Mostrar mensagens com a etiqueta O Estado de S. Paulo. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta O Estado de S. Paulo. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Índios escritores resgatam sua história

Daniel Munduruku

Cultura

Vermelho - 13 de Dezembro de 2009 - 17h04

.

 Os índios escritores estão recuperando a história dos povos indígenas que os não índios ignoram. Seus livros, numa coleção de narrativas para crianças e adultos que relembram as tradições das 250 nações hoje sobreviventes no Brasil, variam no estilo, mas perseguem todos o mesmo objetivo - restaurar na ficção de lendas, novelas e romances a sabedoria dos ancestrais. 

.

Pesquisas antropológicas e o registro de uma memória que vem sendo transmitida, de geração em geração, pela boca dos pajés, permitem resgatar toda essa riqueza cultural. Daniel Munduruku, ou Derpó, que em sua língua nativa significa Peixe Maluco, é um dos pioneiros desse esforço editorial.
.
Ao lado de guerreiros como Marcos Terena, Kaká Werá, Aílton Krenak, Darlene Taukane, Eliane Potiguara e dezenas de outros autores que aparecem num catálogo literário organizado por entidades de defesa dos bens e direitos sociais dos índios, Daniel ajuda a espalhar a produção intelectual de seus parentes, pelo Brasil e no exterior.
.
Aos 45 anos de idade e 13 de escritor, Daniel lança O Karaíba, uma história do pré-Brasil (Editora Manole, 98 págs., R$ 39), romance destinado ao público juvenil. É mais um livro para ler com o coração, conselho válido para todas as lendas buscadas nas profundezas dos séculos anteriores à chegada dos portugueses à Bahia.
.
Essa é uma história de ficção", alerta Daniel, com a ressalva de que, se não ocorreu de verdade, é uma história que poderia ter acontecido. Karaíba foi um profeta que percorria as aldeias prevendo coisas assustadoras, como a chegada de um grande monstro que destruiria tudo. "Não sobrarão nem vestígios de nossa passagem sobre esta terra onde nossos pais viveram", anunciou o velho sábio a seus parentes que habitavam a Amazônia.
.
"Tudo será revirado: as águas, a terra, os animais, as plantas, os lugares sagrados", era essa a visão de Karaíba que os índios confirmariam no futuro, quando um jovem se assustou com um ponto branco se aproximando da praia. "Fantasmas estão chegando!", gritou aos guerreiros da aldeia.
.
O que aconteceu daí em diante, a história contada pelos não índios, os manuais ensinam nas escolas. Nas páginas desse seu pequeno romance, Daniel resgata um pouco da cultura e da tradição dos Munduruku, que se espalham hoje com uma população de 12 mil índios pelos Estados de Mato Grosso, Amazonas e Pará.
.
Foi numa aldeia da região de Santarém (PA), entre os igarapés afluentes do Rio Tapajós, que Daniel viveu até os 15 anos. Quando o pai foi morar na cidade, continuou a visitar seu povo, como conta em outro livro, Meu Vô Apolinário (Studio Nobel), que ele define como "um mergulho no rio de (minha) memória". Casado com uma moça do Vale do Paraíba e pai de dois filhos, Daniel formou-se em Filosofia na Universidade Salesiana de Lorena e faz doutorado em Educação na USP, enquanto escreve e dá palestras pelo Brasil afora.
.
Cultura para crianças
.
A tradição e a cultura indígena também são compartilhadas com as crianças nas escolas. "Xibat?", pergunta o índio escritor-professor a uma turma de alunos da Escola Lourenço Castanho, no bairro do Ibirapuera, em São Paulo, na manhã de uma sexta-feira de novembro. Os meninos e meninas, de 8 a 10 anos, que no início do encontro tinham ouvido de Daniel uma saudação em língua indígena, logo traduzida para o português, não entenderam nada. Todos sorriam, esperando a tradução de mais essa palavra.
.
"Tudo bem? Tudo legal? Tudo joia? Tudo porreta?", traduziu o índio, despejando uma enxurrada de gírias para quebrar o gelo. Depois contou que, na aldeia, ninguém se cumprimenta com beijos e abraços, mas só com uma saudação simples como xibat, olhando nos olhos, porque, como dizem os ancestrais, "o olho é a única parte do corpo que não mente". Explicou que Munduruku quer dizer Formiga Guerreira ou Gigante, um nome que, com um significado desse, só pode dar orgulho a seu povo. A criançada prestou a maior atenção.
.
"Meu povo, que vive na floresta há séculos, entrou em contato com os não índios há uns 300 anos. Aprendeu a usar roupa quando lhe disseram que era pecado andar pelado, balançando os balangandãs. Aprendeu a comer alimentos, como o macarrão, que não faziam parte de sua tradição. Os índios comiam mandioca, anta, farinha, peixe. Os índios, que falavam sua língua tradicional, tiveram de aprender o português. Os povos indígenas, que falam 180 línguas nas diversas regiões do País, agora são bilíngues."
.
Não havia como não prestar atenção. O horário reservado para a palestra estourou, porque Daniel cativou os alunos. Fez provocações engraçadas, riu, gritou alto de assustar até os adultos, cantou, ensaiou passos de dança, pintou a cara com tinta de jenipapo e de urucum, pôs um cocar de chefe na cabeça e um colar de festa no pescoço. Assumiu a identidade da aldeia ao relembrar a cultura dos ancestrais, mas deixou claro que fazia concessões à modernidade. Para divulgar a história dos índios e defender seus direitos, tem um blog na internet e se comunica por e-mail e por telefone celular.
.
"O povo indígena é um povo humano, que tem raiva, alegria, amor e ciúme", disse Daniel, citando sentimentos que acompanham seus personagens. Ao descrever as aventuras de seus parentes - com namoros, casamentos, caçadas, guerras e alianças de paz - ele utiliza palavras atuais, como garoto, rapaz e moça. Tudo com poesia e figuras simbólicas, mas sem aquela linguagem tipo "virgem dos lábios de mel" com que José de Alencar se referia a Iracema.
.
Derpó Munduruku, que hoje se orgulha desse nome, mesmo atendendo pelo registro civil que o rebatizou como Daniel, confessa que já sentiu vergonha de suas origens, quando era discriminado por causa da imagem que o índio tinha. "Além de considerar que o índio era preguiçoso e feio, diziam que ele atrapalha o progresso, pois tem muita terra e não sabe o que fazer com ela."
.
Daniel queria ser bombeiro ou astronauta, não queria ser visto como um selvagem. "Agora, tenho consciência de minha identidade e gosto dela: sou um brasileiro-índio." E, quando ele lembrou que existem brasileiros brancos, negros, japoneses, italianos e cidadãos de muitas outras ascendências que nem por isso são menos brasileiros, todos entenderam. "Xibat?", perguntou o índio. "Xibat", respondeu a criançada em coro.
.
Com O Estado de S.Paulo

.
.

[Audiobook] Catando Piolhos, Contando Histórias – Daniel Munduruku ...

.

Coisas de Índio: Versão Infantil

.
Daniel Munduruku, autor deste bonito panorama sobre as comunidades indígenas do Brasil, é índio e gosta de ser índio. Ou seja, acha fundamental o resgate do orgulho indígena, tão em baixa desde que os brancos aqui aportaram. Tanto que a expressão "coisas de índio" tem valor negativo, querendo dizer: "coisas de gente esquisita, de ignorante". Mas, desde que conduzidos pela mão certa, basta uma rápida olhada na cultura e na história dos povos indígenas para vermos que não é bem assim. Coisas de índio é um livro para pesquisa, acessível, interessante e muito atraente, capaz de fazer com que o leitor sensível compreenda toda a riqueza e pluralidade das coisas dos nossos índios.
.
http://www.planetanews.com/produto/L/44029/coisas-de-Indio--versao-infantil-daniel-munduruku.html
.
.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Cartas, de Antônio Vieira


Digestivo nº 386 >>> Cartas, de Antônio Vieira

Pouca gente leu o Imperador da Língua — Fernando Pessoa, por exemplo, leu. Mas, no Brasil, parece que menos gente ainda leu o Padre Vieira. Os Sermões ficaram famosos nas aulas de literatura, afinal, estamos falando do maior escritor do barroco brasileiro, mas suas últimas edições não fizeram o estardalhaço que deveriam e — na onda de Deus, um delírio — alguém pode ficar meio desconfiado de ler, justamente, um sermão... O importante, nessas horas, é lembrar Ariano Suassuna, que afirmou ler Euclides da Cunha não por seus erros em ciência e sociologia, mas pela beleza de estilo. Suassuna acrescentou, ainda, que preferia o nosso Euclides a Gilberto Freyre — que, efetivamente, "acertava" mais, porém, esteticamente, interessava menos. As Cartas, de Vieira, que a editora Globo agora lança, com prefácio de Alcir Pécora, podem servir, portanto, de "segunda chance", para quem se interessou pelo Padre nas aulas de literatura (ou nos versos de Pessoa), tentou os Sermões, mas, por conta do zeitgeist, não mergulhou no estilo do jesuíta. As cartas, propriamente ditas, são quase — o que chamaríamos hoje de — "cartas comerciais", relatórios, prestações de contas, a começar pela primeira: quando Vieira, impressionando seus superiores já aos 16 anos, redigiu, de próprio punho, uma longa carta sobre os feitos da Companhia de Jesus na colônia. Felizmente, para nós, mesmo quando tentava soar objetivo (se essa expressão, aliás, existisse), Vieira se derramava, "se colocava" sempre e compunha painéis vastíssimos. "Imperadores", como ele, nascem só um a cada século. Vale a pena, portanto, abandonar os soldados rasos da literatura contemporânea e cavalgar, altivamente, no estilo do Padre, que balançou, até, o "moderno" Pessoa.
>>> Cartas de Antônio Vieira
.
.

Cartas, V.1

Autor: VIEIRA, ANTONIO (PADRE)
Organizador: AZEVEDO, JOAO LUCIO DE
Editora: GLOBO
Assunto: BIOGRAFIAS, DIÁRIOS, MEMÓRIAS E CORRESPONDÊNCIAS



.

Sinopse

Este é o primeiro volume, de três, das 'Cartas do padre Antônio Vieira'. A presente edição conta com uma apresentação do especialista brasileiro em Vieira da atualidade, Alcir Pécora - que, além de comentar a edição original, o conteúdo das cartas e seu contexto histórico e biográfico, também analisa o estilo epistolar da época em geral e de Vieira em particular.


,
.
Saiu na Imprensa:

O Estado de S. Paulo  /   Data: 2/8/2008
Cartas com esperança e com afeto
Primeiro volume de correspondências do padre jesuíta, organizado por João Lúcio de Azevedo, ganha edição inédita no Brasil
Francisco Quinteiro Pires
.
Com esperança e com afeto. Todas as cartas de padre Antônio Vieira apresentam esses recursos para conquistar a simpatia do destinatário. “Mas suas correspondências não têm nada de estritamente pessoal, ou íntimo, da forma como pensamos hoje”, diz Alcir Pécora, um dos maiores especialistas brasileiros em Vieira, cujos 400 anos de nascimento são comemorados neste ano. Ele assina o prefácio do primeiro volume de "Cartas" (Globo, 484 págs.), organizado pelo historiador português João Lúcio de Azevedo e editado pela primeira vez no Brasil.
.
Vieira via basicamente o ato de escrever como um ato negocial, uma forma de atuação fortemente política”, diz Pécora. Essa concepção, no entanto, não impedia o jesuíta de usar recursos emocionais para conquistar a boa disposição do leitor. Ele imprimia um “temperamento” às correspondências, por meio das quais estimulava uma partilha solidária com o destinatário, transformado em cúmplice. Se existe um caráter particular nas correspondências, ele aparece no comprometimento, até a medula, do jesuíta com suas crenças religiosa e política. “A meu ver, o destinatário virtual ou ideal de todas as cartas de Vieira é o Príncipe, aquele que exercia no momento o mand
.
Padre Antônio Vieira acreditava na idéia de uma monarquia cristã universal. Ele via o império português como o Estado que concretizaria essa monarquia no mundo todo. Era o Quinto Império, fundado por um rei português, um longo período de paz na terra, antes da chegada ao anti-Cristo e do Juízo Final. “Pode-se dizer que essa crença está pressuposta em todas as cartas”, diz Pécora. “Mas sempre de forma dramática, problemática, por vezes contrariada, por vezes no limite do desengano.” O volume 1 contém a carta conhecida como Esperanças de Portugal, V Império do Mundo, de 29 de abril de 1659. O Tribunal do Santo Ofício de Coimbra se baseou nela para acusar Vieira.
.
A esperança no Quinto Império teria de vir com a graça dos céus, mas ela só se concretizaria se o rei de Portugal a transformasse numa razão de Estado. “Esta, entretanto, na perspectiva de Vieira, invariavelmente faltava ao governo português.” Pécora lembra que o jesuíta se valia das cartas para reforçar “o corpo místico” do poder imperial. O padre Antônio Vieira (1608-97) chamava para si a missão de interpretar os sinais divinos para daí aconselhar o rei que lhe desse ouvidos. Não à toa, d. João IV, seu protetor, foi um dos principais correspondentes.
.
Alcir Pécora explica que Antônio Vieira obedecia a procedimentos ditados pela Companhia de Jesus para escrever as cartas. Era a ars dictaminis, que previa a seguinte divisão da estrutura do texto: salutatio (saudação ou cumprimento); captatio benevolentiae (obtenção de simpatia ou boa disposição); narratio (narrativa e relação); petitio (pedido, solicitação); e conclusio (fecho, conclusão). Embora sejam práticas de escrita convencionais, as cartas e os sermões têm diferenças no que se refere às suas determinações. “No sermão, o fundamental é a demonstração de um tema extraído do Evangelho do dia, tendo em vista o calendário litúrgico e o tempo histórico vivido pelo auditório”, diz Pécora. “Nas cartas, o que conta é a composição de uma narrativa que desemboca num pedido: os procedimentos de conquista são mais desenvolvidos”, completa.
.
Autor de "História de Antônio Vieira", a mais completa biografia do jesuíta, dividida em dois tomos, João Lúcio de Azevedo adotou um procedimento cronológico de organização. O volume 1 reúne 93 cartas, escritas entre 1646 e 1661, disposta em cinco seções. Previsto para ser lançado em outubro, o 2 apresenta 321 correspondências, redigidas entre 1662 e 1673, distribuídas em duas seções. Previsto para dezembro, o terceiro volume tem 305 epístolas, escritas entre 1674 e 1697, dividido em cinco seções. Pouquíssimas cartas surgiram depois dessa organização, feita entre 1925 e 1928. Os três volumes são considerados a compilação mais sólida das cartas de Antônio Vieira.
.


 Sobre o autor:

AZEVEDO, JOAO LUCIO DE
João Lúcio de Azevedo nasce em 1855 em Portugal e morre em 1933. Aos 18 anos, embarca para Belém do Pará, onde torna-se caixeiro de uma grande livraria, da qual viria a ser chefe ao casar-se com a filha do proprietário. Autodidata, aprende várias línguas e começa a escrever suas obras. Ainda no Pará, publica cinco artigos que, reunidos, formariam seu primeiro livro Estudos de História Paraense. Depois de morar alguns anos em Paris, volta a Portugal iniciando o período mais produtivo, publicando diversas obras importantes, como O Marques de Pombal e a sua época, História de Antônio Vieira, A evolução do sebastianismo e História dos cristãos-novos portugueses. Organiza ainda a melhor edição das cartas do Padre Antônio Vieira. Um dos maiores historiadores portugueses do início do século XX, é editado regularmente em Portugal até hoje. Amigo dos historiadores brasileiros Capistrano de Abreu e Oliveira Lima, dedicou-lhes seu livro Épocas de Portugal Econômico. 
.
.