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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Ozzy - Angeli


Digestivo nº 291 >>> No Rest for the Wicked?

No Brasil, em que se lê mais na infância, na adolescência e na juventude do que na idade adulta, a salvação, para o mercado editorial, são os livros didáticos. Para os autores, também. Quantos não se refugiaram, quase que para sempre, nos infantis – como Monteiro Lobato e Ana Maria Machado? Quantos não encontraram nos infanto-juvenis uma mina de ouro – como Ziraldo e seu Menino Maluquinho? Recentemente, até Miguel Sanches Neto – um dos poucos autores relativamente “novos” e verdadeiramente adultos – experimentou no gênero, com O Rinoceronte Ri. E Angeli não poderia ignorar o canto da sereia. Talvez não por isso, mas lançou Ozzy, no início da década passada: não um menino mas um pré-adolescente, de camiseta larga, bermuda folgada, gorro e skate à mão. Uma mistura, se formos analisar, de anos 80 com 90: estilo californiano tardio, combinado com grunge; espasmos diluídos da cultura hippie (hoje quase um palavrão), com o cientificismo da tecnologia e do computador. Ozzy é divertido como o Angeli sempre foi, mas não tão visceral como suas origens – é o Angeli mais “família”, autor da Flip, que de tanto combater o sistema foi absorvido por ele (embora charmosamente negue). Mas Angeli é gente boa; merece todo o sucesso e dinheiro. Ozzy, que estreou na Folhinha em 1993, sai agora em álbum, inicialmente quatro volumes, pela Companhia das Letras. O Ozzy, para quem precisa de uma referência mainstream, é o Calvin do Angeli. Sei que você pensou nos Skrotinhos, mas é mais light do que isso. Ozzy é um inconseqüente, mas não agride; é um transgressor, mas sem apelar para sexo e drogas (só rock’n’roll; ou para o que sobrou...). O Angeli virou marca. E foi merecido.
>>> Ozzy - Angeli - 54 págs. - Companhia das Letras
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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Wood & Stock - Angeli


Digestivo nº 178 >>> Psicodelia e colesterol
Os anos 60 duraram mais do que se pensava. Nos anos 80, por exemplo. Foi nessa década que Angeli concebeu e estreou, na “Folha de S. Paulo”, a dupla Wood & Stock. Quem vê Arnaldo Angeli Filho passeando, em véspera de Natal, pelo shopping Higienópolis, totalmente integrado à paisagem (roupa preta, cabelo “punk” e barbicha são “fashion” hoje em dia) não imagina o que havia de rebeldia em um dos fundadores da “Chiclete com Banana”. Era um sinal de contestação, para a juventude incipiente dos 1980s, folhear ou mesmo empunhar a revista em público. As meninas provavelmente não conheciam. Era leitura de meninos. De sexo para cima. Não havia tanta “violência” nessa época; ou então, como temática, não fazia tanto sucesso. Mas sexo, sim. Não havia internet. E a “Playboy” era um luxo quase inacessível. Quem quiser reviver esses tempos – e não os anos 60, de novo, pelo amor de Deus – deve procurar a coleção “Sobras Completas”, que a Devir e a Jacaranda estão lançando em versão “colorizada” com obras de Angeli. Estamos no quinto número e já saíram, por exemplo, os álbuns da Rê Bordosa e dos Skrotinhos (duas vezes). Wood e Stock são aqueles dois sujeitos (tá bom, dos anos 60) que pararam na era do sexo, das drogas e do rock’n’roll. Parece que nunca trabalharam; continuaram boêmios; cantando as “louquinhas” que apareciam e “viajando” de vez em sempre. Em 1987, foi profético apostar na dupla. O filme se repetiu tantas vezes – confirmando o “feeling” de Angeli – que algumas piadas até ficaram velhas. Vimos elas encenadas na vida e na arte, até cansar. Chega a ser aflitivo revisitar Wood & Stock e pensar que muita gente continua presa no “íncubo” protagonizado pelo triunvirato Jimi Hendrix, Janis Joplin e Jim Morrison. Uma geração inteira “anestesiada” que – pré-televisão – anestesiou as outras. E o mundo saiu do coma só agora. Os hippies quando não são folclóricos são mesmo vagabundos. Vamos admitir. E alguém paga a conta do baseado depois. Ainda é gostoso rir de “Wood & Stock”. Mas a realidade bate à porta.
>>> Wood & Stock - Angeli - 48 págs. - Devir/Jacaranda
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