidas experientes, trabalho cooperativo, e, evidentemente, com boas condições de trabalho.
.
https://regiaodecister.pt/opiniao/jornalismo-e-desinformacao

Raquel Varela - A Maria e o Padeiro

PELOS CAMINHOS DE PORTUGAL
por Raquel Varela  27 FEV,2021

A Maria, nome da minha crónica ficcional, trabalha em estética e é mãe de 3 filhos. A mais nova vive ainda com ela e com o companheiro, padeiro. Pagam 600 euros por dois quartos numa casa no distrito de Lisboa, “já com as despesas incluídas”. O sonho era alugar uma casa, “mas com as despesas um T2 ia chegar a 1000 euros”. Trabalha como esteticista num grande centro comercial, ganha o salário mínimo, 10 horas por dia, com uma 1 de almoço, e folga 1 vez por semana.
.
Começa no shopping ao meio dia e termina às 10 da noite, mas faz sempre umas horas extra num cabeleireiro de bairro de manhã onde entra às 9 da manhã – se contarmos a ida e vinda do trabalho são 15 horas por dia 6 dias por semana dedicadas ao trabalho, 84 horas por semana. O INE diz-nos que metade dos portugueses trabalham até 70 horas – não contam aqui o que fazem como biscate para conseguir pagar contas. Ambos os trabalhos de Maria foram encerrados, argumentando o Governo que isso diminuiria o contágio. Para ela não –  o companheiro é trabalhador essencial de um supermercado, a padaria, pelo que está sempre a trabalhar e em contacto diário com milhares de clientes num espaço fechado sem ventilação natural. A filha está no ensino secundário público e sonha ser arquiteta. Sonhava. Sair da reprodução social da pobreza, esse lugar onde filho de esteticista, esteticista será.
.
A Maria no primeiro confinamento em março recebeu 210 euros num mês, porque só conta o que foi descontado legalmente; em janeiro deste ano, depois do novo confinamento, foi avisada pela Segurança Social que receberia cerca de 110 euros, “eles acham que vivemos disto?”. A filha, depois de março, teve pela primeira vez negativas, duas, uma delas a geometria descritiva – não vai ter média para entrar na Universidade. A escola avaliou o período como “normal”. A Maria, que entrega 15 horas por dia ao trabalho, não pode pagar explicações privadas e está dependente ou do companheiro ou de trabalhar ilegalmente. O companheiro era padeiro numa pastelaria de uma zona nobre, onde aliás se servem os melhores croissants do bairro. Ganhava o ordenado mínimo, mais 20% que o patrão lhe pagava “por baixo da mesa”, foi assim 9 anos. Ele indignou-se com o corte, e saiu, “caramba um homem tem dignidade!” – empregou-se numa cadeia de supermercados, onde recebe o salário mínimo.
.
Nos EUA 75% dos americanos que não têm ensino superior nunca pararam de trabalhar, porque estão em trabalho essencial e industrial. Em Portugal mais de metade dos portugueses nunca parou de trabalhar. Quando a Maria for ao passeio marítimo apanhar sol alguém lhe vai gritar “criminosa!, vou chamar a polícia”.

https://regiaodecister.pt/opiniao/maria-e-o-padeiro?