quarta-feira, 22 de agosto de 2012

Maxence Van der Meersch







DOMINGO, 4 DE MAIO DE 2008



EFEMÉRIDE – Maxence Van der Meersch, de seu verdadeiro apelido Vandermeersch, escritor francês, nasceu em Roubaix no dia 4 de Maio de 1907. Morreu no Touquet, onde se recolhera para tratamento de uma afecção pulmonar, em 14 de Janeiro de 1951.

Com uma saúde muito frágil, pertencente a uma família desafogada da pequena burguesia, o pai era contabilista. Aos 11 anos perdeu a sua irmã de dezoito, desgosto a que os pais não resistiram. A mãe mergulhou no alcoolismo e o pai passou a levar uma vida julgada dissoluta para a época.

Aos vinte anos, Maxence apaixonou-se por uma jovem operária e passaram a viver juntos, tendo-se casado sete anos depois. Thérèse foi o único amor da sua vida. Tiveram uma filha, a quem deram o mesmo nome da jovem irmã de Maxence, precocemente desaparecida.

Licenciou-se em Direito e Letras na Faculdade de Lille mas exerceu pouco a profissão, consagrando-se rapidamente apenas à Literatura, com passagem pelo Jornalismo. A sua obra, profundamente humanista, conta essencialmente a vida das pessoas modestas do norte de França, a sua região natal.

Em 1936 recebeu o Prémio Goncourt com “L'empreinte du dieu” e em 1943 o Grande Prémio da Academia Francesa com “Corpos e Almas”, sucesso internacional traduzido em treze línguas.

Católico, contrariamente ao pai que era um ateu convicto, escreveu igualmente algumas obras de carácter religioso.

Foi um autor muito conhecido na sua época, mas hoje quase esquecido. Apesar de tudo, o seu primeiro romance “A casa na duna” foi adaptado ao cinema em 1988.


QUINTA-FEIRA, 7 DE MAIO DE 2009


"Corpos e Almas"

.

Interrompo o meu silêncio para fazer uma breve postagem. No blogue do meu Curso do Liceu Alexandre Herculano, no Porto, o incansável Rui Abrunhosa - que tomou o timão durante a minha forçada, confusa e bem complicada ausência (é mau fazer "jogging" com gente moça: deitamos os bofes pela boca, ficamos para trás e nem sabemos - o que é o caso - se chegaremos ao fim!), lançou uma nova série que se reporta aos livros que nos fizeram crescer. Apresenta, como número 1, o "Livro da Segunda Classe" e, dele, aquele poema que celebrava a casa através do ninho e que era duplamente educativo, mesmo para os que hoje têm de viver não em ninhos mas em casulos de vespas, de paredes de papel cimentado, ouvindo todas as sonoridades ventosadas ou não do compincha do lado - e estes são ainda os que têm sorte de ter qualquer coisa chamada de seu e que, feitas as contas, pagaram em triplicado ao banco que avançou com a massa (massa e não maça) para cobrir ao betoneiro fazedor de casulos a oportunidade de despachar aquilo e ir encasular para outras bandas, pela necessidade criada por um mistificador "capitalismo popular" de cinicamente aniquilar o mercado do arrendamento e, sobretudo, franzir o nariz ao esforço cooperativo, mantendo apenas a fachada. Bom! Não era por aí que eu queria ir hoje...

Queria ir por outra coisa: um dos livros que realmente formou "a minha turma". Circulou por baixo das bancadas no 6º e 7º anos e penso ser justo ao dizer que deve, consciente ou subconscientemente, ter ajudado a que Medicina fosse um dos cursos de preferência dos meus ilustres colegas que ingressaram na U. Eu li-o então e não me convenceu a ir para Medicina porque, já no momento, conhecido como "Zé dos Calhaus", eu almejava uma vida de engenheiro, talvez numa mina. Cheguei mesmo a ter uma boa colecção de minerais, com uma certa irritação materna pela confusão que aquilo criava no meu quarto (havia de o ver agora!) - sobretudo quando alguns concessionários, que eu visitava, me mimoseavam com exemplares de 20 quilos, como o bloco de magnetite que o Dr. Ângelo César me trouxe das minas do Marão e que me obrigou a ir de taxi para casa, gastando algumas daquelas moedinhas de prata e caravela que eram as famosas cinco c'roas. Um problema pulmonar (bicicleta a mais para visitar minas e colher calhaus em Gondomar e na Vila da Feira) fez com que o médico da família, o Dr. Pedrosa Júnior, uma figura gaiense sempre a recordar, me desaconselhasse as minas. Passado tempo perguntou-me se eu tinha já escolhido uma alternativa mais saudável. E eu, que só tinha feito a mudança para a porta do lado do mesmo andar, respondi: Já, escolhi a Engenharia Química! Mas isso ainda é pior, disse o bom do Dr. Pedrosa com o seu sorriso franco e sempre bem disposto. Pois é, respondi eu, mas agora já não mudo mais. E não mudei. Santa Bárbara que, lá em cima e antes de a Igreja a ter posto em "lay-off", ouvia estas coisas todas decidiu ajudar-me sobremodo e disse ao Chefe (não é isto a intercessão dos Santos?) que me pusesse em Química com algumas coisas de Minas à mistura - e apontou para os blocos de pirite que do Alentejo subiam em caminho de ferro (antes era mesmo em barco...) para o Barreiro. Assim andei eu e ando - e dá-me imenso gozo estar a mexer naquilo que era o meu primeiro caminho, em terra conhecida, com histórias conhecidas mas em que muito haverá ainda a contar - como me dá angústia a imposição de prazos que ditará, pior que o "não fazer", um fazer que seja aos meus próprios olhos insuficiente e mesmo assim se eu chegar lá.

Todo este arrazoado recorda-me o "Monólogo do Tabaco" de Tchecov (hoje grafo assim porque me apetece) ou a ida ao supermercado buscar uma exacta coisa e vir com cinco menos aquela, numa figura esbanjante do consumo que ainda é possível, enquanto é. Mas voltemos aos "Corpos e Almas". Maxence Van der Meersch, escritor católico francês de nome flamengo, produziu uma obra realista sobre uma família burguesa, no meio médico duma cidade muito curiosa e importante, Angers, com aquele "toque francês" que nos diz ainda qualquer coisa e que nos fazia sonhar com uma outra Europa do além Pirinéus, onde hoje estamos e continuaremos - ainda que de sonho esbatido. "Nada há melhor que o brinquedo que está na montra" - posição dogmática que se diria ter inspirado o Manuel de Oliveira na concepção do Aniki-Bóbó tão portuense como o "Douro - Faina Fluvial" que, porra das porras! (em homenagem à sueva expressão vernacular), não há meio de encontrar em DVD ou forma quejandra. Mas lá estou a fazer agulha!

Bem, tão impressionado fiquei com aquele Van der Meersch, edição da Minerva como a que se mostra (manchada de café) na gravura supra, que quando me apanhei a estagiar nas Astúrias comprei algumas traduções em castelhano (o escritor era católico, donde mais abundantemente traduzido na Espanha da época que entre nós !) que algo me desiludiram - como por exemplo "A Casa da Duna", que o cinema adaptou em 1988 mas que, na sua Pasqualina, achei demasiadamente doce para o meu gosto de potencial "aprendiz de diabético" ou "diabético amador" que é como sou agora classificado, tendo o cuidado de nunca passar os 110 na estrada da vida! A minha posição de admiração quanto ao Autor, que tanto me impressionara com o "Corpos e Almas" e que - estou convencido disso - mandou tantos desses meus Colegas para sacerdotes do templo de Esculápio (visitem a Miróbriga, pois, e se possível com algumas vestais escolhidas a dedo e esquecidas dos respectivos votos!), foi recuperada ao ler um outro romance, "Invasion 14", que mandei vir pelo meu vendedor francês da "Poche" (tem tudo e não cobra loucuras pelos portes) que relata a vida numa cidade do Norte da França ocupada pelos "boches" (de capacete bicudo, ideias curtas e "Got mit uns" no cinto!) na I GG.

Não vou aqui entrar numa de erudito à moderna e transcrever como se fosse minha, com pequenos toques, "cocktails de fontes" e erros de tradução, a biografia e a bibliografia do tal Maxence(1907-1951), desencaminhador no bom sentido que é o de encaminhador. Poderão e deverão encontrá-lo em



e digo que vale a pena ler pois explica muito do Autor.

Considerado um dos "escritores hoje esquecidos", sinto-me bem por ter interrompido muita coisa urgente e imperiosa e vir trazer aqui - e colocar também no www.lah-1954.blogspot.com (desculpem, mas o "dois em um" ainda está na moda - este tributo a um dos livros que nos formou e que correu praticamente toda a turma. Só já não sei quem o trouxe. Pena que, para dizer só isto, tenha caído no pecado solipsista de falar tanto de mim, mas se eu não falo de mim e não conto a tempo aquilo que recordo, quem o recordará depois? Ciao a todos!

É tão bom "fazer gazeta"!!! (e muito em especial hoje!)
.
http://sai-tedaqui.blogspot.pt/2009_05_01_archive.html

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Irene Lisboa - Uma mão cheia de nada , outra de coisa nenhuma *


* Irene Lisboa




E se a vida não for isto?

E se o que estou a viver agora for apenas um sonho, um pesadelo, uma mescla disto e de tudo o mais?

E se eu for uma pedra, uma árvore ou uma mulher sentada na ombreira duma porta qualquer, os olhos perdidos no fio do horizonte, os lábios gretados e o rosto tão marcado como um tecido velho e rasgado?

A mulher olha sem ver. E tanto pode ter na sua frente um deserto árido e áspero, como uma outra porta mesmo encostada ao rosto, sem lhe deixar sequer estender as pernas.

Não tem idade e sonha dia e noite com a minha vida e por isso mesmo vive aparvalhada, sem perceber o que se passa, ao que veio e o que vai ser dela.

Se isto não for realmente a vida, então assim eu compreendo esta sensação permanente, este mal-estar que dói dentro de mim, este atordoado na minha cabeça, com tantas vozes a falarem ao mesmo tempo, tanta gente que eu não conheço, tantos sítios que vejo e que não posso saber porque nunca lá estive.

Eu estou aqui e agora mas não estou nunca aqui e agora.

Metade de mim ficou presa no passado e a outra metade anda perdida no futuro. No futuro da mulher sem idade agachada na soleira da porta a olhar o nada.

Mas nunca estou a viver o hoje.

E é terrível! É tão triste não saber saborear aquilo que vem com os dias, o sol, as trovadas secas e a música da chuva.

É tão triste este viver sem viver e estar sempre com um pé no que foi e outro no que podia vir a ser.

Às vezes, já nem é uma tristeza, é antes um vazio que gela os ossos, gela tudo o que me rodeia onde quer que esteja porque é como se eu trouxesse comigo o vazio do Universo, o buraco negro do Cosmos.

A mulher que se calhar sou eu, sentada na soleira da porta, com a saia a comer o pó da terra, não tem olhos, afinal.

Tem dois buracos negros e em vez de lábios tem uma prega caída, uma em baixo, uma em cima.

Foram os bichos que lhe devoraram as carnes, de tanto estar queda e imóvel, tomaram-na por morta, por uma pedra ou uma árvore..

*Titulo de livro de contos de Irene Lisboa, 1955

domingo, 19 de agosto de 2012

Solidão, no blog lookinginside (PsyPeace)


DOMINGO, 23 DE ABRIL DE 2006
Solidão
A solidão é escura,
Negra e sombria,
Uma verdade bem dura,
Uma verdade bem fria.
A solidão também mata,
Fere, pisa e destrói,
Uma ferida que maltrata,
Uma ferida que dói.
É um pensamento que assusta,
É um medo que vive,
Uma doença que barafusta,
Uma doença que tive...
Tive, tenho e terei...
Pois nunca cura haverá,
Dela me escondo e esconderei,
Mas sempre (ela) me encontrará.
Quero continuar a viver,
A minha vida não é tão má,
Mas ela faz-me morrer,
É uma pedra que em mim há.
A solidão é essa pedra,
E bem dura, por sinal,
Eu bem a tento destruir,
Mas fica sempre igual.
É semelhante a um fracasso,
Essa solidão relutante,
Tudo o que fiz e agora faço,
É no fim, fracassante...
Tanta tristeza me afunda,
No meu pranto de lágrimas mortas,
Deixa em mim essa mágua profunda,
De ter fechado todas as portas...

publicado por PsyPeace às 22:23

sábado, 18 de agosto de 2012

Andrew Miller - "A Cidade Impura"


O mundo literário desde os Clássicos até ao Actual!
SINOPSE:
Paris, 1785, uma cidade em vésperas de revolução. Jean-Baptiste Baratte, um engenheiro de origens humildes, é incumbido pelo ministro do rei de supervisionar a demolição do cemitério Les Innocents. Há décadas que o velho cemitério já não consegue conter os seus mortos e que a sua atmosfera de decadência contamina o ar e a vida dos habitantes vizinhos. Mas o jovem engenheiro vai muito em breve descobrir que nem toda a gente está satisfeita com a sua empreitada. Será um ano de trabalho árduo, de sobressaltos, mas também de grandes ideais, de amizade e amor.

Para mim, o grande trunfo deste livro é a atmosfera que o autor conseguiu criar. Com descrições excelentes e pormenores interessantes, as palavras do autor levam-nos a sentir uma cidade viva, misturando cenários muito belos com outros ainda mais sombrios. A escrita do autor encaixa muito bem neste conceito, levando o leitor a saltar entre a Paris divinal e a podre e suja. A narrativa desta obra é muito apelativa, tornando a leitura em algo agradável desde o primeiro capítulo, sem nunca sentir esforço em prosseguir. A acção começa lenta, e demorei algum tempo a ficar "agarrado" ao livro, mas a escrita do autor ajudou-me a passar este problema com facilidade, principalmente porque existe, na minha opinião, um excelente equilíbrio entre descrições e diálogos, dando ao livro um ritmo constante na grande maioria das suas páginas. 

Baratte, a personagem principal, está bem conseguida mas a história ganha muito com a inclusão de várias personagens secundárias, que não só tornam a obra mais consistente, mas essencialmente mais realista. Existiram algumas personagens que apreciei bastante e só tenho pena que o autor não as tenhas explorado mais, talvez recorrendo mais ao passado das mesmas, para ajudar a sustentar melhor as suas decisões. Esta sensação é mais forte no meu caso, podendo não ser notada por outro leitor, porque essencialmente apreciei algumas personagens que são muito pouco relevantes para a história, e como tal pouco desenvolvidas.

Esta leitura é uma mistura de opostos, o que me surpreendeu. Por vezes Miller usa uma escrita bela, enaltecendo as virtudes e os feitos do homem, outras vezes é sombrio (com descrições fantásticas nestes momentos). Por vezes a leitura é excitante, por vezes é enevoada, quase sonolenta; por vezes é alegre, por vezes é depressiva. E se em alguns casos a lógica reina, noutros a superstição comanda as personagens. Toda esta mistura torna, no meu entender, o livro mais apelativo, porque existe sempre uma sensação de inquietude e de querer ser surpreendido. E acreditem, há momentos em que o autor nos consegue mesmo surpreender.

Este é um livro, que inevitavelmente nos mostra como por vezes uma pessoa é obrigada a mentalizar-se sobre o bem das suas acções, enquanto outras não conseguem parar, cegas por uma mentalidade incapaz de questionar o que os rodeia. Talvez, no fim, todos queiram apenas  ser felizes à sua maneira, com superstições, crenças, preconceitos, limitações culturais, ou simplesmente a serem felizes com a tristeza dos outros.

Mesmo tendo consciência que este livro não agradará a todos os leitores, esta obra é realmente muito boa. Os poucos pontos que posso apontar de forma negativa são o facto de desejar que algumas personagens fossem mais exploradas, e talvez uma intriga política mais visível e marcante. Existiu também um ou outro pormenor que achei forçado. Mas sinceramente, nada disto tira qualidade a esta obra. Gostei principalmente da forma do autor escrever, o que me faz querer olhar para as suas restantes obras. Se acharem a sinopse interessante, então este livro não vos irá desiludir.

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

«Resistencia» de Rosa Aneiros



Rosa Aneiros – Entrevista a propósito de “Resistência”

Rosa Aneiros, uma jornalista e escritora galega nascida em 1976, ficou apaixonada pela história dos resistentes portugueses ao regime ditatorial que vigorou até ao 25 de Abril de 1974. Tudo aconteceu durante uma visita ao Museu de Peniche. Logo aí decidiu que o seu primeiro romance (Resistência – Publicações Dom Quixote) seria sobre estas pessoas que lutaram contra o regime e conseguiu escrever um livro de fazer inveja (no bom sentido) a autores portugueses que nunca arriscaram a escrever sobre um tema tão próximo de nós. A ajuda de Álvaro Cunhal acabou por ser preciosa.


 Cmo é que uma escritora galega, tão jovem, escolhe um tema como a resistência portuguesa à ditadura como pano de fundo para romance de estreia?
Não fui eu que escolhi a ideia, ela é que me escolheu a mim. Não houve uma intenção prévia. Numa viagem de férias entrei no Museu de Peniche sem saber o que era, mas fiquei impressionada. Descobri que um acontecimento histórico tão recente (25 de Abril de 74) tinha uma exposição com nomes e apelidos das pessoas que nele participaram. Algumas dessas pessoas podem ainda estar vivas. Em Espanha ainda não conseguimos que se formasse a associação pela recuperação da memória histórica para recuperar coisas, por exemplo, da Guerra Civil. Em Portugal recupera-se essa memória, não existe essa negação do passado. Estava de férias e comecei a escrever o romance logo nessa altura. Percebi de repente: “Aqui há uma história que quer ser contada”. Entretanto, tive de regressar a Portugal para construir as personagens e tive de conhecer a História do país para que tivesse um mínimo de credibilidade.

Foi também um trabalho muito jornalístico e aprendi muito de um país que está tão próximo, mas às vezes tão longe da Galiza. A nível de conhecimento ainda há muito que temos de conhecer uns dos outros.


O pormenor com que está escrito Resistência leva a crer que é uma obra feita por um português…
Curiosamente, o Manuel Jorge Marmelo (foi o primeiro autor português a quem enviei o romance) disse-me que este era um tema que nunca seria escrito por um novo autor português. E perguntei porquê? “Porque é demasiado recente, muito chegado a nós”. Isso deu-me mais ânimo, porque era uma história que tinha o atractivo do distante, de algo que nunca vivi. Sobretudo nos espaços sabia que ia ser muito atractiva para o público galego.

Uma dos “problemas”da literatura galega é que é muito egocêntrica, é tudo ambientado muito na Galiza. Os galegos têm muito interesse por Portugal.


Como é que os portugueses poderão aceitar um livro escrito por uma galega sobre um tema que tanto diz respeito a Portugal?
Tenho um bocado de medo. Uma coisa são os dados históricos, onde podes deixar passar algum erro, mas o mais difícil é recolher o ambiente, captar o que se viveu, até porque muita gente está viva. Dependerá muito, também, de cada leitor.


Como decorreu o processo de investigação?
Recorri essencialmente a documentação escrita, à Internet, ao Centro de Documentação do 25 de Abril e Álvaro Cunhal enviou-me os seus livros e aí consegui absorver a sensação do medo, de estar sempre a ser observado.

Os livros de Manuel Tiago (pseudónimo de Álvaro Cunhal) são muito frios, estão muito próximos da realidade e o facto de lê-los serviu-me para me ambientar.


Ao escrever este livro já havia a intenção de publicá-lo em Portugal?
Nem sequer tinha a intenção de publicá-lo. Era uma história que me deixava muito insegura. Era o meu primeiro romance e não tinha a noção do que valia.

Enviei o livro a alguns amigos e eles gostaram muito. Acabou por ser rápida a publicação.


Agora já acha que é um bom livro?
O tempo leva as coisas ao sítio. Ainda o vejo com demasiada proximidade. Há partes que mudaria, mas apenas na maneira de contar a história.


Deve ser um bocado assustador lançar uma primeira obra?
Passou-se com Resistência o que os meus editores chamam o efeito-Resistência. Eu era praticamente uma desconhecida e este romance fez-me ganhar mais público. Esgotou a primeira edição na Galiza. Antes, quando escrevia, era algo muito mais individual, agora as pessoas falam comigo sobre a minha obra. Nota-se mais a presença do público.

É uma fase mais bonita, porque te mostra a verdadeira literatura. Não o tempo que passas a escrever, mas o momento em que partilhas as histórias e as personagens.


Agora vai começar a receber a reacção de portugueses…
Isso assusta-me bastante. É complicado contarem-nos uma história sobre nós, mas contada de fora é mais asséptica e mais livre de pressões. Não gostava que ninguém se sentisse ofendido, porque não era a minha intenção.


Já está trabalhar noutro romance?
Sim… Mas na Galiza digo sempre que não (risos). Sou uma escritora que acredita muito pouco em mim. As histórias atrapalham-me muito e sou pouco objectiva com elas e nunca sei se as vou acabar. Já tenho umas páginas manuscritas, mas digo sempre não. Estou a escrever a história de uma mulher, de 34 anos, que está passar uma fase difícil da sua vida em que todas as coisas em que acreditava de repente se desmoronam. Passa-se durante a época da maré negra do “Prestige” na Galiza. Vivemos essa fase muito como um conjunto, colectivamente. Temos de deixar passar algum tempo para perceber como nos afectou individualmente, como interiorizamos. Esta é uma história nada colectiva, é muito intimista. Afundou-se o barco no momento em que ela se afundou e uniram-se as duas coisas.


Deve ser difícil fazer uma segunda obra, depois de uma primeira tão bem sucedida?
O problema que tenho é que histórias como Resistência surgem uma vez na vida. É difícil que todas as histórias te consigam agarrar da mesma maneira. É uma história fascinante, de um povo que um dia se revolta e derruba uma ditadura. Em Espanha deixou-se o ditador morrer na cama


(Entrevista realizada em 2004)
O LIVRO


Resistência, livro escrito pela galega Rosa Aneiros e editado pela Dom Quixote, mais parece obra de um romancista português, tal o detalhe, a emoção, a paixão e o conhecimento que emprega ao descrever histórias que tanto nos dizem respeito. De São Pedro de Moel a Lisboa leva-nos a seguir os passos daqueles que, principalmente na década de 60, lutaram pela liberdade. Rosa Aneiros mistura estas causas políticas com dramas pessoais, daí resultando um livro bastante atraente, humano e equilibrado. Nem é um panfleto político, nem um simples drama humano, e nota-se ainda uma constante presença da esperança, como que prenunciando a revolução que aí vinha.

Mas Resistência traz tudo ao leitor: a guerra colonial, as dúvidas instaladas em quem lá estava, os abusos de poder, assim como o desejo de mudança e as diversas formas de luta.

Dinis e Filipa, protagonistas de um amor incompreendido, representam o motor que faz/fez funcionar a Resistência.

«Resistencia» de Rosa Aneiros

23 Marzo 2010

Narrativa,Opinións_lectores/as,Xerais nos blogs

[Resistencia de Rosa Aneiros]Pareceume unha historia interesante, sobre todo polo feito de contar a situación política e social de Portugal durante case un século a través da vida de distintos personaxes pertencentes á mesma familia pero de diferentes xeracións, así como a influencia que esta pode chegar a ter na vida das persoas, sobre todo nun sistema fascista como foi o que se deu en Portugal, no que as ditaduras de Salazar e Marcelo caetano non permitían ningún tipo de liberdades.


En relación coa situación política, tamén se trata o tema das colonias en África, outro dos motivos qeu levan á separación de Dinís e Filipa, e na que a autora parece expresar por medio das oopinións de Dinís o absurdo desas guerras coloniais xa ben entrado o século XX, cando Europa está en proceso de cambio e Portugal semella quedar estancado polo seu réxime político.


Tamén me pareceu interesante a descrición da vida dos presos políticos nos cárceres, onde estaban illados e nunhas condicións de vida infrahumanas. A pesar disto, apréciase a solidariedade dos uns cos outros por moitas diferenzas que puidese haber entre eles, e a loita interna que levan a cabo, sempre buscando unha esperanza e resistindo clandestinamente ao réxime. Unha das cousas que máis me chamou a atención relacionada con isto é o feito de que deixasen de comunicarse con eles, porque me parece unha forma de crueldade case peor que as torturas ás que os sometían, xa que a pesar de que a comunicación que mantiñan co exterior era sempre revisada e sometida á censura, polo menos tiñan unha vía de escape que non estivese relacionada coa prisión.



Por outra parte gustáronme as distintas historias que se suceden ao longo da novela, xa sexan de amizade, coma a de Aaial, Miguel da Silva e Dinís; de amor secreto entre Isaura e Antonio Gonçalves; a historia de amor non correspondido de Ana Barbosa; e por suposto a de Filipa e Dinís, a de un amor que perdura nas súas mentes sen sequera saber se o outro seguirá vivo ou se o seguirá querendo como antes de que todo acontecese.


Tamén me chamou a atención a historia de Leonor polo feito de ser unha especie de personaxe espectador ao redor do cal técense todas as historias, e cuxa vida semella estar marcada polas palabra contidas nas cartas.
Porén, o que máis me gustou do libro é o ben documentada que está a historia: os lugares, as revolucións, a guerra colonial… Ainara García Doval
Anotación publicada o 22 de marzo de 2010 no blog Trafegando ronseis con motivo da visita ao club de lectura do IES Laxeiro de Lalín de Rosa Aneiros.

1 comentario

  1. Ola! Hoxe veu Rosa Aneiros… mañá colgareino no blogue. Unha aclaración tan só: veu ao IES nº1 d’O Carballiño, non ao IES Laxeiro de Lalín. Ainara García é alumna, por tanto, do primeiro centro.
    Saúdos
    Comment by Ronsel — 23 Marzo 2010 @ 11:07 p.m.

    http://xerais.blogaliza.org/2010/03/23/%C2%ABresistencia%C2%BB-de-rosa-aneiros/


    Hoy vengo a hablar de un libro que me regaló una estupenda amiga hace un par de meses y que me sorprendió mucho: Resistencia de Rosa Aneiros en español o en castellano, como prefiráis.

Rosa Aneiros cuenta en un lenguaje poético, fresco y renovador una difícil historia de amor entre Dinís y Filipa en el Portugal del siglo pasado; explica y narra, además, la atmósfera que rodea a dicho romance: la historia de unos personajes secundarios, que bien podrían ser tratados por principales. Expresa con soltura la velocidad con que pasa el tiempo y deja al final el corazón repleto de salitre. 



Esta historia nos narra las dificultades de un amor en una época y unas circunstancias determinadas, donde las leyes de la vida lo rigen todo y la resistencia es lo único que puede hacerle frente. En ella encontraremos personajes hechos de salitre y agujas de pino, que deberán afrontar una lucha con la vida y con los personajes que obstaculizan su felicidad, mediante tesón y una acérrima resistencia. En la novela confluyen momentos, pues, históricos, sociales y sentimentales que muestran una terrible realidad acontecida en el Portugal de la dictadura salazarista, en la prisión de Peniche y en la Marinha Grande. La trama es trepidante y está hilada con hilo fino: parece tan real que, al llegar al último punto, el lector se queda con la sensación y la duda de si la historia ocurrió tal cual está contada o se trata de una simple historia de ficción.


El estilo, por cierto, recuerda en mucho a Gabriel García Márquez: poesía, repeticiones, militarismo, situaciones curiosas, reivindicaciones, excelentes descripciones...

Quizás le pondría un pero al libro: tiene demasiadas descripciones y pocos diálogos. Lo bueno es que, como he dicho antes, las descripciones son excelentes y mágicas.

La versión en español de la mano de Eva María Carrión es maravillosa. La traductora consigue transmitir a la perfección el estilo de la autora y las sensaciones del libro demostrando la frescura que se puede llegar a alcanzar en una novela bien traducida; de hecho no se nota que esté traducida. Esta versión me ha gustado, además, por la cuidada maquetación, el uso de una letra legible y el amplio espaciado de los márgenes aayudando así al lector a no naufragar en la oscuridad de la tinta; a no caer abatido por la fuerza de una alentía. La cubierta en gallego es violeta y en absoluto llamativa; todo lo contrario del caso de la portada en castellano que es de un atractivo (por atrayente) color fucsia, con fondo blanco y un pequeño dibujo, que, aunque no muy bien, refleja una escena importante en la historia. Hay algo de esta cubierta que no me parece lógico: la mitad superior está ocupada por el nombre de la autora en tamaño gigante. Eso me echa un poco para atrás.


No me cabe la menor duda de que este libro tiene todos los ingredientes para convertirse en todo un clásico. Y ahora, gracias a la traductora Eva Carrión y a la editorial Faktoria K, podemos disfrutar todos los hispanohablantes de esta obra de arte.  


"Nunca llegué a creer que me quisieras lo suficiente"