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sábado, 27 de junho de 2026

Susana Prizendt - Das terras raras às terras áridas

 


Estamos assistindo a um processo acelerado de degradação dos nossos solos. As terras férteis estão ficando cada vez mais raras

Por Redação

26/06/26 •  

Resumo da notícia ​

Das terras raras às terras áridas: o país no limiar entre a bênção e a maldição 

“Meu pai, quando encontrava um problema na roça, se deitava sobre a terra com o ouvido voltado para o seu interior, para decidir o que usar, o que fazer, onde avançar, onde recuar. Como um médico a procura do coração” 


Itamar Vieira Junior, Torto Arado

por Susana Prizendt

(artigo escrito inteiramente por uma pessoa humana)

Suspensa em um apartamento de um bairro cada vez mais verticalizado da capital paulista – assim como outras milhões de pessoas urbanizadas -, posso esquecer que, sob todas as camadas de concreto abaixo de mim, existe um elemento natural chamado solo. Mas, ao regar minhas plantinhas na janela, procuro me conscientizar de que, apesar do crescente sufocamento ao qual ele tem sido submetido, ele ainda está lá, resistindo a ser dado como morto.

Há mais de 4 décadas, a Dra Ana Primavesi, mestra inconteste de quem atua nos movimentos agroecológicos, já semeara, no meio acadêmico brasileiro, algo que nossos povos originários sempre souberam: o solo é um organismo vivo. Ele pulsa, gestando lentamente as condições para a existência do que chamamos de fertilidade.

Estima-se que um quarto das espécies de seres vivos já conhecidas por nós esteja no solo. É o dobro das que habitam os oceanos. Uma biodiversidade que envolve animais, vegetais, fungos e uma infinidade de microorganismos, em uma trama dinâmica e vibrante, responsável pela ciclagem da matéria. Este é o processo que permite o crescimento das plantas; são elas que vão alimentar a fauna local e, também, a população humana.


domingo, 15 de fevereiro de 2026

Adriano Zilhão - AS TEMPESTADES E ALGUMAS PERGUNTAS INCÓMODAS

 
REFLEXÃO

Adriano Zilhão, 
O Maio.

Além do ímpeto solidário de acudir às populações que mais sofreram, as violentas tempestades que assolaram o país suscitam muita reflexão, muitos porquês.

Porque foram as populações forçadas a abandonar quase todo o país e a concentrar-se numas poucas zonas urbanas no litoral?

Porque se faz, nestas zonas, a construção cada vez mais longe dos centros (mesmo quando há espaço nestes), com materiais inadequados para as condições climáticas e para o conforto dos habitantes, sem planeamento urbano, transportes acessíveis, equipamentos adequados de saúde e ensino, zonas verdes e espaços seguros para crianças?

Porque se constroem fábricas e depois casas para quem nelas trabalha, em leitos de cheia, zonas inundáveis, expostas a isto que agora se chama “eventos climáticos extremos”?

Porque se plantam espécies florestais quase sempre em monocultura, de maneira que, quando acontece alguma coisa, a devastação é total, seja incêndio ou vendaval?

Os economistas costumam usar uma palavra muito “técnica”, novilinguística, para se referirem a estas consequências nefastas do desenvolvimento capitalista: externalidades.

O princípio básico da “economia de mercado” capitalista é simples: todas as relações económicas e sociais ocorrem em mercados. Nada do que se produz se faz para satisfazer as necessidades do produtor ou da comunidade a que pertence. Tudo se produz a pensar em encontrar compradores num mercado, próximo ou longínquo, onde se possa vender o produto com lucro.

Tanto a produção de bens e serviços como o seu consumo pelos indivíduos e famílias não têm, portanto, nada que ver com as deliberações de cada comunidade sobre o que se há-de produzir, como, quando, para quê e para quem.

Em vez disso, “investidores” que dispõem de capitais estimam quanto custarão nos mercados as fábricas que terão de construir, as máquinas e matérias-primas que terão de comprar e os salários que terão de pagar aos trabalhadores que precisarem de empregar; se virem que há ou haverá mercado lucrativo para o que se propõem produzir, avançam.

A doutrina liberal ensina que nenhum método de organização social é superior a este: a miríade de decisões independentes de investimento com fim lucrativo terá o efeito miraculoso de os recursos sociais disponíveis serem usados da maneira mais eficiente possível para a sociedade como um todo. Uma espécie de mão invisível guiaria as decisões egoístas de cada capitalista para um resultado global que, nas condições dadas, é, no fundo, “altruísta”, uma vez que socialmente melhor não será possível.

O observador céptico pode achar: “Bem, se eu fosse um desses capitalistas que quer fazer dinheiro, acharia esta teoria utilíssima — apesar de parecer um bocado estapafúrdia…” Estapafúrdia, realmente: vendo bem, o único resultado evidente de organizar assim os recursos da sociedade é que o capitalista, pelo menos o capitalista bem-sucedido, atinge o seu fim, que é multiplicar o seu capital. Quanto ao mais…

Voltemos às “externalidades”.

Os produtos ou serviços em cuja produção o capitalista decidiu investir não são a única consequência do seu investimento.

Por exemplo, a exploração mineira, depois de o respectivo capitalista ter comprado ou concessionado o terreno, comprado ou alugado maquinaria e combustíveis, contratado pessoal e pagado impostos, não produz apenas matérias-primas prontas para vender a compradores industriais. Também produz uma transformação profunda do território em que se faz; pode obrigar populações a deslocarem-se; polui cursos de água e a atmosfera; causa doenças graves aos operários e aos habitantes; altera ou destrói ecossistemas.

O mesmo no caso da indústria transformadora; e da agricultura intensiva; e da exploração florestal.

No entanto, na sua esmagadora maioria, estes “efeitos colaterais” da produção capitalista não têm preço em nenhum mercado. O capitalista não tem de pagar por eles nem de incluí-los nos seus cálculos de rentabilidade.

Os efeitos colaterais não são “privados”. São custos sociais futuros. Terão, aliás, mais tarde ou mais cedo, de ser pagos: no custo de brigadas de bombeiros, de tratamentos hospitalares, de evacuações de populações, de despoluição de territórios.

Para o capitalista investidor, porém, não são custo algum.

Melhor: o preço da eventual reparação futura desses efeitos será pago por quem sofre os danos ou pelo Estado; neste caso, com o dinheiro cobrado em impostos à população em geral. Que é usado para comprar produtos e serviços em mercados — lucrativos — de construção civil, manutenção de infra-estruturas, etc.

As catástrofes total ou parcialmente resultantes de efeitos colaterais de investimentos capitalistas geram, assim, novos mercados para os mesmos capitalistas, ou outros, poderem fazer negócios lucrativos.

Pergunta-se: mas porque não têm esses capitalistas, que investem para ganhar dinheiro e, nisso, transformam “colateralmente” a natureza e a organização social e territorial, que pagar por esses efeitos colaterais?

Há uma resposta simples, que eles próprios poderiam dar: se todos esses efeitos colaterais previsíveis fossem carregados a custo do investimento privado, nenhum investimento privado se faria, porque não seria lucrativo. Ora, os tais efeitos ocorrem; e ocorrendo, têm um custo.

Esse custo representa, consequentemente, uma gigantesca subvenção dada ao capital pelo Estado — essencialmente, aliás, pelos trabalhadores em geral, que, além de arcarem quase sempre com os efeitos directos das catástrofes na saúde, nas condições de vida e de trabalho, são quem paga os impostos de onde o Estado paga as subvenções virtuais ao capital.

A conclusão, para quem não tenha antolhos: numa sociedade complexa, em que todo o país é afectado por tudo o que se faz social e economicamente em qualquer parte do território (o mesmo se aplica ao mundo), só é possível controlar o destino social, económico e ambiental do país e do mundo se todas as decisões importantes, nos domínios social, económico e ambiental, forem tomadas não por investidores empenhados em tirar as castanhas do lume (sem se importarem que o lume pegue fogo a tudo o resto), apoiados para o efeito na propriedade privada dos meios de produção, mas por toda a população trabalhadora, democraticamente.

Posted by OLima at sexta-feira, fevereiro 13, 2026 

https://jornalmaio.org/as-tempestades-e-algumas-perguntas-incomodas/
https://onda7.blogspot.com/2026/02/reflexao_02008860520.html

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

Margarida Gomes entrevista Gonçalo da Câmara Pereira

Câmara Pereira: “Não vejo diabolização nenhuma em aceitar o apoio do Chega”

 

Líder do PPM vai entrar na campanha da AD na próxima semana, mas não sabe se irá participar na caranava da coligação pré-eleitoral ao lado de Luís Montenegro e de Nuno Melo.

Margarida Gomes

23 de Fevereiro de 2024, 18:34

Câmara Pereira: “Não vejo diabolização nenhuma em aceitar o apoio do Chega”
Gonçalo da Câmara Pereira praticamente só ainda entrou na campanha eleitoral através de declarações por si feitas no passado. Apesar de o PPM, que lidera, integrar a AD, Câmara Pereira não conta integrar a caravana da coligação, mas, se " for chamado a fazer actividades", irá participar "com certeza".

 

 Tem estado afastado da pré-campanha da Aliança Democrática (AD), embora seja um dos três líderes da AD. Foi silenciado?

A mim ninguém me manda calar. Quero ser uma pessoa útil à coligação, mas não me quero pôr em bicos de pés porque essa não é a minha postura. Assinámos um acordo com a Aliança Democrática em que consideramos o doutor Luís Montenegro o nosso líder, o meu líder. Ele é que tem de ser o porta-voz, é ele que dirige a coligação. Se for preciso fazer alguma acção [de campanha], se me pedirem, com certeza que estarei disponível. Acho mais importante ser útil do que ser importante. Eu não quero ser importante, quero ser útil.


Disse que iria participar na campanha oficial da AD, nomeadamente no círculo de Lisboa, pelo qual concorre. A campanha arranca domingo, quando é que se vai juntar a Luís Montenegro?
Estou na Madeira em campanha para apoiar o candidato do PPM [Paulo Brito] e espero na terça ou quarta-feira começar as minhas actividades na campanha.

 

Vai integrar a caravana da AD?

 Não sei se é integrar a caravana, mas se for chamado a fazer actividades vou com certeza. Neste momento, prefiro andar nas associações a falar com as pessoas e ver o que nós poderemos fazer para mudar o país.


E é esse papel que vai assumir a partir de agora?

Sim, talvez seja esse o meu papel. Quero ser útil a fazer outras acções, como comunicação com organizações e com instituições e vou fazê-lo. É talvez mais importante neste momento focar a posição do doutor Luís Montenegro, porque ele é que vai ser primeiro-ministro. Estive uma vida inteira em palco como actor – o palco para mim não me é estranho –, mas nunca fui segunda figura, fui sempre uma primeira figura em palco.

 

A ausência na pré-campanha da AD é uma opção sua ou está a ser mantido à margem por causa das posições machistas que revelou num programa televisivo?

 Não tem nada que ver uma coisa com a outra. Ao fim destes anos todos fui aceite como um actor por excelência. Fiz um programa em que fiz aquele boneco – como chamamos em teatro – durante 10 anos para divertir as pessoas e hoje em dia o boneco do palco passou para a minha vida privada. Ora, isto é de um bom actor. Nesta questão do machismo, o que aconteceu foi que agora trouxeram isto para a política e para a vida real, e isso é de quem não sabe o que é o teatro ou desconhece completamente o que é a cultura.

 

O secretário-geral do PS mostrou disponibilidade para viabilizar um governo minoritário AD. Como presidente do Partido Popular Monárquico (PPM), agradece a disponibilidade do líder socialista?
Com certeza, desde que viabilize o governo para mudar o paradigma da política em Portugal. Não vejo diabolização nenhuma em aceitar o apoio do Chega. Não vejo aqui mal nenhum. Não se justifica!

 

Na sua opinião, a AD devia viabilizar um governo minoritário do PS?

  Isso é com o doutor Luís Montenegro, mas, se for eleito deputado, com certeza que não me importarei nada de viabilizar qualquer governo minoritário. O que é preciso é que Portugal tenha estabilidade. Não concordei com a queda do Governo de Pedro Santana Lopes nem com o de António Costa.

 

Luís Montenegro já disse que não governará com o Chega. Concorda?

  Estou na coligação com o doutor Luís Montenegro e se ele tomou essa posição eu estou ao lado dele.

 

 O PPM ainda é um partido para ser levado a sério?

  Quem quiser levar a sério, leva, temos essa liberdade. O PPM tem um programa, é um partido ecologista e ambientalista, mas não é um partido revanchista, que entre em guerras. Temos Os Verdes, que aproveitam o ambiente e a ecologia para fazer guerra, a favor do PCP; temos o PAN, que faz guerra permanente a favor do PS. Mas nós não. Nós queremos construir uma sociedade mais ecológica, mais ambientalista e mais amiga de todos.

Há uma coisa engraçada, os jovens não votam no PPM, mas têm hoje em dia uma postura muito de acordo com o nosso programa, que é viver numa comunidade em que não se faça guerra nem à economia nem à política.

 

 O PPM está para a AD como Os Verdes estão para o PCP?

Não. Porque eles aproveitam o ambiente e a ecologia para fazerem guerra política e nós não queremos fazer guerra política. O que queremos é induzir ideias dentro do programa e soluções que respondam à agressividade do dia-a-dia, o que é completamente diferente.

 

 O partido a que preside está reduzido à família Câmara Pereira?

O PPM é um partido que defende a família e há muitos militantes dentro da família. Se defendesse oficialmente a família e não defendesse a minha, não estava cá a fazer nada.

 

O PPM não pode ser considerado como um partido dinástico?

Não. O PPM é um partido monárquico. Já o PS é um partido dinástico. Há a dinastia de António Costa com o seu filho [Pedro Costa], que preside à Junta de Freguesia de Campo de Ourique, e a dinastia de Carlos César [que foi presidente do Governo Regional dos Açores] e do seu filho, Francisco César, que encabeça a lista de candidatos a deputados do PS nos Açores.

https://www.publico.pt/2024/02/23/politica/entrevista/camara-pereira-nao-vejo-diabolizacao-nenhuma-aceitar-apoio-chega-2081433

domingo, 8 de dezembro de 2019

Helena Matos - As pessoas estúpidas

* Helena Matos
Colunista do Observador

As pessoas estúpidas são tão estúpidas que sustentam uma das mais florescentes indústrias do mundo capitalista: a indústria do viver bem à conta de chamar estúpidos aos outros.

08 dez 2019, 07:49
    
Não sei se a culpa foi do marido de Penélope Cruz gritando “estúpido” na Marcha do Clima, em Madrid, se do marido da filha do dr. Louçã transformado em profeta do apocalipse ambiental. Mas de algum deles foi certamente pois ambos com o seu particular e bem sucedido modo de vida fizeram-me perceber a importância das pessoas estúpidas. Ou seja aquelas pessoas que, com os seus impostos em ordem e desejo de viver em paz e sossego, mantêm a funcionar um sistema que o senhor Bardem e o marido da filha do dr. Louçã declaram abominar.

O genro do dr. Louçã além de ser genro do dr. Louçã, o que em Portugal é uma espécie de posto, é também dirigente de uma associação que se destacou por ter ido com vários deputados e o presidente da CML esperar a embarcação em que viajava, à boleia, uma adolescente que se notabilizou por gritar e faltar à escola. Perante isto as pessoas estúpidas interrogam-se: se não levarem os filhos à escola e os largarem pelas ruas será que os deputados, o presidente da CML, a família Louçã e os activistas do costume deixam de proferir insanidades eco-betas nas docas do Tejo e tentam entrar nos comboios atrasados da linha de Sintra? Isso, dirão os estúpidos, isso sim seria um forte contributo para perceberem porque há quem passe horas enfiado num carro, nas filas do IC19.


Aliás as pessoas estúpidas têm um problema com os transportes. Por exemplo, obstinam-se em viajar, transformando-se então no ex libris da estupidez: o turista. As pessoas inteligentes não são turistas, são viajantes. Os protegidos das pessoas inteligentes são migrantes. Já as pessoas estúpidas quando viajam são turistas obviamente estúpidos que estupidamente destroem o caracter autêntico das cidades. Pelo contrário os viajantes e os migrantes enriquecem as mesmas cidades. Percebido?

Como é óbvio as pessoas estúpidas, certamente porque são estúpidas, não percebem o atrás exposto e também não conhecem gente suficientemente inteligente (leia-se abonada) que possa emprestar-lhes um iate ou um catamarã. Aliás as pessoas mais estúpidas de todas até questionam o que seria dos oceanos se cada um dos estúpidos que agora viaja de avião optasse pelos meios de transporte que os inteligentes dizem sem impacto ambiental. Por exemplo, quantos milhões de catamarãs e iates teríamos a sulcar os mares caso prescindíssemos dos aviões? Ou será que só os inteligentes, milionários como os príncipes do Mónaco e os que poeticamente dizem que resolveram largar tudo e partir à aventura (ou seja vivem à conta da família ou dos patrocinadores) é que viajavam?

Como se vê as pessoas estúpidas perdem-se nos detalhes. Aliás as pessoas estúpidas são tão estúpidas que não percebem como os mesmos políticos que falharam rotundamente quando, nos incêndios de 2017, o país viveu uma situação de emergência se propõem agora resolver nada mais nada menos que a emergência climática do planeta. Valha a verdade, e contra nós portugueses falo, se nos fiarmos no percurso do engenheiro Guterres, temos de admitir que é mais fácil ser bem sucedido a mandar no planeta que neste seu modesto rectângulo! É evidente que as idiossincrasias nacionais levam a que as nossas pessoas estúpidas sejam ainda mais estúpidas que as demais. Por exemplo, perante a magnitude do conceito da justiça climática qualquer estúpido português dirá que aquilo que ele queria mesmo era uma justiça que funcionasse em prazos e moldes humanamente razoáveis. Isto para não falar da desordem mental que alguns estúpidos experimentam quando constatam que o mesmo país, Portugal, que segue com entusiasmo militante as sessões do inquérito ao presidente dos EUA aceitou em silêncio que o presidente da república e o primeiro-ministro de Portugal não fossem interrogados a propósito do desaparecimento/achamento das armas de Tancos porque isso pertubaria o desempenho das suas altas funções.

Está percebida a dimensão estratosférica da nossa estupidez?

As pessoas estúpidas são insensíveis aos altos voos e aos avanços civilizacionais. Por exemplo, as pessoas estúpidas não compreendem como é possível que com a Segurança Social à beira da falência o país tenha agora como desígnio não a resolução desse enorme problema mas sim a criação de um problema que nunca teve: as regiões e a regionalização.

Uma das grandes dificuldades das pessoas estúpidas resulta da sua mania de tomar tudo à letra. Por exemplo, as pessoas estúpidas acreditam que desde Novembro de 2015, o Tribunal Constitucional, os reitores indignados, os bispos agitados e os empresários compungidos entraram para a lista das espécies ameaçadas de extinção. Porquê? Porque paulatinamente têm vindo a escassear os sinais da sua outrora espalhafatosa existência.

Às pessoas estúpidas também lhes escapa a dialéctica subjacente ao facto de o mesmo governo querer às segundas, quartas e sextas construir um aeroporto no Montijo e urbanizar os terrenos da antiga Lisnave e às terças quintas e sábados pretender que as alterações climáticas vão fazer subir o nível das águas do estuário e consequentemente inundar os mesmos terrenos que no dia anterior pretendia urbanizar. Mas não acaba aqui a estupidez emanada pelas pessoas estúpidas. Por exemplo, é de uma tacanhez profunda que as pessoas estúpidas não só não percebam mas sobretudo insistam em chamar a atenção para o facto, paradoxal dizem eles, de os maiores defensores das escolas públicas e dos hospitais públicos, tratarem de não os frequentar nem eles nem os seus filhos.

“Que mude o sistema, não o clima” – gritava-se na Marcha do Clima, em Madrid, a tal marcha em que Bardem, um daqueles actores espanhóis com muito pedigree esquerdista que se mudou para os EUA para enriquecer a sério, resolveu prodigalizar o epíteto estúpido a todo e qualquer que não pense como ele.

De facto as pessoas estúpidas são mesmo estúpidas. Há quanto tempo têm de aturar esta conversa do “mudar o sistema”? Está mais ou menos implícito que todos temos de querer mudar o sistema, entendendo-se por sistema as democracias liberais. A quem quer mudar o sistema não se lhe pede um programa ou reflexões. Apenas emoções e de preferência algum mistério. Num ápice os jornais enchem-se de artigos hagiográficos sobre a figura de turno. Ainda se lembram do subcomandante Marcos com o seu rosto tapado que nos ia ensinar novas formas de organização do estado, ou seja do sistema? Quanto mais ignorante ou tresloucado for o candidato a guru da mudança do sistema maior a possibilidade do seu sucesso. Uma constante do nosso sistema é precisamente a disponibilidade das pessoas que se têm e são tidas como inteligentes para apoiar os projectos mais desequilibrados e os líderes mais perversos. Basta que acreditem que vão mudar o sistema e ei-los nas ruas, com aquele ar beatífico de quem se considera do lados dos bons.

Vale aos fiéis seguidores de Greta Thunberg que esta não passa de uma adolescente mimada e que o capitalismo inventou os telemóveis, caso contrário acabariam prisioneiros numa aparentemente perfeita comunidade agrícola, como aconteceu há 41 anos aos desgraçados que seguiram um dos ídolos do progressismo de então, Jim Jones.

Mas deixemos as pessoas inteligentes e voltemos às estúpidas. Contra tudo e todos, as pessoas estúpidas existem e estão fartas de tanto avanço civilizacional, de tanto combate e de tanta mudança radical. As pessoas estúpidas querem simplesmente que quem governa governe e não invente manobras de diversão. Pode parecer estúpido mas valia a pena tentar, digo eu.

As pessoas estúpidas querem recuperar a naturalidade dos gestos. Querem comprar uma camisola este Natal sem ter de pensar em todos os dramas do mundo. Querem que comer seja simplesmente comer e não um manifesto em prol da saúde, do ambiente e do comércio um pouco justo ou muito injusto. As pessoas estúpidas querem levar os filhos e os netos ao Jardim Zoológico sem antes terem de fazer mea culpa.

As pessoas estúpidas querem poder amar e desamar sem o medo dessa espécie de ébola das relações e das palavras que é o politicamente correcto.

As pessoas estúpidas às vezes cansam-se. De ser estúpidas? Não. Apenas que não contem com elas. Afinal se a comprovada inteligência de gente comprovadamente inteligente nos trouxe à farsa desta semana em torno de Greta Thundberg é evidente que chegou o momento de dar a vez aos estúpidos.