quinta-feira, 23 de setembro de 2010

António Torrado: "Já escrevi sobre tudo e mais alguma coisa"

Miúdos
 
21.09.2010 - 19:44 Por Rita Pimenta
Deve haver sempre uma estante fechada, mas de fácil acesso. Pode até escrever-se "livros proibidos" na prateleira mais alta da estante e deixar ficar uma escada por perto. Ideias e memórias de António Torrado: "Eu sacava da biblioteca do meu pai os livros proibidos. Tinha uma chave. Abrir abria-se bem, para fechar é que tinha mais dificuldade. Li muita coisa sem perceber o que estava a ler."
 (Maria João Fragateiro)

Mas também leu livros que entendia e de que gostava: "História de Dona Redonda e de Sua Gente, de Virgínia de Castro e Almeida; as obras de Erich Kästner; A Biblioteca dos Rapazes; Jack London; Júlio Verne." O seu fascínio por romances de capa e espada fê-lo querer praticar esgrima. Mas foi traído pela vista e pelos óculos. "Sou um desportista falhado", diz, entre o resignado e o divertido.

Não estava previsto tornar-se escritor, mas aconteceu. Depois de uma tentativa de estudar Ciências Económicas para dar seguimento à empresa comercial do pai, percebeu que "não tinha jeito nenhum para aquilo". Foi então para Direito. Mas adormecia nas aulas: "Dava-me muito sono." Um dia, um professor disse-lhe: "Quando estiver com sono, não venha à aula. É que me desmotiva muito"." Compreendeu, mas envergonhou-se tanto que foi para a Faculdade de Letras. E estudou Filosofia.

Acabou por se tornar escritor e, segundo Leonor Riscado, professora de Literatura para a Infância e Juventude na Escola Superior de Educação de Coimbra, "um criador de primeiríssima água. Sherazade dos tempos modernos, alia à sólida cultura do filósofo a prodigiosa imaginação de um Andersen. A capacidade única de criar enredos surpreendentes - de preferência para as crianças, mas também para os adultos - é sustentada por palavras enxutas, envoltas em marcas de oralidade. Na sua escrita, gerida com mão hábil de um dramaturgo residente, as contas do colar vão-se juntando no fio com que constrói contos, poemas e textos dramáticos. O olhar de António Torrado sobre as pequenas e grandes coisas, as pessoas, o mundo, afinado pelo registo da ironia, do humor ou da ternura abre o apetite dos leitores, que saboreiam o delicioso mil-folhas que é a sua obra".

Pelo primeiro texto que escreveu para o Diário Popular, recebeu "cem paus" (100$, €0,50). "Dava para almoçar com a namorada, lanchar com a namorada e levá-la ao cinema."

Alguém que diga mal

O conto curto é a sua forma ideal de expressão. "É o meu modelo de escrita: insinuar mais do que dizer; sugerir mais do que declarar." António Torrado, 71 anos, já escreveu "perto de mil histórias". Mas também criou peças de teatro, letras de fados, argumentos para filmes e séries de televisão, escreveu textos para a rádio e poesia. "Já escrevi sobre tudo e mais alguma coisa."

Os seus 40 anos de vida literária foram o pretexto para uma homenagem na abertura da XI Edição das Palavras Andarilhas em Beja, na quinta-feira.

Quando falou com a Pública, o escritor ainda não sabia das surpresas que lhe estavam reservadas no encontro, mas já dizia, bem-disposto: "Vai ser uma chumbada, todos a dizerem bem. Se houvesse alguém que tivesse a coragem de dizer mal. Acho que vou fazer esse apelo."

Leitores fiéis

António Torrado sabe que "se escreve para o efémero, para o transitório. Os leitores estão em trânsito para outros livros". No entanto, reconhece que a faixa de público com que mais trabalha, as crianças, "é muito generosa. Quando gostam, são sistemáticas. Querem ler tudo do mesmo autor e têm o gosto da colecção."

E dá o exemplo do filho mais velho, que prometeu que não leria outros livros sem antes ter lido todos os de Jack London. O próprio Torrado manteve-se fiel a Erich Kästner enquanto pôde. E já adulto ainda descobriu um livro (A Ala Volante) deste primeiro autor a receber o prémio Hans Christian Andersen.

É isso que espera dos seus leitores? "Já tenho tido provas de fidelidade que me comovem. Ditas pelos pais ou pelos miúdos. Também há aqueles que querem ouvir sempre a mesma história." António Torrado não gosta de queixumes e sente-se acarinhado pelos seus leitores: "Não me queixo de ser mal amado, como quase todos os autores portugueses: ursos mal lambidos. E acho que os meus colegas desta área também não se queixam, porque o público roda muito depressa. Chega aos 11, 12 anos, já passou. Mas até lá, quando são aplicados à leitura, gostam de ler e de reler. E depois temos sempre novas camadas. Os meus livros já foram lidos por várias gerações."E até já fez uma dedicatória para uma criança que ainda vai nascer, "neta de alguém que leu livros meus". Foi "uma situação embaraçante, a criança ainda nem tinha nome, fazer uma dedicatória a um ser fantasmático, virtual". E agora?

Pouco ligado a formalidades de homenagens, diz que até tem "medo de datas redondas". E lembra a história de Aquilino Ribeiro, que tinha publicado Quando os Lobos Uivam e ia ser julgado "por ter dito coisas que soariam aos ouvidos do poder como aleivosias". Aos 79 anos, "como era considerado uma figura perseguida, andaram a homenageá-lo por todo o país. Passados uns meses, "puff", morreu".

Mas não é esse o seu medo. E vai pensando em voz alta o que lhe suscitou este assinalar dos 40 anos de escrita: "Achei que o ter passado de jovem escritor inseguro para velho escritor inseguro aconteceu muito depressa. Foi a morte da Matilde [Rosa Araújo] que marcou essa diferença. A Matilde era a patrona e paraninfou gerações e gerações. Era a nossa figura tutelar. Deixou-nos uma responsabilidade maior, já não temos fada-madrinha, estamos por nós. Logo aconteceu esta coisa dos 40 anos. Agora, parece que o patriarca sou eu, ou outro que tal. Embora haja pessoas mais velhas, como a Luísa Dacosta, por exemplo."

Fizeram-no pensar "no peso da responsabilidade". E continua: "Já fiz tudo, já encantei gente. Tenho razões para me sentir feliz e realizado, mas, por outro lado, penso: e agora? O que é que me resta? Se isto é o resumo do que fiz, parece que é quase uma notícia necrológica, e eu não quero que seja. Não é por causa do medo da morte. Se ela viesse de um dia para o outro, não me custava nada. Ficar incapaz é que é chato, morrer não."

No entanto, diz, não ter "aquele sentimento de alegria de "40 anos já cá cantam"", nem a "sensação de tempo perdido". E compara a quantidade de livros que escreveu, 130 a 140, com o espaço que ocupam. "Os meus livros todos, os que tenho nas prateleiras que me são dedicadas, por conjunto, dá o meu tamanho deitado. Ou a minha altura." Ou seja, 1,76m de literatura? "De uma forma leviana, pode dizer-se que sim. Alguns são livrinhos, outros têm 100 histórias. Como um que vai sair, 100 Histórias à Janela. São calhamaços. Mas, sim, tudo literatura."

Gostava agora de dedicar-se mais "a uma faixa que tem ficado oculta, a da literatura para adultos". Também sente necessidade de alimentar áreas "como o teatro e o argumentismo". Porque já escreveu muita coisa para crianças. "Pensei até em fechar a loja, mas continuo a ter encomendas. E não sei fazer mais nada. Sou péssimo em tudo. Nem guio sequer, por causa da vista. Não meço as distâncias." Nem as físicas nem as outras, agrada-lhe pensar.

"É velho, mas é assim como nós", disse um miúdo sobre o autor. E ele gostou.
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Entrevista - Ferreira Gullar, fica o não dito por dito

Entrevista
 
21.09.2010 - 20:00 Por Isabel Coutinho, Rio de Janeiro
José Ribamar Ferreira, mais conhecido por Ferreira Gullar, fez 80 anos na semana passada, no dia 10 de Setembro, e rompeu um silêncio poético de 11 anos. No Brasil, publicou um novo livro de poemas que começou a escrever em 2000, Em Alguma Parte Alguma (ed. José Olympio), que sairá em Portugal, na Ulisseia, em Outubro. A sua obra completa está a ser editada pelo grupo Babel e recentemente chegou às livrarias portuguesas o famoso Poema sujo, escrito em Buenos Aires, de Maio a Outubro de 1975, quando Gullar estava no exílio.
Gullar e a poeta Cláudia Ahimsa 
Gullar e a poeta Cláudia Ahimsa (Rogério Reis/Instituto Moreira Salles)


Numa manhã de final de Agosto, recebeu a Pública em sua casa, um apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro. "Pode ser cedo?", perguntou. É que aquele a quem chamam "o último grande poeta brasileiro" andava atarefado, com entrevistas todos os dias. Tinha sido um dos convidados da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), onde leu poemas, emocionou a plateia e foi aplaudido de pé. Ficou agradecido por ver que a poesia ainda consegue comover as pessoas.

Quinta-feira passada recebeu na Biblioteca Nacional Brasileira um cheque de cem mil euros pelo Prémio Camões 2010 - o mais importante da língua portuguesa -, que lhe foi atribuído em Maio. Admirador do poeta português, jamais imaginou que receberia um dia o prémio com o seu nome. "Muitos poetas chegam a escrever grandes poemas, poucos compõem uma grande obra", escreveu em O Globo sobre Gullar, dramaturgo, ensaísta, cronista e poeta, o professor especialista em literatura brasileira Alcides Villaça.

Ferreira Gullar, que nasceu em São Luís, capital do Maranhão, tem uma grande obra e o seu Poema sujo é uma obra-prima, considerado por Vinicius de Moraes "o mais importante poema escrito em qualquer língua nas últimas décadas". No livro Luta Corporal (1950) quis fazer uma poesia em que a linguagem nascesse com o poema, e conseguiu, só que ninguém percebia nada. Está sempre contra a marcha, não consegue acertar o passo com ela e quando a poesia chega é como se tivesse começado do zero. Muitas vezes passa meses sem escrever: "Se não há espanto, não escrevo."

Avô de oito netos (filhos da filha Luciana) e de sete bisnetos, sobreviveu à morte da mulher, Thereza Aragão, em 1994, à morte de um filho e à doença de um outro - esquizofrenia. Numa Feira do Livro de Frankfurt conheceu a poeta brasileira Cláudia Ahimsa, 34 anos mais nova, e que é a sua companheira desde 1997. Vivem em casas separadas e na poesia é cada um por si.

Naquela manhã conversámos numa sala cheia de quadros, alguns da sua autoria, de mobiles, de estátuas. Muitos livros, um álbum grande sobre o compositor Noel Rosa. Lá em baixo, na rua, as lojas têm nomes como Ferragens Relâmpago, madeiras Pau Mandado, antiquário Aquele Tempo. O bairro de Gullar, Copacabana, é já de si um poema.

Uma vez disse que não ia mexer um dedo para ganhar o Prémio Camões.

Prémio algum! Não mexo um dedo para ganhar nada. Perde o sentido. Batalhar para ganhar prémio? Perdia até a graça.

Antonio Carlos Secchin, do júri, e a ministra da Cultura portuguesa, Gabriela Canavilhas, queriam dizer-lhe que era o premiado mas não foi fácil encontrá-lo naquele dia.

Eles ficaram me procurando. Não estava em casa e foi um verdadeiro milagre terem-me achado em Monteiro Lobato, uma cidade perto da serra da Mantiqueira, onde fui ao festival literário. Eu não uso celular [telemóvel] exactamente para não me encontrarem.

Também não anda de avião. Quando voltou a Buenos Aires, onde esteve exilado...

... fui de carro. Um amigo decidiu me levar porque o Poema sujo, escrito em Buenos Aires, foi pela primeira vez traduzido e editado lá. O que é engraçado é que quando o poema foi escrito, em 1975, o Vinicius de Moraes resolveu traduzir o poema junto com uma namorada dele argentina e mais uma amiga tradutora. Naquela época, ainda nem tinha sido lançado no Brasil. Foi feita uma tradução a muitas mãos que felizmente não foi editada.

Porquê? Não era boa?

Imagina uma confusão dessas, uma quantidade de gente traduzindo. A editora de Buenos Aires era de esquerda e, por coincidência, o editor, no momento em que lhe entregaram a tradução, teve de fugir da Argentina para não ser preso. Alguns anos depois, esse amigo meu que me levou a Buenos Aires, que é um jovem empresário brasileiro, insistiu que o poema tinha de ser publicado em Buenos Aires e queria publicar essa tradução.

Foi revê-la?

Fui e achei a tradução muito ruim. Para editar, tinha de ser revisto. Na época, quando se falou em editar, eu dei a ideia de que a gente reunisse um grupo de pessoas para ler junto numa mesa na casa do Augusto Boal [encenador e dramaturgo] que também estava exilado. Na casa dele, estava o Santiago Kovadloff que é um escritor, poeta, ensaísta e tradutor argentino e tinha traduzido poemas meus; eu e o escritor Eduardo Galeano. Ficámos lendo o poema para concertar. Mesmo assim a tradução não era boa. Depois foi entregue para um poeta uruguaio que mora em São Paulo [Alfredo Fressia], ele achou que havia coisas boas, mas outras não estavam correctas.Como foi essa viagem à Argentina?

Dois dias e meio, quase três para chegar lá. Buenos Aires continua na mesma, ao contrário de Santiago do Chile, que quando voltei era uma cidade diferente da que eu tinha conhecido: cheia de shoppings etc. & tal. O aeroporto de Santiago, um dos lugares importantes na minha história na cidade, era outro.

Importante porquê?

Porque foi o aeroporto de onde eu saí por um triz, eu podia ter sido detido lá. Quando houve a queda do Salvador Allende, foram invadir o meu apartamento. Por isso, quando consegui o salvo-conduto, fui logo para o aeroporto. Estava tão preocupado que o meu avião ia sair à uma da tarde e eu cheguei às sete da manhã. O aeroporto estava ocupado por militares e o comandante da tropa, depois de muito tempo de me olhar lá, às dez horas da manhã, perguntou: "O que é que o senhor está fazendo aqui?" Eu falei que ia viajar. "Mas a que horas? Me dê sua passagem. Uma da tarde!?" Respondi: "É que eu me equivoquei [risos], mas está aqui o salvo-conduto da polícia." Ficou me olhando desconfiado. Na hora em que chamaram os passageiros para Buenos Aires, saí correndo. Quando o avião fez aquele movimento para entrar na pista, o comandante falou que houve uma pane no sistema eléctrico e que íamos ter de esperar 30 minutos. Não era mesmo o meu dia de sorte. Quando as rodas saíram do chão, senti que levantou voo... dormi.

Santiago de que se lembrava já não existia.

Não reconheci nada. Porque eu queria reconhecer coisas que eu vivi. Também não reconhecia as ruas. Estava tudo diferente, tudo enorme, tudo grande, tudo cheio de edifícios comerciais. Era uma outra Santiago. Mas Buenos Aires não: só uns prédios num determinado ponto da cidade foram reconstruídos (novos, modernosos, feios), o resto da cidade, que parece um pouco Barcelona, estava lá. Esse meu amigo, Roberto Viana, queria que eu fosse ao apartamento onde eu morava porque queria me filmar - está fazendo, por conta dele, um documentário. Fomos ao prédio, eu sabia muito bem onde era. Não podíamos subir porque tem alguém lá morando e não íamos invadir casa de família. Fiquei na porta do edifício, ele me filmou.

É legal, mas é estranho também. Ao mesmo tempo que ali estava tudo igual, não estava você lá, não está teu passado, não está nada. Quer dizer: só você sabe que esteve ali. A parede, os prédios, não guardam a gente. Nós só nos guardamos a nós mesmos. Só valemos nós connosco. Fora daí é literatura, é poesia, é arte. Ela é que guarda as coisas, que preserva um mundo inventado por nós, o mundo da cultura.

Em Buenos Aires escreveu Poema sujo, como se fosse o último poema que ia escrever. Alguma vez voltou a sentir isso?

Não, não. Aquilo era pela situação política em que eu me encontrava. Estava numa Argentina prestes a ser tomada por um golpe militar. Tinha morrido o Perón, estava a Isabelita, a viúva dele como Presidente, ela não tinha autoridade alguma para manter aquela situação. Os Montoneros, grupo guerrilheiro, voltaram a actuar violentamente e os militares já estavam se preparando para o golpe. Começaram a desaparecer pessoas. Como o meu passaporte estava cancelado, não tinha como sair de lá. Pela convenção entre os países latino-americanos você pode com o passaporte ir de um país para o outro, mas é que em volta de mim só tinha ditadura. Não ia sair de Buenos Aires, onde ainda não havia ditadura, para ir para o Uruguai que era ditadura, o Brasil era impossível, a Bolívia era ditadura, o Paraguai era ditadura, o Chile de onde eu tinha saído... Então senti que podia acontecer qualquer coisa comigo: eu era um exilado. Estava na clandestinidade, pertencia ao Partido Comunista Brasileiro onde entrou no dia do golpe militar de 1964.

Saí do Brasil por causa disso. Como as polícias latino-americanas tinham-se entrosado e trocado informações, algumas pessoas tinham desaparecido na Argentina. Podia acontecer comigo e o poema foi escrito nessa situação. Como felizmente essa situação não se repetiu, nem se repetirá, espero eu, então não há isso.

Como é que situa Poema sujo na sua obra? Tornou-se um clássico.

Quando o escrevi, jamais imaginei que ia se tornar isso. Escrevi mesmo pelas circunstâncias em que estava e pela necessidade de dizer tudo o que pudesse dizer enquanto era possível. O poema era isso: um resgate de tudo o que eu vivi. Como se fosse um balanço final. Essa motivação recorrente da circunstância em que eu estava, de achar que podia desaparecer a qualquer momento, contribuiu para dar ao poema uma densidade existencial que se transforma em literária.

Parte de uma experiência pessoal, particular, e no entanto é universal.

É curioso porque o Santiago Kovadloff, uma das primeiras pessoas a lerem o poema, falou: "Mas este poema é a minha vida!" É a sua vida, mas é a minha vida. [risos] "Não é brasileiro não, é argentino. É de nós todos." Ele não é um poema nostálgico do passado. É uma reflexão sobre o vivido (do que foi vivido, do que está vivo). Não é o que passou e que morreu, é o que viveu, o que está presente. Na verdade, todo o poema é uma invenção. Essa coisa de dizer que a literatura revela a realidade não é verdade.

A literatura inventa a realidade. Inventa a realidade a partir do vivido, do real, e do possível, do necessário, não é uma coisa gratuita. Mas é inventado. A São Luís, do Maranhão, que está nesse livro não é a São Luís de verdade, não é nem pode ser. Nem é a São Luís que eu pensava quando me lembrava da minha infância e dos meus pais. Não. É uma São Luís nascida da literatura. Nascida na invenção poética, porque daí vem a reflexão, coisas inesperadas que você descobre ao mexer naquilo. Aquelas bananas que estão apodrecendo dentro daquela quitanda..., de repente aquilo é um mel, é o tempo, é a química, é a vida, é a morte.

Depois a ideia da cidade que tem muitas velocidades. O tempo é o quê? É o movimento real das coisas. O tempo da pêra [no poema] é que ela está apodrecendo, dentro dela há um processo que não tem nada a ver com a sala onde ela se encontra. Aí o cara que está olhando a pêra também tem outro processo que está dentro dele e as memórias. Essas duas relações de espaço e de tempo, as duas velocidades diferentes que tem numa cidade e como o tempo passa. Tudo isso cria um outro mundo que não é especificamente de São Luís, nem especialmente brasileiro, é das pessoas. É um pouco isso.

Nesse poema fala da sua infância. O seu avô paterno era português?

Era. Não sei por que é que ele veio para cá, o que eu sei é que o meu pai quase nasce em Portugal. A minha avó veio grávida de sete meses do meu pai para cá. Ela era brasileira e vivia em Portugal, casou-se com ele e vieram para o Brasil. O meu avó era comerciante, fazia sapatos e montou uma loja em São Luís. Morava numa casa grande na Rua das Hortas em São Luís do Maranhão. Era um casarão que tinha muitas janelas e um quintal com árvores onde eu brincava. Tinha uma cozinha grande onde as minhas tias, irmãs do meu pai, faziam comida em caldeirões grandes. Na sala tinha um piano. Eu me lembro muito bem daquela sala, fechada, escura, o piano ali. Os pés do piano eram de um vidro verde.Quem tocava?

Não me lembro de ninguém tocando piano, mas me lembro desse piano. Me lembro do meu avô, de bigode, não me lembro de falar nada com ele. Lembro-me dele, das tias e da minha avó me lembro muito bem. Ele morreu e a minha avó depois foi morar com uma das filhas. O meu pai me levava para visitá-la. Meu pai era jogador de futebol, chegou a ser da selecção maranhense, era centro-avante. Me botava no ombro e me levava para assistir aos jogos. Depois ele se tornou comerciante, terminou a idade de jogar futebol. Aí já era a época da guerra, 1942 quando o Brasil entrou na guerra, meu pai fazia comércio ambulante. Comprava coisas em São Luís, pegava o trem, levava para Teresina, e o contrário; às vezes me levava. Acabei escrevendo no Poema sujo uma referência a isso, botei o trenzinho.

Era uma parte de que o Vinicius de Moraes gostava muito. Foi graças a ele que o poema foi publicado no Brasil e lançado numa suposta noite de autógrafos, sem o autor.

O Vinicius providenciou para eu gravar o poema na Argentina, no fim de 1975. Foi assim que o poema chegou ao Brasil. Ele trouxe numa fita e começou a mostrar para as pessoas. Começaram a fazer reuniões, tiraram cópia da fita original, ficou uma coisa meio-clandestina. Até que o meu editor, dono da Civilização Brasileira, foi a uma dessas reuniões e fez um contacto com a minha mulher, a Thereza, a dizer que queria publicar urgentemente, para eu lhe mandar o poema. Em 1976 foi editado e, de certo modo, me ajudou a voltar para o Brasil.

Mas quando regressou não foi preso?

Quando eu voltei, fui preso mas não fizeram o que queriam fazer se não tivesse havido tudo o que houve antes. Antes de voltar, escrevi para um amigo meu jornalista, Villas-Bôas Corrêa, que era o chefe de sucursal do Estadão no Rio, onde eu trabalhava, e pedi que ele avisasse o comandante do primeiro exército, o presidente da ABI [Associação Brasileira de Imprensa], o da Ordem dos Advogados e o ministro da Justiça de que eu ia voltar. Não queria voltar clandestino, porque aí eu podia sumir mesmo. Marquei a data da minha volta. No aeroporto tinha uma nota, quando fui entregar o passaporte, dizendo: "José Ribamar Ferreira ou Ferreira Gullar prendê-lo!" Só que havia tanta gente esperando - os artistas, gente de teatro e cinema, escritores, amigos -, não puderam me prender porque seria um escândalo. Mas no dia seguinte eles inventaram uma história e me levaram lá para o DOI-CODI [Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de Defesa Interna] que era o lugar das torturas, na Rua Barão de Mesquita. [Silêncio longo, o poeta rabisca um papel.]

Mas o general Golbery [figura emblemática do período militar brasileiro] não tinha dito que o Poema sujo era pornográfico?

Um jornalista contactou-o para saber se estava de acordo que eu voltasse. "O poema é pornográfico, mas não tenho nada a ver com isso, por mim ele pode voltar. Mas têm que falar com o general Figueiredo, chefe do Serviço Nacional de informações", falou. "Não quero este comunista no Brasil", foi a resposta dada pelo Figueiredo. Achei isso de uma petulância, de uma pretensão. Dono do Brasil, aquele idiota? O general "O Cavalo", como o pessoal chamava ele. Eu que já tinha horror a ele, quando soube dessa frase decidi voltar. Na escola, quando começou a fazer poemas, passou por uma fase em que falava em decassílabos. Andava a ler Camões?

Eu estudava Português na Gramática Expositiva de Eduardo Carlos Pereira. Era volumosa e no final havia uma pequena antologia de Camões, Bocage, Gonçalves Dias, até aos primeiros poetas modernos. Foi lá que li os primeiros poetas. Eu achava que todos os poetas já tinham morrido, a minha noção era essa. Quando a minha irmã me disse que havia um poeta que morava perto da minha casa, respondi-lhe que poeta não existia, morreram todos! Ela assegurou que ele era poeta e me queria conhecer. Fui lá na casa dele e conheci o poeta.

O poeta vivo...

Ele estava lá de tamancos e com uma camisinha, não parecia um poeta, não. Eu conhecia os poetas através daquelas fotografias do Byron, com aquelas cabeleiras, achei que aquele poeta era muito banal. Era uma pessoa muito afectuosa, me ajudou, disse que eu precisava conhecer o Tratado de Versificação de Olavo Bilac, para saber fazer direito os versos. Me emprestou e aprendi a fazer decassílabos. Aperfeiçoei a minha técnica mas fiz isso com tal afinco que depois falava em decassílabos [gargalhadas]. Brinco um pouco com esse negócio porque o verso metrificado termina virando uma espécie de condicionamento em você. Porque você começa a medir as coisas, a falar e daqui a pouco sai espontaneamente. Aliás, um dos grandes problemas da poesia rimada e metrificada é esse. A quantidade de poetas que acha que está fazendo poesia porque está fazendo verso metrificado. A métrica está certa, a rima está certa e o cara pensa que é poesia, mas não é. Então eu fiquei viciado em decassílabos.

Até que descobriu a poesia moderna, ao ler Carlos Drummond de Andrade.

Abro o livro de Drummond e ele escrevia: "lua [irónica] diurética". Que é isso? Lua diurética? Achei uma coisa escandalosa. Depois num outro poema dizia "ponho-me a escrever teu nome com letras de macarrão" na sopa. Achei horrível, isso não é poesia, pensei. Poesia é: "Alma minha gentil, que te partiste/ Tão cedo desta vida, descontente/ Repousa lá no Céu eternamente/ E viva eu cá na terra sempre triste." Agora macarrão? Sopa? Reagi muito mal. É engraçado: quando eu vi pintura moderna, reagi muito bem. Quando vi o primeiro quadro moderno, fiquei encantado.

Qual era?

Era um quadro de Iberê Camargo, que depois se tornou meu amigo. Era uma paisagem do Rio de Janeiro, no bairro da Glória, que ganhou o prémio do Salão Nacional. Cheio de pinceladas soltas, não reagi mal. É engraçado. A poesia, fiquei contra, achei que era um absurdo. Mas depois fui ler, me informei e vi que aquilo tinha uma razão de ser. Porque eu costumo dizer que nasci em Macondo [cidade de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Márquez]. São Luís do Maranhão naquela época era Macondo, estava fora de tudo, as coisas chegavam lá cem anos depois. Em 1948, ainda não tinha chegado lá a Semana de Arte Moderna de 1922, todo o mundo estava escrevendo como no século XIX.

Veio para o Rio estudar ou trabalhar?

Vim por minha conta. Eu vim para vir. Não tinha emprego, não tinha nada. Vim para participar da vida contemporânea [gargalhadas], entendeu? Em São Luís, o García Márquez ainda não tinha escrito o Cem Anos de Solidão, mas eu escrevi uma história que é anterior ao romance dele. Escrevi uma história chamada Uma Cidade Inventada, Odon, que é Macondo porque eu me sentia lá olhando os aviões passando - iam para Roma, para Paris, Berlim, Nova Iorque. [risos] Tenho que sair daqui deste lugar. O Rio de Janeiro estava lá e eu tinha que ir para viver a vida contemporânea, não podia ficar ali atrasado, fora de tudo em Macondo. E fui, vendi tudo o que eu tinha, comprei um terno da moda, tropical da época [risos] e me toquei para cá. O meu pai falou que não tinha dinheiro mas tinha um anel cravejado de brilhantes. Era de ouro, platina e brilhantes - pensava ele. Quando cheguei aqui, em 1951, fui botar no prego e era tudo falso. Mas tudo bem.

Havia naquela época umas pensões de estudantes mas eu não tinha dinheiro para alugar um quarto, então aluguei uma vaga de um quarto. Era eu e mais três desconhecidos, morando lá. Arrumei emprego. Como eu morava numa vaga, não tinha lugar para escrever. Chegava lá e, se não tinha ninguém, me sentava na cama. Porque a poesia se escreve em qualquer lugar, é bom por isso. A poesia não precisa de nada. Qualquer papel serve.

É assim que escreve?

Veja-me, hoje estou aqui em casa, tenho mesa, tenho escritório, tenho tudo. Mas muitas vezes estou na rua, me ocorre uma coisa, tiro um papel do bolso, anoto. Por exemplo, o Poema sujo, grande parte dele eu fiz andando pela rua. Concebendo, depois ia para casa e escrevia.

No livro novo, Em Alguma Parte Alguma, tem um poema que fez quando sentiu um osso bater noutro osso.

Costumo dizer que o meu poema nasce de um espanto, de alguma coisa que inesperadamente me surpreende e me revela um lado da vida que eu não tinha visto, não tinha percebido. Não precisa ser nada de extraordinário... É um cheiro de uma tangerina, o meu filho está abrindo uma tangerina na sala e, de repente, aquilo me leva para um estado... Eu já senti cheiro de tangerina a vida inteira mas de repente fico naquele estado porque descubro algo que me leva a elaborar. Esse poema a que você se refere: eu estava aqui na sala vendo televisão e tocou o telefone. Levantei-me abruptamente e aí o meu osso, o fémur bateu no ilíaco, no osso da bacia, traaac, deu um tranco. Eu fui atender, falei, voltei, me sentei e pensei: "Mas eu tenho osso."

Teoricamente, todos nós sabemos que temos osso, em esqueleto. Uma coisa é a teoria, outra coisa é você sentir o osso bater um no outro. Aí perguntei: então tem osso mesmo de verdade? Mas osso pensa? Quem é que está se surpreendendo com esse osso? Sou eu? Tem alguma coisa a ver com ele? Osso pergunta? Osso não pergunta? Quem pergunta? Então aí começou o poema que eu depois escrevi. Nasce assim. O título é Acidente na sala. A poesia também são notícias que você dá às pessoas de pequenos factos. Não é: destruíram as torres gémeas, não é grandes notícias, não. É um osso bateu no outro, a notícia da poesia é essa: fui assaltado por um jasmineiro no jardim da casa da Cláudia, fui assaltado de noite, com as armas que ele tinha, que é o cheiro dele... Então eu quero informar vocês que fui atacado por um jasmineiro. Essas são as notícias que o poeta dá para as pessoas.

De onde vem o título deste seu livro, Em Alguma Parte Alguma?

Em alguma parte é um lugar. Parte alguma não é nenhum lugar. O título é contraditório, é um jogo de palavras. "Em alguma parte alguma" quer dizer em alguma parte que não é parte alguma. O poema Uma corola é que dá título ao livro [é um dos seus versos].

Estes poemas são uma nova fase?

Não há dois livros meus que sejam iguais. Alguns são muito diferentes, outros são menos diferentes. Alguma coisa ocorre que faz eu dar o livro por encerrado. O último, Muitas Vozes (1999), chegou o momento em que eu vi que aquele veio se tinha esgotado. Aí parei e decidi: "Vou publicar o livro." Comecei a escrever esse outro. É aleatório, eu não sei quando vem, quanto tempo vai durar até eu conseguir um número suficiente de poemas para formar um livro. Vai acontecendo. O outro levou 12 anos, este dez, quase 11. Chega num momento em que sinto que está completo, que esgotou. Minha editora, a Maria Amélia Mello, que é minha amiga, fica ligando: "Gullar, o livro." Ó Maria Amélia, o livro tem que dizer para mim que está pronto, enquanto ele não disser eu não publico. "Você é maluco." Não, eu vou esperar ele dizer. O poema que deu o livro por concluído é o primeiro poema do livro: "Fica o não dito por dito." Ele é a expressão de uma problemática que compõe uma boa parte do livro, a questão do que é possível dizer, do que a poesia consegue dizer e não consegue dizer. A linguagem é um sistema, então é uma ordem. E o que está fora da ordem da linguagem não é dizível. Então tem um poema que pergunta: como dizer o apodrecimento da pêra? A linguagem tem que apodrecer também? Onde está o limite da possibilidade da expressão. Então o poema fica o não dito por dito. Como eu não consigo dizer tudo, então faz de conta que eu disse. Esse problema da ordem e da desordem é o tema principal do livro que não há nos livros anteriores.

Fez um livro de colagens, Zoologia Bizarra. Estou a ver ali uma tesoura...

Tenho a mania de pintar e fazer colagem. Está vendo aquilo ali, uma natureza morta [aponta para a parede]?, são como se fossem garrafas, cálices e bules. Estão estilizados. Eu tinha desenhado uns bules num papel e pus na mesa. Peguei os papéis coloridos de carta e envelope, cortando e combinando, e coloquei cada um no lugar que tinha de colar e deixei aqui quando tocou o telefone. Levantei-me e o meu gatinho deu um tapa no papel. Quando eu voltei, estava o desenho regular em baixo e a desordem em cima. Quando eu olhei, aquilo estava lindo, era uma linguagem diferente. Uma ordem nova criada pelo gatito. Aí ele começou a ser meu colaborador. Colei como estava, e a partir dali comecei a fazer o que ele fez. Depois não fazia mais o desenho, só fazia o acaso, só jogava as coisas. Um dia ficou uma ave, parecia um pássaro com restos de papel. Comecei a usar qualquer papel, parecia uma ave do lixo, fiquei encantado...

Uma ave do lixo é o quê?

É uma ave feita por acaso, pelo lixo, pelos papéis que eu joguei ali. Aí comecei a descobrir o bicho que estava ali, e começaram a surgir uma porção de bichos nesses papéis cortados e colados.Um dia veio aí a Ana Cecília Impellizieri Martins com a Adriana Calcanhoto e Antonio Carlos Secchin e eu mostrei as colagens. Riram em quantidade, dei-lhes uma colagem dessas. A Ana Cecília decidiu fazer um livro - ela me ligou dizendo que tinha ficado a pensar naquilo - e esse livro está quase pronto, só com bichos, e se chama Zoologia Bizarra (ed. Casa da Palavra). Cada nome é uma gozação, uma brincadeira.

Estive na Internet a ver os seus e-poemas. Resultam mais do que quando lidos no papel, não acha?

Sim, têm movimento. Quando quiseram pôr na Internet, eu resolvi pôr movimento nos poemas. Eles originalmente teriam tido movimento, mas não existia Internet quando foram escritos.

Quase que podiam ter sido escritos para aquele meio. Quando o Ferreira Gullar está a ler os poemas consegue dar aquela entoação: o MAR azul. Quando eu estou a ler, não leio como imaginou. Na Internet consegue dar esse sinal ao leitor.

A Internet possibilita esse movimento real, das letras, das palavras. Quando eles disseram que iam botar na Internet, eu disse: então eu vou sugerir os movimentos. O mar azul aparece como se fosse a onda do mar. O girassol, que é o poema de que eu mais gosto, termina com a palavra girando em torno da outra. Outra coisa muito nova foi a criação do Poema enterrado. Como teve aquela ideia?

Surgiu da poesia concreta. Eu estava fazendo os poemas concretos, que não têm discurso, são justaposição de palavras, e o poema que tinha feito era "verde, verde, verde, verde... erva". A palavra "verde" formava um quadrado. Um amigo publicou no suplemento do Jornal do Brasil. Outro amigo ligou para mim: "Li o teu poema, achei legal." E eu disse para ele: você viu como a repetição da palavra "verde" faz nascer a erva, faz a erva explodir do verde? "Não, não vi nada disso. Quando olhei que era tudo verde, não li, só vi." Então o poema fracassou. Não é assim. Como é que eu vou obrigar as pessoas a lerem palavra por palavra, criar uma estrutura visual, mas obrigar a ler. Comecei a matutar e descobri. Peguei uma página e escrevi atrás na página: osso. Cortei a página mais curto e escrevi: nosso. Peguei outra página e escrevi: ovo. Peguei outra mais curta e escrevi: novo. Cortei uma diagonal e escrevi: asa... Fui construindo o poema atrás, escrevendo no verso, e você vai passando o livro e compondo o poema. A isso chamei de livro-poema, é o livro que é o poema. Esse poema não pode ser publicado no jornal, nem mostrado de outra maneira. Era um outro objecto que eu tinha inventado.

Percebeu que podia fazer algo mais do que um livro.

Pensei: posso pegar uma placa de madeira branca, botar um cubo azul em cima e debaixo do cubo pôr uma palavra "Lembra". Quando se bota o cubo em cima, tem uma palavra ali pulsando. Não é mais a mesma coisa que antes porque você sabe que tem uma palavra ali oculta. Depois de fazer vários poemas que usavam a mão, pensei fazer um poema que usa o corpo. Foi o Poema enterrado. É uma sala no fundo do chão, você desce por uma escada, abre a porta do poema, entra no poema, no centro da sala subterrânea tem um cubo vermelho de 50 por 50, você levanta o cubo e tem um cubo verde de 30 por 30, levanta o cubo e debaixo aparece um cubo branco menor, pousado no chão, e você lê a palavra "Rejuvenesça". Esse poema, eu jamais pensei que fosse construído. Publiquei o projecto no suplemento do Jornal do Brasil. O Hélio Oiticica, o artista plástico que era do nosso grupo, disse-me: "O meu pai está construindo uma casa nova e eu vou dizer para ele construir o Poema enterrado no quintal. Ele quer construir uma caixa de água, mas não vai não, vai construir o poema." Brigou com o pai, caiu numa febre de 40 graus, o pai dele se rendeu e construiu o poema.

Contrataram um empreiteiro?

Ele pegou o pessoal que estava construindo a casa e fez o poema, lá no subsolo. No dia de inaugurar o poema estava todo o mundo lá, o Mário Pedrosa, a Lygia Clark, a Lygia Pape, eu, a família toda. Tinha chovido três dias seguidos e quando abriram a porta o poema estava inundado... os cubos estavam flutuando na água. Acabou o Poema enterrado, sepultaram o Poema enterrado. Depois eu soube que, recentemente, depois de o Hélio morrer, a família reconstruiu o Poema enterrado, sem me dizer nada e dizendo também que o poema é do Hélio. Foi praticamente a última coisa que eu fiz nesse terreno da arte neoconcreta. Eu comecei a pensar: eu não sou arquitecto, eu não sou escultor, tenho de reinventar a minha poesia... O que é que eu vou fazer? Não vou ficar fazendo "Mar Azul, barco azul" a vida toda. Começou uma outra história: fui para Brasília, me envolvi na política.

A cidade já estava construída?

Foi o primeiro ano de funcionamento do Governo. O fundamental de Brasília estava construído - os palácios da Alvorada e do Planalto, o Congresso. Era o primeiro ano de vida da cidade.Brasília comemora a sua efeméride este ano (50 anos), esteve lá no primeiro ano...

Eu fui um dos encarregados do festejo do primeiro aniversário da cidade, providenciei a festa, levei para lá escola de samba. Meses depois o Jânio Quadros [Presidente do Brasil entre Janeiro e Agosto de 1961] renunciou e eu vim-me embora. Mas esse período em Brasília me politizou e me aproximou do marxismo, li Marx naquela solidão, não tinha nada para fazer. Era uma cidade, uma aventura nova que estava correndo ali, mas o problema é que eu não queria mais ficar fazendo aquela poesia. Aquilo tinha-se esgotado. Eu já não estava sentindo prazer, queria buscar um outro caminho e me envolvi na política. Escrevi os primeiros poemas políticos quando saí de Brasília.

Como olha para o presente?

Eu me sinto feliz por ter batalhado todos estes anos, eu, meus companheiros, criámos tanta coisa, procurámos dar o melhor de nós no campo literário, cultural, político. A vida é assim mesmo, agora é outra época. Pelo menos não tem mais a ditadura, que foi um período sinistro, de violência, de censura, de tortura, desaparecimento de pessoas. Pelo menos estamos numa democracia e isso já é importante.

Mas como vê o Brasil hoje? O Brasil está na capa de todas as revistas.

Embora o Lula [Presidente Lula da Silva, cujo mandato termina em Outubro] diga que é o responsável por tudo e que tudo de mau foi o outro [Fernando Henrique Cardoso, o anterior Presidente]... Por que é que o Brasil cresceu menos do que a Colômbia, Argentina, Bolívia, Peru, Chile, Venezuela? Só cresceu mais do que o Haiti. Por culpa do Fernando Henrique, disseram. Foi há sete anos. Quando se diz que o Brasil agora está [bem] graças ao Lula... mas toda a política económica e social do Lula é do Fernando Henrique. A lei da responsabilidade fiscal, que acabou com a inflação no Brasil, que [Lula] combateu, mudou a vida económica do Brasil. Eles votaram contra no Senado, votaram contra na Câmara e entraram com uma acção no Supremo para anular a lei, que é a base do Governo de Lula. A política de juros do Banco Central, ele foi contra. Quando o Fernando Henrique criou a Bolsa Alimentação, para dar alimentos a famílias de pessoas desempregadas, [Lula] foi na televisão dizer que estavam transformando o trabalhador em mendigo, aí fez a bolsa família, que é a bolsa alimentação ampliada. O que é que ele fez de novo? Nada. A sorte que ele deu é que tomou posse em 2003 e neste ano a economia mundial passou a crescer velozmente, depois de inúmeras crises. Então, ele, que tinha combatido todas essas medidas, adoptou todas e diz agora que são dele.

E nestas eleições...

Agora inventou a Dilma [Rousseff, candidata à presidência], que é uma marionete que ele diz que é a mãe do PAC [Programa de Aceleração do Crescimento], que fez isto, fez aquilo... Não fez nada, ela era chefe da Casa Civil, que é um órgão de assessoria da Presidência da República. Se você manda os projectos para a Presidência, a Casa Civil examina se está de acordo com a lei, é um órgão de assessoria técnica. É isso que ela foi, ela não fez nada. E ele quer atribuir a ela tudo o que o Governo fez. Até o trem de alta velocidade foi ela que inventou. É ridículo.

O que é grave não é essa mentirada toda. O que é grave é que o Lula a primeira coisa que fez foi anular uma portaria do Fernando Henrique que dizia: para cargos técnicos, tem que nomear técnicos. Para evitar que os políticos dos partidos que estão apoiando o Governo queiram os cargos importantes do Governo, que são técnicos, e você bota um cara que não entende nada. Ele revogou essa lei para encher os cargos técnicos de gente dos sindicatos, gente da CUT [Central Única dos Trabalhadores], dos partidos aliados, do PT [Partido dos Trabalhadores]. Agora, isto tem sete anos. Se entra a Dilma nós vamos ter mais quatro anos, e depois mais... pode ser um desastre para o país. Está apreensivo.

Todas as despesas que o Lula está fazendo vão-se reflectir no Governo que vem aí. Ele só faz comício. Ele não administra o país. O Lula não entende de nada, ele nunca leu um livro. Só faz discurso, desde que ele assumiu o Governo até hoje, ele está sempre num palanque. Eu fiz uma vez uma anotação dos dias que ele passou em Brasília, no ano passado, em seis meses ele tinha passado em Brasília seis dias de facto trabalhando, o resto é sábado e domingo e viagem. Quem governa o país é a assessoria técnica dele, ele não entende nada. Ele só pensa o seguinte: isso vai dar voto ou não? Isso vai dar popularidade ou não? É uma mentirada permanente, uma demagogia sem fim. Eu vejo com apreensão o que pode acontecer. O dinheiro público está usado na campanha eleitoral de uma maneira como nunca houve no país, de uma maneira escandalosa. A Dilma não entende das coisas, não sei o que ela vai fazer na Presidência da República, ela é autoritária, pode ocorrer que ela resolva tomar o freio nos dentes e fazer tudo por conta dela, e eu não sei o que vai acontecer.

Estou a ver atrás de si uma caneca em que se lê "Não quero ter razão, quero ser feliz".

Foi a Cláudia que encontrou numa loja. Essa frase tem uma história. Eu falei pela primeira vez essa frase na FLIP quando estava numa mesa com um escritor palestino que se referiu a Israel e, como palestino, ele desancou Israel. Era um debate, eu devia falar, mas eu não quis estabelecer uma discussão com ele. Eu concordava com uma parte do que ele estava dizendo mas não concordava com outra. Eu já tinha uma vez dado uma entrevista a um jornal israelita a respeito da questão palestina, e falei: "Gente, vocês têm que parar de ter razão. Os dois lados argumentam, todos dois têm razão. O facto de vocês terem razão provocou uma guerra que já dura há 60 anos. Senta na mesa, pára de ter razão e faz a paz." Foi o que eu disse na entrevista. Mas [na FLIP] eu falei que a questão é complicada, que os dois lados alegam ter razão e que eu achava que não é por aí que a gente resolve os problemas. Eu contei: a Cláudia, a minha companheira, mora com a mãe dela. Domingo ela foi lá para casa, a gente ia ao cinema, ela chegou, começámos a conversar, discordámos, começou uma discussão, ela tinha razão, eu tinha razão. Daqui a pouco ela perdeu a paciência, pegou a bolsa: "Sabe uma coisa, eu vou embora, não quero saber mais de cinema, você está é um chato." E foi embora. Fiquei cheio de razão e infeliz porque a minha namorada foi embora e me deixou só. "Gente, eu não quero ter razão, eu quero ser feliz." Aí o pessoal se levantou a bater palmas. Daí virou a frase da FLIP. A frase agora está até num copo, já não é minha. Caiu em domínio público.

Há um poema seu que diz "Cláudia, minha musa". A Cláudia é poeta...

Uma excelente poeta.

Como é que trabalham em conjunto? Ou não trabalham?

Ela nem me mostra os poemas dela, só quando é publicado. Mas eu costumo dizer que Cláudia é a verdadeira poeta da família. Ela vive 24 horas na poesia. A preocupação dela, a reflexão dela, a busca dela... Como ela é extremamente sensível, qualquer coisa que para mim e para você não quer dizer nada, para ela é um motivo de indagação, de surpresa. Eu digo: "O que você deve sofrer." É uma inquietação permanente. O mundo está sendo questionado a cada minuto. E se reflecte na poesia dela, que ela faz com muito rigor, e reescreve, se tem uma palavra que ela tem dúvidas, fica com ela meses, e corrige. Até hoje, confesso a você, não tinha conhecido uma pessoa que seja tão entregue à poesia como a Cláudia. Esse negócio de poesia é cada um por si. A gente conversa muito sobre poesia, mas raramente ela fala o que ela fez. Eu sei o que ela está fazendo, mais ou menos qual é o tema, mas os poemas não conheço.

Terminou, não? Já falámos imenso.

Estou exausto!
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quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A CAIXA DE PANDORA - FRANÇOISE ROY

por Carmen Montesino a Quarta-feira, 22 de Setembro de 2010 às 23:43
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Abri sem malícia. Devem conhecer a curiosidade feminina. A caixa vinha fechada, mas a foice do destino tem o poder de arrebatar a luz do dia. E na granada da sua boca, a sorte convoca os seus demónios, enquanto me diz que eu e cada um de nós, que caímos como chuva neste lugar, somos também uma caixa.

Juntando forças, procuro voltar a fechá-la. É impossível. Um vórtice, aprisionado durante séculos no cântaro hermético, começa a subir das profundezas como um vento tempestuoso, levando no seu encalce seres que me habitam, desde um lupanar fechado à chave:

-um dragão com o frasco do elixir do esquecimento nas garras...
-uma sacerdotiza apregoando a iminência de um eclipse solar...
-um anjo negro e despido, com rasgos de sátiro, que se abana com ramos verdes
-anões numa forja
-vermes mancos, tortos ou sem patas
-almas penadas no cimo de um barco, com uma estátua de sereia, a ver passar um cometa

Abrir a caixa: Solstício de Inverno no Verão das minhas mãos imprudentes.

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Pandora 1873, by Alexandre Cabanel
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Poeta Ferreira Gullar recebeu Prêmio Camões 2010


Cultura

Vermelho - 16 de Setembro de 2010 - 14h20
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Poeta Ferreira Gullar recebe hoje Prêmio Camões 2010

O poeta Ferreira Gullar recebe, nesta quinta (16), do Ministério da Cultura, em solenidade às 17h, no auditório da Biblioteca Nacional, no centro do Rio, o Prêmio Camões 2010. Gullar, que completou 80 anos na sexta-feira (10), vai receber 100 mil euros como premiação pelo conjunto de sua obra. O presidente da Fundação Biblioteca Nacional, Muniz Sodré, vai representar o ministro da Cultura, Juca Ferreira, na cerimônia.

Instituído em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal, o Prêmio Camões é concedido anualmente a autores que tenham contribuído para o enriquecimento do patrimônio literário e cultural da língua portuguesa.

A escolha de Ferreira Gullar ocorreu em maio, por um júri que se reuniu no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. Considerado um dos mais importantes poetas brasileiros, o maranhense Ferreira Gullar (pseudônimo de José Ribamar Ferreira) é também crítico de arte e ensaísta e foi um dos fundadores do movimento neoconcretista. Tem mais de 15 livros de poesia publicados, entre eles A Luta Corporal, Poema Sujo e Em Alguma Parte Alguma, lançado este ano.

O primeiro escritor brasileiro a receber o prêmio foi o também poeta João Cabral de Melo Neto, em 1990. Desde então, mais sete autores nacionais foram agraciados com o Camões, que também premiou escritores de Portugal, Angola, Moçambique e Cabo Verde.

Fonte: Agência Brasil
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  • grande poeta

    16/09/2010 16h38



    Ferreira Gullar povoou minha adolescência de belos poemas de revolta e luta. Dentro da Noite Veloz é um dos melhores livros de poesia revolucionária já escrito. A morte do Che, a luta do povo do Vietnam, a resistência brasileira à ditadura, o amor. O Poema Sujo, de um só fôlego, para mim está entre os mais belos poemas já escritos. Pena que este gajo deu de cair para a direita com uma fúria incomum. Tomara que não chegue o dia que nos pedirá para esquecer o que escreveu. Ney
    Ney Gyrão
    Porto Alegre - RS
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    http://2.bp.blogspot.com/_vHfhEO08cCE/TAQRNE4PnEI/AAAAAAAATkw/3RMYdP21UYY/s1600/FERREIRA+GULLAR+-+2.jpg
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    TRADUZIR-SE

    Uma parte de mim
    é todo mundo:
    outra parte é ninguém:
    fundo sem fundo.

    uma parte de mim
    é multidão:
    outra parte estranheza
    e solidão.

    Uma parte de mim
    pesa, pondera:
    outra parte
    delira.

    Uma parte de mim
    é permanente:
    outra parte
    se sabe de repente.

    Uma parte de mim
    é só vertigem:
    outra parte,
    linguagem.

    Traduzir-se uma parte
    na outra parte
    - que é uma questão
    de vida ou morte -
    será arte?
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    Ferreira Gullar
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    "Dois e Dois são Quatro"

    Como dois e dois são quatro
    Sei que a vida vale a pena
    Embora o pão seja caro
    E a liberdade pequena
    Como teus olhos são claros
    E a tua pele, morena
    como é azul o oceano
    E a lagoa, serena

    Como um tempo de alegria
    Por trás do terror me acena
    E a noite carrega o dia
    No seu colo de açucena

    - sei que dois e dois são quatro
    sei que a vida vale a pena
    mesmo que o pão seja caro
    e a liberdade pequena.
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    Ferreira Gullar



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    Cantiga para não morrer


    Quando você for se embora,
    moça branca como a neve,
    me leve.

    Se acaso você não possa
    me carregar pela mão,
    menina branca de neve,
    me leve no coração.

    Se no coração não possa
    por acaso me levar,
    moça de sonho e de neve,
    me leve no seu lembrar.

    E se aí também não possa
    por tanta coisa que leve
    já viva em seu pensamento,
    menina branca de neve,
    me leve no esquecimento.
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    Ferreira Gullar



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    Metade

    Que a força do medo que eu tenho,
    não me impeça de ver o que anseio.

    Que a morte de tudo o que acredito
    não me tape os ouvidos e a boca.

    Porque metade de mim é o que eu grito,
    mas a outra metade é silêncio...

    Que a música que eu ouço ao longe,
    seja linda, ainda que triste...

    Que a mulher que eu amo
    seja para sempre amada
    mesmo que distante.

    Porque metade de mim é partida,
    mas a outra metade é saudade.

    Que as palavras que eu falo
    não sejam ouvidas como prece
    e nem repetidas com fervor,
    apenas respeitadas,
    como a única coisa que resta
    a um homem inundado de sentimentos.

    Porque metade de mim é o que ouço,
    mas a outra metade é o que calo.

    Que essa minha vontade de ir embora
    se transforme na calma e na paz
    que eu mereço.

    E que essa tensão
    que me corrói por dentro
    seja um dia recompensada.

    Porque metade de mim é o que eu penso,
    mas a outra metade é um vulcão.

    Que o medo da solidão se afaste
    e que o convívio comigo mesmo
    se torne ao menos suportável.

    Que o espelho reflita em meu rosto,
    um doce sorriso,
    que me lembro ter dado na infância.

    Porque metade de mim
    é a lembrança do que fui,
    a outra metade eu não sei.

    Que não seja preciso
    mais do que uma simples alegria
    para me fazer aquietar o espírito.

    E que o teu silêncio
    me fale cada vez mais.

    Porque metade de mim
    é abrigo, mas a outra metade é cansaço.

    Que a arte nos aponte uma resposta,
    mesmo que ela não saiba.

    E que ninguém a tente complicar
    porque é preciso simplicidade
    para fazê-la florescer.

    Porque metade de mim é platéia
    e a outra metade é canção.

    E que a minha loucura seja perdoada.

    Porque metade de mim é amor,
    e a outra metade...
    também
    .
    .
    Ferreira Gullar



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    A poesia
    Quando chega
    Não respeita nada.

    Nem pai nem mãe.
    Quando ela chega
    De qualquer de seus abismos

    Desconhece o Estado e a Sociedade Civil
    Infringe o Código de Águas
    Relincha

    Como puta
    Nova
    Em frente ao Palácio da Alvorada.

    E só depois
    Reconsidera: beija
    Nos olhos os que ganham mal
    Embala no colo
    Os que têm sede de felicidade
    E de justiça.

    E promete incendiar o país.

    Ferreira Gullar
    .
    .
     
    Nova Canção do Exílio


    Minha amada tem palmeiras
    Onde cantam passarinhos
    e as aves que ali gorjeiam
    em seus seios fazem ninhos
    Ao brincarmos sós à noite
    nem me dou conta de mim:
    seu corpo branco na noite
    luze mais do que o jasmim
    Minha amada tem palmeiras
    tem regatos tem cascata
    e as aves que ali gorjeiam
    são como flautas de prata
    Não permita Deus que eu viva
    perdido noutros caminhos
    sem gozar das alegrias
    que se escondem em seus carinhos
    sem me perder nas palmeiras
    onde cantam os passarinhos
    .
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    Ferreira Gullar



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    "A história humana não se desenrola apenas nos campos de batalhas e nos gabinetes presidenciais. Ela se desenrola também nos quintais, entre plantas e galinhas, nas ruas de subúrbios, nas casas de jogos, nos prostíbulos, nos colégios, nas usinas, nos namoros de esquinas. Disso eu quis fazer a minha poesia. Dessa matéria humilde e humilhada, dessa vida obscura e injustiçada, porque o canto não pode ser uma traição à vida, e só é justo cantar se o nosso canto arrasta consigo as pessoas e as coisas que não tem voz".
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    ferreira gullar




    Ferreira Gullar

    Ferreira Gullar, pseudônimo de José Ribamar Ferreira (nasceu dia 10 de setembro de 1930, em São Luis, Maranhão, Brasil); poeta brasileiro.
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Livros analisam trajetória da esquerda em busca da revolução

Cultura

Vermelho - 17 de Setembro de 2010 - 10h00 

Ao revisar a trajetória de artistas e intelectuais que compõem certa intelligentsia brasileira de esquerda ao longo do século XX, o sociólogo Marcelo Ridenti especula tal “utopia de brasilidade”, segundo a qual a formação histórica da sociedade brasileira traz consigo potencialidades para a construção de uma nova civilização, notabilizada pela valorização da igualdade de direitos, da expressão popular e outros ideais de ordem nacionalista e socialista.

O resultado desta reflexão está em “Brasilidade Revolucionária: um século de cultura e política”, editado pela Unesp, que terá lançamento nacional na quinta-feira (23), às 19 horas, na Ponto do Livro – Livraria, Café & Arte, em Pinheiros.

Em livro anterior, “O fantasma da revolução brasileira”, também pela Unesp, que será relançado no mesmo evento, Ridenti desvenda os significados e as raízes sociais da luta dos grupos de esquerda, especialmente os armados, entre 1964 e 1974.

Com base em 35 entrevistas com ex-militantes e em estatísticas decorrentes do projeto “Brasil: Nunca Mais”, o autor mapeia o movimento de esquerda e mostra como o fantasma de uma revolução derrotada repercutiu à época e ainda ecoa em nossa matriz cultural, sobretudo na música, teatro, cinema e literatura.

Para debater o tema, Ridenti convidou os professores da USP Francisco de Oliveira (sociologia) e Marcos Napolitano (história). “Alguns estudiosos da democracia apontam um elo entre o projeto político do atual governo e a proposta do Partido Comunista antes de 1964, caracterizada por um poli-classicismo empenhado em tirar o país do atraso social, embora outros analistas condenem este mesmo governo de ter despolitizado movimentos populares e evitado fortes críticas ao capitalismo”, observa o autor.

A análise de Ridenti não se restringe às organizações autodenominadas “de vanguarda”, nem julga suas ações e protagonistas. Destaca a participação da intelectualidade e dos movimentos estudantil, feminino, operário, camponês e militar no projeto revolucionário.

Dissipando a imensa bruma que encobre o significado histórico, social e político na luta das esquerdas armadas, descobre-se como a ditadura militar “feriu de morte o florescimento cultural e político” do Brasil. “A ditadura representou o bloqueio deste projeto de desenvolvimento com base em princípios nacionalistas e socialistas”, completa.

“O Fantasma...” mostra ainda a perda de enraizamento social dos grupos armados, que entraram numa dinâmica ambígua, de sobrevivência e autodestruição, tanto por suas ações como pelos atos repressivos e ideológicos da ditadura, na situação do “milagre econômico”.

Em “Brasilidade Revolucionária...”, Ridenti discute como se formou e depois se esvaiu uma relativa hegemonia cultural de esquerda. Traça um panorama de ideias e movimentos em busca de uma “revolução brasleira”, desde a militância anarco-comunista do jornalista gráfico Everardo Dias durante a República Velha, passando pela atuação de artistas e intelectuais no auge da Guerra Fria, até o período do golpe militar, seguido da redemocratização.

Sobre o autor

Marcelo Ridenti é professor titular de sociologia no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp. Ensinou na Unesp, campus de Araraquara (1990-1998) e da UEL (1983-1990). Autor e organizador de vários livros como “História do marxismo no Brasil - volumes 5 e 6” e “Partidos e movimentos após os anos 1960”, ambos pela editora da Unicamp e em parceria com Daniel Aarão Reis, “Intelectuais e Estado”, pela editora UFMG e em parceria com Elides Rugai Bastos e Denis Rolland, e “Em busca do povo brasileiro: artistas da revolução, do CPC à era da TV” (Record, 2000).

Serviço


Lançamento dos livros “Brasilidade Revolucionária: um século de cultura e política” e “O fantasma da revolução brasileira”.
Autor: Marcelo Ridenti
Editora: Unesp
Data: Quinta-feira, 23 de setembro
Horário: 19 horas
Local: Ponto do Livro – Livraria, Café & Arte (rua Alves Guimarães, 1322, Pinheiros)
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terça-feira, 21 de setembro de 2010

Arte e Poesia em Modus Vivendi

Modus vivendi

21 de setembro de 2010

Kurt Regschek

regschekkurt.jpg
o modelo, em duplicado
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Proibir

A proibição denota
fraqueza: o descontrole
assume o comando
e a insanidade
vence
o efêmero perdura
o instante
e cede
ao grito
de guerra
rompo a proibição e permaneço
rompo a proibição e compareço
rompo a proibição e apresento
aos olhos
claros da história
a versão
livre
dos atos.
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Pedro Du Bois
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20 de setembro de 2010

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Franz von Stuck

puro perfil
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Um livro aberto

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Não há maior maravilha do que percorrer
as alturas estreladas, abandonar as lúgubres regiões da terra,
cavalgar as nuvens, subir aos ombros de Atlas,
e ver muito distantes, lá em baixo, as pequenas figuras
que vagueiam e erram, desprovidas de razão,
inquietas, no temor da morte, e aconselhá-las,
e fazer do destino um livro aberto.
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Ovídio

19 de setembro de 2010

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Kurt Regschek

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o som da imagem

Do hiato

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"Mas não adianta nada justificar-se. Não vale a pena explicar. É um sinal de fraqueza, contar velhas histórias. É um sinal de sensatez esconder o passado, mesmo que não exista nada para esconder. O poder de um homem reside na penumbra, nos movimentos entrevistos da sua mão e na expressão insondável do seu rosto. É a ausência de factos que atemoriza as pessoas: o hiato que nós criamos, dentro do qual elas vertem o seus medos, fantasias e desejos."
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Hilary Mantel, in Wolf Hall
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17 de setembro de 2010

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Franz von Stuck

orpheoFranz%20v.%20Stuck%201891.jpg
um Orfeu simbolista
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16 de setembro de 2010

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Guerras

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Guerras permanecem
em feridas e mortes
conferem a terra
arrasada
no troar dos canhões:
a guerra silenciosa
dos avanços
e o estertor
do corpo
sublimado ao grito
guerras reiniciam
o ciclo: o lance anterior
da escala: e a queda.
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Pedro Du Bois
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15 de setembro de 2010

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Kurt Regschek

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uma outra Eurídice
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Do nome

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"O nome que escolhemos, o nome que fazemos, é importante."
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Hilary Mantel, in Wolf Hall
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14 de setembro de 2010

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Soneto na morte do homem que inventou as rosas de plástico

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O homem que inventou as rosas de plástico morreu.
Reparem na sua importância:
as suas flores imperecíveis e imaculadas nunca murcham
mas resolutamente velam o seu túmulo através da escuridão.
Ele não compreendeu a beleza nem as flores,
que enredam os nossos corações em redes suaves como o céu
e nos prendem com um fio de horas efémeras:
as flores são belas porque morrem.
A beleza sem o seu lado perecível
torna-se seca e estéril, um palco abandonado
com uma floresta de enganos. Mas a realidade
dá razão à invenção deste homem; ele conhecia a sua época:
uma visão do nosso tempo impiedoso revela-nos
homens artificiais cheirando rosas de plástico.
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Peter Meinke, trad. Ricardo Castro Ferreira
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13 de setembro de 2010

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Picasso

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uma Eurídice diferente
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domingo, 19 de setembro de 2010

O poeta aos meus olhos - Antónia Ruivo

20 Novembro, 2009

«« O poeta aos meus olhos «« Inicio de um ciclo de vinte sonetos dedicados à vida e obra de Manuel Maria Barbosa Du Bocage ««


.......................I


............O poeta aos meus olhos


Olho-te poeta do retiro da minha existência
Tento sondar-te o fundo da alma em turbilhão
Tento decifrar as dores, que te mataram de paixão
Diz poeta, será que te olho com clarividência


Ou será que é apenas difusa pertinência
Ai de mim aprendiz das palavras, guardião
De poetas doutras eras que moldaram a razão
Tu, Bocage, rei e pedinte, sonho e essência


Peço licença para te tomar os feitos
Para te cantar em trovas singelas, sim
Guia a minha pena, ensina-me os acertos


Mostra-me o caminho que me eleve a ti
Guia os meus passos por alamedas de jasmim.
Que o poema se enleve em tudo o que aprendi
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sábado, 18 de setembro de 2010

Poesia erótica de Bocage

Bocage 1765-1805
Eis Bocage... Diversidade da obra Poemas Cronologia
Poesia erótica de Bocage
"Mais doce é ver-te de meus ais vencida
Dar-me em teus brandos olhos desmaiados
Morte, morte de amor, melhor que a vida"
O erotismo tem sido cultivado com alguma frequência na literatura portuguesa. Encontramo-lo, por exemplo, nas "Cantigas de Escárnio e Mal-dizer", no Cancioneiro Geral de Garcia de Resende, em Gil Vicente, em Camões cujo canto IX dos Lusíadas nos dá um fresco dos prazeres dos nautas portugueses inebriados por mil sereias, para alvoroço dos jovens estudantes dos meus tempos do liceu. 
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No presente século, Fernando Pessoa, curiosamente nos seus English Poems, Mário de Sá-Carneiro, Guerra Junqueiro, António Botto, Melo e Castro, Jorge de Sena, entre muitos outros, celebraram nos seus escritos os rituais de Eros. 
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No século XVIII prevalecia um puritanismo limitador. Com efeito, era difícil uma pessoa assumir-se integralmente, de corpo e alma. Tabus sociais, regras estritas, uma educação preconceituosa, a moral católica tornavam a sexualidade uma vertente menos nobre do ser humano. Por outro lado, uma censura férrea mutilava indelevelmente os textos mais ousados e a omnipresente Inquisição demovia os recalcitrantes. Em presença desta conjuntura, ousar trilhar a senda do proibido, transgredir era, obviamente, um apelo inexorável para os escritores, uma maneira salutar de se afirmarem na sua plenitude, um imperativo categórico. 
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Em Bocage, a transgressão foi pedra de toque, o conflito generalizado. As suas críticas aceradas aos poderosos, a determinados tipos sociais, ao novo-riquismo, à mediocridade, à hipocrisia, aos literatos, o seu anti-clericalismo convicto, a apologia dos ideais republicanos que sopravam energicamente de França, a agitação que disseminava pelos botequins e cafés de Lisboa, o tipo de vida "pouco exemplar" para os vindouros e para os respeitáveis chefes de família e a sua extrema irreverência tiveram como corolário ser considerado subversivo e perigoso para a sociedade.
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Poder-se-á afirmar que a poesia erótica de Bocage adquiriu uma dimensão mais profunda do que a que foi composta anteriormente. Pela primeira vez, é feito um apelo claro e inequívoco ao amor livre. A "Pavorosa Ilusão da Eternidade - Epístola a Marília", constitui uma crítica contundente ao conceito de um Deus castigador, punitivo e pouco sensível ao sofrimento da humanidade – à revelia dos ideais cristãos – que grande parte do clero perfilhava; mas também consubstancia um acto de subversão na medida em que convida Marília "à mais velha cerimónia do mundo", independentemente da moral vigente e dos valores cristalizados. Estava, à luz dos conceitos da época, de certa maneira, a minar as bases da sociedade, pondo em causa a própria família. 
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O referido poema, bem como o seu estilo de vida, estiveram na origem do seu encarceramento, por ordem irreversível de Pina Manique, irrepreensível guardião da moral e dos costumes da sociedade. A prisão do Limoeiro, os cárceres da Inquisição, o Mosteiro de S. Bento e o Hospício das Necessidades, por onde sucessivamente passou para ser "reeducado", não o demoveram da sua filosofia de vida, estuante de liberdade, interveniente, pugnando pela justiça, assumindo-se integralmente, ferindo os sons da lira em demanda do apuro formal que melhor veiculasse as suas legítimas preocupações. 
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Só cerca de cinquenta anos após o falecimento de Bocage, foram publicadas pela primeira vez as suas poesias eróticas. Corria o ano de 1854 e apareceram na sequência da publicação criteriosa das obras completas, em 6 volumes, pelo emérito bibliógrafo Inocêncio da Silva. Para evitar a sua apreensão e os tribunais, a obra saiu clandestinamente, sem editor explícito e com um local de edição fictício na capa: 
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Bruxelas. Este facto de se não referir o editor foi prática comum até à implantação da República. Embora feitas em Portugal, anonimamente, as Poesias Eróticas, Burlescas e Satyricas apresentaram como local de edição sucessivamente Bruxellas (1860, 1870, 1879, 1884, 1899, 1900), Bahia (1860, 1861), Rio de Janeiro (1861), Cochinchina (1885), Londres (1900), Paris (1901,1902,1908,1908), Amsterdam (1907) e Leipzig (1907). Malhas que a implacável censura tecia...
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As Cartas de Olinda a Alzira – que constituem um caso inédito na literatura portuguesa, pois são um relato das primícias sexuais de uma jovem, na primeira pessoa, como assinala Alfredo Margarido – por sua vez, são dadas à estampa nos finais do século passado com as precauções proverbiais: sem a menção da data, editor, local ou organizador.
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Com o advento da República, a liberdade de expressão, grosso modo, foi uma realidade. Estavam reunidas as condições objectivas e subjectivas para a Guimarães Editores assumir a publicação de Olinda e Alzira, em 1915. 
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Nos anos que se seguiram ao 28 de Maio de 1926, mais concretamente durante o consulado de Salazar, a censura foi reinstalada e a poesia erótica de Bocage voltou à clandestinidade, fazendo parte do índex de livros proibidos. Circulava sub-repticiamente, em edições anónimas, teoricamente feitas em "London", apresentando as datas de 1926 ou 1964. 
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Coincidiu com a primavera marcelista, nos finais da década de 60, a publicação das obras completas de Bocage, superiormente dirigida por Hernâni Cidade. Em edição de luxo, a editorial Artis, fascículo a fascículo, foi estampando toda a obra poética. O último volume contemplava as poesias eróticas. Num prefácio bem tecido, aquele biógrafo justificava a sua inclusão, fazendo notar a tradição do erotismo na poesia portuguesa, mencionando inclusivamente mulheres que, sem falsos pudores, analisaram esta problemática, caso concreto de Carolina Michaëlis, "que às riquezas do espírito altíssimo juntava os tesouros do coração modelar de esposa e mãe." O facto desta obra ser vendida por fascículos e consequentemente não estar acessível ao grande público nas livrarias, bem como as razões aduzidas por Hernâni Cidade, terão convencido os ciosos censores. 
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Com o 25 de Abril, têm-se sucedido as edições, sem a preocupação de um estudo introdutório que perspective o erotismo na obra de Bocage. O lucro fácil prevaleceu em detrimento da verdade literária. 
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Tendo em consideração que Bocage deixou muito poucos autógrafos manuscritos dada a sua proverbial dispersão, não se pode ter a certeza relativamente à autoria de algumas poesias eróticas que circulam como se do poeta fossem. Com efeito, a primeira edição da sua poesia erótica, dada à luz em 1854, terá sido publicada a partir de um caderno manuscrito que incluía cópias de composições de vários autores anónimos. Umas serão certamente do seu estro poético, outras, está provado hoje em dia, foram compostas por Pedro José Constâncio, Sebastião Xavier Botelho, Abade de Jazente e João Vicente Pimentel Maldonado. Porém, de imediato, foram identificadas como se da pena de Bocage tivessem saído, pois a sua fama de libertino era marcante na época. 
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Curioso é ainda o facto de essas composições continuarem a fazer parte do corpo das edições das Poesias Eróticas, Burlescas e Satíricas que se publicam nos tempos que correm. 
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É urgente fazer-se uma análise estilística – tarefa de extrema dificuldade – e identificar-se, na medida do possível, os poemas que são da autoria de Bocage, os que poderão eventualmente sê-lo e retirar ou colocar em apêndice os que manifestamente não lhe pertencem.
Daniel Pires
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(extraído de Exposição biobibliográfica comemorativa dos 230 e dos 190 anos do nascimento e da morte de Bocage. Setúbal: C.M.S., 1995) 
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http://purl.pt/1276/1/erotismo.html
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terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste- Luís de Camões

Ah! minha Dinamene! Assim deixaste

Quem não deixara nunca de querer-te!

Ah! Ninfa minha, já não posso ver-te,

Tão asinha esta vida desprezaste!



Como já pera sempre te apartaste

De quem tão longe estava de perder-te?

Puderam estas ondas defender-te

Que não visses quem tanto magoaste?



Nem falar-te somente a dura Morte

Me deixou, que tão cedo o negro manto

Em teus olhos deitado consentiste!



Oh mar! oh céu! oh minha escura sorte!

Que pena sentirei que valha tanto,

Que inda tenha por pouco viver triste?



Luís de Camões



http://users.isr.ist.utl.pt/~cfb/VdS/v350.txt
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domingo, 12 de setembro de 2010

Mario Benedetti: Muito mais grave


Textos

Vermelho - Prosa & Poesia - 17 de Julho de 2009 - 19h11

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Todas as partes de minha vida têm algo teu
e isso na verdade não é nada de extraordinário
tu o sabes tão objectivamente como eu.
No entanto há algo que gostaria de esclarecer-te,
quando digo todas as partes,
não me refiro só a isto de agora,
a isto de esperar-te e aleluia encontrar-te,
e caramba perder-te,
e voltar a encontrar,
e oxalá nada mais.
Não me refiro só a que de pronto digas, vou chorar
e eu com um discreto nó na garganta, bom, chora.
E que um lindo aguaceiro invisível nos ampare
e quem sabe por isto saia de seguida o sol.
Nem me refiro só a que dia após dia
aumente o stock das nossas pequenas e decisivas cumplicidades,
ou que eu possa crer que possa converter os meus reveses
em vitórias,
ou me faças o terno presente do teu mais recente desespero.
Não.
A coisa é muitíssimo mais grave
quando digo todas as partes
quero dizer que além desse doce cataclisma,
também estás a reescrever a minha infância,
essa idade em que dizemos coisas adultas e solenes
e os solenes adultos comemoram-nas,
e tu ao contrário sabes que isso não serve.
Quero dizer que estás a rearmar a minha adolescência,
esse tempo em que fui um velho carregado de receios,
e tu sabes ao contrário extrair desse deserto
o meu gérmen de alegria e presenteá-lo olhando-o.
Quero dizer que estás a sacudir a minha juventude,
esse cântaro que ninguém nunca pegou nas suas mãos,
essa sombra que ninguém aproximou da sua sombra,
e tu ao contrário sabes estremecê-la
até que comecem a cair as folhas secas,
e fique a armação da minha verdade sem proezas.
Quero dizer que estás a abraçar a minha maturidade,
esta mistura de estupor e experiência,
este estranho confim de angústia e neve,
esta vela que ilumina a morte,
este precipício da pobre vida.
Como vês é mais grave.
Muitíssimo mais grave.
Porque com estas ou com outras palavras
quero dizer que não és tão só
a querida menina que és,
e também as esplêndidas ou cautelosas mulheres
que quis ou quero.


Porque graças a ti descubri,
(dirás já era hora e com razão),
que o amor é uma baía linda e generosa,
que se ilumina e se escurece,
de acordo com a vida,
uma baía onde os barcos chegam e se vão,
chegam com pássaros e augúrios,
e vão-se com sirenes e nuvens carregadas.
Uma baía linda e generosa,
onde os barcos chegam e se vão.
Mas tu,
por favor,
não te vás.

Fonte: poesiaemartini.blogspot.com
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