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domingo, 2 de agosto de 2026

(45) Joyce Lussu - Scarpette Rosse

 

2026 07 25 - Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - Joyce Lussu e memória do Holocausto (pormenor)

Este mural, também situado em Orgosolo, é um poderoso tributo à memória do Holocausto e à figura de Joyce Lussu, aliando a poesia de intervenção ao pacifismo antiautoritário.

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"

Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.

04 jun. 2026, 00:24

* Jaime Nogueira Pinto

On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.

O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.

Depois de 1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960, os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso, a prestar um grande serviço à pátria.

A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional.  Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.

A guerra civil europeia

Ao criar, em Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de “inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.

Foi também para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus “camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”. A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava também integrada numa cultura futurista que via a violência como força transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano “viver perigosamente”.

O 28 de Maio, a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –, eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República. Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar, sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da República.

O Exército e Salazar

O partido único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.

A verdade é que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista, nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção de um Estado paratotalitário e social.

O que há em Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras, Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os princípios proclamados e a política praticada.

Foi esta democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).

A cabala

Alguns dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede, santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E que tinha o Partido que ver com isso?

Não, a Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?

E quanta pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na Venezuela?

Aqui, onde os verdadeiros fascistas acabaram na oposição

Há cem anos, a maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características autoritárias e nacional-conservadoras.  Mas não foram “fascistas”, como tantas vezes são qualificados.

Esta desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.

Além de um certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes, azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no anti-comunismo, não foi fascista.

Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição. 

https://observador.pt/opiniao/o-fascismo-nunca-existiu/

Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século

Jaime Nogueira Pinto

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

28 mai. 2026

Há cem anos, deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais – capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.

Braga era a sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada “revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de 1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa, ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes, ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.

A República jacobina

Com um record de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”. Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do Progresso e da Liberdade.

Afonso Costa e os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos, reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe, serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.

Mas a repressão não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.

Por isso, além de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912, enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de 1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o “presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado, confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas superiores de luta em caso de necessidade.

A seguir ao sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e “avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921); a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos “democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado Santos.

O Zeitgeist europeu

Dera-se, entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma “direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926, dias antes do 28 de Maio.

Em Portugal também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária, organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo anti-monárquico.

A tripartição fatal

Os anos finais da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300 bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários públicos, alfaiates e ferroviários”.

Mas o PCP era então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika” Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”, os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no movimento operário português em relação aos comunistas.

De qualquer modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%. Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro de 1926.

O partido (militar) do Estado Novo

É neste acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de 1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar.  E que vão purgando os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho, com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que, apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo: a crise financeira.

Como em todos os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política. Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de excepção.

Aqui a diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas” requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos, institui a censura prévia e mantém uma polícia política.

A esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis, tendem a chumbar nos actuais polígrafos.

Nos anos 50 – não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um “colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que o império ultramarino era essencial para independência e para importância política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar – primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em Abril de 1974.

Salazar criara um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele, com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.

https://observador.pt/opiniao/o-28-de-maio-de-ha-um-seculo/

domingo, 31 de maio de 2026

Francisca Napolitano - [Palestina livre]

* Francisca Napolitano 

"Não se pode continuar na indiferença. O fascismo só tem um nome ,  fascismo .O capital sionista e os oligarcas do império não podem tudo. 

Amputar um braço ou uma perna de uma criança palestina não é um "dano colateral". Massacrar pessoas inocentes em Khan Younis ou Beit Jala não é uma "resposta ao Hamas". Um jornalista ou um médico não é um "militante disfarçado". Uma ocupação-anexação — e a expulsão de centenas de milhares de habitantes de Gaza, e agora de um milhão de libaneses, de suas casas — não é a criação de uma "zona tampão , mas sim um crime de guerra punível pelo direito internacional.

No Ocidente as palavras formais de condenação dos hipócritas objectivamente coniventes equivalem a um cheque em branco emitido para a injustiça, o sofrimento, a destruição e o indizível!

O ministro fascista que, há apenas algumas semanas, invadiu a cela de Marwan Barghouti para cuspir no seu rosto — e para mandar espancá-lo e atacá-lo com cães — não é meramente um provocador... Ele é uma engrenagem central na maquinaria colonialista e genocida israelita atualmente em ação na Palestina violentamente ocupada.

Juntamente com seus patronos trumpistas em Washington, eles são os agentes brutais de um projeto para subjugar os povos da região a um capitalismo predatório e extrativista — um projeto que visa construir um "Grande Oriente Médio" o grande Israel , no qual o poder israelita serviria como guardião para os senhores da Casa Branca.

Nestas circunstâncias, a honra não reside em governos que fecham os olhos ou em ministros que chamam diplomatas para a comunicação  social noticiar

.Pelo contrário, ela  encontra se nas ações dos ativistas das "Flotilhas ",  nas manifestações e marchas organizadas por associações que apoiam a causa palestina — nas inscrições  murais, lutas respaldadas por deputados e por forças democráticas e progressistas comprometidas com a defesa da lei, da democracia ,do direito internacional. Dos direitos humanos. Do direito à vida do povo palestiniano. Da luta pelos direitos pelos salários , que se deve expressar numa grande greve geral, pois o êxito da luta dos trabalhadores portugueses é também o êxito da luta dos povos oprimidos."

31 Maio 2026

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sábado, 23 de maio de 2026

Brecht e A Resistível Ascensão de Arturo Ui



«Este mural, pintado na fachada do histórico "Bar Ziu Mesina" em Orgosolo, é uma das obras mais complexas e politicamente carregadas da vila. Ele aborda os trágicos acontecimentos do "Outono Alemão" de 1977, ligando o terrorismo de Estado, a luta armada e o perigo latente do fascismo através das palavras do dramaturgo Bertolt Brecht.

Abaixo do monumento, encontram-se os nomes dos principais membros do grupo guerrilheiro de extrema-esquerda alemão RAF (Fração do Exército Vermelho), encontrados mortos na prisão de alta segurança de Stammheim precisamente em meados de outubro de 1977: "Andreas Baader" (escrito junto à árvore seca, à esquerda) /  "Gudrun Ensslin" (no centro-esquerda) / "Ulrike Meinhof" (no centro-direita, cuja morte ocorreu antes, em 1976, mas que iniciou o ciclo de mistério)

Os versos finais da peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui (1941), de Bertolt Brecht, alertam sobre o perigo constante do fascismo, que pode ressurgir mesmo após ser derrotado . Escrita durante o exílio, a obra utiliza uma sátira sobre a máfia de Chicago para traçar um paralelo direto com a ascensão de Hitler e do nazismo, defendendo a vigilância democrática

A tradução para português dos famosos versos de Bertolt Brecht que encerram a peça A Resistível Ascensão de Arturo Ui (escrita em 1941 como uma parábola sobre a subida de Adolf Hitler ao poder) costuma ser traduzida da seguinte forma:

"E vós, aprendei a ver, em vez de olhar sem ver!
Agi, em vez de falar!
Este monstro esteve quase a governar o mundo!
Os povos conseguiram abatê-lo, mas ninguém cante vitória antes do tempo:
O ventre de onde ele nasceu ainda é fecundo."

Análise dos Termos-Chave na Tradução
"Aprendei a ver, em vez de olhar sem ver" (no original alemão: “Lernat sehn, statt glotzen” / no italiano do mural: “imparate che occorre vedere, non guardare in aria”): É um apelo à lucidez e à análise crítica. Brecht pede ao público que não seja mero espectador passivo dos acontecimentos políticos, mas que compreenda os mecanismos sociais que geram o autoritarismo.

"O ventre de onde ele nasceu ainda é fecundo": Esta é a metáfora central. O "monstro" (o fascismo/nazismo) não é um acidente histórico isolado ou a loucura de um único homem (Ui/Hitler), mas sim o produto de condições socioeconómicas específicas, de crises profundas e da cumplicidade de certas elites. Enquanto essas condições estruturais existirem na sociedade, o perigo do regresso de regimes totalitários continuará vivo.  (Google Gemini)

sábado, 9 de maio de 2026

La Stella (Canto Partigiano)


Mural em Orsolo, Sardenha, Itália comemorando a queda do regime fascista

«Este mural é uma peça de arte política em Orgosolo, na Sardenha, que utiliza rimas populares da resistência italiana para celebrar a queda do fascismo. O texto está escrito em italiano e refere-se a Benito Mussolini.

Aqui está a transcrição do que aparece em cada balão e na lateral: Balões de Texto (da esquerda para a direita) Balão Azul: "Se vedrai la stella blu vuol dire che Benito non c'è più" (Se vires a estrela azul, significa que Benito já não existe). Balão Amarelo: "Se vedrai brillar la stella nera vuol dire che Benito è già in galera" (Se vires brilhar a estrela negra, significa que Benito já está na prisão). Balão Vermelho: "Se vedrai brillar la stella rossa vuol dire che Benito è nella fossa" (Se vires brilhar a estrela vermelha, significa que Benito está na cova/túmulo).

Coluna à Direita (Estatísticas de Guerra) O texto a vermelho sobre o fundo bege lista o custo humano da resistência dos "Partigiani" (guerrilheiros antifascistas):

Partigiani Caduti (Mortos): 69.774
Partigiani Dispersi (Desaparecidos): 62.354
Partigiani Mutilati (Mutilados): 36.610

As rimas que vêm neste Mural em Orgosolo fazem parte de uma cantiga popular da resistência italiana (os Partigiani) chamada "La Stella" (A Estrela) ou, por vezes, identificada pelos seus versos iniciais.

Este texto não pertence a uma obra literária de um autor único, mas sim à tradição oral das brigadas que combatiam o fascismo, sendo frequentemente cantada com a melodia da famosa música "Sul Cappello" (uma canção tradicional dos Alpini).


La Brigata Garibaldi - Canto Partigiano

Aqui está o texto integral mais comum dessa composição popular:

La Stella (Canto Partigiano)

Se vedrai la stella blu
Vuol dire che Benito non c’è più.
Se vires a estrela azul
Significa que Benito já não existe.

Se vedrai brillar la stella nera
Vuol dire che Benito è in galera.
Se vires brilhar a estrela negra
Significa que Benito está na prisão.

Se vedrai brillar la stella rossa
Vuol dire che Benito è nella fossa.
Se vires brilhar a estrela vermelha
Significa que Benito está na cova.

E se vedi la stella tricolore
Vuol dire che l'Italia è nel vigore.
E se vistes a estrela tricolor
Significa que a Itália está em vigor (reerguida).

Contexto e Significado Cada cor no poema original tinha um significado político. A estrela vermelha era o símbolo das Brigadas Garibaldi (comunistas), enquanto a azul era muitas vezes associada às Brigadas Autonomas (monárquicos ou badogliani). O mural em Orgosolo foca-se nas três primeiras estrofes para enfatizar o destino final do ditador.

Note que, no mural, o artista representou figuras com traços que remetem aos guerrilheiros e incluiu uma coluna com estatísticas reais das baixas dos Partigiani, ligando a rima popular ao custo histórico da libertação da Itália.

A Estrela (Canto dos Partigiani)

Se vires a estrela azul 

Quer dizer que o Benito não existe mais.

Se vires brilhar a estrela negra 

Quer dizer que o Benito já está na cadeia.

Se vires brilhar a estrela vermelha 

Quer dizer que o Benito está na cova.

E se vires a estrela tricolor 

Quer dizer que a Itália recuperou o seu vigor.


Notas sobre a tradução

  • "Benito": Refere-se a Benito Mussolini, o líder fascista italiano.

  • "Na cova" (nella fossa): Uma referência direta à morte e ao fim definitivo do regime.

  • Contexto Local: O mural em Orgosolo utiliza estas rimas para acompanhar a homenagem aos milhares de combatentes mortos, desaparecidos e mutilados durante a guerra contra o fascismo. (Google Gemini)

Maria Vladimirovna Zakharova - [O Dia da Vitória e as mistificações do 'ocidente']



* Maria Vladimirovna Zakharova

O chanceler alemão, Merz, surpreendeu com o seu comentário nas redes sociais: "O dia 8 de maio de 1945 trouxe a libertação - para milhões de pessoas, para a Alemanha, para a Europa. Ele lembra-nos que nunca devemos esquecer o que o ódio pode provocar. Obriga-nos a defender uma Alemanha livre, democrática e solidária numa Europa forte". 

Ele não disse quem libertou quem. Provavelmente esqueceu-se de onde tudo começou. Mas os seus próprios cidadãos lembraram-lhe. Quando um jornalista perguntou quem libertou a Alemanha do nazismo, o vice-representante oficial do governo alemão, Steffen Maier, respondeu inicialmente que "isto está claramente documentado na história", mas ficou em silêncio quando a pergunta foi repetida. 

Mas a noite não foi tranquila e, no final do dia, o Presidente dos EUA, Donald Trump, ganhou o jackpot de interpretações do 8 de maio e da vitória europeia. Ele assinou uma proclamação por ocasião do aniversário da derrota da Alemanha de Hitler, na qual afirmou claramente, desafiando os seus vassalos, o que o 8 de maio realmente significa: "Celebramos a grande vitória da América sobre a tirania e o mal na Europa, alcançada graças à força das nossas forças armadas e dos nossos aliados". 

Uma vez que o Ocidente rejeitou a nossa proposta de uma abordagem unificada para preservar a memória histórica, para ser honesta, estou satisfeita com o progresso da sua bipolaridade - os aliados da OTAN não decepcionaram uns aos outros. De tudo o que foi mencionado acima, só se pode concluir uma coisa. Enquanto houver debates no "Ocidente colectivo" sobre quem fez mais para afirmar o seu domínio sobre o resto do mundo, a Rússia entra confiantemente no Dia da Vitória, a 9 de maio, orgulhosamente carregando a Bandeira da Vitória, hasteada pela Exército Vermelho sobre o Reichstag derrotado. 

O mundo foi salvo pela contribuição determinante do soldado soviético. Este facto não pode ser alterado. "Este fogo eterno, que nos foi legado por ele, guardamo-lo nos nossos corações". O Dia da Vitória, a 9 de maio, foi e será nosso! Junte-se a nós!!!

@MariaVladimirovnaZakharova

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sábado, 25 de abril de 2026

Mário Vieira de Carvalho - Obscurantismo de antanho


Em pleno cinquentenário da nossa Constituição — uma das mais humanistas e avançadas do mundo — respigo estas notas para relembrar o obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez...

* Mário Vieira de Carvalho


Há cem anos, surgia em Lisboa uma nova publicação periódica: Ordem Nova. Na folha de rosto anunciava a sua linha editorial nos seguintes termos:

"Revista antimoderna, antiliberal, antidemocrática, antiburguesa e antibolchevista; contra-revolucionária; reaccionária; católica, apostólica e romana; monárquica; intolerante e intransigente; insolidária com escritores, jornalistas e quaisquer profissionais das letras, das artes e da imprensa."

O seu diretor era Marcelo Caetano.

Ao longo do ano publicaram-se cerca de dez números. O guia era a “voz da Igreja”, “guarda da sabedoria eterna” — lê-se num dos artigos. A razão era “débil e impotente no seu mesquinho poder de adaptação compreensiva e daí a necessidade de a erguer sobre a colunata sólida e eterna do Evangelho”. A defesa da razão, assim entendida, opunha-se à “tara romântica”, uma “doentia manifestação de indisciplina moral” que afetava “o homem primitivo, o selvagem, a criança e a mulher”, até o próprio homem, “mas na sua adolescência”, isto é, em “certos estados de infância física e moral”. Historicamente, a “tara romântica” representava “uma inversão brutal da hierarquia”: “o regresso à barbárie, ao primitivismo, à infância mental”, a “feminização do masculino”, o “império dos elementos femininos sobre os elementos viris do espírito”. O “vírus romântico”, que causava “degenerescência”, irrompera com as Luzes e, particularmente, com Rousseau.

Noutro texto, assinado pelo próprio diretor, este insurgia-se contra “a praga dos intelectuais”, apelava a “varrê-los” como na Itália de Mussolini e louvava a “violência” como “virtude”. Era o antídoto “para curar as nações fundamente atacadas do mal”. Mal esse – dizia-se noutro número – que remontava mais longe ainda, ao século XV, englobava a Reforma e o Renascimento, e não só “a erupção violenta do século XVIII”. Tratava-se, enfim, de restaurar as relações feudais.

Tão abrangente era o desígnio reacionário dos autores que nem a música escapava. O diabo fizera-se músico e servira-se da mulher para atingir os seus fins: “O problema musical não é mais do que um aspecto da grande insurreição feminina. [...] Modernamente o sensualismo musical, envolvente e corruptor, domina o espírito. A razão perdeu-se nos desvios de uma sensibilidade desvairada. [...] Separada da razão, a música tornou-se como o ópio, a morfina e a cocaína, um perigoso dissolvente de energia. Ergue paraizos artificiais [...] – todo um universo rubro de pecado. [Produz uma] emoção toda carnal [...] continua a ser a voz do tentador.”

A “ordem nova” que assim saía da “moderna renovação escolástica” não era senão a velha ordem patriarcal: “Ordem nas ruas! Ordem nos espíritos! Ordem em casa!”, já se proclamava no manifesto da Cruzada Nacional Nun’Álvares Pereira (1921).

Se, por um lado, o Integralismo Lusitano aspirava à instauração de uma teocracia medieval, hostil às artes e, em especial, à música, hostil à igualdade entre os humanos, à não-discriminação em função do género, da raça e da condição social, os novos “cruzados” sonhavam igualmente com uma ditadura, mas um pouco mais atualizada.


Em 1921, António Ferro falava do “Ditador que é preciso”, comparando-o a Parsifal, o protagonista do drama musical de Wagner, então estreado no São Carlos com um êxito colossal (nove representações, mais do dobro de qualquer outra ópera da temporada!). Sidónio Pais – lê-se numa entrevista de Ferro à escritora Veva de Lima – tinha sido “o Parsifal raté da nossa decadência”. Parsifal é também comparado ao “Santo Condestável” e a D. Sebastião. E como “o sebastianismo é a religião da raça", Ferro dedica “À saudade e à esperança do Encoberto” o seu livro Viagem em torno das ditaduras (1927). Por fim, o Encoberto revela-se em Salazar, a quem uma cronista do jornal católico A Voz dedica as suas impressões do Parsifal do Festival de Bayreuth de 1937... Não é, pois, por acaso que Salazar, “Salvador da Pátria”, é representado como um cavaleiro medieval, à imagem e semelhança de Hitler.

Na antologia de discursos de Salazar publicada na Alemanha (1938), com uma Geleitwort do dr. Goebbels e um prefácio de Gustavo Cordeiro Ramos, Sidónio é considerado um pioneiro e Salazar colocado ao lado de Mussolini e Hitler, com a diferença de governar a partir do seu gabinete, enquanto estes preferiam o permanente contacto com as multidões. É que Salazar, como reconhece António Ferro, entretanto nomeado Secretário da Propaganda Nacional, queria encenar uma “ditadura imponderável, ausente” (discurso intitulado A Alma do Chefe, proferido solenemente, de casaca, em 1942).

Em pleno cinquentenário da nossa Constituição – uma das mais humanistas e avançadas do mundo – respigo estas notas do meu livro sobre o Teatro de São Carlos (INCM, 1993) para relembrar o obscurantismo de antanho que nos assombra outra vez.

25 de Abril de 2026

Professor catedrático jubilado de Sociologia da Música (FCSH-UNL)

O autor escreve segundo o acordo ortográfico de 1990



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Joyce Lussu - Scarpette Rosse


2026 04 21 - Mural em Orgosolo - A Joyce Lussu (2022)


Este é um dos poemas mais impactantes de Joyce Lussu, escrito após sua visita aos campos de concentração. O poema é uma poderosa denúncia do Holocausto, focando na imagem dilacerante da inocência interrompida.


Scarpette Rosse

C’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove:
sulla suola interna si vede ancora la marca di fabbrica
«Schulze Monaco».

C’è un paio di scarpette rosse
in cima a un mucchio di scarpette infantili
a Buchenwald

erano di un bambino di tre anni
di un bambino di tre anni
dai piedi scalzi
che correva piangendo
e s’è fermato fuori della porta
perché la sua mamma lo prendesse in braccio

e poi è entrato nel fumo
ed è diventato fumo
che nel vento si è disperso

ora c’è un paio di scarpette rosse
numero ventiquattro
quasi nuove
perché i piedini dei bambini morti
non consumano le suole.

Contexto e Significado
A Origem: O poema foi inspirado em um par de sapatos reais que a autora viu no museu do campo de concentração de Buchenwald. O Contraste: A força do texto reside no contraste entre a precisão técnica (o número 24, a marca "Schulze Monaco") e o destino trágico e imaterial da criança que se torna fumo. O Encerramento: Os últimos versos são considerados alguns dos mais pungentes da literatura italiana do pós-guerra, explicando o porquê de os sapatos estarem "quase novos": a morte não dá tempo ao desgaste.

A inclusão deste poema em Orgosolo reafirma o caráter da vila como um centro de memória política e antifascista. Homenagear Joyce Lussu — que foi uma ferrenha resistente durante a Segunda Guerra Mundial e uma defensora fervorosa dos direitos humanos — conecta a identidade sarda com as lutas universais contra a opressão e a favor da paz

Traduzir Joyce Lussu exige manter a simplicidade quase documental que ela utiliza para descrever o horror. A força deste poema reside na ausência de adjetivos complexos; é a crueza dos fatos que emociona. Aqui está a tradução para português:


Sapatinhos Vermelhos

Joyce Lussu

Há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos:

na sola interna ainda se vê a marca de fábrica

«Schulze Munique».


Há um par de sapatinhos vermelhos

no topo de um monte de sapatinhos infantis

em Buchenwald


eram de um menino de três anos

de um menino de três anos

de pés descalços

que corria chorando

e parou diante da porta

para que a sua mãe o pegasse no colo


e depois entrou no fumo

e tornou-se fumo

que no vento se dispersou


agora há um par de sapatinhos vermelhos

número vinte e quatro

quase novos

porque os pezinhos das crianças mortas

não gastam as solas.


Notas sobre a tradução

  • "Scarpette": Optei por "sapatinhos" para manter o diminutivo carinhoso e infantil do italiano, que reforça o contraste com a brutalidade do destino da criança.

  • "Entrato nel fumo": A tradução mantém a imagem literal da câmara de gás e dos crematórios, onde o corpo físico se desfaz, restando apenas o objeto material (o sapato) como prova da existência.

sábado, 14 de março de 2026

Daniel Oliveira - A Gestapo e a Stasi globais

*  Daniel Oliveira

A Anthropic recusou permitir o uso da sua IA para vigilância em massa e armas letais autónomas sem supervisão humana. Trump reagiu e a OpenIA aproveitou o vazio. Esta disputa terá consequências mais profundas do que a guerra do Irão. O derradeiro totalitarismo será tecnológico

12 março 2026  

Enquanto o mundo acompanha a guerra no Irão, uma disputa menos ruidosa terá consequências ainda mais profundas. A Anthropic, empresa americana de inteligência artificial (IA), criadora do modelo Claude, recusou retirar duas salvaguardas de uso nos sistemas e serviços que vende ao Pentágono há anos: a proi­bição de vigilância em massa dos cidadãos e a proibição de uso em armas letais autónomas sem supervisão humana. Donald Trump respondeu no seu estilo, falando em “fanáticos de esquerda” que tentam ditar ao “grande exército americano” como lutar e ganhar guerras.

A resposta da Administração foi declarar a Anthropic um “risco para a cadeia de abastecimento nacional”, uma designação até aqui reservada a empresas estrangeiras suspeitas de espionagem, como a chinesa Huawei. Pete Hegseth, o secretário da Guerra, anunciou que nenhum fornecedor do Governo poderá ter qualquer relação comercial com a Anthropic, ameaçando bloqueá-la nos EUA. A empresa de “fanáticos de esquerda” é a que o exército americano usou para preparar a operação na Venezuela ou a guerra com o Irão. O Claude foi, até fevereiro, o único modelo autorizado pelo Pentágono e está integrado no Maven, software operado pela Palantir e usado pelo Pentágono para identificar alvos. O “The Washington Post” indica que foi com estes sistemas que foram escolhidos e selecionados centenas de alvos no Irão. Até está a ser investigado se houve envolvimento de IA no bombardeamento que matou quase 200 crianças numa escola de Teerão.

Ninguém compra um tanque e aceita que o fabricante diga para onde pode disparar, disseram os acólitos de Trump. Mas a IA não é só uma ferramenta. É um sistema capaz de tomar decisões com consequências reais no mundo em que vivemos. As duas ressalvas da Antrophic, que confessa não conseguir prever a evolução de sistemas com modelos que já são na sua maioria desenhados e programados pela própria IA, não caíram do céu. A Administração Trump já usa modelos de IA para encontrar, detetar e expulsar imigrantes e é evidente que o mesmo Presidente que tenta há anos controlar a contagem de votos usará esse poder para saber tudo o que puder sobre cada norte-americano. Quanto à guerra, um estudo recente do King’s College demonstra que os modelos de linguagem natural mais avançados, quando colocados a gerir conflitos militares, acabam por escolher a solução nuclear em 95% dos casos. Falta-lhes, por assim dizer, o instinto animal da sobrevivência.

Roberto Schmidt/Getty Images

As leis, os regulamentos e as salvaguardas que temos não se aplicam a um mundo em que os humanos já não controlam ou percebem a lógica de decisões tomadas por Estados e exércitos e ainda menos as suas implicações. O edifício político e jurídico que fomos construindo já não responde ao mundo onde a IA dita as escolhas que fazemos. Mas a ausência de salvaguardas está a ser apresentada como o preço a pagar para não ficar para trás na corrida tecnológica. Por isso a OpenAI assinou um contrato com o Pentágono, aproveitando o vazio criado pelos pruridos éticos do concorrente. O mesmo Trump que faz ameaças comerciais à União Europeia se esta insistir em aplicar a legislação que aprovou para limitar o discurso de ódio nas redes e regular a aplicação da IA exige a subjugação total das empresas mais inovadoras dos EUA. E a Europa prepara-se para ceder. Nem a sexualização de imagens de crianças parece ser uma linha vermelha. Quando o Reino Unido quis acabar com ela, vieram falar-nos de liberdade de expressão.

Já sabemos que chegue para perceber que a IA vai transformar as nossas sociedades a uma velocidade impossível de acompanhar. Também sabemos que mudanças tecnológicas profundas levam à concentração de poder, criando um rasto de ressentimento so­cial. Temo que nem a chegada da eletricidade ou da escrita tenham tido uma profundidade existencial semelhante à desta alienação dos seres humanos do controlo sobre o seu próprio destino. Se deixarmos estas tecnologias à solta, porque “se não formos nós será outro”, entregaremos um poder nunca visto a estas empresas e aos Governos que as controlam. Toda a privacidade, toda a liberdade, todas as escolhas, a vida e a morte. Teremos uma mistura entre a Stasi e a Gestapo nas mãos de um poder global. Por isso o debate não é técnico, é político. A diferença entre um sistema que ajuda a tomar decisões (identificando um suspeito ou alvos) e um sistema que toma decisões (quem deve ser detido, deportado ou abatido) não está na tecnologia. Está no que sobra de uma construção de séculos. O derradeiro e mais esmagador totalitarismo será tecnológico. E ele aí está.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-12-a-gestapo-e-a-stasi-globais-1bcaf1a4

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Alfredo Barroso - Crimes de guerra não foram só os da Alemanha, da Itália e do Japão

 


LIVROS SOBRE O IMPERIALISMO OCIDENTAL, EUROPEU E AMERICANO, E A ARROGÂNCIA E GANÂNCIA DO PODER DOS ESTADOS-UNIDOS

- livros sugeridos por Alfredo Barroso, porque, se fossem lidos pela esmagadora maioria dos comentadores epecialistas das TV's privadas, eles perceberiam melhor os disparates que proferem ao falarem do «imperialismo Russo»...

Alfredo Barroso

2026 02 26

HISTÓRIA E LITERATURA FIDEDIGNAS SOBRE CRIMES DE GUERRA COMETIDOS PELO OCIDENTE DESDE A II GUERRA MUNDIAL

Para não ser apenas eu a fruir dos livros da minha biblioteca, aqui vão cinco sugestões de leitura sobre história e literatura fidedignas acerca dos crimes de guerra cometidos pelo Ocidente, sobretudo pelo Reino Unido, durante a II Guerra Mundial. E pelos Estados-Unidos da América desde então até à actualidade. Ei-las:

«DER BRAND. DEUTSCHLAND IM BOMBERKRIEG, 1940-1945» («EL INCÊNDIO. ALEMANIA BAJO LOS BOMBARDEOS, 1940-1945), por JÖRG FRIEDERICH (2002) – Os bombardeamentos que assolaram as cidades, vilas e aldeias alemãs durante os cinco anos da II Guerra Mundial não têm paralelo na história. Foram bombardeadas mais de mil urbes e localidades. Trinta milhões de civis – na sua maioria velhos, mulheres e crianças – foram vítimas de cerca de um milhão de toneladas de bombas incendiárias e explosivas. Morreram mais de um milhão de civis e perdeu-se para sempre grande parte do património urbanístico, modelado desde a Idade Média.

Até à publicação deste livro, em 2002, nenhum relato histórico tinha oferecido uma narrativa sobre a verdadeira dimensão dos factos e o destino real das vítimas. O historiador berlinense JÖRG FRIEDERICH veio colmatar essa falta com esta obra sobre a campanha de destruição que os britânicos e os norte-americanos planearam e executaram, de forma sistemática, contra as cidades alemãs.

Com base em numerosas fontes, o autor mostra-nos a evolução e aperfeioçoamento das bombas, o seu efeito devastador no terreno, a experiência traumática da população refuguada em “bunkers” e caves, as mortes por calor e asfixia, a brutal pressão do ar e os gases tóxicos e o desmoronar de uma herança cultural de incomensurável riqueza.

JÖRG FRIEDERICH (nascido em 1944) investigou os delitos de Estado do nazismo e os seus crimes de guerra. Colaborou na ‘Enciclopédia do Holocausto’ e produziu inúmeras séries de televisão sobre Criminologia da Guerra, tanto terrestre como aérea. Foi galardoado com diversas distinções internacionais em virtude dos seus trabalhos.

«LUFTKRIEG UND LITERATUR» («HITÓRIA NATURAL DA DESTRUIÇÃO»), por W. G. SEBALD (1999) – Através deste texto magistral, o grande escritor W.G.Sebald (1944-2001) revela como os bombardeamentos massivos do solo alemão pelas tropas aliadas, nos últimos meses da II Guerra Mundial, se tornaram um tabu no seio da sociedade e da literatura alemãs. Rejeitando o sentimento de culpabilidade dos intelectuais alemães, que falseia o seu julgamento tanto quanto a sua inspiração estética, W. G. Sebald preencheu a lacuna por uma evocação à sua maneira desses “raids de aniquilação total” que custaram a vida a cerca de um milhão de civis alemães.

«Da destruição como elemento da história natural» é uma obra incisiva e poderosa, ilustrada por fotos e documentos, que torna palpável o sofrimento do seu país, escrita por um dos mais notáveis escritores contemporâneos, W. G. Sebald, autor de várias obras marcantes como: “Os Emigrantes” (1999); «Os Anéis de Saturno» (1999); «Vertigens” (2001); e «Austerlitz» (2002).

(Edição portuguesa da TEOREMA)

«HIROSHIMA», por JOHN HERSEY (1946 e 1986) – Este é o livro mundialmente mais conhecido do jornalista e escritor norte-americano John Hersey (1914-1993). Publicado pela primeira vez em quatro capítulos pela revista ‘New Yorker’, em 1946, John Hersey acrescentou um quinto capítulo em 1986. Este livro publica a versão integral.

Quando a bomba atómica alcunhada ‘Little Boy’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Hiroshima, a 6 de Agosto de 1945, a menina TOSHIKO SASAKI, funcionária do departamento de pessoal da Fábrica de Estanho do Leste Asiático, estava a conversar com uma colega. O dr. MASAKAZU FUJII, proprietário e único médico de um hospital, acabara de instalar-se com todo o conforto no seu alpendre. A senhora HATSUIO NAKAMURA, viúva, estava à janela a observar uma cena estranha. O padre WILHELM KLEINSORGE, sacerdote alemão, lia uma revista jesuíta. O jovem cirurgião TERUFUMI SASAKI caminhava pelo corredor dum hospital com uma amostra de sangue destinada a um teste Wassermann. O reverendo KIIOSHI TANIMOTO, pastor da Igreja Metodista de Hiroshima, preparava-se para descarregar o conteúdo de um carro de mão numa casa dos subúrbios da cidade.

«A bomba atómica [de Hiroshima] matou cem mil pessoas, e estas seis contavam-se entre os sobreviventes. E ainda se interrogam como foi possível sobreviverem quando tantas outras pereceram».

Ao mesmo tempo que o holocausto produzido pelo nazismo está presente na memória social, ‘o outro holocausto’ seu contemporâneo parece ter-se diluído na existência irreal dos homens. E, no entanto, o emprego da arma atómica contra duas cidades japonesas [a bomba atómica ‘Fat Man’ foi lançada pelos EUA sobre a cidade japonesa de Nagasaki em 8 de Agosto de 1945] constitui uma denegação de sentido equivalente aos extermínio das «raças inferiores» pelos nazis. Auschwitz e Hiroshima são duas marcas do terror absolutamente contíguas, constituindo as figuras máximas da descivilização no século XX: os campos da morte e o emprego militar da energia atómica.

(Edição portuguesa da ANTÍGONA)

«CHAIN OF COMMAND» («DOMMAGES COLLATÉRAUX. LA FACE OBSCURE DE LA “GUERRE CONTRE LE TERRORISME”), por SEYMOUR HERSH (2004) – Nesta obra impressionante, o grande jornalista norte-americano Seymour Hersh deslinda para nós o complicado feixe de manipulações e de manobras que conduziram ao ataque contra o World Trade Center e ao escândalo das torturas na prisão do Exército dos EUA em Abu Ghraib, no Iraque. Alimentado por inúmeras confidências de «fontes» altamente colocadas, o relato de Seymor Hersh faz-nos mergulhar no próprio coração do poder americano. Quer se trate das manigâncias da ‘Cabala’, o pequeno grupo de neo-conservadores que ‘fabricaram’ a guerra no Iraque; quer se trate do relatório confidencial de 2002 denunciando as torturas em Guantanamo Bay, prefiguração directa do que iria acontecer em Abu Ghraib; quer se trate da operação ‘Anaconda’, durante a qual os ‘GI’, por incompetência do seu comando, deixaram escapar Ossama Bin Laden…

Vale a pena salientar que nem uma das informações reveladas neste livro por Seymor Hersh foi desmentida pela Administração, cuja única resposta foi: «Seymour Hersh é um mentiroso».

Este livro lê-se como um antídoto à desinformação.

SEYMOUR M. HERSH (nascido em 1937) é já uma lenda do jornalismo de investigação. Durante quatro décadas, foi uma ‘pedra no sapato’ de todos os Presidentes que se sucederam na Casa Branca, por causa das suas investigações exemplares. Foi ele que revelou o terrível massacre de My Lai, cometido em Novembro de 1969 por tropas dos EUA durante a Guerra do Vietnam. Jornalista independente, trabalhou muitos anos para o ‘New York Times’ e foi grande repórter da revista ‘New Yorker’. Publicou vários livros sobre as suas investigações e foi galardoado com o Prémio Pulitzer (de Jornalismo).

«DIRTY WARS, THE WORLD IS A BATTLEFIELD» («DIRTY WARS, LE NOUVEL ART DE LA GUERRE») por JEREMY SCAHILL (2013) – Um Exército secreto. Uma Missão sem fronteiras. Uma Guerra sem fim. A leitura desta obra-prima do jornalismo de investigação tem o efeito dum electrochoque. Jeremy Scahill leva-nos longe das frentes oficiais, lá onde bem poucos jornalistas conseguem chegar e onde o Estado toma o gosto por práticas inconfessáveis. E o Presidente dos EUA Barak Obama (2009-2017), com os seus ‘drones’ assassinos, foi um dos mais flagrantes exemplos.

Nesta impressionante investigação que assume a forma de um ‘thriller’, Jeremy Scahill foca o projector nas manobras clandestinas do Joint Special Operations Command (JSOC), esse corpo de exército colocado directamente sob as ordens da Casa Branca, munido de uma autorização para matar com toda a impunidade, e para o qual o mundo não passa dum campo de batalha. Do Afeganistão ao Yémen, passando pelo Paquistão, pela Somália e pelos Estados-Unidos, o jornalista dá a palavra às vítimas dessa guerra suja (‘dirty war’), às famílias destruídas, homens e mulheres que têm de escolher entre a dor resignada e a ‘djihad’ contra uma América deveras sanguinária.

JEREMY SCAHILL é jornalista de investigação e correspondente de guerra da revista americana ‘The Nation’. É também autor de “Blackwater: a ascensão do exército privado mais poderoso do mundo”. Depois de ter participado na revelação do escândalo ‘Prism’, com os jornalistas Glenn Greenwald e Laura Poitras, Jeremy Scahill fundou ‘The Intercept’, uma revista on-line que difunde nomeadamente as informações reveladas por Edward Snowden.

Este seu livro foi considerado um dos 10 melhores livros do ano de 2013 nos Estados-Unidos da América pela “Publishers Weekly”.

Campo d’Ourique, 26 de Fevereiro de 2026 (e 29 de Julho de 2022)

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Khider Mesloub - Da Ku Klux Klan ao ICE: uma continuidade histórica da violência estatal fascista

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Por Khider Mesloub .

Assim como a Ku Klux Klan (KKK) não foi uma aberração marginal na história dos EUA, nem um mero desdobramento da loucura racista, o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega) não é uma aberração motivada por questões de segurança, uma patologia trumpista. Ambos derivam da mesma matriz: a violência estatal fascista — racializada — como técnica para lidar com as contradições de classe do capitalismo americano.

Portanto, associar a Ku Klux Klan à polícia anti-imigração contemporânea não é anacrônico nem provocativo.

Embora a Ku Klux Klan e o ICE difiram em seu status legal (uma clandestina, ilegal e terrorista, a outra institucional, legal e também terrorista), convergem em sua função histórica: produzir um inimigo interno racializado para disciplinar todo o proletariado nacional . Incluindo, e especialmente, o proletariado branco, transformado em um auxiliar ideológico de sua própria opressão.

Como lembrete, a Ku Klux Klan surgiu em um momento específico da história dos Estados Unidos, após a Guerra Civil ( 1861-1865), que terminou com a abolição legal da escravatura. A Ku Klux Klan constituiu uma das formas mais violentas e explícitas da contrarrevolução social desencadeada após a abolição da escravatura. A KKK surgiu como uma força armada clandestina, incumbida de restaurar, por meio do terror, o que a lei acabara de destruir. Organização terrorista supremacista branca, a KKK estabeleceu-se como um instrumento para a manutenção de uma ordem social fascista, inseparável da dinâmica de poder econômico e político inerente ao capitalismo americano, concebida para impedir qualquer reorganização do proletariado em bases não raciais.

A Ku Klux Klan não apenas odeia; ela organiza o ódio . O racismo que promove não é uma paixão espontânea, mas uma ideologia política concebida para dividir a classe trabalhadora. Ao incitar trabalhadores brancos pobres contra trabalhadores negros, a Klan desvia a raiva social de seu alvo real (a burguesia proprietária) e a canaliza para um inimigo imaginário, essencializado e desumanizado.

Desde a sua origem, a KKK atuou como uma força policial auxiliar informal, encarregada de fazer o que o Estado hesitava ou se recusava a assumir abertamente: aterrorizar, expulsar simbolicamente ou mesmo fisicamente uma população negra que se tornara legalmente cidadã, mas socialmente indesejável.

A Ku Klux Klan impôs sua vontade por meio de táticas de intimidação em massa: patrulhas, vigilância, punições, linchamentos e execuções sumárias. Controlava a circulação, intimidava pessoas negras e impunha o medo como norma social. Em outras palavras, exercia uma função de policiamento racial, à margem da lei, mas tolerada (ou até mesmo apoiada) pelas autoridades locais.

Na verdade, a supremacia branca funciona como um ópio político, uma compensação simbólica oferecida aos brancos explorados: desprovidos de poder econômico, eles recebem uma superioridade racial fictícia, concebida para neutralizar qualquer consciência de classe. A Ku Klux Klan é, nesse aspecto, uma organização profundamente burguesa em sua função, mesmo quando recruta membros da classe trabalhadora.

Ao contrário da crença popular, a Ku Klux Klan nem sempre operou nas sombras. A partir da década de 1920, tornou-se uma força de massa, infiltrando-se no aparato estatal e controlando governadores, juízes e membros do parlamento. A violência racial deixou então de ser marginal; tornou-se governamental.

Nas últimas décadas, a Ku Klux Klan pode ter perdido seus capuzes e cruzes em chamas, mas o racismo estrutural que ajudou a estabelecer permanece, reciclado em formas legalmente aceitáveis, controladas pela mídia e politicamente vantajosas.


Pior ainda. Hoje, renasce sob o uniforme do ICE , a agência federal americana vinculada ao Departamento de Segurança Interna (DHS), criada em 2003 após o 11 de setembro, como parte da mudança do Estado americano para uma abordagem focada na segurança. Sob a administração Trump, o ICE passou por uma transformação repressiva mortal. Deixou de ser um simples órgão administrativo e tornou-se o braço armado de um projeto político xenófobo e antissocial, uma milícia estatal, uma força repressiva especializada que opera contra uma população designada como inerentemente suspeita. O ICE foi transformado em um instrumento espetacular de soberania punitiva. Não se trata apenas de punir, mas de tornar isso realidade. A violência se torna uma mensagem dirigida à população americana subjugada: o Estado pode destruir vocês, expulsá-los, apagá-los.

Essa espetacularização da violência aproxima o ICE das milícias fascistas históricas, cuja função não era apenas repressiva, mas também simbólica: produzir um clima de terror como forma de dissuasão. Sob o governo Trump, a violência se torna uma linguagem política dirigida a toda a população americana oprimida.

Com o ICE, a figura do inimigo não é mais simplesmente a pessoa negra libertada, mas também o imigrante (principalmente latino) construído como invasor, potencial criminoso, parasita econômico (sic)

Os métodos do ICE são agora conhecidos mundialmente, sendo notícia todos os dias: batidas policiais ao amanhecer, muitas vezes sem mandado judicial claro; prisões arbitrárias, baseadas em perfilamento racial; separação de famílias, inclusive de crianças pequenas; centros de detenção semelhantes a prisões extrajudiciais; assassinatos de manifestantes.

Assim como a Ku Klux Klan, o ICE não se limita a aplicar a lei: cria um clima de terror com o objetivo de disciplinar toda a população americana. O terror se torna um instrumento de governo.

A diferença essencial entre a Ku Klux Klan e o ICE, portanto, não é moral, mas legal. A Klan agia fora da lei; o ICE age dentro da lei. Mas essa legalização não rompe com a função histórica da violência racial: ela a normaliza.

O imigrante não é o alvo final: ele é a figura experimental.

Onde a Ku Klux Klan queimava cruzes para marcar uma fronteira racial intransponível, o ICE ergue muros, campos e bancos de dados biométricos. Em ambos os contextos, cumprem a mesma função de classe. Em ambos os casos, a racialização serve para dividir as classes dominadas. A KKK impedia alianças entre trabalhadores negros e brancos pobres no Sul pós-escravidão. Sob Trump, o ICE desvia a raiva social de trabalhadores precários para imigrantes, acusados ​​de roubar empregos, sobrecarregar os serviços públicos e "ameaçar a identidade nacional".

A Ku Klux Klan e o ICE não são produto de uma aberração coletiva macabra nem da patologia individual de Trump. São produto de uma sociedade americana repleta de antagonismos de classe permanentes e irreconciliáveis.

A Ku Klux Klan e o ICE de Trump não são idênticos, mas estão historicamente relacionados. Um personifica a violência racial crua de um Estado em reconstrução após uma longa e sangrenta guerra civil. O outro, a violência administrativa de um Estado capitalista em declínio, ameaçado por uma guerra civil. A transição da Klan para o ICE representa menos uma ruptura do que um refinamento dos instrumentos de dominação e repressão. Quando o terror muda de uniforme, mas mantém seu alvo, o problema não é o excesso, mas a própria estrutura do poder americano, que está se tornando cada vez mais fascista.

Como o capitalismo americano está em crise sistêmica, ele exige uma população superexplorada, marginalizada, móvel e aterrorizada. Para alcançar esse objetivo, o Estado cria o aparato apropriado: a milícia do ICE.

Na verdade, o ICE não combate a imigração. Ele administra a ilegalidade para manter o proletariado americano em estado de medo perpétuo. O imigrante não é o alvo final. Ele é o sujeito experimental. O objetivo principal do ICE não é controlar estrangeiros. Ele serve para testar, normalizar e expandir técnicas de dominação e repressão aplicáveis ​​a toda a classe trabalhadora americana.

A imigração é um pretexto conveniente, um laboratório para a repressão. A derrocada rumo ao fascismo sempre começa com a criminalização do segmento vulnerável do proletariado: o imigrante. Nesse caso, nos Estados Unidos, o imigrante constitui um campo de testes ideal. O que é imposto aos imigrantes hoje — ou seja, detenção administrativa, suspensão de garantias legais, vigilância constante e terror doméstico — poderia ser estendido amanhã a todo o proletariado americano.

O objetivo de generalizar e normalizar a Iniciativa de Cooperação Econômica (ICE) é incutir disciplina por meio do exemplo. A função central da ICE não é a deportação, mas sim a demonstração. A mensagem é simples: os direitos não são universais; são condicionais e revogáveis.

Assim, até mesmo o trabalhador americano precisa entender que seus direitos podem ser suspensos, redefinidos ou revogados. O ICE desempenha um papel estratégico: dividir a classe trabalhadora americana. Essa divisão visa impedir qualquer consciência de classe unificada. Um proletariado americano dividido é um proletariado que pode ser forçado à servidão e explorado à vontade. E, sobretudo, neste período de marcha forçada rumo a uma guerra generalizada, pode ser transformado em bucha de canhão. 


A violência do ICE é deliberadamente pública, tornada visível, filmada e transmitida.

Deliberadamente teatral, para enviar uma mensagem clara a todo o proletariado americano, o principal alvo do terror. Assim, o verdadeiro alvo é o proletariado americano como um todo, incitado a se acostumar com o medo, com o terror de Estado, com o excepcionalismo, com a repressão sangrenta e com a revogabilidade permanente de seus direitos.

O ICE não se dirige contra estrangeiros . Dirige-se contra toda a população americana, considerada supérflua pelo capitalismo. O imigrante é o primeiro. Ele não será o último . O ICE não defende as fronteiras dos Estados Unidos. Defende fronteiras de classe.

O ICE não é uma exceção. É uma vanguarda repressiva.

O que hoje é reservado aos imigrantes será aplicado aos desempregados, sindicalistas radicais, populações empobrecidas, manifestantes políticos, dissidentes, antimilitaristas e ativistas revolucionários.

Historicamente, as milícias surgem quando o Estado precisa recorrer à violência que não consegue justificar ideologicamente. No caso da América capitalista, essa violência é reintegrada ao Estado. A Ku Klux Klan realizava o trabalho sujo da perseguição racial à margem da lei. O ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA) faz isso dentro da lei, pago e recompensado pelo Estado fascista. Sob o governo Trump, a milícia não usa balaclavas brancas nem braçadeiras paramilitares: ela ostenta um distintivo federal, tem orçamento público e age em nome da lei. É justamente isso que a torna mais formidável: o terror tornou-se sancionado pelo Estado.

A impunidade do ICE não é um escândalo para o estado pirata americano.

Trata-se de uma necessidade operacional para o capital americano em declínio, apesar de seu poder hegemônico. Um aparato concebido para aterrorizar uma população não pode ser submetido a um controle genuíno. O controle destruiria sua eficácia repressiva. O governo Trump sabe disso. Portanto, orquestra a opacidade, a proteção institucional e a irresponsabilidade criminosa.

Diante do Estado burguês fascista que governa pelo terror e pelo assassinato legalizado, a alternativa para o proletariado americano se apresenta agora de forma inequívoca: ou suportar a generalização da repressão mortal ou iniciar uma ruptura revolucionária por meio da luta anticapitalista radical. Não há uma terceira via.


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