* Daniel Oliveira
Desvinculações
do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre
vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os
tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu
lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas
não é um voto de exigência, é um voto de desistência
Em várias
autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma
ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega
ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto
seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja
difícil falar de estratégia.
Em apenas cinco
meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido
e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões
Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o
executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício
Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o
mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com
pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra,
Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas
numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela,
Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de
posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos
e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O
mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel
Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato,
o que é um pouco diferente.
Em poucos
meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e
ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de
câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.
Em São
Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos
conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros
vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos
do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores
do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o
orçamento é bom. Permitam-me duvidar.
Em Lisboa,
o vereador que não abandonou o partido queimou-se com
a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos
Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por
burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado
próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui
Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora.
Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma
irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.
Onde não há
debandada há balbúrdia.
Tudo contrasta
com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os
arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que
já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não
passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros
partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo
de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos
justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.
Nada
disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato
anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na
Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais
mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça,
há dirigentes e deputados do partido da “lei e da
ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de
álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de
pedofilia.
Não
é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça
estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para
fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto.
Alguns estarão de tal forma fanatizados que
ou justificarão o injustificável ou
encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada
vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho
de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.
Mas a maioria
apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos
desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto
de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema,
aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos
iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles
em quem votam.
2026 03 26
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