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quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A expansão da imprensa alternativa irreverente


COMUNICAÇÃO
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Diante da extinção do pluralismo1 , publicações modestas tentam voltar a dar ao jornalismo algum colorido e alguns valores. Sob as mais variadas formas, os pequenos jornais independentes defendem a ambição de sempre preferir a sátira à reverência.
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Philippe Descamps
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São dezenas de jornalistas, amadores e profissionais, que tentam a aventura da independência, como no jornal de bairro, L’Ami du 20e, que circula desde 1946
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“A imprensa mente muito, isso é sabido. É grave. Menos grave, no entanto, do que esse flagelo que atinge milhões de pessoas sem que isso mexa com uma palha no microcosmo parisiense2 .” Semanalmente, em Villeneuve-sur-Lot, Anne Carpentier e seus colegas atormentam, nas páginas de La Feuille, oficiais de justiça, banqueiros, políticos corruptos ou patrões salafrários que impõem essa “taxa sobre a miséria agregada” atingindo operários demitidos, agricultores arruinados e microempresas abandonadas. Desde 1976, esse jornal, com uma circulação de 5 mil exemplares, coloca suas colunas a serviço dos leitores “à beira de um ataque de nervos” numa região tão minada pelas desigualdades quanto tantas outras.
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São dezenas de jornalistas, amadores e profissionais, que tentam a aventura da independência3 . Desde um jornal de bairro, como L’Ami du 20e, que circula desde 1946, aos de pequenas comunas ou cantões, como L’Oursaint ou Le CANeTON déchaîné, e aos regionais ou mesmo nacionais, como i<> ou Liquidation totale, todos eles se entregam a um movimento de espontânea gozação para, afinal, ser possível ler coisas sérias. Muitos deles exploram temas abandonados: La Vache qui lit/i<>Brisons nos chaînes propõe um olhar “dissidente” sobre a televisão, os gozadores de PLPL apuram as tramóias de um partido da imprensa e do dinheiro (Parti de la Presse et de l’Argent), La Décroissance defende uma atitude solidária contra a “propaganda publicitária”. Todos eles deixam de lado matérias sobre esporte ou polícia, exceto quando estas envolvem aspectos sociais.
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“Dar a palavra a quem não tem”
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As equipes podem ser muito reduzidas, como os dois colaboradores do Mouton fiévreux, de Laval, que publica, seis vezes por ano, um panfleto progressista de trinta e duas páginas numa das regiões mais conservadoras da França. Na região do Auvergne, La Galipote reúne cerca de sessenta colaboradores. E quando propõem um dossiê sobre transgênicos (organismos geneticamente modificados), o leitor dispõe de cerca de trinta textos em quinze páginas, com abordagens e esclarecimentos tanto locais, quanto internacionais.
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Os jornalistas dessas publicações têm opiniões variadas, mas não querem fazer uma imprensa editorializada, de comentários. Se concentram nos fatos
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“Dar a palavra a indivíduos, ou grupos, que não a têm” é o refrão de La Mée socialiste, de Chateaubriand (departamento de Loire-Atlantique). A equipe pretende dar o direito de expressão às pessoas que têm dificuldade para escrever ou não o podem fazer sem correr o risco de represálias na empresa em que trabalham. Le Ravi é um jornal que nasceu em Marselha, a partir da necessidade de um grupo de sociólogos e de sua frustração diante da pobreza de informações que circulam nas regiões de Provence e Côte d’Azur. “Existe uma incapacidade de explicar por completo algumas questões”, explica Étienne Ballan, mencionando, por exemplo, “os impasses da imprensa local diante do clientelismo”.
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Estes leitores insatisfeitos consideram a imprensa muito indulgente para com as instituições e muito indiferente em relação à condição humana. Os jornais independentes nascem devido a uma necessidade de expressão, mas também de informação. Em Montreuil, quando o programa “Enviado Especial”, realizado pela emissora France 2 em junho de 2004, investigava “a escalada do anti-semitismo”, o jornal Le Poivron reuniu depoimentos para demonstrar a “manipulação” e a injusta difamação de um colégio. Em Nantes, a publicação La lettre à Lulu divulgou a coluna “Top 44”, atribuindo uma pontuação aos caciques da região em função do número e do destaque de suas fotos na imprensa local.
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Só fatos sociais e locais

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Os jornalistas dessas publicações têm opiniões variadas, mas não querem fazer uma imprensa editorializada, de comentários. Sua motivação decorre da capacidade de veicular informações que não podem ser lidas em qualquer outro lugar. “Fatos, só fatos, sociais e locais”, martela François Ruffin. Ao publicar uma reportagem sobre o hospital psiquiátrico de Amiens, o jornal Fakir espera também refletir o estado da psiquiatria na França.
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“Fazia falta, e talvez continue fazendo, um jornal polêmico, com informação”, explica Olivier Cyran. A equipe de CQFD considera que discute o movimento social com liberdade total, inclusive mexendo com certos ícones do movimento de contestação da globalização liberal. A publicação, mensal, também teve origem, segundo François Maliet, numa leitura crítica da imprensa militante: “A denúncia da indignação pode se tornar maçante. O mundo já não tem nada de engraçado. Pode se falar do assunto, mas com um certo distanciamento, sem procurar a auto-comiseração.”

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A seriedade do humor

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“Fazia falta, e talvez continue fazendo, um jornal polêmico, com informação”, explica Olivier Cyran.



Quanto mais significativo o assunto, mais dá lugar à ironia. As charges, raras e com pouco espaço nos jornais diários, reencontram sua liberdade na imprensa independente. “Elas sintetizam, numa imagem desconcertante de sentimentos confusos, aquilo que uma torrente de palavras não conseguiria circunscrever. Transformam um simples berro num espetáculo de fogos de artifício”, dizia La Galipote por ocasião de seu 25º aniversário, comemorado com uma edição exclusivamente de desenhos.
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“O humor, as charges e a sátira são indissociáveis da seriedade da informação. A passagem à informação deve ser feita graças ao humor”, explica Michel Gairaud, do jornal Ravi. Já Nicolas de la Casinière, de Lettre à Lulu, afirma: “Não existe um comentário subentendido ou um delírio infantil sem uma informação que o sustente. Por outro lado”, acrescenta, “um pouquinho de má fé não prejudica ninguém. Lulu é um jornal mal-comportado, uma espécie de pivete abusado que diz em voz alta coisas que nem sempre são agradáveis de serem ouvidas.”
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Prova de fé no jornalismo
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Embora todos eles sejam críticos, quando comparados com os profissionais dos jornais comuns, os redatores dessa imprensa diferente e satírica fazem, de maneira geral, uma verdadeira prova de fé no jornalismo. Acreditam, com sinceridade, que a publicação de determinado tipo de informações sólidas representa um progresso para a democracia.
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Apesar do crescimento das vendas de Satiricon (5.500 exemplares), Pierre Samson receia não ter energia suficiente para manter o moral de sua equipe por muito tempo. Muitos jornais independentes desaparecem devido ao cansaço, ou por desentendimentos entre o pequeno grupo que o dirige. No entanto, muitas de suas aventuras persistem. O tempo de existência de todas essas publicações é, muitas vezes, maior do que o de muitos jornais ortodoxos que superestimam seu potencial de venda e de anúncios.
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“O humor, as charges e a sátira são indissociáveis da seriedade da informação. A passagem à informação deve ser feita graças ao humor”, explica Michel Gairaud

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“O trabalho voluntário é uma dificuldade. Mas também é a fonte de nossa força. A força de nossas convicções”, afirma a equipe de La Mée. Trabalhando desde 1972, a redação desse jornal consegue a façanha de editar um semanário de doze a dezesseis páginas, bem informado, sem qualquer remuneração. Todas as noites de sexta-feira, os principais artigos são relidos por seis pessoas. A diagramação e a impressão são feitas nos finais de semana.

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Coletivo de voluntários

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A imprensa independente baseia-se, fundamentalmente, num coletivo de voluntários. Pesquisando entre cerca de trinta títulos (com uma circulação que varia de 80 a 40 mil exemplares), constata-se que apenas dois são editados por empresas formalmente registradas e menos da metade têm condições de remunerar parte da equipe. Além do mais, a maioria é contratada mediante contratos incentivados pelo governo4 . La Feuille, de Villeneuve-sur-Lot, é o único jornal que dispõe de uma equipe de seis pessoas totalmente assalariadas.

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Entretanto, é cada vez maior o número de jornalistas profissionais que se interessa por esse tipo de imprensa. Egresso do prestigioso Centro de Formação de Jornalistas (CFJ), sobre o qual escreveu um livro revelando os bastidores5 , François Ruffin voltou para Amiens, retomando seu trabalho no jornal Fakir. Michel Gairaud acaba de ser contratado pelo jornal Le Ravi após ter estudado no Centro Universitário de Ensino de Jornalismo de Strasbourg e ter vivido uma longa experiência na imprensa nacional (La Croix e Témoignage Chrétien). Após sua formatura, Olivier Cyran trabalhou dez anos no semanário Charlie Hebdo antes de participar do CQFD, onde trabalha atualmente. Lettre à Lulu conta com a participação de correspondentes nacionais. Vários jornalistas da imprensa regional colaboram, abertamente ou de maneira discreta, com os jornais Satiricon, Le Ravi e La Galipote, muitas vezes para divulgarem matérias censuradas ou que suas próprias redações consideram irrelevantes. Outros, como Guy Nanteuil, vindo do Sud-Ouest, gostariam de participar de La Feuille.

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Na redação do CQFD, pretendem lutar contra a hierarquia. Não existe editor. Três jornalistas participam, em tempo quase integral (apenas um é remunerado), da Comissão de Redação e têm um mandato de “releitura”. “De qualquer maneira, teríamos que enfrentar o trabalho precário”, explica François Maliet. “Pretendemos, eventualmente, mudar essa situação. Mas somos bastante críticos em relação a salários; uma ajuda de custos seria o suficiente.”


A falta das grandes reportagens

A denúncia da indignação pode se tornar maçante. O mundo já não tem nada de engraçado. Pode-se falar do assunto, sem procurar a auto-comiseração
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Michel Gairaud, único jornalista remunerado da redação de Le Ravi, vê alguns limites no modelo associativo: “Nossa liberdade real, do ponto de vista editorial, é freada por nossos compromissos diários, que restringem nosso trabalho de investigação” Etienne Ballan tem a esperança de reunir jornalistas que tenham condições de investir vários meses para levantar uma reportagem, oferecendo-lhes espaço para publicar as matérias mediante remuneração. Bruno Jalabert, um veterano do jornal La Cuvette, de Grenoble, acredita numa “exceção da informação”. Sonha com um estatuto específico para o jornalismo, com o qual fosse permitido aos free lancers lançarem-se a reportagens de fôlego.
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As assinaturas (que variam de 5% a 80% das vendas, conforme o jornal) permitem garantir um mínimo de dinheiro em caixa para organizar a redação e a gráfica. Mas, acima de 500 ou mil exemplares, a circulação é feita em bancas de jornal. Para os novatos, a venda em banca, embora indispensável, muitas vezes tem que ser acompanhada pela venda avulsa, em mesas de bar ou durante eventos, que têm que ser acompanhados. Para garantir a maior presença possível, deve se contar com um encalhe alto e saber ganhar no papo os donos das bancas. Também é importante ter visibilidade nas livrarias maiores, que vendem jornais e revistas. O jornal CQFD, por exemplo, que tem circulação nacional, mobilizou seus leitores para verificarem se as pilhas de jornais não ficavam esquecidas em algum canto.
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Um jornal também se deve impor um mínimo de disciplina para atender às expectativas de seus leitores. Estar inscrito na Comissão Paritária, que permite tarifas postais preferenciais e diminuição dos encargos fiscais (TVA de 2,1%), assim como recompensar quem publique pelo menos um número por trimestre6 .

Os riscos com a Justiça

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O recurso à publicidade continua raro. Os anunciantes, de maneira geral, preferem as publicações insossas. Embora La Feuille tenha conseguido atingir 60% de seu faturamento graças à publicidade, os primeiros resultados verificados com a distribuição demonstraram que perdera seus principais clientes: “Quanto menos publicidade temos, maior é o número de leitores”, garante Anne Carpentier.
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Muitos jornais independentes desaparecem devido ao cansaço, ou por desentendimentos entre o pequeno grupo que o dirige, mas suas aventuras persistem

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No dia 2 de julho de 2004, despencou a lâmina da guilhotina sobre o jornal Pumpernickel. O tribunal condenou seu redator Antoine Michon por difamação contra o prefeito de Wissembourg, Pierre Bertrand. Em primeira instância, ele fora punido com uma multa de 600 euros (cerca de 2.300 reais) com direito a sursis. Desta vez, entretanto, a multa, os custos por perdas e danos e as despesas judiciais chegaram a 5.350 euros (mais de 20 mil reais), o que equivale às despesas acumuladas do jornal desde sua fundação, há nove anos7 .

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Mesmo com uma tiragem tão limitada quanto os 750 exemplares do jornal de Wissembourg, a imprensa alternativa tem que defender freqüentemente sua independência na justiça. O nanico Dauphin libre, com algumas dezenas de leitores, foi condenado por concorrência injustificável pelo gigante Dauphiné libere, com suas centenas de milhares de exemplares. Teve que abrir mão do título, tornando-se Cétacé libre.

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Avalanche de processos

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Muitos jornais foram, ou estão sendo, processados por difamação (Fakir, Tonic, Le Ravi, La Lettre à Lulu, La Mée, CQFD etc.). Os primeiros processos podem desestabilizar redações pouco acostumadas com ações judiciais. Com apenas um ano de existência, Le Ravi teve que explicar a um juiz, no mês de setembro, por que havia comparado o prefeito de Menton com o ex-prefeito de Cannes8 . Antes das eleições municipais de 1995, o desenhista Pierre Samson quis publicar um jornal para romper com o consenso que prevalecia na cidade de Toulouse. Satiricon deu o azar de criticar o prefeito, Dominique Baudis, que exigiu uma multa de 50 mil francos por um texto que gozava do serviço social da cidade. O jornal foi forçado a continuar existindo para pagar a multa. Existe até hoje e continua tendo que publicar as informações e os trâmites judiciais envolvendo, justamente, aquele serviço social...

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Às vezes, as exigências de indenizações e juros são tão grandes que podem levar um jornal ao fechamento. Marc Gentilini, por exemplo, presidente da Cruz Vermelha, reivindica uma indenização de 35 mil euros (mais de 130 mil reais) por parte do “jornal de desempregados” CQFD, embora já tenha manifestado seu direito de resposta9 . “Num processo, quando a gente perde, perde tudo e quando ganha, não ganha nada”, diz François Ruffin, preocupado. O jornalista do Fakir ganhou, em primeira instância, o processo que lhe moveu o chefe da agência local do Courrier Picard, que não gostou de ter sido caricaturado como bajulador e exigia uma indenização de 30 mil euros (115 mil reais) 10 .


A avalanche de processos contra a imprensa independente revela sua capacidade de acertar o alvo e incomodar


A avalanche de processos contra a imprensa independente chama mais a atenção porque as ações judiciais são raras na imprensa regional – e excepcionais, no caso do rádio e televisão. Isso é menos revelador da inexperiência, por parte dos jornais independentes, do que de sua capacidade de acertar o alvo e incomodar. Pois muitos desses processos são ganhos. Os jornalistas que não fazem concessões aprendem mais rapidamente que os outros a verificar e confirmar suas informações. De 1976 até hoje, La Feuille foi processado vinte vezes e seu advogado, Michel Zaoui, ganhou dezoito dessas ações. Leitores do jornal compareceram várias vezes perante o tribunal, em sua defesa. Atualmente, as ações judiciais são mais raras. La Feuille conseguiu se fazer respeitar e impôs seu tipo de jornalismo. “Ao adotar um tom mordaz e pouco respeitos para com as autoridades, devemos estar preparados para todo tipo de ameaças”, conclui Nicolas de la Casinière, de Lettre à Lulu. Seu jornal já ganhou quatro processos.

Isolamento da dissidência


O isolamento da dissidência também se manifesta pelo silêncio dos colegas. As informações da imprensa independente raramente são analisadas pela imprensa regional. “Ninguém discute nossas matérias no âmbito local, o que é uma prova de qualidade”, ironiza Pierre Samson. Com um olhar mais distante, a imprensa nacional mostra-se, às vezes, mais amigável. Os jornalistas da imprensa tradicional, ou empregados do serviço público, ou dos grandes jornais regionais, queixam-se de não terem tempo, nem recursos, para fazer reportagens como aquelas... que produzem os voluntários. Nem sequer procuram verificar informações de interesse geral, quando estas são reveladas por seus colegas “amadores”.
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Para romper esse isolamento, vários jornais realizaram um encontro no dia 1º de abril de 2004, em Wissembourg, para dar seu apoio ao Pumpernickel e fazer algumas reivindicações em matéria de direitos de imprensa. Essa primeira reunião, batizada de “Sathiriton”, deverá ter continuidade no ano que vem, em Bayonne. Todos querem demonstrar à sua maneira que é possível fazer um jornal sem capital, sem subvenções, sem “marketing de redação”; exclusivamente por meio da energia de procurar e publicar informações que interessam aos leitores e cidadãos.

“Vida de verdade”

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Num momento em que o desencanto se abate com tanta freqüência entre os jornalistas, a independência lhes dá asas: “Curiosamente, não me sinto, de forma alguma, desanimada. Minha cidade não é Paris, minhas reuniões profissionais nunca ocorrem durante as chamadas conferências ‘de imprensa’ – das quais fujo, como da peste, assim como evito qualquer tipo de artigo que envolva a discussão das chamadas questões ‘de imprensa’, que jogo rapidamente no lixo, sem mesmo ler para não sujar os olhos. Coquetéis, inaugurações, lançamentos e discursos não me interessam. O que me interessa? Os bípedes à minha volta. As pessoas de verdade da vida de verdade11 .”

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Com 55 anos de idade, Anne Carpentier ainda sabe divertir-se diariamente, em sua pequena cidade da região sudoeste, com seus colegas da Feuille ou com seus leitores. Seu discurso e as inúmeras matérias que apurou e publicou representam uma contribuição mais fértil para novas vocações do que os remorsos do New York Times, as viagens de correspondentes de guerra sem informações ou as matérias fotocopiadas de grandes repórteres a reboque de processos judiciais.

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(Trad.: Jô Amado)

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1 - No dia 8 de julho de 2004, Serge Dassault tornou-se o novo presidente da Socpresse. Político de direita, ele é dono do grupo Dassault (conhecido também por seus aviões), que já controla Le Figaro e inúmeros jornais regionais, o semanário L’Express, a revista L’Expansion e mais 14 títulos, tornando-se, por meio de sua empresa Socpress, o principal grupo de imprensa diária da França.
2 - Ler, de Anne Carpentier, Petit précis de revolte élémentaire, contre la “taxe sur la misère ajoutée” , ed. Albin Michel, Paris, 2004.
3 - Você poderá encontrar cerca de 30 publicações citadas no site do Monde diplomatique: www.monde-diplomatique.fr A revista Silence atualiza, a cada dois anos, um “anuário da imprensa diferente”, com amplo destaque para os assuntos de cunho ecológico: http://www.revuesilence.net/
4 - Para combater o desemprego, o governo francês incentiva financeiramente empresas e assalariados (algo do tipo do "primeiro emprego" no Brasil), com isenções fiscais.
5 - Ler, de François Ruffin, Les petits soldats du journalisme, ed. Les Arsènes, Paris, 2003.
6 - O site da Direction du Développement des Médias, vinculado ao gabinete do primeiro-ministro, divulga as condições determinadas pela Comissão Paritária das publicações e agências noticiosas (CPPAP): www.ddm.gouv.fr
7 - Leia, na íntegra, as informações sobre o caso no site: pumper.nickel@laposte.net
8 - Leia a edição nº 5 no site: www.leravi.org
9 - A audiência está marcada para o próximo dia 16 de novembro perante a câmara correcional do tribunal de Paris. Os artigos em questão e a resposta de Gentilini poderão ser lidos no site: www.cequilfautdetruire.org
10 - Após a audiência de 9 de junho de 2004, o tribunal de Paris irá julgar o recurso no próximo dia 15 de setembro. Para uma informação detalhada, veja o site: www.fakirpresse.info
11 - Petit précis de révolte élémentaire, op. cit.

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in Le Monde Diplomatique - BR 2004

imagem retirada de a palavra latina

jornal associado de Portal Resumen Latinoamericano

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

A importância da imprensa alternativa







Gustavo Barreto, 21 de junho, 2004


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Se você diz que ainda há uma imprensa alternativa nos dias de hojejá que o período "de ouro" deste tipo de imprensa foi durante a ditaduraentão você está dizendo, no mínimo, que existe uma outra imprensa, aquela que não é alternativa. Ou seja, seria o mesmo que dizer que há uma imprensa padrão, a dita grande imprensa. E que nós, da imprensa alternativa, nos opomos parcialmente a elas.


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Isso não significa entrar em um jogo maniqueísta, dizendo que somos nós contra eles. Não é isso. É apenas destacar que nós temos uma linha editorial diferente, com toda uma estrutura de pensamento e lógica conceitual diferente. Somos, enfim, ideologicamente diferentes.


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Este é um aspecto.


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Outra característica, mais técnica, é muito mais fácil de ser explicada. A imprensa alternativa não possui, em grande parte, meios de comunicação de massa. TVs, jornais de grande circulação, rádios. Tudo isso está, em maioria absoluta, na mão da "grande imprensa". Há um ou outro caso de programação alternativa na tevê, como por exemplo a TV CUT, que passa na Rede TV uma vez por semana. Há alguns bons programas na tevê fechada, que não chega à maior parte da população. As tevês da Câmara Federal e do Senado têm uma programação excelente. Mas a estrutura ainda pertence a poucos e poderosos grupos, que por sua vez detêm a maior parte das verbas da publicidade.


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Este, portanto, é outro aspecto: a propriedade de meios.


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No primeiro aspecto — o ideológico — a imprensa alternativa se coloca de forma muito clara do lado dos oprimidos e contra os opressores. E estas não são palavras abstratas, como se costuma dizer. Cabe um breve relato sobre este assunto, dada a importância da linguagem.


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Oprimido é o trabalhador informal, o gari, a empregada, a prostituta, o cara da periferia, aquela mulher que tem pouca informação e acaba fazendo muitos filhos. O bêbado, o drogado, a criança que vive na rua, o adolescente no tráfico porque não tem emprego e escola. Estes são os principais oprimidos.


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É, de forma muito clara, o que paga a conta do país. Nos jornais, todos os jornais, você ouve cada vez mais falar em queda da renda, aumento do trabalho informal e do desemprego, aumento da carga tributária e por aí vai. Isto não muda simplesmente porque há um "operário" no poder. É preciso mudar alguma coisa, não apenas as características pessoais de um governante. Quem paga isso é, em grande parte, a classe mais pobre e, também, a classe média por meio dos impostos. Isso tem a ver com a estrutura jurídica, tributária e de propriedade, no campo ou na cidade.


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Tendo maior poder de negociação, as pessoas que menos sofrem com a recessão possuem um acesso muito maior à mídia. E a isto boa parte da mídia chama de "imparcialidade". Eles dizem: "Vamos, de forma imparcial e democrática, ouvir o megaempresário e o mendigo. Vamos colocá-los juntos e ouvi-los". Aí o mendigo não consegue falar, não consegue passar sua idéia. Ele está desorganizado, não conhece os outros mendigos. Está desesperado. Se o pessoal da produção oferecer um pão, a crítica dele já será outra, mais mansa.


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Depois fala o megaempresário. Possui três empresas, provavelmente herdadas do pai, do tio, do avô. Está confortável em sua posição, viaja duas vezes por ano para a Europa, participa de um seminário por mês, onde encontrará todos os seus amigos megaempresários. Naturalmente ele estará mais à vontade para colocar suas posições.


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Esta é uma metáfora, pode ser visto como uma metáfora, mas é parecido com o que acontece, de forma mais geral, com os diversos segmentos de nossa sociedade. O próprio movimento sindicalde onde nosso presidente veiopossui essas disparidades.


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O que faz, portanto, a imprensa alternativa hoje? Dá voz aos mal-pagos. Está do lado do ferrado, do injustiçado, do cara que está com tanta fome que nem gritar consegue. Está do lado das senzalas pós-modernas. A grande mídia, ou boa parte dela, não consegue nem enxergar isso. Muitas vezesmas não todasnão se trata de má-fé. No entanto, é no mínimo patético pegar o cara que já nasceu condenado a todas as formas de injustiça e colocar no mesmo patamar que o garoto da Zona Sul, que teve uma educação européia. É no mínimo ridículo.


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A isso chamam "imparcialidade".


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É exatamente nesse sentido que o filósofo Max Weber afirmou que "neutro é quem já se decidiu pelo mais forte". Aqui entra a imprensa alternativa, que se parece um pouco com algumas mídias da Europa.


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A idéia de uma imprensa não-partidária, ou seja, que não se posicione politicamente (no sentido mais amplo da palavra, e não apenas institucional) é um juízo de valor oriundo do jornalismo norte-americano. E o jornalismo brasileiro é o cavalo de Platão do jornalismo norte-americano. Segundo este modelo, a busca da imparcialidade e objetividade deve ser o eixo da produção jornalística.


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Mesmo tendo um profundo respeito por ela, os editores e integrantes da imprensa alternativa, em grande parte, não concordam com esta visão. É principalmente na Europa, como eu disse, que se pratica um outro modelo, que consideramos mais pertinente, no qual o posicionamento político é natural e necessário. A imparcialidade, deste ponto de vista, só pode ser alcançado se o jornalismo não for encarado com dois pesos e duas medidas.


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No campo da sociologia de esquerda, existia um pensamento muito forte que dizia o seguinte: quanto pior estiver a economia, mais chances de o povo se revoltar. Disso, viria a revolução e as mudanças estruturais. Este é um pensamento clássico, de esquerda, mas certamente obsoleto. Quase que toda a esquerda já notou uma coisa que parece cada vez mais óbvia: povo com fome não gera revolução, e sim submissão.


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Esta pequena e abrangente lógica está atingindo, ironicamente, a imprensa. Seja qual for o motivo da crise, é certo que os modelos de administração das atuais empresas de comunicação estão falidos. Todos os grandes grupos estão em crise, de forma mais ou menos acentuada. Com isso, está aumentando cada vez mais a dependência destes grupos em relação ao pessoal da grana, do dinheiro.


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É este o significado do discurso de que o "capital" possui o domínio sobre os meios de comunicação. Estas não são palavras vazias, abstratas. Pode-se argumentar — e eu discordo dessa argumentação — que tais palavras são muito agressivas. Mas não deixam de ser sábias.


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Quem é o "capital"? Ora bolas, quem tem o dinheiro e investe nas empresas de comunicação. E quem são estas entidades? Bancos, empresas em expansão (telefonia, multinacionais etc.) e, principalmente, o governo.


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Este é o ponto crucial: mesmo que as empresas tenham poder, o governo possui duas formas de pressão essenciais. É do governo que vem uma quantidade considerável de publicidade. E é do governo federal que virá a verba de financiamento, via BNDES, para fomentar o "mercado" de comunicação e gerar empregos.


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Não é de se estranhar que a grande mídia esteja praticamente de joelhos para os governos, estejam estes na esfera federal, estadual ou municipal.


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Com este quadro, é fácil explicar porque a TV Bandeirantes demitiu o apresentador Jorge Kajuru por fazer críticas ao governador de Minas, Aécio Neves; porque o Jornal do Brasil demitiu um de seus mais tradicionais jornalistas, o Alberto Dines, por fazer críticas à relação entre o jornal e o governo Garotinho (RJ); mais fácil ainda podemos perceber porque o melhor jornal do país em termos jornalísticos (não julgando aqui ideologia) — o carioca O Globo — é o mais amistoso e declaradamente pró-governo federal em sua linha editorial.


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Não é difícil visualizar as intenções da família Marinho quando faz campanha pelo homem do dinheiro no governo, o ministro Palocci, e atua em conjunto com este ao dizer que os senadores que votaram contra o minguado salário de R$ 260 é que são os "traidores" da grande causa humanista de Palocci de dar apenas R$ 4 de aumento real por causa da "responsabilidade fiscal" — levando inclusive um ministro de Lula, Jacques Wagner, a afirmar em maio: "O povo não come estabilidade".


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Sem contar a revista Veja e sua edição-propaganda de Antonio Palocci. Mas a revista Veja não conta mais. É peça publicitária.


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Isto ocorre, em linhas gerais, porque o poder econômico está prevalecendo sobre a autonomia ideológica, mesmo que você aceite o discurso da imparcialidade e da objetividade.


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Pergunta-se se esta é uma relação direta ou se os jornalistas realmente acreditam que é normal que o ministro da Fazenda tenha mais importância do que o ministro da Culturauma figura medíocre politicamente e brilhante no que faz (e de onde nunca deveria ter saído) e que diz: "Em casa de pobre também se come", aceitando a falta de verbas de seu ministério, imposto, sempre, pela "responsabilidade fiscal" de Palocci.


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A resposta desta pergunta é, talvez, "tanto faz". Tanto faz se o jornalista é censurado ou se ele faz autocensura. O resultado — ou seja, o apoio incondicional às linhas gerais do pensamento economicista de empresas e governos — é o mesmo.


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Diante de tudo isso, está explícita a importância da imprensa alternativa — aquela que pensa de forma independente e que não aceita interiorizar a idéia de que o ministro da Fazenda é mais importante que o da Cultura.


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Isto não significa, como se verifica inclusive dentro da própria imprensa alternativa, negar o lado econômico. Muito pelo contrário. O maior desafio da imprensa alternativa é viabilizar um projeto administrativo que não dependa exclusivamente de verbas oficiais ou das megacorporações empresariais, ao mesmo tempo em que solidifica uma posição afirmativa e empreendedora que diga muito claramente: nenhum ser humano é ilegal.


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Basicamente, unir o sonho da justiça social à perspicácia do empreendedorismo. Não é algo impossível. Não é sequer difícil. É apenas um desafio diário e contínuo.


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Quatro perguntas da ABI


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Quatro perguntas de Rodrigo Britto, repórter da ABI (Associação Brasileira de Imprensa), para Gustavo Barreto, editor da revista Consciência.Net (www.consciencia.net), sobre imprensa alternativa. Rio de Janeiro, 25 de junho, 2004


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1 - O que é a imprensa alternativa e a qual a sua importância? É ela de informação ou opinião?


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A imprensa alternativa é, basicamente, aquela que não é a grande imprensa. Este é o ponto de partida, a bipolaridade inicial, e é evidente que não há uma delimitação matemática para essa divisão. Há muita imprensa "alternativa" que é conservadora, ao passo que há muita gente boa na grande imprensa. Isso não significa, portanto, entrar em um jogo maniqueísta, dizendo que somos nós contra eles. Não é isso. É apenas destacar que nós temos uma linha editorial diferente, com toda uma estrutura de pensamento e lógica conceitual diferente. Somos, enfim, ideologicamente diferentes. (veja mais em www.consciencia.net/2004/mes/06/barreto-alternativa.html)


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Outro aspecto que não pode ser deixado de lado é a propriedade dos meios de comunicação. Este é um foco que a imprensa alternativa combate: a concentração deste tipo de propriedade. Isto não significa que não se possa ter "imprensa alternativa" em um meio que possua muitas propriedadesou seja, isto é uma realidade, mas não é a regra. Imprensa alternativa remete, antes de tudo, a um posicionamento independente e centrado no ser humano e no respeito pela vida. Algo com o que a maior parte das empresas e governos não se preocupa.


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A importância dela reside na necessária independência de opinião, que por sua vez gera a informação mais correta. A diversidade informativa, característica da imprensa alternativa, é outro fator que se faz necessária em uma democracia não-formal.


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Esta oposição informação-opinião não existe de fato. Ela é um conceito jornalístico importante, mas não existe. A opinião muitas vezes gera informação.


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Se eu acho, por exemplo, que o Estado deve retornar aos seus cidadãos o dinheiro que estes dão ao Estado, eu tenho um foco que me levará a determinadas fontes. É uma opinião gerando informação. Se, por outro lado, eu acho razoável que um funcionário acumule cargos em empresas privadas e órgãos públicos ao mesmo tempo, e que disso saia uma parceria entre os dois, então eu tenho um outro foco.


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A informação, por sua vez, também gera opinião. Isto já se sabe, porque esta é a parte que os grandes jornais destacamum desses chavões que vendem credibilidade. Eles se esquecem que o oposto também acontece: a opinião de uma pessoa pode determinar os rumos da informação que recebe.


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2 - Como podem sobreviver estes meios e as pessoas envolvidas em informar fora dos meios ditos 'oficiais', a 'grande imprensa'?


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Não há resposta. Aliás, na vida não há respostas, apenas escolhas. Não se trata de mais um chavão. A "resposta" jornalística, oriunda da pesquisa minuciosa e verificação dos fatos, só pode ser revelada se alguém fez uma pergunta. Isto parece evidente. Agora, cabe perguntar: quem escolhe as perguntas?


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Esta é uma escolha concreta da imprensa alternativa: trabalhar para viabilizar a indenpendência jornalística, sem aderir a empresas e governos que podem, via publicidade, praticar censura e autocensura, como tem ocorrido. Trata-se de dizer: nós somos independentes o suficiente para formular nossas próprias perguntas.


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Citando um exemplo rápido. Os jornais, rádios e tevês perguntam toda semana: o PIB do Brasil vai crescer? Quanto? São perguntas feitas por pessoas alheias ao povo. Somos limitados a este tipo de pergunta. "Sim", "Não", "3,5% do PIB", "Não, eu discordo, vai ser 4% do PIB". É uma discussão vazia, que não serve para nada a não ser ocupar a cabeça das pessoas.


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Enquanto empresas e governos oferecem facilidades para "acomodar" os jornalistas, nós oferecemos um amigável "não, muito obrigado, temos algo mais nobre a perseguir". Temos a informação como instrumento de transformação social, e não de transformação pessoal.


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3 - De que forma são sufocados esses meios alternativos pelos inflexíveis conglomerados de mídia?


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De diversas maneiras. A mais visível é pela publicidade. As verbas para os grandes blocos de comunicação fazem com que eles se fortaleçam e continuem a receber mais verbas. É um ciclo sem fim.


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Uma outra forma é pela repetição. O já falecido sociólogo Pierre Bordieu lembrou bem que, hoje em dia, os redatores passam mais tempo lendo os jornais adversários do que buscando fatos novos. Há exceções, é claro. Mas em geral é este o mecanismo que faz com que um determinado assunto esteja em todos os meios de comunicação ou em nenhum. E com isso ganham as assessorias de comunicação mais competentes. A indústria das Relações Públicas está dizimando o jornalismo. Ou melhor: está modificando o jornalismo. Mudando conceitos. Querem transformar "release" e "reportagem" em uma coisa só.


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Na nossa História, fica claro que é muito mais fácil você absorver seu inimigo do que destruí-lo. As empresas sabem disso e sabem o estrago que a verdade noticiada pode fazer com muitas delas.


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Os noticiários, portanto, são muito parecidos. Há uma ou outra diferença, muda-se um sujeito aqui e uma forma de contar ali, mas o leitor comum não percebe essas "mudanças". O tema é o mesmo. Isso prejudica outros temas. A sociedade não ignora a importância deles, principalmente os que se relacionam diretamente às suas vidas.


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A renegociação da dívida que inibe os investimentos sociais não é pautaa grande imprensa prefere falar em "austeridade fiscal". A reforma agrária não é pautaa grande imprensa prefere falar na "ameaça das invasões dos sem-terra". Hospitais e Escolas em crise são tidos como casos isoladosbasta dar voz ao cara da comunidade e ao secretário da pasta que está tudo resolvido. O buraco, sabemos, é mais embaixo.


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São muitos os exemplos. O receptor comum, que não tem tempo para analisar minuciosamente a mídia, acaba achando que determinado tema é essencial, pois todos os meios de comunicação estão a falar sobre ele.


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Muitos temas sociais estão marginalizados. O exemplo mais desumano que conheço é a infância e adolescência. Analisando a mídia como um todo, parece ser uma questão secundária, atrás de "crescimento econômico" ou de "reformas necessárias". Isto, dizem, é mais importante do que falar sobre a situação das creches.


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A Lei das Falências, que limita em apenas 150 salários mínimos os direitos dos trabalhadores, incluindo os resultantes de acidentes de trabalho, e esquece de limitar os direitos das instituições financeiras, é uma "reforma necessária". Esta é a grande imprensa, em grande parte.


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Mas, como disse, há várias formas de sufocar a imprensa alternativa. Só há uma coisa impossível de sufocar: nossa resistência pela valorização da vida. A verdadeira imprensa alternativa incomoda pois sua ideologia não está à venda.


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4 - Há alternativa? A isso deveriam receber que tipo de apoio? Seria o caso do Estado, uma outra voz pública?


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Sim. O maior apoio que um comunicador recebe do seu trabalho é o retorno humano. Isto gera motivação, que por sua vez gera engajamento na viabilização econômica. Não se trata de utopia, portanto. É questão de inteligência ser solidário, dizia o sociólogo Betinho. Hoje, a mídia é cada vez mais interativa, e acho que isso diz respeito às pessoas que estão na imprensa alternativa ou que criam alternativas dentro dos grandes meios. Há essa necessidade de ter o retorno não apenas financeiro.


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O "Estado" é uma palavra muito abstrata, porque existe uma série de esferas administrativas, muitas independentes entre si, e por isso é possível achar apoio em muitos lugares do Estado. O que as pessoas muitas vezes esqueceme eu também não isento a grande imprensa deste "esquecimento"é de que o Estado está a nosso serviço. Os governos são nossos empregados, pois é o trabalhador quem banca o Estado por meio dos impostos. Não foi feito para pagar dívidas de empresas privadas ou para isentá-las de impostos.


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Dito desta forma nos parece algo óbvio, mas em muitos momentos isto soa "utópico". É verdade, em alguns governos isto é uma utopia. Mas é bom lembrar que este princípio republicano ainda não foi retirado da Constituição. Até lá continuaremos a defendê-lo.







Gustavo Barreto é editor da revista Consciência.Net (http://www.consciencia.net/), colaborador do Núcleo Piratininga de Comunicação (www.piratininga.org.br), estudante de Comunicação Social da UFRJ e bolsista do Programa Institucional de Bolsa de Inciação Científica (PIBIC) pela ECO/UFRJ
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http://www.consciencia.net/2004/mes/06/barreto-alternativa.html