quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

♥Ƹ̵̡Ӝ̵̨̄Ʒ♥ Feяmina - Bom dia com carinho

Assunto: BOM DIA COM CARINHO
Data: 27/Jan 16:04

Timidez - Cecília Meireles

Assunto: LÁGRIMAS
Data: 28/Jan 19:28
ENCHE-SE DE PESADAS NÚVENS A ALMA, PRENÚNCIO DE TEMPESTADE.ENTRISTECE O MEU OLHAR.VENTOS UIVAM, MEDONHOS E ANDAM, SACUDIDAS PELO AR, IDEIAS, CARINHOS, PAIXÕES, SONHOS DE LUA CHEIA. SURGEM DE DENTRO DA TERRA, MEDOS,CULPAS, ESCURIDÃO E PEDAÇOS DE PASSADO...E TUDO FORMA UMA AMÁLGAMA QUE EM ROCHEDO IMENSO SE TRANSFORMA... ILHA DE FEITIÇOS AMALDEIÇOADOS, REINANDO NO MEIO DO NADA, NUA E ESCARPADA, LUGAR DE LUTO E DE DÔR. MAS NÃO HÁ PODER QUE APRISONE UMA IDEIA DE BELEZA, UM CARINHO DE AMOR, ESTA PAIXÃO DE VIVER OU UM MÁGICO RAIO DE LUAR.E ASSIM, COMO LAVA DE VULCÃO ELES IRROMPEM, CONQUISTAM ESPAÇO, ESPALHAM-SE PELO QUE É SEU. RESSURGE ENTÃO A LEVEZA, RENASCEM NOVOS SORRISOS...TUDO VOLTA AO QUE DEUS QUER... E MEUS OLHOS VÃO SECANDO SUAS LÁGRIMAS...JÁ BRILHA O SOL OUTRA VEZ...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)


TIMIDEZ
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Basta-me um pequeno gesto,
feito de longe e de leve,
para que venhas comigo
e eu para sempre te leve...

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— mas só esse eu não farei.
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Uma palavra caída
das montanhas dos instantes
desmancha todos os mares
e une as terras mais distantes...


— palavra que não direi.
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Para que tu me adivinhes,
entre os ventos taciturnos,
apago meus pensamentos,
ponho vestidos noturnos,


— que amargamente inventei.
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E, enquanto não me descobres,
os mundos vão navegando
nos ares certos do tempo,
até não se sabe quando...
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— e um dia me acabarei.
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CECÍLIA MEIRELES
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Traduzir-se - Ferreira Gullar

Assunto: A ILHA
Data: 27/Jan 15:56
DEIXEM EU ESTAR NO MEU CANTO,BRAÇOS ABRAÇANDO AS PERNAS DOBRADAS, QUEIXO SOBRE OS JOELHOS, OLHAR MIRANDO O AUSENTE, PENSAMENTO NÃO SEI ONDE. PASSEM POR MIM E NÃO OLHEM, NÃO GOSTO DE COMPAIXÃO.QUERO FICAR NESTA ILHA ONDE APENAS CAIBO EU. NÃO ME INTERESSA O QUE NO MUNDO SE PASSA E AS PESSOAS SÃO-ME INDIFERENTES, PORTANTO FAÇAM DE CONTA QUE FUI, QUE PARTI, QUE NÃO ESTOU CÁ. PERMANECEU A ESCULTURA...NADA MAIS...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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TRADUZIR-SE
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Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo.
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Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão.
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Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira.
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Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta.
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Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente.
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Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem.
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Traduzir uma parte
na outra parte
— que é uma questão
de vida ou morte —
será arte?
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FERREIRA GULLAR
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Rumo - Alda Lara



Rumo
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É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
Longe, a Terra chama por nós,
e ninguém resiste à voz
Da Terra ...
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Nela,
O mesmo sol ardente nos queimou
a mesma lua triste nos acariciou,
e se tu és negro e eu sou branco,
a mesma Terra nos gerou!
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Vamos, companheiro ...
É tempo!
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Que o meu coração
se abra à mágoa das tuas mágoas
e ao prazer dos teus prazeres
Irmão
Que as minhas mãos brancas se estendam
para estreitar com amor
as tuas longas mãos negras ...
E o meu suor
se junte ao teu suor,
quando rasgarmos os trilhos
de um mundo melhor!
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Vamos!
que outro oceano nos inflama...
Ouves?
É a Terra que nos chama ...
É tempo, companheiro!
Caminhemos ...
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Alda Lara 
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UMA BOA SEMANA, VICTOR :) 
Enviado por Carmen (hi5) - 26/Jan 0:40
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É urgente o Amor - Eugénio de Andrade


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É urgente o Amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras...ódio...solidão...e crueldade, alguns lamentos, lutas, espadas.
É urgente inventar a alegria, multiplicar os beijos, as searas..
É urgente descobrir rosas e rios, e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros, e a luz impura...até doer.
É urgente o Amor...É urgente permanecer!!!
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Beijinhos amigo!!!
Odete (hi5) - 23/Jan 22:34
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Ode à Paz - Natália Correia

23/Jan 0:23
Lia (hi5) diz:
 
Beijinhos, meu Amigo.

Ode à Paz

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
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Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
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Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)" 
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A vida é efémera.

23/Jan 0:04
 

Bom Fim de Semana
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(Foto de JP - Que uma bala sirva de decoração, que um arsenal seja ficção.)
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“A vida é efémera. É frágil, não passa de um sopro. Muitas vezes, aqueles momentos que aguardamos, não chegam a acontecer, pois antes, a vida ultrapassa a linha que divide o seu limite. E assim, uma correspondência não chega ao seu destino…”
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TEM UM BOM FIM DE SEMANA VICTOR. ABRAÇO. 
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Paulo Leminsk - Vida e Obra

 

 
 
 Apagar-me
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Apagar-me
diluir-me
desmanchar-me
até que depois
de mim
de nós
de tudo
não reste mais
que o charme.
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 DESENCONTRÁRIOS
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Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.
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Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.
*
 *
Um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante
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carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha
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ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra
 
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Sintonia para pressa e preságio
(
incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século")
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Escrevia no espaço.
Hoje, grafo no tempo,
na pele, na palma, na pétala,
luz do momento.
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Sôo na dúvida que separa
o silêncio de quem grita
do escândalo que cala,
no tempo, distância, praça,
que a pausa, asa, leva
para ir do percalço ao espasmo.
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Eis a voz, eis o deus, eis a fala,
eis que a luz se acendeu na casa
e não cabe mais na sala. 
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Profissão de Deus
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quando chove,
eu chovo,
faz sol,
eu faço,
de noite,
anoiteço,
tem deus,
eu rezo,
não tem,
esqueço,
chove de novo,
de novo, chovo,
assobio no vento,
daqui me vejo,
lá vou eu,
gesto no movimento
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Verdura
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De repente
me lembro do verde
da cor verde
a mais verde que existe
a cor mais alegre
a cor mais triste
o verde que vestes
o verde que vestiste
o dia em que te vi
o dia em que me viste
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De repente
vendi meus filhos
a uma família americana
eles têm carro
eles têm grana
eles têm casa
a grama é bacana
só assim eles podem voltar
e pegar um sol em Copacabana.
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(Poesia de Leminsk, musicada por Caetano Veloso)

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BIOGRAFIA

Paulo Leminsk nasceu aos 24 de agosto de 1944 na cidade de Curitiba, Paraná. Em 1964, já em São Paulo, SP, publica poemas na revista "Invenção", porta voz da poesia concreta paulista. Casa-se, em 1968, com a poeta Alice Ruiz. Teve dois filhos: Miguel Ângelo, falecido aos 10 anos; Áurea Alice e Estrela. De 1970 a 1989, em Curitiba, trabalha como redator de publicidade. Compositor, tem suas canções gravadas por Caetano Veloso e pelo conjunto "A Cor do Som". Publica, em 1975, o romance experimental "Catatau". Traduziu, nesse período, obras de James Joyce, John Lenom, Samuel Becktett, Alfred Jarry, entre outros, colaborando, também, com o suplemento "Folhetim" do jornal "Folha de São Paulo" e com a revista "Veja". No dia 07 de junho de 1989 o poeta falece em sua cidade natal. Paulo Leminski foi um estudioso da língua e cultura japonesas e publicou em 1983 uma biografia de Bashô. Sua obra tem exercido marcante influência em todos os movimentos poéticos dos últimos 20 anos. Seu livro "Metamorfose" foi o ganhador do Prêmio Jabuti de Poesia, em 1995. Em 2001, um de seus poemas ("Sintonia para pressa e presságio") foi selecionado por Ítalo Moriconi e incluído no livro "Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro.
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Saiba um pouco mais sobre Leminsk

Mestiço de polaco com negra, Paulo Leminski nasceu na cidade de Curitiba, Paraná, em 24 de agosto de 1944. Desde os 18 anos, aproximadamente, esteve envolvido com a literatura, participando de congressos e concursos em todo o Brasil. Desde muito cedo, Leminski inventou um jeito próprio de escrever poesia, preferindo poemas breves, muitas vezes fazendo haicais (poema japonês de três versos), trocadilhos, ou brincando com ditados populares. Aos 20 anos, publicou seus primeiros poemas na revista Invenção. Na década de 70, teve poemas e textos publicados em diversas revistas de sua cidade natal - como Corpo Estranho, Muda Código, Raposa - e lançou o seu ousado Catatau, que denominou "prosa experimental", em edição particular. Em 1983, o poeta passou a publicar pela editora Brasiliense, o que o fez conhecer o sucesso. Passou, então, a colaborar no Folhetim do jornal Folha de S. Paulo, a resenhar livros de poesia para a revista Veja e a participar do Jornal de Vanguarda da TV Bandeirantes. Como compositor, teve músicas gravadas por Caetano Veloso, Paulinho Boca de Cantor, Itamar Assumpção, Ney Matogrosso, por grupos como A cor do Som e Blindagem, e parcerias com Moraes Moreira. Paulo Leminski foi também faixa-preta e professor de judô, poliglota e tradutor, professor de história e de redação em cursos pré-vestibulares, diretor de criação e redator de publicidade. Para o público infanto-juvenil escreveu em 1986, Guerra dentro da gente e, em 1989, A lua foi ao cinema. O poeta morreu no dia 7 de junho de 1989. Em sua homenagem, foi inaugurado o Espaço Cultural Paulo Leminski, teatro multimídia ao ar livre, na antiga pedreira municipal de Curitiba, no mesmo ano.

Conheça mais sobre o poeta no site: http://users.sti.com.br/efres/Leminski/kamiquase.htm
 

http://pauloleminsk.blogspot.com/
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Leminski: o polaco-negro, o trotskista-budista

Wilson H. Silva
da redação do Opinião Socialista e membro da Secretaria Nacional de Negros e Negras dos PSTU

• Em 1989, pouco antes de morrer, o escritor curitibano Paulo Leminski rabiscou um bilhete com uma de suas frases curtas, irônicas e certeiras: “Nunca estive muito interessado em envelhecer, eu que sempre amei a juventude”.
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Hoje, 20 anos depois de ter sua intensa vida abreviada por uma cirrose que o matou aos 44 anos (em 25 de agosto passado seria seu 65° aniversário), muito provavelmente Leminski iria se sentir rejuvenescido se soubesse que seus fabulosos “haicas” estão circulando pelas ruas através da na nova mania dos jovens, o “twitter”, num formato que já está sendo chamado de “twicais”.
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Em primeiro lugar, é preciso que se diga que chega a ser animador saber que a mais recente novidade da comunicação virtual (que permite troca de mensagens com, no máximo, 140 caracteres) está sendo usada para algo mais do que a troca de futilidades e informações banais. E, melhor ainda, é saber que Leminski esteja na raiz desta história.
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Afinal, acima de tudo, Leminski foi um cultuador e renovador da palavra e de suas possibilidades poéticas. Seja como escritor, ensaísta, crítico tradutor ou poeta, ele sempre se manteve próximo dos princípios da estética “concretista” (que ajudou a divulgar juntamente com gente como os irmãos Haroldo e Augusto de Campos e Décio Pignatari), que tem na sua base o vínculo inseparável e dialético entre a forma e o conteúdo dos textos.
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Uma poética que nunca se recusou a incorporar as novidades (das falas das ruas, à gíria e aos palavrões). Mesclando-a com influências que vinham simultaneamente da cultura popular (como trocadilhos, músicas e a fala coloquial) e do melhor da cultura universal (de “clássicos” como o russo Dostoievski ou de tradições mais “distantes”, como o latim de Petrônio e os curtíssimos haicais, trazidos da poesia japonesa).
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O balaio poético um polaco-negro, trotskista-budista
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Tentar definir Leminski é uma tarefa impossibilitada pela própria vida e obra do poeta. Descendente de poloneses e negros; simpatizante, na juventude, do grupo “Liberdade e Luta” e adepto apaixonado da cultura e religiosidade do Oriente, o escritor fez da “mescla” (sempre instigadora e inteligente) uma de suas principais marcas, o que pode ser exemplificado, na forma e conteúdo, através de seus mais fabulosos haicais: “en la lucha de clases / todas las armas son buenas / piedras, noches, poemas”.

O mesmo aplica-se à sua obra em prosa. Catatau (1976), Agora é que são elas (1984), Metaformose (1994) e o livro de contos O gozo fabuloso (publicado em 2004) dificilmente podem ser chamados “apenas” de romances ou contos, já que tangenciam, sem muita definição de fronteiras, a poesia, a ficção ou ensaio literário.
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Um estilo com o qual Leminski também impregnou sua série de biografias – reunidas num volume único, intitulado “Vida”, lançado em 1990 – no qual ele reconstitui, de forma maravilhosamente poética a vida de personagens tão distintos como Jesus Cristo, o poeta simbolista negro Cruz e Sousa, o revolucionário russo Leon Trotsky e o poeta japonês, do século 17, Matsuô Bashô, criador dos haicais.
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No caso de Trotsky, é de fato impressionante a relação que Leminski estabelece entre três figuras fundamentais da história da Revolução Russa e os personagens centrais de “Os irmãos Karamazovski”, de Dostoévski. Como também, “Trotski: paixão segundo a revolução”, é fundamental para todos aqueles que queiram entender as concepções do líder revolucionário em questões fundamentais, como as relações entre arte, modo de vida e revolução.

Poesia da vida, vida em poesia
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Foi com essa mesma perspectiva multifacetada, que se recusa a separar a poesia da vida, que também orientou as traduções realizadas pelo escritor. Fluente em diversas línguas (francês, japonês e latim, dentre outras), Leminski verteu para o português obras essenciais, como o Satiricon, de Petrônio, Sol e aço, de Yukio Mishima (ambas de conteúdo fortemente homoerótico); o Supermacho, do alucinado dramaturgo Alfred Jarry; além de poemas e novelas de James Joyce.
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Foi também essa sua enorme capacidade do domínio lingüístico que transformou o poeta curitibano num “improvisado” letrista de músicas em dezenas de parcerias feitas com gente como Caetano Veloso, “A cor do som”, Moraes Moreira, Arnaldo Antunes e Itamar Assumpção.
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Quando morreu, no dia 7 de junho de 1989, o consumo excessivo de álcool e a conseqüente cirrose tinham coberto a vida e obra de Leminski com uma inegável melancolia e um razoável isolamento social, como ele mesmo deixou registrado: “Pariso / Novayorquiso, Moscoviteio / Sem sair do bar./ Só não levanto e vou embora / Porque tem países / Que eu nem chego a Madagascar”. Contudo, passadas duas décadas, é impossível não reconhecer a atualidade e força da obra do poeta.
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Uma vitalidade que, hoje, pode ser conferida na ampla exposição inaugurada em São Paulo – vide box –, com auxílio da poeta Alice Ruiz (com quem foi casado durante 20 anos e teve as filhas Áurea e Estrela, que também estão trabalhando na preservação e resgate da obra do autor), mas que ainda está pulsante na extensa obra deixada pelo escritor.

Apesar de ser difícil imaginar Leminski (que sequer usava máquina de escrever para compor seus textos) “twitando” mundo afora, até mesmo porque ele, certamente, seria um crítico da onda de banalização que cerca esta e outras formas e práticas de escrita do “mundo digital”, não deixa de ser interessante que seja através deste mecanismo que novos leitores estejam descobrindo o autor.
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Afinal, Leminski soube, como poucos sintonizar-se a seu mundo e tempo para transformar as inquietudes, frustrações e também amores e paixões de uma geração, encontrando novas e moderníssimas formas para fazer poesia com palavras e conceitos – como “paixão”, “arte” e “revolução” – que apesar de parecerem distintas e distantes, são inegavelmente inseparáveis, como demonstram tanto a vida e poesia do autor, quanto os sonhos que, todos nós que lutamos por um mundo melhor, alimentamos.
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* Trecho do poema para Liberdade e luta

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[ 20/10/2009 00:54:00 ]
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http://www.pstu.org.br/cultura_materia.asp?id=10860&ida=18
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Rua do Ouro - Mário Cesarinny

Assunto: A TEIA DE ARANHA
Data: 26/Jan 15:09
MUITAS VEZES, O HOMEM QUE QUER VENCER PENSA QUE VAI NA DIRECÇÃO ONDE ESTÁ A VITÓRIA,SÓ PORQUE ESSE É O CAMINHO MAIS CLARO,E, AFINAL, O QUE O ESPERA NO FIM É A DERROTA E A MORTE. A LUZ PODE ENGANAR.SURGE, A QUEM PARA ELA OLHA, COMO UMA FINA TEIA DE ARANHA - BELA, OFUSCANTE PELAS GOTAS DE ORVALHO QUE A ENFEITAM E COMPLEXA NAS SUAS VOLTAS E CONTRAVOLTAS, MAS OFUSCA, ENLEIA E MATA QUEM A ELA SE DIRIGIU LEVADO SÓ POR ESSAS RAZÕES ATRAENTES, MAS ILUSÓRIAS. NEM SEMPRE O MAIS BRILHANTE ENCERRA EM SI A GLÓRIA QUE PROMETE...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinh Pereira (hi5)
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RUA DO OURO
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Ai dele que tanto lutou e afinal

está tão só. Tão sòzinho. Chora.
Direcção da Companhia Tantos de Tal.
Cincoenta e três anos. Chove, lá fora.
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Chora, porquê? Ora, chora.
Uma crise de nervos, coisa passageira.
É, talvez, pela mulher que o adora?
(A êle ou à carteira?)
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Seis horas. Foi-se o pessoal.
O homem que venceu está sòzinho.
Mas reage:que diabo. Afinal...
E olha para o cofre cheínho.
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Sim estou só ainda bem porque não? ele diz
batengo com os punhos na mesa.
Lutei e venci. Sou feliz
E bate com os punhos na mesa.
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Seis e meia. Ó neurastenia
o homem que venceu está de borco
e sente uma grande agonia
que afinal é da carne de porco
que comeu no outro dia.
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É da carne de porco ele diz
vendo a chuva que cai num saguão.
É da carne de porco. Sou feliz.
E ampara a cabeça com as mãos.
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Durante toda a vida explorou o semelhante.
Por causa dele arruinaram-se uns cem.
Agora, tem medo. E o farsante
diz que é feliz diz que está muito bem.
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Sim, reage. Que diabo. Terei medo?
E vê as horas no relógio vizinho.
Mas, ai, não é tarde nem cedo.
Ele, que venceu, está sòzinho.
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Venceu quem? Venceu o quê? Venceu os outros
Os outros, os que o queriam vencer!
Arruinou-os, matou-os aos poucos.
Então não o queriam lá ver?
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Sim, reage: Esta noite a Leonor
amanhã de manhã o Sàlemos
e depois? Ah o novo motor
veremos veremos veremos
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Mas pouco do que diz tem sentido.
Tudo hoje lhe é vago uniforme miudinho.
O homem que venceu está vencido.
O dinheiro tapou-lhe o caminho.
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Os filhos? esperam que êle morra.
A mulher? espera que êle morra.
O sóciuo? Pede a Deus que êle morra!
Só a Anita não quer que êle morra!
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Ai, maldita carne, murmura
vendo a água que há no saguão.
Tinha demasiada gordura!
E veste o casaco e o gabão.
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Passa os olhos pelo lenço. Acabou-se.
Vai sair. Talvez vá jantar?
É inverno. Lá fora, faz frio.
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O homem que venceu matou-se
na margem mais escura do rio
ao volante dum belo Packard
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MÁRIO CESARINY

Ler é chato. Será? - Jaime Pinsky*

Ler é chato. Será?

por Jaime Pinsky*
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A idéia de que livro é chato só pode partir de quem não sabe o prazer que a leitura proporciona
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O tempo histórico não tem um compromisso muito grande com o tempo cronológico, ou mesmo o tempo psicológico: décadas no Egito dos faraós podem corresponder a anos no período da expansão ibérica ou meses do século XXI. A percepção da velocidade do tempo histórico decorre do ritmo dos acontecimentos, assim como da rapidez dos meios de transportes e comunicações. Talvez por isso, sempre que estamos em algum local tranqüilo, geralmente no interior, somos tentados a dizer que ali as coisas não acontecem e que é como se estivéssemos em pleno século XIX. É possível que, para evitar a idéia de que possamos ser vistos como retrógrados, ou fora do nosso tempo, busquemos acelerar tudo: músicas não podem ser lentas, filmes buscam ritmos alucinantes e, se não tiverem dois mortos por minuto de projeção, em média, são considerados acadêmicos. Propaga-se a idéia idiota que tudo que não é muito veloz é chato. O pensamento analítico é substituído por ‘‘achados’’, alunos trocaram a investigação bibliográfica por informações superficiais dos sites ‘‘de pesquisa’’ pasteurizados, textos bem cuidados cedem espaço aos recados sem maiúsculas e acentos dos bilhetes nos correios eletrônicos. O importante não é degustar, mas devorar; não é usufruir, mas possuir apressadamente. O tempo, o tempo correndo atrás.
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Não que eu queira fazer a apologia da lentidão e da ineficiência, mas um bom concerto é feito tanto de bons allegros quanto de dolentes adágios. Além disso (e Charles Chaplin já percebia isso no início do século XX, em Tempos Modernos), ser humano é dominar a máquina e não ser por ela dominado. E aí, a meu ver, se estabelece uma das principais distinções entre ler e ver televisão. Você pega o livro, olha a capa, a contracapa, folheia sensualmente suas páginas e escolhe, livremente, aquela que quer ler. Pode pular pedaços, começar pelo fim, reler várias vezes trechos que amou, para decorar, ou que odiou, para criticar. Desde que seja seu, você pode escrever no livro (para isso ele tem espaço em branco): livro rabiscado é sinal de leitura atenta. Nada como retomar um livro lido anos atrás e ler nossas próprias notas: se forem ingênuas, rimos com a condescendência de quem cresceu; se forem brilhantes, nos preocupamos com nossa estagnação. Você estabelece o próprio ritmo de apreensão do escrito, seja ele ciência, seja ficção. Tantas vezes me furtei lendo lentamente o final de um livro pelo qual me apaixonara e do qual não queria me separar…
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Já a telinha é autoritária. Ela começa o assunto quando bem entende, faz as pausas que quer, inserindo as propagandas que deseja, determina o ritmo, diz quando e para onde devo olhar. Se não estou no poder, então, é pior ainda. Tenho que ver jogo de time de que não gosto, pedaço de novela babaca, entrevistas sem sentido, assassinatos sem conta, tudo num volume superior ao que eu suporto, mas que não tenho como regular, pois estou sem o controle remoto nas mãos. Mesmo quando vejo um vídeo ou um DVD, em que posso controlar algumas dessas variáveis, lido com o personagem e a paisagem imaginados por outro, emboto a minha imaginação e me curvo diante de heróis e mocinhas prontos e iguais para todos, enquanto, no livro, cada um sonha como quiser e puder. Não é por outra razão que dificilmente gostamos dum filme baseado em livro que já lemos, mesmo quando a película é de boa qualidade como O Nome da Rosa ou Vidas Secas.
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Antes que alguém pense que sou contra o cinema, ou até a televisão, devo dizer que isso não acontece, mas é que ando mesmo um pouco preocupado. Já não há mais quase nenhum consultório, laboratório e até sala de espera em prontos-socorros de hospitais que não tenham a sua televisão. E, o que é pior, ligada. O infeliz chega quebrado, estropiado, ou apenas dolorido, e se lhe impinge humor chulo, falsas ‘‘pegadinhas’’, loiras igualmente falsas, com síndrome de eternas adolescentes, de botinha e coxas de fora, animando crianças de olhares perdidos, conversas de pessoas confinadas que não têm o que dizer, entrevistas com pessoas que estiveram confinadas e que continuam sem ter o que dizer, e por aí afora. A sala tem pouca iluminação, já nem sequer tem aquelas revistas semanais atrasadas. A luz que falta e o ruído que sobra impedem que aqueles que trouxeram seus livros possam ler. As pessoas olham para a telinha, olham-se umas às outras e à sua própria condição. Com um livro na mão poderiam estar viajando, sonhando, aprendendo, conhecendo gente e lugares interessantes, idéias fascinantes, desbravando, questionando, maravilhando-se. Contudo, continuam sentadas olhando umas para as outras e para a telinha que cobra o tributo da dependência, da elaboração de frases feitas e idéias gastas.
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A idéia de que livro é chato só pode partir de quem não sabe o prazer que a leitura proporciona. Assim, quero lançar aqui um pedido ou vários: aos médicos, para que iluminem melhor suas salas de espera, o que, além de deixá-las menos lúgubres, permitiria que as pessoas pudessem ler enquanto esperam. Aos hotéis, para que não se esqueçam de colocar luz de leitura nos quartos. Uns e outros poderiam manter uma pequena biblioteca ao alcance dos clientes. A concepção bastante corrente em nosso país de que diversão está sempre e necessariamente ligada ao ruído e ao álcool só pode partir de alguém que não gosta de fato do Brasil. E ele ainda merece uma oportunidade. Ou não?

* Historiador, escritor e editor, é doutor e livre docente da USP e professor titular da Unicamp, universidades em que lecionou. Autor de vários livros, entre os quais Cidadania e Educação e As primeiras civilizações, é, atualmente, diretor editorial da Editora Contexto. Publicado no Correio Braziliense de 28-07-02 e na Revista Espaço Acadêmico com autorização do autor (REA, nº 15, agosto de 2002, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/015/15cpinsky.htm
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Para que serve a literatura - Walter Praxedes

Para que serve a literatura

Revista Espaço Académico - janeiro 16, 2010
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por Walter Praxedes*
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Conta-se que no final da Segunda Guerra Mundial, quando chegaram num campo de concentração que contava com inúmeros prisioneiros inocentes, os soldados de uma das divisões das tropas aliadas surpreenderam alguns dos seus inimigos nazistas sentados e calmamente lendo uma das obras mais importantes e humanistas da literatura universal: nada menos do que Fausto, de Goethe.
A leitura daquele livro não tornava seus leitores menos culpados pelo horror que estava sendo cometido por eles próprios. Também não impedia que cada um daqueles soldados literatos cumprissem  com suas atribuições de prender, torturar e matar seus semelhantes como nenhum outro animal além do humano é capaz de fazer.
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Nada mais desconfortante para os defensores da literatura como forma de humanização do que a idéia de que o homem pode combinar a satisfação estética sentida após a leitura de uma peça de Shakespeare com uma prática anti-humana, perversa e cruel.
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Apesar disso, como nos ensina o crítico literário Antônio Cândido, a literatura contribui para que se confirmem em cada um de nós “…aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos problemas da vida, o senso da beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor”.
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A literatura serve, por certo, para dar prazer e satisfação para todos, mas só os bons levam a sério suas mensagens humanistas: os demais permanecem indiferentes. Bons livros não convencem uma pessoa má a melhorar. Pode-se supor que alguém que tenha sido pago para assassinar, na sua infância tenha sido um leitor entusiasmado de Monteiro Lobato.
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As mensagens humanistas dos livros só atingem as pessoas predispostas para a sua recepção. É provável que os romancistas estejam condenados a “pregar aos convertidos”, a convencer aos convencidos, como tinha o costume de escrever o sociólogo Pierre Bourdieu.
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Mesmo assim, um pioneiro investigador dos segredos humanos como Freud não dispensava os conhecimentos propiciados pela literatura. Para o fundador da psicanálise “…os poetas e romancistas são aliados preciosos, e seu testemunho deve ser tido em alta estima pois eles conhecem, entre o céu e a terra, muitas coisas com as quais nossa sabedoria escolar não poderia sequer sonhar. Eles são para nós, que não passamos de homens vulgares, mestres no conhecimento da alma, pois se banham em fontes que ainda não se tornaram acessíveis à ciência.”
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Com tudo isso, não deixo de pensar que após a leitura de um livro como Levantado do Chão, de Saramago, que descreve o sofrimento e a luta dos trabalhadores rurais portugueses, nenhum dirigente do Fundo Monetário Internacional deixará de impor aos países devedores as medidas econômicas que levam a fome e o sofrimento para milhões de pessoas em todo o mundo.
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Talvez a literatura sirva mesmo é para convencer os convencidos a permanecerem contra todas as formas de opressão do humano. Se servem para tanto, isso já é um grande bem, pois, embora aqueles que não praticam o bem continuem difundindo o mal, não conseguirão jamais impor a idéia de que ser humano é ser apenas como são.

* Doutor em Educação pela USP e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Estadual de Maringá. Publicado na REA nº 15, agosto de 2002, disponível em http://www.espacoacademico.com.br/015/15wlap.htm
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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Poema nº 18 - Paulo Leminsk

Assunto: APELO...
Data: 25/Jan 19:07
LARGUEI COM O BARCO DO PORTO E FIZ-ME, DECIDIDA, AO MAR. DÓI-ME O QUE FICA PARA TRÁS...E QUE NÃO POSSO MUDAR.AQUI TENHO ÁGUA E CÉU E AS ONDAS ME EMBALAM...E SÓ ISTO É INFINITAMENTE MAIS QUE A ATITUDE DO HOMEM PARA COM TODOS OS DEMAIS.ESTOU QUASE DESACREDITANDO, E ANTES QUE ISSO ME ABALE, DECIDI PARTIR PRIMEIRO. NÃO É FUGA OU COBARDIA, APENAS ESTE APELO DE QUIETUDE E PAZ...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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POEMA Nº 18
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Quando eu tiver setenta anos
então vai acabar esta minha adolescência
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vou largar da vida louca
e terminar minha livre docência
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vou fazer o que meu pai quer
começar a vida com passo perfeito
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vou fazer o que minha mãe deseja
aproveitar as oportunidades
de virar um pilar da sociedade
e terminar meu curso de direito
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então ver tudo em sã consciência
quando acabar esta adolescência
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PAULO LEMINSKI
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domingo, 24 de janeiro de 2010

Bem no fundo - Paulo Leminsk

Assunto: UM HOMEM NORMAL...
Data: 24/Jan 16:41
NA VERDADE HÁ QUEM NÃO PENSE NA VIDA....DEIXA-SE LEVAR. TUDO PASSA.MESMO O QUE SAI ERRADO NÃO LHE ENTRA NA PELE.PACIÊNCIA, TINHA QUE SER. SENTE-SE BEM, NÃO PEDE MAIS. SER FELIZ É IGUAL A TUDO O RESTO. NÃO PERDE TEMPO COM ESSAS FILOSOFIAS. ISSO É COISAS PARA POETAS QUE NÃO TÊM MAIS NADA QUE FAZER. ELE NÃO, É OCUPADO,ELE TRABALHA. TODOS OS DIAS REPETE AS TAREFAS DO DIA ANTERIOR? ÓPTIMO!NÃO TEM DE PENSAR. SAI TUDO DIREITINHO.O CHEFE GOSTA.NA RUA, PODEMOS RECONHECÊ-LO. ANDA SEMPRE COM OS OLHOS POSTOS NO CHÃO. A VIDA ESCORRE-LHE ENTRE OS DEDOS COMO AREIA, MAS NÃO DÁ POR ISSO. UM DIA TUDO ACABOU. NO VELÓRIO, AMIGOS E VIZINHOS, POUCOS, COMENTAM EM VOZ BAIXA E RESPEITOSA, COMO ERA HONRADO, BOM PAI, TRABALHADOR. ABANAM AS CABEÇAS EM SINAL DE SURPRESA E INCOMPREENSÃO....TÃO NOVO...QUEM DIRIA QUE TINHA PROBLEMAS DE CORAÇÃO... NUM CANTO, UM COLEGA CONTA COM CONTIDO ENTUSIASMO COMO FOI ENCONTRADO MORTO, A CABEÇA EM CIMA DA SECRETÁRIA, PELA SENHORA DA LIMPEZA. IMAGINEM QUE TODOS OS COLEGAS SAIRAM E NENHUM SABE DIZER SE ESTAVA AINDA VIVO OU NÃO...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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BEM NO FUNDO
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No fundo, no fundo,
bem lá no fundo,
a gente gostaria
de ver nossos problemas
resolvidos por decreto
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a partir desta data,
aquela mágoa sem remédio
é considerada nula
e sobre ela — silêncio perpétuo
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extinto por lei todo o remorso,
maldito seja que olhas pra trás,
lá pra trás não há nada,
e nada mais
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mas problemas não se resolvem,
problemas têm família grande,
e aos domingos saem todos a passear
o problema, sua senhora
e outros pequenos probleminhas.
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PAULO LEMINSK
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Saramago: Por que nunca houve greve em uma fábrica de armas?

Textos

Vermelho Prosa@Poesia - 1 de Novembro de 2009 - 15h19
 


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Esta é a questão que serve ponto de partida para o próximo livro do escritor português José Saramago, que já está sendo escrito. A revelação foi feita pelo próprio escritor durante a apresentação da sua última obra, Caim, em Lisboa

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“Todos aqueles que me conhecem bem sabem que sempre me tenho interrogado: por que é que nunca houve uma greve numa fábrica de armas? Nunca… Serão aqueles operários menos conscientes?", questionou Saramago.
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“Assim como Deus não é de fiar, os exércitos também não. O cidadão deve exercer a sua parte de vigilante e não se deixar levar pela banda de música ou pelo seu porta-estandarte”, apontou ainda o Prémio Nobel da Literatura de 1998.
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Com agências

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  • Greve

    03/11/2009 12h06 Mas afinal, por que nunca teve greve em indústrias de armas mesmo? Se alguém puder esclarecer melhor para mim, ficarei grato!
    Françoá Correia Gonçalves
    Cedro - CE
  • O Vinho literário

    03/11/2009 10h43 Quanto mais envelhecida, mais lúcida, mais atual e mais penetrante vai sendo a literatura de Saramago. Ele consegue como poucos realizar uma abordagem do específico para o geral sem perder a linha tênue da critica e da razão. Estou mais uma vez anioso para conferí-lo e degustá-lo.
    Marcelo Buraco
    Santo André - SP
  • inteligencia

    03/11/2009 10h02 Ainda tem vida inteligente e no planeta
    Rodolfo Verdessi
    Ouro Preto - MG
  • Caminho para reforçar o CEBRAPAZ

    01/11/2009 17h56
    Olá amigo(as). O tema armas/paz/tomar posição, mostra como os comunistas devem reforçar os movimentos pela paz e solidariedade. Professor Kico CEBRAPAZ-PR
    Professor Kico CEBRAPAZ-PR
    CURITIBA - PR
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Literatura para conhecer e formar o Brasil

Entrada » Agência Brasil de Fato » Cultura » Literatura para conhecer e formar o Brasil

Acções do Documento
por Admin última modificação 2009-12-22 12:24 

Simpósio em Brasília celebra os 50 anos do livro “Formação da literatura brasileira”, de Antonio Candido

22/12/2009

Joana Tavares
de Brasília (DF)

ilustração

“A literatura possui centralidade na formação da intelectualidade do Brasil”. Nesta afirmação, “do Brasil” quer dizer muita coisa. Pois Paulo Arantes, filósofo e professor, quer justamente colocar em perspectiva a ideia de formação do Brasil como nação. Quer também sublinhar que, em um país periférico como o nosso, esse tema continua sendo da maior importância. O que dimensiona a relevância do livro “Formação da literatura brasileira – momentos decisivos”, de Antonio Candido.
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A fala de Paulo Arantes fechou o simpósio que teve o aniversário de 50 anos da obra como tema. Realizado entre os dias 25 e 27 de novembro, na Universidade de Brasília (UnB), o evento reuniu pesquisadores de vários estados, além de alunos desde a graduação até o doutorado.
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Qual a relevância de um livro que, 50 anos depois, ainda gera tantas perguntas e temas para debate? O que parece estar por trás dessa pergunta é a novidade do método empregado por seu autor, um crítico literário sociólogo, que se empenhou em estudar e aprofundar as origens e sentidos da nossa expressão escrita como povo.
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“Candido é talvez, junto com Caio Prado Jr., o pioneiro em um método de interpretação dialética da experiência brasileira. O Caio Prado faz isso interpretando de forma materialista os ciclos econômicos e o Antonio Candido interpreta o compasso entre o desejo de formar uma literatura ao mesmo tempo em que a elite se empenhava em formar uma nação”, aponta Rafael Villas Bôas, pesquisador e professor da UnB.
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A essa forma de leitura da realidade que situa Candido e Caio Prado foi dado o nome de “tradição crítica brasileira”, que reúne conceitos clássicos do marxismo formulados por intelectuais como Theodor Adorno, da Escola de Frankfurt, com questões tipicamente nacionais.
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Raízes
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Junto à tradição crítica está o esforço de se conhecer e interpretar o Brasil. Uma introdução de Antonio Candido ao livro “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, ficou famosa. Ali ele coloca a ideia de que a obra apresentada, junto com “Casa Grande e Senzala”, de Gilberto Freyre, e “Formação do Brasil Contemporâneo”, de Caio Prado Jr., compunham os principais personagens da formação da nacionalidade brasileira, de acordo com o olhar da geração de 1930, cada um com sua orientação própria, como explicou Antonio Candido em seu texto introdutório. Ou seja, os pilares do pensamento sobre o Brasil. Há pesquisadores que colocam a “Formação da Literatura Brasileira” no mesmo movimento, mas Antonio Candido refuta essa ideia.
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“Não apenas a sua escala é incomparavelmente mais modesta, mas as interpretações pressupõem a abordagem da realidade social diretamente registrada na documentação, sendo por isso efetuada por historiadores, sociólogos, economistas. Ora, a literatura é uma transfiguração da realidade, de maneira que não pode servir de base para as interpretações”, afirmou em entrevista recente ao jornal Zero Hora.
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Mas o método de análise de Antonio Candido a essa “transfiguração da realidade” é integrativo: não desvincula a obra de sua função, o que revoluciona os estudos de literatura que se faziam no Brasil, propondo ao mesmo tempo uma preocupação estética e sociológica. Em seus inúmeros estudos, Antonio Candido não separa a literatura e a sociedade (nome de um de seus livros). Mas nem por isso deixa de se dedicar com afinco a sua função estética. Pois é a partir da estética que uma obra literária pode cumprir seu papel. Ou ainda: o conteúdo só atua por causa da forma.
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Assim, a “Formação da literatura brasileira” é dedicada, em grande parte, a fazer uma análise das obras. Mas também é neste livro que aparece o conceito de “sistema literário”. Como explica Paulo César da Costa, militante do MST de Santa Catarina e graduando da primeira turma de Licenciatura em Educação do Campo, “um sistema literário não é formado só por público, obra e autores, mas pela capacidade da literatura se auto-questionar, ou seja, pela crítica literária”. Paulo César explica, assim, porque acha fundamental um colóquio acadêmico discutir Antonio Candido: para resgatar a discussão crítica da literatura.
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Modernidade periférica
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O objetivo de difundir, aprofundar e debater a tradição crítica agregou pesquisadores orientados pelo professor Hermenegildo Bastos, doutor pela USP e professor da UnB desde 1996. Foi justamente encontrar esse caminho crítico que manteve Deane de Castro e Costa no seu projeto de doutorado, na UnB. “Antes eu tinha uma visão mais instrumentalizada da literatura, de que ela podia ampliar o conhecimento das pessoas, tornando-as críticas. Mas essa visão era muito imediatista e não aprofundava de fato os limites e possibilidades da literatura”, conta.
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Ela se juntou ao grupo de pesquisa “Literatura e Modernidade Periférica”, que começou com cerca de 10 pesquisadores e hoje, passados 10 anos, aglutina mais de 50, tanto da graduação quanto da pós, já produziu 10 teses de doutorado, formou mestrandos que hoje são doutores e professores, e conseguiu, se não romper, pelo menos abalar a hegemonia do estruturalismo francês, escola que dominava a universidade brasileira no âmbito do estudo de literatura. “A nossa linha de pesquisa é de orientação marxista, questiona a crítica literária exclusivamente imanente, que se recusa a ver a relação entre literatura e sociedade”, explica Maria Izabel Brunacci, professora aposentada do Cefet-MG e participante do grupo desde seu início, em 1999.
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Um dos trabalhos coletivos realizados por eles foi o simpósio. “Uma atividade como esta é capaz de sedimentar questões importantes para a crítica, que não morreram. A crítica atual tem uma tendência a apresentar uma quase morte da linha crítica. Então o simpósio revigora, fortalece, amplia a perspectiva de estudos críticos, na linha de Antonio Candido”, avalia Rogério Max Caneto Silva, mestrando da Universidade Federal de Goiás.
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O grupo procura colocar em prática o cerne da teoria e aponta sua atuação para fora dos muros da universidade. Além de organizar e participar de atividades acadêmicas, procura se articular com organizações de esquerda que tenham um trabalho formativo. “O conhecimento que nós produzimos no âmbito do grupo tem que ser colocado à disposição dos movimentos sociais”, resume Maria Izabel.
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Parceria com o MST
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Começou a se tecer então um processo de atuação conjunta com o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Foram vários cursos de formação de militantes realizados em parceria até culminar no curso de graduação de Licenciatura em Educação do Campo, da UnB e do Instituto Técnico de Capacitação e Pesquisa da Reforma Agrária (Iterra). Dividido em duas áreas – ciências da natureza/matemática e linguagens – é no segundo campo que os laços entre o grupo de pesquisa e o movimento se estreitam. A ponto de três alunos da primeira turma (atualmente já está formada a terceira) apresentarem uma síntese das discussões feitas em sala numa mesa durante o simpósio, na mesa “Representação literária e representação política”.
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Ana Laura Corrêa, pesquisadora do grupo e professora da turma, avalia que a participação foi fundamental. “Esse encontro entre a academia e a educação do campo resgata o processo da tradição crítica e areja essa produção. Vivifica as estruturas da universidade. Na educação do campo a gente percebe uma nova forma de produção do conhecimento”, aponta.
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Rafael Villas Bôas, também professor do curso, acrescenta: “A gente não dá aula sozinho, é sempre em duplas ou em trios. Isso enriquece muito o contato com a turma, que vê que tem trabalho coletivo dos dois lados. Tem uma troca”.
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Maria Izabel Brunacci, professora do curso de Licenciatura em Artes, dá um exemplo dessa troca. “O livro que lancei sobre Graciliano Ramos [“Graciliano Ramos – um escritor personagem”] é dedicado à minha neta, ao MST e ao meu grupo de pesquisa. Por quê? Porque a interlocução com o MST nos cursos de literatura foi fundamental para eu entender Graciliano Ramos, para eu entender melhor o Brasil representado na obra do autor”, diz.
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Literatura e revolução
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“Para nós, repetir as palavras do Antonio Candido ainda é necessário. E assumimos com felicidade o papel de seguir repetindo-as”, atesta Carla Loop, educanda do curso de Licenciatura em Educação do Campo. Podem ser várias as palavras necessárias de repetição de Antonio Candido. Mas parece ecoar fortemente trechos de sua palestra “O direito à literatura”, de 1988, reunido depois no livro “Vários escritos”.
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Ele defende, em conferência na Comissão de Justiça e Paz, na arquidiocese de São Paulo então comandada por dom Paulo Evaristo Arns, que pensar em direitos humanos tem um pressuposto: “reconhecer que aquilo que consideramos indispensável para nós é também indispensável para o próximo”. E a necessidade da ficção, de toque poético, “é uma necessidade universal que precisa ser satisfeita e cuja satisfação é um direito”. Candido defende que toda literatura, inclusive aquela “chamada erudita”, seja acessível a todos, sem estratificação, sem alienação.
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Porque a literatura possui uma função humanizadora, que deve ser cumprida: “Entendo aqui por humanização (já que tenho falado tanto nela) o processo que confirma no homem aqueles traços que reputamos essenciais, como o exercício da reflexão, a aquisição do saber, a boa disposição para com o próximo, o afinamento das emoções, a capacidade de penetrar nos momentos da vida, o senso de beleza, a percepção da complexidade do mundo e dos seres, o cultivo do humor. A literatura desenvolve em nós a cota de humanidade na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos para a natureza, para a sociedade, para o semelhante”.
Direito portanto inalienável, a literatura pode ser ainda uma representação poderosa da utopia, “uma promessa contra a reificação”, como diz Rafael. Ou ainda, na brincadeira da turma de Licenciatura: “Ler literatura também é revolucionário”.
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Antonio Candido de Mello e Souza começou a fazer crítica literária na revista Clima, nos anos 1940. Mestre em sociologia, tornou-se professor de literatura em 1957, na cidade de Assis, no interior de São Paulo. Deu também aulas na USP, onde se aposentou. É autor de uma extensa obra sobre crítica literária e professor de gerações dos mais importantes críticos literários e culturais do país. Aos 91 anos, Candido afirma “preservar suas convicções socialistas”.
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Em 1959, lançou em dois volumes o livro “Formação da Literatura Brasileira – Momentos decisivos”. Em 2006, a 10ª edição do livro foi reeditada pela editora Ouro Sobre Azul, em projeto coordenado por sua filha Ana Luisa Escorel e acompanhado por Candido. A nova edição sai em um volume único, de 800 páginas.
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sábado, 23 de janeiro de 2010

Arte de Amar - Manuel Bandeira

Assunto: SONHO ANTIGO...
Data: 23/Jan 17:08
SONHO DE ADOLESCENTE - ENCONTRAR O GRANDE AMOR...SIM, POIS MEU AMOR SÓ PODERÁ SER IMENSO, LUMINOSO, INCANDESCENTE, ETERNO...OLHOS PERDIDOS NO MAR...QUANDO O VIR EU SABEREI, SERÁ MAIS BRILHANTE O SOL... RÁPIDO BATERÁ O CORAÇÃO... O MUNDO SERÁ SÓ ELE,....ELE É MEU E EU SOU DELE...E NOSSA A ETERNIDADE... HOJE O MAR CONTINUA CANTANDO A MESMA CANÇÃO...DIFERENTES SÃO MEUS OLHOS QUANDO O MIRAM...O SONHO NÃO SE CUMPRIU.ACREDITEI MUITAS VEZES, E EM CADA AMOR QUE VIVI MIL VEZES O PROCUREI...ACABEI SEMPRE PERDENDO, MAS ESQUECER NUNCA ESQUECI.JÁ NÃO BRILHAM OS MEUS OLHOS COMO OUTRORA...PASSO A PASSO A VIDA PASSOU POR MIM. AQUI ESTOU, MAR, ME APRESENTO, NÃO COBRANDO NEM CHORANDO...CABEÇA ERGUIDA AO CÉU. MAIS UMA VEZ ÉS O MEU CONFIDENTE, POIS EM TI ESTÁ A MENINA QUE, TE OLHANDO, ALTO SONHOU.EMPRESTA-MA, ESTOU PRECISANDO QUE VOLTE A HABITAR EM MIM...RIA O MUNDO, SE QUISER, RESGATO O MEU SONHO ANTIGO E VOU VIVÊ-LO OUTRA VEZ!...EM ANEXO UM BEIJO!
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Distribuído por Moranguinho Pereira (hi5)
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ARTE DE AMAR
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Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
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Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
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Porque os corpos se entendem, mas as almas não.
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MANUEL BANDEIRA
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Poesia de Carlos Marighella

Poesia
Política
Liberdade

O País de uma nota só

Rondó da Liberdade




Liberdade

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Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.
 
Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.
 
Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.
 
E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”
 
São Paulo, Presídio Especial, 1939

O país de uma nota só

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Não pretendo nada,
nem flores, louvores, triunfos.
nada de nada.
Somente um protesto,
uma brecha no muro,
e fazer ecoar,
com voz surda que seja,
e sem outro valor,
o que se esconde no peito,
no fundo da alma
de milhões de sufocados.
Algo por onde possa filtrar o pensamento,
a idéia que puseram no cárcere.
 
A passagem subiu,
o leite acabou,
a criança morreu,
a carne sumiu,
o IPM prendeu,
o DOPS torturou,
o deputado cedeu,
a linha dura vetou,
a censura proibiu,
o governo entregou,
o desemprego cresceu,
a carestia aumentou,
o Nordeste encolheu,
o país resvalou.
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Tudo dó,
tudo dó,
tudo dó...
E em todo o país
repercute o tom
de uma nota só...
de uma nota só...


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É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
 

Há os que têm vocação para escravo,
mas há os escravos que se revoltam contra a escravidão.
 

Não ficar de joelhos,
que não é racional renunciar a ser livre.
Mesmo os escravos por vocação
devem ser obrigados a ser livres,
quando as algemas forem quebradas.
 

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.
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O homem deve ser livre...
O amor é que não se detém ante nenhum obstáculo,
e pode mesmo existir quando não se é livre.
E no entanto ele é em si mesmo
a expressão mais elevada do que houver de mais livre
em todas as gamas do humano sentimento.
 

É preciso não ter medo,
é preciso ter a coragem de dizer.



Uma Biblioteca Árabe no Brasil - Lejeune Mirhan *


 

Colunas

Vermelho - 24 de Setembro de 2009 - 19h52

Uma Biblioteca Árabe no Brasil

Lejeune Mirhan *

Nestes quase oito anos ininterruptos de coluna sobre Oriente Médio no Portal Vermelho, fizemos, na maior parte das matérias, análise sobre a situação política no mundo árabe. Algumas vezes falamos de poesia, cultura, tradições árabes. E apenas uma vez, fizemos uma entrevista. Desta feita, publicamos uma segunda entrevista com o Prof. Dr. Paulo Daniel Farah, da USP, um dos mais renomados arabistas e tradutores de árabe de nosso país.

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Quem é Paulo Daniel Farah?


Paulo Daniel Farah é Professor Doutor no programa de graduação e de pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Possui mestrado em Linguística e em Computação e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada. Fez pós-doutorado em História Social. Além de lecionar na FFLCH-USP, orienta diversas pesquisas em literatura, linguística, história e cultura árabe, em nível de pós-graduação, na própria USP.
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É autor de diversas obras, entre elas Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali (obra em português, árabe e espanhol). Rio de Janeiro, Argel, Caracas: Edições BibliASPA em co-edição com Fundação Biblioteca Nacional, Bibliothèque Nationale d’Algérie e Biblioteca Nacional de Caracas, 2007, 476 pp, ABC do Mundo Árabe (São Paulo: SM, 2006; traduzido para o espanhol e o francês e editado na América Latina e na Europa), O Islã (São Paulo: Publifolha, 2000) e Glossário de Termos Islâmicos (São Paulo: Cálamo, 1996), entre outras obras, e co-autor de Diálogo América do Sul - Países Árabes, de Por que nós brasileiros somos contra a guerra no Iraque e de Edward Said.
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Morou durante vários anos no Oriente Médio e na África, onde participou de diversos cursos de pós-graduação na área de literatura e história, incluindo a Universidade do Cairo, no Egito, a Universidade de Damasco, na Síria e a Universidade do Kuwait.
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Traduziu diversas obras do árabe, francês, inglês, alemão e quissuaíli, entre elas O Edifício Yacubian. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, de Alaa al-Aswani, e A terra nos é estreita e outros poemas. São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, de Mahmud Darwich, O Dicionário e Outros Contos de Machado de Assis (tradução do português para o árabe). São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, A Terceira Margem do Rio e Outros Contos de João Guimarães Rosa (tradução do português para o árabe). São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, O Beco do Pilão (São Paulo: Editora Planeta, 2003), de Naguib Mahfuz. Compreende, fala, lê e escreve em português, árabe, francês, quissuaíli, espanhol, inglês, italiano e alemão.
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É membro da Brasa (Brazilian Studies Association), co-fundador e membro da diretoria do grupo internacional de estudos árabes e islâmicos MELN. É também pesquisador do CNPq, onde atua como parecerista desse órgão e de outros (incluindo a Edusp e a Fapesp) e edita a Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-americanos (que pode ser lida no site www.bibliaspa.com.br).
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Diretor da BibliASPA (Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul - Países Árabes, www.bibliaspa.com.br), da qual participam acadêmicos de mais de 40 países que estudam literatura, linguística, antropologia e história, entre outras temáticas.
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Sobre a BibliASPA

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A BibliASPA foi formada a partir de 2003. Desde seu início, teve o intuito de realizar pesquisas, estimular a produção cultural e promover o conhecimento mútuo e a reflexão crítica entre árabes e sul-americanos, através de publicações, traduções e edições. Ela publica obras diversas, como a Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-Americanos, editada em cinco idiomas (árabe, português, espanhol, francês e inglês) e com um Conselho formado por especialistas de mais de 25 países.
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O portal deste centro de pesquisa (www.bibliaspa.com.br) promove, em mais de 20 seções, um fórum de debate aberto à participação de todos. O portal é totalmente trilíngue (português, espanhol e árabe), oferece obras eletrônicas na íntegra para leitura, possui seções de poemas, textos e artigos sobre temas das humanidades, como literatura, história, geografia, linguística, antropologia, sociologia, artes plásticas e cinema, entre outros.
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Na perspectiva de contemplar representações e reflexões, ademais de questionar visões de sociedade e do pensamento limitantes e que acabam por promover distâncias e exclusão, as Edições BibliASPA propõem-se a publicar textos que contemplem as principais áreas de conhecimento relacionadas às letras, artes e ciências humanas. A intenção é formar acervos bibliográficos especializados em temas sul-americanos, árabes e africanos a fim de suprir a carência nessa área.
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Entre as obras, a BibliASPA se destacou pela publicação de Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali, de Paulo Daniel Farah, que trata do relato de viagem pelo Brasil de um clérigo muçulmano no século XIX, no período do Império. Uma obra monumental em três línguas, publicada com apoio inclusive do Itamaraty.
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O Centro Educativo e de Formação da BibliASPA visa à conscientização social acerca das culturas representadas por meio de cursos diversos sobre música, literatura, história, linguística e dança, entre outros temas. Alguns exemplos de curso referem-se ao Curso de Música Árabe em seis módulos, Curso de História da África, em três módulos, o Curso de Contos Árabes, Africanos e Sul-Americanos, oferecidos a 200 estudantes e professores da rede pública de São Paulo e a públicos semelhantes em Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e outras cidades.
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Ademais, a BibliASPA organiza seminários, palestras, exposições de artes plásticas, fotografias, esculturas, apresentações de música e dança árabe, africana e sul-americana e mostras de cinema acompanhadas de debate. Para isso, congrega pesquisadores em mais de 40 países, de áreas diversas, que promovem o respeito à diversidade e ao multiculturalismo e procuram tornar o saber acessível ao maior número possível de pessoas. São diversas as linhas de pesquisa.
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A intenção é unir pelo conhecimento. Sabe-se que os estereótipos culturais e as representações politicamente motivadas acerca de árabes, africanos e sul-americanos só podem ter seu efeito negativo contrabalançado pela produção constante de saberes, embasados em pesquisas empíricas de qualidade, bem como pela disponibilidade em português/espanhol de textos representativos da produção cultural árabe e africana e, em idioma árabe, de textos representativos da produção cultural sul-americana.
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A entrevista com Paulo Daniel Farah
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Temos a honra de realizar esta entrevista. Você enobrece o povo e a nação árabe com seu valoroso trabalho de difusão da língua e da literatura árabe. Em primeiro lugar, queremos saber um pouco de sua trajetória, sua vida pessoal, suas origens árabes, sua família, seu nome, enfim, fale-nos sobre quem é Paulo Farah.
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Nasci em uma família de origem árabe que sempre prezou a leitura, o estudo e as artes. Entre outras pessoas importantes, admiro meu avô, por seus escritos que considero especiais tanto do ponto de vista formal quanto do de conteúdo. Era um homem bastante espiritualizado, e em minha família sempre houve – e continua a haver – uma diversidade religiosa marcada por respeito e aprendizado mútuo. Sabemos que contemos “multitudes”, para usar o termo de Whitman.
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Procurei desde cedo me dedicar à literatura, à música (toco alguns instrumentos) e à pintura. Tenho muito apreço pelo ensino, em ser educador, desde jovem, pois acredito plenamente na capacidade de transformação que a educação possui. Ainda na adolescência, lecionei em escolas de idiomas e de literatura e sempre procurei participar de projetos educativos.
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Conte-nos agora sua trajetória de jornalista, bem como a trajetória acadêmica, o mestrado, doutorado, pós-doutorado, o ingresso na USP.
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Ingressei no jornalismo jovem, escrevi, sobretudo a respeito de cultura, literatura, linguística, história, religião e política internacional. Fui editor de cadernos de notícias internacionais em jornais de grande circulação e fiz coberturas de conflitos, congressos, festivais artísticos e religiosos, entre outros.
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Minha trajetória acadêmica é marcada por cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior que tiveram importante papel em minha carreira e em minha atuação como educador e pesquisador.
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Na década de 1990, comecei a lecionar na universidade, depois de ter ensinado em diversos outros locais. Atualmente, leciono na graduação e na pós-graduação e oriento vários alunos na iniciação científica e na pós-graduação, além de escrever artigos acadêmicos e livros e redigir pareceres.

Você já possui diversas obras publicadas, por várias editoras. Fale-nos um pouco delas todas, a qual gostou mais, a que mais lhe deu trabalho ao escrever.
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Escrevi obras de ficção e de não-ficção, muitas delas com o objetivo de mostrar que as identidades múltiplas do humano devem ser respeitadas e valorizadas. Entre as obras que publiquei, posso destacar algumas pelas quais nutro um afeto especial. ABC do Mundo Árabe foi traduzido para o espanhol e o francês e recebeu prêmio literário, O Islã procura demonstrar que não existe um choque de civilizações, mas um choque de desconhecimentos e Por que nós, brasileiros, dizemos não à guerra no Iraque teve como intuito demonstrar a insanidade da guerra. O livro Deleite do Estrangeiro em Tudo o que é Espantoso e Maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali reúne a tradução anotada e o estudo de um manuscrito do século XIX sobre a estada do imã bagdali Abdurrahmán al-Baghdádi no Brasil. Após chegar a bordo de um navio do Império Otomano, morou no Rio de Janeiro, em Salvador e Recife ao longo de três anos, em meados do século XIX.
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Redigido em caracteres árabes, o manuscrito contém termos em árabe, turco otomano, persa, francês, grego, português e tupi. Constitui o principal documento acerca da situação dos muçulmanos no Brasil no século XIX, especialmente após o levante dos malês (1835), muçulmanos de origem africana que lideraram a principal revolta de escravos urbanos das Américas, o levante dos malês, em 1835, na cidade de Salvador. Trata-se também do único registro até agora conhecido de um olhar árabe - e muçulmano - sobre a paisagem tropical e a sociedade multiétnica e multiconfessional que se formava à época no Brasil.
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No manuscrito, o imã discorre ainda sobre a fauna, a flora, as tradições e as populações brasileiras sob o prisma de um erudito. A obra, editada pela Biblioteca América do Sul - Países Árabes (BibliASPA), em co-edição com as Bibliotecas Nacionais de Argel, Caracas e Rio de Janeiro e a Biblioteca Ayacucho (Venezuela), reproduz todo o manuscrito original. Inteiramente trilíngue, em árabe, português e espanhol, faz-se introduzir por textos de análise e comentário e possui um caderno de imagens do século XIX.
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Erudito muçulmano que estudara árabe, persa, literatura, jurisprudência e teologia, entre outras disciplinas, Al-Baghdádi veio ao Brasil do Oitocentos em um navio a vapor do Império Otomano. A corveta, enviada em 1865 (1282 da hégira) pelo sultão Abdulaziz (1277-1293 da hégira ou 1861-1876 d.C.), de Istambul a Basra, teve sua rota desviada por uma série de tempestades (segundo seu relato) e veio a aportar no Rio de Janeiro, onde o imã árabe decidiu permanecer após identificar na cidade a presença de muçulmanos de origem africana.
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Convidado pela comunidade muçulmana da Bahia e de Pernambuco a prolongar a missão de cunho didático que atribuíra a si e o fizera abandonar o vapor para instalar-se na capital do Império do Brasil, ao passo que seu comandante prosseguiu rumo a Basra, Al-Baghdádi continuou seu périplo e relato, no qual descreve, de forma minuciosa e especializada, as práticas e as crenças da comunidade muçulmana e, em particular, dos remanescentes dos malês na Bahia.
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Fonte de informação histórica, geográfica, antropológica, política, religiosa e literária sobre o Brasil, a África, os árabes e os otomanos, este manuscrito apresenta uma linguagem rebuscada e poética. No relato de Al-Baghdádi, o africano escravizado e o índio ocupam um lugar especial, em uma época marcada pela Guerra do Paraguai (1864-1870) e pela guerra civil norte-americana (1861-1865), à qual faz alusão em seus escritos.

A tradução anotada desse testemunho detalhado que abrange cerca de três anos (como atestam os três Ramadãs que Al-Baghdádi jejuou no Brasil) e a pesquisa minuciosa integram um esforço de ampliar as pesquisas e a produção de conhecimento acerca da América do Sul, dos países árabes e da África.
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Há também um conjunto de traduções já feitas no Brasil direto do árabe, sob sua responsabilidade direta. Fale-nos sobre essas obras, de como você as seleciona no mundo árabe e do grau de dificuldades nesses trabalhos.
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Temos a preocupação de selecionar obras de épocas distintas com o intuito de demonstrar que a cultura árabe já produziu importante reflexão crítica e que continua a fazê-lo. Dessa forma, trabalhamos com obras escritas um milênio ou alguns anos atrás. A intenção tem sido publicar obras traduzidas diretamente do árabe (ou do português para o árabe) e contemplar distintas áreas do conhecimento.
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São diversas as obras traduzidas. Para citar algumas mais recentes, traduzimos pela primeira vez para o árabe João Guimarães Rosa e Machado de Assis, autores que têm sido muito bem recebidos pelos leitores de expressão árabe.
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Como sabemos, Guimarães Rosa utiliza-se de arcaísmos, regionalismos, indigenismos, neologismos e onomatopéias; revela-se, assim, um dos escritores que mais se utilizam das potencialidades da língua portuguesa. Nesta tradução, procuramos reproduzir essas características, seus experimentos linguísticos, e preservar ao máximo a riqueza lexical nas denominações da fauna e da flora. Para citar um exemplo, em “Famigerado”, ao descrever os três cavaleiros que observavam à porta o médico inquirido, o escritor diz que estavam “mumumudos”. Em árabe, repetimos a primeira sílaba do vocábulo correspondente três vezes e procuramos explicar em nota de rodapé que o autor lançou mão da repetição para permitir que o leitor observasse cada uma das personagens.
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A importância que Guimarães Rosa atribui à linguagem é tão expressiva que esse é o tema do conto citado, no qual o conhecimento e o domínio linguístico determinam as posições sociais. E o poder da força (Damásio) opõe-se ao poder da instrução e do saber.
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Já a obra de Machado de Assis abrange praticamente todos os gêneros literários. Jornalista, contista, cronista, romancista, poeta e teatrólogo, na contística refletiu sobre a cultura popular urbana e retratou o ambiente político, cultural e social do Rio de Janeiro no século XIX e na virada para o século XX. No decorrer do quase meio século da produção literária de Machado de Assis, de 1864 até sua morte, o Brasil testemunhou um ciclo de modernização, que aparece na obra do autor com suas contradições e dilemas. Em seus romances e contos, além das crônicas, pode-se acompanhar a história do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil e microcosmo de sua história urbana.
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Algumas outras obras traduzidas são O Beco do Pilão, de Naguib Mahfuz (Prêmio Nobel de Literatura em 1988), Poemas de Mahmud Darwich, descrito por Edward Said, em Reflexões sobre o exílio, como um “artista que dá voz a exilados enraizados e às dificuldades dos refugiados presos em armadilhas, a fronteiras em dissolução e identidades em mudança, a exigências radicais e novas linguagens”, e o romance Homens ao sol, de Ghassan Kanafani. Publicado em 1963, é um marco da literatura árabe e palestina – descrito por alguns críticos como a principal criação literária palestina. A caracterização das personagens é complexa e abriu caminho para uma tendência no romance palestino.
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A obra narra a história de três palestinos que não se conhecem, mas que estão, ao mesmo tempo, em Basra (Iraque), de onde tentam cruzar ilegalmente a fronteira para o Kuait. Cada um deles descobre que não pode pagar o preço exigido pelos contrabandistas profissionais e tenta, à sua própria maneira, descobrir um meio de partir, até que finalmente se encontram uns aos outros e ao contrabandista que se oferece para levá-los ao Kuait por um valor menor, mas ainda elevado. Esse contrabandista, Abul-Khayzuran, é motorista de um caminhão-pipa que pertence a um rico comerciante kuaitiano.
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O plano de Abul-Khayzuran para contrabandeá-los do Iraque para o Kuait mostra-se simples. Como ele é obrigado a voltar com o caminhão vazio para o Kuait, pode levar os três homens. Durante a maior parte da viagem, eles vão ao seu lado na cabine, mas, um pouco antes da fronteira, devem se esconder dentro do tanque de água vazio. Depois de a polícia conferir seus documentos e ele se distanciar um pouco da fronteira, eles podem sair e completar a viagem ao seu lado. Os três palestinos não gostam do plano. Abu-Qays, o mais velho, não ficara satisfeito desde o início, pois compreende que é uma aventura extremamente arriscada. Ele está mais inclinado a viajar com um contrabandista profissional, apesar do preço exorbitante. Marwan, o mais jovem, se sente confuso e não consegue se decidir. Assim, recai sobre As‘ad, o mais consciente politicamente, a responsabilidade de tomar a decisão.
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As‘ad faz Abul-Khayzuran admitir que seu trabalho não é realmente o de transportar água, mas, sim, o de contrabandear mercadorias para o comerciante kuaitiano. O tráfico de seres humanos é um trabalho que lhe proporciona uma renda extra. O fato de que Abul-Khayzuran admite realizar essas atividades ilegais e aceita receber o pagamento na chegada ao Kuait, não antes (como exigira insistentemente desde o início das negociações), dá autoridade a As‘ad para fazer com que Abu-Qays e Marwan concordem com a decisão que ele próprio tomou. Ele aceita o risco porque, na verdade, não tem outra escolha.
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Abul-Khayzuran diz “prestar um serviço” aos outros ao promover o tráfico de seres humanos. Garante que já fizera isso antes com sucesso. Nessa viagem, contudo, sua sorte muda. Enquanto o caminhão fica exposto ao sol do deserto, os burocratas da fronteira começam a fazer piadas sobre a vida sexual de Abul-Khayzuran. Suas tentativas de encerrar a conversa dos oficiais da fronteira são inúteis e, quando ele retorna ao caminhão, dirige-o por uma curta distância e pára para abrir o tanque, mas já é tarde demais. Os três homens estão mortos, sufocados.
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Ferido pelo remorso, inicialmente ele planeja oferecer um enterro decente aos corpos, mas o choque da tragédia logo se dissipa e ele decide que é mais fácil descarregar os corpos, na calada da noite, em um depósito de lixo municipal nos arredores da cidade do Kuait. Ele faz isso, mas não antes de roubar o relógio de Marwan e de despojar os outros corpos de todas as suas escassas posses. Dessa forma, ele os deixa tão pobres e anônimos na morte como foram em vida.
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As quatro personagens palestinas do romance – Abu-Qays, As‘ad, Marwan e Abul-Khayzuran – pertencem a quatro faixas etárias diferentes e fornecem, assim, uma amostra significativa do povo palestino.
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Uma série de flashbacks introspectivos familiariza o leitor com o passado das personagens ao oferecer uma descrição de seus sonhos, esperanças, objetivos e medos mais íntimos. Homens ao sol enfatiza, além disso, a futilidade do esforço dos refugiados palestinos em procurar um novo lar, um novo futuro e uma nova identidade fora da Palestina. A tentativa de buscar trabalho no exterior passa pela provação do deserto entre Basra, no Iraque, e o Kuait, mas o deserto não leva à redenção. Ao contrário, sufoca até a morte os que vêm da Palestina. O autor afirma que é preciso vencer o deserto para chegar à Palestina, não para abandoná-la.
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O deserto causticante em Homens ao Sol representa uma antítese à terra na qual as personagens viveram um dia, um não-lugar, uma negação de sua própria existência. Os pensamentos das personagens transitam rapidamente entre o presente e o passado conforme o sol e a areia brilhante do deserto atacam a consciência. Em um trecho do livro, o sol brilhante se torna a luz da sala de operações na qual o contrabandista palestino acordara após a batalha na qual se ferira em 1948. Em outro momento, a areia molhada próxima ao canal do Chatt Al-‘arab torna-se o solo umedecido pela chuva do campo perdido de Abu-Qays.
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No próximo mês, será publicada a importante obra Rihla, de Ibn Battuta. Nascido em Tanger, Muhammad Ibn Battuta (1304-1368) viajou durante mais de 30 anos por uma parte considerável da África, da Europa e da Ásia. Vinha de uma família de jurisconsultos que praticavam a profissão em Marrocos e na Andaluzia. Em sua juventude, Ibn Battuta aprendeu as ciências religiosas e jurídicas – exegese corânica, as tradições do Profeta (ahadith), gramática, retórica, teologia, lógica e direito. E logo se revelou um alim (sábio).
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A civilização islâmica era altamente cosmopolita no século XIV em dois aspectos. Em primeiro lugar, as cidades islâmicas tinham as populações mais heterogêneas de habitantes e visitantes transitórios do mundo. Isso se aplicava especialmente às cidades do interior do mundo islâmico, em parte porque a região entre o Egito e a Pérsia (denominada atualmente de Oriente Médio) era geograficamente o local através do qual passavam as rotas comerciais entre o Ocidente e o Oriente. Árabes, persas, judeus, curdos, berberes, turcos, gregos, italianos e catalães viviam em Damasco, Alepo, Jerusalém, Tabriz, Alexandria e Cairo.
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Entre os viajantes que se dispunham a enfrentar as trilhas de caravanas e as rotas marítimas do século XIV, os muçulmanos predominavam. Como as terras do Islã dominavam o centro do hemisfério oriental, os mercadores e os sábios muçulmanos se moviam por entre as maiores regiões da Eurásia e da África. Muitos faziam a peregrinação sagrada a Meca (o hajj) e Medina, na Arábia, uma jornada que um peregrino pobre podia levar vários anos para realizar. Outros ainda viajavam como emissários diplomáticos, mensageiros imperiais, místicos, andarilhos ou estudiosos em busca de livros e professores renomados.
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O internacionalismo islâmico também era evidenciado na vida coletiva dos ulemás, os muçulmanos versados na lei e na religião. De acordo com a tradição islâmica, valorizavam-se os indivíduos que viajavam para fazer o hajj ou para aprimorar a sua educação nas ciências religiosas. Ibn Battuta iniciou sua viagem com o intuito de realizar a peregrinação para dedicar-se ao estudo da geografia, da história e das sociedades que visitava.
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Os muçulmanos letrados do norte da África (caso de Ibn Battuta) ou do sul da Espanha estavam particularmente inclinados a fazer longas viagens ao exterior, em parte para realizar as obrigações religiosas do hajj, em parte para fazer viagens de estudo a outros centros de saber, como o Cairo, Damasco e outras cidades universitárias do Oriente Médio.
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Ibn Battuta testemunhou acontecimentos trágicos como a Peste Negra e os problemas econômicos, os colapsos políticos e as transformações sociais que dela advieram. Viu e analisou mais do Dar al-Islam (as terras do Islã) do que qualquer outra pessoa já vira anteriormente. E viajou também entre territórios não-muçulmanos.
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A “Rihla” representa ainda o único relato de testemunha ocular que temos sobre as cidades-estado da África oriental e o império mali no século XIV; seu relato inclui descrições detalhadas do governo real desse império.
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O relato de Ibn Battuta sobre as cidades da África oriental de Mogadishu, Mombasa e Kilwa é extremamente informativo historicamente. Suas descrições de Damasco, Jerusalém, Meca, Kufa (no atual Iraque), Cairo e muitas outras cidades testemunham de forma ímpar os eventos históricos, as paisagens, a arquitetura, as culturas e o modo como essas sociedades viviam; de fato, muitas das tradições por ele retratadas e dos cenários por ele descritos se mantêm. Por essas razões, a obra que descreve seu périplo de 30 anos tornou-se uma referência fundamental para geógrafos, historiadores, críticos literários, lingüistas e antropólogos, entre outros.
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Agora, queremos saber um pouco da BibliASPA, de como surgiu essa ideia, de quais países principais estão dando apoio, dos grandes projetos que você tem para os próximos anos. Soube inclusive que a Biblioteca terá uma nova sede nos próximos meses, onde será possível realizarmos cursos, exposições, passarmos filmes árabes.
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A BibliASPA surgiu da constatação da existência de uma grande carência por ações na área da cultura e da educação vinculadas a temas árabes, africanos e sul-americanos. Entre seus objetivos, propõe-se a promover a integração entre entidades (não-sectárias) ligadas à literatura, às humanidades e à cultura, em geral, e à cultura sul-americana, árabe ou africana, em participar; promover a aproximação e o conhecimento mútuo entre a América do Sul, a África e os países árabes; incentivar a reflexão crítica, a pesquisa, a produção e a difusão de saberes entre as regiões envolvidas e aprofundar a pesquisa sobre a presença árabe na América do Sul (temos muitos projetos nesse campo).
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Quanto à nova sede, com certeza continuará a desenvolver e intensificará a realização de cursos, palestras, mostras de cinema e exposições, pois de fato há muito que fazer nessa área.
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São muitos os países que atuam neste projeto, em diversas instâncias. A participação de importantes intelectuais, tanto no Brasil quanto no exterior, desde o início foi essencial. Edward Said, com quem tive a oportunidade de conversar, entre outros temas, sobre essa necessidade de refletir criticamente a respeito dessas temáticas fundamentais, foi um dos incentivadores para que esse processo ocorresse.
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A BibliASPA tem atraído apoios importantes em universidades e centros de cultura e pesquisa, ademais de órgãos governamentais e não-governamentais. O lançamento do livro Deleite do Estrangeiro em Tudo o que é Espantoso e Maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali, por exemplo, contou com a presença do então ministro da Cultura, Gilberto Gil, e do ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim. Nessa ocasião e em outras, ambos enfatizaram a importância do projeto. Sem dúvida, o respaldo e o interesse têm sido muito claros.
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Convido a todos a acessar nosso portal, a ler a Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-americanos e a participar de nossas atividades. Será um prazer conversar com os interessados. Ahlan wa Sahlan!
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Gostaríamos agora de falar um pouco de política em geral. É possível difundir a cultura milenar árabe sem entrar em questões políticas que tanto envolvem os países no Oriente Médio? Como é o seu engajamento pessoal nas questões de solidariedade ao povo árabe em geral e aos palestinos em particular?
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Generalizações indevidas caracterizam, na maioria das vezes, a visão que europeus e norte-americanos têm dos países árabes. E a representação que se faz dessas culturas com frequência têm objetivos políticos de deturpação.
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Quanto maior o afastamento, mais distantes da realidade se revelam as representações.
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Uma forma clara de aproximação passa pelo respeito de ambas as partes e por políticas externas que não privilegiem um determinado grupo unilateralmente. Nesse sentido, é fundamental implementar as resoluções internacionais da ONU, por exemplo, no que diz respeito à Palestina, para garantir a desocupação dos territórios ocupados, um Estado viável e uma convivência pacífica entre os diversos grupos.
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A Assembléia Geral ou o Conselho de Segurança da ONU já aprovou diversas resoluções referentes à questão palestina que propõem uma solução pacífica para o conflito que leve ao fim da ocupação; é necessário implementá-las o quanto antes.
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Os eventos que sucederam à criação de Israel tiveram um triste impacto sobre o povo palestino. Ao final do processo inicial de desapropriação, mais de quatrocentas cidades e aldeias árabes da Galiléia, da região costeira, da área entre Jaffa e Jerusalém e da região sul da Palestina tinham sido despovoadas. 
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Uma questão central é identificar (e buscar soluções para) questões cruciais do conflito, entre as quais: Jerusalém, os recursos hídricos e os refugiados.
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Entendo que uma solução pacífica para a questão da Palestina e que restitua os direitos de seu povo terá consequências positivas para a região e para o mundo todo e reduzirá instabilidades e focos de conflito, além de significar o reconhecimento e a valorização do humano.

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* Presidente do Sindicato dos Sociólogos do Estado de São Paulo, escritor, arabista e professor. Membro da Academia de Altos Estudos Ibero-Árabe de Lisboa e da International Sociological Association.
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessáriamente as opiniões do site.
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  • Paulo Farah

    14/10/2009 7h21
    Adorei conhecer Paulo Farah. Gostaria que ele, ou alguém com quem tenha contato, me indicasse onde encontrar artigos sobre a história do povo árabe, em Português, se possível. Se a fonte estiver na internet, tanto melhor; favor indicar o "caminho".Eu escrevo para vários jornais virtuais e gostaria de escever algo interessante e inédito, se possível, sobre o povo ou folclore (melhor seria)árabe.Alguém me ajuda?
    ACAS
    São Paulo - SP
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