Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
domingo, 23 de dezembro de 2007
Literatura Policial - alguns autores
Maigret
Maigret é, originalmente, de uma zona rural. Foi para Paris para estudar medicina, mas acabou por se juntar à Polícia, tendo chegado ao cargo de superintendente. Amante da boa comida (a sua mulher é uma excelente cozinheira), é também um grande bebedor. Ao longo das páginas das novelas de Simenon, são consumidas muitas cervejas (contas feitas, mais do que parece ser possível) para além de vinho e Calvados, acompanhados, no curso dos interrogatórios, por indispensáveis sanduíches e por um cachimbo.
As novelas de Maigret apresentam quase sempre crimes violentos, centrando-se a análise humana nos motivos que levam uma pessoa a matar outra. Apesar de tudo, há um lado optimista, nostálgico e esperançoso da vida que Simenon deixa transparecer. Entre os livros mais célebres do inspector Maigret encontra-se O Homem Que Via Passar os Comboios (1938).
Tom Ripley
Perry Mason
O advogado Perry Mason, criado por Erle Stanley Gardner, surgiu como personagem no início dos anos 30, depois de alguns anos de histórias policiais de estilo sensacionalista publicadas pelo autor, também ele advogado. Perry Mason é um advogado criminalista capaz, nas novelas iniciais, de utilizar a força e métodos menos ortodoxos para conseguir provar a inocência dos seus clientes perante o tribunal. A personagem tornou-se, com o passar do tempo, mais branda nos seus métodos, sem com isso perder a obstinação que o levava, por meio de raciocínios e interrogatórios brilhantes às testemunhas, a sair triunfante e a ilibar os seus clientes.
Perry Mason não actuava sozinho. Da sua equipa faziam parte o investigador Paul Drake e Della Street, a secretária fiel. As relações possíveis entre Mason e Della são um dos ingredientes activos das novelas: os leitores especulavam sobre qual a natureza do seu relacionamento - estritamente profissional? E iria Gardner, alguma vez, casá-los? A indefinição mantinha-se; Mason chega, por duas ou três vezes, a declarar-se a Della, mas esta não o aceita como marido, embora seja capaz de fazer tudo por ele, alegando que ele não é o tipo de homem feito para ser casado.
Perry Mason tornou-se o mais célebre advogado protaagonista de romances policiais. Adaptações a teatro, a cinema e a televisão ajudaram a popularizá-lo ainda mais.
Veja aqui alguns dos mistérios de Perry Mason.
Sherlock Holmes
O mais famoso dos detectives, a mais célebre figura da literatura policial, a grande criação de Arthur Conan Doyle, que o lança em 1887. Tão célebre que existe hoje, para esta personagem, um museu, em Londres, e inúmeras sociedades a ele dedicadas.
Alguns elementos são fundamentais para a caracterização de Holmes: o chapéu, o cachimbo, o violino (que tocava terrivelmente, mas sem o qual não passava), e Watson. Watson é o companheiro fiel das suas aventuras de investigação criminal. Sem Watson, Sherlock não seria o mesmo. É este quem quase sempre narra a s suas aventuras e nos apresenta o mestre do disfarce e da dedução lógica. A partir de um simples detalhe, insignificante para qualquer outra pessoa - como uma mancha de lama num vestido, por exemplo - Holmes é capaz de concluir inúmeros factos sobre a vida daqueles que o consultam ou com quem se cruza no decurso das investigações. Como chega ele às suas conclusões? «Elementar, meu caro Watson!», é a sua resposta mais famosa. Nos contos e novelas que protagoniza, e segundo as palavras de Watson, Holmes eleva a dedução lógica à categoria de ciência exacta.
Homem de hábitos britânicos, Holmes é também dono de um espírito agitado e capaz de todos os imprevistos quando se trata de resolver mistérios. Só ocupando a sua mente consegue fugir do estado melancólico que o ataca quando está entediado. Quase tão importante quanto Watson é o professor Moriarty, mestre do crime e seu inimigo mortal, o único capaz de fazer frente e Holmes. Mais do que a oposição entre o Bem e o Mal, trata-se aqui do confronto entre dois espíritos brilhantes.
Veja aqui as obras completas de Sherlock Holmes.
Hercule Poirot
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A obsessão pela resolução de todos os pormenores dos seus casos é uma exigência da sua mente brilhante, capaz de deduzir, de analisar a natureza humana, de conceber e encenar esquemas que obrigam as outras personagens a denunciar-se e a revelar os seus segredos.
Tal como Sherlock Holmes e Perry Mason, Poirot conheceu grande sucesso nas adaptações à televisão.
Conheça aqui algumas das obras protagonizadas por Poirot.
Pepe Carvalho
Pepe Carvalho, uma criação literária do escritor espanhol Manuel Vázquez Montalbán, é já um clássico. De ascendênca portuguesa, Carvalho vive em Barcelona. É um homem que entra já na meia idade, um desencantado, por vezes cínico. Possui uma vasta biblioteca, mas, desiludido da literatura, utliza os livros para acender a lareira - para o prazer de, por exemplo, queimar hoje um Stendhal, amanhã qualquer outro clássico.
O seu maior prazer vem da comida - para além de um bom garfo, é um excelente cozinheiro, e Montalbán presenteia-nos com as descrição dos petiscos que prepara para si e, por vezes, para Biscuter, seu ajudante, ou para Charo, uma prostituta com quem está envolvido.
O mundo de Carvalho é o da Espanha actual, e especificamente o de Barcelona, que percorre nas páginas das novelas. Deslocando-se por vezes a destino exóticos, como em Os Pássaros de Banguecoque, nem por isso os dramas e vícios do mundo ocidental deixam de estar no centro da intriga. Carvalho é um homem duro, mas capaz de se emocionar com o sofrimento alheio e, acima de tudo, com um humor corrosivo: Montalbán apresenta situações hilariantes, ou ridículas, no meio da tragédia das vidas humanas.
sábado, 22 de dezembro de 2007
LE MONDE DIPLOMATIQUE - EDIÇÃO PORTUGUESA,
RECEBE EM OEFRTA O LIVRO «UMA SOCIEDADE À DERIVA», DE CORNELIUS CASTORIADIS, NO VALOR DE 27 EUROS
Para obter todas as informações sobre as formas que tem à sua disposição para fazer a sua assinatura,
poderá consultar o sítio Internet do jornal.
Aproveite o período do Natal e ofereça assinaturas do Le Monde diplomatique – edição portuguesa.
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Desse modo, não só proporcionará um presente de qualidade às pessoas de quem mais gosta,
como beneficia ainda da oferta, para si ou para o novo assinante, do livro Uma Sociedade à Deriva, de Cornelius Castoriadis.
Ao exercer uma análise lúcida e transversal das sociedades, colocam-se todas as perguntas invariavelmente
actuais acerca do destino e da sobrevivência da Humanidade. Numa época de abandono dos terrenos colectivos,
de despolitização, de fim das crenças e de evanescência da capacidade de criar novos valores,
parece urgente ficar em alerta numa dinâmica renovada do questionamento infatigável da condição humana.
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Neste livro, publicado pela editora 90º, são reunidas entrevistas concedidas e comunicações feitas
por Cornelius Castoriadis entre 1974 e 1997, ou seja, as grandes etapas e o conjunto de temáticas
da sua reflexão ao longo deste percurso pluridisciplinar, um auto-retrato intelectual de um pensador inclassificável e universal.
* Excepto assinaturas de estudante.
Exposição Escultura e Pintura: "Aquém e Além do Símbolo"
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Dia 28 de Setembro 2007, ás 16.30H, é inaugurada uma exposição de escultura e pintura, integrada nas Jornadas Europeias do Património, no Convento de Cristo, em Tomar. Estará patente ao público visitante do Convento até 28 de Dezembro 2007.Na rota do simbólico, acordar o inconsciente, viajar para além do símbolo, ao encontro de afectos, espaços e identidades
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O símbolo é uma forma poderosa da comunicação humana, uma forma de linguagem, transversal a todas as culturas porque emerge do inconsciente. Segundo Carl Jung, os símbolos nascem do inconsciente, da sombra, assumem um poder interior do qual estamos conscientes e ultrapassam a própria palavra oral ou escrita.O simbolismo representa e desempenha um papel importante na actividade mental superior. Presente nas diversas culturas, numa espécie de “inconsciente colectivo”, integra padrões instintivos de pensamento e comportamento que reconhecemos como emoções e valores. Enquadra uma espécie de inteligência genética comum, reflecte sentimentos e imagens, materializa-se na forma na procura do significante. Os símbolos exprimem modelos ou padrões de imaginação que povoam os mitos, lendas, narrativas, ritos, rituais e cerimónias dos povos.A função intuitiva, segundo Cann e Dondieri (1986), está ligada aos arquétipos: anima (feminino), animus (masculino), mãe terra, pai sol, sombra ( expressão de desejos básicos que procuramos esconder no inconsciente),etc.
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O homem sempre usou símbolos para exprimir o quê e o porquê das forças criativas e dinâmicas, subjacentes à sua existência. Ao contemplar o universo, tenta decifrar e integrá-lo no sentir da sua existência. Usa a linguagem dos símbolos, tenta conhecer-se a si próprio, procurar luz e conhecimento, segundo uma estruturação religiosa, gnósica ou filosófica. Os símbolos estão relacionados com a descoberta de significados, na tentativa de ir além das suas necessidades básicas de sobrevivência. Estão para além da razão, procuram a realidade profunda, a verdade, na tentativa de criar uma linguagem dirigida ao íntimo, ao coração de si próprio. Os símbolos são expressões conscientes do inconsciente.
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O simbolismo aparece também na arte. Expressa-se nos arquétipos, imaginários ancestrais ou mensagens manifestas ou ocultas.
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O artista faz uso do símbolo para expressar sentimentos, emoções e preocupações do seu tempo, na procura do autoconhecimento, do rasto, da luz, na imortalidade desejada , na transcendência. O simbolismo e arte criativa têm origem comum nos processos mentais do inconsciente, sendo frequente oartista inclui-lo nas suas obras, com o seu poder de abrir o caminho da paz interior e a sabedoria espiritual.
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Uma obra de arte encerra em si uma linguagem, um tipo de conhecimento, um efeito psicológico intenso, um alimento espiritual. No fundo, a arte figurativa ou abstracta, tem uma função simbólica, distinta da linguagem dos símbolos. Enriquece o caminho da vida, a análise crítica, o gosto pela subtileza no prazer da emoção estética. A subjectividade é a sua alma, força, mistério e encantamento. Tem a capacidade de acordar e surpreender o nosso imaginário, a forma significante, aquém e além do símbolo.
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Júlio Pêgo/Setembro/2007
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Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007
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Publicada por Júlio Pêgo em psicopintura
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«A blogosfera psicoarte será um espaço de encontro, opinião e crítica. Conjugando psiquiatria com artes plásticas podemos dar as mãos na criatividade, na invenção e nos afectos e descobrir dentro de nós uma estrela cintilante...Podemos formar uma cadeia de união, transversal a todos os povos, pensando e reflectindo a nossa modernidade. Seremos uma força crítica, pensante e criativa. O seu contributo reflexivo será o alimento deste blogue. »
Júlio Pêgo 20/11/06
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Ver também:
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Júlio Pêgo - Três contribuições no Ao Sabor do Olhar
quarta-feira, 19 de dezembro de 2007
Reflexões sobre a vida humana

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VANITAS VANITAS ET VANITATEM VANITAS VANITATUM, por Luís Calheiros
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imagem retirada daqui
GALILEU GALILEI Nascido em Pisa em fevereiro de 1564, foi responsável pela criação de inventos e aperfeiçoamento de teorias que caracterizaram as novas descobertas do Renascimento. Em 1581, Galileu matriculou-se na Escola de Artes da Universidade de Pisa para estudar medicina. Quatro anos mais tarde abandonou o curso para dedicar-se à matemática. Em 1589, tornou-se catedrático da Universidade de Pisa. Nessa época começa a fazer as primeiras investigações no campo da física, particularmente em mecânica, tentando descrever os fenômenos em linguagem matemática. .
. Dessa forma, Galileu melhorou as lunetas de modo que as imagens ficassem mais nítidas e sem deformações, com um aumento de seis vezes, isto é, duas ou tres vezes mais ao das lunetas da época. Em 1609, empolgado com os primeiros resultados, fabricou uma luneta com aumento de nove vezes, sem deformações. Em 1610, Galileu publicou suas observações celestes no "Sidereus Nuncius" com tiragem de 560 exemplares. Nesse livro falou de montanhas na Lua, dos "planetas" que giravam em torno de Júpiter e nas milhares de estrelas da Via Láctea. Estas descobertas foram muito criticadas por teóricos que não acreditavam em suas experiências.
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Em 1593, Galileu inventou uma bomba d’água. Em 1597 elaborou um compasso geométrico e militar e em 1606, construiu um termômetro. Após tomar conhecimento das lunetas holandesas, que aproximavam objetos distantes, apesar de pouco potentes e com grandes distorções da imagem, Galileu percebeu que a luneta poderia ser utilizada para explicar questões da teoria heliocêntrica, proposta por Copérnico.Galileu passou a defender a teoria do heliocentrismo, apesar de não se expor muito publicamente. Giordano Bruno já havia sido queimado vivo pela Santa Inquisição da Igreja Católica por defender as idéias de Copérnico.
Em 1611, a Igreja começou a preocupar-se com as idéias de Galileu afirmando que ele era "perigoso", pois suas idéias influenciavam muitas pessoas. Apesar de tentar se defender, foi convocado para enfrentar um tribunal do Santo Ofício. Condenado, foi obrigado a negar suas teorias sob pena de morrer queimado. Sobre este acontecimento existem muitas versões diferentes. Seja como for, Galileu continuou vivo. Nesse período, não parou de trabalhar e publicou clandestinamente, em 1638, o "discurso a respeito de duas novas ciências", onde recapitulou os resultados de suas primeiras experiências e acrescentou algumas reflexões sobre os princípios da mecânica. Essa obra seria a mais madura de todas que escreveu. No mesmo ano Galileu ficou cego. Morreu quatro anos depois, em janeiro de 1642. |
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
A Morte e as Representações do Além na Idade Média: Inferno e Paraíso na obra Doutrina para crianças (c. 1275) de Ramon Llull
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In: Anais Eletrônicos do IV Encontro da ANPUH-ES - História, Representações e Narrativas.
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Vitória, 2003 (ISBN 85-903587-4-7).
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Figura 1
A serena morte de Santa Elisabeth da Turíngia (1207-1231)
(FR 2813) fol. 269v. Grandes Chroniques de France. France, Paris, XIV e s. (60 x 65 mm)
A morte nos faz cair em seu alçapão,
É uma mão que nos agarra
E nunca mais nos solta.
A morte para todos faz capa escura,
E faz da terra uma toalha;
Sem distinção ela nos serve,
Põe os segredos a descoberto,
A morte liberta o escravo,
A morte submete rei e papa
E paga a cada um seu salário,
E devolve ao pobre o que ele perde
E toma do rico o que ele abocanha.
(Hélinand de Froidmont. Os Versos da Morte. Poema do século XII, 1996: 50, vv. 361-372)*
Nascemos, vivemos e morremos. Esta é uma certeza, uma verdade a-histórica, universal e comum a todas as culturas ditas humanas que já existiram, existem e ainda existirão na face da Terra. Outra característica humana é que sempre pensamos e refletimos sobre a finitude da vida, sempre estivemos perplexos com a morte.
A morte. Ela iguala a todos, ricos e pobres, homens e mulheres. Para além dela, o Além: ele é um mistério, uma incerteza, um tabu (RODRIGUES, 1983: 17).
Essa herança milenar sofreu um rude golpe com a modernidade. Hoje, nossa sociedade, dita ocidental, cada vez mais tenta prolongar a vida, não envelhecer, se distanciar da morte, e principalmente não pensar nela, esquecê-la. Afinal, todos os mitos foram destruídos e pisoteados, apesar de a brevidade da existência ter sido reafirmada. Hoje afirma-se que após o “sono eterno” há o nada, o aniquilamento. Resta então viver a vida, gozar os prazeres dos sentidos corporais. Hoje há uma crise, crise de paradigmas metafísicos. Hoje, sobretudo no mundo ocidental, muitos morrem mentalmente jovens e não pensam sobre o sentido de nossa existência.
Porém, os atuais movimentos populares religiosos, também uma permanência ao longo da história humana (DELUMEAU, 1997), reciclam as preocupações com o além e com o destino das almas dos homens. Sabemos que a crença ou a descrença no Além modifica o comportamento humano. Quando não se acredita numa outra vida há um determinado tipo de atitude diante situações do cotidiano; quando se acredita também, especialmente quando o tempo em questão é a Idade Média ocidental (OEXLE, 1996: 28). Nesse período, o mundo era considerado um local de combate contra o Diabo, um combate pela salvação da alma (LE GOFF, 2002: 22). São elementos (mentais) interferindo em ações (materiais), aspectos culturais e, sobretudo, religiosos, que alteram e modificam o comportamento social.
E depois da morte? O que há? O que já pensamos a respeito? A Idade Média foi rica nesse campo subjetivo. Criou imagens que forjaram nossa cultura ocidental (ARIÈS, 1989: 65) e muitos de nossos conceitos, especialmente os espaciais. Essa geografia do além, como já foi chamada (LE GOFF, 1993), delimitou nosso imaginário, circunscreveu nossas atitudes, ocupou nossos sonhos e pesadelos (PATLAGEAN, 1993: 291-318), enfim, inundou os corações de milhares de homens, pelo menos desde que Agostinho (354-430) interpretou o sonho de sua mãe Mônica (COSTA, 1995: 21-35).
Na Idade Média a morte era o grande momento de transição. Transição fundamental, das coisas passageiras para as eternas. Praticamente ausente na iconografia medieval (LE GOFF, 1984, vol. II: 325) - como as crianças (COSTA, 2002: 13-20) - a morte era um rito de passagem. Ela era aguardada no leito de casa. O moribundo deveria ficar deitado de costas porque assim seu rosto estaria voltado para o céu (ARIÈS, 1989: 22).
A morte era uma grande cerimônia pública, um ritual compartilhado por toda a família, por todos da casa. Os medievais sabiam de sua chegada, pressentiam sua vinda, tinham visões que anunciavam sua morte (DUBY, 1986: 80-83). Premonições. Assim, tinham tempo para preparar seu ritual coletivo.
Pois ninguém morria só. A morte era uma festa, momento máximo do convívio social (DUBY, 1990: 65-66). Todos deveriam acompanhar a passagem do moribundo para o além, inclusive as crianças (ARIÈS, 1989: 24). Lágrimas e choro apenas por parte das mulheres: elas deveriam ficar perto do corpo e gritar, rasgar as vestes, arrancar os cabelos. Era sua função pública (DUBY, 1997: 20-21).
Seu gemido era um gemido ritual. Elas eram agentes essenciais do rito funerário (LE ROY LADURIE, s/d: 282), um antigo ritual que era uma fruição, uma chegada lenta e regrada. Era mesmo um prelúdio, a mudança para um estado superior (DUBY, 1987: 10), caso aquela alma fosse agraciada por Deus. Portanto, a preocupação, a angústia maior, não era com a morte e sim com a a salvação da alma (LE ROY LADURIE, s/d: 289).
I. A morte do usurário
Figura 2
A morte do Usurário e do Mendigo.
Gautier de Coincy (1177-1236). La Vie et les miracles de Notre-Dame. França (c. 1260-1270).
In: VORONOVA, Tamara e STERLIGOV, Andréï. Manuscrits enluminés ocidentaux VIII-XVI siècles à la Bibliotèque nationale de Russie de Saint-Pétersbourg. England/Russie: Edits. D’Art Aurora/Parkstone, 1996, p. 69.
Dois momentos distintos: a morte do usurário e do mendigo. Inversão de papéis, subversão social que o cristianismo sugere para o Além: em seu leito de morte, com sua pobre e tosca coberta, em seu leito de morte o pobre vislumbra a Virgem e os Santos (acima à direita). A seguir, abaixo, à direita, o clérigo que o assistiu, agradece à Virgem pela graça concedida.
Por sua vez, o usurário (acima, à esquerda), coberto por uma fina estampa xadrez, com um rico travesseiro colorido a lhe amparar a cabeça e cercado pelos que aguardam sua morte para serem agraciados com seus bens, é levado por três diabos (abaixo, à esquerda), um deles negro, para as profundezas do Inferno. Os diabos causam tanto desregramento ao corpo social que o contorno de seus corpos ultrapassa as linhas do quadro. Por fim, há dois tempos distintos: enquanto o usura ainda está sendo levado pelo diabo, o mendigo já partiu para o Paraíso. A recompensa pela vida virtuosa vem mais rápida; a punição pela vida pecaminosa é sempre lenta, como deve ser o suplício.
Um dos temas mais recorrentes na iconografia medieval a respeito da morte foi a morte do usurário. Maldito entre os malditos, pecador entre os pecadores, o usurário era o exemplo dos exemplos para moralizar o cristão. Jacques de Vitry († 1240) nos conta:
Um outro usurário riquíssimo, começando a lutar contra a morte, pôs-se a afligir, a sofrer e a implorar à sua alma para que esta não o deixasse, pois ele a havia satisfeito, e lhe prometia ouro, prata e as delícias deste mundo se ainda quisesse ficar com ele. Mas que ela não lhe pedisse, em seu favor, dinheiro nem a menor esmola para os pobres. Vendo, enfim, que não a podia reter, se encoleriza e, indignado, lhe diz:
“Preparei-lhe uma boa residência com abundância de riquezas, mas você se tornou tão louca e tão miserável que não quer repousar nessa boa residência. Vá embora! Eu a entrego a todos os demônios que estão no Inferno.” Pouco depois entregou o espírito nas mãos dos demônios e foi enterrado no Inferno (Citado em LE GOFF, 1989: 13).
A morte do usurário foi sempre tema para os moralistas medievais. Os pregadores do século XIII utilizavam a usura para lembrar aos vivos o momento da morte e a existência do Inferno, como este exemplo de Ramon Llull (1232-1316):
Uma vez aconteceu que um usurário fez seu testamento e não se arrependeu de seus erros, pelo contrário, deixou tudo o que tinha a um filho que muito amava, mas que tinha grande prazer com a morte de seu pai. O filho daquele usurário viveu longamente. Um dia aconteceu que ele lembrou o quanto seu pai fora usurário, o quanto lhe havia deixado tudo o que tinha e como ele havia tido grande prazer com a morte de seu pai.
Aquele homem esteve muito tempo nesta consideração, e maravilhou-se fortemente de seu pai ter mais amado entrar no Inferno que deserdá-lo e maravilhou-se consigo mesmo por ter tido prazer com a morte de seu pai que tanto o amava. Tão longamente esteve nesta consideração que percebeu que seu pai o havia amado loucamente, e que Deus o punira, fazendo com que seu filho o odiasse e amasse mais os bens que lhe deixou do que a vida e a salvação de seu pai. (RAMON LLULL. Félix ou o Livro das Maravilhas, Livro VIII, cap. 48)
Figura 3
Hieronymus Bosch (c. 1450-1516). A Morte e o Avarento (c. 1490).
Óleo na madeira (93 x 31 cm) - National Gallery of Art, Washington
Apesar de pertencer a outro tempo, Bosch olha para trás e retrata temas medievais, embora com perspectiva distinta. Na cena, um anjo suplicante (à direita) intercede junto à luz de Cristo pela alma do avaro que, mesmo em seu leito de morte, recebe de um monstro o lucro sujo de sua usura. Repare na face macilenta da morte, vestida de branco e portando uma fina seta, e nos estranhos seis seres que espreitam a cena, desde o anjo maléfico de negro acima da capa, até o homem-rato que recebe a moeda do contador do usurário no cofre. Observe que mesmo com todo o ambiente sinistro da pintura, ainda há esperança para o avaro, coisa impensável trezentos anos antes.
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Duas imagens significativas (figuras 2 e 3): da morte do usurário do século XIII para a do avarento do século XV há um abismo conceitual imenso, em que pese a permanência do tema. Observe: na pintura de Bosch um anjo de Deus intercede pelo usurário impenitente. Por que? O pintor quer reabilitar a riqueza? Enquanto a pobreza é elevada na iluminura do século XIII e o rico usurário não tem outro destino senão o Inferno, no século XV Bosch destaca a intervenção angélica pela alma do usura, isto é, existe a possibilidade dele ser salvo mesmo sendo impenitente, mesmo ainda recebendo seu lucro no leito de morte. Além disso, Bosch ressalta a figura macilenta da Morte, seguindo a tradição de seu tempo, fascinado pela Dança Macabra.
São atitudes diferentes diante do lucro. Por outro lado, no século XIII a morte é coletiva: usura e mendigo estão cercados - o segundo por santos e pela Virgem. Já o avaro de Bosch tem apenas seu contador. Está só. Apesar de colocá-lo cercado de figuras diabólicas, Bosch faz o espectador olhar para o alto, para o Cristo e Seu delicado feixe de luz. Portanto, na pintura de Bosch há um fio de esperança para o usurário impenitente, há espaço para seu perdão. No século XIII, século do cristianismo, isso seria inimaginável (LE GOFF, 1989).
Assim, a morte na Idade Média era uma agonia apenas para o usurário. Ela era temida porque era imprevisível, mas desejada pelo cristão quando anunciada, em sonhos ou visões. Ramon explica a seu filho o porquê do temor da morte e a necessidade (a virtude) de se temer a Deus:
Filho, sabes por que a morte é temível? Porque não podes fugir dela e não sabes quando ela te levará. Assim, se temes a morte, que não pode te matar mas somente teu corpo, temerás a Deus, filho, que pode colocar teu corpo e tua alma no fogo perdurável. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XXXVI, 9).
Naturalmente, essa era a morte no leito lenta e domesticada daquele que havia sobrevivido ao infanticídio, às intempéries da natureza, às doenças e às fomes. Mas havia também a morte na guerra, a morte antecipada, momento supremo do cavaleiro. Eles iam alegres, cantantes e ansiosos em direção à morte. Os trovadores nos contam da felicidade daqueles cavaleiros rudes quando da chegada da primavera e do momento do combate.
Bertrand de Born (1159-1197) nos fala das flores e folhas coloridas, das aves que cantavam e dos cavaleiros que gritavam “Avante”:
Digo-vos, já não encontro tanto sabor
no comer, no beber, no dormir
como quando ouço o grito “Avante!”
elevar-se dos dois lados, o relinchar dos cavalos sem cavaleiros na sombra
e os brados “Socorro! Socorro!”
quando vejo cair, para lá dos fossos, grandes e pequenos na erva;
quando vejo, enfim, os mortos que, nas entranhas,
têm ainda cravados os restos das lanças, com as suas flâmulas.
(citado em BLOCH, 1987: 307)
Assim a Idade Média tratou da morte: um rito de passagem para a morada definitiva da alma, a derradeira peregrinação do homem-viajante medieval (ZIERER, 2002). Tudo indica que o sentimento mais comum em relação à essa cerimônia é a palavra serenidade. Como o mundo dos vivos estava ligado ao dos mortos - e o papel dos mosteiros era exatamente o de interceder junto ao além pela sociedade terrestre - a morte era encarada com tranqüilidade e resignação. Paz.
A morte então foi domesticada nas consciências (ARIÈS, 1989: 19-20). Pelo menos na de cavaleiros e clérigos. A morte foi esperada e reconhecida (LAUWERS, 2002: 243), até mesmo desejada. Foi preciso a Idade Média chegar a seu fim para que novas formas (negativas) de compreensão da morte tomassem conta dos espíritos, como, por exemplo, o conceito de macabro, a Dança da Morte Macabra, que tomou conta dos afrescos e das gravuras em madeira, e exprimia a profunda angústia dos tempos da Peste Negra e da Guerra dos Cem Anos (HUIZINGA, s/d: 145-157).
Figura 4
Liber Chronicum, de Hartmann Schedel (séc. XV).
In: Représentations diverses de la mort (Patrick Pollefey)
As ordens mendicantes tiveram seu papel na difusão dessa nova espiritualidade e concepção do além no século XIII. Os pregadores franciscanos e dominicanos lembravam às massas a corruptibilidade de todas as coisas. O cadáver putrefato era a imagem preferida dos sermões. Carne associada ao pó e aos vermes (HUIZINGA, s/d: 145).
Neste aspecto, a mensagem que Ramon Llull ensina a seu filho a respeito da morte é muito próxima da espiritualidade franciscana, além de muito contundente:
Filho, cogita na morte para que não sejas orgulhoso,
pois a morte inclina o corpo a grande vileza,
tornando-o impotente, e coloca-o sob a terra,
fazendo-o comida de vermes e horrível de se ver,
tocar e cheirar, tornando-o pó e cinza.
(RAMON LULL. Doutrina para crianças, cap. LXXXVIII, 2).
II. Da Morte para o Além
O que esperava o crente após sua ressurreição? Melhor perguntar assim: o que o crente acreditava que o aguardava no Além? Nessa viagem da alma, nessa transposição de um mundo para outro (ZIERER, 2002), nessa passagem do mundo das imperfeições e das coisas corruptíveis para o mundo da perfeição e das coisas eternas e incorruptíveis, os homens imaginaram o Além de diferentes maneiras, muitos especialmente influenciados pelas leituras da Bíblia - especialmente pelo Novo Testamento (Mt 25, 31-46; Jo 5, 25-29; Lc 23, 43; 2 Co 12, 4; Ap 2, 7) (LE GOFF, 2002: 22).
Adriana Zierer analisou estas imagens e concluiu que algumas percepções construídas nos livros apócrifos dos séculos II e III ajudaram a elaborar o imaginário cristão medieval do Além (ZIERER, 2002):
Quadro 1
| (séc. II) | (séc. II) | | | (séc. II) |
| céu, pede ao anjo que o guie até o Éden | cidade num vale cheia de coisas boas; sete anjos levam-no ao inferno. Ele desce 70 degraus, vê portas ardentes e um rio de fogo com uma ponte onde caem os maus | bem-aventurados na montanha sagrada; eles vivem num lugar luzente, cheio de especiarias e plantas; há um rio de fogo com rodas de fogo para castigar os pecadores e mergulhá-los | no Paraíso terrestre, onde corre um rio de leite e mel. Há sete castigos para os condenados: sede, frio, calor, vermes, mau cheiro uma roda de fogo e um rio onde eles são afogados | |
Ao pensarem o Além, ao preocuparem-se com o pós-morte, os medievais tornaram a realidade transcendente: como o mundo dos vivos, o mundo material, era efêmero, era um mundo de aparências, era uma representação - uma imagem, uma idéia de algo (ABBAGNANO, 1998: 853) - a vida no mundo deveria voltar-se para o verdadeiro significado oculto por trás do véu da matéria. Esse sentido da vida humana era dado pelo mundo do Além.
Assim, ao invés de buscarem na natureza um conjunto de regras e princípios, os medievais pretendiam sondar os mistérios das coisas, sua simbologia (PERNOUD, s/d: 160). Faziam isso para recordarem-se que o mundo foi criado num ato de amor, que funcionava por amor - o amor que move o Sol e as outras estrelas (DANTE ALIGHIERI, 1998, canto XXXIII: 234) - e essa contemplação deveria orientar os espíritos de volta para Deus, salvando-os do Inferno.
Para muitos, especialmente os neoplatônicos, o mundo sensível era apenas uma sombra, um indício, um caminho para se passar do sensível ao inteligível, da sombra para a luz (GREGORY, 2002: 265-266). Assim, a realidade encontrava-se justamente no Além (LE GOFF, 1984, volume II: 325). A verdade era que Inferno e Paraíso existiam e eram imutáveis e eternos; o mundo não.
III. O Inferno
Figura 5
Dante. A Divina Comédia. O Inferno. Canto XVIII.
MS. Holkham misc. 48 (formerly Norfolk, Holkham Hall, MS. 514), p. 27.
À esquerda, Dante e Virgílio observam no oitavo círculo do Inferno (chamado de Malebolge - “maus bornais”') os rufiões, sedutores, aduladores, flageladores, todos golpeados por “diabos chifrudos com relhos grosseiros” e imersos em esterco.
*
Ramon Llull termina seu livro Doutrina para crianças (c. 1275), dedicado a seu filho Domingos, com uma descrição do Inferno e do Paraíso. Na pedagogia medieval, a lembrança do Além domesticava os espíritos, tornava-os mais serenos, mostrava-os que esse tempo era efêmero, que deveriam se preocupar com a salvação de suas almas. A educação pretendia oferecer uma base metafísica e moral, ocupando a mente e o coração da criança (D'HAUCOURT, 1994: 87).
Ao descrever o Inferno para seu filho, Llull dá pistas interessantes para o historiador. Sua geografia infernal é bem hierarquizada. Logo de início ele divide o Inferno em quatro espaços:
O Inferno está no meio de um lugar que fica dentro do coração da Terra. Tal lugar é trancado e fechado, e ali existe pena por todos os tempos. Esta pena acontece em quatro lugares: o Inferno, onde estão os danados que nunca sairão; o Inferno chamado Purgatório, onde o homem cumpre penitência pelas coisas que não cumpriu neste mundo; o terceiro Inferno, chamado Abraão, lugar onde entraram os profetas que viveram antes do Filho de Deus ser encarnado, e o quarto Inferno, onde entraram as crianças que não foram batizadas. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 1)
Nesta descrição geográfica mesclam-se o novo e o antigo. O Purgatório é a grande novidade: em 1254 este novo lugar do Além já havia sido objeto de definição por parte do papa Inocêncio IV (LE GOFF, 1993: 329-330). O terceiro inferno, Abraão, recebe este nome devido a uma passagem bíblica, a história do mau rico e do pobre Lázaro (Lc 16, 19-31). Ali encontra-se a expressão judaica “seio de Abraão”, que corresponde à locução bíblica “reunir-se a seus pais” (Jz 2, 10; Gn 15, 15; 47, 30; Dt 31, 16).
Na história contada por Jesus, o pobre morre e é levado pelos anjos ao seio de Abraão; o rico é enterrado e vai para a “mansão dos mortos”. Ali, “em meio a tormentos”, o rico vê Abraão e Lázaro, e pede água para refrescar a língua. Abraão lhe diz que ele era rico e Lázaro pobre, agora, no Além, Lázaro é consolado e ele atormentado. Além do mais, há um “grande abismo” entre o paradisíaco seio de Abraão e a mansão dos mortos (Lc 16, 23-26), e quem está do lado infernal pode ver o que perdeu, aumentando ainda mais o seu sofrimento.
Assim, na Bíblia, o seio de Abraão é um lugar próximo do Paraíso. O mesmo sucede com o cristianismo primitivo. Em sua Vida de São Martinho (séc. IV), Sulpício Severo tem duas passagens onde comenta o enterro de São Martinho de Tours (c. 316-397):
Após essas palavras, ele (Martinho) viu o diabo à suas costas. “Por que estais aí besta sangrenta?”, disse ele, “Tu não acharás nada em mim, maldito, pois o seio de Abraão me acolhe” (...) Martinho é aplaudido pelos salmos divinos; Martinho é honrado pelos hinos celestes; aqueles lá (do mundo) serão precipitados após seus triunfos (nesse mundo) dentro do cruel Tártaro; Martinho é acolhido alegremente no seio de Abraão; Martinho, pobre e modesto, penetra rico no céu. De lá, espero, ele nos protege (SULPÍCIO SEVERO, 1967, vol. 1: 343 e 345).
No entanto, essa tradição sofreu uma mudança geográfica com o passar do tempo. Por exemplo, no final do século XII, aquela passagem bíblica foi reinterpretada por Pedro, o Devorador (†1179), discípulo de Pedro Lombardo († 1160), chanceler da Igreja de Paris, professor de Notre-Dame de 1159 a 1179. Em sua Historia Escolástica ele nos conta:
Lázaro, diz ele, foi colocado no seio de Abraão. Estava com efeito na zona superior do lugar infernal, onde há um pouco de luz e nenhuma pena material. Era aí que estavam as almas dos predestinados, antes da descida do Cristo aos infernos. A esse lugar, por causa da tranqüilidade que nele reina, chamou-se seio de Abraão, como chamamos o seio materno. Deu-se-lhe o nome de Abraão porque ele foi a primeira via de fé (citado em LE GOFF, 1993: 190).
Pedro, o Devorador foi um dos criadores do Purgatório como lugar determinado - ao lado de Odon d'Ourscamp (†1171). Assim, Ramon Llull mantém a tradição bíblica do “seio de Abraão”, mas coloca-o como um dos lugares do Inferno ao lado do novo espaço, o Purgatório, além do limbo das crianças que não foram batizadas (ROQUER, 1960: 841). O seio de Abraão seria então o lugar das espera dos justos. Nas palavras de Le Goff, o seio de Abraão foi “primeira encarnação cristã do Purgatório.” (LE GOFF, 1993: 61), próximo do Paraíso (para o cristianismo primitivo) ou no Inferno (no século XIII). De qualquer modo, as concepções espaciais dos cristãos medievais em relação ao Além eram mesmo muito contraditórias (GURIÉVITCH, 1990: 112).
Bem, estas divisões que Llull cria para o Inferno tentavam responder a uma importante questão para os teólogos medievais: como coordenar a eternidade com o tempo? Mais precisamente: o que acontece com os profetas que viveram antes de Cristo, se Ele é a única fonte de salvação e redenção? Estariam salvos mesmo tendo vivido antes da vinda redentora de Jesus?
Se a resposta fosse afirmativa, criar-se-ia o seguinte problema: Cristo redimiu os homens no tempo; se os homens que viveram antes de Cristo estão redimidos antes de Sua encarnação, Ele então encarnou-Se no tempo desnecessariamente. Assim, os medievais, Llull inclusive, responderam não: os profetas que viveram antes da vinda de Cristo deveriam aguardá-Lo em um espaço infernal chamado Abraão. Somente após o retorno de Cristo e sua descida aos infernos para resgatá-los eles poderiam ir para o céu. Llull segue então a tradição judaico-cristã:
Amável filho saiba e creia que quando a alma de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo deixou Seu corpo morto na cruz, incontinenti desceu aos infernos e vendo Adão, Abraão e os outros profetas e santos, arrancou-os à força dos demônios e de sua prisão e colocou-os na Glória Celestial que não terá fim. No momento que Adão viu chegar seu Senhor e Seu Criador para livrá-los dos trabalhos e da dor onde estiveram cinco mil anos, disse: ‘estas são as mãos que me criaram e me formaram e este é o Senhor que Se lembrou de nós em Sua Glória.’” (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 3)
A descida de Cristo aos Infernos foi popularizada na Idade Média pelo apócrifo Evangelho de Nicodemo (LE GOFF, 1993: 63). É possível que Llull tenha conhecido essa versão. Para que seu filho imagine as penas infernais, Llull utiliza a analogia, típica forma de pensar da Teologia (ROQUER, 1960: 764) e da Idade Média - se pensava que a lei de criação fora a analogia (GURIÉVITCH, 1990: 80). Como se sabe, o raciocínio é analogante na medida em que conclui em virtude de uma semelhança entre os objetos sobre os quais raciocina, objetos que são diferentes, embora estes se assemelhem sob algum aspecto, ponto de partida da analogia. Analogia é uma síntese da semelhança e da diferença.
Mas o que é mais importante é que a analogia se refere a um conceito, de modo que se uma das coisas significadas pelo conceito está ao nosso alcance e a outra não, pode-se conhecer a segunda pela primeira, como por um espelho.
Naturalmente, no caso em questão, o filho de Llull não tinha conhecimento das representações do Inferno e do Paraíso. Assim, para demonstrar o espaço do Além, o filósofo se vale inicialmente da imagem do mar. O Inferno é como um mar borbulhante e cheio de fogo ardente, com grande peixes que devoram os homens.
Llull pede ao filho que imagine “...os gritos, as vozes e o pavor daqueles homens que não poderão se defender daqueles peixes, dragões infernais, dos quais não se poderá fugir.” (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 2). Imersos nessa água borbulhante, os danados, como os legumes no óleo fervendo, sentirão muita dor (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 4). A porta do Inferno é como a boca de um dragão, cheia de dentes: pecadores e infiéis nunca cessam de cair ali (XCIX, 5).
Do mar para o fogo. A segunda analogia relaciona as penas infernais com o fogo. A fornalha onde cozinham o pão e onde moldam o vidro, o chumbo, o ouro e a prata. A vida cotidiana do ferreiro serve de motivo para que Llull peça ao filho para imaginar o pavor dos homens no inferno:
Filho, para que tenhas temor do fogo infernal que dura todo o tempo, vê a fornalha onde fazem o vidro e o forno onde cozinham o pão, e considera estar uma hora naquele fogo (...) Quando vires fundir o chumbo, o ouro e a prata, imagina um buraco cheio de chumbo ou ouro fundido. Se tu estivesses na boca desse buraco, terias pavor quando te ligassem as mãos e os pés e o colocassem em um saco, amarrando uma grande pedra em teu colo e te jogando no buraco. Logo, tenhas pavor, filho, desse fosso cheio de ouro e prata fundida, onde estão os homens que por ouro e prata perderam a glória de Deus. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 7-8)
Os diabos devoram os homens no Inferno. Como seu filho pode imaginar isso? Llull recorre à imagem dos cães devorando a carniça:
Quando fores para fora dos muros da cidade e encontrares as bestas mortas que o homem expulsa para o vale, verás muitos cães, grandes e pequenos, que roerão aquelas bestas, as orelhas, os olhos, a cara, os braços e as pernas, e entrarão do ventre e roerão teus ossos e comerão teu coração e tuas entranhas, então é certo, filho, que cogites nos infernados, que estarão pelos campos e virão os demônios semelhantes aos cães, leões e serpentes, e morderão aqueles homens, suas cabeças, seus braços e seus membros e não poderão morrer nem escapar daquela pena. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. XCIX, 10)
Hoje todas essas descrições do Inferno e do sofrimento dos condenados parecem muito aterrorizantes para serem incutidas na mente de uma criança com cerca de dez anos. Mas na educação do século XIII, a lembrança das penas infernais era um bom motivo pedagógico para que as crianças aprendessem que deveria amar a Deus acima de tudo, que deveria fazer as coisas tendo Deus como primeiro motivo (SANTANACH I SUÑOL).
Pois para as mentes do século XIII, amor e temor caminhavam juntos: mesmo o bom príncipe deveria ter como primeira virtude o temor, o temor a Deus; mesmo a sabedoria estava entrelaçada com o temor (VILLALBA, 2002). Assim, era muito natural que se enfatizasse o caráter punitivo de Deus - deve-se levar em conta também o caráter moral e catequético da obra Doutrina para crianças.
IV. O Paraíso
Figura 6
Dante. A Divina Comédia. O Paraíso. Canto XXXIII.
MS. Holkham misc. 48 (formerly Norfolk, Holkham Hall, MS. 514), p. 147.
São Bernardo (à esquerda) pede à Virgem que fortaleça a visão de Dante para que ele possa ter a visão da imagem de Deus. Dante (à esquerda, abaixo) vislumbra-O por um instante como a representação da Trindade (três círculos de cores), cercado por um exército de anjos.
*
Ao iniciar e findar o último capítulo da Doutrina para crianças, sobre o Paraíso, Ramon Lull diz a seu filho que suas mãos não podem escrever toda a glória do Paraíso (C, 1) e que quanto mais fala da glória celestial, mais percebe sua incapacidade de contar e significar a glória do Céu (C, 11). Humildade. Mas além dessa virtude tipicamente cristã e medieval, ele também mostra assim a dificuldade humana de conceber o puro deleite espiritual da contemplação divina, dificuldade também encontrada por Dante - e magnificamente resolvida.
Após esse mea culpa resignado, Llull inicia o tema com as faculdades intelectivas da alma: no Paraíso, Deus demonstra-Se (em Sua Unidade, Trindade e Essência) à lembrança, ao entendimento e ao desejo da alma. Fica claro que a intelectualidade no paraíso luliano é importante para a elevação mística até Deus - a partir do século XII alguns intelectuais relacionaram os espaços celestes com o intelecto, como, por exemplo, Honório de Autun e sua terceira esfera celeste intelectual (GURIÉVITCH, 1990: 94). As almas dos bem-aventurados têm suas capacidades estendidas e plenamente realizadas na trindade operacional da alma (os atos de lembrar, entender e desejar). Há uma complementaridade simbólica perfeita do número três: a Trindade de Deus integra-se com à trindade da alma e do corpo humano:
Filho, se tu entrasses no Paraíso, teus olhos corporais veriam os corpos de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, teus olhos espirituais veriam a Sua alma, e teu entendimento veria uma semelhança de Sua natureza com a da Deidade. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. C, 4)
Quando a alma cumpre sua finalidade - a glória de contemplar a Deus - se deslumbra encantada com o espetáculo das luzes que o rodeiam:
Filho, verás Nossa Senhora Santa Maria diante de Nosso Senhor Deus Jesus Cristo, e verás uma procissão e uma fileira de todos os anjos, arcanjos, mártires, profetas, virgens, confessores e abades; e ouvirás que todos, com cantos de muito grande doçura, louvam e bendizem Nosso Senhor Deus, por todos os tempos, como Deus estará no céu e durará em Sua glória, perduravelmente sem fim. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. C, 5)
O deleite celestial da visão completa-se com o da audição. Na contemplação do Paraíso, o eleito se deliciaria com a música dos astros bem-aventurados naquela procissão ao redor do Cristo - na iluminura do Paraíso de Dante (figura 6), a procissão é composta por anjos. Imaginar a música no Paraíso tem uma explicação: no século XIII entendia-se o universo como uma harmonia musical, cada estrela tinha seu próprio som, sua própria nota, pois o amor divino no momento da criação do mundo tornara-o uma perfeita sinfonia celeste - a harmonia das esferas celestes é descrita, por exemplo, por Honório de Autun, em sua obra De imagine mundi (séc. XII) (BOEHNER & GILSON, 2000: 278).
Somado a esse resplendor, a esse espetáculo harmônico, o corpo seria glorificado com a liberdade total, liberdade de espaço, de movimento, de ausência de qualquer necessidade:
Amável filho, se entrares no Paraíso, terás teu corpo glorificado, pois nunca morrerás, e estarás onde desejares estar, e passarás por qualquer lugar que desejares; e imediatamente quando desejares estar num lugar, imediatamente lá estarás; serás mais brilhante que o sol; não terás fome, sede, calor, frio, dor ou qualquer paixão, e estarás todos os tempos nesta bem-aventurança que serás ainda muito maior (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. C, 7).
Por fim, Llull faz uma interessantíssima analogia dessa bem-aventurança do Paraíso com o jogo de xadrez! Para que seu filho imagine a grandiosidade da felicidade de poder contemplar Deus em Sua glória, ele pede que Domingos faça uma multiplicação com as casas do jogo de xadrez:
Quando estiveres sentado diante o tabuleiro de xadrez, faça este cálculo: compara a primeira casa com toda a bem-aventurança deste mundo, na segunda coloca toda a bem-aventurança que existiria em dois séculos semelhantes a esse, e na terceira casa coloca toda a bem-aventurança de quatro mundos; e assim multiplica a bem-aventurança por todas as casas do tabuleiro; e quando as casas do tabuleiro não te bastarem, faz mais casas das estrelas do céu, das gotas de água do mar, dos grãos de areia e de todos os pontos que couberem entre o céu e a terra; e quando tudo isso não te bastares para multiplicar o número, pega todos os números que estiveram, estão e estarão no tempo pretérito, presente e futuro. Caso possas fazer isso, ainda assim não será o suficiente para comparar a glória de todos os séculos ditos acima com a glória do Paraíso, pois toda esta glória dita acima será finita, e a celestial Glória nunca terá fim. (RAMON LLULL, Doutrina para crianças, cap. C, 9)
Na Idade Média o xadrez gozou de uma popularidade jamais igualada no futuro (LAUAND, 1988: 23). Com profundo sentido alegórico, a simbologia desse jogo representava a guerra, a sociedade, a conquista amorosa (COSTA) e o drama moral do homem (LAUAND, 1988: 24).
Tomando como ponto de partida o xadrez, Llull faz com que seu filho trilhe uma viagem imaginária, das casas do tabuleiro para o céu, para o mar, e finalmente para o tempo (“todos os números que estiveram, estão e estarão no tempo pretérito, presente e futuro”). Além disso, a proposta de soma que Llull sugere a Domingos tem origem em uma antiga história indiana ligada à invenção do jogo de xadrez (por volta do século VI a.C.) - a exemplo das influências orientais já mapeadas quando da redação do Livro das Bestas (BONNER, 1989, vol. II: 13; COSTA).
Antigas lendas ligam a invenção do xadrez a números astronômicos associados às casas dos tabuleiros. A título de exemplo, uma versão que circula ainda hoje diz que Sissa, brâmane indiano, inventou o jogo de xadrez para curar o tédio do rei Kaíde. Este ficou tão satisfeito com o presente que prometeu dar ao brâmane qualquer coisa que quisesse. Sissa pediu então um grão de trigo para a primeira casa do tabuleiro, dois grãos para a segunda, quatro para a terceira, oito para a quarta, sempre dobrando, até a casa sessenta e quatro - a mesma soma que Llull sugere ao filho no trecho da Doutrina para crianças para que imagine a bem-aventurança do Paraíso.
O rei Kaíde ficou surpreso com um pedido que parecia tão humilde e concordou. No entanto, quando foram feitas as contas, o rei viu que nem todos os tesouros da Índia juntos poderiam pagar o pedido de Sissa! O resultado da soma - associar 1 à primeira casa do tabuleiro, 2 à segunda, 4 à terceira, 8 à quarta, 16 à quinta, etc. - é um exemplo dos chamados números monstruosos: 18.446.744.073.709.551.615. O tesoureiro do rei disse que seriam necessárias 16.384 cidades, cada uma com 1.024 celeiros de 174.762 medidas e 32.768 grãos em cada medida. A coroa teria que semear 65 vezes toda a terra para obter mais de dezoito quinquilhões de grãos de trigo! (MATTOS).
Dessa forma, Llull se baseia naquele antigo conto indiano para sua projeção do Além, que tem como base o raciocínio. Sua capacidade de imaginar o Paraíso tem como eixo norteador o intelecto. Pelo contrário, sua percepção do Inferno é calcada basicamente nos sentidos corporais, nas dores do corpo do danado. Há, portanto, uma clara associação simbólica invertida nos dois textos: Inferno/sentidos corporais (coisas inferiores porque ligadas ao corpo) e Paraíso/capacidades intelectuais (coisas superiores porque ligadas às faculdades da alma).
Conclusão
Na Idade Média a morte foi domesticada nos corações. Desejada pelos guerreiros, aguardada pelos religiosos, temida por ser inesperada, a morte foi sentida como um rito de passagem para um outro mundo, o Além. Os medievais percebiam o Além como uma realidade: a Idade Média foi o tempo do Além. A preocupação com o pós-morte foi uma constante em suas vidas. E de todos os homens, o usurário foi o contramodelo social escolhido para representar as opções da geografia do Além, qual a localização das vidas futuras dos crentes. Assim, o Além espelhou, em certa medida, todo o emaranhado imaginário de esperanças, de expectativas e de angústias de toda uma sociedade, daquela sociedade dita medieval.
O dilema da finitude humana sempre fez parte do âmbito religioso; as religiões lidaram com a questão da morte e do Além. Da imagem da morte e suas representações - um tema cheio de silêncios voluntários e involuntários (VOVELLE, 1996: 18-19) - o Além é um espaço-espelho da sociedade que o imagina. Espaço-reflexo perfeito (Paraíso) mas também invertido (Inferno). Curiosamente há também uma inversão no espaço perfeito, pois no caso do cristianismo, no Paraíso “os últimos serão os primeiros” (Mt 20, 16) e as crianças estarão à frente dos adultos (Mt 18, 1-4). Tratava-se de uma proposta revolucionária, subversiva, pois alterava a hierarquia social que estruturava a sociedade.
As representações do Além que Ramon Llull apresentou a seu filho têm dois importantes acréscimos ao imaginário medieval: as influências dos contos orientais e o tema da intelectualidade ligado à contemplação divina. Ao ressaltar as faculdades intelectivas da alma, o beato maiorquino dá um passo em direção ao racionalismo, sem, no entanto, deixar de lado a espiritualidade mística de tons franciscanos tão característica da síntese realizada pelo seu tempo, o século XIII. Pensar o mundo dos mortos era a melhor forma de melhorar o dos vivos, de torná-lo mais semelhante aos desejos de Deus.
*
Este artigo é dedicado a cinco queridos amigos: Esteve Jaulent, presidente do Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, que carinhosamente lê criticamente meus textos, Edmar Checon de Freitas, sempre solícito em discutir as recepções medievais dos temas do cristianismo primitivo - especialmente o século IV e “seu” Martinho de Tours -, Alexander Fidora (J. W. Goethe-Universität, Frankfurt am Main, Alemanha), teólogo e filósofo que sempre me auxilia a compreender a mente dos medievais, Jean Lauand (USP), que, além de ter sempre palavras de incentivo e estímulo, desvendou maravilhosamente a conta proposta por Ramon Llull em seu jogo de xadrez, e Sidney Silveira, meu estimado irmão filósofo, que sempre ilumina minhas idéias com suas reflexões metafísicas.
*
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A Guerra Civil de Espanha e o nazi-fascismo


MAUTHAUSEN EL UNIVERSO DEL HORROR
INTRODUCCIÓN (*)
La maquinaria exterminadora del Tercer Reich acabó con la vida de 12 millones de personas de toda la Europa ocupada y de la misma Alemania: judíos, resistentes, objetores de conciencia, gitanos, homosexuales y enfermos. Entre ellas, unos 10.000 republicanos españoles internados especialmente en el campo de concentración de Mauthausen, los hombres, y en el de Ravensbrück, las mujeres, de las cuales murieron unas 7.500. Su destino había quedado sellado al acabar la Guerra Civil Española cuando emprendieron el camino del exilio en calidad de vencidos.
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El año 1945, una vez liberados los campos, los supervivientes no pudieron volver a la España de Franco y se instalaron casi todos en Francia. Allí intentaron reconstruir su vida, luchando por la recuperación de su dignidad y por el mantenimiento de la memoria.
1931-1939
La república y la guerra civil en España
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Proclamada pacíficamente la Segunda República el 14 de abril de 1931, se abrió una nueva etapa histórica caracterizada por la voluntad política de iniciar un proceso de democratización y modernización. Este proceso se llevaría a término a partir de la separación de la iglesia y el estado; la ampliación de la enseñanza; la concesión del derecho de sufragio para la mujer; las reformas agrarias, social y del ejército; la solución a la cuestión autonómica con el restablecimiento de la Generalitat y la aprobación del Estatuto de Autonomía de Cataluña el año 1932 y de la formación del gobierno vasco y la aprobación de su Estatuto el 1 de octubre de 1936.
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La decidida voluntad de las derechas para evitar transformaciones que afectasen a sus intereses y la impaciencia de la clase obrera por ver satisfechas sus aspiraciones, debilitaron la coalición republicana socialista, que fue sustituida en el gobierno por las fuerzas conservadores durante el Bienio Negro. La paralización de las reformas, las conspiraciones militares y la violencia de los grupos fascistas generaron enfrentamientos que se agravaron el año 1934 con la revolución minera de Asturias y los hechos del 6 de octubre en Cataluña.
El proyecto de dominación de Hitler
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El ascenso de Hitler al poder el año 1933 fue posible gracias al apoyo de las grandes empresas, a la utilización de la fuerza paramilitar de la SA (Sturmabteilung, Sección de Asalto) y al miedo o cobardía de gran parte de la población alemana, a lo que rápidamente siguió el desarrollo de su proyecto de dominación. Una vez liquidado el estado democrático con la suspensión de los derechos individuales y de las libertades públicas, la disolución de los partidos políticos y de los sindicatos, la depuración del ejército y la administración, la sustitución del poder judicial por la Gestapo (Geheime Staatspolizei, Policía secreta del estado) y la formación de una élite dentro del partido, la SS (Schutzstaffel «Tropas de Protección»), Hitler puso en marcha su proyecto de dominación de Europa, con un demagógico llamamiento a la restauración de la grandeza del pueblo alemán, paralelo a la creación del mito y del culto irracional al líder.
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Las demostraciones de fuerza y el enaltecimiento pseudorracial se concretaron en la persecución de los adversarios políticos y en la criminalización racista. Todo esto hizo posible una serie de actos abominables y la creación de los campos de concentración, concebidos con el objetivo de apartar de la sociedad y castigar a los enemigos del régimen.
1939- 1945
Exilio y persecución de los republicanos
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Después de la derrota del ejército republicano casi 500.000 personas cruzaron los Pirineos. Fueron internadas en campos de concentración improvisados donde padecieron todo tipo de penalidades, similares a las que sufrieron los detenidos en los campos de la España de Franco.
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Las agresiones nazis en Europa
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Las acciones agresivas de Hitler, bajo la cobertura propagandística de la necesidad de «espacio vital» para la «raza» germánica, obedecieron a un plan meticulosamente preparado y provocaron unas relaciones cada vez más tensas y conflictivas con la Sociedad de Naciones y las democracias occidentales, que acabaron claudicando ante las anexiones territoriales de Austria y los Sudetes en 1938. La Conferencia de Munich, en septiembre del mismo año y la firma de un pacto de no agresión entre Stalin y Hitler fueron pasos decisivos en la imparable marcha hacia el este, desde la invasión de Checoslovaquia hasta el ataque a Polonia el 1 de septiembre del 39. La declaración de guerra por parte de Inglaterra y Francia tampoco impidió la rápida penetración y ocupación de la Europa nórdica y occidental, y finalmente la invasión de Rusia en junio de 1941.
El control y la represión policial, el envío de trabajadores hacia Alemania, el antisemitismo y el internamiento de los resistentes en prisiones y campos, mostraban la ignominiosa intención del Tercer Reich de hacer de Alemania el centro de una Europa sometida, explotada y limpia de enemigos por motivos étnicos y políticos. Los campos de concentración y exterminio, extendidos desde Francia hasta Rusia, fueron el medio más perverso dentro de este panorama de conquista, sumisión, explotación y eliminación de los adversarios.
EL MUNDO CONCENTRACIONARIO
La organización de los campos
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Para los nazis la persecución, la concentración y el exterminio formaban parte de la guerra y conciliaban dos objetivos: la eliminación de los enemigos y de las «razas inferiores» y cubrir la necesidad cada vez más urgente de mano de obra desde 1942. Para estas finalidades concibieron los campos de concentración y de exterminio, bajo el mando de Himmler, máximo responsable de las SS. Si los detenidos por la Gestapo eran entregados a las SS, entraban a formar parte de un universo regido por un poder ilimitado que llegaba a actuar como un estado dentro del estado.
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La organización de los campos estaba condicionada al cálculo entre inversión y gasto, tanto si se trataba de eliminación de los deportados como de su utilización como mano de obra esclava. Estos objetivos requerían la colaboración de todos los aparatos del estado como funcionarios, científicos, militares..., y de la gran industria alemana, así como el apoyo o el silencio de las autoridades y de parte de los habitantes de los países ocupados.
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Los campos eran complejos de muchas hectáreas, con numerosas instalaciones anexas y más de un millar de comandos exteriores que trabajaban en obras públicas, fábricas, fortificaciones o en la construcción de otros campos. La ubicación de los campos estaba condicionada por razones estratégicas, industriales, o militares, y los deportados útiles eran trasladados de un campo o comando a otro según las necesidades industriales del momento o la evolución de la guerra.
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Como inmensas ciudades siniestras, completamente aislados por muros, alambradas y flanqueados por torres de vigilancia, se extendían los barracones (blocks) donde se comía y se dormía, así como las instalaciones de exterminio: cámaras de gas y crematorios. En medio había grandes explanadas (appelplatz) donde se realizaban las interminables revistas y los castigos. Aquellas instalaciones contrastaban con las casas confortables de los miembros de la SS y sus familias construidas en los alrededores.
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La autoridad de cada campo la ejercía un comandante de la SS y la vigilancia estaba a cargo de guardias del mismo cuerpo, ayudados a veces por miembros del ejército, que conseguían así librarse de ir al frente. Al final de la guerra muchos campos quedaron bajo el mando de las policías locales de los países ocupados debido a la incorporación de los SS a las unidades militares propias (Waffen SS).
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La administración interna era ejercida por un miembro jefe que hacía de interlocutor entre los presos y los miembros de la SS. Dentro de cada block había un responsable que tenía a sus ordenes un ayudante para la limpieza, y los kapos, generalmente detenidos de derecho común (verbrecher) caracterizados por su crueldad y que se encargaban del contacto directo con los internos. Otras tareas especialmente deseadas como la limpieza, barbería y cocina eran ejercidas por deportados que, de esta manera podían ayudar en las situaciones personales más desesperadas.
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Los prisioneros que trabajaban en las cámaras de gas o en los crematorios formaban parte de los sonderkomandos (comando especial) y recibían un trato mejor, pero estaban aislados del resto de prisioneros y eran eliminados periódicamente para impedir la divulgación de su trabajo.
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| Cargos de la SS | Cargos de los prisioneros |
| Lagercomandant: Oficial superior del campo Verwaltungsführer: Resposable de la administración económica Lagerführer: Ayudante del oficial superior o jefe de los comandos Arbeitstatistik: Jefe de comando Lagerpolizei: Guardia del campo | Lagerältester: Responsable del campo, detenido encargado de la gestión interna del campo ante los SS Blockältester-Blockowa: Hombre o mujer responsable de un block Schreiber: Secretario del responsable del block Stubendieste: Auxiliar del responsable del block Kapo (KAmeraden y POlizei): Responsable de un comando de trabajo o de un servicio Prominenten: Barberos, cocineros,... |
Los campos de los Españoles
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Las mujeres y los hombres antifascistas que cayeron en manos de los nazis acabaron deportados a diversos campos de Alemania, Polonia y Austria como Dachau, Flossenburg, Auschwitz y Büchenwald. El destino de la mayoría de las mujeres, sin embargo, fue Ravensbrück y el de los hombres Mauthausen.
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El campo de Ravensbrück fue construido por prisioneros de Sachsenhausen el año 1939 y ampliado en tres ocasiones; hasta su liberación concentró 150.000 mujeres de las que murieron 92.000. 1942 fue el año de máxima afluencia. En los días anteriores a la liberación, centenares de prisioneras fueron obligadas a evacuar el campo en las «marchas de la muerte», de manera que, cuando el ejército soviético entró al recinto el 28 de abril de 1945, encontró miles de cadáveres y sólo unas cuantas mujeres supervivientes. El campo de Mauthausen, situado en la ladera de una colina sobre el valle del Danubio, fue concebido como campo central para toda Austria. Después de una visita, Himmler y Pohl consideraron la posibilidad de explotación, en beneficio de las SS de la cantera de Wienergraben, propiedad del Ayuntamiento de Viena hasta 1938. Un comando trasladado de Dachau comenzó a trabajar en condiciones de esclavos en la construcción del recinto.
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A partir de los 20 barracones iniciales, Mauthausen se convirtió en un enorme complejo fortificado, con construcciones anexas e instalaciones complementarias, a las órdenes del comandante Ziereis. Presidido por la gigantesca águila de bronce que todos los presos tenían que saludar al entrar y salir de las instalaciones, tenía 49 campos auxiliares extendidos por toda Austria y 70 comandos, por donde pasaron unos 200.000 deportados de los que murieron unos 120.000 . Después de los primeros prisioneros alemanes y austríacos, empezaron a llegar transportes procedentes de diferentes países, entre los cuales, en agosto de 1940, estaban los 10.000 republicanos españoles. Durante los años siguientes fue muy importante la afluencia de polacos, detenidos políticos de toda Europa y miles de prisioneros soviéticos, que fueron obligados a construir fuera del campo, la enfermería, tristemente conocida por sus horribles condiciones como «el campo ruso». Al final de la guerra ingresaron allí personas de países que habían sido aliados del nazismo como judíos húngaros y deportados de otros campos.
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La presencia de mujeres comenzó en 1942, con resistentes checas, yugoslavas, soviéticas... , hasta llegar a 5.000, sobre todo a partir de los transportes de Ravensbrück. El más importante de estos transportes llegó el 7 de marzo de 1945, con unas 1.800 mujeres entre las que había muchas españolas. Sometidas a un trato durísimo en comandos exteriores, las obligaron a trabajar y muchas murieron, bajo la acción de los bombardeos, hasta que su negativa a trabajar tuvo éxito.
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A 4 Km. de Mauthausen, se levanta el campo de Gusen, donde fueron eliminados la mayoría de los españoles débiles y enfermos. Unos 12.000 deportados bajo las órdenes del comandante Milesky, explotaban allí también una cantera. El año 1942 se crea Gusen II para utilizar un número similar de prisioneros, soviéticos, italianos y españoles, en unas galerías subterráneas, situadas a 30 km. y donde se fabricaba material de guerra para la empresa Steyr.
El traslado y la llegada
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Por carreteras y vías férreas circulaban transportes preparados especialmente y herméticamente cerrados donde se amontonaban centenares de personas. El viaje podía alargarse durante días o semanas sin que recibiesen comida ni bebida. La llegada al campo de los que habían sobrevivido al viaje, además del impacto producido por la visión de los internos, les provocaba una sensación de incomprensión de la realidad, de desesperación o de rendición ante las adversidades.
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Los deportados eran recibidos violentamente por los SS y sus perros, en una lengua que la mayoría no entendía. Los hacían formar bajo la mirada de personal especializado que decidía su exterminio o su utilización como mano de obra esclava.
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Una vez despojados de la ropa y del equipaje y con todo el cuerpo rasurado, los bañaban con agua helada o hirviendo, los desinfectaban y los inscribían con un número de matrícula que sustituía su nombre desde entonces. Los vestían con el uniforme con un triángulo de color cosido, según la categoría de los presos, y con la letra inicial del país de origen, o bien con el brazalete con la inscripción «idiota» para los enfermos mentales. Los deportados eran sometidos a cuarentenas durísimas, sonando canciones militares alemanas, con pruebas de resistencia que les hundían la moral y les debilitaban el cuerpo.
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El trabajo
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Los deportados trabajaban en beneficio de la misma SS, directamente o bien cedidos a centenares de empresas y de subcontratistas, que negociaban con el comandante del campo los contratos de retribución; generalmente consistían en seis marcos diarios por el trabajo de un prisionero cualificado, el coste del mantenimiento del cual era de un marco diario.
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A medida que era necesario sustituir la mano de obra alemana necesaria para el frente o bien acelerar la producción de las industrias de guerra, la explotación se intensificó, de manera que en agosto de 1944, en el conjunto del Reich había 7.600.000 trabajando en régimen esclavo.
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Enrolados en comandos dirigidos por los kapos, trabajaban en canteras, talleres subterráneos, excavaciones, fábricas de ladrillos, pantanos... o en tareas inútiles hasta la muerte o el límite de su resistencia física, entonces los deportados eran calificados de «musulmanes».
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Hasta el año 1939 la tarea prioritaria de los prisioneros de Mauthausen fue la construcción del mismo campo con la extracción de material de la cantera, que comprendía la tristemente famosa escalera de 186 escalones por la que los deportados tenían que cargar bloques de 30 o 35 kilos. A partir de 1941, los comandos del exterior cargaban piedras en la gabarras por el Danubio y construían los chalets de los SS, y en 1943 comenzaron a ser utilizados en industrias de armamento de toda Austria. El traslado de presos entre Dachau, Mauthausen y el castillo de Hartheim, donde se realizaban los experimentos médicos, fue continuo.
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Las internadas en Ravensbrück seleccionadas eran obligadas a trabajar en la Siemens, la Thyssen y la Industriehof, y a suministrar mano de obra a los campos de Mauthausen , Dachau, Flossenburg y Buchenwald; mientras que las más viejas o débiles esperaban su turno para los crematorios cosiendo mantas, uniformes o haciendo punto. Trabajar con lentitud y estropear la maquinaria fueron formas de sabotaje utilizadas por las mujeres resistentes.
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Algunas empresas explotadoras de la mano de obra esclava
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Siemens, Krupp, I.G. Farben, Daimler-Benz, Flick, AEG, Thyssen, Henschel. Industriehf, Steyr-Werke, BMW, Mittelbau, Schneider, AGW, Adler, Bayer, Volkswagen, Heinkel, Messerschmitt A.G. ...
La subsistencia
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La jornada de los internos se iniciaba de madrugada, con largas revistas, y acababa por la noche, cuando eran sometidos a nuevas formaciones, siempre bajo los imperativos de la alimentación mínima y de la máxima reducción del tiempo de sueño y de las horas de comer.
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A las terribles jornadas de trabajo, a la arbitrariedad de las órdenes, a la insalubridad y la precariedad del alojamiento y a los déficits alimenticios se añadía el frío y el agotamiento de las largas revistas y de los castigos. Estas condiciones hacían de todos los presos candidatos a terribles enfermedades como el tifus, disentería, tuberculosis, septicemia... y a la muerte en un término medio de tres a seis meses.
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Las torturas corporales eran también prácticas cotidianas: dolorosos colgamientos, castigos públicos, azotes con látigos de nervios de buey que tenían que ser contados en alemán por los mismos presos y aislamiento en celdas incomunicadas (bunker) sin comer ni beber... Estos castigos acababan a menudo con la muerte que también se les reservaba en sus modalidades más perversas como la aplicación de la «ley de fugas», lanzamiento contra la alambrada electrificada o el descuartizamiento por los perros.
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Los experimentos médicos
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Las prácticas sobre los cuerpos de los deportados, realizadas en los mismos campos o en empresas privadas, estaban dirigidas por el Instituto de Higiene de las Waffen SS, con la colaboración de médicos, laboratorios farmacéuticos e instituciones universitarias. La inoculación de enfermedades; pruebas para determinar la resistencia al frío, a la oscuridad, a la altitud; quemaduras; esterilizaciones encaminadas a métodos de exterminio biológico y vivisecciones con extracciones de huesos, nervios o músculos formaban parte de programas en los que los seres humanos se convertían en conejillos de indias (kanichen).
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A 17 km. de Mauthausen se alzaba el castillo de Hartheim, uno de los centros de eutanasia y de experimentación pseudocientífica más activos del Reich y donde fueron gaseados muchos republicanos.
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Las mujeres internadas en Ravensbrück sufrieron humillaciones y todo tipo de brutalidades: controles vaginales y selección para los prostíbulos de los SS, mutilaciones y abortos si el feto era inferior a 8 meses, asesinato de los recién nacidos delante de las madres..., crímenes que convertían la estancia en este campo en una experiencia dantesca para las deportadas.
La muerte
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Además de los suicidios por desesperación o inducción, la «ley de fugas» y las ejecuciones, los enfermos y los musulmanes morían con una inyección de bencina, ahogados en depósitos de agua o bien asfixiados en las cámaras de gas, desde donde eran conducidos a los hornos crematorios. Desde 1940 ya se rentabilizaban los cadáveres, mediante la extracción del oro de las dentaduras y la instalación de fábricas para la recuperación del cabello, de la ropa, de la grasa y de los huesos. La progresión del exterminio llegó a hacer insuficientes las instalaciones, de manera que tenían que cavarse grandes fosas para enterrar los cadáveres o bien ser almacenados para esperar turno para los hornos.
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La solidaridad y la resistencia
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Aunque existieron algunas revueltas y fugas, como la de los 400 soviéticos de Mauthausen en febrero de 1945, que solían fracasar y se castigaban con la muerte, los deportados con más fuerzas o ánimos eran conscientes de que la supervivencia era una lucha diaria que tenían que realizar con ingenio, y, sobre todo, manteniendo la moral alta a través de las relaciones personales y de grupo.
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Los que conocían oficios que podían ser útiles en aquellas circunstancias no ahorraban esfuerzos para reparar, por ejemplo calzado o ropa; los que tenían contactos con el personal interno en la enfermería o en las cocinas reanimaban a los más agotados o enfermos; los que seleccionaban los equipajes de los recién llegados conseguían objetos de utilidad, y otros simplemente transmitían información, cantaban o conversaban.
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La organización de comités clandestinos, nacionales o internacionales, fue habitual en todos los campos. Los integraban los deportados física y moralmente más fuertes y con más experiencia. A medida que iban ingresando prisioneros acostumbrados a la lucha y a la resistencia, como era el caso de los republicanos españoles y de los exmiembros de las Brigadas Internacionales, los comités iban tomando importancia, mientras se rehacían de los continuos golpes que recibían. Consiguieron realizar diversas acciones como la elaboración del croquis de los campos, transmisión de instrucciones para boicotear o retrasar el ritmo de trabajo y sobre todo la sustitución de los presos comunes por personas de confianza en los puestos de responsabilidad.
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En los últimos meses de la guerra, las organizaciones clandestinas pudieron agilizarse gracias a la marcha de los SS más jóvenes al frente y a su posterior sustitución por otros vigilantes. Cuando los ejércitos aliados llegaron a muchos campos, los encontraban controlados por los comités de resistencia que habían extremado su acción de autodefensa y se habían provisto de armas por miedo a una matanza generalizada antes de la huida de los SS. El año 1943, los deportados republicanos de Mauthausen habían constituido el Aparato Militar, que sería la base del Aparato Militar Internacional y que disponía de una estructura capaz de movilizar unos 5.000 deportados. Contribuyeron también a la formación del Comité Internacional Clandestino de la Resistencia, en mayo de 1944. Vinculados a los partidos comunistas, el Comité fue dirigido por los austríacos Léo Glaber, Franz Marsalek, Joseph Khol y el checo Artur London y más adelante, se incorporó el español Manuel Razola. Con la llegada de noticias sobre la proximidad de los ejércitos aliados, la actividad del Comité se intensificó, se negaron a cualquier traslado y a ser enrolados en unidades de las SS para combatir a los soviéticos, pero no pudieron evitar que muchos españoles fuesen obligados a destruir las pruebas del castillo de Hartheim.
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La liberación
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Las semanas que precedieron la llegada de los ejércitos soviéticos o americanos fueron infernales para muchos de los deportados y deportadas. Dentro de los campos la situación era crítica a causa de la falta de alimentos y por la inseguridad de lo que sucedía en el exterior, donde aún había combates. Bajo la consigna de que ningún prisionero podía caer en manos del enemigo, los nazis se apresuraron a liquidar a los enfermos y débiles. También evacuaron hacia otros campos, en medio del caos, a miles y miles de personas, la mayoría de los cuales no sobrevivieron al traslado, muriendo por el camino, bajo las bombas aliadas o fusilados por los SS.
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El campo de Mauthausen fue abandonado por los SS entre el 3 y el 5 de mayo de 1945, por miedo a una revuelta, y quedó bajo la custodia de la policía municipal de Viena, hasta que unos motoristas americanos lo localizaron el día 5 de mayo. Entonces el Comité Internacional se hizo cargo del control del campo y pusieron hombres armados en todos los puntos estratégicos para esperar la llegada del ejército aliado. En aquel momento quedaban 2.184 republicanos.
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Pero una vez liberados y después de organizarse las repatriaciones en trenes, camiones o aviones, los problemas de los españoles no acabaron aquí, ya que no tenían un país de acogida hasta que Francia accedió a la concesión de salvoconductos.
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El Hotel Lutetia de París, sede de la Gestapo durante la ocupación, se transformo en centro de asistencia de los deportados y allí fueron llegando los republicanos que habían de empezar a vivir, a recuperar lo que habían dejado y a prepararse para el futuro.
El destino de los verdugos
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Sólo una pequeña parte de los verdugos compareció ante los tribunales militares internacionales como los de Nuremberg o Dachau. No les sirvió de nada alegar deber de obediencia y pagaron su responsabilidad en la barbarie nazi; otros huyeron a América del Sur o a España, algunos se suicidaron o murieron intentando huir, como el comandante Ziereis de Mauthausen, y otros se camuflaron en la vida civil.
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La guerra fría sirvió para deformar la responsabilidad histórica; así, mientras los tribunales de desnazificación se decantaban por la clemencia y distinguían entre nazis, militares y alemanes, lo que permitió una rápida reinstauración en los cargos y en la vida pública de muchos de los responsables del exterminio, la población del Reich que había descubierto «con sorpresa» la realidad de los campos de concentración, seguía forjando su futuro ignorando que lo que había significado Hitler no hubiera sido posible sin su participación activa y sin su pasividad.
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EL MUNDO DEL HOMBRE LIBRE
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Epílogo
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Al abrirse las puertas del campo de Mauthausen, el 16 de mayo de 1945, el comité español añadió su firma a la de todos los comités clandestinos en el juramento hecho en nombre de todos los presos políticos y que finaliza con las siguientes palabras:
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«Recordando la sangre vertida por todos los pueblos y los millones de seres humanos sacrificados, asesinados, inmolados por el fascismo nazi, juramos no abandonar nunca el camino que nos hemos trazado. Sobre la base de la comunidad internacional queremos erigir, a los soldados de la libertad caídos en esta lucha sin tregua, el más bello monumento: EL MUNDO DEL HOMBRE LIBRE.
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Nos dirigimos al mundo entero para decirle: Ayúdanos en esta tarea.
| ¡Viva la solidaridad internacional! ¡Viva la libertad!» |
Las deportadas y deportados, acogidos con respeto y con el apoyo de los partidos y organizaciones de la resistencia y de los gobiernos de la mayor parte de los países, impulsaron asociaciones y dieron testimonio de su experiencia en actos públicos, diarios, revistas y otras publicaciones. Pero no fue el caso de los republicanos españoles; los pocos que volvieron a su país estuvieron condenados al silencio por la dictadura franquista y se refugiaron en la solidaridad de amigos y familiares.
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En 1962, un grupo de deportados y familiares fundaron en la clandestinidad la Amical Mauthausen , presidida por Joan Pagès, que hasta el año 1978 no fue reconocida oficialmente, con el objetivo de la defensa de la dignidad y de los derechos de las víctimas.
Para la generación protagonista y para todas las generaciones siguientes queda el compromiso moral y la responsabilidad histórica de no olvidar y de realizar una tarea constante de rechazo y denuncia del exterminio nazi, que algunos incluso llegan a negar, en un mundo en que las nuevas acepciones del nazismo no han dejado nunca de ser una amenaza frente a los valores democráticos de la libertad y la solidaridad.
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texto em
O Horror no Campo de Concentração nazi-fascista de Mauthausen
clicar na hipeligação acima para saber mais.
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ver aqui, no Momentos Breves, imagens da
Guerra Civil Espanhola
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