| Assunto: | BOM DIA COM CARINHO |
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| Data: | 27/Jan 16:04 |
Uma Biblioteca Árabe no Brasil
Lejeune Mirhan *Nestes quase oito anos ininterruptos de coluna sobre Oriente Médio no Portal Vermelho, fizemos, na maior parte das matérias, análise sobre a situação política no mundo árabe. Algumas vezes falamos de poesia, cultura, tradições árabes. E apenas uma vez, fizemos uma entrevista. Desta feita, publicamos uma segunda entrevista com o Prof. Dr. Paulo Daniel Farah, da USP, um dos mais renomados arabistas e tradutores de árabe de nosso país.
.Quem é Paulo Daniel Farah?
Paulo Daniel Farah é Professor Doutor no programa de graduação e de pós-graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da Universidade de São Paulo (USP). Possui mestrado em Linguística e em Computação e doutorado em Teoria Literária e Literatura Comparada. Fez pós-doutorado em História Social. Além de lecionar na FFLCH-USP, orienta diversas pesquisas em literatura, linguística, história e cultura árabe, em nível de pós-graduação, na própria USP.
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É autor de diversas obras, entre elas Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali (obra em português, árabe e espanhol). Rio de Janeiro, Argel, Caracas: Edições BibliASPA em co-edição com Fundação Biblioteca Nacional, Bibliothèque Nationale d’Algérie e Biblioteca Nacional de Caracas, 2007, 476 pp, ABC do Mundo Árabe (São Paulo: SM, 2006; traduzido para o espanhol e o francês e editado na América Latina e na Europa), O Islã (São Paulo: Publifolha, 2000) e Glossário de Termos Islâmicos (São Paulo: Cálamo, 1996), entre outras obras, e co-autor de Diálogo América do Sul - Países Árabes, de Por que nós brasileiros somos contra a guerra no Iraque e de Edward Said.
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Morou durante vários anos no Oriente Médio e na África, onde participou de diversos cursos de pós-graduação na área de literatura e história, incluindo a Universidade do Cairo, no Egito, a Universidade de Damasco, na Síria e a Universidade do Kuwait.
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Traduziu diversas obras do árabe, francês, inglês, alemão e quissuaíli, entre elas O Edifício Yacubian. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, de Alaa al-Aswani, e A terra nos é estreita e outros poemas. São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, de Mahmud Darwich, O Dicionário e Outros Contos de Machado de Assis (tradução do português para o árabe). São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, A Terceira Margem do Rio e Outros Contos de João Guimarães Rosa (tradução do português para o árabe). São Paulo: Edições BibliASPA, 2009, O Beco do Pilão (São Paulo: Editora Planeta, 2003), de Naguib Mahfuz. Compreende, fala, lê e escreve em português, árabe, francês, quissuaíli, espanhol, inglês, italiano e alemão.
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É membro da Brasa (Brazilian Studies Association), co-fundador e membro da diretoria do grupo internacional de estudos árabes e islâmicos MELN. É também pesquisador do CNPq, onde atua como parecerista desse órgão e de outros (incluindo a Edusp e a Fapesp) e edita a Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-americanos (que pode ser lida no site www.bibliaspa.com.br).
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Diretor da BibliASPA (Biblioteca e Centro de Pesquisa América do Sul - Países Árabes, www.bibliaspa.com.br), da qual participam acadêmicos de mais de 40 países que estudam literatura, linguística, antropologia e história, entre outras temáticas.
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Sobre a BibliASPA
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A BibliASPA foi formada a partir de 2003. Desde seu início, teve o intuito de realizar pesquisas, estimular a produção cultural e promover o conhecimento mútuo e a reflexão crítica entre árabes e sul-americanos, através de publicações, traduções e edições. Ela publica obras diversas, como a Revista Fikr de Estudos Árabes, Africanos e Sul-Americanos, editada em cinco idiomas (árabe, português, espanhol, francês e inglês) e com um Conselho formado por especialistas de mais de 25 países.
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O portal deste centro de pesquisa (www.bibliaspa.com.br) promove, em mais de 20 seções, um fórum de debate aberto à participação de todos. O portal é totalmente trilíngue (português, espanhol e árabe), oferece obras eletrônicas na íntegra para leitura, possui seções de poemas, textos e artigos sobre temas das humanidades, como literatura, história, geografia, linguística, antropologia, sociologia, artes plásticas e cinema, entre outros.
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Na perspectiva de contemplar representações e reflexões, ademais de questionar visões de sociedade e do pensamento limitantes e que acabam por promover distâncias e exclusão, as Edições BibliASPA propõem-se a publicar textos que contemplem as principais áreas de conhecimento relacionadas às letras, artes e ciências humanas. A intenção é formar acervos bibliográficos especializados em temas sul-americanos, árabes e africanos a fim de suprir a carência nessa área.
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Entre as obras, a BibliASPA se destacou pela publicação de Deleite do estrangeiro em tudo o que é espantoso e maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali, de Paulo Daniel Farah, que trata do relato de viagem pelo Brasil de um clérigo muçulmano no século XIX, no período do Império. Uma obra monumental em três línguas, publicada com apoio inclusive do Itamaraty.
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O Centro Educativo e de Formação da BibliASPA visa à conscientização social acerca das culturas representadas por meio de cursos diversos sobre música, literatura, história, linguística e dança, entre outros temas. Alguns exemplos de curso referem-se ao Curso de Música Árabe em seis módulos, Curso de História da África, em três módulos, o Curso de Contos Árabes, Africanos e Sul-Americanos, oferecidos a 200 estudantes e professores da rede pública de São Paulo e a públicos semelhantes em Curitiba, Belo Horizonte, Rio de Janeiro e outras cidades.
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Ademais, a BibliASPA organiza seminários, palestras, exposições de artes plásticas, fotografias, esculturas, apresentações de música e dança árabe, africana e sul-americana e mostras de cinema acompanhadas de debate. Para isso, congrega pesquisadores em mais de 40 países, de áreas diversas, que promovem o respeito à diversidade e ao multiculturalismo e procuram tornar o saber acessível ao maior número possível de pessoas. São diversas as linhas de pesquisa.
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A intenção é unir pelo conhecimento. Sabe-se que os estereótipos culturais e as representações politicamente motivadas acerca de árabes, africanos e sul-americanos só podem ter seu efeito negativo contrabalançado pela produção constante de saberes, embasados em pesquisas empíricas de qualidade, bem como pela disponibilidade em português/espanhol de textos representativos da produção cultural árabe e africana e, em idioma árabe, de textos representativos da produção cultural sul-americana.
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A entrevista com Paulo Daniel Farah
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Temos a honra de realizar esta entrevista. Você enobrece o povo e a nação árabe com seu valoroso trabalho de difusão da língua e da literatura árabe. Em primeiro lugar, queremos saber um pouco de sua trajetória, sua vida pessoal, suas origens árabes, sua família, seu nome, enfim, fale-nos sobre quem é Paulo Farah.
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Nasci em uma família de origem árabe que sempre prezou a leitura, o estudo e as artes. Entre outras pessoas importantes, admiro meu avô, por seus escritos que considero especiais tanto do ponto de vista formal quanto do de conteúdo. Era um homem bastante espiritualizado, e em minha família sempre houve – e continua a haver – uma diversidade religiosa marcada por respeito e aprendizado mútuo. Sabemos que contemos “multitudes”, para usar o termo de Whitman.
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Procurei desde cedo me dedicar à literatura, à música (toco alguns instrumentos) e à pintura. Tenho muito apreço pelo ensino, em ser educador, desde jovem, pois acredito plenamente na capacidade de transformação que a educação possui. Ainda na adolescência, lecionei em escolas de idiomas e de literatura e sempre procurei participar de projetos educativos.
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Conte-nos agora sua trajetória de jornalista, bem como a trajetória acadêmica, o mestrado, doutorado, pós-doutorado, o ingresso na USP.
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Ingressei no jornalismo jovem, escrevi, sobretudo a respeito de cultura, literatura, linguística, história, religião e política internacional. Fui editor de cadernos de notícias internacionais em jornais de grande circulação e fiz coberturas de conflitos, congressos, festivais artísticos e religiosos, entre outros.
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Minha trajetória acadêmica é marcada por cursos de pós-graduação no Brasil e no exterior que tiveram importante papel em minha carreira e em minha atuação como educador e pesquisador.
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Na década de 1990, comecei a lecionar na universidade, depois de ter ensinado em diversos outros locais. Atualmente, leciono na graduação e na pós-graduação e oriento vários alunos na iniciação científica e na pós-graduação, além de escrever artigos acadêmicos e livros e redigir pareceres.
Você já possui diversas obras publicadas, por várias editoras. Fale-nos um pouco delas todas, a qual gostou mais, a que mais lhe deu trabalho ao escrever.
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Escrevi obras de ficção e de não-ficção, muitas delas com o objetivo de mostrar que as identidades múltiplas do humano devem ser respeitadas e valorizadas. Entre as obras que publiquei, posso destacar algumas pelas quais nutro um afeto especial. ABC do Mundo Árabe foi traduzido para o espanhol e o francês e recebeu prêmio literário, O Islã procura demonstrar que não existe um choque de civilizações, mas um choque de desconhecimentos e Por que nós, brasileiros, dizemos não à guerra no Iraque teve como intuito demonstrar a insanidade da guerra. O livro Deleite do Estrangeiro em Tudo o que é Espantoso e Maravilhoso: estudo de um relato de viagem bagdali reúne a tradução anotada e o estudo de um manuscrito do século XIX sobre a estada do imã bagdali Abdurrahmán al-Baghdádi no Brasil. Após chegar a bordo de um navio do Império Otomano, morou no Rio de Janeiro, em Salvador e Recife ao longo de três anos, em meados do século XIX.
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Redigido em caracteres árabes, o manuscrito contém termos em árabe, turco otomano, persa, francês, grego, português e tupi. Constitui o principal documento acerca da situação dos muçulmanos no Brasil no século XIX, especialmente após o levante dos malês (1835), muçulmanos de origem africana que lideraram a principal revolta de escravos urbanos das Américas, o levante dos malês, em 1835, na cidade de Salvador. Trata-se também do único registro até agora conhecido de um olhar árabe - e muçulmano - sobre a paisagem tropical e a sociedade multiétnica e multiconfessional que se formava à época no Brasil.
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No manuscrito, o imã discorre ainda sobre a fauna, a flora, as tradições e as populações brasileiras sob o prisma de um erudito. A obra, editada pela Biblioteca América do Sul - Países Árabes (BibliASPA), em co-edição com as Bibliotecas Nacionais de Argel, Caracas e Rio de Janeiro e a Biblioteca Ayacucho (Venezuela), reproduz todo o manuscrito original. Inteiramente trilíngue, em árabe, português e espanhol, faz-se introduzir por textos de análise e comentário e possui um caderno de imagens do século XIX.
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Erudito muçulmano que estudara árabe, persa, literatura, jurisprudência e teologia, entre outras disciplinas, Al-Baghdádi veio ao Brasil do Oitocentos em um navio a vapor do Império Otomano. A corveta, enviada em 1865 (1282 da hégira) pelo sultão Abdulaziz (1277-1293 da hégira ou 1861-1876 d.C.), de Istambul a Basra, teve sua rota desviada por uma série de tempestades (segundo seu relato) e veio a aportar no Rio de Janeiro, onde o imã árabe decidiu permanecer após identificar na cidade a presença de muçulmanos de origem africana.
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Convidado pela comunidade muçulmana da Bahia e de Pernambuco a prolongar a missão de cunho didático que atribuíra a si e o fizera abandonar o vapor para instalar-se na capital do Império do Brasil, ao passo que seu comandante prosseguiu rumo a Basra, Al-Baghdádi continuou seu périplo e relato, no qual descreve, de forma minuciosa e especializada, as práticas e as crenças da comunidade muçulmana e, em particular, dos remanescentes dos malês na Bahia.
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Fonte de informação histórica, geográfica, antropológica, política, religiosa e literária sobre o Brasil, a África, os árabes e os otomanos, este manuscrito apresenta uma linguagem rebuscada e poética. No relato de Al-Baghdádi, o africano escravizado e o índio ocupam um lugar especial, em uma época marcada pela Guerra do Paraguai (1864-1870) e pela guerra civil norte-americana (1861-1865), à qual faz alusão em seus escritos.
A tradução anotada desse testemunho detalhado que abrange cerca de três anos (como atestam os três Ramadãs que Al-Baghdádi jejuou no Brasil) e a pesquisa minuciosa integram um esforço de ampliar as pesquisas e a produção de conhecimento acerca da América do Sul, dos países árabes e da África.
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Há também um conjunto de traduções já feitas no Brasil direto do árabe, sob sua responsabilidade direta. Fale-nos sobre essas obras, de como você as seleciona no mundo árabe e do grau de dificuldades nesses trabalhos.
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Temos a preocupação de selecionar obras de épocas distintas com o intuito de demonstrar que a cultura árabe já produziu importante reflexão crítica e que continua a fazê-lo. Dessa forma, trabalhamos com obras escritas um milênio ou alguns anos atrás. A intenção tem sido publicar obras traduzidas diretamente do árabe (ou do português para o árabe) e contemplar distintas áreas do conhecimento.





Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza,
Pelas aves que voam no olhar de uma criança,
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza,
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança,
Pela branda melodia do rumor dos regatos,
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Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia,
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos,
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria,
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes,
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos,
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes,
Pelos aromas maduros de suaves outonos,
Pela futura manhã dos grandes transparentes,
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra,
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra,
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna,
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz.
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira,
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz,
Abre as portas da História,
deixa passar a Vida!
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Natália Correia, in "Inéditos (1985/1990)"