segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Manuel Loff - A “ameaça” comunista

* Manuel Loff

Desengane-se quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte de futuro.

 Na véspera da comemoração dos 250 anos da Revolução Americana, Trump decidiu retomar a velha máxima macarthista de que “o comunismo é a maior ameaça ao nosso país, incluindo as duas guerras mundiais, Pearl Harbor ou até o 11 de setembro” (CNN. 3.7.2026). Tal como quando, nos anos 50, McCarthy tinha organizado a campanha mais agressiva da história dos EUA contra esquerda norte-americana, não é simplesmente no contexto do momento (início da Guerra Fria, o avanço dos novos “socialistas democráticos” que ganham hoje apoio popular) que há que interpretar o regresso do anticomunismo como discurso agregador. O que McCarthy então e Trump hoje fazem é reproduzir as mesmas teses com que o fascismo da sua época clássica descreveu o comunismo, “o maior problema humano de todos os tempos”, como dizia Salazar.

 Para a historiadora Ruth Ben-Ghiat, “a nova linha [trumpista] consiste em associar os comunistas a todos os crimes, a todas as infrações” para “criar uma sensação de ameaça comunista para justificar a repressão. É o velho manual utilizado em golpes de Estado e tomadas de poder pelos fascistas.” Para os fascistas dos anos 30 e 40, para quem era de moda a tese de que o marxismo era "o filho mais velho do liberalismo", barrar o caminho do comunismo passava por prescindir dos sistemas liberais e impor novas fórmulas autoritárias.​

 As direitas retomam o anticomunismo como discurso mobilizador sempre e quando a resistência social que se lhes opõe o justifica. A hegemonia das classes historicamente dominantes nas Américas sustentou-se sempre sobre uma violência simultaneamente classista e racial, o que faz com que todos os projetos políticos alternativos, desde a radicalidade da Revolução Cubana, até às muitas variantes da “onda rosa” dos governos Lula, Chávez, Kirchner, Morales, sejam descritos com tons apocalípticos.

 Num recente relatório do Departamento de Estado, Cuba é descrita como a “capital do comunismo do século XXI", capaz de criar “uma infraestrutura revolucionária concebida para virar a América contra si própria”. Por mais que os últimos processos eleitorais na América Latina (Chile, Colômbia, Peru) confirmem uma dramática viragem fascizante, em sintonia com as direitas cubanas e venezuelanas no exílio, Trump tem com que se preocupar. Uma sondagem divulgada em março revelou que o apoio ao socialismo está a crescer, com 38% dos inquiridos (incluídos a grande maioria dos votantes democratas, jovens e afro-americanos) a favor de que os EUA “se afastem do capitalismo”.

Em setembro de 2025, a Gallup detetara já que 66% dos eleitores democratas preferiam o socialismo ao capitalismo. Surpresa? Talvez não: as mesmas sondagens davam resultados semelhantes a meio do primeiro mandato de Trump, o que significa que o triunfo político dos Musks deste mundo favorece alguma consciência crítica do capitalismo – da mesma forma que o genocídio que os israelitas praticam impunemente na Palestina ou o desvario belicista a que assistimos nos últimos anos está a exigir voltar a discutir o que é o imperialismo e o belicismo como lógicas de governo mundial.

Desengane-se quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte de futuro.

2026 07 28 

Antonio Carlos Cortez - ECOS

v* Antonio Carlos Cortez

Cf. Luís de Camões e Gastão Cruz

Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre

e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)

Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…

Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno

© António Carlos Cortez
Aus: À Flor da Pele. Évora: Casa do Sul, 2008
Audioproduktion: Câmara Municipal de Lisboa, 2012
https://www.lyrikline.org/pt/poemas/ecos-7865 

domingo, 2 de agosto de 2026

Onofre Varela - VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

*  Onofre Varela

Na colaboração que mantenho com dois jornais regionais (Gazeta de Paços de Ferreira e Semanário Alto Minho) estou a publicar um texto em "episódios" (como as telenovelas) por obrigação do espaço de que disponho. Decidi publicar aqui os mesmos textos, juntando "dois em um", para não maçar o leitor com prosa intensa, por considerar o texto com interesse para uma grande parte de nós.

Portanto, aqui vai a primeira entrega:

VIDA DEPOIS DA MORTE (1)

Por Onofre Varela

Miguel Szymanski - A União Europeia a desintegrar-se de acordo com os planos dos EUA

* Miguel Szymanski
  ·
 
Um chefe de Estado ou de Governo, seja português ou espanhol, não pode, no meio de uma crise cuja solução depende da boa vontade de um país vizinho — um regime policial e autoritário —, apontar-lhe o dedo e acusá-lo daquilo que, de facto, fez, e não pela primeira vez: instrumentalizar nas fronteiras uma multidão de milhares de pessoas desesperadas para fazer avançar a sua agenda. Mas é lamentável que um chefe de Estado na frase com que é citado pareça reforçar a tese central da extrema-direita. Foi o que Seguro fez, ou pelo menos assim é citado, quando um órgão de comunicação social resume a posição nesta crise à exigência de "mão forte contra a imigração ilegal". 

Ângelo Alves - A 'invasão« de migrantes

 `

* Ângelo Alves
 
Alguém pode por favor explicar a alguns comentadores e a outros seres que vendo nos primeiros os deuses da sabedoria, parecem desprovidos dessa incomum capacidade de pensar pela sua própria cabeça, duas coisinhas muito simples? 

1 - Ceuta é um território situado no continente Africano! É um muito pequeno enclave espanhol, que faz fronteira directa com Marrocos. Portanto, por mais que isto entristeça os manipuladores de direita e extrema direita, não,  não houve dezenas de milhares de pessoas a nadar de Marrocos para o continente europeu. E a menos que fossem todos profissionais do maratonismo de natação, nunca conseguiriam e nunca conseguirão fazer essa travessia a nado. O que aconteceu é que uns nadaram contornando um quebra mar e outros pura e simplesmente passaram a pé.

(45) Joyce Lussu - Scarpette Rosse

 

2026 07 25 - Murais em Orgosolo, Sardenha, Itália - Joyce Lussu e memória do Holocausto (pormenor)

Este mural, também situado em Orgosolo, é um poderoso tributo à memória do Holocausto e à figura de Joyce Lussu, aliando a poesia de intervenção ao pacifismo antiautoritário.

(44) Deejay Telio & Deedz B - Não Atendo



Foto Victor Nogueira - Grafito em Setúbal, na Avenida Antero de Quental ( 2021 07 22 Canon 194_07)
Conteúdo partilhado com: Público

O número para qual você ligou, tá desligado
É para informar que eu hoje não atendo
Não atendo, eh
Deixa curtir minha drena, ya
Deixa curtir minha drena (deixa)
Ai hoje eu vou tchilar com meus avilos
Curtir uma drena longe do cubico
Please me liga só se tiveres guita
Hoje só atendo se o assunto for business, ay
Com tanta dama a tua volta só queres vir mesmo me incomodar, ohohoh
Tem lá calma contigo queres dar pra vip pois aqui não dá
Porque eu só quero curtir minha drena
Então deixa eu curtir assim

~~~~~~ooo0ooo~~~~~~
  • A Reivindicação do Espaço e da Linguagem: Esta intervenção num muro de contenção junto a uma escadaria destaca-se pelo contraste entre a estrutura tipográfica azul da peça central e a frase inscrita em tom de desabafo ou manifesto direto: "Deixa curtir nha drena". A utilização do crioulo / calão urbano reafirma a identidade cultural e a apropriação do espaço público pelas dinâmicas da juventude periférica.

  • Técnica e Preenchimento: A peça principal faz uso de um preenchimento em linhas verticais (efeito hachurado a spray azul) com contornos a preto bem marcados e destaques a rosa/laranja na terminação direita, mostrando uma transição entre o throw-up rápido e a preocupação com a tridimensionalidade.

  • A Camada do Palimpsesto: No canto esquerdo, o aparecimento da tag "ENSI!" em formato de balão com uma pequena personagem/caricatura reforça a coabitação de diferentes assinaturas e linguagens visuais no mesmo suporte de betão. (Gemini)