segunda-feira, 27 de julho de 2009

Luís Sepúlveda - Um velho que lia romances de amor

Resumen de Un viejo que leía novelas de amor

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Interesante historia nos acerca el escritor chileno Luis Sepúlveda en su libro titulado “Un viejo que leía novelas de amor”, un relato que surgió como consecuencia de la propia experiencia de este autor que convivió durante siete meses con los indios shuar en la Amazonia ecuatoriana. Gracias a él, el autor no sólo recibió el Premio Tigre Juan, sino que, hasta el momento, también ha llegado a vender casi veinte millones de ejemplares.

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Si bien el nombre de esta obra permite obtener un dato importante sobre el contenido de esta propuesta literaria que ha sido traducida a más de veinte idiomas, leer cada etapa de esta narración que, finalmente, lleva a un “viejo” a disfrutar de las novelas románticas, representa un placer indescriptible para aquellos que aman los relatos de aventuras que incluyan alguans referencias históricas y geográficas.

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El protagonista de esta historia es Antonio José Bolívar Proaño, un hombre que vive en el interior de la selva amazónica, en un pueblo conocido como “El Idilio”, donde conoce a los indios shuar y, gracias a ellos y a sus costumbres, aprende a sobrevivir en la selva.

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Sin embargo, ese mundo que él disfruta no está libre del accionar del hombre. Producto de estas vivencias derivadas de la codicia y la injusticia de la “civilización”, es decir, de los cazadores que intentan destruir ese entorno, Bolívar Proaño decide refugiarse en la literatura, en especial, en las novelas de amor que, dos veces por año, le obsequia un dentista.

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Así como Frances Hodgson Burnett transmite a través de “El jardín secreto” una profunda reflexión acerca de la importancia de proteger y fomentar el desarrollo de la naturaleza, Luis Sepúlveda utiliza la historia de “Un viejo que leía novelas de amor” para despertar en el lector un espíritu comprometido, respetuoso y solidario hacia el entorno selvático amazónico.

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in Poemas del Alma

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Friday, September 15, 2006

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“O velho que lia romances de amor” de Luís Sepúlveda (ASA)

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O mais conhecido best-seller deste autor chileno Luis Sepúlveda, O velho que lia romances de amor, é dedicado a Chico Mendes, morto numa emboscada por defender a floresta e os direitos das tribos amazónicas.
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A grande floresta amazónica, um dos locais do mundo onde sobrevivem espécies raríssimas de fauna e flora é o verdadeiro protagonista do romance, cuja mensagem é transmitida pelos olhos de António José Bolívar, o velho eremita que vive na floresta e que lê romances de amor. Esta personagem, aparentemente excêntrica, funde-se com a vida na floresta, vive em perfeita simbiose com os seus habitantes, humanos, animais e vegetais.
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A história da vida de António José Bolívar, inspirada, ao que tudo indica, em Chico Mendes, tenta incutir os valores que preconizam o respeito pela natureza e pelas tribos índias, no coração da selva, através de um romance sobre “o desconhecido mundo verde” como meio de sensibilização da opinião pública.
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Para António José Bolívar, a solidão na floresta é compensada pela companhia das novelas de amor, que lhe permitem resgatar o passado e mostrar-lhe as outras dimensões da paixão, estimulando a imaginação e ao mesmo tempo desencadear uma discussão literária no meio da selva pelos homens rudes – colonos e garimpeiros – a quem o velho lê as suas novelas de amor, para os distrair nas horas de tédio e solidão.
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Personagens
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Desde o médico dentista , anárquico convicto, com o sugestivo nome de Rubicundo Loachimín, cujos métodos primitivos de tratar dentes não conseguem afugentar-lhe a clientela por falta de alternativa, todas as personagens têm algo que nos parece exótico e excêntrico aos nossos olhos. Na realidade, numa aldeia como El Idilio as coisas não podiam passar-se de outra forma.
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Por exemplo, o Doutor Loachimín, passa a vida a vituperar o governo e as instituições para distrair os doentes dos movimentos das suas terríveis pinças, insultando-os quando mostram falta de coragem para enfrentar as suas tenazes sem anestesia. El Idílio é uma terra de tal forma isolada que apenas uma pequeníssima e precária embarcação fluvial assegura o transporte de víveres, medicamentos e pessoas assim como a comunicação com o exterior. El Idílio é tão isolada como a Macondo de Gabriel Garcia Marquez.
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O vilão do romance é o administrador da circunscrição, funcionário público venal, perito na arte da extorsão, gordo e sempre suado – característica que lhe valeu a alcunha de Babosa – prepotente com os fracos, untuoso e subserviente com os poderosos e endinheirados.
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O romance trata, ainda, do conflito entre as tribos índias e o homem branco – o drama da aculturação. Dentre as tribos índias destacam-se duas castas diferentes: a dos jíbaros, semi-aculturados e dependentes do álcool, marginalizados pelos xuar; os xuar, o povo da floresta que mantém as suas tradições, isolado na selva.
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Trama
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Quando surge o cadáver de um estrangeiro – gringo - no mato, Babosa tenta incriminar os xuar que atrapalham as suas actividades pouco lícitas e prepotentes ligadas à extorsão e ao trafico ilegal de espécies exóticas. Por outro lado, ao representar o poder local não resiste a manipular as eleições usando um método ancestral: o suborno.
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É, no entanto, desmentido pelo sábio da floresta, António José Bolívar – o velho que lê romances de amor. É detentor de um conhecimento profundo da fauna, da flora, dos hábitos e tradições das tribos locais, assim como do comportamento animal – um saber empírico adquirido ao longo de muitos anos de observação da vida na selva.
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Bolívar aprende a conviver com os xuar, torna-se quase num deles e aprende os seus conhecimentos de medicina, rituais religiosos e de caça, a forma de sobreviver na floresta tropical e o amor entre os xuar, onde se verifica a ausência de sentimentos de posse ou ciúme. Além de tudo isso, o velho romântico, goza de uma liberdade e independência absolutas, sem delas ter propriamente consciência.
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Os inimigos dos xuar e da floresta são, sobretudo, os colonos e os garimpeiros que perturbam, também a paz de Bolívar: “…os colonos devastavam a floresta construindo a obra-prima do homem civilizado: o deserto.”
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O homem branco vê, em contrapartida, como inimigo os seres da floresta: a onça, a jibóia, ou a tribo dos endiabrados micos – pequenos macacos que vivem no alto das árvores. Muito observadores e curiosos, estes primatas atacam em massa os turistas de máquina fotográfica, despojando-os de todo o tipo de objectos que lhes chamem a atenção ou que lhes desperte a curiosidade.
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O velho que lê romances de amor
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António José Bolívar é um homem idoso, de idade indeterminada, que gosta de poupar a dentadura postiça para a não desgastar, colocando-a apenas para comer ou falar – tal como alguém com a vista cansada faz com os óculos que usa só para ler.
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Os livros aparecem a José Bolívar como a vingança ou o bálsamo contra a opressão do meio – um “inferno verde que lhe arrebatara o amor e os sonhos”.
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É graças aos livros que ele descobre a beleza da linguagem, o sucedâneo de um amor perdido de uma bela morena que, segundo a descrição do retrato, muito se assemelha a Frida Kahlo.
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Ler era para o velho que passa quarenta anos da sua vida na floresta, a possibilidade de regressar ao mundo que abandonou, cristalizado num passado longínquo.
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António José Bolívar é ajudado pela professora da escola local, que lhe recomenda as obras e lhe faz as encomendas em troca da ajuda nas tarefas domésticas e na construção de um herbário.
Bolívar demonstra uma curiosidade inicial pela geometria e um desprezo pelos compêndios de história por considerá-los repletos de pedantismo, mas a sua paixão é a literatura, sobretudo os livros que falam de amor.
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A dada altura, lê tanto que começa a tornar-se crítico literário e a presidir a debates e tertúlias no meio da selva, junto dos garimpeiros e traficantes de espécies exóticas.
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António José Bolívar consegue tal façanha por dedicar escassas horas do dia ao sono e à sobrevivência e o resto do tempo livre aos romances, à semelhança dos intelectuais que frequentam os cafés de Paris, como Sartre, ou um escritor metódico e profissional como Gabriel Garcia Marquez – apesar da sua escassíssima instrução, Bolívar é um autodidacta. Um dos mais divertidos episódios da obra é aquele em que se gera uma acalorada discussão face à dificuldade em imaginar Veneza como uma cidade construída sobre as águas, que quase acaba numa rixa.
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O estilo
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A prosa de Sepúlveda é descritiva e, ao mesmo tempo, tão sensorial que parece que entramos pela selva dentro, juntamente com as personagens, fazendo lembrar as descrições de Herman Melville em Taipi ou Kipling em O Livro da Selva. Sobretudo na cena do ataque dos micos, que lembra os macacos no templo na obra do célebre escritor britânico.
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Em O velho que lia romances de amor o leitor quase que pode sentir, o calor húmido e opressivo da atmosfera das florestas das chuvas, cuja humidade se cola à pele, o desconforto dos pés a enterrarem-se na lama, a violência do caudal do aguaceiro na floresta tropical, o canto dos pássaros, os guinchos dos micos, o sabor exótico dos frutos da floresta.
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Ou visualizar o andar elástico da dos felinos, ouvir o miar irado da onça…ou ainda, imaginar o voo cortante dos galos das rochas, debaixo do peso da cortina de chuva dos trópicos, a neve a repousar na borda do vulcão andino, o peso das nuvens grávidas de chuva…
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O oposto do velho que lê romances ou novelas de amor é dado por Babosa que representa a boçalidade do homem branco que ao desconhecer totalmente o ambiente da floresta, comete toda a casta de imprudências e gaffes de maneira a fazer a floresta voltar-se contra si próprio revelando uma total incapacidade de adaptação.
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A arrogância de Babosa impede-o de aceitar as recomendações de Bolívar. Este finge aceitar o desafio de Babosa indo sozinho atrás da onça assassina.
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A precisão, a minúcia e o detalhe com que Bolívar estuda o comportamento do animal até ao movimento mais elementar descodificando-lhe as atenções é uma das cenas mais empolgantes da obra.
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O final é de uma dilacerante beleza, onde não há vencedores nem vencidos no confronto entre o homem dito civilizado e a selva.
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Um livro de denúncia e de protesto acerca de um homem que só nos romances de amor encontra o refúgio face à barbárie humana.
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Único e irresistível.
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Para ler de um só fôlego.
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Cláudia de Sousa Dias
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posted by Claudia Sousa Dias | 3:19 AM
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Ler AQUI a obra integral:

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Um velho que lia romances de amor

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de Luis Sepúlveda - 2005 - 137 páginas
books.google.pt

domingo, 26 de julho de 2009

Churchill - «SANGUE, SOFRIMENTO, LÁGRIMAS E SUOR» (13 Maio 1940)

Winston Churchill

Winston Churchill em 1940

DISCURSO PROFERIDO NA CÂMARA DOS COMUNS
DO PARLAMENTO BRITÂNICO, EM 13 DE MAIO DE 1940.

Primeiro discurso de Winston Churchill na Câmara dos Comuns enquanto primeiro-ministro britânico, em que apresentou uma Moção de Confiança ao Governo que ia dirigir.

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Winston Churchill foi nomeado primeiro-ministro em 10 de Maio de 1940, devido à demissão de Neville Chamberlain, primeiro-ministro britânico desde ... . Esta demissão foi provocada pelo início da campanha militar alemã contra as potências ocidentais, iniciada nesse mesmo dia 10 de Maio com a invasão da Holanda, Bélgica, Luxemburgo e França.

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Churchill organizou um governo de unidade nacional, com a participação dos líderes do Partido Trabalhista e do Partido Liberal, e apresentou-se na Câmara dos Comuns com uma Moção de Confiança, que foi aprovada.

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Neste discurso, um dos seus mais célebres, mostrou mais uma vez os seus dotes oratórios, a sua capacidade de liderança e a facilidade em criar frases de grande impacto que resumiam bem, tanto o seu estado de espírito, como os problemas a enfrentar e as soluções possíveis.

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A frase que utilizou para explicitar o futuro, retirado de uma afirmação de Garibaldi de 1849 ("Non offro nè pagga, nè quartiere, nè provvigioni. Offro fame, sete, marce forzate, battaglie e morte" [Não dou pré, nem quartéis, nem provisões. Dou fama, sede, marchas forçadas, batalhas e morte], é de uma simplicidade e de uma força impressionantes - e a brutal verdade. Actualmente, simplificada, ainda tem mais impacto: O futuro ? «Sangue, suor e lágrimas». E de facto assim foi.

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«SANGUE, SOFRIMENTO, LÁGRIMAS E SUOR»

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Na última sexta-feira à noite recebi de Sua Majestade o encargo de constituir novo Governo. Era evidente desejo do Parlamento e da Nação que este Governo tivesse a mais ampla base possível e que incluísse todos os Partidos.

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Fiz já a parte mais importante desse trabalho.

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Formei um gabinete de guerra com cinco membros, que representam, com a Oposição Trabalhista, e os Liberais, a unidade nacional. Era necessário que tudo isto se fizesse num só dia, dada a extrema urgência e gravidade dos acontecimentos. Outros cargos importantes foram providos ontem e apresentarei esta noite ao Rei uma nova lista. Conto concluir amanhã a nomeação dos principais ministros.

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A escolha dos restantes ministros normalmente leva um pouco mais de tempo, mas espero que, quando o Parlamento voltar a reunir-se, essa parte da minha tarefa esteja terminada e a constituição do Governo se encontre completa sob todos os pontos de vista. Entendi ser de interesse público propor que a Câmara fosse convocada para hoje. No final da sessão de hoje, propor-se-á o adiamento dos trabalhos até terça-feira, 21 do corrente, tomando-se as disposições adequadas para que a convocação se faça antes disso, se necessário for. As questões a discutir serão notificadas aos Srs. deputados o mais cedo possível.

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Convido agora a Câmara, pela moção apresentada em meu nome, a registar a sua aprovação das medidas tomadas e a afirmar a sua confiança no novo Governo.

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A resolução:

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«Esta Câmara saúda a formação de um governo que representa a vontade única e inflexível da Nação de prosseguir a Guerra com a Alemanha até uma conclusão vitoriosa.»

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Formar um Governo de tão vastas e complexas proporções é, já por si, um sério empreendimento, mas devo recordar ainda que estamos na fase preliminar duma das maiores batalhas da história, que fazemos frente ao inimigo em muitos pontos - na Noruega e na Holanda -, e que temos de estar preparados no Mediterrâneo, que a batalha aérea contínua e que temos de proceder nesta ilha a grande número de preparativos.

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Neste momento de crise, espero que me seja perdoado não falar hoje mais extensamente à Câmara. Confio em que os meus amigos, colegas e antigos colegas que são afectados pela reconstrução política se mostrem indulgentes para com a falta de cerimonial com que foi necessário actuar. Direi à Câmara o mesmo, que disse aos que entraram para este Governo: «Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor». Temos perante nós uma dura provação. Temos perante nós muitos e longos meses de luta e sofrimento.

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Perguntam-me qual é a nossa política? Dir-lhes-ei; fazer a guerra no mar, na terra e no ar, com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus possa dar-nos; fazer guerra a uma monstruosa tirania, que não tem precedente no sombrio e lamentável catálogo dos crimes humanos. -; essa a nossa política.

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Perguntam-me qual é o nosso objectivo? Posso responder com uma só palavra: Vitória – vitória a todo o custo, vitória a despeito de todo o terror, vitória por mais longo e difícil que possa ser o caminho que a ela nos conduz; porque sem a vitória não sobreviveremos.

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Compreendam bem: não sobreviverá o Império Britânico, não sobreviverá tudo o que o Império Britânico representa, não sobreviverá esse impulso que através dos tempos tem conduzido o homem para mais altos destinos.

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Mas assumo a minha tarefa com entusiasmo e fé. Tenho a certeza de que a nossa causa não pode perecer entre os homens. Neste momento, sinto-me com direito a reclamar o auxílio de todos, e digo «Unamos as nossas forças e caminhemos juntos».

(texto original)

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On Friday evening last I received from His Majesty the mission to form a new administration. It was the evident will of' Parliament and the nation that this should be conceived on the broadest possible basis and that it should include all parties.

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I have already completed the most important part of this task.

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A war cabinet has been formed of five members, representing, with the Labour Opposition, and Liberals, the unity of the nation. It was necessary that this should be done in one single day on account of the extreme urgency and rigor of events. Other key positions were filled yesterday. I am submitting a further list to the king tonight. I hope to complete the appointment of principal ministers during tomorrow.

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The appointment of other ministers usually takes a little longer. I trust when Parliament meets again this part of my task will be completed and that the administration will be complete in all respects. I considered it in the public interest to suggest to the Speaker that the House should be summoned today. At the end of today's proceedings, the adjournment of the House will be proposed until May 21 with provision for earlier meeting if need be. Business for that will be notified to MPs at the earliest opportunity.

I now invite the House by a resolution to record its approval of the steps taken and declare its confidence in the new government.

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The resolution:

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"That this House welcomes the formation of a government representing the united and inflexible resolve of the nation to prosecute the war with Germany to a victorious conclusion."

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To form an administration of this scale and complexity is a serious undertaking in itself. But we are in the preliminary phase of one of the greatest battles in history. We are in action at many other points-in Norway and in Holland-and we have to be prepared in the Mediterranean. The air battle is continuing, and many preparations have to be made here at home.

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In this crisis I think I may be pardoned if I do not address the House at any length today, and I hope that any of my friends and colleagues or former colleagues who are affected by the political reconstruction will make all allowances for any lack of ceremony with which it has been necessary to act.

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I say to the House as I said to ministers who have joined this government, I have nothing to offer but blood, toil, tears, and sweat. We have before us an ordeal of the most grievous kind. We have before us many, many months of struggle and suffering.

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You ask, what is our policy? I say it is to wage war by land, sea, and air. War with all our might and with all the strength God has given us, and to wage war against a monstrous tyranny never surpassed in the dark and lamentable catalogue of human crime. That is our policy.

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You ask, what is our aim? I can answer in one word. It is victory. Victory at all costs - Victory in spite of all terrors - Victory, however long and hard the road may be, for without victory there is no survival.

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Let that be realized. No survival for the British Empire, no survival for all that the British Empire has stood for, no survival for the urge, the impulse of the ages, that mankind shall move forward toward his goal.

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I take up my task in buoyancy and hope. I feel sure that our cause will not be suffered to fail among men. I feel entitled at this juncture, at this time, to claim the aid of all and to say, "Come then, let us go forward together with our united strength."

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Nota:

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A tradução deste discurso, publicada em 1942, que é a base do texto aqui apresentado, é muito interessante. Não referencia os Trabalhistas como participantes no Governo, e não descreve a moção apresentada, em que se fala da necessidade da derrota da Alemanha. Provavelmente, a censura, a ideia que a esquerda não devia existir e a amizade da Alemanha nazi assim o exigiam.

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sábado, 25 de julho de 2009

Motivo - Cecília Meireles

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Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.
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Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

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Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.
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Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.
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CECÍLIA MEIRELES
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From Paula Moranguinho Pereira (hi5)
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Novelas Exemplares - Miguel de Cervantes


24
Jul

Resumen de Novelas ejemplares

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Publicado por Julián Pérez Porto
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Entre 1590 y 1612, el destacado novelista, poeta y dramaturgo español Miguel de Cervantes y Saavedra escribió numerosos relatos breves que, en 1613, aparecieron publicados bajo el título de “Novelas ejemplares”.

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Lejos de ser historias del montón, este material lleva el sello de Cervantes, una condición que garantiza el valor literario de este conjunto de novelas donde se pueden apreciar diversos estilos y recursos narrativos.

En “La Gitanilla”, el más extenso de los cuentos que, al igual que “El celoso extremeño”, evidencia influencias italianas, el autor se valió de la técnica de la anagnórisis, mientras que, en “El amante liberal”, conjugó elementos propios de las novelas moriscas y bizantinas para contar las vivencias de Ricardo, un caballero siciliano que ha sido privado de su libertad en Turquía.

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“Rinconete y Cortadillo”, en cambio, posee características que permiten encuadrarlo dentro del género picaresco, así como la mencionada estructura bizantina vuelve a hacerse presente en “La española inglesa”, una narración inspirada en el robo de personas y la limitación o anulación de su libertad.

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“El licenciado Vidriera” es otro de los títulos que forma parte de esta colección. En este caso, puede decirse que el contenido posee perfil realista y esconde varios aforismos y preceptos morales.

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“El coloquio de los perros” (pieza cuyo argumento gira en torno a la conversación entablada entre dos canes, uno de los cuales respeta en su discurso los parámetros de la novela picaresca mientras que, el otro, prefiere reflexionar sobre el vínculo entre verosimilitud, realidad y literatura), “La fuerza de la sangre”, “La ilustre fregona”, “Las dos doncellas”, “La señora Cornelia” y “El casamiento engañoso” son otros de los relatos incluidos en estas “Novelas ejemplares” donde Cervantes desarrolló diferentes historias asociadas al engaño, el amor, la locura, los celos, la amistad, el honor, el cautiverio y la violencia.

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in Poemas del Alma

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aqui -'O casamento enganoso' e 'O colóquio dos cães': tradução anotada e estudo preliminar de duas novelas exemplares cervantinas
Silvia Massimini

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¤ TESE_SILVIA_MASSIMINI.pdf

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sexta-feira, 24 de julho de 2009

Serenata - Cecília Meireles

Assunto: CANTANDO!
Data: 24/Jul 13:02

.... E PENSAR QUE JÁ CANTEI, ESPERANDO A TUA CHEGADA. CANTAVA CANÇÕES DE ACALANTO, DEPOIS CANÇÕES DE EMBALAR E O CANTO IA CRESCENDO PARA IR TER CONTIGO AO CAMINHO E TE TRAZER PARA O MEU LADO....HOJE JÁ NÃO CANTO SÓZINHA.....NÃO TENHO POR QUEM CHAMAR....TROQUEI OS CANTARES POR LÁGRIMAS E ME QUEDO A ESPERAR...POR QUEM NÃO SEI NOMEAR... EM ANEXO ....UM BEIJO!

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Distribuído por Moranguino Pereira (hi5)

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SERENATA


Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.


Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.


Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

CECÍLIA MEIRELES

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Já é tempo, já, que minha confiança ... - Luís de Camões

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* Luís de Camões
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"Já é tempo, já, que minha confiança
Se desça duma falsa opinião;
Mas Amor não se rege por razão,
Não posso perder, logo, a esperança.
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A vida sim, que uma áspera mudança
Não deixa viver tanto um coração.
E eu só na morte tenho a salvação?
Sim, mas quem a deseja não a alcança.
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Forçado é logo que eu espere e viva.
Ah dura lei de Amor, que não consente
Quietação num'alma que é cativa!
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Se hei-de viver, enfim, forçadamente,
Para que quero a glória fugitiva
Duma esperança vã que me atormente?"
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Enviado por Sorriso (hi5)
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Lo Fatal - Rubem Dario

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Lo Fatal - par Rubem Dario

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Dichoso el árbol, que es apenas sensitivo,
y más la piedra dura porque ésa ya no siente,
pues no hay dolor más grande que el dolor de ser vivo
ni mayor pesadumbre que la vida consciente.
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Ser, y no saber nada, y ser sin rumbo cierto,
y el temor de haber sido y un futuro terror...
Y el espanto seguro de estar mañana muerto,
y sufrir por la vida y por la sombra y
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lo que no conocemos y apenas sospechamos,
y la carne que tienta con sus frescos racimos,
y la tumba que aguarda con sus fúnebres ramos
¡ y no saber adónde vamos,
ni de dónde venimos!...
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quinta-feira, 23 de julho de 2009

A busca - Regiane Peroso

Assunto: O SEGREDO DAS ESTRELAS
Data: 23/Jul 8:18

PERGUNTO ÁS ESTRELAS O CAMINHO DA MINHA PRÓXIMA LIBERDADE....ELAS BRILHAM MAIS DE SORRISO RASGADO...JÁ ME CONHECEM DE TANTOS ANOS!DE VEZ EM QUANDO DESAPAREÇO MAS LOGO OS FADOS ME TRAZEM DE NOVO PELA MÃO, PORQUE NESSE NOVO AMOR QUE VIVI ACREDITEI NO SEMPRE E ESQUECI O CAMINHO DE VOLTA....ENTÃO E AGORA....PARA ONDE VOU....ME DIGAM, MESMO QUE ME MAGOE OUTRA VEZ, O MEU DESTINO É AMAR....E AMAR....E AMAR...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)

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A BUSCA
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Ás várias formas que ousei não pensar em ti falharam,
Os métodos que tomei não resultam a meu favor.
Será que me excedi demais ao continuar lhe amando
Mesmo já não estando aqui ao meu lado?
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Continuo perseguindo meu caminho
Na esperança incessante de lhe reencontrar
No amanhecer de um dia lindo, No clarão do luar
Na primavera ou em qualquer lugar que me traga o teu olhar.
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REGIANE PEROSO

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A BELA ROSA E O TRISTE FIM - Regiane Peroso

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O vento soprou aquelas pétalas que restavam aqui próximo a mim,
As espalhou por ai trilhando caminhos sem destino certo e
Deixou-me sem saber onde poderei colhê-las futuramente antes
De que elas murchassem, secassem e se decompusesse ao chão.
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Não deixou com que eu a admirasse em seu ultimo adeus,
Mas deixou todas as lembranças, como as raízes que cultivamos,
Das tardes em que ao seu lado presenciei os raios de sol iluminando-a e
Espalhando sua beleza e seu brilho por toda parte.
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Aquela rosa de espécie rara que deu asas ao mundo,
Deixou-me um presente, aqueles arbustos de espinhos
Que ainda insistem em ficar cravados em meu peito,
Arranhões e cicatrizes que eu jamais imaginei que uma bela rosa
Poderiam me deixar.
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REGIANE PEROSO
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From Paula Moranguinho Pereira (i5)
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José Saramago: Até quando, Berlusconi?



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Há uns dois mil e cinquenta anos, mais dia menos dia, a esta hora ou outra, estava o bom Cícero clamando a sua indignação no senado romano ou no foro: “Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência?”, perguntou ele uma vez e muitas ao velhaco conspirador que o quis matar e fazer-se com um poder a que não tinha qualquer direito.
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Por José Saramago, em seu blog


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A História é tão pródiga, tão generosa, que não só nos dá excelentes lições sobre a atualidade de certos acontecidos outrora como também nos lega, para governo nosso, umas quantas palavras, umas quantas frases que, por esta ou aquela razão, viriam a ganhar raízes na memória dos povos.
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A frase que deixei acima, fresca, vibrante, como se tivesse acabado de ser pronunciada neste instante, é sem dúvida uma delas.
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Cícero foi um grande orador, um tribuno de enormes recursos, mas é interessante observar como, neste caso, preferiu utilizar termos dos mais comuns, que poderiam mesmo ter saído da boca de uma mãe que repreendesse o filho irrequieto.
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Com a enorme diferença de que aquele filho de Roma, o tal Catilina, era um traste da pior espécie, quer como homem, quer como político.
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A História de Itália surpreende qualquer um. É um extensíssimo rosário de gênios, sejam eles pintores, escultores ou arquitetos, músicos ou filósofos, escritores ou poetas, iluminadores ou artífices, um não acabar de gente sublime que representa o melhor que a humanidade tem pensado, imaginado, feito.
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Nunca lhe faltaram catilinas de maior ou menor envergadura, mas disso nenhum país está isento, é lepra que a todos toca.
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O Catilina de hoje, em Itália, chama-se Berlusconi. Não necessita assaltar o poder porque já é seu, tem dinheiro bastante para comprar todos os cúmplices que sejam necessários, incluindo juízes, deputados e senadores.
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Conseguiu a proeza de dividir a população de Itália em duas partes: os que gostariam de ser como ele e os que já o são.
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Agora promoveu a aprovação de leis absolutamente discricionárias contra a imigração ilegal, põe patrulhas de cidadãos a colaborar com a polícia na repressão física dos emigrantes sem papéis e, cúmulo dos cúmulos, proíbe que as crianças de pais emigrantes sejam inscritas no registo civil. Catilina, o Catilina histórico, não faria melhor.
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Disse acima que a História de Itália surpreende qualquer um. Surpreende, por exemplo, que nenhuma voz italiana (ao menos que haja chegado ao meu conhecimento) tenha retomado, com uma ligeira adaptação, as palavras de Cícero: “Até quando, ó Berlusconi, abusarás da nossa paciência?” Experimente-se, pode ser que dê resultado e que, por esta outra razão, a Itália volte a surpreender-nos.
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Fonte: O caderno de Saramago. Título do Vermelho
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in Vermelho -17 DE MAIO DE 2009 - 16h25
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quarta-feira, 22 de julho de 2009

Guilherme de Almeida - Canção do Expedicionário

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Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

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Guilherme de Almeida e os irmãos Tácito, Estevam e Antonio Joaquim, com o amigo Carlos Pinto Alves, em Cunha - 1932 (Foto Reprodução)





GUILHERME DE ALMEIDA
O POETA DA REVOLUÇÃO
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Luiz de Almeida

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Para o Estado de São Paulo o dia “9 de Julho” não é só uma data puramente histórica que ficou arquivada nas trincheiras do longínquo ano de 1932. O significado chega a transpor as barreiras e os limites não apenas de uma extensão territorial, mas sim as barreiras e os limites de uma nação chamada Brasil. São Paulo pleiteava a unificação nacional através de uma Constituição Digna e Democrática. São Paulo almejava a Liberdade. São Paulo sonhava com um Governo Democrático e não aceitava mais o pesadelo de Governo nefasto e ditador. E, como não encontrou eco para uma solução pacífica, armou-se para a batalha que a história denominou de: “Revolução Constitucionalista de 32”.
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Neste texto não desejo perder o meu tempo e nem o do dileto leitor com a História da referida Revolução. Todo o brasileiro a conhece. O que importa aqui, não fugindo da temática deste Blog, é continuar falando do Poeta Guilherme de Almeida, cuja postagem anterior, o artigo de autoria da Poeta Maria Thereza Cavalheiro, trouxe-nos notícias do "Príncipe dos Poetas" que ainda não sabiamos. E, mesmo sendo do conhecimento de todos, Maria Thereza enfatizou a participação ativa e efetiva do nosso Poeta na Revolução Constitucionalista de 1932. Guilherme de Almeida trocou o terno de linho pela farda de lona, a gravata pelo laço de couro repleto de balas, a caneta pelo fuzil, o escritório pela trincheira e foi demonstrar o seu civismo e o seu amor por São Paulo e pelos ideais democráticos.

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Para este Blog, o Poeta é o que mais importa para comemorar este “9 de Julho”. E não existe forma melhor para comemorar se não o de degustar dos poemas de Guilherme de Almeida, aqueles que versão sobre a Revolução Constitucionalista, sobre os Homens Paulistas que perderam suas vidas por uma causa nobre, e sobre o Símbolo Maior: a “Bandeira das Treze Listras”, que o Poeta orgulhosamente hasteava no topo da fachada da sua casa, numa demonstração de amor pelo Estado de São Paulo e pelo Brasil.
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E o Poeta e Soldado Constitucionalista:
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“Guilherme de Almeida”, assim se manifestou:
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CANÇÃO
DO EXPEDICIONÁRIO
Você sabe de onde eu venho?
Venho do morro, do Engenho,
Das selvas, dos cafezais,
Da boa terra do coco,
Da choupana onde um é pouco,
Dois é bom, três é demais,
Venho das praias sedosas,
Das montanhas alterosas,
Dos pampas, do seringal,
Das margens crespas dos rios,
Dos verdes mares bravios
Da minha terra natal.
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Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,A glória do meu Brasil.
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Eu venho da minha terra,
Da casa branca da serra
E do luar do meu sertão;
Venho da minha Maria
Cujo nome principia
Na palma da minha mão,
Braços mornos de Moema,
Lábios de mel de Iracema
Estendidos para mim.
Ó minha terra querida
Da Senhora Aparecida
E do Senhor do Bonfim!
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Por mais terras que eu percorra,
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá;
Sem que leve por divisa
Esse "V" que simboliza
A vitória que virá:
Nossa vitória final,
Que é a mira do meu fuzil,
A ração do meu bornal,
A água do meu cantil,
As asas do meu ideal,
A glória do meu Brasil.

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in
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Ver e ouvir no Galeria & Photomaton
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Hoje há musica (22) - Canção do Expedicionário
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CONSCIÊNCIA CÓSMICA - João Guimarães Rosa

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Já não preciso de rir.
Os dedos longos do medo
largaram minha fronte.
E as vagas do sofrimento me arrastaram
para o centro do remoinho da grande força,
que agora flui, feroz, dentro e fora de mim...
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Já não tenho medo de escalar os cimos
onde o ar limpo e fino pesa para fora,
e nem deixar escorrer a força de dos meus músculos,
e deitar-me na lama, o pensamento opiado...
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Deixo que o inevitável dance, ao meu redor,
a dança das espadas de todos os momentos.
e deveria rir , se me retasse o riso,
das tormentas que poupam as furnas da minha alma,
dos desastres que erraram o alvo do meu corpo...
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JOÃO GUIMARÁES ROSA
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From Paula Moranguinho Pereira (hi5)
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Não sei ser poeta - Mar

Assunto: SILÊNCIO DO EU....
Data: 22/Jul 13:48
NÃO SEI SER POETA....NEM O QUERO SER! NÃO QUERO SENTIR A DÔR QUE PASSAM PARA O PAPEL E TÃO POUCO AS JURAS DE AMOR ETERNAS QUE DURAM POR UM DIA E QUE TODOS FICAM A CONHECER. QUERO LER A POESIA. ENCONTRAR-ME AÍ COMO SE FOSSE UM ESPELHO, MAS SÓ EU SABER O QUE SINTO E O QUE SOU....EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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NÃO SEI SER POETA
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Quando escrevo poesia não me dou,
Faltam-me as palavras interdictas,
Faltam-me as rimas esquesitas,
Falta tudo, falta tudo o que sou,
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Não sei ser poeta, não sei...
nem agora nem nunca hei-de saber,
tenho o que digo e o que fica por dizer,
tenho o que dou e o que já dei.
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Não sei como se faz para ser poeta
nem tão pouco sei o que falta ou resta
para ter esse dom dentro de mim.
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Mas sei que só ser eu assim me basta,
é a escrita, é a escrita que me arrasta
para longe deste antecipado fim.
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.Publicada por mar - Blogue Dança de Lágrimas.
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A Chegada - José Rodrigues Miguéis

José Rodrigues Miguéis



A CHEGADA





A Chegada (Abertura)

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(1935) O PASSO decisivo – a linha divisória das vertentes da sua vida passada e futura – foi o embarque em Southampton, a 4 de Julho, dia da Independência e portanto de festa para os mais de mil viajantes norte-americanos de todos os sexos – sobretudo o opulento – ali reunidos para regressar ao seu país. Ancorado ao largo por não haver cais de embarque com pé bastante para o acolher, estava o Normandie, fulgurante de luzes e promessas. Era a sua segunda viagem. O tumulto da multidão, em grande parte embriagada, era de ensurdecer – brados, apelos, risos, aclamações, saudações, toda uma agitação de grande acontecimento, como se a perspectiva de regresso à puritana monotonia do business lhe desse uma derradeira explosão de euforia demente. Os vestidos de grande moda, as peles (apesar da estação quente), as jóias, os perfumes (vindos de Paris com os usuários), as maquilhagens excessivas, as atitudes de exibição, eram (como só anos depois ele veria) os das luxuosas audiências nas noites de gala da Ópera ou do Ballet, e evocava as maneiras abusivamente livres da sociedade que Hemingway e Scott Fitzgerald pintaram: de tal modo sugestivas, que contagiavam de um sonho colectivo de destinos sem limites os próprios emigrantes naquela multidão perdidos. Ninguém lembrava ali as viagens fatais do Titanic ou do Lusitania, as tragédias marítimas da primeira Guerra Mundial, nem lhes ocorria a proximidade aterradora duma segunda guerra – a quatro anos apenas! Um vapor especial ia agora transportar todo aquele mundo esfusiante para a Cidade Flutuante que os esperava, de imensas portas escancaradas jorrando luzes de oiro para o negro da noite e das vagas. Já os criados de bordo, altos, sorridentes, impecáveis, encasacados como membros da Academia, acolhiam solenemente aquela horda dolarferente, orientando-a individualmente para as respectivas classes e camarotes, ou para as conveniências sem limites da grande e luxuosa nave onde a orgia iria continuar por mais quatro dias e noites, na deslumbrante atmosfera de arte, luxo, gosto e disciplina.

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As suas próprias agonias pessoais lhe pareceram assim atenuadas.

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(1935) ATÉ que um dia pôde enfim sorrir à distante memória, em Julho, quando a Cidade, activa e transbordante de mistério, o surpreendeu pela primeira vez. Os seus, aqui, dois únicos amigos esperavam-no, um a cada extremo do imenso cais-hangar, a essa hora crepuscular e mesmo anoitecido, a que o Normandie acostara para despejar os seus mil e quinhentos passageiros. Encontro de emoções! Não teve dificuldade alguma. Despachada em pleno tumulto a maleta do visitante – dois ou três livros, um dicionário, alguns papéis e as roupas estritamente indispensáveis (o fato único e o único par de sapatos, ambos novos, iam no corpo) – levaram-no a jantar num restaurante da Rua 8, no Village. O sítio, a sala antiga, a clientela de aparência escolhida, as conversas sussurradas, os risos, ao fundo o pátio onde se instalaram debaixo do toldo, entre exalações de culinária e de estivais verduras, os criados de jaqueta vermelha, pretos retintos, altos, impassíveis, um quase-nada desdenhosos – tudo lhe pareceu luxuoso e lhe deixou a voluptuosa impressão de se encontrar num país exótico, tropical, colonial em suma: no ambiente de algum romance inglês. E sobretudo o sentimento inesperado e surpreendente de liberdade: poder respirar fundo sem disso dar contas a ninguém. Apeteceu-lhe até tirar o casaco: olhando em volta, porém, não ousou fazê-lo. Era cedo no Tempo: isso viria dias depois, ao balcão dum fish-and-chips.

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Depois, na rua estreita e popular, o modesto apartamento acanhado e obscuro, acolhedor como um inventado lar de sonho ou ninho de amor, que a doce amiga soubera desencantar (só Deus sabe a que custo), e onde lhe abriu os braços a acolhê-lo – “A tua casa!” – a fim de que ele recomeçasse a vida em novas bases, com outros moldes e destinos… Sentiu-se levitado de esperança e felicidade como nunca tivera. Iria agora poder, em nome do Amor, esquecer tudo, sofrer tudo, incluindo o ciúme? O amigo morava fora da cidade e, discreto e cordial, retirou-se sem demora no automóvel, deixando-os sós. Não sozinhos, porque eram dois e estavam juntos, embora definitivamente unidos em Um- -Só, no ardor da paixão vulcânica e renovada: e porque o Amor, em torno deles, a envolvê-los, era uma terceira e bem-vinda presença e companhia.

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Amaram-se logo até ao esgotamento, com a fome, o ardor, o riso e as lágrimas do breve encontro inicial de Lisboa, havia meses, mas agora com a quase certeza dos inseparáveis. Logo ao romper do dia, satisfeitas as primeiras e urgentes exigências da paixão, e (nele) do esquecimento e da embriaguez, para lhe mostrar a sua gratidão e torná-la feliz neste seu novo estado sub-matrimonial (que ele, a bem dizer, não esperava), pulou no chão: “Vou fazer o café e trago-to à cama!” (Mimos!) Mas ela: “Deus te livre! É muito complicado e eu não estou habituada.” (Nem eu!) Mas então porquê? Havia primeiro o suco de laranja, depois era preciso aquecer o ovo à temperatura exacta, de relógio na mão; o café

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não era como em Lisboa, de saco, mas de cafeteira-filtro, ele ignorava a porção de café a usar moído muito grosso, e a água devia estar furiously boiling! Santo nome de!
Leite ela não tomava a não ser em casos extremos: bastava um fio de creme ou de leite evaporado. (Que é isso, evaporado?!) Àquela hora já o leite devia estar à porta, grosso de gordura no gargalo da garrafa de litro (ou quase). Ou espera, não! Alguém – a irmã dela decerto – o tinha metido no ice-box. Outra novidade: era uma espécie de pequeno armário de madeira, carvalho, com isolamento interno, um frigorífico primitivo onde, dia-sim, dia-não, se encaixava um formidável bloco de gelo que um homem trazia à porta (“Ice!”), e lhe iria (a caixa) dar sério(s) trabalhos de atenção: um descuido, e o gelo, derretido na tina ou bandeja, inundava a cozinha – principal divisão e casa de entrada do apartamento – com veementes protestos do vizinho de baixo, que era o encarregado do prédio. “Ah, e as torradas! Sabes usar a torradeira eléctrica?” Ficou encabulado de não poder com tantos milagres técnicos, mas que remédio: estava na América, terra deles! Ela tinha-lhe dito na curta passagem por Lisboa: “O senhor fica já prevenido: se algum dia for à – ou para a – América, está proibido de entrar na cozinha!” (Pois sim, mas foi ele que teve de lhe fritar dois ovos! E não tardaria – pressentiu – a armar em chef.)

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TUDO aquilo lhe deu que pensar: Não estaria ele disposto a exercer sobre ela, mulher independente, as suas tendências proteccionistas, paternalistas, que eram talvez a maneira sub-reptícia de impor a sua autoridade de macho? Não fosse ela ressentir-se também, como a Outra! Por sinal, dias depois, ao cortar as unhas dos pés com a velha tesourinha inglesa que herdara do morto pai (Senhor, já lá iam nove anos, e com a ditadura!), descobriu um novo termo de comparação: O homem e a mulher são como os dedos grandes dos pés: iguaizinhos – mas opostos! Ou então como a imagem do espelho:

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exactamente a mesma, mas do avesso ou invés! Que grande novidade! Mas era isso precisamente que tornava o Amor tão gostoso e possível, embora complicado. Ficou muito contente com essa descoberta, que viria ajudar a (re)solver muitos problemas futuros. Foi mesmo a primeira coisa que o exílio lhe ensinou. Para o celebrar, foi-se ao armário da cozinha, onde achara os restos de uma garrafa de vermouth doce, e bebeu um copo dele com gelo picado – que delícia, no tempo quente! Desde Madrid, onze anos antes, que o não provava. (Ah, que saudades da Carrera San Jerónimo! (1924) E do Hotel Lisboa, e de Maruja alva e loura, de luto!) Logo naquela manhã, já ela saíra, ao barbear-se ao espelho do lavatório (agora não lhe faltariam lâminas, embora a humidade do clima viesse a enferrujá-las também), vendo o suor a escorrer-lhe em bica da testa e das fontes para a cara, ele riu-se a perder: nunca se tinha visto suar! Lembrava-lhe o pai, com aquele ritual do beija-face e beija-mão, que tanto repugnavam aos filhos.

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O estio equatorial nesta alta latitude assombrava-o (Espera tu pelo Inverno e então verás!) A canícula de Julho, agravada pela humidade quase irrespirável, tornava imperioso o banho ou o chuveiro diário, às vezes a dobrar. Os vapores do shower, condensados, alagavam as paredes e os azulejos como num banho turco ou sauna.

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A vigorosa calisténica do Amor fazia-os suar mais, viscosos, peganhentos, aderentes os corpos! Muito eles se riam! (e se banhavam.) Isso é claro não os fazia desistir.

.Amavam-se a todas as horas disponíveis do dia e da noite, ao amanhecer e ao pôr-do-sol, cega e repetidamente, com um furor quase vingativo de recuperação.

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O Amor exasperado era o seu refúgio contra a solidão e a incerteza, as dificuldades, além de telescopagem dos sete anos perdidos. Ele quase não podia crer no que tinha sofrido naqueles últimos tempos. Sem Ela, que teria sido dele? Salvara-o da loucura, do suicídio quem sabe. Por isso a amava duplamente, como se tivessem reatado a vida desde 1928 sonhada. Eliminar o tempo intercorrente. Era a ela que ele tinha amado primeiro.

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Depois, tudo fora uma eternidade medida em desgostos, privações, sustos, desilusão.

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Por algum tempo ainda ele sentiu a trepidação violenta da popa do Normandie, espécie de contra-canto vibratório dos nervos, que de repente o acordava alarmado, supondo-se ainda a bordo. As molas e redes metálicas da cama rangiam em acordes de inusitada harmonia musical, ao ritmo acelerado do Amor. Na realidade aquilo não era cama, era um couch (lê-se cautche) ou divã desdobrável: a metade inferior arrumava-se durante o dia debaixo da outra. (Quando chegaremos nós a ter uma cama de verdade?) Certa madrugada caiu do divã, como sacudido por um sismo; que de facto houvera segundo os jornais: em Brooklyn, na outra banda do East River. Limitara-se a rachar algumas paredes caducas. Nem tudo, pois, era fácil ou aprazível. Imenso o contraste com a sua vida anterior, desprovida como fora.

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Vinha da Cidade supostamente do sol e do luar, dos vastos horizontes suburbanos, dos ares lavados e respiráveis, ainda livres então dos fumos e poeiras industriais: sim, mas onde chegara a sofrer de fome e outras privações, devorado pelos mosquitos sanguissedentes, e onde tomava banho no alguidar de lavar roupa: e achava-se de repente prisioneiro-livre dum bairro de ferro-velho! Logo nas traseiras ou ao lado daquele rés-do-chão havia um pátio e barracão onde se amontoavam carcaças e peças avulsas de automóveis ultra-usados, torres de pneus e mil outros artigos em estado de sucata, numa confusão de terramoto. Abria a janela, o ar entrava quente e sobrecarregado de limalhas, de exalações azedas e gordurosas, de poeiras e detritos de carvões e fumos sufocantes. Dez vezes por dia limpava o tampo da mesa (oscilante) de trabalho, coberto de um áspero filme de sujidade, e outras tantas vezes lavava as mãos. Chegou a recear-se vítima da mania de escrúpulos ou de limpeza! Assim o descrevia em humorosas cartas a dois ou três amigos de Lisboa, falando da solidão, dos trabalhos, ambiente, usos e costumes, dos projectos que tinha – mas nunca do Amor, por discreção ou prudência.

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Tudo isso lhe era naturalmente estranho, embora novo e épico de amor. Abafava entre paredes salitrosas, esfarelentas, mil vezes repintadas, como o soalho irregular, rangente, cor-de-sangue-de-boi ou mesmo negro, com cabeças de pregos salientes como nas velhas

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casas pombalinas da sua infância: quando ele o lavava a grandes águas de sabão e escova, desprendia um fedor acre de velhice, tintas e detritos estratificados, bolor e mijo de gato. Os fluidos químicos de limpeza afligiam-no (nariz sensível!): O asseio é tanto que até fede! Concluía a rir, com vontade de chorar. Ó cheiros da Natureza, onde estais vós! Quando poderia voltar a escrever? Porque tudo isto o estimulava. Era no Greenwich Village de universal reputação. Assunto não faltava. Devia adaptar-se. Tinha de. Era imperativo. O Amor, que tudo acende e transfigura – Che muove’l Sol e l’altre stelle! – transfigurava o ghetto em Paraíso.

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Ficava ali sozinho o dia inteiro, ardendo de gratidão, impaciência e desejo. Ela chegava ao fim da tarde, calma e sorridente (o sorriso de Mona Lisa!), e precipitavam-se nos desfiladeiros da paixão. Em seguida ela sentava-se à Remington portátil (quantos impressos a preencher!), erecta no seu vestido arrendado sobre um fundo laranja-fogo, e ele, num mocho ao lado, olhava-a de baixo para cima, em adoração: ela batia as teclas com rapidez, sorrindo sempre, mordendo as bochechas por dentro, hábito que nunca perdeu. De baixo, no subsolo, onde o janitor (de Jano, latino sabor arcaico – assim se chamava o encarregado) vivia com a mulher ou amiga, subiam àquela hora sons abafados da rádio, a voz duma torch-singer (Helena Morgan com certeza), grave e dramática, o mistério sensual e provocante das canções de night-club: mundo estranho e sedutor! Ele gostava daquilo, inspirado, vagamente antecipando não sabia o quê: O que nunca seria! Outras vezes eram ralhos: o homem tinha fama de gangster recuperado! Tudo isso o excitava e ajudava a compor o cenário, a torná-lo aceitável.

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Ou vinham visitas, quase diariamente a irmã mais nova, decoradora e marionetista, um anjo, ou então as lésbias, adoráveis raparigas, bem vestidas, muito femininas – nada da odiosa rita-macha Gertrude Stein!– às vezes em grupos, que lhe inculcavam indefiníveis apetites. Duas delas, sentadas no divã, com ele ao meio, puseram-se uma tarde a admirar-lhe os sapatos cor-de-castanha, feitos sobre medida por um bate-sola de porta de escada do Intendente, por oitenta (80!) escudos, e eram de facto uma obra-prima de arte portuguesa. Elas nem podiam compreender: por tuta-e-meia! Lisonjeado, já ele sonhava talvez convertê-las? (Algumas cultivavam o amor a dois carrinhos.) Com frequência aparecia o amigo e vizinho chileno, o B., ajudante de arquitecto, que uma tarde lhe trouxe de surpresa, imagine-se!: o secretário-geral do Partido Comunista! Um tal Hathaway, irlandês arruivado, tipo familiar de operário ou marujo, um “obreirista”, falando com volubilidade como um ex-anarquista convertido ao novo ideário. Até o fez pensar no Bento Gonçalves! (Não tardou em ser substituído por um sujeito de superior envergadura mental, e nunca mais se ouviu falar do proletariano Hathaway, simpático tagarela que tivera ao menos a curiosidade de conhecer um “camarada” português exilado!) Apesar de se exprimir com relativa facilidade em inglês, custava-lhe entender os americanos da base, aos guichés e balcões: se não ouvia bem e repetia a pergunta, eles irritavam-se, respondiam torto, eram europeus como ele mas já sem o verniz da paciência, deixavam-no desolado. Entendia muito melhor os judeus, hábeis em se exprimir (os cultos), como a Minna, quente e suave mulher, advogada e boa amiga, que silabava nitidamente:

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“Are you working hard?” Não perdia uma consoante! Ou faria ela de propósito para ele a entender melhor? Até uma noite os levou a conhecer um juvenil casal de amigos, judeus também, ele professor de Direito da New York University, e ela uma das mais lindas mulheres que ele vira e viria a conhecer em sua vida: destas que têm os olhos muito negros na alvura radiante da epiderme, febris ou fulgurantes, como se fossem deliciosamente lubrificados. Se entendem o que eu quero dizer! O marido era trotzkista. Travaram uma discussão vivíssima, ele (feito estalinista!), com o seu inglês ainda cru, levou a melhor, a mulher pugnou por ele, e parecia que o comia com aqueles olhos inesquecíveis, quase que se apaixonou por ela. O professor encabulado, cheio de ciúmes! Nunca mais se viram. Coisa frequente no país!

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Nesse tempo, graças às leituras marxistas, tudo lhe parecia claro e simples. Até agradar ao belo sexo! Com o B. e a amiga, a escultora Myrtila, tiraram retratos no pátio interior do prédio, de pouca verdura, sombrio, húmido e silencioso. A Estela, a doce e lânguida morena, ficava brandamente expressiva e feliz, com aquele sorriso de Gioconda! Ele, no seu fato cinzento de bom corte, e meia-estação… para o ano inteiro!, obra de um alfaiate de meia-porta da rua dos Fanqueiros – uma elegância inesperada!

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Estando sozinho em casa, se alguém batia à porta ou o telefone tocava, ele não respondia: por prudência e receio de não entender. Uma tarde não fez caso ao som da campainha, e daí a pouco, ouviu um grande sarrabulho na salinha de banho: alguém tentava entrar pela janela, sempre aberta, falando alto para fora! Ou eram ladrões ou era a Polícia! Correu a ver: era o (futuro) cunhado, o mais novo, de dezoito anos: “Joe! Não respondeste, julgámos que não estava ninguém em casa!

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Desculpa!” Não lhe parecia admissível entrar assim em casa pela janela da sala de banho, mas enfim!…

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Liberdades! Riram. O jovem trazia-lhe alguns objectos indispensáveis à vida doméstica.

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TINHA por vezes a estranha e feliz sensação de que a vida ia decorrer assim indefinidamente, modesta, anónima, segura, sem altos nem baixos, e tingida de Amor: o seu sonho! Sentia-se contente na obscuridade, longe de diplomas e formalidades que sempre odiara, Mister Qualquer-Coisa. Não dependia de ninguém – ilusória esperança que cedo seria desmentida! Só tinha pena que não houvesse peles-vermelhas! Tinha feito a sua educação americana nas obras de Gabriel Ferry, Mayne Reid, e Gustave Aimard, nas novelas de índios “rojos” (em espanhol), de Texas-Jack, menos de Buffalo-Bill, nos policiais de Nick Carter, Miss Boston, Nat Pinkerton, Patrick Osborn, cheias de racismo e de anti- -labor (que ele odiava!), e até na obra de um cônsul português, que o empolgara mas de quem esquecera o nome! E os Contos e alguns poemas de Edgar Poe! Só não leu (entre os dos índios) o Fenimore Cooper. .

Muito mais tarde viria a ler o de Tocqueville, e depois de
formado, o de D. Pasquet – História Política e Social do Povo Americano (1924), uma obra extraordinária francesa! E outros, como o inocente Kafka de 16 anos, Amerika, onde a Liberdade da estátua aparecia empunhando uma espada romana em vez do archote! Até parecia um dos (maus) folhetos de Nick Carter! Ora, tudo isso era América para ele: This is America for me! (canção.) Claro que, com o tempo, leria legiões de historiadores norte- -americanos, mas encheria páginas mencioná-los!

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Tão pobre como antes e mais. Morrer de fome não morriam, ela tinha o emprego modestamente pago, as traduções, e ele ia com certeza arranjar ocupação: havia o Cinema a traduzir (fia-te nisso!), e os amigos brasileiros… Lá com portugueses nada.. Nem sequer se apresentou no Consulado. Foi preciso vir de lá um seu antigo colega, agora cônsul-adjunto, visitá-lo: “Então você está cá há quinze dias, e nem sequer pia?!” Se ele era um exilado político!… Fica para mais tarde.

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Ao menos, agora podia meter a mão num bolso e encontrar alguns cobres, não muitos, para um jornal, cigarros, o café, e mesmo um cinema (a dois). Devia-o a ela. Querida mulher! Infelizmente, como “visitante” temporário, estava-lhe vedado ganhar dinheiro. Então como é que iam viver?! Sério problema. E ainda havia o perigo das “leis azuis”: sagrados mandamentos da moralidade puritana – nada de adultérios, mancebias, promiscuidades… (Mas aprovando o casamento de facto entre amantes conviventes: pela common law.) Entretanto, a prostituição prosperava a olhos vistos: clandestina, claro! Nas mãos dos mafiosos. Se ele até o Gorky fora convidado a sair do país, porque viera acompanhado da “amiga”! Isto apesar de dormirem em quartos separados, no mesmo hotel de luxo. A corrupção tem destas hipocrisias – ou vice-versa?

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Discutiam o assunto, apoquentados. Sendo ele ainda casado com Outra, não haveria o risco de que Ela (a Outra!) viesse surpreendê-los naquele estado? Haver-havia. Parece que até tinha parentes em Yonkers, cidade próxima. Talvez preso, ou mesmo expulso! Ah, com certeza… “Afinal eu não vim na suposição de vivermos juntos, pois não?” (E de outro modo como viveria ele?) A Estela olhou-o com atenta gravidade. Mas que estúpida, impensada maldade a dele, ao dizer isto! Sentindo que já nada os podia separar. Como é que ela tolerava semelhante insulto? “Só por causa das aparências…” – acrescentou ele, pior a emenda que o soneto. Porque cá não há “aparências”! Pois bem, na sua habitual serenidade ou fleuma, imperturbável, ela pôs-se a procurar com ele outro apartamento no mesmo prédio, ou porta ao lado, onde ele pudesse ir morar sozinho. Que ideia! Onde é que estava o dinheiro para nova renda? É claro que desistiram.

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A memória da Outra perturbava-o de remorsos. Tê-la-ia abandonado sem motivo suficiente? Mandara-a embora num cego impulso? Mas então não fora ela a culpada da ruína de todos os seus planos e sonhos? Só escrevendo um romance… Talvez no futuro! Era impressionante o contraste entre estas duas mulheres. Teria ele errado na escolha? De qual delas? Ambas o tinham apaixonado a seu modo. A poucos dias da chegada viera o cartão: “Estou em Lisboa à tua espera.” Essa agora! Os parvos ou malévolos amigos tinham-na informado da sua direcção, contra o combinado. Que fazer? Não respondeu. Mantinha-se porém a aresta ou divisória da decisão ou escolha.

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O passado, com que ele se esforçara por romper – o seu e os das suas mulheres – não estava pois tão enterrado como ele supusera, ao cavar-lhe de permeio a fossa do Atlântico. Vinha ela agora perturbá-lo, atormentá-lo, em plena liberdade e suposta felicidade! Como ele não aparecia, ela cedo regressou à origem. Vieram então as cartas de amigas e primas: hesitava em abri-las. “A Magda passa fome!” “Para continuar os estudos tem de servir à mesa na cantina dos estudantes, sofrer insultos…” A ele custava-lhe engolir a magra costeleta de carneiro do almoço pensando que ela sofria de privações. Se ao menos ele conseguisse passar de visitante a imigrante, e ganhar dinheiro! (Em quê?) Mas era complicado, se não impossível, e custava caro. Metia advogados. A angústia recomeçou a estrangulá-lo. A Estela daria por isso? Não ousava falar-lhe no assunto.

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Havia nele um jogo de ambiguidade, de duplicidade:

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num vago intento de represália (ciumento do passado dela!), disfarçadamente dúplice, deu em trocar com a Outra uma espécie de correspondência clandestina!

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Tinham afinal lembranças do passado em comum. Era uma deslealdade de todo o tamanho, um remorso a dobrar o remorso. Mas talvez ele achasse interesse nas situações dramáticas. Nascera para elas! Porque lá voltar ao passado, nem pensar nisso! E não devia ela ter ciúmes dele também?! O casamento dele fora uma verdadeira traição a promessas implícitas (isto é, nunca formuladas).

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Impassível, ela nem sinais dava de tal coisa. O que só agravava as dúvidas dele: não o amaria de verdade?

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Como é possível amar alguém e não ter ciúmes?! Ou não o amava ela com o mesmo grau de paixão que ele lhe consagrava? Sim, porque via agora claramente que nunca amara assim mulher alguma!

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Não podia propor-lhe a bigamia, o ménage-à-trois!

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Pois bem, ela iria mais adiante ao extremo inacreditável do sacrifício, ao tentar promover a vinda da rival! Se isto era admissível! Conceber semelhante absurdo. Era a fleuma, o fair-play, a sua eterna serenidade a disfarçar talvez a paixão? A insondável sensualidade, satisfeita sem o compromisso do amor?… E aqui a indulgência dela só lhe agravava o ciúme. Era um círculo vicioso! Foi quando a Outra – o que é a esperteza! – dissimulada, sournoise, supondo-se insubstituível e vencedora, alegou que o seu antigo professor de Biologia, esqueci-lhe o nome, que tanto interesse mostrara ter por ela logo ao primeiro exame, lhe prestava agora “um auxílio precioso”, uma “grande ajuda”, e que ela não o queria “magoar”! Desiludi-lo, talvez? Pobrezinho!! O nervo dela, só vendo. Era o cúmulo, a ameaça, a chantagem – mas, esperta de mais, deu a solução: ele expulsou-a de vez em carne e em espírito. Que se governasse. Eu também aqui estou a sofrer! (Exagero? Mas talvez não fosse). E suspendeu a secreta correspondência adulterino-matrimonial.

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Mas ia agora aprender que a Vida, como as moedas, tem sempre duas faces: Caras e Cruzes.

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(fim – provisório – do conto!)

(parte final, reservada)

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Chegada do Foragido
(1935) sim, havia o problema do ciúme retrospectivo, ainda não solucionado. O episódio da gatinha, por exemplo! Tinham-lhe dado o nome de Bendéry, por estranha coincidência o mesmo de um porto no país natal da Outra, em território anexado à Roménia desde a primeira grande guerra. Porquê? Esse era também – e aqui ele torcia-se todo – o nome do vapor francês em que a Estela viajara de New York a Lisboa e volta, naquela segunda e memorável visita por ela empreendida em 1932, para ver confirmado o boato do casamento dele com a “russa” (que o não era).

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Na tarde da despedida ela convidara-o a acompanhá-la a bordo e apresentara-o a um oficial taciturno (comissário de bordo?) que lhe oferecera um drink e o olhara com a fixidez da suspeita ou da rivalidade – aliás mútua! Ele não simpatizara mesmo nada com o sujeito.

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Instinto? Para quê esse convite? Seria propositado para o encabular? Mostrar-lhe que não era ele o Único no mundo? E agora, a presença da gatinha de poucas semanas de idade, oferta recente do mesmo cavalheiro, ou nele inspirada, a provar que, DOIS A TRÊS ANOS DEPOIS DAQUELA VIAGEM, o mareante continuava a frequentá-la, talvez nesta mesma casa! (Ou não, porque ela morava, antes de ele vir, numa Residência exclusivamente de mulheres.) Em todo o caso, a frequentar a roda do Village, que era a dela! Queriam prova mais segura?… Era a suspeita do laço odioso confirmada. E havia ainda a história de uma viagem de três dias a Espanha, supostamente a visita às três tias gaditanas! Então não lhe bastava Um só? Quantos lhe eram precisos?…

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O ciúme transbordou em cólera e reproches: Pois não via ela que isso a expunha e denunciava (o da gata)? E o vexava? Não pensara no efeito que isso podia ter nas suas relações? (Ou fizera-o propositadamente?) Seria ela – mas isto não ousou ele dizer-lho! – uma dessas aventureiras, em geral americanas, como tal conhecidas no mundo inteiro, e assunto de anedotas picantes entre os homens do mar e do turismo? (E então em Paris!…

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Ou-là-là! Les Americaines!) Um piloto seu amigo dissera-lhe um dia: “Estas gajas, assim que pisam as tábuas do convés de um navio, perdem logo todo o senso de pudor e dignidade, e entregam-se sem escrúpulos ao primeiro uniforme branco, engomado e agaloado com quem dancem um fox ou um shimmy, e lhes faça rapapés!”
Profissionais, umas e outros, da prostituição turístico-navegatória! A este pensamento ele explodiu: “Porque é que ao menos não te desfizeste da gata antes da minha chegada?! Ou julgas que eu não tenho memória?”

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Foi o que ela logo fez, prudentemente, sem um comentário: o corpo de delito, na dele, a pobre bichana que não tinha culpa alguma de tais simbolismos ou rumores! Quanto ao mareante, esse nunca mais (que ele soubesse) mostrou o nariz naquela casa ou arredores.

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Não era evidente? Tinham-no prevenido! Mas então já uma mulher não pode ter amizade ou gratidão a um homem, que não haja logo suspeitas de…? Ora, cantigas! E quem sabe? Todo o passado dela lhe pareceu comprometido, até mesmo antes do seu distante primeiro encontro (1928).

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A tortura, uma vez iniciada, cresceu, inchou, multiplicou-se. Tudo agora eram motivos de ciúme.

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Obcecado e algo traiçoeiro, na ausência dela, estudou-lhe furtivamente o passaporte USA, o mesmo ainda de há três anos, para verificar as datas, especialmente as da inexplicada e misteriosa viagem de três dias a Espanha, no cego impulso, segundo ele cria, de represália por o ter visto casado: as datas coincidiam! E esse não teria sido com certeza o primeiro encontro com o anónimo sujeito (ou objecto?) dessa excursão obviamente… quê? Amorosa? E que outra coisa podia ser?! Já decerto se tinham conhecido: onde e como? Nos anos da sua candura ou inexperiência, não lhe escrevera um dia, num pequeno retrato que lhe mandou, donde um outro figurante fora cortado: “O senhor é ciumento?” Como elas começam cedo e são peritas!

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Sentiu-se burlado, traído, prisioneiro duma cilada.

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E que fazer agora? Descontrolado, de passaporte em punho – a prova! – forçou-a a confessar o insanável deslize, cicatriz para todo o sempre indelével. A sua raiva era tal, que poderia ter assassinado alguém.

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Apertado na tenaz das suas próprias contradições, levou mais longe a feroz inquisição. Queria agora saber – sofrer! – mais: Quem, quando, onde, como? Qual outro Eterno Marido de Dostoievsky… Ela, assombrada mas calma, respondia-lhe como a um louco: não vendo nisso tudo, decerto, nenhum pecado passível de censura ou punição; numa paz de consciência que o exasperava como sintoma do “cinismo anglo-saxão”, ou talvez porque implicava a muda acusação de ser ele o autêntico culpado do transvio: pois se ele se casara, e sem prévio aviso à parte interessada, que merecia ou podia esperar senão aquilo? O quê? Então a culpa de um justifica a do outro?! Dois tortos não fazem um direito! Conteve a custo a raiva vingativa. Mas quando um dia, esquecida do insulto, numa hora de paixão, confiança e plenitude amorosa, ela, grata pelos incansáveis recursos dele, e querendo elogiá-lo, lhe confessou candidamente: “És tal-qual um homem com quem eu tive relações por seis meses!”, ele, tapando-lhe a boca (para a não estrangular), gritou: “Nem mais uma palavra!” – e retirou-se dela brutalmente… Pois quê, iria ele durar também só seis meses, apesar das suas comprovadas qualidade e técnicas viris, feito objecto de passageiro gozo ou capricho de irresponsável aventura!? ERA ISSO O AMOR? E quantos outros não teria havido no passado? Nesse caso, que faço eu aqui? A que vim? Desejou matar esse rival desconhecido, e para mais português! Quer dizer linguareiro ou gabarola, vivo algures, que se estaria rindo agora à custa deste pobre inocente! A sua reacção foi tão aparente na atitude e na expressão, que ela o olhou pela primeira vez alarmada sob a iminência da agressão reprimida. Era outro homem? Mas afinal – reflectiu ele – não era aquela comparação o mais alto elogio a que ele podia aspirar como homem? Não obstante, o rancor permaneceu, embora surdo.

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Na tarde em que o idoso e respeitável engenheiro X., antigo patrão dela, mas comprovadamente (pelo menos) não mais do que isso, ou apenas candidato, a veio visitar, decerto para conhecer e avaliar pessoalmente o rival de sorte (quantos anos mais novo!) que lhe ganhara, ele, depois de o ver sair, desencadeou uma tal cena, que a fez romper pela primeira vez num choro desatado e provocou o seu primeiro grito de revolta: “A esse, eu quero-lhe como a um pai! Se ele agora aqui voltasse a aparecer, eu corria a abraçá-lo!” Mas pensaria ela nas fatais consequências que isso poderia ter para ambos eles – nós? E não havia nisso um quase convite à separação? Percebeu, ele, o perigo que corria… Mas (de novo) como elas são hábeis em criar situações sem saída!

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Outras suspeitas o atormentaram. Começava a ver “amantes” (ex-) em todos os conhecidos dela, ali ou fora dali. As mulheres são tão fáceis! E que ganhava ele com isso, ele, o obcecado da monogamia? Queria perdê-la?

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Prová-la indigna do seu amor? Ir-se embora talvez – para onde e para quem? Pois se não tirava de tudo aquilo nenhum gozo masoquista! (E quem sabe…) Então?

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Deixar-se ir até ao desespero, ao suicídio? Depois de tanto sofrer? Por causa de uma mulher! Ele, que jurara antes cortar os testes do que submeter-se aos caprichos da Outra? (Pobrezinha!) Senhor, em que meio ele viera cair em busca do Amor! Antro de puritana inocência, ou de inconsciente corrupção? E se ela fosse outra Isadora Duncan, Lou Salomé, Frieda Van Richthofen (a do Lawrence), ou Alma Mahler, que pertenceu ao compositor, e ao Gropius, e ao Werfel, e ao Kokoshka, e sabe Deus a quantos mais?! Por essa ou outra ordem?

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Que poderia ele contra isso, se a amava? Aceitaria tudo resignado, como esses amorosos pouco exigentes? Abandonava-a? Sofreria para todo o sempre? Resignava-se a sabê-la livre? … Ah, lá isso!…

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O problema era insolúvel. Uma das amigas dela, que ele chegara a supor lésbia, fora ao ponto de dizer: “Oh, ele é delicioso! Cheio de nervos! Se um dia te fartares dele, eu tomo-o de trespasse!” Fartar-se? Trespassá-lo? Era então isso o sonhado Village? A promiscuidade, a libertinagem, a colectivização do sexo, o escambo dos amantes? Aonde chegara este mundo em que ele tentara ser e ficar puro ou casto e fiel? (Tentara? Ou apenas sonhara?) Nunca mulher alguma o tinha feito sentir assim tão mal: nem a Concha prostituta, nem a Dama da Casa das Rosas, burguesa, casada e mãe de filhos, que o tinham glorificado e de quem ele fugira!… E porque fugi eu? Jesus-Senhor – porque as não amava! Aí estava a explicação, o AMOR! E no entanto, influência talvez já do meio, ele próprio não tardou em sentir-se tentado a um pluralismo erótico, sonhando arranjar outras “amigas”… Com que meios? Amor-cadeia, a quanto obrigas! Não se estaria ele corrompendo também? Como é que estes homens (e outros) se deixavam embeiçar por mulheres que tinham conhecido um ou mais amantes ou maridos, mostrando uma sensibilidade comparável à de tantos outros machos da natureza?… Sempre o tinham intrigado: que gozo, que frescura achavam nelas? E não deixei eu a Magda inocente, a quem supunha idolatrar? O que é o ciúme senão uma nevrose de inferioridade, o temor de supor-se desvantajosamente comparado a, ou confrontado com, outro(s) macho(s)? A inveja, o despeito, o temor das íntimas aparências? E daí o querer assassiná-los! Não será o ciúme um disfarce do ódio, o seu primeiro passo? E no entanto, o sonho da pureza da Mulher, essa herança ancestral de que ele sofria… Bolas! Para que torturar então esta santa e amorosa mulher, que tudo fizera para a salvar e reaver, mesmo em segunda ou ENÉsima mão? Não era isso o Amor? Por que motivo não haveria entre ambos uma honesta reciprocidade?

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Que mais podia ele pedir ou esperar com trinta e quatro (e ela com trinta!) anos? Havia nela, além da bondade, boa-fé e equanimidade, um espírito de sacrifício e bem fazer, o culto do fair-play, da transigência e da concórdia, da liberdade individual, uma coragem e sensatez que pareciam contradizer a suposta libertinagem do passado!

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Talvez fosse essa a condição prévia, indeclinável, do fervor amoroso de que ele agora usufruía! Tinha sido escravo do preconceito, do prestigioso privilégio da pureza ou virgindade da Mulher, hipnotizado desde a infância! Iria então libertar-se dele? Ou era talvez a beleza visual do sexo intacto ou pouco usado que o fascinava? (Não lhe dissera um dia um amigo de mais de 70 anos: “Haveria no mundo outra coisa tão bela de contemplar?”) Uma espécie de kosher bebido na tradição?

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(Mas porque é que Deus as tinha dotado daquela membrana comprometedora?) Porque os homens são vítimas também das heranças culturais!

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Sim, tudo era afinal uma questão de cultura (ou de estética) mais que de moralidade. Estranha contradição entre o pendor para a castidade e a virtude, a monogamia, a fidelidade, pelas quais tanto sofrera, (sem porém deixar de as transgredir ocasionalmente) – e os seus actuais impulsos orgíacos, de promiscuidade boémia, de variedade “tipológica”? (“Me gustan todas!…”) Sofreria da influência dela? Ou do meio? Que direito tinha então de exigir dela uma virtude que ele próprio transgredira e contra a qual sonhava tornar a fazê-lo?

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Devia-lhe (além do amor) a possibilidade de vir a realizar a “obra” que sonhava e não sabia ainda qual fosse. Apoderou-se dele, pouco a pouco, uma gratidão admirativa, uma ternura e condescendência imensas, que lhe iam permitir viver em paz consigo próprio e contentamento dela. Pensou na famigerada Lou Salomé, e dos muitos homens a que ela pertencera talvez, sem que nenhum deles a possuísse em espírito – e só dificilmente em corpo! Recalcou quanto pôde a amargura do ciúme, procurando racionalizá-lo para se libertar e ser feliz. Porque todo o bem da vida consiste em dar e tomar, como com ela vinha aprendendo.

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Lá bem no fundo, porém, apesar de esforços e de aparências, e embora reconhecendo a sua própria (involuntária) culpa, e legitimando o passado dela, [talvez] nunca viesse a conseguir o milagre supra-humano do total perdão. Guardou um dormente sentimento de represália, por vezes activo, a que se julgava com direito por ter sofrido uma tão longa juventude de privação quase monástica. O que o levaria a fantasiar, e a cometer por vezes, infidelidades que só viriam a causar-lhes, a ele sobretudo, escusados sofrimentos.

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Nota sobre “A Chegada” de José Rodrigues Miguéis

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Encontrei o manuscrito de “A Chegada” em Julho de 2002, no espólio de José Rodrigues Miguéis na John Hay Library da Brown University, nos Estados Unidos. Na altura, andava eu a preparar uma antologia em língua inglesa, a ser publicada pela Editora Gávea-Brown, dos contos e crónicas “americanos” deste autor que, como se sabe, residiu em Nova Iorque durante mais de quatro décadas até à sua morte em 1980.

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Trata-se de um inédito, o esboço de um conto, ao qual Miguéis acrescentou uma “parte final reservada” com o intuito de o transformar em novela. Seja qual for o género literário a que “A Chegada” pertença (o autor parece ter encarado o assunto com uma certa fluidez, escrevendo crónicas que poderiam considerar-se contos e vice-versa), esta novela é bem representativa da obra de Miguéis, tanto em aspectos da técnica narrativa (uma certa teatralidade caracterizada por exclamações, auto-reflexões e apartes) como na forte influência autobiográfica. É este último aspecto que é particularmente evidente em “A Chegada”. As biografias do autor confirmam que Miguéis conheceu a futura mulher, Camila Campanella, portuguesa residente desde a infância nos Estados Unidos, por ocasião de uma visita que ela fez a Lisboa em 1928. No ano seguinte, Miguéis foi tirar um curso a Bruxelas, onde conheceu Pecia Cogan Portnoi, de origem russa, com quem se casou em 1932. Pouco tempo depois de regressar a Lisboa, o casal separou-se, e Miguéis, em parte por razões sentimentais mas também por motivos políticos, embarcou para Nova Iorque em 1935 a convite de Camila Campanella, com quem viria a casar-se em 1940. Ora “A Chegada” é precisamente a história desse reencontro de 1935 em Nova Iorque, reencontro que os nomes das personagens (Estela/Camila, e Magda/Pecia) mal disfarçam. Porém, se Miguéis queria proteger o “anonimato” das suas mulheres, o seu “foragido”, a uma certa altura, é identificado pelo nome Joe (Zé), e como se isso não bastasse, o autor intervém directamente na narrativa na forma de um “eu” 159 enunciador para ilustrar a coincidência exacta entre Miguéis e o seu protagonista masculino.

.É bom lembrarmo-nos que Miguéis era um escritor formado dentro da tradição do grande romance realista do Século XIX.

.Não aborda a temática autobiográfica como o faria um escritor pós-modernista, isto é, para baralhar os géneros literários e apagar a suposta linha divisória entre realidade e ficção. Em “A Chegada”, Miguéis escondeu-se atrás de uma narrativa ficcional motivado por aquilo que, segundo Northrop Frye, é uma necessidade tradicional e fundamental dos autobiógrafos:

.justificar-se por meio de uma confissão, uma “viagem interna”.

.Tudo indica que esta novela foi escrita, ou pelo menos revista, em Agosto de 1980, menos de dois meses antes da morte do autor. Nunca saberemos se Rodrigues Miguéis escreveu “A Chegada” para aplacar a consciência. Seja como for, a novela é um pequeno estudo psicológico sobre um confronto cultural em que um português, proveniente de uma sociedade patriarcal (e, ainda por cima, em plena ditadura salazarista) tenta adaptar-se às liberdades de uma civilização urbano-industrial. Posto de forma mais simples,é uma história de ciúmes.

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Na reprodução desta novela inédita, obedeceu-se às convenções ortográficas seguidas pelo autor, mantendo-se o texto original.

.Ficou corrigida uma ou outra gralha, emendado um ou outro deslize, produto talvez da longa vivência do autor com o inglês.

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Por outro lado, é interessante notar em Miguéis sinais de uma tendência que existe entre autores que vivem em situações multiculturais: a influência inevitável da língua circundante (por exemplo, “o nervo dela” para evocar a desfaçatez da mulher), e uma atitude um tanto lúdica em relação à língua (ver, por exemplo, “a horda dolarferente” ou a “telescopagem dos sete anos”).

.Tudo isso contribui para confirmar José Rodrigues Miguéis como uma voz única e original da literatura portuguesa do século XX.

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DAVID BROOKSHAW






inédito , publicado pela primeira vez em Ficções nº. 8

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