* Jaime Nogueira Pinto
Nestes dias
em que tanto se fala do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses
obscuros princípios do século XVI em que Portugal se iniciava na conquista e na
opressão além-fronteiras.
21 mar. 2026
Os portugueses
de hoje, criados nas alegrias da democracia e do progresso que lhes trouxe
Abril, são capazes de ter alguma dificuldade em conceber esse outro país que
Portugal já foi. Mais, confrontados com a liberalidade e a democraticidade dos
políticos, pode até parecer-lhes impensável, quando não impossível, a
resistência a Castela no século XIV e a conquista do império do Oriente no
século XVI, protagonizadas por homens tão iliberais e tão pouco inclusivos como
Nun’Álvares ou Afonso de Albuquerque.
Por isso,
nestes dias em que, a propósito da nova guerra do Irão, tanto se fala de Ormuz
e do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios
do século XVI em que um Portugal oprimido pelo autoritarismo monárquico e
católico, talvez para desviar as atenções de problemas internos (ou para os
resolver), se iniciava na opressão além-fronteiras a que alguns saudosistas
ousam chamar epopeia de navegação e conquista.
As chaves
dos mares
D. Manuel I, o
venturoso e feliz herdeiro do Príncipe Perfeito, coordenou uma política de
expansão no Índico que tinha como linha de rumo a conquista das chaves daquele
Oceano, por onde passava o precioso e estratégico tráfico das especiarias. E
essas chaves eram Ormuz, Ádem, Goa e Malaca.
Em Abril de
1506, saiu de Lisboa para a Índia uma armada de dezasseis navios, onze sob o
comando de Tristão da Cunha (que capitaneava toda a expedição) e cinco sob o
comando de Afonso de Albuquerque. Albuquerque já passava dos cinquenta anos.
Nascera em 1453, fora próximo de D. João II e combatera no Norte de África. Ao
que parece, D. Manuel não o estimava muito e Albuquerque e Tristão da Cunha não
primavam pelo entendimento. Mas a longa viagem foi correndo: passaram o Cabo da
Boa Esperança e seguiram com combates, ataques e saques de cidades da costa
oriental africana; depois, já no Índico, a sul da península arábica, tomaram a
ilha de Socotra ou Socotorá.
A partir daí,
Tristão da Cunha rumou para a Índia e Albuquerque, com seis navios e
quatrocentos e cinquenta homens, decidiu conquistar Ormuz. A cidade de Ormuz
dominava as ilhas do Golfo Pérsico e a costa de Omã. Albuquerque deixou Socotra
a 10 de Agosto e, levando a bordo pilotos árabes, conhecedores dos mares e
terras da região, foi tomando posições – Calayate, Curiate, Mascate – e avançou
para Ormuz. Pelo meio, teve conselhos de guerra difíceis com os seus capitães,
que exprimiam dúvidas e receios perante a sua audácia e preferiam esperar e
pilhar os barcos dos peregrinos de Meca. A cena repetiu-se em Ormuz, quando
Albuquerque exigiu ao regente, Khodja-Atar, que prestasse vassalagem ao rei de
Portugal.
Começaram as
negociações, mas o capitão português, entendendo que os de Ormuz esperavam
reforços da costa e procuravam ganhar tempo, ordenou aos comandantes da frota
portuguesa que abrissem fogo sobre os navios inimigos parados no porto. Ao
mesmo tempo, ordenou o desembarque, enquanto, das naus portuguesas, a
artilharia flagelava a cidade e os barcos adversários. Khodja-Atar não tardou
em pedir uma trégua para negociar.
Nas
negociações, pelo lado dos locais, falou o primeiro-ministro Seif-ed-Din, que
aceitou, a troco da paz, pagar ao rei de Portugal, anualmente, “quinze mil
xerafins de ouro”. Além disso, devia desembolsar imediatamente uma quantia de
cinco mil xerafins para as despesas da esquadra portuguesa e, mais importante,
permitir que os portugueses edificassem na ilha uma fortaleza. Prontamente,
contra as objecções dos seus capitães e dos chefes muçulmanos, Albuquerque
iniciou a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, que
levaria trinta anos a ser concluída (ficaríamos em Ormuz até a perdemos para os
ingleses, em 1622).
Albuquerque
abandonou então Ormuz, onde só voltaria em 1515, no seu último ano de vida.
Seria, entretanto, nomeado governador da Índia por D. Manuel I em 1509; em 1510
conquistaria Goa e, em 1511, Malaca.
Com estas três
praças, assegurara posições terrestres a partir das quais os portugueses
dominariam o comércio do Índico até ao fim do século XVI.
Para fechar o
controlo português, apenas lhe faltava Adem, uma cidade-Estado à entrada do Mar
Vermelho, que, uma vez conquistada, acabaria com o comércio dos mamelucos com
Veneza.
A frota
portuguesa partiu de Goa em 18 de Fevereiro de 1513. Eram vinte navios, com
1700 marinheiros e soldados portugueses e 800 aliados malabares. Fizeram uma
paragem em Socotra e, a 26 de Março, Domingo de Páscoa, atacaram Adem. Mas na
escalada das muralhas, as escadas partiram-se sob o peso dos atacantes e o
ataque foi repelido; um segundo ataque também falhou, e assim se gorou o
ambicioso plano do “Leão dos Mares” de fechar, para a Coroa portuguesa, as
portas e chaves do Índico.
Rezam as
crónicas que as escadas cederam à precipitação dos oficiais e soldados
portugueses, todos querendo ser os primeiros no perigo e na glória.
Ocupando Goa e
Diu, os portugueses dominavam parte importante da Índia; com Malaca, vigiavam a
passagem do Índico para o Pacífico; controlando Ormuz, dominavam a circulação
no Golfo Pérsico; com Adem, ficariam também senhores da entrada e circulação do
Mar Vermelho e do caminho de Meca.
A narrativa
destes sucessos ficou nas Décadas da Ásia, de João de Barros, e nos
Comentários, de Braz de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque.
Camões, o
profeta
Além do
comércio da pimenta e do controle dos recursos, D. Manuel e Albuquerque
pensavam em termos de nova cruzada, de “mudança de regime”, dir-se-ia hoje.
Roger Crowley voltou a lembrar-nos isso, recordando a importância das
referências ao rei cristão perdido no Nordeste de África, o Preste João.
Camões, na
estrofe 40 do Canto X de Os Lusíadas, celebra os feitos do governador, pela voz
da ninfa Thétis:
«Esta luz é do
fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes
Que refusam o jugo honroso e brando
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a fé da Madre Igreja.»
Nas estrofes
seguintes, continuam os louvores a Albuquerque, mas, a partir da estrofe 45,
Camões censura o grande capitão pela severidade com que pune com a morte um dos
seus subordinados por um delito sexual menor. E segue com a narrativa de outros
governadores e capitães da Índia.
A ninfa leva
então o Gama ao cume de um monte na Ilha dos Amores e mostra-lhe a “máquina do
mundo”, a terra com os seus reinos, os seus mares, os seus povos, correndo e
percorrendo todos os continentes. No final, o poeta dirige-se a D. Sebastião,
incitando-o a seguir o exemplo dos heróis portugueses, praticando grandes
feitos:
«De sorte em
que Alexandre em vós se veja
Sem à dita de Aquiles ter inveja!»
Alexandre
conquistou o mundo, mas morreu novo, aos 33 anos. Aquiles também fez grandes
coisas, mas teve azar com a flecha de Páris, o filho de Príamo, causador da
desgraça de Troia, pelo rapto da bela Helena.
O poeta aqui
foi também profeta: D. Sebastião ia perder-se no nevoeiro aos 24 anos.
…E Portugal,
teria de esperar que raiasse Abril para ver raiar a Democracia e poder, enfim,
realizar grandes feitos.
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