Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 27 de junho de 2026
José Pacheco Pereira - Memórias da Biblioteca Pública Municipal do Porto
quinta-feira, 18 de junho de 2026
João Miguel Tavares - “Grande solidariedade”? Será que a PSP não aprende nada?
Bruno Pinto errou gravemente. A PSP errou horrivelmente. Luís Carrilho preferiu alimentar o mesmo corporativismo que desempenhou um papel trágico em toda esta história.
* João Miguel Tavares
18 de Junho de 2026
Chegou nesta semana ao fim o
julgamento do polícia que matou Odair Moniz. Bruno Pinto foi condenado a três
anos e meio de prisão por homicídio, com pena suspensa. O agente da PSP ficou
ainda obrigado a pagar uma indemnização à família de cerca de 90 mil euros — 30
mil pela perda do direito à vida, 20 mil euros para a viúva e outros 20 mil
para cada um dos dois filhos de Odair —, mais uma pensão de alimentos para a
sua filha menor, no valor de 220 euros mensais, até ela atingir os 18 anos.
sábado, 13 de junho de 2026
Inês Chaíça - Suíça vota em referendo medida sem precedentes: limitar a população a dez milhões
As sondagens
mostram que a medida está longe de ser consensual. Gera preocupação pela
possível falta de mão-de-obra estrangeira e pela perspectiva de um “Brexit à
suíça”, pondo fim a acordos com a UE.
Inês Chaíça
13 de Junho de
2026
A Suíça vai votar, este domingo, um referendo
que quer limitar o crescimento da população a dez milhões até 2050 e inscrever
esse objectivo na Constituição. O partido que está a apoiar esta iniciativa, o
Partido Popular Suíço (SVP), diz que é uma forma de lidar com a imigração
excessiva, de contornar a falta de oferta de habitação e de aliviar a
sobrecarga das infra-estruturas e dos transportes públicos. Mas há quem
antecipe outras dores de cabeça.
A proposta — a que o SVP chama “Iniciativa de Sustentabilidade”, quase como um eufemismo —
assenta no facto de a população na Suíça ter aumentado de forma exponencial
desde que foram assinados os acordos de livre circulação de pessoas e bens com
a União Europeia, em 2002.
quinta-feira, 11 de junho de 2026
João Miguel Tavares - O primeiro 10 de Junho de Seguro e os excessos de poesia
O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos.
* João Miguel
Tavares
11 de Junho de
2026
É um mal
antigo: a tradição retórica nacional é paupérrima, e ninguém seria capaz de
editar um livro com os grandes discursos da democracia portuguesa, porque eles
simplesmente não existem. A História da política americana está cheia de
discursos extraordinários, de Abraham Lincoln a Barack Obama; Winston Churchill
sustentou a resistência britânica nos anos da Blitz em cima da sua
oratória; Charles de Gaulle limpou a honra da França colaboracionista muito por
força da sua palavra; a voz de Václav Havel foi o esteio da recuperação
democrática dos países esmagados pelo comunismo soviético.
Em Portugal não
temos nada disso. As vozes de Mário Soares ou Álvaro Cunhal ficaram na História
mais pela força das suas intervenções televisivas, das entrevistas que deram e
dos livros que escreveram, do que por algum discurso particularmente arrebatador
que hoje faça parte da nossa memória colectiva. E quando nos pomos a ler os
discursos dos políticos portugueses do século XX, temo bem que os mais bem
escritos e retoricamente mais eficazes sejam os de António de Oliveira Salazar,
que é uma coisa chata de se dizer. Para compensar, Salazar tinha uma vozinha de
professor da Beira Alta enfadonho, muito nasalada, muito vagarosa, muito pouco
modelada, o que não fazia dele nem um Hitler nem um Mussolini.
Actualmente, os
nossos políticos utilizam um tom oficial nos seus discursos que os faz
cantarolar todos da mesma forma, e como nunca parecem ter nada de importante
para dizer ao país (mesmo quando têm), compensam a aparente falta de ideias com
doses cavalares de poesia, em particular quando se aproxima o 10 de Junho.
Pior: os autores citados são sempre tão óbvios que qualquer pessoa percebe que
os nossos políticos só são leitores de poesia na véspera de escreverem os seus
discursos, ou nem isso. Infelizmente, António José Seguro não escapou a esta
maldição poética na sua estreia como Presidente da República no Dia de
Portugal, que este ano se assinalou com uma cerimónia modesta em Angra do Heroísmo.
Esta carga poética cavalar, quase
sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os
nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do
Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa
Tivemos direito
a Camões, claro, e depois vieram, em ondas, Natália Correia (“Foi por línguas
de fogo que aprendi a falar”), Vergílio Ferreira (“Uma língua é o lugar de onde
se vê o mundo/ Da minha língua vê-se o mar”), Ruy Belo (“Um país aonde o puro
pássaro é possível”) e um poeta local, Emanuel Félix (“Somos herdeiros de uma
lembrança/ de tesouros afundados/ e arpoamos a esperança”). Esta carga poética
cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali
está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste
a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa que corta a
pertinência de qualquer ideia relevante que esteja a ser dita, e ainda mata de
tédio metade do auditório.
O problema
português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos
serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos. Há uma velha
piada de Hollywood, às vezes protagonizada por Richard Brooks, outras por John
Huston ou John Ford, com uma lição que supostamente teriam aprendido após a
visualização atenta de vários filmes pornográficos. A lição era esta: “Get
to the fucking point.” Os nossos políticos bem podiam aprendê-la, para
evitar que outros 10 de Junho terminem como este, nos vários canais de
televisão: “Foi o discurso do Presidente da República. Quanto a Marco Silva,
assina esta semana pelo Benfica. Seguimos em directo para o Seixal.”
domingo, 7 de junho de 2026
Jorge Wemans - As “coisas novas” da primeira encíclica de Leão XIV
As “coisas novas” da primeira
encíclica de Leão XIV
Este Papa não esperou que
amadurecesse o debate sobre o impacte da IA. Leão XIV arrisca a sua palavra
quando muitos outros responsáveis ainda nada disseram sobre as “coisas novas”
do nosso tempo.
Jorge Wemans
7 de Junho de 2026
É sobre “a sede de inovações que se apoderou das sociedades” esta encíclica. A
frase escreveu-a Leão XIII em 1895 a abrir a encíclica Rerum Novarum,
mas aplica-se por inteiro à Magnifica Humanitas de Leão XIV. Há 150 anos
a Revolução Industrial, hoje a Inteligência Artificial (IA). Tempos e questões
diferentes, uma mesma preocupação: que “temíveis conflitos” são criados e
alimentados por estas inovações, que humanidade edificam? O olhar do actual Papa
sobre os desafios do mundo de hoje leva-o a inovar em múltiplos aspectos, de
tal forma que esta sua encíclica difere de todas as anteriores dedicadas à
“questão social”.
sábado, 6 de junho de 2026
José Pacheco Pereira - Comer em tempos difíceis
No Dia Internacional dos Arquivos, um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.
* José Pacheco Pereira
6 de Junho de 2026
Ao dar-se o nome ao debate de que
vou falar, oscilou-se entre “comer em tempos em crise” e eu, para o lado
excessivo, preferia “comer em tempos de fome”. De que é que estou a falar? Dum
debate que vai ocorrer no Barreiro, no Dia Internacional dos Arquivos, 9 de
Junho, integrado num dia dominado por uma exposição com o título Gastronomia
na Cidade dos Arquivos, de responsabilidade, e muito mérito, de Nuno
Teixeira.
quinta-feira, 4 de junho de 2026
António Filipe - Anatomia de um golpe inconstitucional PSD/Chega/Aguiar Branco
* António Filipe
“Estamos perante uma golpada que torna muito claro que o regime democrático corre um perigo muito sério.
O partido Chega apresentou um projeto de revisão constitucional no dia 7 de maio. Como se sabe, nos termos da Constituição (artigo 285.º) apresentado um projeto de revisão constitucional, quaisquer outros terão de ser apresentados no prazo de 30 dias.
Segundo o Regimento da Assembleia da República (artigo 118.º, n.º 2), uma vez findo esse prazo, é constituída uma Comissão Eventual de Revisão Constitucional.
Daqui decorre inevitavelmente que, iniciado um processo de revisão constitucional por um qualquer grupo parlamentar ou deputado, só podem ser considerados nesse processo os projetos que sejam apresentados dentro do prazo de 30 dias. Se, por hipótese, nenhum outro projeto for apresentado, a Comissão Eventual será obrigatoriamente constituída e o projeto, se não for retirado, terá de ser apreciado para o processo seja concluído. Sem que se dê essa conclusão, nenhum outro projeto poderá ser admitido, dado que, obviamente, este regime constitucional impede o decurso de dois processos de revisão constitucional em simultâneo.
Este regime não foi estabelecido por acaso. Entenderam os constituintes que desencadeado um processo de revisão constitucional o país não poderia ficar demasiado tempo com uma espada pendente sobre a sua lei fundamental, pondo em causa a estabilidade constitucional necessária para a normalidade da vida política, económica e social.
Sucede que, questionado o presidente da Assembleia da República sobre qual o prazo relevante para o início da contagem do prazo de 30 dias, este emitiu um despacho, baseado num parecer que solicitou, segundo o qual, o prazo não começa a contar a partir da apresentação do projeto, mas apenas a contar da sua admissão pelo presidente.
Para além de ser discutível que o termo usado pela Constituição, “apresentado” possa ser interpretado como “admitido”, a questão assume outros contornos quando, como é o caso, o presidente da Assembleia da República decidiu protelar a “admissão” sem qualquer fundamento razoável, interferindo assim diretamente no processo de revisão constitucional.
Nos termos de um segundo despacho de Aguiar Branco, a admissibilidade do projeto de revisão constitucional do Chega suscitaria problemas quanto à sua admissibilidade pelo facto de não respeitar limites materiais de revisão constitucional. Isso é razoável, o que já não o é, é que o Presidente da Assembleia da República em vez de tomar uma decisão tenha solicitado um parecer, sem prazo, ao auditor jurídico da Assembleia da República que não tem qualquer competência legal para o efeito, suspendendo assim a admissão do projeto de revisão constitucional e consequentemente suspendendo sine die de forma inconstitucional o início do prazo para a apresentação de projetos de revisão constitucional, deixando o processo num “banho-maria” inconstitucional muito conveniente para o Chega e para o PSD.
O problema assume, entretanto, contornos mais graves com a apresentação de um requerimento conjunto do PSD e do Chega propondo que a contagem do prazo para a apresentação dos projetos de revisão só se iniciasse em dezembro e assumindo o Chega a possibilidade de alterar o projeto de revisão constitucional que já apresentou.
Perante tal requerimento manifestamente inconstitucional, a menos que o Chega retirasse o seu projeto, Aguiar Branco decide dar como adquirido que o projeto do Chega não é para levar a sério, retira o pedido de parecer ao auditor jurídico, e fica à espera que o Chega reformule o seu projeto de revisão para tomar uma decisão sobre a sua admissão e então aí estabelecer o prazo para a apresentação dos demais projetos.
Perante isto, não estamos perante uma simples trapalhada. Estamos perante o anúncio público e formal de que o PSD e o Chega pretendem levar a cabo uma revisão constitucional que pode fazer desabar traves-mestras do regime democrático, como estamos perante um procedimento que configura uma golpada inconstitucional tripartida que envolve o PSD, o Chega e Aguiar Branco.
Sintetizemos:
1.º Perante a apresentação de um projeto de revisão constitucional, o presidente da Assembleia tem de tomar uma decisão. Não pode fazer veto de gaveta a uma iniciativa apresentada e muito menos gerir o momento da admissibilidade por razões de conveniência política, tanto mais quando o decurso de um prazo resulta de um imperativo constitucional.
2.º O PSD e o Chega não podem pretender alterar um prazo constitucionalmente estabelecido por razões de conveniência política. Ou o Chega retira o projeto que apresentou ou tem de haver uma decisão sobre a sua admissão e o prazo de 30 dias para a apresentação de outros projetos tem de decorrer.
3.º O Presidente da Assembleia da República não pode deixar de assumir as suas obrigações constitucionais na base do pressuposto de que o Chega vai alterar o projeto que apresentou. O presidente da Assembleia da República tem a obrigação de tomar decisões sobre as iniciativas que tenham sido apresentadas, não pode tomar decisões baseadas em iniciativas hipotéticas. Se o Chega não retirar o projeto que apresentou, Aguiar Branco vai continuar a fingir que ele não existe?
4.º Estamos perante uma golpada que torna muito claro que o regime democrático corre um perigo muito sério. É bom que todos os democratas acionem os sinais de alarme.”
4 de Junho de 2026
https://www.publico.pt/2026/06/04/opiniao/opiniao/anatomia-golpe-inconstitucional-psdchegaaguiar-branco-2177107
domingo, 31 de maio de 2026
Ana Sá Lopes entrevista Carmen Garcia: “Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos”
Entrevista Podcast O que fazer quando tudo arde
Conversa com a
enfermeira e colunista do PÚBLICO Carmen Garcia sobre envelhecimento e de como
a sociedade trata os mais velhos: “Em Portugal, a entrada no lar é sinónimo da
saída da sociedade”.
* Ana Sá Lopes
31 de Maio de 2026
Contrariando os seus pseudónimos “mãe imperfeita” e “enfermeira imperfeita”, Carmen Garcia, colunista do PÚBLICO, é perfeita a falar daquilo a que tem dedicado a sua vida: cuidar de idosos. No seu sotaque doce e alentejano, diz tudo o que está errado nesta sociedade idadista, em que “todos queremos chegar a velhos, mas [em que] ninguém quer ser velho”. E aponta a patologia de uma sociedade animalizada, em que a vida de um humano perdeu o valor face à vida de um animal.
O que é que hoje suscita mais compaixão à maioria das pessoas? Um idoso abandonado num lar ou um cão abandonado num canil?
Um cão abandonado num canil. O cão, obviamente. Ainda bem que temos leis que protegem os animais, mas ainda mal que não temos leis que protegem os mais velhos, porque na verdade não temos. Temos agora um estatuto, mas eu olho para esse estatuto quase como um apanhado de boas vontades. O estatuto, por enquanto, ainda é só uma ideia. Mas entre um velho e um cão eu não tenho nenhuma dúvida que a esmagadora maioria das pessoas escolhe o cão.
Há uma desumanização em curso.
Há uma desumanização em curso e uma animalização. Acho que estamos já um bocadinho dentro do campo da patologia. Há aqui uma parte em que acho que isto já não é normal, nem saudável. Tenho uma gata que adoro. Mas a minha gata não é a minha filha — é a minha gata. Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos.
Há pouco tempo, numa discussão com uma colega, ela dizia que se houvesse um incêndio, não tinha dúvidas nenhumas, que entre uma pessoa que ela não conhecia de lado nenhum e o cão dela, ia tirar de lá o cão. Sou incapaz de compreender isto. Quer dizer, eu teria muita pena se acontecesse uma coisa destas à minha gata, mas, bolas, primeiro iria sempre tirar a pessoa.
Agora, isto piora muito se a pessoa, ainda por cima, for uma pessoa mais velha. Há uns anos, houve na minha cidade, Vendas Novas, no mesmo dia, à porta dos supermercados, duas campanhas. Uma era para angariar comida para os animais lá do canil e a outra tinha a ver com uma iniciativa para ajudar a população mais idosa. Foi uma coisa esmagadora, a diferença de adesão entre as duas coisas. A velhice não é sexy. A velhice é uma coisa que a gente arruma na gaveta, naquela gaveta que está fechadinha ao lado da nossa própria mortalidade.
Nós todos queremos viver muito e todos queremos chegar a velhos, mas ninguém quer ser velho. Vivemos presos nesta dualidade — queremos muito chegar lá, mas não queremos ser. Eu não sei se as pessoas ficam assustadas quando são confrontadas com a velhice dos outros, porque aquilo obriga-as a abrir a gaveta e a pensarem na sua.
Não somos uma sociedade que goste de velhos, e isso é notório para quem trabalha com estas pessoas todos os dias. E são pessoas que não têm voz. Apesar de tudo, os jovens têm alguma voz; apesar de tudo, enfim, alguns reformados que não sejam muito velhos também…
Os idosos que estão em lares não têm voz nenhuma. Até porque em Portugal a entrada no lar é quase sempre sinónimo da saída da sociedade. Eu às vezes tenho a sensação de que as portas dos lares de idosos só têm um sentido, que é o sentido da entrada.
A Carmen defende que os idosos devem ser cuidados em casa o máximo de tempo
possível. Porque é que o Estado não coloca isto como prioridade?
Não percebo. Há idosos que objectivamente não podem ficar em casa. Mas a maioria dos idosos em Portugal, cerca de 96%, quando questionados, dizem querer envelhecer na sua casa, na sua rede de vizinhança. É o “aging in place”. Há sempre aqui dois ministérios ao barulho, esse é outro problema, o Ministério da Segurança Social e o Ministério da Saúde. Nós vivemos muitos anos, mas não vivemos assim com tanta saúde. Portanto, começa a ser impossível dissociar o que é segurança social do que é saúde.
Estas coisas têm de caminhar juntas. Só que eu acho que há um problema nestes ministérios; que estas pessoas, no fundo, gostavam mesmo era de trabalhar na IKEA. Gostavam, porque eles gostam mesmo é de gerir camas. Gerir camas, gerir camas, camas, camas. Se as camas fossem um problema real, não é?
Acha que o Governo prefere gerir camas?
Tenho de acreditar nisso, porque nós estamos todos os dias a ouvir: “Há não sei quantos internamentos sociais nos hospitais portugueses que custam não sei quantos milhões por ano ao SNS.” E depois a solução é sempre: “Vamos tirá-los deste internamento para outro.” Vamos abrir mais camas em lares, vamos abrir residências assistidas, vamos criar vagas daqui e dali.
Camas, camas, camas. Em vez de pensarmos “o que é que eu posso fazer para que estas pessoas possam voltar para a sua casa”, que foi o sítio de onde elas vieram?
Por exemplo, esta ideia de pagarmos 1800 euros por cama às instituições. Se calhar, se pegarmos nesses 1800 euros e os entregarmos às famílias, muitas delas conseguem parar de trabalhar, por exemplo. Porque também é esse o problema, não é? Infelizmente, em Portugal temos um longo histórico de não confiar nas famílias. Portanto, a gente prefere entregar o dinheiro às instituições.
Até daria para pagar a um cuidador privado.
Isso é a outra solução que eu defendo, que é um bocado intermédia — a criação dos vouchers. Ou seja, os vouchers poderem ser usados, esses 1800 euros não serem entregues em dinheiro, mas poderem ser descontados em serviços que tivessem sido aprovados previamente, por exemplo, de apoio domiciliário. Um cuidador diurno no horário de trabalho, uma cama articulada, um colchão antiescaras, serviços de reabilitação, de fisioterapia… Portanto, haver um conjunto de serviços previamente aprovados. E, se calhar, não precisavam de ser esses 1800 euros. Se calhar, se o Estado entregasse às famílias 1000, 1500 euros, já ficava a poupar e as pessoas voltavam para o sítio onde elas querem estar e onde deveriam estar, que é a sua casa.
Se calhar, não resolvíamos 100% dos casos, mas resolveríamos muito mais de 50%, seguramente. Mas a gente gosta mais de camas, de criar vagas. Camas, vagas, camas, vagas. É terrível. IKEA, a mentalidade IKEA.
Se a Carmen tivesse poder executivo, quais seriam as suas três primeiras
prioridades?
A primeira era a promoção do Aging in Place. Não criava mais comissões. Ouvia
quem está no terreno. A minha primeira medida era: criar aqui uma política
nacional a sério de promoção do envelhecimento em casa, reforço daquilo que é o
serviço de apoio domiciliário. E reforçar a dotação financeira, reforçar estas
equipas, obrigar a que estas equipas tenham muito mais valências e garantir uma
rede de teleassistência. Trabalho numa coisa dessas, não quero falar em causa
própria.
Mas eu quero. Sei que está envolvida num projecto de Inteligência
Artificial. Explique como é que a IA se pode adaptar ao cuidado de pessoas mais
velhas.
Vou dizer o que é que nós fazemos no Alice, que é um acrónimo: Aging Longer Intelligent Care Environment. Por exemplo, a pessoa usa um relógio que é feito cá em Portugal, foi desenhado por nós. As funcionalidades foram desenhadas por mim. Aquele relógio, por exemplo, avisa a pessoa de que ela já está há muito tempo sem beber água. Avisa cada vez que a pessoa tem medicação para tomar. E a Inteligência Artificial aprende com os dados.
A pessoa anda com um sensor deste tipo, e aquilo, ao fim de duas semanas, já percebeu qual é o padrão de mobilidade da pessoa.
A pessoa tem um movimento qualquer que é incompatível com esse padrão. Ele dá alarme de uma queda. Sempre que a pessoa autoriza, nós damos o local onde a pessoa está e mais quatro coordenadas para trás.
Isto permite-nos o quê? Não só perceber onde é que a pessoa está, mas o trajecto que ela está a fazer. Há um tempo tivemos, por exemplo, um senhor que fugiu do sítio onde estava — ele não fugiu, tinha o portão aberto e saiu, na verdade. Era um senhor já demente. E percebeu-se logo, pelo movimento, que ele estava a ir em direcção ao monte onde tinha nascido e onde não vivia há 60 e tal anos.
O nosso call center tem enfermeiros 24 horas. Há um ponto em que a Inteligência Artificial não substitui o humano. Mas o interessante da Inteligência Artificial é isto: ela consegue ir aprendendo com a pessoa, vai-se alimentando dos dados e vai percebendo, acaba por ser muito mais seguro e muito mais personalizado.
Nós sabemos que aquela pessoa é alguém com um grande padrão de mobilidade. De repente, o relógio percebe que aquele padrão do dia não é bem igual.
A gente recebe um alarme, a enfermeira liga. Mas ainda assim tivemos de criar uma coisa chamada SOS Solidão, que tem imensa utilização, eu não esperava que tivesse tanta. Lá está, a tecnologia é muito importante e é uma grande ajuda, mas a parte humana conta.
Eu tornaria estes sensores obrigatórios. A gente fala de muita coisa, pensa em muita coisa e tem muito boa vontade, mas depois, na hora de avançar, criamos mais um gabinete, mais uma comissão, vamos nomear mais não sei quem, e as coisas não andam.
Portanto, se eu mandasse, as minhas três primeiras medidas eram todas direccionadas para o envelhecimento em casa, para permitirmos que as pessoas envelhecessem, as que o desejassem, com o máximo de condições possíveis na sua própria casa.
Como é que consegue fazer tanta coisa? Teve recentemente uma filha, já tem
dois filhos, tem dois enteados, escreve para o PÚBLICO, trabalha, faz comida,
publica livros...
Estou a escrever um agora, já devia ter acabado a semana passada.
Podemos saber o tema?
É uma história baseada numa história real. Este não fala de velhice, é baseado na história de um burlão, de um português que burlou imensas pessoas muito conhecidas, nomeadamente uma que não é muito conhecida, mas que sou eu, também caí lá. Foi uma burla pequenina, porque a burla também é proporcional à carteira de cada um. Mas vou contar essa história, sim.
Com tanta criança e tanta comida para fazer, caiu no caldeirão da poção
mágica quando era pequenina.
Não, não há poção mágica nenhuma, vou tentando, com a consciência de que não consigo sempre. Devia ter acabado o livro há uma semana e não está, ainda me faltam três capítulos, e depois o processo todo de voltar a ler, de edição. As coisas todas que faço são coisas que me fazem feliz. O que eu já deixei cair há muito tempo — acho que deixei cair quando nasceu o Pedro, que é o meu filho mais velho, o meu filho que é surdo —, foi aquela ideia de tentar ser perfeita.
Não me interessa já. Não me interessa se os meus filhos estão com nódoas nas camisolas, não me interessa se a minha casa… eu adorava já ter feito obras na casa… Ou seja, interessa, mas não é prioritário, não me consome, não me tira o sono. Houve muitas coisas que antes me importavam e deixaram de me importar.
E daí a “mãe imperfeita”, o blogue que criou e se tornou um sucesso. Ficou
admirada com o sucesso que criou?
Quando comecei a escrever aquilo, achava que estava a escrever para a minha irmã, para a minha outra irmã e para mais três ou quatro amigas. Aquilo foi crescendo mesmo sozinho, de verdade. E percebi que havia mais gente que, tal como eu, estava farta daquelas imagens de influencer, aquelas casas onde é tudo bege, aqueles tons de terra, tudo neutro, as crianças sempre todas vestidas de igual. E depois viajam imenso; eu não sei se consigo ir de férias para Armação de Pêra e aquela gente sempre nas Maldivas e... E o que eu percebi foi que começava a haver um sentimento de identificação do género: “A nossa vida é como a tua, não é como aquelas.”
Tento aproveitar as minhas redes para falar sobre as áreas que domino: para fazer educação para a saúde; para falar sobre envelhecimento; para contrariar a falsa ciência, que é uma praga. Portanto, para combater a desinformação.
Mas a maioria do conteúdo é o dia-a-dia, e o meu dia-a-dia não tem nada de especial: não tenho uma casa muito bonita; não faço comidas daquelas que a gente tem de ir buscar amores-perfeitos e pinças, não... Mas, de alguma forma, as pessoas identificaram-se.
https://www.publico.pt/2026/05/31/sociedade/entrevista/carmen-garcia
sábado, 30 de maio de 2026
Francisco Teixeira da Mota - A justiça na revolução
O caso José Diogo foi, durante o período revolucionário, o mais evidente embate judicial entre a legalidade instituída e uma nascente (?) legalidade revolucionária.
* Francisco Teixeira da Mota
30 de Maio de
2026
“Há 50 anos, um homem matou outro, numa
escaramuça corpo a corpo. À navalhada. Há 50 anos, um trabalhador rural matou o
seu patrão. Há 50 anos, um proletário dos campos, um comunista, um
revolucionário matou um latifundiário salazarista, legionário, prepotente,
arrogante, uma fera 'fascista' que o tinha despedido. Hoje, 50 anos depois,
tudo regressou à simplicidade, um criminoso assassinou um homem que foi a sua
vítima. A história é assim, passa depressa e muda de roupagens”, escreve José
Pacheco Pereira no prefácio do recém-publicado livro A Justiça no 25 de
Abril e o Caso José Diogo, de Luís Eloy Azevedo. Um livro denso que
analisa, detalhadamente, a evolução do mundo da justiça no pós-25 de Abril e
vai muito para além do caso José Diogo, em que se defrontaram dois modos de ver
as leis e a justiça, radicalmente opostos.
A acusação
(querela, na altura) referia que José Diogo “alimentava certa animosidade
contra Columbano Líbano Monteiro, o seu antigo patrão”, que o tinha despedido
dias antes, pelo que, “no dia 30 de Setembro de 1974, José Diogo entrou na casa
daquele" e, “depois de breve troca de palavras (...), ofendeu-o voluntária
e corporalmente com uma navalha de bolso (...). Como consequência necessária da
lesão traumática do intestino, a que sobreveio como complicação uma peritonite,
resultou a morte do ofendido”. Concluía o Ministério Público que “dadas a
natureza do instrumento empregado, a sede da sua entrada e a violência
necessária para a produção da lesão”, José Diogo agira com intenção de matar,
pelo que o acusou do crime de homicídio voluntário.
A partir de
Abril de 1975, José Diogo passa procuração aos advogados Amadeu Lopes Sabino,
Luís Filipe Sabino e José Augusto Rocha, que vêm introduzir no processo o
conceito de “justiça burguesa”, defendendo a liberdade provisória para José
Diogo e transformando, numa estratégia de ruptura, o processo judicial num
processo político em nome de uma legalidade revolucionária. Do lado da família
de Columbano Líbano Monteiro, encontrava-se o advogado Daniel Proença de
Carvalho, que procurava defender a aplicação dos códigos legais vigentes e
sublinhava que a legitimação do acto de José Diogo representava um “retrocesso
milenário na história da humanidade, das suas regras e dos seus códigos” e que
o direito à vida não podia “ser imolado a deuses ou a ideologias”.
Depois de
variadas peripécias processuais e de uma imensa mediatização e politização, o
julgamento foi marcado para o dia 25 de Julho de 1975, no Tribunal de Tomar,
mas nesse dia, perante a decisão do seu adiamento, foi sugerido e imediatamente
posto em prática o julgamento popular de José Diogo. Nas escadas do tribunal,
um júri de 20 trabalhadores, neles se incluindo dois representantes da
Associação de Ex-Presos Políticos Antifascistas, a que pertenciam os advogados
de José Diogo, foi deliberado que o trabalhador não cometera nenhum crime e “o
latifundiário Columbano, pela opressão e exploração sobre o povo de Castro
Verde”, foi considerado “inimigo do povo alentejano”. Mais deliberou o júri
“enviar esta sentença à assembleia do Movimento das Forças Armadas, reunida
hoje”.
Acelerando a
fita do tempo: José Diogo, que tinha sido libertado provisoriamente e
desaparecera, tendo sido julgado à revelia, veio a ser condenado em 1980
definitivamente pelo Supremo Tribunal de Justiça numa pena de prisão de dois
anos e seis meses, após uma ampla controvérsia sobre a existência da intenção
de matar e da causalidade entre a agressão e a morte. Segundo refere Luís Eloy
Azevedo, citando uma reportagem do semanário Tal e Qual, em 1992, José
Diogo levava uma “vida triste” em Casével, Santarém, tinha dificuldade em
arranjar trabalho e não ganhava “sequer para os copos”. Viria a morrer em
Agosto de 2015, com 77 anos.
O livro A Justiça no 25 de Abril e o
Caso José Diogo, de Luís Eloy Azevedo, é uma obra de indiscutível interesse
para os juristas que pensam, mas, também, para os não juristas que, igualmente,
pensam
A história é
longa e Luís Eloy Azevedo relata-nos, de forma exaustiva e rigorosa, tudo o que
se passou, recorrendo à variada documentação da época, judicial e não só, como
também ao filme Liberdade para José Diogo, realizado por Luís Galvão
Teles (disponível actualmente na plataforma Filmin), e ainda a depoimentos,
agora por si obtidos, dos advogados Daniel Proença de Carvalho e Amadeu Lopes
Sabino.
Foi durante o período revolucionário o mais evidente embate judicial entre a legalidade instituída e uma nascente (?) legalidade revolucionária; no entender do autor do livro, “o processo de José Diogo deixou clara a saturação da alternativa revolucionária da justiça e reflectiu as vulnerabilidades tradicionais do corpo judicial nos processos de transição”. Uma obra de indiscutível interesse para os juristas que pensam, mas também para os não juristas que, igualmente, pensam.
https://www.publico.pt/2026/05/30/opiniao/opiniao/justica-revolucao-2176337
sexta-feira, 29 de maio de 2026
António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
8 de Dezembro de 2022
“O problema não é só o de que a maioria de nós
luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho
incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente
dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês
A inteligência da desigualdade
É o furor da semana no domínio
dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que
consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das
sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços
demonstrados pelo ChatGPT
deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por
máquinas num futuro não muito distante.
O entusiasmo infantil com que
olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do
divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências
do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais
à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados
com a mortalidade.
Tem mais que ver com o impacto da
máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos
Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão
autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas
por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São
despedidos? Reciclados? Rejeitados?
Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S.
Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um
todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas
também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos
valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais
especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da
desigualdade nos países mais desenvolvidos.
O Peru aboliu a escravatura há
168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda
existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y
Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru
anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.
Esta informalidade económica, em
que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo
pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o
conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de
quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano
com a cumplicidade do Estado.
Mais de 3,4 milhões de
trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados,
mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa
as vítimas por não denunciarem os crimes.
Mesmo que o próprio ministro do
Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um
encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss
Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho
forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram
peso às palavras.
“Aqui temos um assunto de dignidade do ser
humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de
fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro,
que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo,
de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua
manutenção.
Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário
El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100
metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de
nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com
o ouro que eventualmente encontrarem.
Oito horas
Quase 140 anos passados desde que
o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há
maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução
tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais
horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria
ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.
As 35 horas semanais em França
ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos
para a semana das 32
horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.
Quando as oito horas laborais,
oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta,
defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços
com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos
que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho”
americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa
da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do
trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.
Como refere
Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com
segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir
trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu
horrivelmente mal”.
E a pandemia, que acentuou o
teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o
trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a
(auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da
sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou
ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e
mental.
Amanhã, tenho 15 minutos para
ti
As aplicações para gerir a nossa
vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil
milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à
frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser
humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia
para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E
mesmo assim queda curto.
“A gestão do tempo não é a solução, na verdade
é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy:
How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua
inglesa.
ocupação dos minutos, não visa
ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva,
fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas
para arranjar tempo para encaixar outras.
E o mais incrível é que, se
calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na
mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de
trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos,
o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível
burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são
tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.
A auto-ajuda, o empreendedorismo,
“o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando
transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal
do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex
machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos
para ti.
António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado
O mundo que se conta a partir do que se diz.
* António Rodrigues
29 de Maio de
2026
“Algumas das maiores empresas da história da
humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção.
Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano
A Suécia
assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase
tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta,
diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos
seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao
básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e
osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.
A Suécia tinha
criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado.
Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o
Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para
menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de
aulas.
Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em
força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram
os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas
conclusões.
Randi
Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores
dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em
inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10
points to boost student learning and success in the AI era, que “as
crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das
principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.
“O ritmo desta
revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a
ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para
defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA).
“A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o
conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e
aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”
Higienização
O tema está
aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende
ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas,
propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação,
enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública
sobre os conflitos.
Criado pelo
Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de
revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem
na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos
critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos
ângulos para olhar e das perspectivas de análise.
“Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa
não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de
decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em
tempos de conflito”, lê-se no site.
“À força de fazer desfilar as notificações, os
alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir
absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados,
acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de
fundo cruelmente banal.”
O uso cada vez maior de meios digitais para
travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as
mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando
aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de
impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.
E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann
d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo
que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se
colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”
Atenção
A Meta, a
empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o
Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em
inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede
social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase
metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.
“Outros
sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o
investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o
ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa
razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma
automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações
foram concebidos para fazer.”
Na sua
intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada
na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do
escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O
verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos
receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar,
mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há
muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão
a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.
Dar valor à nossa atenção é importante porque
se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a
informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os
ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a
escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas
de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.
Como disse
Foster Wallace naquele dia, no Kenyon
College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que
mais custa ver e discutir”.
Empatia
Uma das piores
expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só
negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel
social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento,
pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.
Nestes tempos
política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica
e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar
decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a
carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à
ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica
especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança,
aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo
pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”
A empatia já
não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que
se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer.
Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações
profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os
terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.
No entanto,
como refere Wedellsborg no site do International Institute for
Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar
uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa,
mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a
confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo
factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.
Para a autora
de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a
inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria
tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se
se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.
domingo, 26 de abril de 2026
Entrevista a Ricardo Araújo Pereira
Ricardo Araújo
Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na
semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você
é humano”.
Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)
20 de Abril de
2026
Ricardo Araújo
Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma
auto-estima bastante baixa”
Ricardo Araújo
Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast
sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo
Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em
Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo.
Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.
Há um mês,
Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia
sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente
composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma
auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu
tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o
segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.
O que fazer
quando tudo arde está disponível na Apple Podcasts, Spotify, YouTube e restantes aplicações para podcasts.
Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão
grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”
Ricardo Araújo
Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio
com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro
solo estreou na sexta-feira.
Ana Sá Lopes
26 de Abril de
2026
Esta conversa
com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast
“O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na
segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta
conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o
guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na
sexta-feira.
Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.
Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista,
não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun",
por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável,
no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer
deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.
Como diz um
amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau
aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de
intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca
justamente porque ele não está a brincar.
Já podemos
falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo
está a ser governado por um rapaz de 10 anos…
Eu estava a
escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de
embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia
muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por
exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário
tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de
contrariar no mesmo sentido em que é difícil.
Quando a
criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não
discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não
existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto
a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de
crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a
Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em
Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe
nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade.
Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem
animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”.
E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a
criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior
à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.
Posso estar
enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma
ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a
vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim
senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a
chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo
Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente
tente, falha”
Será o riso
mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo
Capitão — que depois o Ricardo levou ao seu programa — desfez o
Chega com muita graça.
São duas coisas
muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor
para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não
é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os
jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se
alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda.
Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para
o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao
humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos
deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo,
pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.
O meu momento
favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a
esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu
adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E
isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a
indignação, acho eu, na qual eles medram.
O riso serve
para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a
pandemia de covid, por exemplo...
Na altura,
tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director
de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar
ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém
sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente,
dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa
disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que
ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca
usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma
criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa
de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma
base.
Interessava-me
bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento
em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as
compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr
na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial
de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...
E pronto, esses
avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa
inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas,
é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.
Porque, como
palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a
razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os
sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso
nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto
de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos
era engraçado.
O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.
Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci
para isto, sabe?
Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus
amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando
ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais
experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor
o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o
programa a seguir, eu já estou de férias.
Eu não nasci para o palco. Há sempre uma
relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito
receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para
estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando
se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um
bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15
mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é
aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.
Já tem o
guião pronto?
Está a ser
dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro
de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...
O Ricardo tem falta de confiança?
Imensa.
É uma pessoa insegura?
A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.
Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.
Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por
exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas
ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança.
Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.
Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são
histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e
estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios.
E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.
Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa
que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente
A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?
Graça Castanheira - E o porco gosta
A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.
A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.
O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.
Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.
Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.
A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.
26 de Abril de 2026
sábado, 25 de abril de 2026
Mário Vieira de Carvalho - Obscurantismo de antanho
Em pleno cinquentenário da nossa Constituição — uma das mais humanistas e avançadas do mundo — respigo estas notas para relembrar o obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez...
* Mário Vieira de Carvalho
Há cem anos, surgia em Lisboa uma nova publicação periódica: Ordem Nova. Na folha de rosto anunciava a sua linha editorial nos seguintes termos:
"Revista antimoderna,
antiliberal, antidemocrática, antiburguesa e antibolchevista;
contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica;
intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e
quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa."
O seu diretor era Marcelo
Caetano.
Ao longo do ano publicaram-se
cerca de dez números. O guia era a “voz da Igreja”, “guarda da sabedoria
eterna” — lê-se num dos artigos. A razão era “débil e impotente no seu
mesquinho poder de adaptação compreensiva e daí a necessidade de a erguer sobre
a colunata sólida e eterna do Evangelho”. A defesa da razão, assim entendida,
opunha-se à “tara romântica”, uma “doentia manifestação de indisciplina moral”
que afetava “o homem primitivo, o selvagem, a criança e a mulher”, até o
próprio homem, “mas na sua adolescência”, isto é, em “certos estados de
infância física e moral”. Historicamente, a “tara romântica” representava “uma
inversão brutal da hierarquia”: “o regresso à barbárie, ao primitivismo, à
infância mental”, a “feminização do masculino”, o “império dos elementos
femininos sobre os elementos viris do espírito”. O “vírus romântico”, que
causava “degenerescência”, irrompera com as Luzes e, particularmente, com
Rousseau.
Noutro texto, assinado pelo
próprio diretor, este insurgia-se contra “a praga dos intelectuais”,
apelava a “varrê-los” como na Itália de Mussolini e louvava a “violência” como
“virtude”. Era o antídoto “para curar as nações fundamente atacadas do mal”.
Mal esse – dizia-se noutro número – que remontava mais longe ainda, ao século
XV, englobava a Reforma e o Renascimento, e não só “a erupção violenta do
século XVIII”. Tratava-se, enfim, de restaurar as relações feudais.
Tão abrangente era o desígnio
reacionário dos autores que nem a música escapava. O diabo fizera-se músico e
servira-se da mulher para atingir os seus fins: “O problema musical não é mais
do que um aspecto da grande insurreição feminina. [...] Modernamente o
sensualismo musical, envolvente e corruptor, domina o espírito. A razão
perdeu-se nos desvios de uma sensibilidade desvairada. [...] Separada da razão,
a música tornou-se como o ópio, a morfina e a cocaína, um perigoso dissolvente
de energia. Ergue paraizos artificiais [...] – todo um universo rubro de
pecado. [Produz uma] emoção toda carnal [...] continua a ser a voz do
tentador.”
A “ordem nova” que assim saía da
“moderna renovação escolástica” não era senão a velha ordem patriarcal: “Ordem
nas ruas! Ordem nos espíritos! Ordem em casa!”, já se proclamava no manifesto
da Cruzada Nacional Nun’Álvares Pereira (1921).
Se, por um lado, o Integralismo
Lusitano aspirava à instauração de uma teocracia medieval, hostil às artes e,
em especial, à música, hostil à igualdade entre os humanos, à não-discriminação
em função do género, da raça e da condição social, os novos “cruzados” sonhavam
igualmente com uma ditadura, mas um pouco mais atualizada.
Em 1921, António Ferro falava do “Ditador que é preciso”, comparando-o a Parsifal, o protagonista do drama musical de Wagner, então estreado no São Carlos com um êxito colossal (nove representações, mais do dobro de qualquer outra ópera da temporada!). Sidónio Pais – lê-se numa entrevista de Ferro à escritora Veva de Lima – tinha sido “o Parsifal raté da nossa decadência”. Parsifal é também comparado ao “Santo Condestável” e a D. Sebastião. E como “o sebastianismo é a religião da raça", Ferro dedica “À saudade e à esperança do Encoberto” o seu livro Viagem em torno das ditaduras (1927). Por fim, o Encoberto revela-se em Salazar, a quem uma cronista do jornal católico A Voz dedica as suas impressões do Parsifal do Festival de Bayreuth de 1937... Não é, pois, por acaso que Salazar, “Salvador da Pátria”, é representado como um cavaleiro medieval, à imagem e semelhança de Hitler.
Na antologia de discursos de
Salazar publicada na Alemanha (1938), com uma Geleitwort do dr. Goebbels
e um prefácio de Gustavo Cordeiro Ramos, Sidónio é considerado um pioneiro e
Salazar colocado ao lado de Mussolini e Hitler, com a diferença de governar a
partir do seu gabinete, enquanto estes preferiam o permanente contacto com as
multidões. É que Salazar, como reconhece António Ferro, entretanto nomeado
Secretário da Propaganda Nacional, queria encenar uma “ditadura imponderável,
ausente” (discurso intitulado A Alma do Chefe, proferido solenemente, de
casaca, em 1942).
Em pleno cinquentenário da nossa
Constituição – uma das mais humanistas e avançadas do mundo – respigo estas
notas do meu livro sobre o Teatro de São Carlos (INCM, 1993) para relembrar o
obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez.
25 de Abril de 2026
Professor catedrático jubilado de Sociologia da Música (FCSH-UNL)
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990






