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domingo, 2 de agosto de 2026
quinta-feira, 4 de junho de 2026
Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"
Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.
04 jun. 2026,
00:24
* Jaime Nogueira Pinto
“On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.
O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.
Depois de
1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política
corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960,
os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e
também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos
esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso,
a prestar um grande serviço à pátria.
A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional. Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.
A guerra
civil europeia
Ao criar, em
Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de
“inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e
consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em
muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.
Foi também
para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus
“camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do
fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do
comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a
Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do
Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente
revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”.
A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava
também integrada numa cultura futurista que via a violência como força
transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano
“viver perigosamente”.
O 28 de Maio,
a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o
fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –,
eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não
era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República.
Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de
Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver
habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também
que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma
organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar,
sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da
República.
O Exército
e Salazar
O partido
único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o
Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.
A verdade é
que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava
de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e
caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista,
nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção
de um Estado paratotalitário e social.
O que há em
Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e
crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a
nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A
sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras,
Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo
social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira
República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os
princípios proclamados e a política praticada.
Foi esta
democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que
coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido
Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente
alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e
de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).
A cabala
Alguns
dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação
fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de
Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do
nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede,
santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam
empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E
que tinha o Partido que ver com isso?
Não, a
Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para
evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E
como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato
judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?
E quanta
pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos
em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões
do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na
Venezuela?
Aqui, onde
os verdadeiros fascistas acabaram na oposição
Há cem anos, a
maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com
recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo
liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características
autoritárias e nacional-conservadoras. Mas não foram “fascistas”, como
tantas vezes são qualificados.
Esta
desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos
em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo
húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o
fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a
votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a
monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.
Além de um
certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização
da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes,
azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho
fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no
anti-comunismo, não foi fascista.
Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição.
Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século
* Jaime Nogueira Pinto
Indiferentes
à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas
trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da
Revolução de Maio.
28 mai. 2026
Há cem anos,
deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais –
capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do
general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da
Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que
faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os
civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.
Braga era a
sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para
iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada
“revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de
1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa,
ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes,
ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e
alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.
A República
jacobina
Com um record
de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República
caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos
militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao
monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano
Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”.
Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que
tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens
da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para
apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do
Progresso e da Liberdade.
Afonso Costa e
os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos,
reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes
arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe,
serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o
cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.
Mas a repressão
não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento
sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro
pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa
forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à
esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se
inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.
Por isso, além
de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912,
enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de
1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o
“presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado,
confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas
superiores de luta em caso de necessidade.
A seguir ao
sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e
“avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de
António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921);
a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em
revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos
“democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado
Santos.
O Zeitgeist
europeu
Dera-se,
entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo
trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento
da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em
Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o
fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma
“direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A
maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o
nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base
militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o
general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926,
dias antes do 28 de Maio.
Em Portugal
também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e
tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe
política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris
depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de
Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária,
organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo
anti-monárquico.
A
tripartição fatal
Os anos finais
da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300
bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora
católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a
nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O
partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da
criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em
França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência
socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco
Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários
públicos, alfaiates e ferroviários”.
Mas o PCP era
então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao
internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo
soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika”
Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”,
os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no
movimento operário português em relação aos comunistas.
De qualquer
modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República
Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não
alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%.
Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não
houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os
cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da
vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro
de 1926.
O partido
(militar) do Estado Novo
É neste
acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de
tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de
1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar. E que vão purgando
os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói
do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho,
com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão
do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que,
apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo:
a crise financeira.
Como em todos
os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições
parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política.
Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o
perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos
vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de
excepção.
Aqui a
diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas”
requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a
aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do
país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder
constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado
de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos,
institui a censura prévia e mantém uma polícia política.
A esquerda
unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes
encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a
Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a
modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar
manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o
analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que
sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis,
tendem a chumbar nos actuais polígrafos.
Nos anos 50 –
não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um
“colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que
o império ultramarino era essencial para independência e para importância
política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar –
primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de
desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em
Abril de 1974.
Salazar criara
um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele,
com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que
não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia
sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado
Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem
faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.
domingo, 31 de maio de 2026
Francisca Napolitano - [Palestina livre]
sábado, 23 de maio de 2026
Brecht e A Resistível Ascensão de Arturo Ui
sábado, 9 de maio de 2026
La Stella (Canto Partigiano)
A Estrela (Canto dos Partigiani)
Se vires a estrela azul
Quer dizer que o Benito não existe mais.
Se vires brilhar a estrela negra
Quer dizer que o Benito já está na cadeia.
Se vires brilhar a estrela vermelha
Quer dizer que o Benito está na cova.
E se vires a estrela tricolor
Quer dizer que a Itália recuperou o seu vigor.
Notas sobre a tradução
"Benito": Refere-se a Benito Mussolini, o líder fascista italiano.
"Na cova" (nella fossa): Uma referência direta à morte e ao fim definitivo do regime.
Contexto Local: O mural em Orgosolo utiliza estas rimas para acompanhar a homenagem aos milhares de combatentes mortos, desaparecidos e mutilados durante a guerra contra o fascismo. (Google Gemini)
Maria Vladimirovna Zakharova - [O Dia da Vitória e as mistificações do 'ocidente']
sábado, 25 de abril de 2026
Mário Vieira de Carvalho - Obscurantismo de antanho
Em pleno cinquentenário da nossa Constituição — uma das mais humanistas e avançadas do mundo — respigo estas notas para relembrar o obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez...
* Mário Vieira de Carvalho
Há cem anos, surgia em Lisboa uma nova publicação periódica: Ordem Nova. Na folha de rosto anunciava a sua linha editorial nos seguintes termos:
"Revista antimoderna,
antiliberal, antidemocrática, antiburguesa e antibolchevista;
contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica;
intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e
quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa."
O seu diretor era Marcelo
Caetano.
Ao longo do ano publicaram-se
cerca de dez números. O guia era a “voz da Igreja”, “guarda da sabedoria
eterna” — lê-se num dos artigos. A razão era “débil e impotente no seu
mesquinho poder de adaptação compreensiva e daí a necessidade de a erguer sobre
a colunata sólida e eterna do Evangelho”. A defesa da razão, assim entendida,
opunha-se à “tara romântica”, uma “doentia manifestação de indisciplina moral”
que afetava “o homem primitivo, o selvagem, a criança e a mulher”, até o
próprio homem, “mas na sua adolescência”, isto é, em “certos estados de
infância física e moral”. Historicamente, a “tara romântica” representava “uma
inversão brutal da hierarquia”: “o regresso à barbárie, ao primitivismo, à
infância mental”, a “feminização do masculino”, o “império dos elementos
femininos sobre os elementos viris do espírito”. O “vírus romântico”, que
causava “degenerescência”, irrompera com as Luzes e, particularmente, com
Rousseau.
Noutro texto, assinado pelo
próprio diretor, este insurgia-se contra “a praga dos intelectuais”,
apelava a “varrê-los” como na Itália de Mussolini e louvava a “violência” como
“virtude”. Era o antídoto “para curar as nações fundamente atacadas do mal”.
Mal esse – dizia-se noutro número – que remontava mais longe ainda, ao século
XV, englobava a Reforma e o Renascimento, e não só “a erupção violenta do
século XVIII”. Tratava-se, enfim, de restaurar as relações feudais.
Tão abrangente era o desígnio
reacionário dos autores que nem a música escapava. O diabo fizera-se músico e
servira-se da mulher para atingir os seus fins: “O problema musical não é mais
do que um aspecto da grande insurreição feminina. [...] Modernamente o
sensualismo musical, envolvente e corruptor, domina o espírito. A razão
perdeu-se nos desvios de uma sensibilidade desvairada. [...] Separada da razão,
a música tornou-se como o ópio, a morfina e a cocaína, um perigoso dissolvente
de energia. Ergue paraizos artificiais [...] – todo um universo rubro de
pecado. [Produz uma] emoção toda carnal [...] continua a ser a voz do
tentador.”
A “ordem nova” que assim saía da
“moderna renovação escolástica” não era senão a velha ordem patriarcal: “Ordem
nas ruas! Ordem nos espíritos! Ordem em casa!”, já se proclamava no manifesto
da Cruzada Nacional Nun’Álvares Pereira (1921).
Se, por um lado, o Integralismo
Lusitano aspirava à instauração de uma teocracia medieval, hostil às artes e,
em especial, à música, hostil à igualdade entre os humanos, à não-discriminação
em função do género, da raça e da condição social, os novos “cruzados” sonhavam
igualmente com uma ditadura, mas um pouco mais atualizada.
Em 1921, António Ferro falava do “Ditador que é preciso”, comparando-o a Parsifal, o protagonista do drama musical de Wagner, então estreado no São Carlos com um êxito colossal (nove representações, mais do dobro de qualquer outra ópera da temporada!). Sidónio Pais – lê-se numa entrevista de Ferro à escritora Veva de Lima – tinha sido “o Parsifal raté da nossa decadência”. Parsifal é também comparado ao “Santo Condestável” e a D. Sebastião. E como “o sebastianismo é a religião da raça", Ferro dedica “À saudade e à esperança do Encoberto” o seu livro Viagem em torno das ditaduras (1927). Por fim, o Encoberto revela-se em Salazar, a quem uma cronista do jornal católico A Voz dedica as suas impressões do Parsifal do Festival de Bayreuth de 1937... Não é, pois, por acaso que Salazar, “Salvador da Pátria”, é representado como um cavaleiro medieval, à imagem e semelhança de Hitler.
Na antologia de discursos de
Salazar publicada na Alemanha (1938), com uma Geleitwort do dr. Goebbels
e um prefácio de Gustavo Cordeiro Ramos, Sidónio é considerado um pioneiro e
Salazar colocado ao lado de Mussolini e Hitler, com a diferença de governar a
partir do seu gabinete, enquanto estes preferiam o permanente contacto com as
multidões. É que Salazar, como reconhece António Ferro, entretanto nomeado
Secretário da Propaganda Nacional, queria encenar uma “ditadura imponderável,
ausente” (discurso intitulado A Alma do Chefe, proferido solenemente, de
casaca, em 1942).
Em pleno cinquentenário da nossa
Constituição – uma das mais humanistas e avançadas do mundo – respigo estas
notas do meu livro sobre o Teatro de São Carlos (INCM, 1993) para relembrar o
obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez.
25 de Abril de 2026
Professor catedrático jubilado de Sociologia da Música (FCSH-UNL)
O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990
sexta-feira, 24 de abril de 2026
Joyce Lussu - Scarpette Rosse
Traduzir Joyce Lussu exige manter a simplicidade quase documental que ela utiliza para descrever o horror. A força deste poema reside na ausência de adjetivos complexos; é a crueza dos fatos que emociona. Aqui está a tradução para português:
Sapatinhos Vermelhos
Joyce Lussu
Há um par de sapatinhos vermelhos
número vinte e quatro
quase novos:
na sola interna ainda se vê a marca de fábrica
«Schulze Munique».
Há um par de sapatinhos vermelhos
no topo de um monte de sapatinhos infantis
em Buchenwald
eram de um menino de três anos
de um menino de três anos
de pés descalços
que corria chorando
e parou diante da porta
para que a sua mãe o pegasse no colo
e depois entrou no fumo
e tornou-se fumo
que no vento se dispersou
agora há um par de sapatinhos vermelhos
número vinte e quatro
quase novos
porque os pezinhos das crianças mortas
não gastam as solas.
Notas sobre a tradução
"Scarpette": Optei por "sapatinhos" para manter o diminutivo carinhoso e infantil do italiano, que reforça o contraste com a brutalidade do destino da criança.
"Entrato nel fumo": A tradução mantém a imagem literal da câmara de gás e dos crematórios, onde o corpo físico se desfaz, restando apenas o objeto material (o sapato) como prova da existência.
sábado, 14 de março de 2026
Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais
* Daniel Oliveira
A Anthropic recusou permitir o uso
da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão
humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá
consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo
será tecnológico
12 março 2026
Enquanto o mundo acompanha a
guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais
profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA),
criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas
e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proibição de vigilância em massa
dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão
humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de
esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar
guerras.
A resposta da Administração foi
declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma
designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem,
como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que
nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a
Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é
a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a
guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo
Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado
pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi
com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no
Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento
que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.
Ninguém compra um tanque e aceita
que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump.
Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com
consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic,
que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são
na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A
Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar
imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a
contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada
norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra
que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir
conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos.
Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.
Roberto Schmidt/Getty Images
As leis, os regulamentos e as
salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não
controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e
ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos
construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos.
Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para
não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um
contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do
concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta
insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio
nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas
mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização
de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis
acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.
Já sabemos que chegue para
perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade
impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas
levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento social. Temo
que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade
existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o
seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não
formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e
aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as
escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas
mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A
diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um
suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido,
deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma
construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será
tecnológico. E ele aí está.
quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026
Alfredo Barroso - Crimes de guerra não foram só os da Alemanha, da Itália e do Japão
LIVROS SOBRE O
IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER
DOS ESTADOS-UNIDOS
- livros
sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria
dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os
disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...
* Alfredo Barroso
2026 02 26
HISTÓRIA E LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL
Para não ser
apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de
leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra
cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra
Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade.
Ei-las:
«DER BRAND.
DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS
BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que
assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra
Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e
localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e
crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas
incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para
sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.
Até à
publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma
narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas.
O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra
sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos
planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.
Com base em
numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas,
o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população
refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão
do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de
incomensurável riqueza.
JÖRG FRIEDERICH
(nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes
de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries
de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi
galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus
trabalhos.
«LUFTKRIEG UND
LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através
deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os
bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses
da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura
alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que
falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald
preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação
total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.
«Da destruição
como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada
por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita
por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de
várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno»
(1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).
(Edição
portuguesa da TEOREMA)
«HIROSHIMA»,
por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do
jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela
primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John
Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão
integral.
Quando a bomba
atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de
Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do
departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a
conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de
um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A
senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha.
O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem
cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra
de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor
da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de
um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.
«A bomba
atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os
sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando
tantas outras pereceram».
Ao mesmo tempo
que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o
outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal
dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades
japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade
japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido
equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e
Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as
figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego
militar da energia atómica.
(Edição
portuguesa da ANTÍGONA)
«CHAIN OF
COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE
TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande
jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe
de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade
Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib,
no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente
colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do
poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de
neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do
relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração
directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação
‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram
escapar Ossama Bin Laden…
Vale a pena
salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh
foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um
mentiroso».
Este livro
lê-se como um antídoto à desinformação.
SEYMOUR M.
HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante
quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se
sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele
que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por
tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou
muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New
Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado
com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).
«DIRTY WARS,
THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por
JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma
Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o
efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais,
lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto
por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017),
com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.
Nesta
impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill
foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command
(JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa
Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o
qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando
pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra
às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e
mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma
América deveras sanguinária.
JEREMY SCAHILL
é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana
‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado
mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo
‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill
fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as
informações reveladas por Edward Snowden.
Este seu livro
foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da
América pela “Publishers Weekly”.
Campo
d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)
quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026
Khider Mesloub - Da Ku Klux Klan ao ICE: uma continuidade histórica da violência estatal fascista
.
Por Khider Mesloub .
Assim como a Ku Klux Klan (KKK) não foi uma
aberração marginal na história dos EUA, nem um mero desdobramento da loucura
racista, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) não é uma aberração
motivada por questões de segurança, uma patologia trumpista. Ambos derivam da
mesma matriz: a violência estatal fascista — racializada — como técnica para
lidar com as contradições de classe do capitalismo americano.
Portanto, associar a Ku Klux Klan à polícia anti-imigração
contemporânea não é anacrônico nem provocativo.
Embora a Ku Klux Klan e o ICE difiram em seu status legal
(uma clandestina, ilegal e terrorista, a outra institucional, legal e também
terrorista), convergem em sua função histórica: produzir um inimigo
interno racializado para disciplinar todo o proletariado nacional .
Incluindo, e especialmente, o proletariado branco, transformado em um auxiliar
ideológico de sua própria opressão.
Como lembrete, a Ku Klux Klan
surgiu em um momento específico da história dos Estados Unidos, após a Guerra
Civil ( 1861-1865), que terminou com a abolição legal da escravatura.
A Ku Klux Klan constituiu uma das formas mais violentas e explícitas
da contrarrevolução social desencadeada após a abolição da escravatura. A KKK
surgiu como uma força armada clandestina, incumbida de restaurar, por meio do
terror, o que a lei acabara de destruir. Organização terrorista supremacista
branca, a KKK estabeleceu-se como um instrumento para a manutenção de uma ordem
social fascista, inseparável da dinâmica de poder econômico e político inerente
ao capitalismo americano, concebida para impedir qualquer reorganização do
proletariado em bases não raciais.
A Ku Klux Klan não apenas odeia; ela organiza o ódio .
O racismo que promove não é uma paixão espontânea, mas uma ideologia política
concebida para dividir a classe trabalhadora. Ao incitar trabalhadores brancos
pobres contra trabalhadores negros, a Klan desvia a raiva social de seu alvo
real (a burguesia proprietária) e a canaliza para um inimigo imaginário,
essencializado e desumanizado.
Desde a sua origem, a KKK atuou como uma força policial auxiliar informal, encarregada de fazer o que o Estado hesitava ou se recusava a assumir abertamente: aterrorizar, expulsar simbolicamente ou mesmo fisicamente uma população negra que se tornara legalmente cidadã, mas socialmente indesejável.
A Ku Klux Klan impôs sua vontade por meio de táticas de
intimidação em massa: patrulhas, vigilância, punições, linchamentos e execuções
sumárias. Controlava a circulação, intimidava pessoas negras e impunha o medo
como norma social. Em outras palavras, exercia uma função de policiamento
racial, à margem da lei, mas tolerada (ou até mesmo apoiada) pelas autoridades
locais.
Na verdade, a supremacia branca funciona como um ópio
político, uma compensação simbólica oferecida aos brancos explorados:
desprovidos de poder econômico, eles recebem uma superioridade racial fictícia,
concebida para neutralizar qualquer consciência de classe. A Ku Klux Klan é,
nesse aspecto, uma organização profundamente burguesa em sua função, mesmo
quando recruta membros da classe trabalhadora.
Ao contrário da crença popular, a Ku Klux Klan nem sempre
operou nas sombras. A partir da década de 1920, tornou-se uma força de massa,
infiltrando-se no aparato estatal e controlando governadores, juízes e membros
do parlamento. A violência racial deixou então de ser marginal; tornou-se
governamental.
Nas últimas décadas, a Ku Klux Klan pode ter perdido seus
capuzes e cruzes em chamas, mas o racismo estrutural que ajudou a estabelecer
permanece, reciclado em formas legalmente aceitáveis, controladas pela mídia e
politicamente vantajosas.
Pior ainda. Hoje, renasce sob o uniforme do ICE , a agência federal americana vinculada ao Departamento de Segurança Interna (DHS), criada em 2003 após o 11 de setembro, como parte da mudança do Estado americano para uma abordagem focada na segurança. Sob a administração Trump, o ICE passou por uma transformação repressiva mortal. Deixou de ser um simples órgão administrativo e tornou-se o braço armado de um projeto político xenófobo e antissocial, uma milícia estatal, uma força repressiva especializada que opera contra uma população designada como inerentemente suspeita. O ICE foi transformado em um instrumento espetacular de soberania punitiva. Não se trata apenas de punir, mas de tornar isso realidade. A violência se torna uma mensagem dirigida à população americana subjugada: o Estado pode destruir vocês, expulsá-los, apagá-los.
Essa espetacularização da violência aproxima o ICE das
milícias fascistas históricas, cuja função não era apenas repressiva, mas
também simbólica: produzir um clima de terror como forma de dissuasão. Sob o
governo Trump, a violência se torna uma linguagem política dirigida a toda a
população americana oprimida.
Com o ICE, a figura do inimigo não é mais simplesmente a
pessoa negra libertada, mas também o imigrante (principalmente latino)
construído como invasor, potencial criminoso, parasita econômico (sic)
Os métodos do ICE são agora conhecidos mundialmente, sendo
notícia todos os dias: batidas policiais ao amanhecer, muitas vezes sem mandado judicial claro; prisões
arbitrárias, baseadas em perfilamento racial; separação de famílias, inclusive
de crianças pequenas; centros de detenção semelhantes a prisões extrajudiciais;
assassinatos de manifestantes.
Assim como a Ku Klux Klan, o ICE não se limita a aplicar a lei: cria um clima de terror com o objetivo de disciplinar toda a população americana. O terror se torna um instrumento de governo.
A diferença essencial entre a Ku Klux Klan e o ICE,
portanto, não é moral, mas legal. A Klan agia fora da lei; o ICE age dentro da
lei. Mas essa legalização não rompe com a função histórica da violência racial:
ela a normaliza.
O imigrante não é o alvo final: ele é a figura
experimental.
Onde a Ku Klux Klan queimava cruzes para marcar uma
fronteira racial intransponível, o ICE ergue muros, campos e bancos de dados
biométricos. Em ambos os contextos, cumprem a mesma função de classe. Em ambos
os casos, a racialização serve para dividir as classes dominadas. A KKK impedia
alianças entre trabalhadores negros e brancos pobres no Sul pós-escravidão. Sob
Trump, o ICE desvia a raiva social de trabalhadores precários para imigrantes,
acusados de roubar empregos, sobrecarregar os serviços públicos e
"ameaçar a identidade nacional".
A Ku Klux Klan e o ICE não são produto de uma aberração
coletiva macabra nem da patologia individual de Trump. São produto de uma
sociedade americana repleta de antagonismos de classe permanentes e
irreconciliáveis.
A Ku Klux Klan e o ICE de Trump não são idênticos, mas estão
historicamente relacionados. Um personifica a violência racial crua de um
Estado em reconstrução após uma longa e sangrenta guerra civil. O outro, a
violência administrativa de um Estado capitalista em declínio, ameaçado por uma
guerra civil. A transição da Klan para o ICE representa menos uma ruptura do
que um refinamento dos instrumentos de dominação e repressão. Quando o terror
muda de uniforme, mas mantém seu alvo, o problema não é o excesso, mas a
própria estrutura do poder americano, que está se tornando cada vez mais
fascista.
Como o capitalismo americano está em crise sistêmica, ele
exige uma população superexplorada, marginalizada, móvel e aterrorizada. Para
alcançar esse objetivo, o Estado cria o aparato apropriado: a milícia do ICE.
Na verdade, o ICE não combate a imigração. Ele administra a
ilegalidade para manter o proletariado americano em estado de medo perpétuo. O
imigrante não é o alvo final. Ele é o sujeito experimental. O objetivo
principal do ICE não é controlar estrangeiros. Ele serve para testar,
normalizar e expandir técnicas de dominação e repressão aplicáveis a toda a
classe trabalhadora americana.
A imigração é um pretexto conveniente, um laboratório para a
repressão. A derrocada rumo ao fascismo sempre começa com a criminalização do
segmento vulnerável do proletariado: o imigrante. Nesse caso, nos Estados
Unidos, o imigrante constitui um campo de testes ideal. O que é imposto aos
imigrantes hoje — ou seja, detenção administrativa, suspensão de garantias
legais, vigilância constante e terror doméstico — poderia ser estendido amanhã
a todo o proletariado americano.
O objetivo de generalizar e normalizar a Iniciativa de
Cooperação Econômica (ICE) é incutir disciplina por meio do exemplo. A função
central da ICE não é a deportação, mas sim a demonstração. A mensagem é
simples: os direitos não são universais; são condicionais e revogáveis.
Assim, até mesmo o trabalhador americano precisa entender que seus direitos podem ser suspensos, redefinidos ou revogados. O ICE desempenha um papel estratégico: dividir a classe trabalhadora americana. Essa divisão visa impedir qualquer consciência de classe unificada. Um proletariado americano dividido é um proletariado que pode ser forçado à servidão e explorado à vontade. E, sobretudo, neste período de marcha forçada rumo a uma guerra generalizada, pode ser transformado em bucha de canhão.
A violência do ICE é deliberadamente pública, tornada
visível, filmada e transmitida.
Deliberadamente teatral, para enviar uma mensagem clara a
todo o proletariado americano, o principal alvo do terror. Assim, o verdadeiro
alvo é o proletariado americano como um todo, incitado a se acostumar com o
medo, com o terror de Estado, com o excepcionalismo, com a repressão sangrenta
e com a revogabilidade permanente de seus direitos.
O ICE não se dirige contra estrangeiros . Dirige-se
contra toda a população americana, considerada supérflua pelo capitalismo. O
imigrante é o primeiro. Ele não será o último . O ICE não defende as
fronteiras dos Estados Unidos. Defende fronteiras de classe.
O ICE não é uma exceção. É uma vanguarda repressiva.
O que hoje é reservado aos imigrantes será aplicado aos
desempregados, sindicalistas radicais, populações empobrecidas, manifestantes
políticos, dissidentes, antimilitaristas e ativistas revolucionários.
Historicamente, as milícias surgem quando o Estado precisa
recorrer à violência que não consegue justificar ideologicamente. No caso da
América capitalista, essa violência é reintegrada ao Estado. A Ku Klux Klan
realizava o trabalho sujo da perseguição racial à margem da lei. O ICE (Serviço
de Imigração e Alfândega dos EUA) faz isso dentro da lei, pago e recompensado
pelo Estado fascista. Sob o governo Trump, a milícia não usa balaclavas brancas
nem braçadeiras paramilitares: ela ostenta um distintivo federal, tem orçamento
público e age em nome da lei. É justamente isso que a torna mais
formidável: o terror tornou-se sancionado pelo Estado.
A impunidade do ICE não é um escândalo para o estado pirata americano.
Trata-se de uma necessidade operacional para o capital
americano em declínio, apesar de seu poder hegemônico. Um aparato concebido
para aterrorizar uma população não pode ser submetido a um controle genuíno. O
controle destruiria sua eficácia repressiva. O governo Trump sabe disso.
Portanto, orquestra a opacidade, a proteção institucional e a
irresponsabilidade criminosa.
Diante do Estado burguês fascista que governa pelo terror e
pelo assassinato legalizado, a alternativa para o proletariado americano se
apresenta agora de forma inequívoca: ou suportar a generalização da repressão
mortal ou iniciar uma ruptura revolucionária por meio da luta anticapitalista
radical. Não há uma terceira via.
https://temposdecolera.blogs.sapo.pt/do-ku-klux-klan-ao-ice-a-continuidade-244670














