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sábado, 12 de novembro de 2022

Netflix, Amazon ou Disney “são grandes magnatas que vão controlar tudo”, diz o cineasta Pedro Costa


O realizador português participa esta semana na 60ª edição do Festival Internacional de Cinema de Guijón, ao mesmo tempo que, em Barcelona, a exposição “Canción de Pedro Costa” dá a conhecer obras suas, com curadoria de Javier Codesal


*  Luciana Leiderfarb Jornalista
12 NOVEMBRO 2022, 

Participa esta semana na 60ª edição do Festival Internacional de Cinema de Guijón, mas não é somente por isso que o nome de Pedro Costa está a ter tanto eco no país vizinho. Em Barcelona, o La Virreina —Centro de Imagen, a exposição “Canción de Pedro Costa” dá a conhecer obras do realizador português, com curadoria do também cineasta Javier Codesal. Momentos que celebram um cinema cru como poucos, levado a cabo com o mínimo dos meios e com pessoas reais que “podem ser tão impressionantes como Robert de Niro e Meryl Streep”.

Numa entrevista que faz a capa do suplemento Babelia deste sábado, no jornal espanhol “El País”, Pedro Costa explica a ideia que norteia o seu olhar: “A câmara serve para procurar e não para fingir coisas.”

O realizador conta como, após longas metragens como “Casa de Lava” (1994) e “Ossos” (1997), decidiu mudar de rumo. “Não me apetecia continuar a trabalhar da forma convencional como até então o tinha feito. Truffaut dizia que para fazer cinema corrente era preciso ser-se um pouco estúpido e ingénuo (naive), senão, não se aguenta. Quando vou pela rua e vejo uma filmagem, tenho de virar a cara para não morrer de riso por assistir a uma atividade patética. Eu faço um trabalho profundo com estas pessoas que necessita de tempo e de paciência, talvez um pouco de resistência no sentido de não desistir”, diz Pedro Costa notando que, o que o salva, é “não acreditar noutro tipo de cinema”.

Em 2000, ao instalar-se no bairro das Fontaínhas, quis um “fazer trabalho de investigação”. “Consegui um quarto e pensei que seria positivo estar ali, naquele momento não tinha laços nem obrigações, tinha cortado com tudo, estava sozinho, e pensava que não precisava de ninguém. Depois cheguei à conclusão de que precisava de três ou quatro pessoas, para fazer um filme, e hoje sabemos que somos quatro e que nunca seremos quarenta”, recorda. Ele, que estudou História e aprendeu a lidar com fontes e arquivos, “nas Fontaínhas era como se pudesse pôr em prática algumas coisas [desse curso], ir ao fundo das coisas e trazer à superfície. Pegar na vida completa de um imigrante como a pessoa que ele é e não só com os problemas da imigração. Finalmente o que gostava de fazer e o cinema se encontraram, um trabalho próximo da investigação que se faça de forma económica, consequente, adaptado ao que tenho à minha frente. Não posso filmar em locais como as Fontaínhas com a maquinaria poderosa e capitalista do cinema, que são camiões, maquilhadoras, caterings e croquetes, que muitos consideram indispensáveis mas não o são.”

Pedro Costa sabe que o “sonho dos ministros da Cultura, dos institutos e dos festivais de cinema” é que os autores filmem para um público de massas: “Não é o meu mundo, é um ambiente subjugado ao poder, muito dependente do dinheiro e ignorante em matéria de cinema. A colonização americana está consumada, e também os intelectuais portugueses fazem cambalhotas perante as séries da moda e se gabam de nunca ter visto um filme do Manoel de Oliveira.”

A culpa é de plataformas como Netflix, Amazon ou Disney, “os grandes magnatas que vão controlar tudo, influenciar o gosto e inflacionar os salários. Oferecem 1.500 euros por semana a um jovem como primeiro assistente de câmara, que não come e trabalha mais de 16 horas diárias. É algo inumano, uma exploração contra a qual lutaram milhões de pessoas com armas e palavras”, afirma Pedro Costa. Em Portugal, explica ao “El País”, “não é raro que os chamados filmes comerciais portugueses tenham entre 7 mil e 10 mil espectadores em 50 ou 60 salas do país. A mim, quando muito, dão-me três ou quatro salas em Lisboa, Porto e pouco mais. Os meus filmes rondam os 5 mil espectadores. No meio desta esquizofrenia, não me posso queixar”.

O bairro das Fontaínhas foi demolido, os seus habitantes realojados. Mas, aos 63 anos, o realizador não voltará a filmar em Lisboa, que considera “uma cidade destruída, rendida ao despropósito e vítima do capitalismo mais selvagem”. Prefere manter a simplicidade: “Quando mostro os meus filmes em Los Angeles, ficam intrigados pelo modo como estão feitos. Digo-lhes sempre que não há segredos, que há uma racionalidade que tem a ver com o que o mundo é e com a eliminação de outras mentiras, como que o cinema é muito caro e que só algumas pessoas com muito talento o podem fazer.” O cineasta, diz Costa, não é um filósofo: “Tem décadas de sedimentação esta ideia de que Takovski, Fellini ou Bergman não são apenas realizadores, mas também mestres de filosofia, política, sociologia, que conseguem ver tudo antes do que os outros. O curioso é que, do meu ponto de vista, estes cineastas filósofos são os menos subversivos e revolucionários. Godard, que morreu há pouco tempo, era um investigador, mas não tinha uma ideia do mundo. Considerava a câmara como um telescópio e um microscópio ao mesmo tempo. Via coisas pequenas que mais ninguém tem paciência para ver.”

“As nossas vidas tornaram-se numa loucura absoluta que nos faz até esquecer os mortos. Mas nós precisamos disso e esse é um trabalho que pode ser feito pelo cinema, o teatro, a música ou a pintura”, conclui Pedro Costa.1

https://expresso.pt/cultura/2022-11-12-Netflix-Amazon-ou-Disney-sao-grandes-magnatas-que-vao-controlar-tudo-diz-o-cineasta-Pedro-Costa-6923d88d

sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Entrevista a Fabio Levi, sobre Primo Levi


CENTENÁRIO
Fabio Levi, historiador
“Primo Levi disse que no Lager não encontrou monstros, mas pessoas normais, como você e eu”

Nos cem anos do nascimento do autor de “Se Isto é um Homem”, o Expresso conversou com Fabio Levi, historiador e diretor do Centro de Estudos Primo Levi, de Turim. Este sábado, na edição impressa, leia mais sobre Primo Levi, que escreveu sobre a sua experiência em Auschwitz quando o mundo ficava calado

ENTREVISTA LUCIANA LEIDERFARB
Fabio Levi é professor de História Contemporânea na Universidade de Turim. E é diretor, desde 2009, do Centro Internacional de Estudos Primo Levi, que investiga o legado do escritor. No ano em que se celebra o seu centenário, o autor de “Se Isto é um Homem” mantém uma poderosa atualidade, não só por ter partilhado o seu testemunho sobre Auschwitz, como por tê-lo aprofundado ao longo da vida.

Nascido a 31 de dezembro de 1919, em Turim, Primo Levi foi deportado para aquele campo de concentração alemão em 1944, ali permanecendo durante onze meses, os últimos da II Guerra Mundial. Judeu italiano, judeu do Piemonte, químico de formação e de profissão, trabalharia três décadas na fábrica de tintas Siva, que chegou a dirigir. Numa Europa onde a maioria dos sobreviventes se remetia ao silêncio, a experiência do Lager tornou-o escritor. Levi contou uma e outra vez a sua experiência, e nunca da mesma maneira, ao ponto de, em 1986, no seu derradeiro livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, a ter abordado com o intuito “mais ambicioso” de perguntar se o mundo dos campos de concentração está morto e se não irá regressar. “Além da nossa experiência individual, fomos coletivamente testemunhos de um acontecimento fundamental e inesperado. Ocorreu contra todas as previsões: incrivelmente, na Europa, aconteceu que um povo inteiro civilizado, saído do fervilhante florescimento cultural de Weimar, seguisse a um ator cuja figura hoje causa o riso; e, no entanto, Adolf Hitler foi obedecido e louvado até à data da sua catástrofe. Aconteceu e, por isso, pode voltar a acontecer: isto é a essência do que temos para dizer”, lê-se no final do volume. Primo Levi suicidou-se em abril de 1987, um ano depois de o publicar.

De visita a Lisboa, para a apresentação no Instituto Italiano de Cultura do documentário “Primo ufficio dell’uomo: I mestieri di Primo Levi” – encomenda do Centro Internacional de Estudos Primo Levi –, Fabio Levi conversou com o Expresso sobre a vida e a obra do escritor.

Que leitura podemos hoje fazer da obra de Primo Levi?
Primo Levi fala às novas gerações, isto por três razões. A primeira é que faz um grande esforço de verdade, de contar o que realmente aconteceu. A segunda força de Levi está na sua sensibilidade moral, abordando questões que tocam diretamente a consciência do interlocutor. A terceira força é a sua habilidade de escritor que, como todos os grandes, fala para as gerações seguintes. Primo Levi é um grande nome da literatura e do pensamento contemporâneo, e tem uma capacidade de expressão que supera todas as distâncias. Estes três aspetos ajudaram-no a transmitir não uma mensagem, mas uma experiência que deve ser aprofundada. Na introdução a “Se Isto é um Homem”, ele diz que, mais do que contar o que se passou, pretendeu raciocinar sobre alguns aspetos do espírito humano. A experiência da deportação serve para a levantar problemas, para colocar perguntas. Para obrigar o interlocutor a pensar.

Nessa introdução refere-se à “infeção latente” presente em certos discursos que estão, de novo, na ordem do dia na Europa.
Sim. Vemo-los na Europa, mas sobretudo na nossa vida. Não é possível fazer uma distinção clara entre os problemas gerais do mundo e os problemas particulares dos indivíduos. Mesmo assim, Levi fez o esforço – e nisto é original – de falar sobre o homem comum. Ele disse, por exemplo, que no Lager não encontrou monstros, mas pessoas normais, como você e como eu, que sob certas condições cometeram delitos horríveis. Disse que todos somos potencialmente capazes de comportar-nos daquele modo.

Hoje assistimos a uma crescente ignorância sobre o que aconteceu há 70 anos. Como historiador, isso preocupa-o?
Não devemos esquecer que, durante 50 anos, a Europa não quis olhar para a Shoah. Só na década de 80 é que se começou a falar difusamente do Holocausto e do extermínio ocorrido na II Guerra. Temos nas costas um esquecimento muito pesado: os 70 anos são na verdade 30, saltou-se uma geração. Os filhos dos protagonistas da guerra praticamente não estiveram envolvidos numa reflexão sobre aquela tragédia. Hoje volta a haver uma menor atenção em relação ao tema e é neste sentido que o ponto de vista de Primo Levi se torna mais relevante.

Como define a escrita de Primo Levi? Ele próprio se considerou um químico que escrevia nas horas vagas – e a sua obra tem essa marca de clareza e de objetividade.
Reconduzir tudo à sua formação em química é limitador. Mas a grande precisão e a curiosidade pelo que o rodeava deveram-se obviamente a essa bagagem de químico. O primeiro relato sobre Auschwitz foi um texto a que podemos chamar de científico, escrito no campo de trânsito de Katowice, a pedido dos russos – e cujo título era “Relatório sobre as condições higiênico-sanitárias do campo de concentração de Monowitz”. Aqui, ele fez uma descrição analítica da realidade do campo, das suas condições concretas. “Se Isto é um Homem” é um livro muito diferente, que tem dentro de si muitos registos. Reúne a sua experiência pessoal, o pensamento e as sensações. Em certos momentos, inclui retratos aproximados, como se Levi fizesse um zoom sobre alguém ou sobre alguma situação.

E o humor, a ironia?
A ironia é uma constante na sua prosa. Se se pensar que o livro foi escrito quando ele tinha 27 anos, e que a experiência de Auschwitz remonta aos seus 24, 25 anos, vemos até que ponto isto foi extraordinário. Tinha de ser um escritor inato. Porém, a figura de testemunho apagou todo o resto. Determinou que o seu lado de pensador capaz de refletir sobre as questões da contemporaneidade tivesse um reconhecimento mais lento. É interessante verificar que, em quase todos os países onde está traduzido, a primeira tradução tenha sido a de “Se Isto é um Homem”, seguido de “A Trégua” e, por fim, de “Os que Sucumbem e os que se Salvam” – a trilogia de Auschwitz, de que o último volume foi escrito em 1986, 40 anos depois do primeiro. Curiosamente, nos Estados Unidos, a ordem foi outra. Ali, Levi foi “O Sistema Periódico” que o tornou famoso, e não “Se isto é um Homem”, que já estava traduzido desde 1959. Mas é uma exceção.

Quando a guerra acaba, Primo Levi passa por outra guerra, a do sobrevivente. Essa condição acompanhou-o para sempre?
Ao voltar, ele sentia uma grande necessidade de falar. Contava tudo, parecia um louco. Então alguém lhe perguntou por que não escrevia. E ele escreveu “Se isto é um homem”. Sentiu-se imediatamente aliviado. Porém, à medida que os anos passavam, a sua relação com essa experiência sofreu transformações. Levi continuou a falar dela, em particular, nas conversas que começou a dar nas escolas, no início dos anos 60, quando nenhum dos seus companheiros de deportação falava do assunto. Estes diálogos com os jovens ajudaram-no a contar melhor o que se tinha passado. Ao ponto de, em 1976, juntar a “Se isto é um homem” um apêndice com as respostas às perguntas mais frequentes que lhe eram feitas nas escolas. Nesse apêndice, ele diz textualmente: “Correndo o risco de parecer cínico, devo admitir que não sofro mais como sofria”.

O sofrimento transformou-se em reflexão?
Sim, de certo modo. Se Auschwitz é uma referência permanente, ele vai modificando o seu olhar. O último livro, “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, é de novo sobre Auschwitz, embora de um ponto de vista mais amadurecido: relata o resultado das suas reflexões 40 anos depois da deportação. Ao mesmo tempo, Levi ocupou-se de muitas outras coisas. Abordou o problema do trabalho, interessou-se pelo mundo animal, pela natureza, pela linguagem. Era um curioso sério.

Em 1987, o ano em que morreu, Levi chegou a comentar a realidade do revisionismo histórico na Alemanha. Que efeitos teve nele esta realidade?
Ele sempre se perguntou como é que foi possível os alemães fazerem que fizeram. Em 1947, quando escreveu “Se Isto é um Homem”, não sabia exatamente a quem estava a dirigir-se. Em 1958, a Einaudi fez uma segunda edição e, nessa altura, Levi disse que tinha finalmente percebido para quem é que o escrevera. E escrevera-o para os alemães, para que estes soubessem o que havia acontecido. Este reconhecimento coincide com a proposta de tradução do livro para a língua alemã, feita por um seu contemporâneo que tinha estado na resistência italiana contra os nazis. E com quem discute a tradução animadamente, frase a frase, ao longo de um ano inteiro. Em 1961, o livro é publicado na Alemanha e Levi recebe numerosas cartas de alemães a interpelá-lo. Ele fala sobre esta correspondência no último capítulo de “Os que Sucumbem e os que se Salvam”, em 1986, onde diz que se deparou com um estranho paradoxo: foram os alemães inocentes, e não os culpados, aqueles que lhe escreveram a desculpar-se pelo que aconteceu na Alemanha. Ele tentou sempre compreender os alemães, mas nunca o conseguiu.

Como é que Primo Levi encarava o judaísmo?
Ele era um judeu italiano. E estes judeus nos anos 30 estavam muito bem integrados na sociedade — muitos deles estavam a caminho da assimilação. Ele mesmo chegou a afirmar que, quando era novo, ser judeu era “uma anomalia alegre”. Como os restantes judeus italianos, foi obrigado a sentir-se judeu a partir do início da perseguição, em 1938. Mais tarde, a sua relação com o judaísmo modificou-se. Levi manteve-se ateu, mas começou a estudar e a refletir sobre a sua cultura de origem, a escrever sobre os seus antepassados. O primeiro conto de “O Sistema Periódico” é uma descrição irónica e precisa do mundo do qual provinha, o mundo judaico piemontês, e dá uma atenção extrema à língua, ao dialeto daquele grupo, que era pequeno ainda que com raízes fortes na sociedade piemontesa dos anos 50 para a frente.

Diz que a perseguição marca a relação de Primo Levi com o judaísmo. E no Lager encontra também um outro mundo judaico, o da Europa central e oriental.
Com o tempo, o Lager acaba por ser um estímulo para Levi estudar o mundo judaico fora da Itália, que ele conhecia muito mal. Em Auschwitz, tinha sido confrontado com um tipo de judaísmo completamente diferente – o asquenaze, os judeus polacos, alemães, russos. Os judeus da Itália desconheciam aquele mundo, da mesma forma que este também não sabia sequer que existiam judeus italianos! Em “La Trégua”, o livro onde Levi narra a longa viagem de regresso à Itália no pós-guerra, há uma passagem divertida, em que ele e os amigos italianos encontram umas raparigas polacas. Como eles não dominam o iídiche, elas não acreditam que também são judeus.

Há dias, disse numa entrevista que falar sobre o Holocausto é cada vez mais difícil. Porquê?
Porque o tempo passa e as testemunhas diretas já cá não estão. Porque o mundo muda, a cultura se transforma e as pessoas estão muito mais atentas ao presente do que ao passado. Durante muito tempo, no século XIX e mesmo no século XX, a ideia de progresso ligou o passado ao futuro. Hoje, os jovens evitam olhar para o futuro. Têm a sensação de que provavelmente o futuro não será melhor do que o presente. E quem olha pouco para o futuro, é menos atento ao passado.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

A verdade da ilusão

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02.01.2015 às 20h00


É Umberto Eco no seu elemento, a discorrer sobre a realidade do falso, a viajar pela narrativa real e imaginada das lendas mais distantes. Só ele podia ter escrito esta “História das Terras e dos Lugares Lendários”, onde se disseca não só o objeto do livro mas a própria sabedoria — inesgotável — do autor

Só um leitor, um atento e profundíssimo leitor, um dissecador dos livros dos outros, poderia ter escrito este livro. Um livro que fala dos lugares dos livros, não dos imaginários, não dos reconhecidamente falsos, mas daqueles que, sendo falsos, originaram ilusões reais. Na sua “História das Terras e dos Lugares Lendários” (Gradiva), escrita em 2013 e agora traduzida em português, Umberto Eco apressa-se a destruir a confusão que se possa instalar entre o seu livro e outros semelhantes, como o “Dicionário dos Lugares Imaginários”, de Alberto Manguel e Gianni Guadalupi. Eco não quer falar de lugares inventados. Não quer — embora aprecie — mapas fictícios que o leitor aceita pelas regras do contrato ficcional, sabendo-os fruto de um devaneio e devotando-lhes até uma certa credulidade.

O que Umberto Eco quer de novo é insistir naquilo que mais o impressiona: a mentira. A mentira tornada realidade. O que é criado para influenciar com a sua teia o que existe, chegando a mover multidões em busca de uma pista ou de uma sugestão que provem sem espaço para dúvidas a sua presença na história. As lendas, diz, “costumam ter um fundo de verdade histórica”. São uma amálgama entre mentiras e verdades, um terceiro estádio de realidade, uma apimentada configuração. Abrir o volume é encontrar um profícuo conjunto de imagens belíssimas, escolhidas a dedo pelo autor — representações das tais terras lendárias que um dia se acreditou serem reais —, e 15 capítulos que traçam um denso itinerário pelas quimeras do homem, seguidos dos trechos originais daqueles que as descreveram, estudaram ou refutaram.

E, entrando, deparamos com um manancial de dados e relações típico de um detetive erudito como Eco. Somos logo atirados para trás, para as teorias sobre o formato da Terra que os antigos engendraram, o disco achatado de Tales, o cilindro de Anaximandro, a esfera intuída por Parménides, Pitágoras, Platão e Aristóteles, e para Ptolemeu, que dividiu em 360 graus o meridiano. A Antiguidade e a Idade Média sabiam da sua esfericidade, defende Eco, ainda que os nossos contemporâneos ainda julguem o contrário, Acontecia que, nesse tempo, um “mapa adequado” era aquele que fornecia informações sobre a viagem — qual mapa de uma rede ferroviária — e jamais um desenho exato, impossível de conseguir.

No exercício de desmontar velhas intrigas e de satisfazer a sua própria necessidade de ordem, o escritor faz escala em terrenos bíblicos e espraia-se sobre a localização das dez tribos perdidas de Israel. Conta-nos, por exemplo, que se pensou estarem na Abissínia, na América, em Caxemira, entre os tártaros da Ásia Central, no Cáucaso, no Afeganistão e até nas ilhas britânicas — a hipótese mirabolante de Richard Brothers. A tradição situa-as além do rio Sambation — citado no romance “Baudolino” —, cujas águas fervilhavam lançando rochas enormes e só ao sábado acalmavam, mas que judeu iria alguma vez violar o dia sagrado de descanso para as atravessar? E a rainha de Sabá? Qual era o seu reino? E o dos Reis Magos? Onde nasceram? São Mateus nomeia-os no seu Evangelho, apesar de este ter sido escrito no século I e portanto por alguém que não Mateus. E os Reis Magos, que talvez não fossem reis, descansam em túmulos ubíquos, em Constantinopla, em Sabá, em Milão...
Eco diverte-se. Parte à procura do Paraíso Terrestre, que cada religião situou num local distinto, da Atlântida, que excitou a imaginação de Platão em diante, das migrações do Graal, do interior da Terra, da Terra Austral, das civilizações ideais, do reino do Preste João. Aqui, narra-se a história de uma carta — outra vez o espectro de “Baudolino” — que começou a circular em 1165, supostamente redigida pelo Preste João a Manuel Comneno, imperador do Oriente. Nela, dava-se conta de um reino cristão existente para lá das regiões ocupadas pelos muçulmanos.

Frederico Barba-Roxa e o Papa Alexandre III tiveram-na nas mãos e ficaram por ela impressionados. E, nos dois séculos seguintes, a missiva foi traduzida e citada e alvo de várias versões — e a sua importância na expansão do Ocidente cristão foi capital. Claro que ninguém explicaria a razão por que, a meio do século XIV, o reino do Preste João se deslocou do Oriente para África, mais exatamente para a Etiópia, como o relatou o português Francisco Álvares.

No fim do livro, Umberto Eco não resiste em enveredar pelo caminho de que no início se tinha distanciado, a saber, o dos lugares romanescos, inexistentes, que são pura matéria literária. As cidades invisíveis de Calvino, a Terra Média de Tolkien ou o Aleph que Jorge Luís Borges encontrou na parte inferior de um degrau. Gotham City, Hogwarts, o Parque Jurássico, Liliput, Xanadu. “Sabemos muitíssimo bem que existe um mundo real, no qual aconteceu a Segunda Guerra Mundial e o Homem chegou à Lua, e que existem os mundos possíveis da nossa imaginação, no qual existiram e existem a Branca de Neve e Harry Potter, o inspetor Maigret e Madame Bovary. Se aceitamos o contrato ficcional, decidindo levar a sério um mundo possível narrativo, temos de aceitar que a Branca de Neve foi despertada da sua letargia pelo Príncipe Encantado, que Maigret mora em Paris, no Boulevard Richard Lenoir, que Harry Potter estudou Magia em Hogwarts, que Madame Bovary engoliu veneno”, diz-nos o autor. Temos de aceitar, portanto, nós, leitores, como parte do contrato ficcional, que o autor Umberto Eco quebre as suas próprias premissas. E que o faça para mostrar a realidade do nosso imaginário, mais real do que tudo o que vemos e nos rodeia.

(Texto originalmente publicado na edição do Expresso 2252, de 24 de dezembro)

http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-01-02-A-verdade-da-ilusao