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segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Pablo Neruda - Endureçamos a bondade, amigos.

? Pablo Neruda

Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra. 

Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração recto, e aos não flexíveis e submissos. 

Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez. 

Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida. 

E, assim, só se chamarão bons os de coração recto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reinvindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra. 

Pablo Neruda, in "Nasci para Nascer" 

MAIS TEXTOS DE NERUDA EM   http://www.citador.pt/textos/a/pablo-neruda

segunda-feira, 11 de abril de 2016

Luís Filipe Castro Mendes - "DO MEDO" e "DE MEMÓRIA"

Do Medo



Não pode o poema 
circunscrever o medo, 
dar-lhe o rosto glorioso 
de uma fábula 
ou crer intensamente na sua aura. 
Nós permanecemos, quando 
escurece à nossa volta o frio 
do esquecimento 
e dura o vento e uma nuvem leve 
a separar-se das brumas 
nos começa a noite. 

Não pode o poema 
quase nada. A alguns inspira 
uma discreta repugnância. 
Outras vezes inclinamo-nos, reverentes, ante os epitáfios 
ou demoramo-nos a escutar as grandes chuvas 
sobre a terra. 
Quem reconhece a poesia, esse frio 
intermitente, essa 
persistência através da corrupção? 
Quase sempre a angústia 
instaura a luz por dentro das palavras 
e lhes rouba os sentidos. 
Quase sempre é o medo 
que nos conduz à poesia. 



Voltando ao medo: as asas 
prendem mais do que libertam; 
os pássaros percorrem necessariamente 
os mesmos caminhos no espaço, 
sem possibilidades de variação 
que não estejam certas com esse mesmo voo 
que sempre descrevem. 
Voltando ao medo: o poema 

desenha uma elipse em redor da tua voz 
e cerca-se de angústia 
e ervas bravias — nada mais 
pode fazer. 

Luis Filipe Castro Mendes, in "A Ilha dos Mortos" 

De Memória

Nunca te surpreendeu o sorriso estático 
das imagens antigas? Alguma coisa aqui 
tivemos de perder. Percorro dias e corpos na memória, 
mas o que procuro mais é não te ver. 

Quem ama quem? As máscaras trocaram-se 
e a tua voz ressoa neste palco. 
Trouxe versos e música para te dar, 
mas o rosto que tivemos já partiu; 
fiquei eu só, à beira da memória, 
água do mar que não serve para beber. 

Porque esta foi a paixão, o grande acto, 
a tímida paixão de asas de chumbo. 
Eu vi-te muitas vezes frente ao mar, 
mas quem de nós para acender a cinza? 
- ronda-nos a ave de presa despojada 
sobre os malefícios. Aliás, coisas passadas. 

Não te surpreendeu? O amor 
surpreende - não convém, desarruma. 
E nunca se ama ao certo quem se ama. 
Procuramos apenas um brilho, 
um brilho muito intenso no olhar, 
um brilho que não vamos definir 
e que algum dia iremos renegar. 

Luis Filipe Castro Mendes, in "Modos de Música" 

sábado, 16 de outubro de 2010

Fotos de Carmen Montesino - Fotos do Mural

Foto 141 de 141


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"A não violência é a maior força à disposição da Humanidade. Ela é mais poderosa que a mais poderosa das armas de destruição concebida pela ingenuidade do Homem."


"Nonviolence is the greatest force at the disposal of mankind. It is mightier than the mightiest weapon of destruction devised by the ingenuity of man."

(Mahatma Gandhi (1869 – 1948)
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Victor Nogueira
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Citando Gandhi -
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1 - Cada dia a natureza produz o suficiente para nossa carência. Se cada um tomasse o que lhe fosse necessário, não havia pobreza no mundo e ninguém morreria de fome. 
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2 - Só engrandecemos o nosso direito à vida cumprindo o n...osso dever de cidadãos do mundo. 
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.3 - "Sete pecados sociais: política sem princípios, riqueza sem trabalho, prazer sem consciência, conhecimento sem caráter, comércio sem moralidade, ciência sem humanidade e culto sem sacrifício." 
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4 - "A primeira coisa, portanto, é dizer-vos a vós mesmos: Não aceitarei mais o papel de escravo. Não obedecerei às ordens só porque são a lei, porque desobedecerei sempre que estiverem em conflito com a minha consciência. O vosso opressor poderá utilizar a violência para vos forçar a servi-lo. Direis a ele: Não obedecerei nem por dinheiro nem por ameaça. Isso poderá trazer sofrimentos. Mas vossa coragem acenderá a tocha da liberdade, que não mais poderá ser apagada." 
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5 - "Sempre houve o suficiente no mundo para todas as necessidades humanas; nunca haverá o suficiente para a cobiça humana."
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6 - ""Vocês podem me acorrentar, me torturar; podem até mesmo destruir meu corpo, mas nunca irão aprisionar a minha mente."
há alguns segundos
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sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Um poema de Álvaro de Campos



Poema

Sou Lúcido
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.Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa
Aquele homem mal vestido, pedinte por profissão que se lhe vê na cara,
Que simpatiza comigo e eu simpatizo com ele;
E reciprocamente, num gesto largo, transbordante, dei-lhe tudo quanto tinha
(Exceto, naturalmente, o que estava na algibeira onde trago mais dinheiro:
Não sou parvo nem romancista russo, aplicado,
E romantismo, sim, mas devagar...).

Sinto uma simpatia por essa gente toda,
Sobretudo quando não merece simpatia.
Sim, eu sou também vadio e pedinte,
E sou-o também por minha culpa.
Ser vadio e pedinte não é ser vadio e pedinte:
É estar ao lado da escala social,
É não ser adaptável às normas da vida,
'As normas reais ou sentimentais da vida -
Não ser Juiz do Supremo, empregado certo, prostituta,
Não ser pobre a valer, operário explorado,
Não ser doente de uma doença incurável,
Não ser sedento da justiça, ou capitão de cavalaria,
Não ser, enfim, aquelas pessoas sociais dos novelistas
Que se fartam de letras porque tem razão para chorar lagrimas,
E se revoltam contra a vida social porque tem razão para isso supor.

Não: tudo menos ter razão!
Tudo menos importar-se com a humanidade!
Tudo menos ceder ao humanitarismo!
De que serve uma sensação se ha uma razão exterior a ela?

Sim, ser vadio e pedinte, como eu sou,
Não é ser vadio e pedinte, o que é corrente:
É ser isolado na alma, e isso é que é ser vadio,
É ter que pedir aos dias que passem, e nos deixem, e isso é que é ser pedinte.

Tudo o mais é estúpido como um Dostoiewski ou um Gorki.
Tudo o mais é ter fome ou não ter o que vestir.
E, mesmo que isso aconteça, isso acontece a tanta gente
Que nem vale a pena ter pena da gente a quem isso acontece.

Sou vadio e pedinte a valer, isto é, no sentido translato,
E estou-me rebolando numa grande caridade por mim.

Coitado do Álvaro de Campos!
Tão isolado na vida! Tão deprimido nas sensações!
Coitado dele, enfiado na poltrona da sua melancolia!
Coitado dele, que com lagrimas (autenticas) nos olhos,
Deu hoje, num gesto largo, liberal e moscovita,
Tudo quanto tinha, na algibeira em que tinha pouco
Aquele pobre que não era pobre que tinha olhos tristes por profissão.

Coitado do Álvaro de Campos, com quem ninguém se importa!
Coitado dele que tem tanta pena de si mesmo!

E, sim, coitado dele!
Mais coitado dele que de muitos que são vadios e vadiam,
Que são pedintes e pedem,
Porque a alma humana é um abismo.

Eu é que sei. Coitado dele!
Que bom poder-me revoltar num comício dentro de minha alma!

Mas até nem parvo sou!
Nem tenho a defesa de poder ter opiniões sociais.
Não tenho, mesmo, defesa nenhuma: sou lúcido.

Não me queiram converter a convicção: sou lúcido!

Já disse: sou lúcido.
Nada de estéticas com coração: sou lúcido.
Merda! Sou lúcido. 

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Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

Data: 2008/09/03 04:13
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http://www.citador.pt/poemas.php?op=10&refid=200809030413
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quarta-feira, 5 de maio de 2010

Friedrich Nietzsche - Vida e Alguma poesia

Friedrich Nietzsche


VOCAÇÃO DE POETA 
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.Ainda outro dia, na sonolência
De escuras árvores, eu, sozinho,
Ouvi batendo, como em cadência,
Um tique, um taque, bem de mansinho...
Fiquei zangado, fechei a cara -
Mas afinal me deixei levar
E igual a um poeta, que nem repara,
Em tique-taque me ouvi falar

E vendo o verso cair, cadente,
Sílabas, upa, saltando fora,
Tive que rir, rir, de repente,
E ri por um bom quarto de hora.
Tu, um poeta? Tu, um poeta?
Tua cabeça está assim tão mal?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Por quem espero aqui nesta moita?
A quem espreito como um ladrão?
Um dito? Imagem? Mas, psiu! Afoita
Salta à garupa rima, e refrão.
Algo rasteja? Ou pula? Já o espeta
Em verso o poeta, justo e por igual.
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Rimas, penso eu, serão como dardos?
Que rebuliços, saltos e sustos
Se o dardo agudo vai acertar dos
Pobres lagartos os pontos justos.
Ai, que ele morre à ponta da seta
Ou cambaleia, o ébrio animal!
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Vesgo versinho, tão apressado,
Bêbada corre cada palavrinha!
Até que tudo, tiquetaqueado,
Cai na corrente, linha após linha.
Existe laia tão cruel e abjeta
Que isto ainda - alegra? O poeta - é mau?
- Sim, meu senhor, sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

Tu zombas, ave? Queres brincar?
Se está tão mal minha cabeça
Meu coração pior há de estar?
Ai de ti, que minha raiva cresça!
Mas trança rimas, sempre - o poeta,
Na raiva mesmo sempre certo e mau.
- Sim, meu senhor sois um poeta,
E dá de ombros o pica-pau.

(Tradução de Rubens Torres Filho) 
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DO ALTO DOS MONTES  
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.Oh! Meio dia da vida! Época solene!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta da ansiedade na espera:
espero meus amigos, noite e dia,
onde estais, amigos meus?
Vinde! É tempo, é tempo!

Nã0 é por vós que o gelo cinzento
hoje se adorna com rosas?
A vós procura o rio,
Suspensos nos céus ventos e nuvens se alevantam
para observar vossa chegada
competindo com o mais sublime vôo dos pássaros.

No meu santuário coloquei a mesa:
Quem vive mais próximo das estrelas
e das horríveis profundezas do abismo?
Que reino mais extenso que o meu?
E do mel, daquele que é meu, que sentiu seu fino aroma?

Aqui estais, finalmente, meus amigos!
Ai! não é a mim que procurais?
Hesitais, mostrais surpresa?
Insultai-me é melhor! Eu não sou mais eu?
Mudei de mão, de rosto, de andar?
O que eu era, amigos, acaso não mais sou?

Tornei-me, talvez, outro?
Estranho a mim mesmo? De mim mesmo, fugido?
Lutador que muitas vezes venceu a si mesmo?
Que muitas vezes lutou contra a própria força,
ferido, paralisado pelas vitórias contra si mesmo?

Porventura não procurei os mais ásperos ventos
e aprendi a viver onde ninguém habita,
nos desertos onde impera o urso polar?
Não esqueci a Deus e ao homem, blasfêmias e orações?
Tornei-me um fantasma das geleiras.

Oh! meus velhos amigos, vossos rostos
empalidecem de imediato,
transtornados de ternura e espanto!
Andai, sem rancor! Não podeis demorar aqui!
Não é para vós este pais de geleiras e rochas!
Aqui é preciso ser caçador e antílope!

Converti-me em caçador cruel. Vede meu arco:
a tensão de sua corda!
Apenas o mais forte poderá arremessar tal dardo.
Mas não há nenhuma seta mortal como esta.
Afastai-vos, se tendes amor à vossa vida!

Fugis de mim!? Oh, coração, quanto sofreste!
E entretanto, tua esperança ainda se mantém firme!
Abre tuas portas a novos amigos,
renuncia aos antigos e às lembranças!
Fostes jovem? - Pois agora és mais e com mais brio.

Quem pode decifrar os signos apagados,
do laço que une com ua mesma esperança?
Signos que em outros tempos escreveu o amor,
que luzem como velho pergaminho queimado
que se teme tocar, como ele. Queimado e enegrecido!

Basta de amigos! Como chamá-los?
Fantasmas de amigos! Que de noite,
tentam ainda meu coração e minha janela
e me olham sussurrando:
Somos nós!
Oh! Ressequidas palavras, um dia fragrantes como rosas!

Sonhos juvenis tão cheios de ilusão,
aos quais buscava no impulso de minhalma,
agora os vejo envelhecidos!
Apenas os que sabem mudar são os de minha linhagem.

Oh! Meio dia da vida! Oh! segunda juventude!
Oh! jardim de estio!
Beatitude inquieta na ansiedade da espera!
Os amigos esperam, dia e noite, os novos amigos.
Vinde! É tempo! É tempo!

O hino antigo cessou de soar,
O doce grito do desejo expira em meus lábios.
Na hora fatídica apareceu um encantador,
o amigo do pleno meio-dia.
Não, não me pergunteis quem é;
ao meio-dia, o que era um,
dividiu-se em dois.

Celebremos, seguros de ua mesma vitória,
a festa das festas!
Zaratustra está alai, o amigo,
o hóspede dos hóspedes!
O mundo ri, o odioso véu cai,
E eis que a luz se casa Com a misteriosa,
subjugadora Noite.

(Tradução de Márcio Pugliesi) 
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http://www.astormentas.com/
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Ninguém pode construir em teu lugar as pontes que precisarás passar, para atravessar o rio da vida.
- ninguém, exceto tu, só tu.
Existem, por certo, atalhos sem números, e pontes, e semideuses que se oferecerão para levar-te além do rio; mas isso te custaria a tua própria pessoa; tu te hipotecarias e te perderias.
Existe no mundo um único caminho por onde só tu podes passar.
Onde leva?
Não perguntes, segue-o!
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"Sei a minha sina.
Um dia meu nome será lembrança de algo terrível.
De uma crise como jamais houve sobre a Terra.
Da mais profunda colisão de consciências.
De uma decisão conjurada contra tudo que até então foi acreditado, santificado, requerido.
Não sou um ser humano, sou uma dinamite, na transvaloração de todos os valores.
Eis a minha fórmula para um ato de suprema octognose da humanidade que em mim se fez gene e 
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Edição 158

Nietzsche: A beleza das trevas

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Data de Publicação: 9 de agosto de 2007
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O verso livre e longo e a prosa poética não são conquistas isoladas e gratuitas de meia dúzia de poetas vadios ou desocupados, mas o resultado do esforço e sacrifício de poetas que, apesar de conhecerem e dominarem todas as formas métricas e vérsicas, estróficas e rímicas, resolveram interromper a ditadura formal e formol de sarcófagos e embalsamados, e optar por uma poesia que seduz sem o concurso de roupagens.

Hoje, pergunta-se: quanto há de poesia, por exemplo, nos milhões de versos metrificados e rimados da Divina Comédia, de Dante; no monumental Jerusalém Libertada, de Torquato Tarso ou em Os Lusíadas, de Camões?

Pode-se apostar ou suspeitar que em quase 60% desses longos poemas até quilométricos se constituem de narração pura, enciclopédia de conhecimentos gerais.

Uma coisa é o poema puro e simples; outra coisa é a poesia.

Uma coisa é o poeta; outra, a lenda em torno de nomes que, a par de se haverem notabilizado por alguns sonetos geniais como Bocage, Gregório de Matos, Camões, Cláudio Manuel da Costa e Alvarenga Peixoto, escreveram centenas de sonetos que celebram a miséria da poesia, embora comemorem a perfeição formal do verso pelo verso. Incluam-se nesse rol Olavo Bilac, Francisca Júlia e Alberto de Oliveira.

Será preciso a insistência de uma crítica contra a racionalidade conceitual, senão esbarraremos sempre na morte do trágico e do lírico pelo saber racional.

Se há uma obra que bate de frente contra esses interditos e convoca os poetas para uma tomada de posição e/ou oposição radical a esse status quo, é a do filósofo alemão Friedrich Nietzsche.

Nietzsche

Quando o poeta português Fernando Pessoa (188-1935) despontou no cenário da poesia em versos livres e longos, com o seu Álvaro de Campos, Livro de Versos, escrito entre 1914 e 1935, já alguns acontecimentos marcantes nesse sentido, se haviam concretizado.

Por exemplo, Walt Whitman (1819-1892) já havia, como pioneiro, fundado o território da poesia em versos longos e livres, eloqüentes e de contestação radical, com Leave of Grass (Folhas de Relva), obra publicada em 1855.

Friedrich Nietzsche (1844-1900), também havia deixado o seu recado aos que viriam depois ou aos poetas do futuro.

Na realidade, a obra filosófico-literária de Nietzsche é em si o maior e melhor manifesto para a melhor poesia escrita no período finis-secular XIX, durante o século XX e cá no III milênio.

Nietzsche, como excelente filósofo foi também excelente poeta, psicólogo e psicanalista.

Supomos que a obra que abre o pensamento poético de Nietzsche, seja O nascimento da tragédia, obra fundadora da concepção nietzschiana, de 1871, que já é um ensaio sobre a arte poética.

Em A Gaia Ciência, texto de 1882, Nietzsche oferece duas inserções poéticas, uma indispensável fonte, para que se possa pensar a poesia do século XX e XXI de valor incontestável. Nesses poemas já estão as raízes dos versos livres de Nietzsche como obra de impacto ao pensamento poético milenarmente convencional. Os dois capítulos de poemas são Brincadeira, astúcia e vingança, p. 10 a 49 e Canções do príncipe Vogelfrei, p. 290 a 315.

O poema em prosa Assim falava Zaratustra, obra escrita entre 1883 e 1885, oferece outro viés contra as fronteiras e barreiras impostas pelo cansaço tetramilenar das fronteiras e barreires entre os gêneros literários.

Nesse poema, a prosa poética dá um quinal no somatório de tudo quanto é métrica até então exercida de Dante aos dentes, dados e dedos dos metrificadores mais enfurecidos e contumazes de hoje. Casam-se nesse inigualável poema, como se uma Nona Sinfonia de Beethoven, filosofia e poesia, psicologia, psicanálise e música.

Mas é em Ditirambos de Dionísio, série de poemas qu fecham a obra O Anticristo, de 1888, p. 83 a 145, que o poeta nos surpreende.

Com o título original de Canções de Zaratustra, a obra apresenta o ideário do que viria a ser hoje a poesia contemporânea mais conseqüente. É hora de lermos Nur Narr! Nur Dichter! (Somente louco! Somente poeta!) Sigamos Nietzsche, nesta obra-prima:

Somente louco!
Somente Poeta!

No ar desanuviado,
quando o consolo do orvalho
já se estende sobre a terra,
invisível, também não ouvido
– pois calçados leves tem o orvalho consolador,
como todos os que suavemente consolam –
tu recordas então, recordas, ardente coração,

como uma vez tinhas sede
de lágrimas celestes e de orvalhos,
crestado e fatigado,
enquanto nas trilhas da erva seca
maliciosos olhares do sol vespertino
corriam ao teu redor por entre árvores negras,
ofuscantes olhares do sol em brasa de alegre
[maldade.

“Pretendente da Verdade – tu?” – assim
[zombavam eles.

“Não! Somente poeta!
Um bicho ardiloso, de rapina, insinuante,
que tem de mentir,
Que ciente, voluntariamente tem de mentir
ávido de presa,
disfarçado de cores,
pra si mesmo um disfarce,
para si mesmo um presa,
isso – pretendente da Verdade?...

Somente louco! Somente poeta!
Falando somente coisas coloridas,
falando a partir de máscaras de tolo,
subindo por mentiras pontes de palavras,
por arco-íris de mentiras,
entre falsos céus
vagueando, deslizando –
somente louco! Somente poeta!

em todo ermo mais em casa do que em templos,
cheio de capricho de felino
a saltar por toda janela
zás! para todo acaso,
farejando em casa floresta virgem,
que corras em florestas virgens
entre bestas de jubas coloridas
pecaminosamente sadio e belo e colorido corras
com ávidos beiços,
feliz – zombeteiro, feliz – infernal, feliz –
[sanguinolento,
corras rapinando, deslizando, mentindo...

Ou como a águia, que longamente,
longamente olha, hirta, nos abismos,
em seus abismos...
– oh, como eles se encaracolam
para baixo, para dentro,
em cada vez mais fundas profundezas! –

No ar desanuviado,
quando já a foice da lua
entre rubores purpúreos
verde se insinua e invejosa,
– inimiga do dia,
a cada passo secretamente
ceifando pendentes redes
de rosas, até caírem
pálidas, noite abaixo:

assim caí eu mesmo uma vez
de minha loucura da verdade,
de meus anseios diurnos,
cansado do dia, doente da luz

– caí para baixo, para a noite, para a sombra,
queimado e sedento
de uma verdade
– lembras-se ainda, lembres-te, ardente coração,
como tinhas sede então? –

que eu esteja banido
de toda verdade!
Somente louco! Somente poeta!...

(NIETZSCHE, 2007, p. 84-91)

Entre aves de rapina

Quem aqui quer descer,
como rapidamente
a profundeza o traga!
– Mas tu, Zaratustra,
amas ainda o abismo,
fazes como o abeto? –

Ele finca raízes
onde o próprio penhasco
treme ao olhar a profundeza –,
ele hesita à beira de abismos
onde tudo em volta
quer precipitar-se:
em meio à impaciência
do cascalho selvagem, do regato a despencar
pacientemente tolerante, duro, calado,
solitário...

Solitário!
Mas quem ousaria
ser hóspede aqui,
ser teu hóspede?...
Uma ave de rapina talvez,
que se apega aos cabelos
do firme sofredor
em maldosa alegria,
com louca risada,
risada de ave de rapina...

Por que tão firme?
– ela zomba cruel:
é preciso ter asas quando se ama o abismo...
é preciso não pendurar-se
como tu, pendurado! –

Ó Zaratustra,
cruel Nimrod!
Ainda há pouco caçador de Deus,
rede para fisgar toda virtude,
flecha do mal! –
Agora –
por ti mesmo caçado,
presa de ti mesmo,
em ti mesmo penetrado...

Agora –
solitário contigo,
“a dois” no próprio saber,
entre cem espelhos,
falso ante ti mesmo,
entre cem recordações
incerto,
cansado de toda ferida,
frio de todo gelo,
estrangulado em teu próprio laço,
Conhecedor de si!
Carrasco de si!

Por que te amarraste
com o laço de tua sabedoria?
Por que atraíste a ti mesmo
ao paraíso da velha serpente?
Por que te insinuaste, rastejaste
para dentro de ti – de ti?...

Agora um doente,
vítima do veneno da serpente;
agora um prisioneiro
que tirou a pior sorte:
trabalhando curvado
na própria mina,
em ti mesmo escavado,
a ti mesmo perfurando,
desajeitado,
teso,
um cadáver –,
assoberbado por cem fardos,
sobrecarregado de ti,
um Sabedor!
um Conhecedor de si!
o sábio Zaratustra!...

Buscaste o fardo mais pesado:
e encontraste a ti –,
não te despojas de ti...

Espreitando,
agachado,
alguém que não mais fica de pé!
Ainda terás a forma de tua tumba,
Espírito deformado!....

E há pouco ainda tão orgulhoso,
nas muletas do teu orgulho!
Ainda há pouco o eremita sem Deus,
convivendo com o Demônio,
o escarlate príncipe de toda altivez!...

Agora –
entre dois Nadas
encurvado,
um ponto de interrogação,
um mudo enigma –
um enigma para aves de rapina...

– elas já te “solverão”,
já têm fome de tua “solução”,
já esvoaçam em torno de ti, seu enigma,
em tomo de ti, enforcado!
Ó Zaratustra!...
Conhecedor de si!...
Carrasco de si!...

(Id. Ibid., p. 104-111)

O sol se põe

1. Não terás sede por muito tempo,
coração queimado!
Está no ar uma promessa,
de bocas desconhecidas me vem um sopro,
– a grande frescura está chegando...

Meu sol pairou quente sobre mim no meio-dia:
eu saúdo vossa chegada,
ventos súbitos,
frescos espíritos da tarde!

o ar corre alheio e puro.
Não me olha de soslaio
e sedutoramente
a noite?...
Mantém-te forte, meu bravo coração!
Não perguntes: por quê?
2. Dia de minha vida!
o sol se põe.
A lisa maré
já está dourada.
O rochedo respira quente:
acaso a felicidade ao meio-dia
dormiu sobre ele a sua sesta? –
Em luzes verdes
o pardo abismo lança brincando felicidade
[para cima.

Dia de minha vida!
a noite se aproxima!
Já teu olhar brilha
meio apagado,
já desce de teu orvalho
o gotejar das lágrimas,
já corre quieta sobre mares brancos
a púrpura de teu amor,
tua última hesitante ventura...
3. Jovialidade dourada, vem!
tu, o mais secreto,
mais doce antegozo da morte!
– Percorri eu rápido demais meu caminho?
Apenas agora, com os pés já cansados,
teu olhar me alcança ainda,
tua felicidade me alcança ainda.

Em volta apenas ondas e jogo.
O que um dia foi pesado
afundou em azul esquecimento –
ocioso está agora meu barco,
tormenta e viagem – como esquece ele isso?
Desejo e esperança afogaram-se,
lisos estão alma e mar.

Sétima solidão!
Nunca senti
mais perto de mim a doce segurança,

mais quente o olhar do sol.
– Não arde ainda o gelo de meus cumes?
Prateada, leve, um peixe,
nada agora para fora a minha canoa...

(Id. Ibid., 116-121)

(Nietzsche, Friedrich. O Anticristo e Ditirambos de Dionísio. Tradução, Notas e Posfácio de Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, Editora Schwarcz Ltda., 2007)


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Friedrich Nietzsche

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Contrariedades - Cesário Verde

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Contrariedades

Eu hoje estou cruel, frenético, exigente;
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente.

Dói-me a cabeça. Abafo uns desesperos mudos:
Tanta depravação nos usos, nos costumes!
Amo, insensatamente, os ácidos, os gumes
E os ângulos agudos.

Sentei-me à secretária. Ali defronte mora
Uma infeliz, sem peito, os dois pulmões doentes;
Sofre de faltas de ar, morreram-lhe os parentes
E engoma para fora.

Pobre esqueleto branco entre as nevadas roupas!
Tão lívida! O doutor deixou-a. Mortifica.
Lidando sempre! E deve a conta na botica!
Mal ganha para sopas...

O obstáculo estimula, torna-nos perversos;
Agora sinto-me eu cheio de raivas frias,
Por causa dum jornal me rejeitar, há dias,
Um folhetim de versos.

Que mau humor! Rasguei uma epopéia morta
No fundo da gaveta. O que produz o estudo?
Mais duma redação, das que elogiam tudo,
Me tem fechado a porta.

A crítica segundo o método de Taine
Ignoram-na. Juntei numa fogueira imensa
Muitíssimos papéis inéditos. A imprensa
Vale um desdém solene.

Com raras exceções merece-me o epigrama.
Deu meia-noite; e em paz pela calçada abaixo,
Soluça um sol-e-dó. Chuvisca. O populacho
Diverte-se na lama.

Eu nunca dediquei poemas às fortunas,
Mas sim, por deferência, a amigos ou a artistas.
Independente! Só por isso os jornalistas
Me negam as colunas.

Receiam que o assinante ingênuo os abandone,
Se forem publicar tais coisas, tais autores.
Arte? Não lhes convêm, visto que os seus leitores
Deliram por Zaccone.

Um prosador qualquer desfruta fama honrosa,
Obtém dinheiro, arranja a sua coterie;
E a mim, não há questão que mais me contrarie
Do que escrever em prosa.

A adulação repugna aos sentimentos finos;
Eu raramente falo aos nossos literatos,
E apuro-me em lançar originais e exatos,
Os meus alexandrinos...

E a tísica? Fechada, e com o ferro aceso!
Ignora que a asfixia a combustão das brasas,
Não foge do estendal que lhe umedece as casas,
E fina-se ao desprezo!

Mantém-se a chá e pão! Antes entrar na cova.
Esvai-se; e todavia, à tarde, fracamente,
Oiço-a cantarolar uma canção plangente
Duma opereta nova!

Perfeitamente. Vou findar sem azedume.
Quem sabe se depois, eu rico e noutros climas,
Conseguirei reler essas antigas rimas,
Impressas em volume?

Nas letras eu conheço um campo de manobras;
Emprega-se a réclame, a intriga, o anúncio, a blague,
E esta poesia pede um editor que pague
Todas as minhas obras

E estou melhor; passou-me a cólera. E a vizinha?
A pobre engomadeira ir-se-á deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...
Que mundo! Coitadinha!

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'
Data: 2008/09/06 00:07
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1. Contrariedade
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Poema: Contrariedades - Cesário Verde - Poesia / Poemas no Citador

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