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domingo, 31 de maio de 2026

Ana Sá Lopes entrevista Carmen Garcia: “Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos”

 Entrevista Podcast O que fazer quando tudo arde

Conversa com a enfermeira e colunista do PÚBLICO Carmen Garcia sobre envelhecimento e de como a sociedade trata os mais velhos: “Em Portugal, a entrada no lar é sinónimo da saída da sociedade”.

* Ana Sá Lopes

31 de Maio de 2026

Contrariando os seus pseudónimos “mãe imperfeita” e “enfermeira imperfeita”, Carmen Garcia, colunista do PÚBLICO, é perfeita a falar daquilo a que tem dedicado a sua vida: cuidar de idosos. No seu sotaque doce e alentejano, diz tudo o que está errado nesta sociedade idadista, em que “todos queremos chegar a velhos, mas [em que] ninguém quer ser velho”. E aponta a patologia de uma sociedade animalizada, em que a vida de um humano perdeu o valor face à vida de um animal.

O que é que hoje suscita mais compaixão à maioria das pessoas? Um idoso abandonado num lar ou um cão abandonado num canil?

Um cão abandonado num canil. O cão, obviamente. Ainda bem que temos leis que protegem os animais, mas ainda mal que não temos leis que protegem os mais velhos, porque na verdade não temos. Temos agora um estatuto, mas eu olho para esse estatuto quase como um apanhado de boas vontades. O estatuto, por enquanto, ainda é só uma ideia. Mas entre um velho e um cão eu não tenho nenhuma dúvida que a esmagadora maioria das pessoas escolhe o cão.

Há uma desumanização em curso.

Há uma desumanização em curso e uma animalização. Acho que estamos já um bocadinho dentro do campo da patologia. Há aqui uma parte em que acho que isto já não é normal, nem saudável. Tenho uma gata que adoro. Mas a minha gata não é a minha filha — é a minha gata. Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos.

Há pouco tempo, numa discussão com uma colega, ela dizia que se houvesse um incêndio, não tinha dúvidas nenhumas, que entre uma pessoa que ela não conhecia de lado nenhum e o cão dela, ia tirar de lá o cão. Sou incapaz de compreender isto. Quer dizer, eu teria muita pena se acontecesse uma coisa destas à minha gata, mas, bolas, primeiro iria sempre tirar a pessoa.

Agora, isto piora muito se a pessoa, ainda por cima, for uma pessoa mais velha. Há uns anos, houve na minha cidade, Vendas Novas, no mesmo dia, à porta dos supermercados, duas campanhas. Uma era para angariar comida para os animais lá do canil e a outra tinha a ver com uma iniciativa para ajudar a população mais idosa. Foi uma coisa esmagadora, a diferença de adesão entre as duas coisas. A velhice não é sexy. A velhice é uma coisa que a gente arruma na gaveta, naquela gaveta que está fechadinha ao lado da nossa própria mortalidade.

Nós todos queremos viver muito e todos queremos chegar a velhos, mas ninguém quer ser velho. Vivemos presos nesta dualidade — queremos muito chegar lá, mas não queremos ser. Eu não sei se as pessoas ficam assustadas quando são confrontadas com a velhice dos outros, porque aquilo obriga-as a abrir a gaveta e a pensarem na sua.

Não somos uma sociedade que goste de velhos, e isso é notório para quem trabalha com estas pessoas todos os dias. E são pessoas que não têm voz. Apesar de tudo, os jovens têm alguma voz; apesar de tudo, enfim, alguns reformados que não sejam muito velhos também…

Os idosos que estão em lares não têm voz nenhuma. Até porque em Portugal a entrada no lar é quase sempre sinónimo da saída da sociedade. Eu às vezes tenho a sensação de que as portas dos lares de idosos só têm um sentido, que é o sentido da entrada.

A Carmen defende que os idosos devem ser cuidados em casa o máximo de tempo possível. Porque é que o Estado não coloca isto como prioridade?

Não percebo. Há idosos que objectivamente não podem ficar em casa. Mas a maioria dos idosos em Portugal, cerca de 96%, quando questionados, dizem querer envelhecer na sua casa, na sua rede de vizinhança. É o “aging in place”. Há sempre aqui dois ministérios ao barulho, esse é outro problema, o Ministério da Segurança Social e o Ministério da Saúde. Nós vivemos muitos anos, mas não vivemos assim com tanta saúde. Portanto, começa a ser impossível dissociar o que é segurança social do que é saúde.

Estas coisas têm de caminhar juntas. Só que eu acho que há um problema nestes ministérios; que estas pessoas, no fundo, gostavam mesmo era de trabalhar na IKEA. Gostavam, porque eles gostam mesmo é de gerir camas. Gerir camas, gerir camas, camas, camas. Se as camas fossem um problema real, não é?

Acha que o Governo prefere gerir camas?

Tenho de acreditar nisso, porque nós estamos todos os dias a ouvir: “Há não sei quantos internamentos sociais nos hospitais portugueses que custam não sei quantos milhões por ano ao SNS.” E depois a solução é sempre: “Vamos tirá-los deste internamento para outro.” Vamos abrir mais camas em lares, vamos abrir residências assistidas, vamos criar vagas daqui e dali.

Camas, camas, camas. Em vez de pensarmos “o que é que eu posso fazer para que estas pessoas possam voltar para a sua casa”, que foi o sítio de onde elas vieram?

Por exemplo, esta ideia de pagarmos 1800 euros por cama às instituições. Se calhar, se pegarmos nesses 1800 euros e os entregarmos às famílias, muitas delas conseguem parar de trabalhar, por exemplo. Porque também é esse o problema, não é? Infelizmente, em Portugal temos um longo histórico de não confiar nas famílias. Portanto, a gente prefere entregar o dinheiro às instituições.

Até daria para pagar a um cuidador privado.

Isso é a outra solução que eu defendo, que é um bocado intermédia — a criação dos vouchers. Ou seja, os vouchers poderem ser usados, esses 1800 euros não serem entregues em dinheiro, mas poderem ser descontados em serviços que tivessem sido aprovados previamente, por exemplo, de apoio domiciliário. Um cuidador diurno no horário de trabalho, uma cama articulada, um colchão antiescaras, serviços de reabilitação, de fisioterapia… Portanto, haver um conjunto de serviços previamente aprovados. E, se calhar, não precisavam de ser esses 1800 euros. Se calhar, se o Estado entregasse às famílias 1000, 1500 euros, já ficava a poupar e as pessoas voltavam para o sítio onde elas querem estar e onde deveriam estar, que é a sua casa.

Se calhar, não resolvíamos 100% dos casos, mas resolveríamos muito mais de 50%, seguramente. Mas a gente gosta mais de camas, de criar vagas. Camas, vagas, camas, vagas. É terrível. IKEA, a mentalidade IKEA.

Se a Carmen tivesse poder executivo, quais seriam as suas três primeiras prioridades?
A primeira era a promoção do Aging in Place. Não criava mais comissões. Ouvia quem está no terreno. A minha primeira medida era: criar aqui uma política nacional a sério de promoção do envelhecimento em casa, reforço daquilo que é o serviço de apoio domiciliário. E reforçar a dotação financeira, reforçar estas equipas, obrigar a que estas equipas tenham muito mais valências e garantir uma rede de teleassistência. Trabalho numa coisa dessas, não quero falar em causa própria.

Mas eu quero. Sei que está envolvida num projecto de Inteligência Artificial. Explique como é que a IA se pode adaptar ao cuidado de pessoas mais velhas.

Vou dizer o que é que nós fazemos no Alice, que é um acrónimo: Aging Longer Intelligent Care Environment. Por exemplo, a pessoa usa um relógio que é feito cá em Portugal, foi desenhado por nós. As funcionalidades foram desenhadas por mim. Aquele relógio, por exemplo, avisa a pessoa de que ela já está há muito tempo sem beber água. Avisa cada vez que a pessoa tem medicação para tomar. E a Inteligência Artificial aprende com os dados.

A pessoa anda com um sensor deste tipo, e aquilo, ao fim de duas semanas, já percebeu qual é o padrão de mobilidade da pessoa.

A pessoa tem um movimento qualquer que é incompatível com esse padrão. Ele dá alarme de uma queda. Sempre que a pessoa autoriza, nós damos o local onde a pessoa está e mais quatro coordenadas para trás.

Isto permite-nos o quê? Não só perceber onde é que a pessoa está, mas o trajecto que ela está a fazer. Há um tempo tivemos, por exemplo, um senhor que fugiu do sítio onde estava —​ ele não fugiu, tinha o portão aberto e saiu, na verdade. Era um senhor já demente. E percebeu-se logo, pelo movimento, que ele estava a ir em direcção ao monte onde tinha nascido e onde não vivia há 60 e tal anos.

O nosso call center tem enfermeiros 24 horas. Há um ponto em que a Inteligência Artificial não substitui o humano. Mas o interessante da Inteligência Artificial é isto: ela consegue ir aprendendo com a pessoa, vai-se alimentando dos dados e vai percebendo, acaba por ser muito mais seguro e muito mais personalizado.

Nós sabemos que aquela pessoa é alguém com um grande padrão de mobilidade. De repente, o relógio percebe que aquele padrão do dia não é bem igual.

A gente recebe um alarme, a enfermeira liga. Mas ainda assim tivemos de criar uma coisa chamada SOS Solidão, que tem imensa utilização, eu não esperava que tivesse tanta. Lá está, a tecnologia é muito importante e é uma grande ajuda, mas a parte humana conta.

Eu tornaria estes sensores obrigatórios. A gente fala de muita coisa, pensa em muita coisa e tem muito boa vontade, mas depois, na hora de avançar, criamos mais um gabinete, mais uma comissão, vamos nomear mais não sei quem, e as coisas não andam.

Portanto, se eu mandasse, as minhas três primeiras medidas eram todas direccionadas para o envelhecimento em casa, para permitirmos que as pessoas envelhecessem, as que o desejassem, com o máximo de condições possíveis na sua própria casa.

Como é que consegue fazer tanta coisa? Teve recentemente uma filha, já tem dois filhos, tem dois enteados, escreve para o PÚBLICO, trabalha, faz comida, publica livros...
Estou a escrever um agora, já devia ter acabado a semana passada.

Podemos saber o tema?

É uma história baseada numa história real. Este não fala de velhice, é baseado na história de um burlão, de um português que burlou imensas pessoas muito conhecidas, nomeadamente uma que não é muito conhecida, mas que sou eu, também caí lá. Foi uma burla pequenina, porque a burla também é proporcional à carteira de cada um. Mas vou contar essa história, sim.

Com tanta criança e tanta comida para fazer, caiu no caldeirão da poção mágica quando era pequenina.

Não, não há poção mágica nenhuma, vou tentando, com a consciência de que não consigo sempre. Devia ter acabado o livro há uma semana e não está, ainda me faltam três capítulos, e depois o processo todo de voltar a ler, de edição. As coisas todas que faço são coisas que me fazem feliz. O que eu já deixei cair há muito tempo — acho que deixei cair quando nasceu o Pedro, que é o meu filho mais velho, o meu filho que é surdo —, foi aquela ideia de tentar ser perfeita.

Não me interessa já. Não me interessa se os meus filhos estão com nódoas nas camisolas, não me interessa se a minha casa… eu adorava já ter feito obras na casa… Ou seja, interessa, mas não é prioritário, não me consome, não me tira o sono. Houve muitas coisas que antes me importavam e deixaram de me importar.

E daí a “mãe imperfeita”, o blogue que criou e se tornou um sucesso. Ficou admirada com o sucesso que criou?

Quando comecei a escrever aquilo, achava que estava a escrever para a minha irmã, para a minha outra irmã e para mais três ou quatro amigas. Aquilo foi crescendo mesmo sozinho, de verdade. E percebi que havia mais gente que, tal como eu, estava farta daquelas imagens de influencer, aquelas casas onde é tudo bege, aqueles tons de terra, tudo neutro, as crianças sempre todas vestidas de igual. E depois viajam imenso; eu não sei se consigo ir de férias para Armação de Pêra e aquela gente sempre nas Maldivas e... E o que eu percebi foi que começava a haver um sentimento de identificação do género: “A nossa vida é como a tua, não é como aquelas.”

Tento aproveitar as minhas redes para falar sobre as áreas que domino: para fazer educação para a saúde; para falar sobre envelhecimento; para contrariar a falsa ciência, que é uma praga. Portanto, para combater a desinformação.

Mas a maioria do conteúdo é o dia-a-dia, e o meu dia-a-dia não tem nada de especial: não tenho uma casa muito bonita; não faço comidas daquelas que a gente tem de ir buscar amores-perfeitos e pinças, não... Mas, de alguma forma, as pessoas identificaram-se.


https://www.publico.pt/2026/05/31/sociedade/entrevista/carmen-garcia 

domingo, 26 de abril de 2026

Entrevista a Ricardo Araújo Pereira



Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você é humano”.


Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)

20 de Abril de 2026

Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo. Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.

Há um mês, Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.

O que fazer quando tudo arde está disponível na Apple Podcasts, Spotify, YouTube e restantes aplicações para podcasts.

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 Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Ricardo Araújo Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro solo estreou na sexta-feira.

Ana Sá Lopes

26 de Abril de 2026

Esta conversa com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast “O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na sexta-feira.

Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.

Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista, não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun", por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável, no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.

Como diz um amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca justamente porque ele não está a brincar.

Já podemos falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo está a ser governado por um rapaz de 10 anos…

Eu estava a escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de contrariar no mesmo sentido em que é difícil.

Quando a criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade. Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”. E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.

Posso estar enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Será o riso mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo Capitão — ​que depois o Ricardo levou ao seu programa — ​desfez o Chega com muita graça.

São duas coisas muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda. Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo, pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.

O meu momento favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a indignação, acho eu, na qual eles medram.

O riso serve para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a pandemia de covid, por exemplo...

Na altura, tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente, dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma base.

Interessava-me bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...

E pronto, esses avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas, é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.

Porque, como palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos era engraçado.

O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.

Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci para isto, sabe?

Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o programa a seguir, eu já estou de férias.

 Eu não nasci para o palco. Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15 mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.

Já tem o guião pronto?

Está a ser dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...

O Ricardo tem falta de confiança?

Imensa.

É uma pessoa insegura?

A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.

Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.

Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança. Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.

Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios. E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.

Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente

A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?