Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
A Verdade Histórica - Alves de Fraga
segunda-feira, 2 de junho de 2008
25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (28)
Excelentíssimos Senhores:
Passados que são mais de três meses após vos ter enviado, por esta via em 8-2-08 uma carta, com o suporte de algumas fotografias como demonstração do que se passava no Hospital da Força Aérea venho, por isso, lamentar a descortesia da ausência de qualquer resposta - com excepção do Gab.1ºM que se limitou a acusar a recepção - bem como a resolução das anomalias nela apontadas. É com muita preocupação pessoal, em consonância com a evidencia manifestada em sede própria pelas Associações Militares, que prevejo um futuro dramático para os militares, especialmente os de postos mais modestos, cujo motivo se situa na política de desprezo e desconsideração dos governos, mormente o actual.
.
O Senhor 1º Ministro obstina-se em querer comparar o que não é comparável. Confunde Forças Armadas com Função Pública, cujas funções e compromissos são diferentes pois é aquelas, e não a esta, que se exige disponibilidade total e a oferta da vida pela Pátria se necessário for. Fui militar de carreira e esse foi o meu juramento. Sem desprimor, mas com todo o respeito que a F.P. me merece até pelos problemas que também enfrenta, não é possível comparar, por exemplo, um elemento de uma tripulação de uma aeronave de busca e salvamento, de um barco de patrulha ou das Forças de Segurança cuja farda é, por si só, um alvo a atingir em alguns locais, com um funcionário que se senta à secretária à hora "x" e sai à hora "y" para sua casa, sem mais preocupações, embora não se releve o sentir na sua pele os efeitos das medidas com que o Governo os tem atingido.
.
Senhor 1ºMinistro, todos sabemos que o Senhor não gosta de ser contrariado nem de dar o braço a torcer e é espectável que, com o aproximar das eleições, mude o tom dos seus inflamados discursos, com os quais já pouco convence – em oratória política que vem dos anos de experiencia nesta actividade - , mas gostaria de lhe poder afirmar, plagiando alguém do seu Governo: "Alcochete, Jamé"; Maioria absoluta, Jamé. Faço votos para que tenha de esperar sentado, fumando o seu cigarrito, mesmo em local proibido. À partida vai poder contar, ou não contar, com professores, militares no activo e fora dele, forças de segurança e funcionários públicos o que dá, só nestes sectores, uns bons milhares de votos. Do que é Ditadura conheço o bastante porque nasci nela e não gostei, mas talvez o novo acordo ortográfico acrescente uma nova designação para a política que é a de Ditadura Democrática.
Exmos. Senhores, se estou a violar alguma lei ou regulamento é sem o saber, por isso peço antecipadamente desculpa, prometendo não voltar a repetir. Como humano, também eu posso estar enganado.
.
Quanto a um dos temas da minha anterior carta que era a assistência da ADM – vulgo Hospital da F. Aérea – verifica-se que foram tomadas meras medidas de operação de cosmética. Como eu referia na carta que só havia um médico de Gastro a dar consulta, retirou-se dos placards a lista dos médicos e respectivas especialidades não se sabendo, agora, quais a valências médicas ali existentes. Desapareceram, também, as listas dos doentes para cada consulta, passando a existir apenas a designação da especialidade, do médico, da sala e da hora de início. Com esta prática o doente deixou de poder controlar a sua posição na lista de consulta e até pode, assim, admitir que seja consultado alguém que nem tenha consulta marcada. Escondem-se dados, vá lá saber-se porquê. Fizeram-se reuniões devido ao alarido provocado pela visão das fotografias mas as coisas só alteraram na forma, que não no conteúdo e que era o mais importante.
.
Julgo ter direito a um tratamento mais respeitoso e saibam V. Exªs. que me é indiferente qualquer acção de represália. Aliás, já o afirmei na anterior carta se é que se deram ao trabalho de a ler. Acredito que sim, porque ela também estava no Blogue do Snr. Cor. Fraga e que originou o processo disciplinar que lhe foi aplicado.
Senhor CEMFA, julgo ser um pouco mais velho do que o Senhor e permita-me que faça, com todo o respeito que sempre tive para com os meus superiores, só este comentário: não é com castigos que se resolvem este problemas.
Respeitosamente
Carlos Sousa da Silva Nuno
Sargento-Chefe reformado Em,19-05-08
Carlos Nuno
,
sexta-feira, 16 de maio de 2008
25 de Abril - «olhares» - «entrevistas» - «verdades» (11)









.
Abril não se cumpriu!
.
Coronel Luís Alves de Fraga
.
Passam, em breve, 34 anos sobre o dia 25 de Abril, o dia da alvorada nacional, e os mais conscientes de nós, mas, também, os mais velhos, sentimos que o ideal do Programa do Movimento das Forças Armadas, aquilo que de mais profundo estava gravado nas entrelinhas do texto dado a conhecer aos Portugueses, ainda não se cumpriu.
Se tomarmos os três D como base para esta análise — os D que são, afinal, a essência do Programa do MFA — vemos que deles só as aparências mais evidentes se concretizaram.
Descolonizámos. É certo. Mas descolonizámo-nos? Demos a independência às colónias pela qual elas lutaram e o Estado Novo nos impôs uma guerra de 13 anos — 13 anos de muito sofrimento de parte a parte — mas descolonizar é dar a independência a um território? Ou será que é preciso nós descolonizamo-nos, isto é, ganharmos a nossa própria autonomia, a confiança em nós mesmos, nas nossas capacidades? Será que depois das independências deixámos de nos sentir órfãos? Será que soubemos olhar a Europa e o mundo como senhores dos nossos destinos? Será que conseguimos conquistar o nosso lugar na Península e na Europa depois de termos passado 500 anos virados para fora, para África, para o Oriente, para o Brasil? Será que soubemos regressar à dimensão que tínhamos em 1415, antes da conquista de Ceuta?
.
Não acredito que nos tenhamos descolonizado! Temos estado nestes trinta e poucos anos amarrados à cicatriz de um passado, à cicatriz de uma amputação. Só assim se explica que, depois da adesão à Comunidade Europeia, depois de se terem derramado rios de ouro sobre nós, tenhamos continuado na cauda dos países desenvolvidos. Esse ouro, julgámos, no nosso inconsciente colectivo, tinha sido outra grande mina que havíamos descoberto como as do Brasil. Esbanjámo-lo na esperança de encontrar outra mina numa outra colónia! Não o soubemos utilizar como a última oportunidade. Éramos ainda a metrópole que se podia dar ao luxo de malbaratar a riqueza, deixando que todos dela tivessem um quinhão improdutivo. Não nos ficou um aqueduto de águas livres nem um mosteiro de Mafra, mas restaram-nos as auto-estradas, uma ponte, um centro cultural e pouco mais, muito pouco mais. Os nossos governantes comportaram-se como um outro D. João V, magnanimamente distribuindo ouro a quem o quisesse agarrar. Portugal continuou pobre! Essa é a prova de que não soubemos descolonizarmo-nos!
.
Aqui, Abril não se cumpriu!
O segundo D — o de Desenvolver — transcorre, em parte, da Descolonização.
.
Realmente, olhamos agora à nossa volta e podemos perguntar-nos o que fizemos para nos desenvolver. Nada! Deixámos o tempo passar e que o natural progresso por ele trazido chegasse até nós. Somente isso.
.
Não soubemos e não quisemos gerar riqueza. Ninguém nos impulsionou para a frente — nem nós mesmos o fizemos — de forma a, como país, encontrarmos uma vocação económica, ainda que tardia, na Europa. Somos consumidores e pouco ou nada produtores. A nossa balança comercial não indica uma só especialização através da qual superemos os restantes Estados da União.
.
De momento, o único desenvolvimento que sabemos ter é o do desemprego, o do espectro da fome e da miséria a curto prazo. Enquanto poucos enriquecem desmesuradamente muitos Portugueses empobrecem assustadoramente.
.
E o que nos prometem os políticos que tomaram conta do aparelho do Estado? Mais «aperto de cinto» contra vagos sonhos de míseras saídas de uma crise que se arrasta há tempo excessivo.
.
Em 34 anos teríamos tido oportunidades óptimas para darmos vários saltos em frente, para nos colocarmos ao nível dos países médios da Europa. Não o fizemos, porque negociámos mal a adesão à Comunidade; não soubemos ou não quisemos defender o fraco tecido produtivo que tínhamos; não defendemos os nossos têxteis, a nossa débil frota pesqueira, a nossa cortiça, a nossa vinha, o nosso azeite. Uma única indústria soubemos manter de pé: a da construção civil… A mais pobre de todas em mão-de-obra técnica e em tecnologia; aquela que contribui para o nível de emprego dos imigrantes, dando-nos a sensação de sermos um país desenvolvido. E vai continuar a ilusão desenvolvimentista à custa de mais obras públicas, ou seja, de mais construção civil!
.
De novo, Abril não se cumpriu!
O terceiro D — o de Democracia — apresenta as mais significativas contradições.
.
É certo que foi derrubada a ditadura, acabou a censura, a polícia política, que existem partidos políticos, um parlamento, eleições livres… Mas chegará isto para dizer que existe uma democracia em Portugal? Será suficiente?
.
Não, meus amigos! Tudo isso são manifestações exteriores de democracia; falta o mais importante. Falta que as mentalidades se tenham transformado; falta que a liberdade não seja libertinagem; falta que a ordem democrática não seja a «lei da rolha»; que todos saibamos conviver com a livre crítica, com a liberdade dos outros, respeitando-a e admirando-a. Falta o sentido de civismo, a educação, a cautela e a delicadeza públicas. A democracia, infelizmente, porque mal apreendida, deu largas à boçalidade de um povo que esteve aperreado ora por uma Igreja sufocante ora por um Estado ditatorial. Ainda se fazem sentir, aqui e além, assomos da saudade da ditadura — o anteprojecto de Regulamento de Disciplina Militar, que anda por aí a circular, é a prova provada disto mesmo.
.
Falta a verdadeira compreensão da democracia, porque uma maioria absoluta que governa, comportando-se como se fosse uma ditadura, com arrogância e desprezo pelas oposições, não integrou o real sentido da liberdade. Uma maioria absoluta que, por razões economicistas, põe em causa o bom andamento do Serviço Nacional de Saúde, que decalca modelos estrangeiros de avaliação e de trabalho de professores, que reduz à condição de miséria pouco dourada as suas Forças Armadas, que descarta a assistência sanitária dos seus militares os quais fizeram a guerra e deram ao país a liberdade, uma maioria absoluta assim formada não honra a democracia que diz pretender servir.
.
E, uma vez mais, Abril não de cumpriu!
.
Falta abrir as portas que Abril abriu. Falta que saibamos crescer em riqueza, em liberdade, em civismo, em respeito. Falta que se estabeleça um verdadeiro programa de cidadania. Por isso, cabe-nos a nós, cidadãos anónimos, mas conscientes, abrir as portas que Abril abriu, usando a nossa voz, o nosso voto, a nossa revolta, a nossa união, para que o Povo unido jamais seja vencido.
.
in PortugalClub
.
escolha de imagens da responsabilidade de VN ou,
segundo a «sabedoria» popular, «com papas e bolos se apanham os tolos», «abril das águas mil», «abril, dia das mentiras», «abril dia da liberdade», «cada cabeça sua sentença», «fábula dos 7 vimes». (Zé Povinho dixit)
.
.
sábado, 12 de janeiro de 2008
Reis, Presidentes e Índios

.
Com esta aparentemente longa introdução quero deixar claro que sou capaz de o perceber enquanto homem, porque vivemos as mesmas épocas, os mesmos acontecimentos e, curiosamente, quase teremos frequentado os mesmos ambientes, pois foi criado e educado bem próximo de Lisboa, no Estoril, conhecendo por dentro a ditadura de Salazar enquanto terá estudado a de Francisco Franco.
Há já várias semanas foi notícia, diria, mundial, a célebre interrogação de Juan Carlos a Hugo Chavéz ocorrida na cimeira ibero-americana. Não quis, na altura, pronunciar-me e trazer para aqui a polémica e popular questão, porque era necessário deixar arrefecer as emoções. Julgo que chegou o momento oportuno para os meus habituais leitores tomarem conhecimento do que penso sobre a ocorrência.
.
Juan Carlos, Rei de Espanha por vontade do generalíssimo Francisco Franco — que assumiu o Poder de forma ilegítima e sanguinária à frente de uma revolta militar contra o Governo republicano, legal e legítimo, o qual, por seu turno, se havia sujeitado ao voto popular depois do rei Afonso XIII ter fugido e deixado cair o trono — é um dos poucos monarcas existentes numa Europa fundamentalmente republicana. As pernas do trono onde se senta Juan Carlos mergulham muito fundo em milhares de mortos resultantes de uma tremenda guerra civil e de uma brutal repressão que se prolongou, em assassinatos políticos, até 1945. Juan Carlos era já, então, um menino crescidinho e com alguma capacidade para perceber o que acontecia no seu país. A Espanha aceita a Monarquia, porque ainda tem bem presente o que foi a guerra fratricida que opôs republicanos a tradicionalistas. A Espanha não discute o regime, porque ainda não sararam por completo as feridas deixadas pela guerra e as perseguições que se lhe seguiram; não discute, porque, acima de tudo, actualmente, na União Europeia, é insignificante e indiferente um Estado ser Monarquia ou República — é o que já está, não vale a pena mudar!
Isto, que é pacífico — ou quase — para os Espanhóis, não o é, todavia, para as antigas colónias americanas. Com efeito, a luta pela independência fez-se, em cada Estado da América, para libertar o território da alçada de uma coroa e para impor um novo ideal de regime que era, no século XIX, o republicano. A República representava, para os Americanos, uma libertação do colonialismo e, ao mesmo tempo, uma entrada na democracia, ou seja, no governo do Povo pelo Povo. O Brasil foi o único Estado sul-americano que se libertou da situação colonial, mantendo um regime monárquico.
.
Olhando para o imenso Brasil, percebe-se a mistura étnica que por lá ocorreu durante os 300 anos de colonização portuguesa e percebe-se, acima de tudo, que mesmo tendo havido formas de genocídio de índios elas foram atenuadas — graças, em especial à acção da Companhia de Jesus. Por outro lado, percebe-se, também, que a riqueza esteve sempre nas mãos dos colonos ou dos seus descendentes. Contudo, se olharmos para a maioria dos Estados oriundos da colonização espanhola já se não nota um tão elevado grau de miscigenação étnica: há uma bem demarcada diferença entre colonos europeus e índios americanos. Por outro lado, percebe-se que a riqueza está só nas mãos dos descendentes dos colonos europeus e que a pobreza é domínio dos índios. Naturalmente, isto não invalida a existência de pobres entre descendentes de velhos colonos; mas a condição de pobre é apanágio dos índios. Em comum, todos os Estados ibero-americanos têm o facto de a independência ter sido proclamada pelos grupos economicamente dominantes em cada um deles.
.
Arrumado este aspecto, notemos a curiosidade da seguinte situação: no Brasil foi um filho do Rei quem proclamou a independência; nos Estados colonizados pelos Espanhóis foram os grandes agrários ou os seus representantes quem lutou pela independência. Acresce que Portugal é hoje uma República e a Espanha uma Monarquia — o regime político que oprimiu e colonizou o Brasil já não vigora em Portugal, contudo subsiste em Espanha.
Hugo Chávez, independentemente do seu comportamento político e dos seus ideais sócio-económicos, descende de índios, logo, do grupo social mais oprimido tanto pela antiga metrópole colonizadora como pelos descendentes dos colonos bem instalados. Hugo Chávez é o porta-estandarte de um todo social que foi sendo brutalmente morto, espoliado do seu território e reduzido à miséria. E isto é histórico; isto é a verdade de um comportamento que leva cerca de 500 anos de existência.
Quando o Rei de Espanha interroga o Presidente da República da Venezuela sobre a razão pela qual ele não se cala tem por trás de si, pelo menos, 300 anos de colonização opressora e disso Juan Carlos deveria ter-se lembrado antes de abrir a boca.
Acresce que a discussão entre Zapatero e Chávez resultava da crítica que o segundo vinha fazendo ao sistema neoliberal hoje em desenvolvimento — um sistema que, de novo, está pronto a colonizar e submeter povos e Estados em nome da liberdade de produzir e comerciar. Era uma discussão entre condutores de políticas — já que Chávez, constitucionalmente, é o presidente do Executivo venezuelano — e não entre Chefes de Estados, daí que a intervenção de Juan Carlos tenha pecado, logo, por inoportuna.
.
É conhecida a tendência espanhola para o tutear — prática que entre nós não é vulgar — no entanto, mesmo que em privado Hugo Chávez e Juan Carlos se tratem por tu, é diplomaticamente incorrecto que o Rei de Espanha tenha tratado um Chefe de Estado soberano e independente por tu. Esse tu, dito naquele momento, naquelas circunstâncias e naquele tom, soa a uma superioridade histórica que não é admissível.
Juan Carlos deixou transparecer o pior de si, da sua geração, da sua arrogância, quando interrogou imperativamente Hugo Chávez que se terá sentido mais índio, mais colonizado, mais subordinado do que o necessário e conveniente. Os povos do mundo inteiro que foram vítimas de colonialismo devem — e com razão — ter-se sentido solidários com o Presidente da Venezuela. Juan Carlos, um Rei aparentemente moderno, deixou cair a máscara da simpatia, do companheirismo e do populismo para se tornar digno de um qualquer seu antecessor tirânico, despótico e arrogante.
À luz da História e por causa de todas as implicações que expus, não ficaria mal a Juan Carlos apresentar um pedido formal de desculpas a Hugo Chávez ou, por um qualquer outro processo, mostrar ao mundo que sentia o peso do seu erro enquanto homem, Chefe de Estado e descendente de uma família com velhos pergaminhos.
.
Será que temos de continuar a admitir que de Espanha não nos chega nem bom vento nem bom casamento?
.