Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
domingo, 8 de março de 2026
Carlos Coutinho - [António Lobp Antunes]
sexta-feira, 6 de março de 2026
Alfredo Barroso - MORREU ANTÓNIO LOBO ANTUNES
MORREU ANTÓNIO
LOBO ANTUNES, ADMIRÁVEL CRONISTA E, SEM DÚVIDA, GRANDE ROMANCISTA QUE LI POUCO
POR PREGUIÇA…
- confessa
Alfredo Barroso, mais virado para as crónicas
António Lobo
Antunes era sobretudo, para mim, um cronista genial, da envergadura de Camilo
Castelo Branco e Eça de Queiroz, admiráveis cronistas do século XIX português.
Oxalá reeditem, e tornem a pôr à venda as crónicas que ele escreveu. Leem-se,
tal como as de Camilo e Eça, por puro prazer, deleite e admiração pela
extraordinária riqueza e flexibilidade da escrita.
Foi um amigo
meu, o Joaquim Brandão, quem me alertou, já lá vai quase meio século, para a
“Memória de Elefante”, a que se seguiu, pois claro, a leitura de “Os Cus de
Judas”. Vieram depois “A Morte de Carlos Gardel” e o “Manual dos Inquisidores”.
E por aqui me fiquei.
Confesso que,
neste último, não apreciei a insistência nas repetições, uma técnica de
construção narrativa do autor cheia de desarrincanços, mas que me transtornava
a leitura, o que só prova que me tornei preguiçoso e não sou bom leitor dos
romances de António Lobo Antunes. Nota-se a cadência das repetições – como se
topa logo desde o começo do ‘Manual’, com a insistência do latifundiário em
dizer que não tira o chapéu da cabeça enquanto sodomiza criadas, por exemplo,
«a filha do caseiro (…) acocorada num banquinho de pau», ou «a cozinheira
estendida de costas no altar, de roupa em desordem e avental ao pescoço». E
repete as explicações: «Faço tudo o que elas querem mas nunca tiro o chapéu da
cabeça para que se saiba quem é o patrão»…
E assim por
diante, com repetições em série cheias de imaginação, muito sainete e manifesto
talento literário. Até a um apocalipse final em que as palavras, frases e
ideias se embrulham e atropelam, no meio de «cabanas desfeitas pela guerra e
pela chuva», da ordem «queimem esta merda toda», e dum pai a
implorar´repetidamente: «peço-lhe que não se esqueça de dizer ao pateta do meu
filho que apesar de tudo eu». E acaba assim, a frase interrompida sem
reticências…
O narcisismo,
ou melhor, o fascínio de António Lobo Antunes pela sua própria escrita é mais
que evidente, sobretudo nos romances que escreveu e menos nas suas admiráveis
crónicas. Mas era, sem dúvida, um admirável escritor, sempre a lamentar que não
lhe atribuíssem o Prémio Nobel da Literatura…
NOTÍCIA DA
DEMÊNCIA E DA MORTE
O certo é que
António Lobo Antunes morreu, esta quinta-feira, dia 5 de Março de 2026, com 83
anos de idade (só mais dois do que eu). Dizem as notícias da sua morte que
escreveu mais de três dezenas de romances, e que, nos últimos anos, se afastou
bastante do mundo, devido à demência que o afectou.
«A doença que o
foi invadindo, acentuou-se durante o confinamento causado pela pandemia de
Covid-19», revelou João Céu e Silva, seu biógrafo, citado pelo Expresso. O
jornalista explicou que os sintomas da doença terão começado vários anos antes.
Alguns desses sintomas são a perda de memória, a dificuldade de fazer novas
aprendizagens, a perda frequente de objetos de valor, como carteiras e chaves,
ou esquecer-se da comida ao lume. Cuidado Alfredo, ela vem aí…
“É a minha
geração partindo”, comentou comovida a escritora Lídia Jorge, logo de manhã,
tinha acabado de receber a notícia. “É uma geração que cumpriu o seu dever:
deixámos a memória de um tempo de mudança extraordinária no país, e à frente de
todos nós esteve ele.”
Para Lídia
Jorge, António Lobo Antunes (ALA) foi capaz de pegar “nas aquisições do romance
psicológico e fazer dele uma espécie de modelo inventivo para falar da história
viva, ativa, portuguesa”, sublinhando “o que hoje é evidente, a necessidade da
relação entre a Europa e o mundo colonial”, e fazendo-o por meio de “um estilo,
um modo e uma forma que são universais”.
Essa forma que,
segundo Gonçalo M. Tavares, é “das mais contagiantes em termos de estilo e de
tom de escrita”. O autor, de 55 anos, conta que leu Lobo Antunes muito novo.
“Ele falava muito de o leitor apanhar com os seus livros uma espécie de vírus,
de doença benigna. Quando se é novo, é dificil ler e não escrever como ele. É
uma avalanche de ritmo, de repetições, de diálogos, da própria estrutura da
página... O leitor, depois de o ler, tem de resistir muito par não escrever
como ele.”
E se gostou dos
primeiros – cita o “Tratado das Paixões da Alma” e “Ordem Natural das Coisas”
-, considera que a segunda fase de ALA finca o pé na linguagem de um modo
“impressionante e corajoso” como poucos. “Esses últimos livros, sendo mais
difíceis, estavam num mundo em que o romance se dissolve no trabalho da
linguagem, em que se assume que a história não é importante. Coloca-se no campo
da linguagem, do ritmo, da frase, da metáfora”.
Dulce Maria
Cardoso concorda que António Lobo Antunes manteve o selo de qualidade e de
originalidade até ao fim. “Fechou com chave de ouro, com “O Tamanho do Mundo”,
que é um bom livro”, observa. “Sinto-me devedora dele, aprendi muito. Aprendi
sobretudo, desde o início, essa coisa maravilhosa de que a escrita é trabalho,
trabalho, trabalho. Ele próprio aplicou isso no seu caminho, ao evoluir muito
ao longo dos anos”, diz a autora de “O Retorno”, que pouco se cruzou com o
escritor nascido em Benfica.
Carlos Vaz
Marques, jornalista e editor que conheceu o romancista, prefere recordá-lo
relatando um dos “vários episódios marcantes” dos seus encontros com ele. “Fui
entrevistar o António ao Hospital Miguel Bombarda, onde ele era médico
psiquiatra. Levei um daqueles gravadores a pilhas, pequeninos, para registar a
conversa. A meio do diálogo, batem à porta do gabinete. ‘Entre.’ Abre-se a
porta e surge um homem de olhar vago, naquela espécie de farda hospitalar que
vestiam os doentes em ambulatório. ‘Já está, sôtor; aqui tem.’ E lança dali
mesmo uma chave, saindo de imediato. ‘Pedi-lhe para me ir arrumar o carro’,
explica o médico. E depois, sem transição, sem qualquer inflexão especial, a
frase fulgurante, guardada pelo gravador: ‘É um tipo porreiro. Matou o pai.’
Nunca mais ouvi alguém dizer de alguém que ‘é um tipo porreiro’ sem voltar a
ouvir a frase do António. Que pena tenho de já só a poder ouvir, naquela voz
bem timbrada, na minha cabeça.”
Campo
d’Ourique, 5 de Março de 2026
https://www.facebook.com/somera.simoes/post
sábado, 27 de março de 2021
António Lobo Antunes - Praça da Canção
domingo, 29 de março de 2020
António Lobo Antunes - Sátira aos HOMENS quando estão com gripe
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terça-feira, 29 de janeiro de 2019
António Lobo Antunes - O último abraço que me dás
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
António Lobo Antunes - Nação valente e imortal
Vale e Azevedo para os Jerónimos, já! Loureiro para o Panteão, já! Jorge Coelho para o Mosteiro de Alcobaça, já! Sócrates para a Torre de Belém, já! A Torre de Belém não, que é tão feia. Para a Batalha. Fora com o Soldado Desconhecido, o Gama, o Herculano, as criaturas de pacotilha com que os livros de História nos enganaram. Que o Dia de Camões passe a chamar-se Dia de Armando Vara
segunda-feira, 3 de abril de 2017
Os pobrezinhos, de António Lobo Antunes
sábado, 12 de março de 2016
António Lobo Antunes - as mulheres têm os fios desligados
Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
- Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
- Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.




