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domingo, 20 de outubro de 2024

Carlos Coutinho - [Lobisomens]

* Carlos Coutinho

  NUNCA fui muito de acreditar em lendas estapafúrdias nem de ter medo de sombras ou de pios de coruja. Vendo um filme na televisão, lembrei-me agora de uma certa noite de sábado, na barbearia do Sr. Manuel Sacristão. Teria eu uns seis anitos, quando lá fui cortar o cabelo, à luz mortiça do candeeiro a petróleo que iluminava os rostos impacientes de meia dúzia de clientes à espera de vez.

Era inverno, o chão da rua tinha uma camada de neve quase de palmo que, depois, no caminho de regresso a casa, eu ia marcando com sulcos arrastados das minhas chancas de solas de pau. Quando cheguei ao Largo do Terreiro, comecei a notar que havia duas filas, paralelas e muito encostadas uma à outra, de outros sulcos, estes em forma de coração e com uma largura de quatro ou cinco centímetros. Podiam ser de cão grande, mas, como eu vinha com os ouvidos cheios de histórias assustadoras de lobos e lobisomens, foram marcas lupinas o que me pareceu ver pela rua acima, na direção da minha casa e do cemitério, lá muito para o alto.

Parei debaixo de um luar pálido e de mau augúrio, achei desmesurada a lua cheia e decidi seguir para o Largo do Cimo da Rua por um caminho alternativo que passa pelo Tapado, onde começa o urtigoso Quelho que desce para o Largo do Itreido. Estaquei ao lado da fonte de pedra para avaliar a situação posta pela fantástica corrida de um peludo lobisomem que passou à minha frente sem para mim olhar. Veio da Carreira Velha e embicou de cabeça oblíqua pela rota do cemitério.

Hoje sei que foi uma alucinação, consequência das histórias ouvidas na barbearia, provavelmente exploradas para me assustarem. Mas eu levei a coisa a sério e, quando me dispunha a voltar para a barbearia, apareceu esbaforido o meu tio Alberto que tinha ficado encarregado de me ir buscar e já não me encontrou. Justificou a sua demora não me lembro como e, quase a chegar a minha casa, disse:

– Estás mais suado que o meu peito numa tarde de verão. Tens febre?

– Não. Tenho fome. Vossemecê atrasou-se muito.

Fez-se um breve silêncio e eu perguntei:

– Alguma vez viu um lobisomem, tio?

– Eu? Nunca! E tu?

– Também não, mas na barbearia só se falava nisso.

Se eu não fosse sobrinho de um irmão da minha mãe, talvez confessasse que havia acreditado em certos pormenores inquietantes daquelas arrastadas conversas mal-intencionadas, mas a verdade é que desatámos ambos a rir, já no quinteiro que havia à frente da minha antiga casa.

Passados estes anos todos e puxado pela televisão para as crenças de antanho, fui à Internet procurar o que haveria sobre o assunto e, então, fiquei a saber que, na lúgubre barbearia que ficava por cima da loja de uma vaca leiteira e ao lado da sapataria do Sr. Lucindo, nada tinha sido inventado e que lobisomem ou licantropo (do grego λυκάνθρωπος: λύκος, lýkos, ‘lobo’ e άνθρωπος, ánthrōpos, ‘humano’) é uma pessoa capaz de se transformar num faminto lobo ou em algo semelhante a um lobo, quase sempre em inquietantes noites de lua cheia.

Tal lenda aparece nas obras de vários autores que contam a história do pugilista arcádio Damarco da Parrásia, herói olímpico, que assumiu a forma de lobo nove anos após um sacrifício a Zeus Liceu, lenda atestada pelo geógrafo Pausânias.

Também Heródoto, nas suas “Histórias”, escreveu que, de acordo com o que os citas acreditavam, os gregos estabelecidos na Cítia lhe contaram serem os Neuri, uma tribo do Nordeste, que eram todos transformados em lobos, uma vez por ano, durante vários dias, voltando seguidamente à forma humana. O historiador teve o cuidado de acrescentar que não estava convencido da veracidade dessa história, mas os moradores locais juravam que ela era verdadeira. Esta lenda também foi narrada por Pomponius Mela.

No século II a.n.e. o geógrafo grego Pausânias contou a história do rei Licaão da Arcádia, que foi transformado em lobo porque sacrificou uma criança no altar de Zeus Liceu. Na versão escrita em latim por Ovídio nas suas “Metamorfoses”, quando Zeus visitou Lacaão, disfarçado de homem comum, o visitado quis testar se ele era realmente um deus. Para tanto, matou um refém molossiano e entregou as entranhas da vítima a Zeus. Enojado, este transformou Licaão em lobo. No entanto, noutros relatos da lenda, como o da Bblioteca de Apolodoro, Zeus atacou-o, bem como aos filhos, com raios e coriscos, como como punição divina.

Esta história também é contada por Plínio, o Velho, que chama a Licaão a Demaenetus, citando Agripas. Segundo Pausânias, este não foi um acontecimento único, já muitos homens foram transformados em lobos durante os sacrifícios a Zeus Liceu. Se eles se abstivessem de comer carne de gente enquanto eram lobos, seriam restaurados com a forma humana nove anos depois, mas, se não se abstivessem, permaneceriam lobos para sempre.

Os primeiros autores cristãos também mencionaram lobisomens. Na obra “Cidade de Deus”, o bispo Agostinho de Hipona (Santo Agostinho) faz um relato semelhante ao encontrado em Plínio, o Velho. Agostinho explica que "é geralmente aceite que, por certos feitiços de bruxa, os homens podem ser transformados em lobos.”

Esta metamorfose fisionómica também foi mencionada no “Capitulatum Episcopi”, atribuído, desde a sua reunião no século IV, ao Concílio da Ancira e tornou-se texto doutrinário da Igreja em relação à magia, bruxas e transformações como as dos lobisomens. Nele está escrito que “quem acredita que qualquer coisa pode ser transformada noutra espécie ou semelhança, exceto pelo próprio Deus é sem dúvida um infiel.”

Há também evidências de uma crença generalizada em lobisomens na Europa medieval. Os lobisomens foram mencionados em códigos de então, como o do Rei Canuto II da Dinamarca, cujas “Ordenações Eclesiásticas” nos informam de que esses códigos visam garantir que “o lobisomem loucamente audacioso não devaste muito, nem morda muitos dos membros do rebanho espiritual.”

Liuprando de Cremona, por sua vez, fala de um boato segundo o qual Bajan, filho de Simeão I da Bulgária, poderia usar magia para se transformar em lobo.

As obras de Agostinho de Hipona tiveram grande influência no desenvolvimento do cristianismo ocidental e foram amplamente lidas pelos clérigos do período medieval que ocasionalmente peroravam sobre lobisomens em suas obras. Exemplos famosos incluem “Werewolves of Ossory”, de Geraldo de Gales, na sua “Topographica Hibernica”, assim como em “Otia Imperiala”, de Gervase de Tilbury, ambos escritos para o público real.

Gervase revela que a crença em tais transformações (ele também menciona mulheres que se transformam em gatos e em cobras) foi difundida por toda a Europa. Usa a frase “que ita dinoscuntur”, ao discutir essas metamorfoses, que significa “é conhecido”". Escreveu na Alemanha e também diz que a transformação de homens em lobos não pode ser facilmente descartada, pois “na Inglaterra, muitas vezes vimos homens transformarem-se em lobos (“Vidimus enim frequenter in Anglia per lunationes homines in lupos mutari”).

As tradições pagãs germânicas associadas a homens-lobos persistiram por mais tempo na Era Viking escandinava. Harald I da Noruega tinha um corpo de Úfhednar, os “homens revestidos de lobo”, que são mencionados em “Vatnsdœla, Haraldskvæði! e na “Saga dos Volsungos”, parecendo-se com algumas lendas de lobisomens.

Os Úlfhednar eram lutadores semelhantes aos berserkers, embora se vestissem com peles de lobo, em vez de peles de urso, e tivessem a reputação de absorver os espíritos desses animais para aumentarem a eficácia na batalha. Úlfhednar e os berserkers estão intimamente associados ao deus nórdico Odin que deu excelente substância a Wagner para as suas óperas.

As crenças escandinavas deste período podem ter-se espalhado pela Rússia de Kiev, dando origem aos contos eslavos de lobisomens. Um príncipe bielorrusso do século XI, Vseslav de Polotsk, foi descrito como um lobisomem, capaz de se deslocar em velocidades sobre-humanas, conforme se pode ler no “Conto da Campanha de Igor”:

“Vseslav, o príncipe, julgou os homens; como príncipe, ele governou cidades; mas à noite ele rondava disfarçado de lobo. De Kiev, rondando, ele alcançou, antes da tripulação dos galos,Tmutorokan. O caminho do Grande Sol, como um lobo rondando, ele cruzou. Para ele, em Polotsk, os sinos tocavam cedo para as matinas em Santa Sofia; mas ele ouviu o toque em Kiev.”

“Ser um lobisomem” era uma acusação comum em julgamentos de bruxas ao longo da história, e apareceu até nos julgamentos de bruxas de Valais, um dos primeiros casos desse tipo, no século XV.

Na “Historia de Gentibus Septentrionalibus”, Olaus Magnus descreve uma assembleia anual de lobisomens perto da fronteira Lituânia-Curlândia. Os participantes, incluindo a nobreza lituana e lobisomens das áreas vizinhas, reniam-se para testarem a sua força, tentando saltar sobre as ruínas de uma muralha de castelo. Aqueles que conseguiam eram considerados fortes, enquanto os participantes mais fracos eram punidos com chicotadas.

Também houve numerosos relatos de ataques de lobisomens – e consequentes julgamentos judiciais – na França do século XVI. Nalguns casos havia provas claras contra os acusados de homicídio e canibalismo, mas nenhuma associação com lobos. Noutros, as pessoas ficaram aterrorizadas com essas criaturas, como no caso de Gilles Garnier em Dole, em 1573, que foi condenado por ser lobisomem.

Um pico de atenção para com à licantropia ocorreu no final do século XVI, como parte da caça às bruxas na Europa. Vários tratados sobre lobisomens foram escritos na França entre 1595 e 1615. Lobisomens foram avistados em 1598 em Anjou e um lobisomem adolescente foi condenado a prisão perpétua em Bordéus em 1603. Henry Boguet escreveu um longo capítulo sobre lobisomens em 1602. No Vaud, lobisomens foram condenados em 1602 e 1624. Um tratado escrito por um pastor de Vaud em 1653 afirma-se, no entanto, que a licantropia é puramente uma ilusão.

Depois disso, o único registo adicional do Vaud data de 1670: é o de um menino que alegou ter, tanto ele como a mãe, a capacidade de se transformarem em lobos, o que não foi levado a sério. No início do século XVII, a bruxaria foi perseguida por Jaime I da Inglaterra, que considerava os “warwoolfes” vítimas de um delírio induzido por “uma superabundância natural de melancolia”.

Depois de 1650, a crença na licantropia desapareceu em grande parte da Europa de língua francesa, como consta da “Enciclopédia", de Diderot, onde os relatos de licantropia não são mais que um “transtorno do cérebro".

A parte da Europa que mostrou interesse mais vigoroso pelos lobisomens depois de 1650 foi o Sacro Império Romano-Germânico. Pelo menos nove obras sobre licantropia foram impressas na Alemanha entre 1649 e 1679. Nos Alpes austríacos e bávaros, a crença em lobisomens persistiu até o século XVIII. Também na nossa vizinha Galiza, em 1853, Manuel Blanco Romasanta foi julgado e condenado como autor de uma série de assassinatos, mas afirmou estar inocente devido à sua condição de “lobishome”.

Isto é corroborado pelo facto de em áreas desprovidas de lobos ocorrerem normalmente diferentes tipos de predadores mitificados: homens-hiena na África, homens-tigre na Índia, bem como homens-puma (‘runa uturuncu’ e homens-jaguar (‘yaguaraté-abá’ ou ‘tigre-capiango’) na América do Sul.

O vampiro também tinha relação com o lobisomem nos países do Leste europeu, particularmente na Bulgária, Sérvia e Eslovênia. Na Sérvia, o lobisomem e o vampiro são conhecidos como vulkodlak. Daí nasceu o famoso Drácula romeno.

Na sua obra, Gerard registrou os relatos das diversas etnias que fazem parte da Transilvânia (alemães, ciganos, húngaros, romenos, entre outros) sobre diversos aspetos da vida na região, bem como as superstições sobre o mau-olhado, espíritos, bruxas, vampiros (dos tipos strigoi, moroi e nosferatu) e lobisomens (representados pelos prikolitch e pelo vârcolacve):

“O primo-irmão do vampiro, o werwolf dos alemães, é encontrado aqui sob o nome de Prikolitsch. Às vezes é um cão e não um lobo, cuja forma um homem assumiu, ou foi obrigado a assumir, como penitência pelos seus pecados.

Numa aldeia ainda se conta — e acredita-se – a história de um homem que, num domingo, voltando para casa com a esposa, sentiu de repente que havia chegado o momento da sua transformação. Entregou-lhe as rédeas da carruagem em que seguiam e correu para o meio dos arbustos, onde, murmurando uma fórmula mística, deu três cambalhotas sobre uma vala.

"Logo depois, a mulher, que esperava em vão pelo marido, foi atacada por um cachorro furioso, que saiu latindo do mato e conseguiu mordê-la com força e rasgar-lhe o vestido. Quando, uma ou duas horas depois, a mulher chegou a casa depois de dar o marido como perdido, ficou surpresa ao vê-lo a vir sorrindo ao seu encontro; mas quando entre os dentes dele ela avistou os pedaços de seu vestido mordidos pelo cachorro, o horror dessa descoberta a fez desmaiar."

Há referências muito antigas ao lobisomem em Portugal. Aparece no “Rifão” de Álvaro de Brito (Cancioneiro Geral):

"Sois danado lobisomem,

Primo d’Isac nafú;

Sois por quem disse Jesus

Preza-me ter feito homem."

(Garcia de Resende, in “Excertos”)

É também mencionado no “Vocabulário Português e Latino”, de Rafael Bluteau, e num soneto de Bocage:

"Profanador do Aónio santuário,

Lobisomem do Pindo, orneia ou brama,

Até findar no Inferno o teu fadário!"

(Bocage, in “Obras Escolhidas”.

No século XIX, Alexandre Herculano escreveu sobre o lobisomem da região da Beira-Baixa:

“Os lubis-homens são aqueles que têm o fado ou sina de se despirem de noite no meio de qualquer caminho, principalmente encruzilhada, darem cinco voltas, espojando-se no chão em lugar onde se espojasse algum animal, e em virtude disso transformarem-se na figura do animal pré-espojado. Esta pobre gente não faz mal a ninguém, e só anda cumprindo a sua sina, no que têm uma cenreira mui galante, porque não passam por caminho ou rua, onde haja luzes, senão dando grandes assopros e assobios para se lhas apaguem, de modo que seria a coisa mais fácil deste mundo apanhar em flagrante um lubis-homem, acendendo luzes por todos os lados por onde ele pudesse sair do sítio em que fosse pressentido. É verdade que nenhum dos que contam semelhantes histórias fez a experiência. (in “Opúsculos”).

Nos seus estudos sobre mitologia popular, o escritor e etnógrafo Alexandre Parafita reconhece que, embora a designação sugira tratar-se de um ser híbrido de homem e lobo, muitas das crenças sobre esta criatura identificam-na na figura tanto de lobo, como cavalo, burro ou bode, consistindo o seu fadário em ir despir-se à meia-noite numa encruzilhada, espojando-se no chão, onde um animal já antes fizera o mesmo, após o que se transforma nesse animal para ir “correr fado”.

Camilo escreve nos “Mistérios de Lisboa”:

“A porta em que bateu o padre Diniz comunicava para a sala em que estavam duas criadas da duquesa, cabeceando com sono, depois que se fartaram de anotar as excentricidades de sua ama, que, a acreditá-las, há cinco anos que cumpria fado, espécie de Loba-mulher, ou Lobis-homem fêmea, se os há, como nós sinceramente acreditamos.”

Pronto, por hoje basta. Já estou a ficar com fome, como quando saí da barbearia do Sr. Manuel Sacristão, naquela noite enluarada de lobisomens.


2024 10 20

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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

 

Porto: A falsidade dos mitos e a verdade que neles há

12.12.2010 - 19:07 Por Jorge Marmelo

Era uma vez – a maior parte das histórias incluídas no livro Lendas do Porto, de Joel Cleto, podia começar assim, como fábulas para adormecer crianças. Falam de lutas de mouros, actos heróicos e bárbaros e, em alguns casos, fazem parte de memória identitária das comunidades que ainda as contam. Dificilmente resistem ao confronto com a História, mas, segundo o autor, são mais do que simples mentiras. "Em alguns casos, são os únicos vestígios arqueológicos que existem relativamente a determinadas épocas e acontecimentos", diz Joel Cleto.


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A estátua ao Tripeiro evoca um dos mais conhecidos mitos da cidade, acerca da origem das tripas à moda do Porto 
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A estátua ao Tripeiro evoca um dos mais conhecidos mitos da cidade, acerca da origem das tripas à moda do Porto (Fernando Veludo/nFactos) - Escultura de Lagoa Henriques
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Resultado de dois anos de crónicas na revista O Tripeiro, o livro, recentemente editado pela Quidnovi, conta com fotografias de Sérgio Jacques e faz questão de desmentir o rifão segundo o qual não se deve permitir que a verdade e os factos estraguem uma boa história. Algumas das lendas da região do Grande Porto são contadas tal como foram fixadas ou continuam a ser narradas, mas são também confrontadas com elementos documentais e, na maior parte dos casos, desmentidas por estes. "Esse é o grande desafio do historiador", considera Cleto.

Da velha história, feita pedra, que estará na origem da fama de "tripeiros" que os portuenses têm, à horrível carnificina entre cristãos e mouros que tingiu de sangue um ribeiro que passou a chamar-se rio Tinto, são várias as lendas que os factos desmentem. "Mas nem tudo é falso. Em alguns casos, no meio daquilo que é irreal, há vestígios concretos, elementos para a arqueologia imaterial", diz Joel Cleto.

Um dos exemplos da verdade que existe nos mitos é o da chamada ilha do Frade: na pequena ilhota que a maré vaza descobre junto à foz do Douro teria ficado preso, e nu, um frade que tentou seduzir uma moça numa noite de nevoeiro. Se aconteceu ou não tal episódio, é difícil saber. Mas Cleto recorda que essa lenda é o único indício de um convento franciscano que existiu em Gaia, do qual não restou mais nenhum vestígio.

Noutro caso, também em Gaia, a lenda do rei Ramiro II, de Leão, é praticamente o único sinal da suposta existência, na margem esquerda do Douro, de uma fortaleza moura tida por inexpugnável, mas que, no século X, terá sido completamente arrasada depois de Gaia, a esposa do rei católico, ter sido raptada pelos mouros e ali feita prisioneira. Neste caso, a lenda explica não só a origem dos topónimos Gaia e Miragaia, como o desaparecimento dos vestígios da grande fortaleza moura.

Outro exemplo? O do fabuloso assalto que o bandoleiro Zé do Telhado, o Robin dos Bosques do Entre Douro e Minho, terá feito, em Agosto de 1852, à quinta que hoje é a Casa de Ramalde. Consultados os documentos, Joel Cleto concluiu que, naquele ano, o palacete estava em ruínas, destruído durante as invasões francesas, e que só veio a ser recuperado quando Zé do Telhado já estava morto.

Mas depois, reconhece Joel Cleto, há casos em que os documentos parecem desmentir o mito, ainda que outros dados acabem por reavivar a lenda. É o caso do altar de prata da Sé do Porto, que teria sido escondido com cal durante as invasões francesas e, deste modo, poupado ao esbulho. Há documentos que apontam para uma versão menos fantasiosa e que indicam que uma senhora abastada terá pago a salvação da jóia, mas recentes descobertas arqueológicas descobriram vestígios de cal nas paredes próximas do altar.

Lendas para mais um livro

"São casos em que nem a história consegue dar uma resposta cabal", reconhece o autor, que acrescenta outro exemplo a esta categoria: é muito pouco provável que a lenda que associa a passagem do corpo de Santiago de Compostela por Matosinhos tenha podido ter lugar no ano 44, já que os documentos apontam para uma chegada posterior do cristianismo a esta parte da Península Ibérica. "Mas há cada vez mais evidências de que, alguns séculos depois, a expansão da fé se fez precisamente através da bacia do Douro", explica Joel Cleto.

Por outro lado, reconhece o autor, algumas das lendas agora reunidas "estão a cair no esquecimento e correm o risco de se perderem". Também por isso, Cleto promete continuar a contar (e a desmontar) os muitos mitos que o Grande Porto ainda guarda. "É possível que daqui a dois anos haja outro livro", diz. Talvez aí já se consiga explicar, por exemplo, a origem do topónimo portuense Fonte da Moura, do qual o historiador nunca conseguiu descobrir nenhum sinal. "Mas, em noventa por cento dos casos, quando há histórias de mouras e tesouros, há também vestígios arqueológicos", garante.

Noutros casos há apenas histórias curiosas, como aquela que explicará a expressão "emprenhar pelos ouvidos", ainda muito utilizada sempre que se quer falar de alguém que se deixou enganar por aquilo que ouviu. Segundo parece, a origem da frase está numa lâmina de bronze existente na Capela do Ferro do Mosteiro de Leça do Balio, a qual narra a anunciação da imaculada concepção, na qual o comunicado divino sai da boca de Deus e entra graficamente nos ouvidos de Maria, que assim teria "emprenhado" pelo pavilhão auricular.Quanto à história das tripas que terão sobrado do abastecimento da frota que a cidade do Porto preparou para a conquista de Ceuta, e que deram origem ao emblemático prato, a História indica, segundo Joel Cleto, que o petisco tem origens bastante anteriores, remontando ao período suevo. O mais provável, porém, é que, pelo menos neste caso, os factos jamais consigam estragar a bela e heróica lenda dos tripeiros, nem substituam a história que se conta há várias gerações e que continua a convencer os turistas.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010

As lendas só são lendas porque acreditamos nelas

Ípsilon

Trasno - Colecção do Museu do Prado
Encontro internacional

As lendas só são lendas porque acreditamos nelas

17.06.2010 - Paulo Moura

Três dezenas de especialistas internacionais em lendas reuniram-se na casa do marquês de Fronteira, em Ponte de Sor. E concluíram: as lendas são histórias verdadeiras e não pertencem a um mundo perdido. Estão vivas e continuamos a acreditar nelas
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Os especialistas em lendas estão reunidos à volta de uma mesa e o marquês vai moderando a discussão, com uma campainha. Falam em várias línguas românicas embora esteja presente um alemão que não percebe nada. É de propósito. Ele é o "inimigo". Poderiam exprimir-se em inglês, língua que ele entenderia. Mas não. Usam o castelhano, o francês, o português, o galego ou o catalão. Inglês - é ponto de honra - nunca.



"Mesdames et messieurs, la discussion est ouvert", diz, num tanto autoritário, o 11.º marquês da Fronteira, D. Fernando Mascarenhas, tocando o sininho. A galega Camiño Noia Campos, catedrática da Universidade de Vigo, acabou de expor as suas conclusões sobre o que caracteriza uma lenda, por oposição ao conto. E em suma era isto: a lenda é verdade. Um conto surge da imaginação, consiste numa história ficcionada. No caso da lenda, a história aconteceu mesmo. Quem a conta, pelo menos, não tem dúvidas sobre isso. Conta-a como tendo acontecido e, em muitos casos, acontecido consigo próprio, ou com alguém de confiança. Se o contador da história já não acredita na sua veracidade, então já deixou de ser uma lenda. Parece simples: mas não é. Porque a verdade aparece sob diferentes formas. Há vários tipos. Há a verdade normal e a verdade estranha, ou sobrenatural. Camiño, que se exprimiu em galego, que todos compreenderam (menos Hans, o alemão), socorreu-se da tipologia de Tzetan Todorov sobre a literatura fantástica. Mas para os presentes as coisas são mais complexas do que parecem. Qual é realmente a diferença entre fantástico, estranho, maravilhoso, imaginário? "Quando a fantasia faz parte do imaginário das comunidades, isso é realidade", diz um dos participantes do encontro.



"É o caso dos milagres", exemplifica outro.



"Se é uma história que se assume como sucedida, apesar de ser maravilhosa ou sobrenatural, então é uma lenda, não um conto", responde um perito. E outro acrescenta: "O maravilhoso rege-se por leis próprias. O estranho não. Porque faz parte do real. Há histórias em que não se sabe em que mundo estamos."



"Então e o milagroso? Em que categoria é que o incluímos?"



"Ah, isso é o maravilhoso de origem divina, não pagã."



Uns falam em francês, outros em castelhano, outros em catalão. Alguém dá outros exemplos: "O achamento de tesouros, a aparição de fantasmas de mortos, bruxas com poderes, isso são coisas que acontecem."



"Claro, por isso são lendas."



A enorme mesa rectangular tem à volta vitrinas com porcelanas, pratos decorados com pássaros, uma lareira com lenha e uma colecção de caçarolas de cobre sobre a chaminé. Estamos numa casa aristocrática, entre as lezírias do Alto Alentejo, na herdade de Torre das Vargens, próxima de Ponte de Sor e propriedade de Fernando Mascarenhas, marquês de Fronteira. Foi ele que convidou os especialistas de lendas para a sua casa, por ser ele próprio um entusiasta do tema e amigo de longa data de Isabel Cardigos.



Isabel é a coordenadora de um projecto de catalogação do corpus lendário português, no âmbito da Fundação para a Ciência e Tecnologia, do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, da Universidade Nova de Lisboa, e do Centro de Estudos Ataíde Oliveira, da Universidade do Algarve. O catálogo, que foi apresentado neste encontro, tem cerca de 2200 lendas, entre as quais as Lendas etiológicas (de topónimos, flores, fontes, lagos, rios, animais...), Lendas sagradas (milagres, fundação de capelas, punições divinas, santos, aparições, fuga para o Egipto...), Lendas urbanas (um fantasma que pede boleia, roubo de órgãos, xenofobias, assassínios...), Lendas históricas (povoações desaparecidas, romanos, mouros e cristãos, invasões francesas, castelhanos, batalhas, tomada de castelos, piratas, descobertas...) e Lendas do sobrenatural, que envolvem vampiros, sereias, procissões de almas, tesouros, diabo, bruxas, lobisomens, mouras e trasgos (o equivalente português aos trasnos galegos).



Mas é um trabalho ainda incompleto. A compilação das lendas, tal como dos contos, é aliás um processo que dificilmente se pode alguma vez considerar concluído. Há sempre lendas a acrescentar, e outras a excluir, à medida que deixam de ser lendas, ou seja, quando deixa de haver alguém que acredite nelas. Nessa circunstância, passam a ser mencionadas como lendas mortas.



Os contos do Sul




Mas antes das lendas, o que Isabel Cardigos e os seus colegas se dedicavam a estudar e coligir eram os contos populares. Começaram a fazê-lo, em relação ao Sul da Europa, em reacção ao esforço que já se tinha iniciado no Norte do continente. Foi lá, na Alemanha e na Escandinávia, desde o século XIX, que os contos se tornaram relevantes para a cultura erudita, e começaram a ser reunidos.



Um dos principais obreiros desse esforço, na nossa época, é o alemão Hans-Jorg Uther, que editou um catálogo de todos os contos populares europeus, ou melhor, dos seus "tipos", ou, melhor ainda, dos contos que surgem, sob diferentes versões, nos vários países e regiões da Europa. São 2800 tipos de contos, que tinham começado a ser reunidos em 1910, em alemão, e depois em 1961, em inglês.



Acontece que, desde há cinco anos, alguns dos especialistas da Europa do Sul consideraram que aos catálogos elaborados no Norte faltava uma dimensão específica da cultura popular da Europa do Sul. Isto explicam eles. Os especialistas do Norte acham que o problema foi o inglês ter-se tornado na língua dominante dos encontros internacionais. A verdade é que os sulistas se reuniram em Toulouse uma primeira vez, e depois mais quatro vezes, incluindo esta, em Ponte de Sor, de terça-feira, 8 de Junho, a sábado, 12.



Trata-se do Grupo de Reflexão Europeu sobre Narrativa Oral (GRENO), em cujas reuniões não se fala inglês. Mas Hans está presente todos os anos. "Convidamos sempre o "inimigo"", diz Isabel. E ele vai, porque ainda está a concluir o seu catálogo, "que só estará pronto em 2015 e inclui todos os tipos de contos da Europa", explica ele. Contos que "existem em pelo menos três países, sob pena de serem excluídos da edição seguinte do catálogo".



No salão do marquês, os peritos estão agora todos a contar lendas que descobriram em vários lugares. Umas incluem bruxas, que surgem em encruzilhadas, outras o diabo, a quem é chamado todos os nomes menos esse ("o das unhas grandes", o "calças", o "cabeludo"), outras, em território português, têm mouras encantadas e a Virgem, personagens que não surgem noutros lugares, onde são substituídos por figuras locais, representando embora papéis semelhantes, em histórias que são basicamente as mesmas.



É esse um dos temas em discussão nesta fase do encontro: como viajam as lendas de um lugar para o outro? O facto é que "a mesma história pode surgir em Portugal e na China", diz Isabel Cardigos. E está demonstrado que não é por geração espontânea: as lendas viajam. "Principalmente devido aos peregrinos."



A "menina do Kadoc"




Durante a semana que durou o encontro, os cerca de 30 especialistas de vários países falaram sobre lendas não apenas nas sessões propriamente ditas, mas também às refeições, nos passeios pelos jardins e ao serão, no palácio de D. Fernando, onde todos ficaram hospedados, por convite da Fundação das Casas de Fronteira e Alorna. O ambiente é propício e as discussões são por vezes intermináveis e indisciplinadas, para desespero do anfitrião e moderador.



Alexandre Parafita, que pertence também à equipa do Arquivo e Catálogo do Corpus Lendário Português, falou das lendas do vale do Douro e suscitou controvérsia com as suas distinções entre lenda, conto e mito. Nos seus exemplos, mostrou imagens de monumentos antigos ou formações geológicas que deram origem a lendas, como forma popular de os explicar. Certas rochas situadas no topo de montes, por exemplo, suscitaram lendas diversas, correspondentes às diferentes perspectivas visuais que delas têm as várias aldeias.



Mas o tema que mais apaixonou os especialistas no último dia de trabalhos foi o das lendas urbanas. O único especialista português na matéria, porém, é relutante em classificá-las desse modo. José Joaquim Dias Marques, da Universidade do Algarve, referiu-se a algumas dessas "lendas urbanas". A do tráfico de órgãos, por exemplo, ou a dos chineses que não morrem, ou ainda a da "menina do Kadoc".



Dias Marques submeteu cada uma destas histórias que correm e em que as pessoas acreditam, hoje em dia, aos critérios de análise e classificação habituais, para concluir que elas não são "lendas urbanas", mas apenas lendas.



A da "menina do Kadoc", que circula no Algarve, conta que uma rapariga foi uma vez à discoteca Kadoc, na zona de Loulé, e, à saída, pediu boleia a dois rapazes, para ir para casa. Mas durante o caminho foi violada e morta. Depois disso, uma rapariga surge certas noites a pedir boleia à porta do Kadoc. Dão-lhe boleia, mas, num determinado local, ela diz: "Foi aqui que eu morri." E quando, nesse momento, o condutor olha para ela, não vê ninguém. A rapariga desapareceu.



Ora o investigador encontrou versões desta história noutros locais. A mais antiga foi numa revista da Califórnia onde, em 1942, se conta a lenda do "Vanishing Hitchiker". Mas ela existe muito antes, no século XV, quando não havia automóveis para dar boleias. Um rapaz foi a um baile e dançou com uma bela rapariga toda a noite. No fim levou-a a casa, mas no dia seguinte, quando a procurou, disseram-lhe que ela morrera anos antes.



É a mesma lenda, e não tem nada de urbana. Evoluiu, adaptou-se aos tempos e continuam a acreditar nela. Continua verdadeira e viva, o que, agora sabemos, só prova uma coisa - não é um conto, é uma lenda.

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segunda-feira, 12 de maio de 2008

Lendas

Lendas do distrito de Lisboa
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Lenda das Obras de Santa Engrácia
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Simão Pires, um cristão novo, cavalgava todos os dias até ao convento de Santa Clara para se encontrar às escondidas com Violante. A jovem tinha sido feita noviça à força por vontade do seu pai fidalgo que não estava de acordo com o seu amor. Um dia, Simão pediu à sua amada para fugir com ele, dando-lhe um dia para decidir. No dia seguinte, Simão foi acordado pelos homens do rei que o vinham prender acusando-o do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia que ficava perto do convento. Para não prejudicar Violante, Simão não revelou a razão porque tinha sido visto no local. Apesar de invocar a sua inocência foi preso e condenado à morte na fogueira que se realizaria junto da nova igreja de Santa Engrácia, cujas obras já tinham começado. Quando as labaredas envolveram o corpo de Simão, este gritou que era tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem. Os anos passaram e a freira Violante foi um dia chamada a assistir aos últimos momentos de um ladrão que tinha pedido a sua presença. Revelou-lhe que tinha sido ele o ladrão das relíquias e sabendo da relação secreta dos jovens, tinha incriminado Simão. Pedia-lhe agora o perdão que Violante lhe concedeu. Entretanto, um facto singular acontecia: as obras da igreja iniciadas à época da execução de Simão pareciam nunca mais ter fim. De tal forma que o povo se habitou a comparar tudo aquilo que não mais acaba às obras de Santa Engrácia.
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Lenda da Cova Encantada ou da Casa da Moura Zaida
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Na serra de Sintra, perto do Castelo dos Mouros, existe uma rocha com um corte que a tradição diz marcar a entrada para uma cova que tem comunicação com o castelo. É conhecida pela Cova da Moura ou a Cova Encantada e está ligada a uma lenda do tempo em que os Mouros dominavam Sintra e os cristãos nela faziam frequentes incursões. Num dos combates, foi feito prisioneiro um cavaleiro nobre por quem Zaida, a filha do alcaide, se apaixonou. Dia após dia, Zaida visitava o nobre cavaleiro até que chegou a hora da sua libertação, através do pagamento de um resgate. O cavaleiro apaixonado pediu a Zaida para fugir com ele mas Zaida recusou, pedindo-lhe para nunca mais a esquecer. O nobre cavaleiro voltou para a sua família mas uma grande tristeza ensombrava os seus dias. Tentou esquecer Zaida nos campos de batalha, mas após muitas noites de insónia decidiu atacar de novo o castelo de Sintra. Foi durante esse combate que os dois enamorados se abraçaram, mas a sorte ou o azar quis que o nobre cavaleiro tombasse ferido. Zaida arrastou o seu amado, através de uma passagem secreta, até uma sala escondida nas grutas e, enquanto enchia uma bilha de água numa nascente próxima para levar ao seu amado, foi atingida por uma seta e caiu ferida. O cavaleiro cristão juntou-se ao corpo da sua amada e os dois sangues misturaram-se, sendo ambos encontrados mais tarde já sem vida. Desde então, em certas noites de luar, aparece junto à cova uma formosa donzela vestida de branco com uma bilha que enche de água para depois desaparecer na noite após um doloroso gemido...
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Lenda dos Sete Ais
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Esta é uma lenda estranha que está na origem do nome de um local do concelho de Sintra e que remonta a 1147, data em que D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros. Destacado para ocupar o castelo de Sintra, D. Mendo de Paiva surpreendeu a princesa moura Anasir, que fugia com a sua aia Zuleima. A jovem assustada gritou um "Ai!" e quando D. Mendo mostrou intenção de não a deixar sair, outro "Ai!" lhe saiu da garganta. Zuleima, sem lhe explicar a razão, pediu-lhe para nunca mais soltar nenhum grito do género, mas ao ver aproximar-se o exército cristão a jovem soltou o terceiro "Ai!". D. Mendo decidiu esconder a princesa e a sua aia numa casa que tinha na região e querendo levar a jovem no seu cavalo, ameaçou-a de a separar da sua aia se ela não acedesse e Anasir deixou escapar o quarto "Ai!". Pouco depois de se instalar na casa, a princesa moura apaixonou-se por D. Mendo de Paiva, retribuindo o amor do cavaleiro cristão que em segredo a mantinha longe de todos. Um dia, a casa começou a ser rondada por mouros e Zuleima receava que fosse o antigo noivo de Anasir, Aben-Abed, que apesar de na fuga se ter esquecido da sua noiva, voltava agora para castigar a sua traição. Zuleima contou a D. Mendo que uma feiticeira lhe tinha dito que a princesa morreria ao pronunciar o sétimo "Ai!". Entretanto, Anasir curiosa pela preocupação da aia em relação aos seus "Ais", exprimiu o quinto e o sexto consecutivamente, desesperando a sua aia que continuou a não lhe revelar o segredo. D. Mendo partiu para uma batalha e passados sete dias foi Aben-Abed que surpreendeu Anasir, que soltou o sétimo "Ai!", ao mesmo tempo que o punhal do mouro a feria no peito. Enlouquecido pela dor, D. Mendo de Paiva tornou-se no mais feroz caçador de mouros do seu tempo.
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O Cavaleiro Henrique
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Nos primeiros tempos da Reconquista, cerca de treze mil cruzados vieram de toda a Europa para auxiliar D. Afonso Henriques na Reconquista aos Mouros. Entre os muitos que pereceram e que foram considerados mártires, houve um cavaleiro chamado Henrique, originário de Bona, que morreu na conquista de Lisboa e que foi sepultado na Igreja de S. Vicente de Fora. À memória do Cavaleiro Henrique estão associados muitos milagres, um dos quais deixou vestígios no nome de uma rua de Lisboa.
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A lenda diz que logo que Henrique foi sepultado, dois dos seus companheiros, ambos cavaleiros surdos e mudos de nascença, vieram deitar-se sobre o seu túmulo de forma a que Henrique intercedesse junto de Deus pela sua cura. Em sonhos, Henrique disse-lhes que Deus os tinha curado e quando acordaram verificaram o milagre. Pouco tempo depois, morreu um escudeiro de Henrique dos ferimentos que tinha sofrido na conquista de Lisboa e foi sepultado na Igreja de S. Vicente, mas longe do túmulo do seu amo. O cavaleiro Henrique apareceu em sonhos ao sacristão da igreja e disse-lhe que queria o corpo do escudeiro junto de si. O sacristão não ligou importância ao sonho, nem quando este se repetiu no dia seguinte. Na terceira noite, Henrique, novamente em sonhos, falou-lhe tão irritado com a sua indiferença que o sacristão acordou imediatamente e passou todo o resto da noite a cumprir as suas indicações. Pela manhã e apesar de ter passado toda a noite naquele trabalho, encontrava-se descansado como se tivesse dormido toda a noite. A novidade espalhou-se e os feitos do Cavaleiro Henrique continuaram: segundo a lenda, cresceu uma palma no seu túmulo cujas folhas curavam os males de todos os peregrinos que ali acorriam. Um dia a palma foi roubada mas ficou para sempre na memória do povo através do nome de uma rua, a da Palma, na baixa de Lisboa.
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Martim Moniz
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O nome de Martim Moniz está ligado à conquista de Lisboa aos Mouros e figura na memória da cidade através de uma praça com o seu nome. A lenda conta que D. Afonso Henriques tinha posto cerco à cidade, ajudado pelos muitos cruzados que por aqui passaram a caminho da Terra Santa. O cerco durou ainda algum tempo, durante o qual se travavam pequenas investidas por parte dos cristãos. Numa dessas tentativas de assalto a uma das portas da cidade, Martim Moniz enfrentou os mouros que saíam para repelir os cristãos e conseguiu manter a porta aberta mesmo a custo da sua própria vida. O seu corpo ficou atravessado entre os dois batentes e permitiu que os cristãos liderados por D. Afonso Henriques entrassem na cidade. Ferido gravemente, Martim Moniz entrou com os seus companheiros e fez ainda algumas vítimas entre os seus inimigos, antes de cair morto. D. Afonso Henriques quis honrar a sua valentia e o sacrifício da sua vida ordenando que aquela entrada passasse a ter o nome de Martim Moniz. O povo diz que foi D. Afonso Henriques que mandou colocar o busto do herói num nicho de pedra, onde ainda hoje se encontra, junto à Praça de Martim Moniz.
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A Mula da Rainha Santa
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A Rainha Santa a que se refere esta lenda é D. Mafalda, a filha preferida de D. Sancho I e a irmã favorita de D. Afonso II. A jovem princesa era bela e perfeita como poucas e senhora de uma esmerada educação. Naquele tempo, subiu ao trono de Castela D. Henrique, uma criança de doze anos apenas, facilmente manobrada pelo seu tutor, Álvaro de Lara, que queria governar através do jovem rei. Querendo-lhe dar como esposa uma mulher que o dominasse quando fosse adulto, escolheu D. Mafalda e o casamento celebrou-se. D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar antes da súbita morte do rei aos 14 anos. D. Mafalda regressou a Portugal virgem e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por "rainha". Viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja. Morreu aos 90 anos durante uma cobrança de foros e rendas em Rio Tinto, cujos habitantes queriam que D. Mafalda fosse sepultada nessa mesma terra. Mas em Arouca discordavam, porque era no Mosteiro que ela vivia e na sua igreja deveria repousar o seu corpo para sempre. Estava a discórdia instalada quando alguém se lembrou de dizer que se pusesse o caixão em cima da mula em que a Infanta costuma viajar e para onde o animal se dirigisse seria o local onde seria sepultada. A mula não teve dúvidas e quando chegou à igreja do Mosteiro de Arouca, acercou-se do altar de S. Pedro e aí morreu. O sepulcro de D. Mafalda foi duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos. Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.
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Lenda de Santa Joana Princesa
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A princesa D. Joana, filha do rei Afonso V, revelou desde muito tenra idade uma grande vocação religiosa. Esta filha primogénita, apesar de ser obrigada a viver na Corte pela sua posição, afastava-se o mais possível de festas e convívios e passava grande parte do seu tempo a rezar e a meditar. A princesa era, dizia-se, muito bela e teve muitos pretendentes, entre estes muitas cabeças coroadas, mas a todos recusou alegando a sua intenção de se tornar freira. Com a autorização real, entrou D. Joana para Odivelas, mudando-se mais tarde para o Convento de Santa Clara de Coimbra, mas acabando por resolver professar no Convento de Jesus, em Aveiro. Esta última decisão foi contestada tanto pelo rei como pelo povo, dado que o Convento de Jesus era muito pobre e, na opinião geral, indigno de uma princesa. Por outro lado, o povo discordava da vocação da princesa e não queriam que ela professasse. Perante tanta discórdia D. Joana decidiu não professar, mas declarou que usaria o véu de noviça para sempre e insistiu em ingressar no Convento de Jesus, vivendo na humildade e na pobreza e aplicando as rendas que possuía no socorro dos pobres. A sua caridade era tão grande que depressa ficou conhecida como santa. Mas a bela princesa adoeceu de peste e morreu em grande sofrimento. Quando o seu enterro passou pelos jardins do convento deu-se um facto insólito: as flores que ela havia tratado em vida caiam sobre o seu caixão prestando-lhe uma última homenagem. Após este primeiro milagre, muitos outros foram atribuídos a Santa Joana Princesa, levando a que, duzentos anos depois, o Papa Inocêncio XII concedesse a beatificação a esta infanta de Portugal.
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Lendas do distrito do Porto
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O Senhor de Matosinhos
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Segundo a tradição, a imagem do Senhor de Matosinhos é uma das mais antigas de toda a cristandade. A lenda diz que esta imagem foi esculpida por Nicodemos, que assistiu aos últimos momentos de vida de Jesus, sendo por isso considerada uma cópia fiel do seu rosto. Nicodemos esculpiu mais quatro imagens mas esta é considerada a primeira e a mais perfeita. A imagem é oca porque nela teria Nicodemos escondido os instrumentos da Paixão e, nesses tempos de perseguição, os objectos sagrados eram escondidos ou atirados ao mar para escaparem à fogueira. Nicodemos atirou a imagem ao mar Mediterrâneo, na Judeia, e esta foi levada pelas águas, passou o estreito de Gibraltar e veio dar à praia de Matosinhos, perdendo na viagem um braço. A população de Bouças ergueu-lhe um templo e designou a imagem por Nosso Senhor de Bouças, venerando-a durante 50 anos pelos seus muitos milagres. Mas um dia, andava uma mulher na praia de Matosinhos a apanhar lenha para a sua lareira, quando encontrou um pedaço de madeira que juntou aos restantes. Em casa, lançou-o ao fogo mas este pedaço saltou da lareira não só da primeira, mas como de todas as vezes que ela o tentava queimar. A sua filha, muda de nascença, fazia-lhe gestos desesperados para que dizer qualquer coisa e, por fim, balbuciou, perante o espanto da mãe, que o pedaço de madeira era o braço de Nosso Senhor das Bouças. Assombrada pelo milagre a população verificou que o braço se ajustava tão bem à imagem que parecia que nunca dela se tinha separado. No século XVI, a imagem foi mudada para uma igreja em Matosinhos, construída em sua honra, ficando a ser conhecida por Nosso Senhor de Matosinhos.
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Santiago e Caio
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No ano de 44 da era de Jesus Cristo, passeava pela praia de Matosinhos um ilustre cavaleiro da Maia, Caio Carpo Palenciano, com a sua mulher Claudina e vários parentes e amigos. Cavalgava o grupo pelo areal quando alguém vislumbrou uma barca que se dirigia para norte. Os cavaleiros e as damas pararam todos para apreciar o ritmo e a beleza da embarcação, quando inexplicavelmente o cavalo de Caio galopou para dentro do mar, apesar de este o tentar evitar, como se fosse obrigado por uma força desconhecida. Cavalo e cavaleiro imergiram no mar e desapareceram para ressurgirem perto da barca, para onde subiram cobertos de vieiras. Quando perguntaram à tripulação o motivo deste fenómeno e qual a razão da sua viagem, estes explicaram que eram discípulos cristãos de um homem chamado Tiago. Tinham fugido de grandes perseguições, levando o corpo do seu Mestre para terras de Espanha, onde Tiago tinha pregado o Evangelho. Segundo estes homens, o fenómeno ocorrido com Caio e o seu cavalo poderia ser explicado pelo facto de ele ser um escolhido de Nosso Senhor. As vieiras eram o sinal de Santiago que queria ver Caio abraçar a lei de Deus. Comovido, Caio foi ali mesmo baptizado com água do mar e, quando voltou para junto dos seus familiares e amigos, a todos converteu com o extraordinário feito de Santiago. As vieiras ficaram a fazer parte do brasão da nobre família Pimentel de Trás-os-Montes, descendentes, segundo se crê, de Caio Carpo Palenciano.
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Lenda de Valongo e Susão
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Os nomes de Valongo e Susão têm origem nesta lenda que remonta à época em que alguns cristãos perseguidos no Oriente se refugiaram em Cale, foz do rio Douro. Entre eles estava o rico negociante judeu Samuel, recém convertido ao Cristianismo, e a sua filha Susana. Pensavam os fugitivos estarem já livres de perseguições quando foram obrigados a defender-se dos árabes que dominavam a região. Com astúcia, prepararam uma armadilha e capturaram o jovem Domus de cujo resgate esperavam obter a paz. Enquanto decorriam as negociações, Domus e Susana apaixonaram-se e o mouro pediu para ser baptizado para poder casar-se com a jovem. O acordo com os muçulmanos era assim impossível e decidiram todos fugir, deixando Portucale (Porto) em direcção ao Oriente. Chegados ao topo da Serra de Santa Justa depararam com uma paisagem lindíssima e a apaixonada Susana exclamou um elogio sincero ao vale longo que sob os seus olhos se estendia. Desceram ao vale e nele decidiram ficar para sempre, edificando as primeiras casas de uma povoação que se veio a chamar Susão, em memória da bela Susana. O vale que Susana tinha achado belo e longo ficou conhecido como Valongo.
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Lenda do Rei Ramiro
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Uma antiga lenda que remonta ao século X, conta que o rei Ramiro II de Leão se apaixonou por uma bela moura de sangue azul, irmã de Alboazer Alboçadam, rei mouro que possuía as terras que iam de Gaia até Santarém. Influenciado pela sua paixão e com a intenção de pedir a moura em casamento, Ramiro decidiu estabelecer a paz com Alboazer, que o recebeu no seu palácio de Gaia. Apesar de já ser casado, Ramiro pensou que seria fácil obter a anulação do seu casamento pelo parentesco que o unia a D. Aldora. Alboazer recusou terminantemente: nunca daria a irmã em casamento a um cristão e, de todas as formas, esta já estava prometida ao rei de Marrocos. O rei Ramiro, vexado, pareceu aceitar a recusa, mas pediu ao astrólogo Amã que estudasse os astros para decidir qual a melhor altura para raptar a princesa e levou-a consigo nessa data propícia. Dando por falta da irmã, Alboazer ainda chegou a tempo de encontrar os cristãos a embarcar no cais de Gaia. Gerou-se uma luta favorável ao rei cristão, que levou a princesa moura para Leão, a baptizou e lhe deu o nome de Artiga, que tanto significava castigada e ensinada como dotada de todos os bens. Alboazer, para se vingar, raptou a legítima esposa do rei Ramiro, D. Aldora, juntamente com todo o seu séquito. Quando o rei Ramiro soube do rapto ficou louco de raiva e, juntamente com o seu filho D. Ordonho e alguns vassalos, zarpou de barco para Gaia. Aí chegados Ramiro disfarçou-se de pedinte e dirigiu-se a uma fonte onde encontrou uma das aias de D. Aldora a quem pediu um pouco de água, aproveitando para dissimuladamente deitar no recipiente da água meio camafeu, do qual a rainha possuía a outra metade. Reconhecendo a jóia, D. Aldora mandou buscar o rei disfarçado de pedinte e, por vingança da sua infidelidade, entregou-o a Alboazer. Sentindo-se perdido, o rei Ramiro pediu a Alboazer uma morte pública, esperando com astúcia ganhar tempo para poder avisar o seu filho através do toque do seu corno de caça. Ao ouvir o sinal combinado, D. Ordonho acorreu com os seus homens ao castelo e juntos mataram Alboazer e o seu povo, para além de destruírem a cidade. Levando D. Aldora e as suas aias para o seu barco, o rei Ramiro atou uma mó de pedra ao pescoço da rainha e atirou-a ao mar num local que ficou a ser conhecido por Foz de Âncora. O rei Ramiro voltou para Leão onde se casou com a princesa Artiga, de quem teve uma vasta e nobre descendência.
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Lenda de Pedro Sem
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A torre medieval que se encontra diante do antigo Palácio de Cristal, no Porto, é ainda hoje conhecida por Torre de Pedro Sem. A história diz que essa torre pertencia a Pêro do Sem, doutor de leis, jurisconsulto e chanceler-mor de D. Afonso VI, no século XIV. Mas a lenda remete para uma data posterior, no século XVI, a existência de um personagem Pedro Sem que vivia no seu Palácio da Torre. Possuindo muitas naus na Índia, Pedro Sem era um mercador rico mas não tinha títulos de nobreza, o que muito o afectava. Era também usurário, emprestando dinheiro a juros elevados, à custa da desgraça alheia, enquanto vivia rodeado de luxo. Estavam as suas naus a chegar, carregadas de especiarias e outros bens preciosos, quando a sua máxima ambição foi realizada através do seu casamento com uma jovem da nobreza, em troca do perdão das dívidas de seu pai. Decorria a festa de casamento, que durou quinze dias consecutivos, quando as naus de Pedro Sem se aproximaram da barra do Douro. O arrogante mercador acompanhado pelos seus convidados subiu à torre do seu palácio e, confiante do seu poder, desafiou Deus, dizendo que nem o Criador o poderia fazer pobre. Nesse momento, o céu que estava azul deu lugar a uma grande tempestade! Pedro Sem assistiu, impotente e encharcado pela chuva, ao naufrágio das suas naus. De seguida, a torre foi atingida por um raio que fez deflagrar um incêndio que destruiu todos os seus bens. Arruinado, Pedro Sem passou a pedir esmola nas ruas, lamentando-se a quem passava: "Dê uma esmolinha a Pedro Sem, que teve tudo e agora não tem...".
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Lenda dos Tripeiros
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No ano de 1415, construíam-se nas margens do Douro as naus e os barcos que haveriam de levar os portugueses, nesse ano, à conquista de Ceuta e, mais tarde, à epopeia dos Descobrimentos. A razão deste empreendimento era secreta e nos estaleiros os boatos eram muitos e variados: uns diziam que as embarcações eram destinadas a transportar a Infanta D. Helena a Inglaterra, onde se casaria; outros diziam que era para levar El-Rei D. João I a Jerusalém para visitar o Santo Sepulcro. Mas havia ainda quem afirmasse a pés juntos que a armada se destinava a conduzir os Infantes D. Pedro e D. Henrique a Nápoles para ali se casarem...
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Foi então que o Infante D. Henrique apareceu inesperadamente no Porto para ver o andamento dos trabalhos e, embora satisfeito com o esforço despendido, achou que se poderia fazer ainda mais. E o Infante confidenciou ao mestre Vaz, o fiel encarregado da construção, as verdadeiras e secretas razões que estavam na sua origem: a conquista de Ceuta. Pediu ao mestre e aos seus homens mais empenho e sacrifícios, ao que mestre Vaz lhe assegurou que fariam para o infante o mesmo que tinham feito cerca de trinta anos atrás aquando da guerra com Castela: dariam toda a carne da cidade e comeriam apenas as tripas. Este sacrifício tinha-lhes valido mesmo a alcunha de "tripeiros". Comovido, o infante D. Henrique disse-lhe então que esse nome de "tripeiros" era uma verdadeira honra para o povo do Porto. A História de Portugal registou mais este sacrifício invulgar dos heróicos "tripeiros" que contribuiu para que a grande frota do Infante D. Henrique, com sete galés e vinte naus, partisse a caminho da conquista de Ceuta.
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