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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"

Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.

04 jun. 2026, 00:24

* Jaime Nogueira Pinto

On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.

O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.

Depois de 1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960, os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso, a prestar um grande serviço à pátria.

A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional.  Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.

A guerra civil europeia

Ao criar, em Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de “inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.

Foi também para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus “camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”. A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava também integrada numa cultura futurista que via a violência como força transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano “viver perigosamente”.

O 28 de Maio, a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –, eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República. Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar, sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da República.

O Exército e Salazar

O partido único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.

A verdade é que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista, nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção de um Estado paratotalitário e social.

O que há em Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras, Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os princípios proclamados e a política praticada.

Foi esta democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).

A cabala

Alguns dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede, santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E que tinha o Partido que ver com isso?

Não, a Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?

E quanta pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na Venezuela?

Aqui, onde os verdadeiros fascistas acabaram na oposição

Há cem anos, a maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características autoritárias e nacional-conservadoras.  Mas não foram “fascistas”, como tantas vezes são qualificados.

Esta desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.

Além de um certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes, azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no anti-comunismo, não foi fascista.

Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição. 

https://observador.pt/opiniao/o-fascismo-nunca-existiu/

Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século

Jaime Nogueira Pinto

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

28 mai. 2026

Há cem anos, deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais – capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.

Braga era a sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada “revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de 1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa, ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes, ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.

A República jacobina

Com um record de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”. Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do Progresso e da Liberdade.

Afonso Costa e os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos, reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe, serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.

Mas a repressão não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.

Por isso, além de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912, enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de 1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o “presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado, confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas superiores de luta em caso de necessidade.

A seguir ao sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e “avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921); a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos “democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado Santos.

O Zeitgeist europeu

Dera-se, entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma “direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926, dias antes do 28 de Maio.

Em Portugal também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária, organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo anti-monárquico.

A tripartição fatal

Os anos finais da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300 bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários públicos, alfaiates e ferroviários”.

Mas o PCP era então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika” Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”, os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no movimento operário português em relação aos comunistas.

De qualquer modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%. Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro de 1926.

O partido (militar) do Estado Novo

É neste acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de 1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar.  E que vão purgando os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho, com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que, apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo: a crise financeira.

Como em todos os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política. Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de excepção.

Aqui a diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas” requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos, institui a censura prévia e mantém uma polícia política.

A esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis, tendem a chumbar nos actuais polígrafos.

Nos anos 50 – não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um “colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que o império ultramarino era essencial para independência e para importância política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar – primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em Abril de 1974.

Salazar criara um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele, com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.

https://observador.pt/opiniao/o-28-de-maio-de-ha-um-seculo/

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Raquel Varela - 100º aniversário do 28 de Maio de 1926

 * Raquel Varela

Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926? Como este dia, que deu início à mais longa ditadura da Europa, nos ensina a olhar o regime hoje?

Portugal teve desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro, espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente fascista.

A incapacidade de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o Parlamento – a Ditadura Militar.

Entre 1926 e 1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital, baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado, não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.

O pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.

Se a República teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a “instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social” operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa.

O golpe de 28 de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim, resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via para a ditadura que se segue.

Como lembra César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da contrarrevolução.

Contexto internacional da Ditadura Militar

Não se pode compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois de 1927.

Gramsci sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de crise orgânica do capitalismo.

Primo de Rivera liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e envolver estivadores, transportes, etc.

À semelhança de outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia “democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado – organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.

É bonapartista a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será proibida em 1935.

Após o golpe de Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário de seis para quatro anos.

Em 1928, promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses “públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A 27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira “política de austeridade” no país.

Qual regime?

Mas afinal o que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado, de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde 1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.

Não houve resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926. Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.

A repressão durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção. Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos monárquicos”.

A República decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara, para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário – os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.

Raquel Varela e Roberto Della Santa trecho da nossa Breve História de Portugal (Bertrand). Todas as referências estão no livro