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domingo, 8 de março de 2026

Carlos Coutinho - [António Lobp Antunes]

* Carlos Coutinho
 ·
Está agora sepultado no Cemitério de Benfica, em Lisboa, um extraordinário escritor que muito admiro e que muito me ensina ainda hoje, alguém que, inusitadamente, teve no Mosteiro dos Jerónimos as cerimónias fúnebres (o “velório”, no dizer de um repórter de alfurja de um canal de TV de crimes e escândalos, abaixo de qualquer respeito) um tal António Lobo Antunes que deixou uma profunda marca na escrita de autores que começaram a publicar depois dele e que, sendo o inverso de José Saramago, outro gigante também já falecido e nobelizado, contra ele combateu, por mal disfarçada inveja. 

   Diferente dele, ideológica e filosoficamente, este Lobo feroz, execrou-o por ter sido ele o galardoado com o Prémio sueco para a Literatura que o infeliz psiquiatra tanto desejou em vão.

   Regressando da guerra colonial em Angola, onde penou e trabalhou como alferes miliciano médico, o António Lobo Antunes publicou em 1978 “Memória de Elefante”, uma estreia que surpreendeu críticos e acadêmicos, logo seguida por “Os Cus de Judas” e abrindo caminho a uma recepção fulgurante de “A Explicação dos Pássaros” e de “O Manual dos Inquisidores”, além do fabuloso “Fado Alexandrino” que ainda trina e ecoa por todo o lado.

   O mais alto Poder homenageou-o e acrescentou aos muitos prémios em vida recebidos, nacionais e estrangeiros, um galardão póstumo, a poucos metros do homérico túmulo vazio de Luís de Camões, seguindo hoje o seu esquife para um cemitério alfacinha que recebe urnas e caixões de gente de todos os credos classes sociais. 

   Muito perto dele está enterrado, há meia década, um cunhado meu, comerciante de Benfica, e logo ao lado um jornalista que foi meu chefe. 

   Dulce Maria Cardoso, outra grande romancista que escreeu “O Retorno” e também entrou no que chama “literatura colonial”, confessa que a influência de Lobo Antunes também nela foi “enorme” e frisa: “Não conheço quem escreva tão bem em língua portuguesa. (…) Leio-o como um garimpeiro à procura de pepitas de ouro.”

   Para Gonçalo M. Tavares, outro aedo nobelizável com prestígio internacional, há em Lobo Antunes “uma síntese filosófica de uma ideia formulada” pelo filósofo José Gil: o “medo dc existir”

   Agustina Bessa Luís, que muito dele gostava, disse-lhe um dia:  “Sabes, filho, eu devia ter-me casado contigo ou com o Camilo.”

    Já Maria Alzira Seixo, que o estudou meticulosamente escreveu:

“Entre todos os motivos literários (…), um dos mais fortes é o do espelho, porque caracteriza o narrador na presença irrecusável de si a si próprio, dando conta das coincidências entre volição e pragmática, entre desejo e remissão à incompletude.”

   O jornalista e escritor Rui Cardoso Martins, que acompanhou Lobo Antunes numa ida a Nova Iorque, ouviu-lhe numa entrevista: ”Pedi ao sujeito da pensão que me levasse ao sótão, onde morava Deus.”

   Aliás, já tinha escrito numa crónica na revista “Visão”:

“Deus, estou zangado contigo. Suponho que já Te habituaste às minhas zangas como Te habituaste às minhas dúvidas, aos meus afastamentos, aos meus regressos a fingir que não venho, aos momentos de harmonia que de vez em quando existem entre nós, à minha incompreensão de tanta coisa que fazes ou não fases, aos meus ralhetes, aos meus amuos, ao que considero as Tuas injustiças, a Tua crueldade e se calhar não é injustiça, se calhar não é crueldade, sou parvo, não ligues, não consigo entender as Tuas profundezas e os Teus caminhos, o significado dos Teus gestos. Só que ultimamente, tenho exagerado: o ano ainda mal começou e já desataste a despovoar o mundo à minha volta.”

   E em 2018, numa entrevista com uma só pergunta do “Diário de Notícias”, respondeu: “Quero que o Nobel se foda.”

8 Março 2026

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

sexta-feira, 6 de março de 2026

Alfredo Barroso - MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES


MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO POR PREGUIÇA…

- confessa Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas

António Lobo Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português. Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se, tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.

Foi um amigo meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a “Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”. E por aqui me fiquei.

Confesso que, neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo, «a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da cabeça para que se saiba quem é o patrão»…

E assim por diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem reticências…

O narcisismo, ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…

NOTÍCIA DA DEMÊNCIA E DA MORTE

O certo é que António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83 anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou bastante do mundo, devido à demência que o afectou.

«A doença que o foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes. Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves, ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…

“É a minha geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã, tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever: deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de todos nós esteve ele.”

Para Lídia Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo, um modo e uma forma que são universais”.

Essa forma que, segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo. “Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus, de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever como ele.”

E se gostou dos primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas” -, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo “impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.

Dulce Maria Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”, que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho, trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o escritor nascido em Benfica.

Carlos Vaz Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’, explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’ Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz bem timbrada, na minha cabeça.”

Campo d’Ourique, 5 de Março de 2026

https://www.facebook.com/somera.simoes/post

sábado, 27 de março de 2021

António Lobo Antunes - Praça da Canção

* António Lobo Antunes

Passei a Faculdade a escrever. Não estudava, não ia às aulas, houve exames a que nem sequer compareci.

Ainda hoje me espanta a paciência com que o meu pai aturou isso tudo, ele que era muito autoritário e, por vezes, violento. Argumentava que queria ser escritor, não queria ser médico, soube muito mais tarde que o meu pai, para meu espanto, tinha a certeza que eu tinha talento embora não lhe mostrasse o que fazia: periodicamente queimava tudo junto à figueira do quintal, depois soube que ele ia lá sem me dizer nada, lia os restos que ficavam na cinza e copiava-os para um caderno verde. O meu pai possuía um respeito sagrado pelos artistas e talvez, na sua cabeça, pensasse que eu era um deles, enquanto eu, pouco mais do que um miúdo, vivia atormentado pelas minhas deficiências, sempre a dizer-me

- Ainda não é isto, ainda não é isto e levei vinte anos a encontrar o que seria a minha voz, quando me apareceu a Memória de Elefante. Disse

- Ainda não é isto mas acho que descobri o caminho.

E, depois, seguiu-se o trabalho de fazer crescer aquilo tudo. Mas, nessa altura, já havia terminado a Faculdade de Medicina, já havia passado mais de três anos na tropa, já vivera os horrores de África. Até então fora o tormento do curso, que o fez sofrer a ele e me aborrecia a mim. Mal começava a estudar pensava logo

- Devia estar a escrever e voltava aos poemas péssimos e à prosa mais do que medíocre de que então era capaz, certo que, escondido, morava em mim um grande talento. Não certo, certíssimo, ao ponto de sacrificar fosse o que fosse à literatura. Pai, agradeço-lhe a paciência que teve para comigo, peço-lhe perdão de o haver humilhado com a miséria das minhas notas, agradeço que no fundo de si, embora nunca mo dissesse, me haja compreendido. A certa altura, a meio do curso, aconteceu uma coisa que me abalou muito. Era o final dos anos 60, em que os estudantes se levantavam contra a ditadura: cargas policiais, violência, prisões. Tudo isto me passou um bocado ao lado, entregue, como estava, à minha luta com as palavras. Um colega, no hospital, entregou-me, com grandes pedidos de segredo, um maço de folhas policopiadas. Na primeira página estava escrito Praça da Canção e, por baixo, o nome do autor, que nada me dizia: Manuel Alegre. Foi certamente o livro mais lido, mais comentado, mais entusiasmante, mais influente para a minha geração. Num segundo

(pareceu-me que num segundo) tornou-se a bandeira dos estudantes contra o fascismo e a monstruosidade que vivíamos.

Não me interessou a sua qualidade literária. Interessou-me a corajosa chama daqueles versos e o imenso coração do autor.

Claro que Manuel Alegre era um poeta, não me ralou o tamanho do poeta que ele era, interessou-me o tamanho do que ele dizia.

A ousadia com que fez arder uma geração inteira, e o incêndio que levantou sozinho. Uma ocasião, na fronteira com a Zâmbia, morreu-me um camarada. Só sei dizer assim: morreu-me, porque me morreu de facto. De imediato veio-me à cabeça um poema de Manuel Alegre

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

e comecei a chorar. Só quem passou por uma desgraça assim é capaz de entender isto até ao osso

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Esta, e outras passagens do livro, ficaram comigo para sempre, ficarão comigo para sempre: que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Foi Manuel Alegre que o escreveu, e é a Manuel Alegre que o devo, porque se trata de uma prenda que nenhum dinheiro paga. Faz cinquenta anos que o livro surgiu, cinquenta anos de gratidão da minha parte. O Poeta mandou-me um exemplar comemorativo do aniversário do livro, com uma dedicatória cuja generosidade me tocou imenso. Manuel, não imaginas quanto estiveste comigo em África e quanto continuas comigo porque, em certo sentido, nunca saímos de lá. E tu ajudaste-me naquele exílio muito mais do que imaginas. Tenho pena que já não fumes porque o brinde que queria fazer-te agradecendo o muito que deste sem o saberes, ao estudantezinho anónimo que eu era, ao militar anónimo que eu fui, seria estender o meu cigarro para ti, dizer-te olhos nos olhos

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

e esconder uma lágrima de homem para homem num chupão imenso.


Crónica de António Lobo Antunes, 23 de julho de 2015, in Revista Visão



Adriano Correia de Oliveira - Canção com Lágrimas


Canção com lágrimas, por Manuel Alegre

Eu canto para ti o mês das giestas
O mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol, Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera.

domingo, 29 de março de 2020

António Lobo Antunes - Sátira aos HOMENS quando estão com gripe



* António Lobo Antunes

Pachos na testa, terço na mão,
Uma botija, chá de limão,
Zaragatoas, vinho com mel,
Três aspirinas, creme na pele
Grito de medo, chamo a mulher.
Ai Lurdes que vou morrer.
Mede-me a febre, olha-me a goela,
Cala os miúdos, fecha a janela,
Não quero canja, nem a salada,
Ai Lurdes, Lurdes, não vales nada.
Se tu sonhasses como me sinto,
Já vejo a morte nunca te minto,
Já vejo o inferno, chamas, diabos,
Anjos estranhos, cornos e rabos,
Vejo demónios nas suas danças
Tigres sem listras, bodes sem tranças
Choros de coruja, risos de grilo
Ai Lurdes, Lurdes fica comigo
Não é o pingo de uma torneira,
Põe-me a Santinha à cabeceira,
Compõe-me a colcha,
Fala ao prior,
Pousa o Jesus no cobertor.
Chama o Doutor, passa a chamada,
Ai Lurdes, Lurdes nem dás por nada.
Faz-me tisana e pão de ló,
Não te levantes que fico só,
Aqui sozinho a apodrecer,
Ai Lurdes, Lurdes que vou morrer

António Lobo Antunes - Sátira aos HOMENS quando estão com gripe
in Letrinhas de Cantigas (canções) 2002


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

António Lobo Antunes - O último abraço que me dás



*António Lobo Antunes
12.12.2013 

Para Luís Costa

O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria, onde a elegância dos doentes os transforma em reis. Numa das últimas vezes que lá fui encontrei um homem que conheço há muitos anos. Estava tão magro que demorei a perceber quem era. Disse-me
- Abrace-me porque é o último abraço que me dá
durante o abraço
- Tenho muita pena de não acabar a tese de doutoramento
e, ao afastarmo-nos, sorriu. Nunca vi um sorriso com tanta dor entre parêntesis, nunca imaginei que fosse tão bonito.
Com o meu corpo contra o dele veio-me à cabeça, instantâneo, o fragmento de um poema do meu amigo Alexandre O'Neill, que diz que apenas entre os homens, e por eles, vale a pena viver. E descobri-me cheio de respeito e amor. Um rapaz, de cerca de vinte anos, que fazia quimioterapia ao pé de mim, numa determinação tranquila:
- Estou aqui para lutar
e, por estranho que pareça, havia alegria em cada gesto seu. Achei nele o medo também, mais do que o medo, o terror e, ao mesmo tempo que o terror, a coragem e a esperança.
A extraordinária delicadeza e atenção dos médicos, dos enfermeiros, comoveu-me. Tropecei no desespero, no malestar físico, na presença da morte, na surpresa da dor, na horrível solidão da proximidade do fim, que se me afigura de uma injustiça intolerável. Não fomos feitos para isto, fomos feitos para a vida. O cabelo cresce-me de novo, acho-me, fisicamente, como antes, estou a acabar o livro e o meu pensamento desvia-se constantemente para a voz de um homem no meu ouvido
- Acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento, acabar a tese de doutoramento
porque não aceito a aceitação, porque não aceito a crueldade, porque não aceito que destruam companheiros. A rapariga com a peruca no braço da cadeira. O senhor que não olhava para ninguém, olhava para o vazio. Ali, na sala de quimioterapia, jamais escutei um gemido, jamais vi uma lágrima. Somente feições sérias, de uma seriedade que não topei em mais parte alguma, rostos com o mundo inteiro em cada prega, traços esculpidos a fogo na pele. Vi morrer gente quando era médico, vi morrer gente na guerra, e continuo sem compreender. Isso eu sei que não compreenderei. Que me espanta. Que me faz zangar. Abrace-me porque é o último abraço que me dá: é uma frase que se entenda, esta? Morreu há muito pouco tempo. Foda-se. Perdoem esta palavra mas é a única que me sai. Foda-se. Quando eu era pequeno ninguém morria. Porque carga de água se morre agora, pelo simples facto de eu ter crescido? Morra um homem fique fama, declaravam os contrabandistas da raia. Se tivermos sorte alguém se lembrará de nós com saudade. De mim ficarão os livros. E depois? Tolstoi, no seu diário: sou o melhor; e depois? E depois nada porque a fama é nada.
O que é muito mais do que nada são estas criaturas feridas, a recordação profundamente lancinante de uma peruca de mulher num braço de cadeira. Se eu estivesse ali sozinho, sem ninguém a ver-me, acariciava uma daquelas madeixas horas sem fim. No termo das sessões de quimioterapia as pessoas vão-se embora. Ao desaparecerem na porta penso: o que farão agora? E apetece-me ir com eles, impedir que lhes façam mal:
- Abrace-me porque talvez não seja o último abraço que me dá.
Ao M. foi. E pode afigurar-se estranho mas ainda o trago na pele. Durante quanto tempo vou ficar com ele tatuado? O lugar onde, até hoje, senti mais orgulho em ser pessoa foi o Serviço de Oncologia do Hospital de Santa Maria onde a dignidade dos escravos da doença os transforma em gigantes, onde só existem, nas palavras do Luís, Heróis.
Onde só existem Heróis. Não estou doente agora. Não sei se voltarei a estar. Se voltar a estar, embora não chegue aos calcanhares de herói algum, espero comportar-me como um homem. Oxalá o consiga. Como escreveu Torga o destino destina mas o resto é comigo. E é. Muito boa tarde a todos e as melhoras: é assim que se despedem no Serviço de Oncologia. Muito boa tarde a todos e até já, mesmo que seja o último abraço que damos.

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/o-ultimo-abraco-que-me-das=f761252

quarta-feira, 1 de agosto de 2018

António Lobo Antunes - Nação valente e imortal

* António Lobo Antunes

Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já!  A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara

Agora sol na rua a fim de me melhorar a disposição, me reconciliar com a vida. Passa uma senhora de saco de compras: não estamos assim tão mal, ainda compramos coisas, que injusto tanta queixa, tanto lamento. Isto é internacional, meu caro, internacional e nós, estúpidos, culpamos logo os governos. Quem nos dá este solzinho, quem é? E de graça. Eles a trabalharem para nós, a trabalharem, a trabalharem e a gente, mal agradecidos, protestamos. Deixam de ser ministros e a sua vida um horror, suportado em estóico silêncio. Veja-se, por exemplo, o senhor Mexia, o senhor Dias Loureiro, o senhor Jorge Coelho, coitados. Não há um único que não esteja na franja da miséria. Um único. Mais aqueles rapazes generosos, que, não sendo ministros, deram o litro pelo País e só por orgulho não estendem a mão à caridade.
O senhor Rui Pedro Soares, os senhores Penedos pai e filho, que isto da bondade às vezes é hereditário, dúzias deles.
Tenham o sentido da realidade, portugueses, sejam gratos, sejam honestos, reconheçam o que eles sofreram, o que sofrem. Uns sacrificados, uns Cristos, que pecado feio, a ingratidão. O senhor Vale e Azevedo, outro santo, bem o exprimiu em Londres. O senhor Carlos Cruz, outro santo, bem o explicou em livros. E nós, por pura maldade, teimamos em não entender. Claro que há povos ainda piores do que o nosso: os islandeses, por exemplo, que se atrevem a meter os beneméritos em tribunal. Pelo menos nesse ponto, vá lá, sobra-nos um resto de humanidade, de respeito.
Um pozinho de consideração por almas eleitas, que Deus acolherá decerto, com especial ternura, na amplidão imensa do Seu seio. Já o estou a ver Senta-te aqui ao meu lado ó Loureiro Senta-te aqui ao meu lado ó Duarte Lima Senta-te aqui ao meu lado ó Azevedo que é o mínimo que se pode fazer por esses Padres Américos, pela nossa interminável lista de bem-aventurados, banqueiros, coitadinhos, gestores que o céu lhes dê saúde e boa sorte e demais penitentes de coração puro, espíritos de eleição, seguidores escrupulosos do Evangelho. E com a bandeirinha nacional na lapela, os patriotas, e com a arraia miúda no coração. E melhoram-nos obrigando-nos a sacrifícios purificadores, aproximando-nos dos banquetes de bem-aventuranças da Eternidade. As empresas fecham, os desempregados aumentam, os impostos crescem, penhoram casas, automóveis, o ar que respiramos e a maltosa incapaz de enxergar a capacidade purificadora destas medidas. Reformas ridículas, ordenados mínimos irrisórios, subsídios de cacaracá? Talvez. Mas passaremos sem dificuldade o buraco da agulha enquanto os Loureiros todos abdicam, por amor ao próximo, de uma Eternidade feliz. A transcendência deste acto dá-me vontade de ajoelhar à sua frente.
Dá-me vontade? Ajoelho à sua frente, indigno de lhes desapertar as correias dos sapatos. Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram.
Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara. Haja sentido das proporções, haja espírito de medida, haja respeito. Estátuas equestres para todos, veneração nacional. Esta mania tacanha de perseguir o senhor Oliveira e Costa: libertem-no. Esta pouca vergonha contra os poucos que estão presos, os quase nenhuns que estão presos por, como provou o senhor Vale e Azevedo, como provou o senhor Carlos Cruz, hedionda perseguição pessoal com fins inconfessáveis. Admitam-no. E voltem a pôr o senhor Dias Loureiro no Conselho de Estado, de onde o obrigaram, por maldade e inveja, a sair. Quero o senhor Mexia no Terreiro do Paço, no lugar de D. José que, aliás, era um pateta. Quero outro mártir qualquer, tanto faz, no lugar do Marquês de Pombal, esse tirano.
Acabem com a pouca vergonha dos Sindicatos.
Acabem com as manifestações, as greves, os protestos, por favor deixem de pecar. Como pedia o doutor João das Regras, olhai, olhai bem, mas vêde. E tereis mais fominha e, em consequência, mais Paraíso. Agradeçam este solzinho.
Agradeçam a Linha Branca. Agradeçam a sopa e a peçazita de fruta do jantar.
Abaixo o Bem-Estar. Vocês falam em crise mas as actrizes das telenovelas continuam a aumentar o peito: onde é que está a crise, então? Não gostam de olhar aquelas generosas abundâncias que uns violadores de sepulturas, com a alcunha de cirurgiões plásticos, vos oferecem ao olhinho guloso? Não comem carne mas podem comer lábios da grossura de bifes do lombo e transformar as caras das mulheres em tenebrosas máscaras de Carnaval. Para isso já há dinheiro, não é? E vocês a queixarem-se sem vergonha, e vocês cartazes, cortejos, berros.
Proíbam-se os lamentos injustos. Não se vendem livros? Mentira. O senhor Rodrigo dos Santos vende e, enquanto vender, o nível da nossa cultura ultrapassa, sem dificuldade, a Academia Francesa. Que queremos? Temos peitos, lábios, literatura e os ministros e os ex-ministros a tomarem conta disto.
Sinceramente, sejamos justos, a que mais se pode aspirar? O resto são coisas insignificantes: desemprego, preços a dispararem, não haver com que pagar ao médico e à farmácia, ninharias. Como é que ainda sobram criaturas com a desfaçatez de protestarem? Da mesma forma que os processos importantes em tribunal a indignação há-de, fatalmente, de prescrever. E, magrinhos, magrinhos mas com peitos de litro e beijando-nos um aos outros com os bifes das bocas seremos, como é nossa obrigação, felizes.

http://visao.sapo.pt/opiniao/opiniao_antonioloboantunes/nacao-valente-e-imortal=f658209

segunda-feira, 3 de abril de 2017

Os pobrezinhos, de António Lobo Antunes


* António Lobo Antunes

Na minha família os animais domésticos não eram cães nem gatos nem pássaros; na minha família os animais domésticos eram pobres.

Cada uma das minhas tias tinha o seu pobre, pessoal e intransmissível, que vinha a casa dos meus avós uma vez por semana buscar, com um sorriso agradecido, a ração de roupa e comida.

Os pobres, para além de serem obviamente pobres (de preferência descalços, para poderem ser calçados pelos donos; de preferência rotos, para poderem vestir camisas velhas que se salvavam, desse modo, de um destino natural de esfregões; de preferência doentes a fim de receberem uma embalagem de aspirina), deviam possuir outras características imprescindíveis: irem à missa, baptizarem os filhos, não andarem bêbedos, e sobretudo, manterem-se orgulhosamente fiéis a quem pertenciam.

Parece que ainda estou a ver um homem de sumptuosos farrapos, parecido com o Tolstoi até na barba, responder, ofendido e soberbo, a uma prima distraída que insistia em oferecer-lhe uma camisola que nenhum de nós queria: - Eu não sou o seu pobre; eu sou o pobre da menina Teresinha.

O plural de pobre não era «pobres». O plural de pobre era «esta gente».

No Natal e na Páscoa as tias reuniam-se em bando, armadas de fatias de bolo-rei, saquinhos de amêndoas e outras delícias equivalentes, e deslocavam-se piedosamente ao sítio onde os seus animais domésticos habitavam, isto é, um bairro de casas de madeira da periferia de Benfica, nas Pedralvas e junto à Estrada Militar, a fim de distribuírem, numa pompa de reis magos, peúgas de lã, cuecas, sandálias que não serviam a ninguém, pagelas de Nossa Senhora de Fátima e outras maravilhas de igual calibre. 

Os pobres surgiam das suas barracas, alvoraçados e gratos, e as minhas tias preveniam-me logo, enxotando-os com as costas da mão:

- Não se chegue muito que esta gente tem piolhos.

 Nessas alturas, e só nessas alturas, era permitido oferecer aos pobres dinheiro, presente sempre perigoso por correr o risco de ser gasto (- Esta gente, coitada, não tem noção do dinheiro) de forma de deletéria e irresponsável.

O pobre da minha Carlota, por exemplo, foi proibido de entrar na casa dos meus avós porque, quando ela lhe meteu dez tostões na palma recomendando, maternal, preocupada com a saúde do seu animal doméstico

- Agora veja lá, não gaste tudo em vinho

 O atrevido lhe respondeu, malcriadíssimo:

- Não, minha senhora, vou comprar um Alfa-Romeu.

Os filhos dos pobres definiam-se por não irem à escola, serem magrinhos e morrerem muito. Ao perguntar as razões destas características insólitas foi-me dito com um encolher de ombros:

- O que é que o menino quer, esta gente é assim.

 E eu entendi que ser pobre, mais do que um destino, era uma espécie de vocação, como ter jeito para jogar bridge ou para tocar piano.

Ao amor dos pobres presidiam duas criaturas do oratório da minha avó, uma em barro e outra em fotografia, que eram o padre Cruz e a Sãozinha, as quais dirigiam a caridade sob um crucifixo de mogno. O padre Cruz era um sujeito chupado, de batina, e a Sãozinha uma jovem cheia de medalhas, com um sorriso alcoviteiro de actriz de cinema das pastilhas elásticas, que me informaram ter oferecido exemplarmente a vida a Deus em troca da saúde dos pais.

A actriz bateu a bota, o pai ficou óptimo e, a partir da altura em que revelaram este milagre, tremia de pânico que a minha mãe, espirrando, me ordenasse

- Ora ofereça lá a vida que estou farta de me assoar, e eu fosse direitinho para o cemitério a fim de ela não ter de beber chás de limão.

 Na minha ideia o padre Cruz e a Saõzinha eram casados, tanto mais que num boletim que a minha família assinava, chamado «Almanaque da Sãozinha», se narravam, em comunhão de bens, os milagres de ambos que consistiam geralmente em curas de paralíticos e vigésimos premiados, milagres inacreditavelmente acompanhados de odores dulcíssimos a incenso.

Tanto pobre, tanta Sãozinha e tanto cheiro irritavam-me. E creio que foi por essa época que principiei a olhar, com afecto crescente, uma gravura poeirenta atirada para o sótão que mostrava uma jubilosa multidão de pobres em torno da guilhotina onde cortavam a cabeça aos reis.

cartoon - Quino


sábado, 12 de março de 2016

António Lobo Antunes - as mulheres têm os fios desligados

* António Lobo Antunes

Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
- Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
- Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.



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