* Manuel Loff
Desengane-se
quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte
de futuro.
Na véspera da comemoração dos 250 anos da
Revolução Americana, Trump decidiu retomar a velha máxima macarthista de que “o
comunismo é a maior ameaça ao nosso país, incluindo as duas guerras mundiais,
Pearl Harbor ou até o 11 de setembro” (CNN. 3.7.2026). Tal como quando, nos
anos 50, McCarthy tinha organizado a campanha mais agressiva da história dos
EUA contra esquerda norte-americana, não é simplesmente no contexto do momento
(início da Guerra Fria, o avanço dos novos “socialistas democráticos” que ganham
hoje apoio popular) que há que interpretar o regresso do anticomunismo como
discurso agregador. O que McCarthy então e Trump hoje fazem é reproduzir as
mesmas teses com que o fascismo da sua época clássica descreveu o comunismo, “o
maior problema humano de todos os tempos”, como dizia Salazar.
Para a historiadora Ruth Ben-Ghiat, “a nova
linha [trumpista] consiste em associar os comunistas a todos os crimes, a todas
as infrações” para “criar uma sensação de ameaça comunista para justificar a
repressão. É o velho manual utilizado em golpes de Estado e tomadas de poder
pelos fascistas.” Para os fascistas dos anos 30 e 40, para quem era de moda a
tese de que o marxismo era "o filho mais velho do liberalismo",
barrar o caminho do comunismo passava por prescindir dos sistemas liberais e
impor novas fórmulas autoritárias.
As direitas retomam o anticomunismo como
discurso mobilizador sempre e quando a resistência social que se lhes opõe o
justifica. A hegemonia das classes historicamente dominantes nas Américas
sustentou-se sempre sobre uma violência simultaneamente classista e racial, o
que faz com que todos os projetos políticos alternativos, desde a radicalidade
da Revolução Cubana, até às muitas variantes da “onda rosa” dos governos Lula,
Chávez, Kirchner, Morales, sejam descritos com tons apocalípticos.
Num recente relatório do Departamento de
Estado, Cuba é descrita como a “capital do comunismo do século XXI", capaz
de criar “uma infraestrutura revolucionária concebida para virar a América
contra si própria”. Por mais que os últimos processos eleitorais na América
Latina (Chile, Colômbia, Peru) confirmem uma dramática viragem fascizante, em
sintonia com as direitas cubanas e venezuelanas no exílio, Trump tem com que se
preocupar. Uma sondagem divulgada em março revelou que o apoio ao socialismo
está a crescer, com 38% dos inquiridos (incluídos a grande maioria dos votantes
democratas, jovens e afro-americanos) a favor de que os EUA “se afastem do
capitalismo”.
Em setembro de
2025, a Gallup detetara já que 66% dos eleitores democratas preferiam o
socialismo ao capitalismo. Surpresa? Talvez não: as mesmas sondagens davam
resultados semelhantes a meio do primeiro mandato de Trump, o que significa que
o triunfo político dos Musks deste mundo favorece alguma consciência crítica do
capitalismo – da mesma forma que o genocídio que os israelitas praticam
impunemente na Palestina ou o desvario belicista a que assistimos nos últimos
anos está a exigir voltar a discutir o que é o imperialismo e o belicismo como
lógicas de governo mundial.
Desengane-se
quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte
de futuro.


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