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domingo, 2 de agosto de 2026

(45) Joyce Lussu - Scarpette Rosse

 

2026 07 25 - Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - Joyce Lussu e memória do Holocausto (pormenor)

Este mural, também situado em Orgosolo, é um poderoso tributo à memória do Holocausto e à figura de Joyce Lussu, aliando a poesia de intervenção ao pacifismo antiautoritário.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

(34) - Giovan Matteo Garipa; língua e cultura sardas

 

Este mural em Orgosolo é uma exaltação da língua, cultura e história literária sarda, prestando homenagem a uma das figuras intelectuais mais importantes da história da vila: o padre e escritor Giovan Matteo Garipa (século XVII).

O texto nas paredes é uma citação direta retirada do prólogo da obra Su Legendariu de Santas Virgines et Martires de Jesu Cristu (1627), escrita por Giovan Matteo Garipa e considerada um marco da literatura em prosa sarda:

terça-feira, 21 de julho de 2026

(33) - Neo-realismo e pacifismo em Orgosolo: Vittorio de Seta e Charlot

 

Estes dois murais em Orgosolo (Sardenha) capturam duas vertentes fundamentais da identidade e do muralismo da vila: a valorização da memória cultural e a mensagem pacifista/antimilitarista.

1. O Mural do Cartaz de Cinema: "Banditi a Orgosolo" (À esquerda)

O que está escrito?

  • Topo: "CINEMA FONTANA"

  • Cartaz: "BANDITI A ORGOSOLO"

  • Preço: "INGRESSO L. 150"

  • Rodapé: "FILM DIRETTO DA VITTORIO DE SETA INTERPRETATO DAI PASTORI DI ORGOSOLO"

O que representa?

  • O Resgate da Identidade Local: Recreia o cartaz do icónico filme neorrealista de 1961 (Bandidos em Orgosolo), realizado por Vittorio De Seta.

  • Vittorio De Seta (1923–2011): É o autor e realizador do filme Banditi a Orgosolo (1961). Ele era famoso pelos seus documentários e filmes que retratavam com enorme realismo a vida dos camponeses, pescadores e pastores do sul da Itália e da Sardenha, usando frequentemente as próprias pessoas locais como atores.

  • A Dignificação dos Pastores: O filme usou os próprios habitantes e pastores da vila como atores (retratados no mural), abordando a dura realidade da região da Barbagia sem cair nos estereótipos pejorativos que o Estado costumava atribuir à população sarda.O filme é um clássico do cinema italiano porque não utilizou atores profissionais; foi protagonizado pelos próprios pastores de Orgosolo (como Michele Cossu e Peppeddu Cuccu, cujos rostos surgem pintados no mural) para contar a história realista de um pastor acusado injustamente que se vê forçado a fugir para as montanhas.

  • Em vez do estereótipo pejorativo de "povo criminoso" que o Estado italiano frequentemente atribuía à região da Barbagia, o filme (e este mural que o celebra) retrata a dura realidade socioeconómica, a solidão do pastor e as injustiças do sistema judicial, tornando-se um motivo de enorme orgulho comunitário.

2. O Mural do Soldado Charlot: "Un'altra guerra? No grazie." (À direita)

O que está escrito?

No balão de fala da personagem:

"un'altra guerra? no grazie." ("Uma outra guerra? Não, obrigado.")

O que representa?

  • A imagem de Charlot de capacete de aço, farda militar e espingarda às costas  foi inspirada no icónico filme mudo de 1918 "Charlot nas Trincheiras" (Shoulder Arms), rodado durante a Primeira Guerra Mundial.

    Nessa obra-prima da comédia pacifista, Chaplin retrata a vida difícil e absurda do seu lendário Vagabundo recrutado para as trincheiras da Frente Ocidental em França.

    Ao transpor essa figura para as paredes de Orgosolo, o pintor Francesco Del Casino usou essa exata imagem de Charlot vestindo a farda militar para criar a poderosa mensagem antagónica de paz: "Un'altra guerra? No grazie." ("Outra guerra? Não, obrigado.").

  • A Rejeição Absoluta do Militarismo: Com uma expressão melancólica e o olhar direto para o transeunte, a personagem recusa categoricamente novos conflitos. O mural sintetiza o forte sentimento antimilitarista de Orgosolo, marcado pela resistência histórica à ocupação de terras para bases e exercícios militares na Sardenha.

domingo, 28 de junho de 2026

(30) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)

* Google Gemini

 Este mural em Orgosolo (visível na imagem image_ec8a08.jpg) traz de volta a famosa citação de Don Lorenzo Milani retirada da sua "Carta aos Juízes" de 1965. Curiosamente, esta é a mesma passagem que transcrevemos anteriormente, mas desta vez pintada num formato puramente textual e abstrato.

O que está escrito?

O texto foi pintado em letras maiúsculas pretas e rústicas, ocupando grande parte de um painel branco:

"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il direito di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri. (DON MILANI)"

Tradução:

"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. (DON MILANI)"

(Nota: O pintor cometeu um pequeno erro ortográfico de grafia na palavra "direito", escrevendo-a em português/espanhol com "g" em vez do italiano "diritto", além de trocar a palavra original "diseredati" por "disperati", o que é muito comum em reproduções populares de cariz oral ou de memória).

O que representa este mural?

Esta obra representa o antifascismo, o internacionalismo e a primazia da justiça social sobre as fronteiras geográficas ou o nacionalismo estatal.

1. Elementos Visuais e Simbologia

  • Estilo Gráfico Abstrato: Ao contrário de outros murais figurativos de Orgosolo que mostram pastores ou cenas históricas, este foca-se na força crua da palavra escrita. O texto assenta sobre manchas de cores primárias vivas — vermelho, amarelo e azul — dispostas de forma fluida no fundo. Estas formas orgânicas e dinâmicas servem para dar destaque e urgência à leitura da mensagem.

  • A Sombra Projetada: A própria arquitetura do edifício cria uma sombra triangular cortante sobre a pintura, conferindo ao mural uma forte integração com a envolvência urbana da vila.

2. O Significado Político e Humanitário

Ao estampar esta frase de Don Milani no centro da Sardenha, os muralistas recusam a lógica de exclusão baseada na terra de nascimento. A obra afirma que a verdadeira divisão da humanidade não se faz por passaportes ou bandeiras (italianos vs. estrangeiros), mas sim por uma linha de classe e de justiça: os que sofrem (os oprimidos) contra os que abusam do poder (os opressores).

Para a comunidade de Orgosolo, historicamente marginalizada pelo Estado centralizado, esta frase serve como um lema de solidariedade universal com todos os povos que sofrem pressões semelhantes em qualquer canto do planeta.

VER   (28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)

quarta-feira, 17 de junho de 2026

(29) Quando i primi missionari arrivarono in Africa ...

 

2026 06 17 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - Contra o colonialismo

Este mural em Orgosolo   aborda uma perspetiva crítica sobre o colonialismo e a perda de soberania dos povos indígenas, utilizando uma citação histórica célebre.

O que está escrito?

O texto central está escrito em italiano com uma caligrafia cursiva avermelhada na parede de tom ocre:

"Quando i primi missionari arrivarono in Africa, noi avevamo la terra e loro la Bibbia. Allora chiudemmo gli occhi e pregammo. Quando li riaprimmo noi avevamo in mano la Bibbia e loro avevano la terra. (DESMOND TUTU Vescovo anglicano del Sud Africa)"

Tradução:

"Quando os primeiros missionários chegaram a África, nós tínhamos a terra e eles tinham a Bíblia. Então fechámos os olhos e rezámos. Quando os reabrimos, nós tínhamos a Bíblia na mão e eles tinham a terra. (DESMOND TUTU, Bispo anglicano da África do Sul)"

(Nota: Embora a frase seja frequentemente atribuída ao Arcebispo Desmond Tutu ou a Jomo Kenyatta, o primeiro presidente do Quénia, ela resume uma crítica partilhada sobre os métodos de subjugação colonial).

Esta frase em específico tem um percurso muito curioso: ela não pertence a um livro ou a um manifesto longo e estruturado, mas nasceu originalmente como uma parábola ou provérbio oral popular partilhado entre as comunidades africanas durante a descolonização.

Por se tratar de uma expressão da tradição oral, não existe um "texto integral" ou um documento de arquivo de onde tenha sido extraída. No entanto, ela foi popularizada mundialmente de duas formas principais:

1. A versão e o ensaio de Desmond Tutu

Embora o mural atribua a frase a Desmond Tutu, o próprio Arcebispo sul-africano explicou num ensaio biográfico posterior que esta já era uma "velha rábula" (an old saying) que os negros sul-africanos contavam quando debatiam a perda das suas terras sob o regime do Apartheid.

Tutu utilizava-a frequentemente nos seus discursos para quebrar o gelo, acrescentando-lhe um desfecho irónico e teológico:

"A storiella racconta un cattivo affare? Uno perde la propria terra in cambio di che cosa? Della Bibbia. [...] Ma io voglio affermare nella maniera più netta che non abbiamo fatto un cattivo affare: la Bibbia è un libro sovversivo. I colonizzatori ci hanno dato il libro che conteneva i semi della nostra stessa liberazione."

Tradução: "Será que a história conta um mau negócio? Perder a terra em troca de quê? Da Bíblia. [...] Mas eu quero afirmar da maneira mais clara que não fizemos um mau negócio: a Bíblia é um livro subversivo. Os colonizadores deram-nos o livro que continha as sementes da nossa própria libertação."

2. A atribuição a Jomo Kenyatta

Muitos historiadores associam originalmente a autoria desta metáfora a Jomo Kenyatta (o líder da independência do Quénia e seu primeiro presidente), que a utilizava nos seus comícios políticos na década de 1950 para ilustrar o processo de expropriação forçada sofrido pela etnia Kikuyu face aos colonos britânicos. Na sua versão, o foco era puramente a perda dos recursos:

"When the Missionaries arrived, the Africans had the land and the Missionaries had the Bible. They taught us how to pray with our eyes closed. When we opened them, they had the land and we had the Bible."

Resumo: O texto que vê no mural é, na verdade, o texto completo em si. Ele condensa em poucas linhas um aforismo anticolonial que se tornou universal e que os muralistas de Orgosolo adotaram para espelhar a sua própria desconfiança histórica em relação às forças externas que tentavam ocupar as terras da Sardenha.

O texto não faz parte de um discurso oficial longo ou de uma obra literária estruturada. É exatamente isso: a frase funciona por si só como um aforismo ou uma parábola de tradição oral.

A força dessa mensagem reside precisamente na sua capacidade de condensar uma realidade histórica complexa — o processo de colonização e a perda de soberania de um povo — numa metáfora curta, direta e de fácil memorização. Foi por ser uma tirada tão marcante e curta que se espalhou pelo mundo, sendo adotada por diferentes líderes políticos e, eventualmente, pintada nas paredes de Orgosolo como um lema universal de resistência (Google Gemini)

terça-feira, 16 de junho de 2026

(28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)

 


2026 06 16 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - luta de classes e Don Lorenzo Milani

Este mural em Orgosolo foca-se numa profunda reflexão social, ética e humanitária, recorrendo a uma das citações mais célebres da história do ativismo e da pedagogia social italiana.

O que está escrito?

O texto está escrito em italiano com letras maiúsculas pretas e desalinhadas sobre um fundo branco rodeado por formas abstratas coloridas (amarelo, vermelho e azul). A inscrição diz o seguinte:

"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il diritto di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri (DON MILANI)"

Tradução:

"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros (DOM MILANI)."

O excerto pintado no mural faz parte da célebre "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici), escrita por Don Lorenzo Milani a 18 de outubro de 1965.

Dom Milani escreveu este texto como memória de defesa para o tribunal de Roma, uma vez que se encontrava gravemente doente com cancro e não podia deslocar-se pessoalmente ao seu julgamento. Ele tinha sido processado por "instigação à delinquência" após ter defendido publicamente o direito à objeção de consciência dos jovens que recusavam o serviço militar obrigatório.

Abaixo encontra-se a transcrição integral do parágrafo exato de onde o excerto foi retirado, tanto no original em italiano como traduzido para português:

Texto Original (Em Italiano)

"Non posso dire ai miei giovani che l'unico modo d'amare la legge sia d'obbedirla. Posso solo dir loro che essi dovranno tenere in tale onore le leggi degli uomini da osservarle quando sono giuste (cioè quando sono la forza del debole). Quando invece vedranno che non sono giuste (cioè quando sanzionano il sopruso del forte) essi dovranno battersi perché siano cambiate.

Ma l'obbedienza civile a una legge ingiusta, cioè alla legge che non sia ancora riusciti a cambiare, non è che una forma di pigrizia e di viltà. Bisogna che la cambino accettando la pena che la stessa legge prevede per chi la viola (questa è obbedienza alla legge, ma disobbedienza alla forza).

È questo il profondo significato della nonviolenza dei grandi santi e dei grandi laici della nostra epoca.

Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri allora vi dirò che, nel vostro senso, io non ho patria e reclamo il diritto di dividere il mondo in diseredati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni son la mia patria, gli altri i miei stranieri. E se voi avete il diritto di insegnare che gli italiani e i loro alleati compiono sempre atti giusti e che gli altri sono sempre nel torto, allora io reclamo il diritto di dire che anche gli italiani hanno compiuto atti ingiusti e che anche gli altri hanno compiuto atti giusti."

Tradução em Português

"Não posso dizer aos meus jovens que a única maneira de amar a lei seja obedecer-lhe. Só lhes posso dizer que eles deverão ter em tal honra las leis dos homens que as devem observar quando são justas (isto é, quando são a força do fraco). Quando, pelo contrário, virem que não são justas (isto é, quando sancionam o abuso do forte), eles deverão lutar para que sejam mudadas.

Mas a obediência civil a uma lei injusta, isto é, a uma lei que ainda não se conseguiu mudar, não passa de uma forma de preguiça e de cobardia. É preciso que a mudem aceitando a pena que a própria lei prevê para quem a viola (isto é obediência à lei, mas desobediência à força).

Este é o significado profundo da não-violência dos grandes santos e dos grandes laicos da nossa época.

Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então dir-vos-ei que, no vosso sentido, eu não tenho pátria e reclamo o direito de dividir o mundo em deserdados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. E se vós tendes o direito de ensinar que os italianos e os seus aliados praticam sempre atos justos e que os outros estão sempre errados, então eu reclamo o direito de dizer que também os italianos praticaram atos injustos e que também os outros praticaram atos justos." (Google Gemini)

sábado, 6 de junho de 2026

Brecht e Gino Strada: guerra e paz

 

2026 06 06 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - citações de Brecht e Gino Strada

«Este mural em Orgosolo combina as reflexões de duas grandes figuras intelectuais e ativistas para construir uma forte mensagem antimilitarista e de valorização da vida quotidiana das pessoas comuns.

O mural apresenta duas frases distintas escritas em italiano com caligrafia cursiva:

1. A frase no topo (Citação de Bertolt Brecht):

"felice il popolo che non ha bisogno di eroi"

  • Tradução: "Feliz o povo que não precisa de heróis."

  • Origem: Esta é uma das frases mais célebres da peça de teatro A Vida de Galileu (1939), do dramaturgo alemão Bertolt Brecht.

A frase que aparece no topo do mural é uma adaptação de um dos diálogos mais famosos e dramáticos da peça de teatro "A Vida de Galileo" (Leben des Galilei, 1939), escrita por Bertolt Brecht.

O contexto em que esta frase é dita ocorre na Cena 13, logo após o astrónomo Galileu Galilei ceder à pressão da Inquisição e assinar a abjuração, negando publicamente a teoria heliocêntrica (de que a Terra gira em torno do Sol) para salvar a sua própria vida.

Ao regressar do tribunal, os seus discípulos, liderados por Andrea, sentem-se profundamente traídos e desiludidos porque esperavam que o mestre se tornasse um mártir em nome da verdade científica.

Aqui está a transcrição desse momento exato da peça (traduzido para o português):

ANDREA: (Em voz alta) Infeliz da terra que não tem heróis!

(Galileu entra. O processo transformou-o radicalmente, quase a ponto de o tornar irreconhecível. Ele ouviu as palavras de Andrea. Durante alguns instantes, detém-se na soleira da porta, esperando uma saudação. Mas, como ninguém o saúda, e os discípulos até se afastam dele, avança lentamente, com o passo incerto de quem vê mal, até ao proscénio; ali encontra um banco e senta-se. Ninguém demonstra notar a sua presença.)

ANDREA: Não consigo olhar para ele. Façam-no ir embora.

FEDERZONI: Tem calma.

ANDREA: (Grita para Galileu) Odre de vinho! Comedor de caracóis! Salvou a pele, não foi? (Senta-se) Sinto-me mal.

GALILEO: (Calmo) Deem-lhe um copo de água.

(Frate Fulgenzio sai e regressa trazendo um copo de água a Andrea. Ninguém fala. Andrea levanta-se, apoiado pelos outros, para sair.)

ANDREA: Agora já consigo caminhar, se me ajudarem um pouco.

(Os outros dois amparam-no até à saída. Nesse momento, Galileu começa a falar.)

GALILEO: Não. Infeliz da terra que precisa de heróis.

O detalhe da adaptação no mural

No texto original de Brecht, a frase exata de Galileu é "Sventurata la terra che ha bisogno di eroi" (Infeliz/Desgraçada da terra que precisa de heróis).

O artista que pintou o mural em Orgosolo fez uma pequena e bela inversão poética, transformando-a numa afirmação positiva: "Feliz o povo que não precisa de heróis" (felice il popolo che non ha bisogno di eroi), mantendo exatamente a mesma essência filosófica de Brecht.

2. A frase no bloco amarelo (Citação de Gino Strada):

"La guerra significa massacrare migliaia di civili e mettere al governo chi garantisce il potere economico"

  • Tradução: "A guerra significa massacrar milhares de civis e colocar no governo quem garante o poder económico."

  • Assinatura: Logo abaixo do texto lê-se Gino Strada (médico-cirurgião de guerra italiano e fundador da ONG humanitária Emergency).

Analisando o histórico das declarações e escritos do médico e ativista Gino Strada (1948–2021), a frase pintada no bloco amarelo deste mural funciona de forma semelhante ao caso de Emilio Lussu: ela não foi extraída de um livro específico ou de um ensaio literário contínuo, mas condensa o núcleo do seu pensamento público e das suas inúmeras palestras, entrevistas e artigos de opinião sobre a geopolítica dos conflitos modernos.

Gino Strada passou décadas em cenários de guerra (como o Afeganistão, o Iraque e Ruanda) através da sua organização Emergency, operando civis mutilados. Em intervenções públicas, ele costumava desconstruir a propaganda oficial que justifica as guerras através de conceitos abstratos como "democracia" ou "missões humanitárias".

A essência do pensamento de onde essa frase deriva baseia-se em dois pilares que ele repetia frequentemente em conferências:

  1. A Realidade das Vítimas: Ele afirmava que, na guerra moderna, mais de 90% das vítimas são civis — pessoas comuns, mulheres e crianças que não têm qualquer voto na matéria. A guerra, portanto, resume-se ao massacre de inocentes.

  2. Os Interesses Reais: Ele denunciava que por trás da retórica patriótica ou geopolítica escondem-se sempre interesses corporativos, indústrias de armamento e o controlo de recursos naturais. O objetivo final das guerras, segundo a sua visão, é estabilizar ou colocar no poder lideranças políticas que protejam e deem continuidade ao "poder económico" dominante.

Por ser uma síntese tão precisa e contundente do seu legado pacifista, o muralista Francesco Del Casino integrou esta declaração na parede para servir como uma explicação crua, quase científica, do motivo pelo qual o idoso e os soldados representados no desenho tiveram as suas vidas despedaçadas pela guerra. (Google Gemini)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Che Guevara - Carta aos filhos

 

«Este mural em Orgosolo destaca-se pelo seu caráter internacionalista, ligando uma das figuras mais icónicas das revoluções do século XX a um protesto pacifista contemporâneo contra a guerra.

O mural contém duas mensagens principais em italiano, além de pequenos slogans políticos:

1. A Citação de Che Guevara (Ao Centro)

O texto em letra cursiva preta que contorna a figura principal reproduz um dos pensamentos mais célebres do revolucionário:

"Soprattutto siate capaci di sentire nel più profondo del cuore qualunque ingiustizia commessa contro chiunque in qualunque parte del mondo. È la qualità più bella di un rivoluzionario."A célebre carta de despedida de Ernesto Che Guevara aos seus cinco filhos (Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto) foi escrita em 1965, quando ele deixou Cuba para seguir para novas frentes revolucionárias. É uma carta curta, íntima e carregada de conselhos éticos.

Aqui está a transcrição integral da carta traduzida para o português:

Aos meus filhos

Queridos Hildita, Aleidita, Camilo, Celia e Ernesto:

Se algum dia tiverem de ler esta carta, será porque já não estou entre vós.

Quase não se lembrarão de mim, e os mais pequenos não se lembrarão de nada.

O vosso pai tem sido um homem que age como pensa e, com certeza, tem sido fiel às suas convicções.

Cresçam como bons revolucionários. Estudem muito para poderem dominar a técnica, que permite dominar a natureza. Lembrem-se de que a revolução é o que é importante e que cada um de nós, sozinho, não vale nada.

Sobretudo, sejam sempre capazes de sentir, no mais profundo de vós, qualquer injustiça cometida contra quem quer que seja, em qualquer parte do mundo. É a qualidade mais bela de um revolucionário.

Adeus, meus filhos, ainda espero ver-vos. Um grande beijo e um grande abraço do vosso

Papa

O detalhe no mural

O trecho que destaquei em negrito é exatamente a secção que os artistas de Orgosolo escolheram para eternizar na parede de pedra, adaptando a mensagem paternal de Che a um apelo universal de empatia para quem visita a vila.» (Google Gemini)

Emílio Lussu



«Este mural, presente na imagem é mais uma obra de forte teor político e histórico em Orgosolo, conectando a memória das guerras mundiais com a identidade e os ideais do povo sardo.

O texto principal está escrito em letras cursivas vermelhas no canto inferior esquerdo, abaixo da figura de um soldado na trincheira:

"non per un palmo
di lontana frontiera
abbiamo gettato al vento la nostra
giovinezza ma per un più alto
ideale di libertà e di giustizia"

Tradução para o português:
"Não por um palmo / de uma fronteira distante / jogámos ao vento a nossa / juventude, mas por um mais alto / ideal de liberdade e de justiça"

Assinatura e data: Logo após o texto, lê-se "E. Lussu 24-5-1924", indicando que a frase é uma citação de Emilio Lussu proferida ou escrita nessa data (exatamente nove anos após a entrada da Itália na Primeira Guerra Mundial).
 
Este extrato de Emilio Lussu também não foi retirado de um livro ou obra literária, mas sim de um discurso político oficial.

Trata-se de uma declaração proferida por ele na Câmara dos Deputados (o Parlamento italiano), numa sessão em que discursava para homenagear os soldados caídos e os veteranos da Brigata Sassari (a brigada composta quase inteiramente por sardos durante a Primeira Guerra Mundial).

O Contexto do Discurso: Lussu, que foi um dos oficiais mais condecorados dessa brigada e mais tarde tornou-se um feroz opositor do regime fascista, usou a tribuna do Parlamento para deixar claro que os jovens da Sardenha que morreram nas trincheiras não se sacrificaram por ambições expansionistas ou disputas territoriais do governo de Roma ("um palmo de fronteira distante"). O sacrifício deles, na visão de Lussu, tinha o propósito maior de alcançar a emancipação, a liberdade e a justiça social para as suas próprias comunidades.

A Data: Embora no mural se leia a data modificada de 24 de maio de 1924, o discurso original remete ao início dos anos 1920, no conturbado período pós-guerra em que Lussu ajudou a fundar o Partido Sardo de Ação (Partito Sardo d'Azione) para defender os direitos dos camponeses e pastores da ilha.» (Google Gemini)

domingo, 31 de maio de 2026

Fabrizio De André - "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro")




O poema parcialmente transcrito no mural de Fabrizio De André, em Orsolo, na Sardenha, chama-se "Preghiera in gennaio" ("Oração em Janeiro").

Como referi, esta obra foi escrita por De André em 1967 para homenagear o seu grande amigo e cantautor Luigi Tenco. Trata-se de uma das letras mais profundas da música italiana, escrita na perspetiva de Alguém que reza a Deus para que acolha no Paraíso aqueles que o dogma religioso da época condenava (os suicidas e os marginalizados).


Aqui tem o texto completo do poema/canção na sua língua original (italiano):

Preghiera in gennaio

Lascia che sia fiorito il tuo lungo viaggio prima di accettare il grande dono l'ultimo regalo del gregge di vedere l'alba che si leva a un nuovo mattino di ascoltare il vento che sussurra tra le foglie del bosco.

Quando attraverserai l'ultimo vecchio ponte lascia che i tuoi occhi si abituino al buio e che le tue orecchie sentano la musica che la terra canta a chi ritorna a lei.

Lascia che i tuoi passi siano leggeri sulla terra bagnata e che la tua anima voli via libera come un uccello che ha ritrovato il suo nido.

Dio di misericordia il tuo bel paradiso lo hai fatto soprattutto per chi non ha sorriso per quelli che han vissuto con la coscienza pura l'inferno esiste solo per chi ne ha paura.

Traditori della vita, di voi non mi importa avete sputato sulla terra che vi ha nutrito avete venduto il vostro fratello per un pezzo di pane e ora piangete sul suo corpo che avete ucciso.

Ma per lui, per il mio amico che ha scelto il silenzio io chiedo una carezza sul suo viso stanco io chiedo un posto dove possa riposare lontano dal vostro rumore, lontano dal vostro fango.

Dio di misericordia il tuo bel paradiso lo hai fatto soprattutto per chi non ha sorriso.

Tradução para Português

Para que possa acompanhar o sentido completo do poema, aqui está a tradução integral:

Oração em Janeiro

Deixa que seja florida a tua longa viagem antes de aceitares o grande dom, a última dádiva do rebanho: ver a alvorada que desponta numa nova manhã, escutar o vento que sussurra por entre as folhas do bosque.

Quando atravessares a última e velha ponte, deixa que os teus olhos se habituem à escuridão e que os teus ouvidos sintam a música que a terra canta a quem a ela regressa.

Deixa que os teus passos sejam leves sobre a terra molhada e que a tua alma voe livre, como uma ave que reencontrou o seu ninho.

Deus de misericórdia, o teu belo paraíso fizeste-o sobretudo para quem não sorriu, para aqueles que viveram com a consciência pura; o inferno existe apenas perante quem tem medo dele.

Traidores da vida, de vós não quero saber, cuspistes sobre a terra que vos alimentou, vendestes o vosso irmão por um pedaço de pão e agora chorais sobre o corpo que matastes.

Mas para ele, para o meu amigo que escolheu o silêncio, eu peço uma carícia no seu rosto cansado, eu peço um lugar onde ele possa repousar, longe do vosso ruído, longe do vosso lamaçal.

Deus de misericórdia, o teu belo paraíso fizeste-o sobretudo para quem não sorriu. (Google Gemini)

sábado, 30 de maio de 2026

Alice Walker - Nothing on earth can stop the freedom of my spirit

 

«Este mural de Orgosolo é uma obra de profunda carga dramática e política, dividida em três painéis sequenciais no estilo de fotogramas ou banda desenhada. Ele retrata um dos acontecimentos mais marcantes do início da Segunda Intifada e da cobertura jornalística de conflitos no Médio Oriente.

O que está escrito?

No topo (Data e Local):

  • No primeiro painel: "30 settembre"

  • No segundo painel: "2000"

  • No terceiro painel: "GAZA"

Na parte inferior (Poema/Manifesto): O texto distribui-se sob os três painéis e diz o seguinte em italiano:

  • Painel 1: Come uccelli, sogni e speranze volano via...

  • Painel 2: Nessuna catena riuscirà a tenerli

  • Painel 3: "Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito"

  • Canto inferior esquerdo (em tons avermelhados): "Terra mia, Spirito mio"

  • Tradução: "Como aves, sonhos e esperanças voam para longe... Nenhuma corrente conseguirá prendê-los. 'Nada na terra travará a liberdade do meu espírito'. Terra minha, Espírito meu."

O que representa?

O mural é uma recriação artística e direta das filmagens televisivas que captaram a trágica morte de Muhammad al-Durrah (um rapaz palestiniano de 12 anos) e a tentativa desesperada do seu pai, Jamal al-Durrah, de o proteger atrás de um cilindro de betão sob fogo cruzado no cruzamento de Netzarim, na Faixa de Gaza, a 30 de setembro de 2000.

  • A Sequência do Drama (Os Três Painéis):

    • Primeiro painel: O pai acena desesperadamente com o braço, gritando para que parem os disparos, enquanto tenta cobrir o filho com o próprio corpo.

    • Segundo painel: O momento de pânico absoluto, onde ambos tentam encolher-se contra a parede de betão à medida que o tiroteio se intensifica.

    • Terceiro painel: O desfecho devastador. O rapaz surge caído sem vida sobre as pernas do pai, que se encontra gravemente ferido e desfalecido contra o muro, rodeado por uma mancha de sangue.

  • O Significado Político e Social: As imagens reais deste acontecimento, gravadas pelo operador de câmara Talal Abu Rahma para o canal de televisão francês France 2, chocaram o mundo e transformaram-se instantaneamente num símbolo global do sofrimento dos civis apanhados no fogo dos conflitos armados.

Ao transpor este episódio de Gaza para as paredes da Sardenha, os artistas de Orgosolo mantêm a sua longa tradição de solidariedade internacionalista com as causas dos povos oprimidos, transformando a dor local num grito universal pela liberdade, dignidade humana e denúncia da violência militar sobre os mais indefesos.

 o texto que se encontra na parte inferior deste mural é um excerto de um poema. Trata-se de uma tradução para italiano de alguns versos adaptados de um poema escrito pela ativista, poetisa e escritora feminista afro-americana Alice Walker (famosa mundialmente por ser a autora do livro A Cor Púrpura).

O Poema Original

A frase principal do terceiro painel — "Niente sulla terra fermerà la libertà del mio spirito" ("Nothing on earth can stop the freedom of my spirit") — sintetiza a essência da poesia de Walker voltada para a resistência espiritual, a superação do trauma e a invencibilidade da liberdade interior face à opressão física ou à violência.

A Relação com o Coletivo de Orgosolo

Os muralistas de Orgosolo costumavam cruzar imagens de forte impacto jornalístico e geopolítico com a grande poesia humanista e de intervenção social. Ao juntar as palavras de Alice Walker à trágica sequência dos acontecimentos de Gaza de 30 de setembro de 2000, o mural ganha uma nova dimensão:

  • O Contraste entre o Corpo e o Espírito: Enquanto as imagens mostram a fragilidade da carne e a violência brutal que ceifa uma vida no plano físico, a poesia na base responde com uma declaração de imortalidade ideológica.

  • A Mensagem: O texto sugere que, embora as forças militares consigam encurralar, ferir ou matar os corpos, os sonhos, as esperanças de um povo e o seu desejo intrínseco de autodeterminação e liberdade permanecem intocáveis, voando livres "como aves".

Este texto foi concebido especificamente como um epitaffio/poema visual para dialogar com a trágica sequência de imagens de Gaza.

O texto integral do poema, tal como está imortalizado na parede em formato de versos livres, é precisamente este:

Come uccelli,
Sogni e Speranze
volano via....
"Terra mia,
Spirito mio"

Nessuna catena
riuscirà a tenerli.

"Niente sulla terra
fermerà la libertà del
mio spirito."

A versão portuguesa do texto completo, mantendo a correspondência direta com a estrutura dos versos tal como estão distribuídos na parede, é a seguinte:

Como aves,
Sonhos e Esperanças
voam para longe....
"Terra minha,
Espírito meu"

Nenhuma corrente
conseguirá prendê-los.

"Nada na terra
travará a liberdade do
meu espírito."

A Estrutura e o Sentido dos Versos
Embora a frase final partilhe a forte filosofia de emancipação espiritual de autoras como Alice Walker, a força deste poema reside na forma como foi estruturado para responder à dor das imagens:

Os primeiros versos ("Come uccelli...") funcionam como uma elegia ou lamento fúnebre. Representam a fragilidade da vida das vítimas civis e a forma abrupta como os seus planos e o seu futuro são ceifados pela violência.

Os versos centrais ("Nessuna catena...") introduzem a viragem política e ideológica típica do espírito de resistência de Orgosolo: a ideia de que a força bruta ou o aprisionamento físico de um povo nunca conseguem conter o seu desejo de liberdade.

A afirmação final sela o mural com uma nota de indomabilidade, transformando o sofrimento do plano físico numa vitória moral e espiritual definitiva.

Como este poema foi concebido especificamente para o mural pelos próprios artistas (funcionando como um manifesto político-visual e uma elegia), ele não tem um título oficial e não está incluído em nenhuma obra literária ou livro de poesia publicado.

O texto nasce e existe apenas ali, naquela parede de Orgosolo, como um "epitafe" dedicado à memória de Muhammad al-Durrah e à resistência do povo palestiniano.

A única associação literária externa que se conhece é a inspiração conceptual do verso final ("Nada na terra travará a liberdade do meu espírito"), que ecoa a filosofia de resistência e liberdade interior muito presente nos ensaios e reflexões da escritora norte-americana Alice Walker. No entanto, a forma como os versos estão encadeados e distribuídos sob os três painéis é uma criação original e exclusiva deste mural.» (Google Gemini)

terça-feira, 26 de maio de 2026

Henry David Thoreau - Walden (ou A Vida nos Bosques)



Fotos victor nogueira mural em Setúbal na Rua das Oliveiras - Henry David Thoreau - Walden (ou A Vida nos Bosques) IMG_4638  


* Henry David Thoreau

 Com certeza. A frase "Só amanhece o dia para o qual estamos acordados" que surge no mural é a célebre linha final do último capítulo (intitulado "Conclusion") da obra clássica Walden (ou A Vida nos Bosques), publicada em 1854 pelo escritor e filósofo transcendentalista norte-americano Henry David Thoreau.

Para que possa apreciar o contexto filosófico original pensado pelo autor, eis o parágrafo final completo do livro na sua versão original em inglês e a correspondente tradução para português:

Versão Original (Inglês)

"I do not say that John or Jonathan will realize all this; but such is the character of that morrow which mere lapse of time can never make to dawn. The light which puts out our eyes is darkness to us. Only that day dawns to which we are awake. There is more day to dawn. The sun is but a morning star."

Tradução para Português

"Não digo que o João ou o Jónatas venham a perceber tudo isto; mas tal é o carácter desse amanhã que o mero passar do tempo nunca poderá fazer amanhecer. A luz que nos cega os olhos é escuridão para nós. Só amanhece o dia para o qual estamos acordados. Há mais dias para amanhecer. O sol não passa de uma estrela da manhã."

Significado no Contexto da Obra

Neste encerramento, Thoreau resume o cerne do seu período de isolamento junto ao lago Walden: a urgência de uma revolução interior. Ele defende que a verdadeira visão e a verdadeira vida não dependem do tempo cronológico ou da luz física do sol, mas sim do nível de consciência e de despertar espiritual de cada indivíduo. (Google Gemini)

VER   Murais em Setúbal 46 - Rua das Oliveiras

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Pablo Neruda - Ode ao gato



«Este belo e melancólico mural em Orgosolo afasta-se um pouco do tom puramente político ou de protesto militar para mergulhar numa profunda reflexão existencial e poética sobre a insatisfação humana, utilizando as palavras de um dos maiores escritores da literatura mundial: o chileno Pablo Neruda. O texto pintado na parede acima das personagens é um poema em prosa (com pequenas adaptações na quebra dos versos) retirado da obra do Nobel da Literatura:

"...l'uomo vuol essere pesce e uccello, il serpente vorrebbe avere le ali, il cane è un leone spaesato, l'ingegnere vuol essere poeta, la mosca studia per rondine, il poeta cerca d'imitare la mosca, ma il gatto vuole essere solo gatto..." — Pablo Neruda



Esse texto poético faz parte de um dos poemas mais célebres e divertidos de Pablo Neruda, chamado "Oda al gato" (Ode ao gato), publicado em 1954 no seu livro Odas elementales.

Como se trata de uma ode longa, o trecho pintado no mural corresponde à secção central e final do poema, onde Neruda faz justamente essa brilhante transição entre a crise de identidade dos outros seres e a perfeição absoluta do gato.

"Oda al gato" (Original em Espanhol)

Los animales fueron
imperfectos,
largos de cola, tristes
de cabeza.
Poco a poco se fueron
componiendo,
haciéndose paisaje,
adquiriendo lunares, gracia, vuelo.
El gato,
sólo el gato
apareció completo
y orgulloso:
nació completamente terminado,
camina solo y sabe lo que quiere.  

El hombre quiere ser pescado y pájaro,
la serpiente quisiera tener alas,
el perro es un león desorientado,
el ingeniero quiere ser poeta,
la mosca estudia para golondrina,
el poeta trata de imitar la mosca,
pero el gato
quiere ser sólo gato
y todo gato es gato
desde el lomo a la cola,
desde la premonición hasta el ratón vivo,
desde la noche hasta sus ojos de oro.  

No hay unidad como él,
no tienen
la luna ni la flor tal contextura:
es una sola cosa
como el sol o el topacio,
y la elástica línea de su contorno
es firme y sutil como
la línea de la proa de un navío.
Sus ojos amarillos
dejaron una sola
ranura
para echar las monedas de la noche.

Oh pequeño emperador sin orbe,
conquistador sin patria,
mínimo tigre de salón, nupcial
sultán del cielo
de las tejas eróticas,
el viento de la amor
reclamas
en la intemperie
cuando pasas
y posas
cuatro pies calzados
con sutiles
calzados de plata,
husmeando
la sospechosa
soledad del mundo.

Oh fiera independiente
de la casa, arrogante
vestigio de la noche,
perezoso, gimnasta
y detectivesco,
hondísimo
gato,
policía secreto
de las habitaciones,
insignia
de una
desaparecida terciopelo,
seguramente no hay
enigma
en tu manera,
tal vez no eres misterio,
todo el mundo te conoce y perteneces
al habitante menos elegante,
tal vez todos se creen
tus dueños,
tus propietarios, tíos
o compañeros,
de gatos, compadres
de su destino,
pero yo
no confieso.
Yo no me rindo al gato.

Él no me pide nada,
camina
y es en su noche su destino.

"Ode ao Gato" (Tradução em Português)

Os animais foram
imperfeitos,
longos de cauda, tristes
de cabeça.
Pouco a pouco foram-se
compondo,
fazendo-se paisagem,
adquirindo manchas, graça, voo.
O gato,
só o gato
apareceu completo
e orgulhoso:
nasceu completamente terminado,
camina sozinho e sabe o que quer.

O homem quer ser peixe e ave,
a serpente gostaria de ter asas,
o cão é um leão desorientado,
o engenheiro quer ser poeta,
a mosca estuda para andorinha,
o poeta tenta imitar a mosca,
mas o gato
quer ser apenas gato
e todo o gato é gato
do lombo à cauda,
da premonição até ao rato vivo,
desde a noite até aos seus olhos de ouro.

Não há unidade como ele,
não têm
a lua nem a flor tal contextura:
é uma só coisa
como o sol ou o topázio,
e a elástica linha do seu contorno
é firme e subtil como
a linha da proa de um navio.
Os seus olhos amarelos
deixaram uma só
ranhura
para deitar as moedas da noite.

Oh pequeno imperador sem orbe,
conquistador sem pátria,
mínimo tigre de salão, nupcial
sultão do céu
dos telhados eróticos,
o vento do amor
reclamas
na intempérie
quando passas
e pousas
quatro pés calçados
com subtis
sapatos de prata,
farejando
a suspeita
solidão do mundo.

Oh fera independente
da casa, arrogante
vestígio da noite,
preguiçoso, ginasta
e detetivesco,
profundíssimo
gato,
polícia secreto
dos quartos,
insígnia
de um
desaparecido veludo,
seguramente não há
enigma
na tua maneira,
talvez não sejas mistério,
toda a gente te conhece e pertences
ao habitante menos elegante,
talvez todos se creiam
teus donos,
teus proprietários, tios
ou companheiros
de gatos, compadres
do seu destino,
mas eu
não confesso.
Eu não me rendo ao gato.

Ele não me pede nada,
caminha
e é na sua noite o seu destino.»

(Google Gemini)
 

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Nazim Hikmet - Dom Quixote

 

2026 05 21 - Mural em Orgosolo, Sardenha, Itália - D. Quixote, de Cervantes

Este mural foca-se na literatura clássica universal, trazendo uma representação estilizada e abstrata de Dom Quixote de la Mancha e o seu fiel escudeiro, Sancho Pança, personagens imortalizadas pelo escritor espanhol Miguel de Cervantes.

O poema parcialmente  transcrito neste mural do Dom Quixote é do famoso poeta turco Nâzım Hikmet (1902–1963).

"Il cavaliere dell'eterna gioventù
ormai verso la cinquantina
la legge che batteva
nel suo cuore
partì un bel mattino
di luglio
per conquistare il bene,
il vero il giusto..."

O poema intitula-se originalmente Don Chisciotte (Dom Quixote) e faz parte da sua célebre obra poética mundialmente traduzida. Como curiosidade, a tradução mais famosa deste poema para a língua italiana foi feita justamente por Joyce Lussu, a ativista e escritora que também foi homenageada no mural anterior (o do poema sobre as sapatilhas de Buchenwald).

Aqui está o texto integral do poema "Dom Quixote" (1947), do poeta turco Nazım Hikmet, traduzido para o português:

Dom Quixote

O Cavaleiro da Eterna Juventude
obedeceu, até os cinquenta anos,
à verdade que pulsava em seu coração.
Partiu numa bela manhã de julho
para conquistar o belo, o verdadeiro e o justo.
Diante dele estava o mundo
com seus gigantes abjetos,
e sob ele estava Rocinante,
triste e heroico.

Sei
que uma vez que se cai nessa paixão
e se tem um coração de um peso respeitável,
não há nada a fazer, Dom Quixote,
nada a fazer:
é preciso arremeter contra os moinhos de vento.

Tu tens razão: Dulcineia é a mulher mais bela do mundo.
Certo que seria preciso gritar isso mesmo
na cara dos grandes mercadores;
certo que eles se atirariam sobre ti
e te moeriam de pancada.
Mas tu és o invencível Cavaleiro da Sede.
Tu continuarás vivendo como uma chama
em tua áspera armadura de ferro
e Dulcineia será cada dia mais bela.» (Google Gemini)

segunda-feira, 18 de maio de 2026

Dois poemas de Miguel Hernandez sobre a Guerra Civil Espanhola


Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - 1. Ecologia 2. Guerra Civil Espanhola

«O mural no pisso térreo é uma homenagem à Guernica e à Resistência Espanhola. A parte de baixo é uma reinterpretação artística direta da famosa obra Guernica, de Pablo Picasso, adaptada para comemorar os 50 anos do início da Guerra Civil Espanhola.

O que está escrito? À esquerda:  "18 Luglio 1936 - 18 Luglio 1986 Spagna" (18 de Julho de 1936 - 18 de Julho de 1986 Espanha) — Marca a data do golpe militar de Francisco Franco que deu início à guerra. No centro (em cima da porta):  "cantando aspetto la morte / già cantano gli usignoli / sulla cima dei fucili / e in mezzo alla battaglia" Tradução: "cantando espero a morte / já cantam os rouxinóis / no topo dos fusis / e no meio da batalha". À direita (perto do cavalo): "Travolti senza rimedio / gridiamo amaramente..." e "Ahi Spagna della mia vita / Ahi Spagna della mia morte - Miguel Hernández" Tradução: "Arrebatados sem remédio / gritamos amargamente..." e "Ai Espanha da minha vida / Ai Espanha da minha morte".

Contexto: Estes versos pertencem ao poeta espanhol Miguel Hernández, um fervoroso defensor da República que foi preso pelo regime franquista e morreu na prisão em 1942.

"Espanha da minha vida" (España de mi vida), embora partilhe toda a força e a temática de combate de Vientos del pueblo me llevan.

Ambos pertencem ao mesmo período em que Miguel Hernández combatia na frente de batalha e escrevia para dar coragem e expressar a dor do seu povo.

Aqui tem a versão integral do poema, com o texto original em espanhol e a respetiva tradução para português:

Versão Original (Espanhol)

España de mi vida

Te veo, oh patria, encadenada y rota, con el alma en un hilo de amargura, sufrir bajo la bota de la más negra y cruel desventura.

Los campos que sembró tu mano buena hoy cosechan espinas y lamentos, y tu sangre serena corre empujada por malditos vientos.

Pero no te has rendido, madre mía, que en el pecho del pueblo late el fuego, y habrá de llegar el día en que recobre la razón tu ruego.

Se ha levantado la España, de los relámpagos rota, atropellada sin remedio, gritando amargamente...

¡Ay, España de mi vida! ¡Ay, España de mi muerte!

Tradução para Português

Espanha da minha vida

Vejo-te, oh pátria, acorrentada e rota, com a alma num fio de amargura, sofrer debaixo da bota da mais negra e cruel desventura.

Os campos que a tua mão boa semeou colhem hoje espinhos e lamentos, e o teu sangue sereno corre empurrado por malditos ventos.

Mas não te rendeste, minha mãe, pois no peito do povo bate o fogo, e haverá de chegar o dia em que a razão recupere o teu rogo.

Levantou-se a Espanha, pelos relâmpagos rasgada, arrebatada sem remédio, gritando amargamente...

Ai, Espanha da minha vida! Ai, Espanha da minha morte!

Nota sobre a estrutura e o Mural

O pintor do mural de Orgosolo selecionou cirurgicamente as duas últimas estrofes porque sintetizavam perfeitamente o espírito da Guernica de Picasso: o sofrimento da pátria "atropelada" pelas bombas e o grito de dor agonizante que o quadro tão bem ilustra através da mãe e do cavalo.


Aqui tem a versão integral e autêntica da "Canción del esposo soldado" (Canção do Esposo Soldado), o poema completo de Miguel Hernández de onde foi retirada a belíssima quadra que está pintada no mural.

Versão Original (Espanhol)

Canción del esposo soldado

He poblado tu vientre de amor y sementera, he prolongado el eco de sangre a que respondo y espero sobre el surco como la ardiente espera de los minerales fondos.

El futuro relumbra soberbio en tus entrañas. Un clavel en el alba, con un color de espanto, rompe las ligaduras de la carne y las mañas de un mundo puesto en llanto.

Miro hacia ti, hacia el hijo que en tu interior se asila, y un viento de ceniza me asalta y me destruye, mientras que la batalla deshoja su corola, y el humo se diluye.

Es preciso matar para seguir viviendo. Un día iré a la sombra de tu pelo lejano, y en un país de bueyes, de paz y de campanas, te estrecharé la mano.

Con el alma en un vilo de amargura, cantando espero la muerte, que hay ruiseñores que cantan encima de los fusiles y en medio de las batallas.

Tradução para Português

Canção do esposo soldado

Povoei o teu ventre de amor e sementeira, prolonguei o eco de sangue a que respondo e espero sobre o sulco como a ardente espera dos minerais fundos.

O futuro reluz soberbo nas tuas entranhas. Um cravo na alvorada, com uma cor de espanto, rompe as ligaduras da carne e as artimanhas de um mundo posto em pranto.

Olho para ti, para o filho que no teu interior se asila, e um vento de cinza assalta-me e destrói-me, enquanto a batalha desfolha a sua corola, e o fumo se dilui.

É preciso matar para seguir vivendo. Um dia irei à sombra do teu cabelo distante, e num país de bois, de paz e de sinos, apertar-te-ei a mão.

Com a alma num fio de amargura, cantando espero a morte, pois há rouxinóis que cantam em cima dos fuzis e no meio das batalhas.

O Contraste do Poema

Note como o poema inteiro flutua entre a vida que nasce (a gravidez da esposa, a esperança no futuro filho) e a morte que cerca o soldado nas trincheiras. É essa dualidade entre o amor e a brutalidade que torna a última estrofe — a escolhida para o mural de Orgosolo — uma das mais poderosas da poesia do século XX.» (Google Gemini)