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sábado, 17 de maio de 2008

40 anos de 1968: ''distopias ficam, utopias permanecem*



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13 DE MAIO DE 2008 - 17h11


por Diorge Alceno Konrad*

Em livro lançado há alguns anos, o jornalista Zuenir Ventura caracterizou o ano de 1968 como o ano que não terminou.[1]


Uma análise mais aprofundada daquele processo histórico deve considerar o que realmente se esgotou nos episódios da época e o que ficou para a lembrança dos 40 anos dos movimentos ou para o futuro das diferentes sociedades. Para isso temos que entrar na “memória de 1968. Densa e marcante. Exemplos de luta que inspiram o estudo de seus erros e acertos. Trajetórias que merecem análise, por tudo o que pretenderam, embora quase tudo esteja por conquistar, ainda hoje”.[2]

É cada vez mais necessário o rompimento com duas tradições de interpretação que no fundo se baseiam na mesma forma de ver o passado: a primeira delas é a crítica conservadora, na qual se vê o fracasso de 1968 como o fim das utopias ou o fim das possibilidades de transformação revolucionária das sociedades; a segunda delas é o saudosismo de setores de esquerda que busca nos anos 60 em geral, e de 1968 em particular, uma volta a um passado perdido.

No primeiro caso, o ano de 1968 é referência para estruturar uma visão de mundo de tentativa de negação da História, dando a ela um fim, acompanhada de propósitos que estabelecem também o fim das ideologias, o fim das classes sociais e suas lutas. Essa perspectiva, permeada por um recorte irracionalista, baseada em percepções pós-modernas ou pós-estruturalistas, parte de um paradigma de relativização absoluta da verdade e do conhecimento.

No segundo caso, o ano de 1968 é referência para determinar uma visão de mundo onde uma forma de romantismo estabelece uma idealização de um passado perdido que é perpetuado, não servindo de referência crítica para a possibilidade de transformação do presente.

As visões citadas acima se baseiam em visões conservadoras e tradicionalistas de sociedade, sendo um contraponto as mudanças que a realidade atual exige.

A história da formação sócio-econômica gaúcha, por exemplo, tem sua tradição de volta a um passado perdido, quando as classes dominantes rio-grandenses, diante da crise da pecuária no último quartel do século 19, idealizaram o “gaúcho” ou gaudério marginal do século 18, transformando-o na identidade de todos os nascidos no Rio Grande do Sul. Dessa perspectiva se criou uma história mítica: de uma suposta escravidão amena; de peões e patrões vivendo em harmonia social; de campos (latifúndios) sem aramados e que devem ser mantidos para todo o sempre; de “centauro dos pampas” valorizado por uma cultura patriarcal e machista; de um passado de lutas históricas pela fronteira que naturaliza e determina para sempre um estereótipo de gaúcho tão ao gosto dos que perpetuam formas de dominações sociais.

A formação social brasileira tem outros dois exemplos: as obras românticas indigenistas criaram uma espécie mítica de brasileiro original, modificando o seu conteúdo e a sua forma, voltando a uma idealização de um passado perdido pré-Cabralino.

Já as obras de Gilberto Freyre idealizaram a sociedade nordestina e brasileira, ao criar através de Casa-grande e senzala uma teoria mítica e conservadora de uma pretensa democracia racial na produção açucareira colonial e nas formas sociais posteriores, onde senhores e escravos, trabalhadores e usineiros representam dois lados de um mundo indivisível e complementar.

Por isso, a questão que se põe não é a negação histórica de 1968. Ele foi de importância ímpar para o Brasil e para o mundo.[3] Mas deve-se compreender que os acontecimentos de 1968 se deram em um momento de bipolaridade mundial com diferenças de contextos nos países capitalistas e nos países socialistas.

Nos primeiros, os trabalhadores e setores da pequena burguesia lutavam por melhoria de seus padrões de vida através da busca de inserção no mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que, principalmente por parte da juventude, se criticava a massificação do consumo e a concorrência individualista que estabelecia a exclusão de setores da população como os negros, as mulheres, os indígenas, etc, ao defenderem, entre outros a questão da extensão dos direitos civis. Exemplo desse processo foram as greves dos trabalhadores franceses no contexto do Maio de 1968 ou a luta pelos direitos civis dos negros, liderada por Martin Luther King nos Estados Unidos, acompanhada pela radicalização da causa pelos Panteras Negras ou pela liderança de Malcolm X. No segundo, aparecia a crítica as restrições de participação política e a um modelo burocrático de socialismo, como foi o caso da Primavera de Praga.

Nesse contexto, salienta-se a luta dos movimentos estudantis em países como Brasil, México, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Guatemala, Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Tchecoslováquia, Suécia, Turquia, Argélia, Marrocos, Tunísia e Japão, os movimentos de contracultura na Inglaterra, Alemanha, França, Brasil e Estados Unidos, os movimentos contra a intervenção militar no Vietnã pelos Estados Unidos e os movimentos pela descolonização da Ásia e da África.

Assim, os anos 1960 ou 1968 não podem ser vistos de forma homogênea em todos os países. Se não estaremos negando a importância daquele momento histórico ou superdimensionando-o. Dessa forma não se cai em visões reducionistas e conservadoras, como aquelas criticadas anteriormente. Muito menos se referenda visões apologéticas e midiáticas que superlativam o maio francês. Não esquecemos que a radicalidade das barricadas de Paris produziram apenas um estudante morto, enquanto que apenas na praça de Tlatelolco, na Cidade do México, em outubro de 1968, se deu o mais violento acontecimento daqueles tempos latino-americanos, através do massacre que resultou em 26 estudantes mortos, 300 feridos e mais de mil aprisionados. Mas disso pouco se fala nos dias atuais.

Enquanto isso, mesmo no Brasil, no combate à reacionária ditadura civil-militar, iniciada desde os primeiros momentos de 1964, quatro anos antes, foram centenas e centenas de mortos, desaparecidos, torturados, exilados, depostos, perseguidos.

No caso do Brasil. 1968 tem significado extraordinário para os estudantes brasileiros (vide o assassinato do estudante Edson Luiz e a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro) e os movimentos políticos da época (principalmente na luta armada e clandestina contra a Ditadura). Mas devemos entender o contexto da época e aprender com eles. No Brasil, as expressões políticas, sociais e culturais do período estavam intrinsicamente relacionados com a realidade de um país envolvido em profundos contrastes. É evidente que parte destes contrastes permanecem até hoje, mas mudaram na forma e na qualidade. Para os que queriam mudanças, o momento era de busca de uma cultura popular aliada à procura de uma identidade nacional no rumo de uma transformação revolucionária para o Brasil. Para os que não queriam, tratava-se apenas de reordenar o país dentro de um modelo de desenvolvimento capitalista associado e dependente sustentado pela aliança conservadora de civis e militares em conjunto com o capital externo, principalmente norte-americano.

Por outro lado, o Maio francês não pode ser ensimesmado. Como não vê-lo influenciado pela Revolução Cultural Proletária da China de 1966 e por um redimensionamento do maoísmo. O combate ao colonialismo e ao neocolonialismo, sobretudo questionando a invasão francesa e norte-americana no Vietnã é anterior aos acontecimentos franceses. Afinal, a Primavera de Praga, iniciada em abril de 1968, não é cronologicamente anterior?

Ainda é preciso entender porque o Maio da França tornou-se um ano mítico, porque “1968” foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível?[4]

Mas é um erro pensar 1968 como um ano fundador dos movimentos sociais ecológicos, feministas, anti-nucleares, dos movimentos negros e homossexuais.

Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos, ao analisar os reflexos dos anos 1960, considera que “a revolução cultural de fins do século 20 pode assim ser mais bem entendida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais”.[5]

Podemos considerar que as visões irracionalistas reforçadas a partir de 1968, principalmente expressadas em segmentos da “Nova História” ou da “Nova Filosofia”, apresentam, nestes tempos neoliberais, boa parte destas perspectivas. Quando se dão as derrotas de 1968, diversos setores intelectuais passam a criticar as transformações globalizantes de mundo e as visões totalizantes de História. Reflexos dessa linha de interpretação são as proposições de visões fragmentárias de mundo, as quais entendem que o conhecimento só pode ser apreendido nas especificidades. Em decorrência, as ações dos movimentos sociais só poderiam se dar no particular, ou nas “tribos sociais”, como considera o sociólogo francês Michel Mafessoli. Estaria estabelecido o fim da utopia, entendida aqui como uma sociedade a ser construída.

A questão final e central que se coloca é: 1968 representou o fim das utopias, sendo um movimento emancipatório do que vivemos hoje. Não se pode negar esta relação, pois os discursos do pos-histoire estão aí para tentar estabelecer a fragmentação definitiva do conhecimento e a microscopia dos movimentos sociais, quando a resistência se daria apenas no âmbito da especificidade. No entanto, em momentos em que em nome de um suposto Estado de Direito se procura terminar com grande parte do direitos sociais e individuais dos trabalhadores e, mesmo assim, em todo o mundo, e em especial na América Latina, diversos setores da sociedade de colocam contra o avanço e as conseqüências do neoliberalismo, está novamente na ordem do dia a volta dos movimentos emancipatórios, no sentido utópico e transformador, a exemplo dos anos 60, sem repetir os erros daqueles tempos. Seria uma forma de conformismo absoluto crer que a única possibilidade de cidadania se restringisse a possibilidade de consumo dos produtos que o mercado tem a oferecer.

Para ultrapassar definitivamente os anos 1960, tem que se ir além da constatação de que aqueles tempos foram o início da crise da globalização centrada no modelo fordista de produção e acumulação. É fundamental considerar o poder do fetiche da mercadoria no capitalismo que pode transformar protestos mais ou menos despolitizados da contracultura e de outros setores sociais, como novas formas de consumismo. Enfim, a lógica que reconhece as diferenças, mas não muda o domínio do capital.

Nunca é demais deixar a pergunta: em tempos da chamada globalização, a quem interessa os discursos que reforçam a incognoscibilidade do real e a impossibilidade de visões globais de mundo? Também não é demais considerar que tais entendimentos são produto da crise de desenvolvimento dos anos 60, que permanecem no início do século 21, quando ainda temos movimentos sociais e políticos desarticulados, os quais não têm conseguido encontrar respostas para os seus dilemas.

Nunca é demais aprofundar sobre o espontaneísmo da “imaginação no poder”, da aparência de ruptura quando se “pedia o impossível” e da efemeridade histórica dos acontecimentos franceses, base material de muitas produções intelectuais idealistas, relativistas, individualistas e fragmentárias do pos-histoire, dos discursos da sociedade pós-industrial, do argumento do fim da sociedade do trabalho, do homem uni-dimensional marcusiano e, sobretudo, do anti-humanismo. Tudo isso poderia ser taxado de simplismo. Mas respondemos a isso com Luc Ferry e Alain Renault: “na verdade, é contudo a crítica do humanismo, do sujeito, da metafísica, da autonomia, da antropologia ou da verdade, que evidencia um impressionante e persistente simplismo”.[6]

Não é por nada que, 40 anos depois de 1968, aumenta a consciência de que hoje as contradições do desenvolvimento capitalista e neoliberal, em sua fase imperialista, ensejam novas rearticulações em torno do social e da grande política, em contraposição às saídas individuais e consumistas. Esta pode ser a retomada, em outros patamares históricos, da velha e tão nova utopia socialista.

Notas

* Este artigo é uma visão ligeiramente modificada e atualizada do artigo “1968: do passado para o futuro”. In. SCHERER, Amanda Eloína; NUSSBAUMER, Gisele Marchiori; DI FANTI, Maria da Gloria (orgs.). Utopias e distopias: 30 anos de maio de 1968. Santa Maria: Departamento de Ciências da Informação/Mestrado em Letras, 1999, p. 41-8.

[1] Ver - VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. 14ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

[2] REIS FILHO, Daniel Aarão; MORAES, Pedro de. 68: a paixão de uma utopia. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988, p. 52.

[3] Para Patrick Rotman, cineasta e historiador, ‘nos anos pós-Maio de 68, a busca de si tornou-se uma prioridade e as questões relativas à intimidade entraram no debate político. Temas como a família, as relações entre pais e filhos e a liberação sexual entram na ordem do dia. O grande legado do movimento reside nestes questionamentos e transformações incorporados à vida cotidiana de milhões de indivíduos”. Cf. A geração das barricadas. In. História Viva, ano 5, n. 54. São Paulo: Duetto Editorial, abril de 2008, p. 39.

[4] Ver estas referências em SCHLLING, Voltaire. 1968: a revolução inesperada. In. http://www.zaz.com.br/voltaire/mundo/1968.htm. Acesso em 10/05/2008.

[5] Cf. HOBSBAWM, Eric. 1995. Era dos extremos: o breve século XX. 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, p. 328.

[6] Ver FERRY, Luc; RENAUT, Alain. Pensamento 68: ensaios sobre o anti-humanismo contemporâneo. São Paulo: Ensaio, 1988, p. 264.




*Diorge Alceno Konrad, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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1968, o ano que ajudou a desenhar a face do mundo

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A imagem mais difundida do movimento de maio de 1968 – que, tendo seu epicentro nas universidades francesas, espalhou-se pelo mundo como um vagalhão – é a do levante estudantil e juvenil.
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A imagem tem força – aquele movimento ganhou visibilidade quando, no dia 3 de maio de 1968, os estudantes parisienses saíram às ruas para protestar contra a decisão da reitoria da Sorbonne de fechar a célebre universidade parisiense, reagindo à um movimento à luta estudantil que crescia desde o final de 1967. Foi a primeira vez que, em 700 anos, a universidade fora fechada e seu recindo ocupado pela polícia, e a decisão foi um choque para a opinião esclarecida dos franceses.
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O movimento de 1968 não surgiu, contudo, como um raio em céu azul, como se diz. E não foi somente estudantil e juvenil. As lutas sociais cresciam na Europa, nos Estados Unidos e em várias partes do mundo, particularmente na América Latina. Elas envolviam os trabalhadores, os estudantes, os negros, as mulheres, a população dos países colonizados da África e da Ásia na luta contra o imperialismo e pela independência, o protesto contra as ditaduras militares que proliferavam na América Latina.
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No Brasil, aquele foi o ano do maior e mais persistente protesto de massa contra a ditadura militar, apenas superado por aquele que ocorreria dez anos mais tarde e que colocaria em xeque no regime dos generais.
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A ano de 1968 ficou na história, assim, como o símbolo do maior protesto anticapitalista ocorrido na segunda metade do século XX e por isso é uma data memorável.
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O conjunto de artigos e imagens cuja publicação o portal VERMELHO inicia hoje é uma homenagem àqueles lutadores e àquelas lutas que, há 40 anos, ajudaram a mudar o comportamento e a forma de viver, ajudando a desenhar a face que o mundo tem hoje.
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sexta-feira, 16 de maio de 2008

1968 na mira *

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Marcelo Ridenti**

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Uma corrente de idéias começou a ganhar força ainda em 2007, quando Nicolas Sarkozy, então candidato à Presidência da República na França, propôs-se a acabar com o que resta de 1968. Antecipando-se à comemoração do quadragésimo aniversário daquele ano mítico, o jornalista Elio Gaspari prenunciava em sua coluna dominical o tom (auto)crítico que têm tomado as discussões sobre 1968, ao dizer que o melhor seria que aquele ano não tivesse existido, ao contrário de 1989, este sim o ano significativo, devido à queda do império soviético. Ele criticava a sacralização de 1968, que omitiria o culto dos jovens rebeldes à violência das massas (Folha de S. Paulo, 26/12/2007, p. A9). Por sua vez, o ex-guerrilheiro e deputado Fernando Gabeira declarou que gostaria de “dizer adeus a tudo isso” (Época n. 503, 7/1/2008, p. 70).
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Nada contra a necessidade apontada por Gaspari da crítica à mistificação daquele ano, sua sacralização e certa “sessão saudade de 1968”. Mas qual 1968? Os movimentos contestadores de então foram muito diversificados, do pacifismo daqueles que pregavam paz e amor contra a guerra no Vietnã ao revolucionarismo dos que achavam que flores não vencem canhões, como dizia a canção de Vandré, inspirada no exemplo da revolução cubana. O inconformismo ia da primavera de Praga contra o socialismo real às insurgências contra o capitalismo mundo afora; do surgimento do que se convencionou chamar de questão das minorias – como as lutas específicas de mulheres, negros e homossexuais – à contracultura e ao movimento ambientalista. Para tomar a rica agitação artística do período no Brasil, 1968 foi o ano do nacional-popular e também de seu antagonista declarado, o movimento tropicalista, ambos disputando para saber quem seria de fato revolucionário. Eles entravam nas casas pela televisão, especialmente nos festivais da canção, o que era indicativo de uma contradição: a contestação do período vinha junto com um novo patamar de amadurecimento da indústria cultural.
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Um jovem que lê o artigo de Gaspari pode imaginar que os rebeldes e revolucionários de 1968 estavam afinados com o poder soviético. Ora, 1968 foi justamente a expressão do inconformismo com a ordem da guerra-fria, crítico do que Guy Debord chamou à época de sociedade do espetáculo, tanto do “espetacular concentrado” do “capitalismo burocrático” dos países herdeiros do stalinismo, como do “espetacular difuso” da abundância do capitalismo contemporâneo, que acabou triunfando e hoje prevalece soberano (Debord, Guy. La société du spetacle, Paris, Buchet-Chastel, 1967).
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Para aqueles que, passados 40 anos, fazem um balanço de vida, acertar as contas com 1968 pode significar coisas diferentes: há os que se penitenciam pela aposta de jovens rebeldes da época na violência popular, os que atestam os exageros da liberdade sexual que redundaram na aids, sem contar que a crença no potencial libertador do uso de drogas acabou tragicamente, como é sabido. Tampouco faltam os que usam a legitimidade conquistada em 1968 para justificar sua atuação política no presente, fazendo leituras enviesadas do passado. E ainda, claro, os que se recusam a qualquer tipo de crítica ao que se passou.
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Também os estudos acadêmicos espalham-se por todo o planeta, fazendo uma infinidade de interpretações, desde aquelas que vêem 1968 como uma insurgência contra o capitalismo até as que o consideram um exercício de modernização social, prefigurando o ressurgimento do individualismo dos anos 1970 e 80; desde os que tomam 1968 como expressão de conflito de um novo tipo, mais cultural e político do que econômico, até os que o analisam como conflito de classe tradicional; desde interpretações centradas na crise da universidade e revolta da juventude até as que enxergam a perda de uma oportunidade revolucionária. O tema revela-se apaixoante e inesgotável, o mais provável é que um encadeamento de circunstâncias explique a época de 1968, cujos limites e ilusões a experiência histórica viria a revelar.
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O que teria dado unidade a essa época, apesar das diferenças entre as várias propostas rebeldes e revolucionárias? O sentimento generalizado de que transformações sociais profundas estavam ao alcance das mãos, e de que a humanidade caminhava para elas. Parecia possível e urgente transformar, e não conformar-se com a ordem establecida pela guerra fria. Há quem interprete os anos 1960 – e particularmente 1968 – como a era da teoria. De fato, não faltavam teorizações sobre o que se passava, e elas eram encarnadas apaixonadamente pelos militantes. Mas a ação importava muito mais do que as teorias. Mais do que interpretar o mundo, buscava-se transformá-lo, liberando o potencial criativo da humanidade para mudar a vida em todos os seus aspectos, construindo alternativas de existência que fugissem da polarização entre o capitalismo norte-americano o modelo soviético de socialismo, contra os quais os movimentos de 1968 se rebelavam.
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São bem-vindos todos os debates, análises, críticas e autocríticas sobre a época de 1968, que deve ser desmistificada, como tudo. O que não se deve esconder é o fundo político que cerca o debate após 40 anos: o contraste entre os sentimentos e idéias, hoje predominantes, de que é preciso adequar-se ao mundo tal qual ele está constituído, com as aspirações que prevaleciam então em setores sociais expressivos, que atuavam coletivamente para tranformar a ordem.
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Quando Gaspari afirma ter sido “1989 que permitiu aos revolucionários de 1968 a acomodação de suas idéias e biografias ao século XXI”, ele expressa com clareza a reintegração da maioria dos intelectuais críticos e outros agentes sociais dos anos 1960 à ordem estabelecida, como se ela fosse inevitável. Ora, a esperança de 1968 não foi derrotada em 1989, ao contrário, fizera a profecia da falência daquele tipo de regime. Mas esperava-se que o fim do chamado socialismo real redundasse numa vida social em patamar superior ao que prevalecia na era da guerra-fria, não no triunfo avassalador de um dos lados. Subjacente a afirmações como as de Gaspari, há um desejo latente de recusar alternativas à organização social, política, econômica e cultural em moldes capitalistas, uma pressa em colocar no mesmo barco as utopias de 1848, 1917, 1968, como se todas elas tivessem sido derrotadas em 1989. Expressa-se o combate às forças herdeiras das lutas de 1968, que têm levantado de diversas perspectivas a palavra-de-ordem “um outro mundo é possível”.No aspecto político, o que está em jogo hoje no debate sobre 1968 não é tanto a interpretação de suas causas e conseqüências, a crítica indispensável ao que se passou, mas a luta em novos termos entre os que se acomodaram à nova ordem mundial e aqueles que herdaram o espírito de 1968. Esses apostam que é possível e necessário construir uma nova ordem, em que os valores fundamentais não sejam os do lucro, mas da convivência e realização plena dos seres humanos, em suas relações entre si e com a natureza, que se expressam em lutas pela preservação do meio ambiente, da igualdade entre os sexos, as culturas e as etnias, sem contar os embates renovados por um socialismo democrático. Ou seja, não se trata de encastelar-se no passado, recusando qualquer crítica a ele, mas de compreender alcances e limites das lutas de 1968, que entretanto deixaram ao menos um legado: o inconformismo, em contraste com um tempo como o nosso, em que prevalece o conformismo com a ordem mundial dos vencedores da guerra-fria.
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* Artigo publicado originalmente na revista Teoria e Debate, Edição Especial, ano 21, maio de 2008.

.** Professor Titular de Sociologia na Universidade de Campinas (UNICAMP) e pesquisador do CNPq. Autor de Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução (Record, 2000), entre outros livros.

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Paris 1968 – o reverso da utopia

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Augusto Buonicore*
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A"Meu conselho é que esqueçam de maio de 68. Por quê? Porque acabou! Foi extraordinário, formidável, mudou nossas vidas, mudamos a vida. Mas não vamos voltar ao tema eternamente". Daniel Cohn-Bendit, 40 anos depois.
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Neste mês em que comemoramos os 40 anos das grandes mobilizações operário-estudantis que abalaram a França e o mundo, a palavra de ordem que mais se houve é “esqueçam 1968!”. Por sinal este é o título do último livro do ex-l’enfant terrible da esquerda ortodoxa, outrora vermelho e hoje verde, Daniel Cohn-Bendit. O presidente direitista Sarkozy, por sua vez, chegou afirmar que sua eleição representava o último prego no caixão de Maio de 1968. Então duas questões nos assaltam: O que foi o Maio de 1968? Será que ele ainda tem algo a nos ensinar nos dias de hoje?
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Não podemos julgar um movimento daquela envergadura apenas tendo por referência o imaginário construído pelas lideranças estudantis e intelectuais a elas vinculados, como Sartre, Morin, Castoriadis e Marcuse. Estes tendiam ver a juventude universitária como a vanguarda revolucionária da sociedade, em substituição ao proletariado cada vez mais integrado ao sistema capitalista. Consideraram o movimento em curso naquele momento apenas a realização prática da liberdade, negação de toda e qualquer tipo de autoridade. Castoriadis chegou mesmo a afirmar que o Maio de 1968 “abri
u um novo período na História Universal”.
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Eram teses, em geral, elaboradas no calor da hora. Faltava aos seus portadores o distanciamento crítico necessário para uma análise mais profunda – fruto mesmo de suas propensões ideológicas. Confundiram as aparências (das palavras de ordem libertárias) com o conteúdo de classe real daquele movimento
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Por outro lado, não devemos julgar aquele movimento pelo que veio acontecer com a sociedade francesa e alguns de seus principais personagens, como Cohn-Bendit, Geismar, Roland Castro etc. Alguns teóricos, a partir de uma avaliação unilateral pós-fato, afirmaram que aquilo nada mais foi que uma ação necessária para que se abrisse o caminho à renovação do capitalismo – ou mesmo para que se criassem as condições para a hegemonia do neoliberalismo.
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Quem melhor expressaria esta idéia seria Regis Debray. Abandonando o esquerdismo – e as teses foquistas das quais foi o principal formulador – ele escreveu “Modesta contribuição às cerimônias oficiais do décimo aniversário”. Neste texto provocativo afirmou que o Maio de 1968 foi o “berço da nova sociedade burguesa”. Da mesma forma que a “república burguesa tinha festejado, na tomada da bastilha, seu nascimento, ela festejará o início de seu renascimento na tomada da palavra em 1968”. Debray afirmou existir uma “harmonia natural (...) entre as rebeliões individualistas de Maio e as necessidades políticas, econômicas e sociais do grande capitalismo liberal”. Continuou ele: “A comunhão dos egos sobre as barricadas tornou-se o egocentrismo generalizado, o sacrifício de si, o culto do eu ..., a exaltação das liberdades, a confirmação das desigualdades”. Ou seja, o movimento contestatório de 1968 produziu algo bastante diferente do que anunciara nas barricadas, numa espécie de “astúcia da razão” hegeliana – ou, mais precisamente, numa “astúcia do capital”.
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Existe ainda uma outra versão dessa mesma tese, só que defendida pela direita francesa. Segundo Sarkozy: “Os herdeiros de Maio de 68 impuseram uma idéia de que não havia nenhuma diferença entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira (...) que o aluno era igual ao professor (...) A herança de maio introduziu o cinismo na sociedade e na política” Ela havia “debilitado a ética do capitalismo e preparou o terreno para o capitalismo sem escrúpulos”.
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O destino de algumas das principais lideranças estudantis de 1968 parecia confirmar estas teses. Muitos transitaram de posições esquerdistas para o reformismo social-democrático ou mesmo para o liberalismo tout court. Cohn-Bendit, por exemplo, passou do anarquismo para posições favoráveis a guerra contra a Sérvia. Isso, no entanto, não depõe contra o Maio de 1968, apenas demonstra os limites políticos e ideológicos de sua direção.

O retrocesso no nível de consciência – que leva à capitulação diante da ideologia dominante e a integração à ordem – é um fenômeno típico dos períodos de recuo revolucionário. Isso aconteceu após a derrota da Comuna de Paris (1871) e da primeira revolução russa (1905). Muitos intelectuais revolucionários pequeno-burgueses abandonaram as alternativas coletivas e optaram por saídas individuais. Portanto, o que ocorreu na França e em outros países capitalistas, depois da derrota de 1968, não foi uma completa novidade histórica.
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Volto à questão inicial: o que foi o 1968 parisiense? Acredito que ele não chegou a se constituir propriamente numa revolução, como advogam os trotskistas, mas foi bem mais do que um simples protesto de estudantes “enfurecidos”, como afirmaram alguns de seus críticos. A junção de uma série de fatores, objetivos e subjetivos, criaram os germes de uma crise revolucionária que acabou não sendo aproveitada. Crise revolucionária ainda não é revolução.
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A França não atravessava uma crise econômica de graves proporções, vivia em meio aos “30 anos gloriosos” do capitalismo europeu. Isso não significava que os operários tivessem colhido todos os frutos desse desenvolvimento. Naqueles anos, pelo contrário, já começava a sentir uma relativa queda nos níveis salariais e do emprego, além do aumento do ritmo do trabalho. Nada que não tenha ocorrido em outras ocasiões. Assim, as teses economicistas estavam desarmadas para entender aquele acontecimento que abalou a sociedade francesa.
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Poucos anos antes, o país havia perdido suas colônias na África e Ásia. Foi derrotada pelos vietnamitas na famosa batalha de Dien Bien Phu (1954) e obrigada a dar independência para Argélia, depois de uma longa e sangrenta guerra colonial (1962). Por isso, naquele início de 1968, um fato ocorrido num lugar distante teve ali grande repercussão. Em fevereiro as tropas norte-vietnamita, sob o comando de Ho Chi-Minh, realizaram uma grande ofensiva político-militar contra as forças pró-imperialista do sul. Chegaram mesmo a invadir a embaixada dos Estados Unidos em Saigon. A solidariedade internacional ao povo vietnamita e a luta contra a intervenção estadunidense no conflito asiático atingiram um novo patamar.
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A contestação estudantil na França teve como um dos seus estopins a repressão que atingiu uma manifestação contra a guerra do Vietnã. Alguns jovens atacaram o escritório da American Express e um deles acabou sendo preso. No dia 22 de Março os estudantes ocuparam a reitoria da Universidade de Nanterre, periferia de Paris, e ocorreram choques com grupos de extrema-direita. O reitor solicitou a intervenção da polícia, que invadiu a escola. Nova intervenção policial ocorreria em 2 de maio.
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A partir desse momento começaram as mobilizações de solidariedade na tradicional Universidade de Sorbonne. Novos conflitos com os direitistas ocorreram e a própria sede da União Nacional dos Estudantes Franceses (UNEF) sofreu um atentado. O reitor tomou a infeliz decisão de, também, convocar a polícia. No dia 3 a universidade foi invadida e fechada. Sorbonne. Sua ocupação pela polícia foi como um ato de sacrilégio para a intelectualidade e os setores médios da sociedade. Estava dada a largada para o maio quente francês.
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No dia seguinte os estudantes tomaram o Bairro Latino, onde se encontrava a universidade, e foram duramente reprimidos. O movimento se alastrou e os confrontos de rua se multiplicaram. Alguns dos líderes foram presos e condenados há vários meses de prisão. Cohn-Bendit, emigrado alemão e um dos líderes estudantis, foi ameaçado de ser expulso da França. Surgia uma nova palavra de ordem: “Somos todos judeus alemães!”. Graças à crise vivida pelo Partido Comunista, nas universidades fervilhavam grupos de extrema-esquerda: anarquistas, trotskistas, maoístas etc.
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No dia 6 cerca de cinqüenta mil estudantes marcharam sob o Arco do Triunfo. Ocorreram novos confrontos. A repressão usava cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo e os jovens respondiam com as pedras retiradas do calçamento. Estas se tornariam um dos símbolos daquele movimento.
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O auge do enfrentamento ocorreu em 10 de maio, no que ficou conhecido como “a noite das barricadas”. Uma nova manifestação marchou por Paris e passou diante da prisão onde ainda se encontravam os líderes estudantis presos. Logo após, os participantes resolveram, numa proposta insólita, tomar o Bairro Latino e cercar à polícia que ainda se encontrava alojada na Sorbonne. Ergueram-se barricadas – o slogan era “Vamos cercar a polícia!”. Na calada da noite o governo decidiu desocupar as barricadas e começou a luta de rua. Nos choques que se seguiram, dezenas de pessoas ficaram feridas.
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As imagens da violência policial indignaram os parisienses e aumentou a solidariedade popular aos estudantes. Ao contrário do que se podia imaginar, naqueles dias conturbados, o movimento estudantil gozou de simpatia da maioria da população da capital. Hobsbawn falou em 61% de pessoas favoráveis ao movimento e apenas 16% que lhe eram claramente hostis.
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Em resposta a violência policial, os estudantes rebelados ocuparam as demais universidades. As centrais sindicais, atendendo ao pedido de apoio, convocaram uma greve geral para o dia 13 de maio. Nesta data cerca de um milhão de pessoas marcharam pelas ruas de Paris. Lado a lado, mas não muito confortáveis, estavam os dirigentes do movimento estudantil, das centrais sindicais e do Partido Comunista. O conflito subitamente mudou de qualidade. Escreveu Hobsbawn, “somente esta segunda fase criou possibilidades revolucionárias”.
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A greve geral foi planejada para durar apenas de 24 horas, mas ela desencadeou uma reação em cadeia, provando que o descontentamento dos operários era tão grande quanto o dos estudantes. Greves espontâneas começaram a pipocar até se transformarem numa outra greve geral por tempo indeterminado. Um dos pontos de partida foi a paralisação da fábrica Sud-Aviation em Nantes, ocorrida em 14 de maio.
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No dia seguinte foi a vez da Renault em Cleon paralisar seus trabalhos. O exemplo foi seguido pelas demais empresas, inclusive a Renault de Billancourt – a maior fábrica do país com os seus mais de 35 mil trabalhadores. O método era o mesmo: paralisação, ocupação da fábrica e “seqüestro” da direção da empresa. As bandeiras vermelhas tremularam nos portões de algumas empresas.
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O número de trabalhadores em greve cresceu de maneira geométrica. No total, cerca de 10 milhões de trabalhadores se envolveram no movimento paredista que durou mais de duas semanas e atingiu seu ápice entre os dias 22 e 23 de maio. Era, segundo alguns historiadores, a maior greve geral que se teve notícia na história do capitalismo até então. Esse é um lado pouco conhecido do Maio parisiense. Esquecimento necessário para a construção do mito sobre a passividade operária.
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A gigantesca greve operário-estudantil, que ganhou amplo apoio dos setores médios urbanos, levou a uma semi-paralisia do regime do general De Gaulle. Criando uma das mais graves crises políticas desde o fim da II Guerra Mundial. Desenhava-se no horizonte uma crise revolucionária e o velho general, enfraquecido, tentava manobrar em meio à turbulência que ameaçava devorá-lo.
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No dia 24 de maio, o presidente anunciou que o governo realizaria algumas reformas educacionais e prometeu um aumento salarial para os trabalhadores. Imediatamente os representantes governamentais e patronais começaram a negociar com as centrais sindicais uma pauta de reivindicação. Os resultados dessas conversações seriam os chamados “acordos de Grenelle”, numa referência à rua onde se localizava o Ministério do Trabalho, lugar da negociação.

Nos acordos eram estabelecidos: aumento de salário de 10%, redução gradual da jornada de trabalho, reconhecimento dos sindicatos dentro das fábricas etc. No entanto, uma das principais reivindicações do movimento grevista que era a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais não foi conseguida. Ela já havia sido conquistada na greve geral de 1936, durante o governo da Frente Popular, e depois foi retirada pelos governos conservadores que se seguiram. Os operários tinham a esperança de poder reconquistá-la através da sua greve.
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Os patrões concordaram apenas com a redução em duas horas – até 1970 – das jornadas acima de 48 horas e de uma hora para as jornadas de 45 e 48 horas. Durante as negociações o líder sindical comunista Krasucki afirmou: “é preciso ter por objetivo o retorno às 40 horas, sem fixar uma data, com um regulamento contratual por indústria”.
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Levando em conta a situação da indústria francesa, o tamanho da greve e a gravidade da crise política, as conquistas foram relativamente pequenas. Por esse motivo, os acordos foram amplamente rejeitados nas assembléias operárias e, inclusive, o número de grevistas chegou a aumentar. Criava-se assim uma crise de representação.
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Para o historiador comunista inglês, “os operários foram mais avançados que seus dirigentes” ao levantar questões que iam para além do simples aumento de salários, como o “controle social da indústria”. Continuou ele: “Se o PC tivesse reconhecido a existência e o alcance do movimento popular e agido adequadamente, teria adquirido suficiente impulso para forças seus aliados indecisos de esquerda tradicional a seguir a sua linha” e concluiu categórico: “os que perdem a iniciativa perdem o jogo”. Séguy, secretário-geral da CGT, no auge do movimento, afirmou: “Os dez milhões de operários em greve não reivindicam o poder para a classe operária e sim melhores condições de vida e de trabalho, e a imensa maioria deles expressou sua adesão à democracia com a palavra de ordem: governo popular.”
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Aproveitando-se dos impasses vividos pelo movimento, De Gaulle ensaiou uma ofensiva. Em 29 de maio viajou até às bases militares francesas na Alemanha Ocidental para obter o apoio do general Massu, conhecido carrasco do povo argelino. Voltou ao país e fez um duro pronunciamento público contra o perigo representado pelos comunistas, anunciou a dissolução da assembléia nacional e a convocação de novas eleições. No mesmo dia uma manifestação de cerca de 1 milhão pessoas, a chamada “maioria silenciosa”, marchou em apoio ao presidente e contra a greve geral. Em 13 de junho, dentro dessa ofensiva conservadora, foram proibidas as organizações políticas de extrema-esquerda (anarquistas, trotskistas e maoístas).
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O PCF e o Partido Socialista se uniram para defender o fim das greves para poderem preparar melhor as eleições, que acreditavam poder vencer. As direções sindicais realizaram acordos setoriais. A partir de então o movimento estudantil refluiu e as greves, que ainda resistiam, foram sendo aniquiladas pela repressão patronal. A Renault de Billancourt voltaria ao trabalho em 17 de junho. Poucas greves resistiriam até o final daquele mês.
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O resultado desse processo foi que, traindo todas as expectativas, a direita venceu amplamente os dois turnos das eleições parlamentares, que se realizaram nos dias 23 e 30 de junho. Os partidários de De Gaulle aumentaram sua bancada de 358 para 487 cadeiras. Um fato inédito.
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Hobsbawn escreveu criticamente: “A prova de fogo de um movimento revolucionário não é sua disposição para erguer barricadas em qualquer oportunidade, mas sua presteza em reconhecer quando as condições normais da rotina política deixam de funcionar e em adaptar seu comportamento a nova situação.” Aquela organização que deveria ser a vanguarda “manteve-se por detrás das massas sendo incapaz de reconhecer a seriedade dos movimentos estudantis até que as barricadas foram erguidas, de reconhecer a disposição dos operários para uma greve geral indefinida até que as ocupações espontâneas forçaram a mão de seus líderes sindicais, apanhados de surpresa uma vez mais, quando os operários rejeitaram os termos do acordo para por fim a greve”.
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As esquerdas não conseguiram estabelecer uma tática que permitisse romper o impasse criado. Enquanto o PCF jogava todas as suas cartas na preparação das eleições parlamentares, a palavra de ordem esquerdista era “eleição é traição”. Uns apostavam tudo na espontaneidade (despolitizada) do movimento e outros nas eleições, que poderiam trazer uma vitória da esquerda. Desse desencontro histórico foi se construindo a vitória político-eleitoral de De Gaulle e dos porta-vozes da ordem.
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Apesar do caráter utópico do projeto esboçado por parte importante das lideranças estudantis e intelectuais, o Maio de 1968 não foi a realização, ainda que fugaz, da utopia anárquico-comunista. Ele, pelo contrário, foi à expressão de uma luta de classes que atingiu um patamar bastante elevado, pondo em xeque a estabilidade do regime e em polvorosa a burguesia e seus representantes. A greve geral operária deu ao movimento uma radicalidade qualitativamente maior que as palavras de ordem pichadas nos muros de Paris. Neste sentido podemos dizer que, ao contrário do que pensam muitos de seus interpretes, o Maio de 1968 foi o reverso da utopia.
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Imagens de 1968

Para ver galeria de foto sobre o levante operário estudantil em Paris 1968 clique no link abaixo:

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http://www.topfoto.co.uk/gallery/paris1968/ppages/ppage1.html

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Documentário (em francês) sobre o movimento de maio de 1968:

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http://www.youtube.com/watch?v=BcDCsCGdOm4&feature=related


Cenas da luta de barricadas de 10 de maio:

http://www.youtube.com/watch?v=aFUUZFM1ORk&feature=related

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Algumas cenas da greve geral que abalou a França:
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http://www.youtube.com/watch?v=rWkcVt5GY-I&feature=related

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Bibliografia
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Ali, Tariq – “Mayo del 68. Adónde ha ido a parar toda la rabia?” in Rebelión, 31/03/2008
Cohn-Bendit, Daniel – O grande bazar, Ed. Brasiliense, 1988.
Duclos, Jacques – Anarquistas de ontem e de hoje, Ed. Sociais, 1974
Ferry, Luc e Renaut, Alain – Pensamento 68, ed. Ensaio, 1988.
Matos, Olgaria C. F. – Paris 1968: As barricada do desejo, Ed. Brasiliense, 1981
Mandel, Ernest – Da Comuna a Maio de 68, Ed. Antídoto, 1979
Hobsbawn, Eric – “Maio de 1968” in Revolucionários, Ed. Paz e Terra, 1985
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*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp

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