sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

cartas de fernando pessoa a ofélia


CARTAS A OFÉLIA

  
Ophélia foi a namorada de Fernando Pessoa durante duas fases: de 1 de Maio a 29 de Novembro de 1920 e de 11 de Setembro de 1929 a 11 de Janeiro de 1930, embora o contacto entre os dois se mantenha cordial, mas esporádico, até à morte do Poeta.  

folha de poesia

artes, ideias e o sentimento de si

 

CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 27 DE ABRIL DE 1920
     
     
Meu Be«be»zinho lindo:
     
Não imaginas a graça que te achei hoje á janella da casa de tua irmã! Ainda bem que estavas alegre e que mostraste prazer em me ver (Álvaro de Campos).
     
Tenho estado muito triste, e além d'isso muito cansado - triste não só por te não poder ver, como também pelas complicações que outras pessoas teem interposto no nosso caminho. Chego a crer que a influência constante, insistente, hábil d'essas pessoas; não ralhando contigo, não se oppondo de modo evidente, mas trabalhando lentamente sobre o teu espírito, venha a levar-te finalmente a não gostar de mim. Sinto-me já differente; já não és a mesma que eras no escriptorio. Não digo que tu própria tenhas dado por isso; mas dei eu, ou, pelo menos, julguei dar por isso. Oxalá me tenha enganado...
     
Olha, filhinha: não vejo nada claro no futuro. Quero dizer: não vejo o que vãe haver, ou o que vãe ser de nós, dado, de mais a mais, o teu feitio de cederes a todas as influencias de familia, e de em tudo seres de uma opinião contraria á minha. No escriptorio eras mais dócil, mais meiga, mais amorável.
     
Enfim...
     
Amanhã passo  á mesma hora no Largo de Camões. Poderás tu apparecer à janella?
     
Sempre e muito teu
     
assinatura de Fernando Pessoa
     
     
     
     
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 31 DE MAIO DE 1920
     
     
Bebezinho do Nininho-ninho:
     
Oh!
     
Venho só quevê pâ dizê ó Bebezinho que gotei muito da catinha dela. Oh!
     
E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos.
     
Oh! O Nininho é pequenininho!
     
Hoje o Nininho não vai a Belém porque, como não sabia se havia carros, combinei tá aqui às seis ho'as.
     
Amanhã, a não sê qu'o Nininho não possa é que sai daqui pelas cinco e meia. [desenho de uma meia] (isto é a meia das cinco e meia).
     
Amanhã o Bebé espera pelo Nininho, sim? Em Belém, sim? Sim?
     
Jinhos, jinhos e mais jinhos.
     
assinatura de Fernando Pessoa
     
     
     
   
   
   
   
CARTA A OPHÉLIA QUEIROZ – 25 DE SETEMBRO DE 1929
   
   
Exma. Senhora D. Ophélia Queiroz:
    
Um abjecto e miserável indivíduo chamado Fernando Pessoa, meu particular e querido amigo, encarregou-me de comunicar a V. Ex.ª — considerando que o estado mental dele o impede de comunicar qualquer coisa, mesmo a uma ervilha seca (exemplo da obediência e da disciplina) — que V. Ex. ª está proibida de:
(1) pesar menos gramas,
(2) comer pouco,
(3) não dormir nada,
(4) ter febre,
(5) pensar no indivíduo em questão.
   
Pela minha parte, e como íntimo e sincero amigo que sou do meliante de cuja comunicação (com sacrifício) me encarrego, aconselho V. Ex.ª a pegar na imagem mental, que acaso tenha formado do indivíduo cuja citação está estragando este papel razoavelmente branco, e deitar essa imagem mental na pia, por ser materialmente impossível dar esse justo Destino à entidade fingidamente humana a quem ele competiria, se houvesse justiça no mundo.
   
Cumprimenta V. Ex. ª
   
Álvaro de Campos
eng. Naval
   
   
   
   
   
   
CARTA A OFÉLIA QUEIRÓS - 9 DE OUTUBRO DE 1929
   
   
     Terrivel Bébé
   
      Gosto das suas cartas, que são meiguinhas, e também gosto de si, que é meiguinha também. E é bombom, e é vespa, e é mel, que é das abelhas e não das vespas, e tudo está certo, e o bebé deve escrever-me sempre, mesmo que eu não escreva, que é  sempre, e eu estou triste, e sou maluco, e ninguém gosta de mim, e também porque é que a havia de gostar, e isso mesmo, e torna tudo ao princípio, e parece-me que ainda lhe telephono hoje, e gostava de lhe dar um beijo na bocca, com exactidão e gulodice e comer-lhe a bocca e comer os beijinhos que tivesse lá escondidos e encostar-me ao seu hombro e escorregar para a ternura dos pombinhos, e pedir-lhe desculpa, e a desculpa ser a fingir, e tornar muitas vezes, e ponto final até recomeçar, e porque é que a Ophelinha gosta de um meliante e de um cevado e de um javardo e de um indivíduo com ventas de contador de gás e expressão geral de não estar ali mas na pia da casa ao lado, e exactamente, e enfim, e vou acabar porque estou doido, e estive sempre, e é de nascença, que é como quem diz desde que nasci, e eu gostava que a Bebé fôsse uma boneca minha, e eu fazia como uma criança, despia-a, e o papel acaba aqui mesmo, e isto parece ser impossível ser escripto por um ente humano, mas é escripto por mim .
assinatura de Fernando Pessoa 


 
Cartas de Amor, Fernando Pessoa. (Organização, posfácio e notas de David Mourão Ferreira. Preâmbulo e estabelecimento do texto de Maria da Graça Queiroz.) Lisboa, Ática, 1978 (3ª ed. 1994)

http://comunidade.sol.pt/blogs/josecarreiro/archive/2008/11/05/ofelia.aspx


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ler aqui o integgral das cartas
http://recursos.wook.pt/recurso?&id=3516367

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Mudam-se os Tempos, Mudam-se as VontadesMudam-se os tempos, mudam-se as vontades, 
Muda-se o ser, muda-se a confiança: 
Todo o mundo é composto de mudança, 
Tomando sempre novas qualidades. 

Continuamente vemos novidades, 
Diferentes em tudo da esperança: 
Do mal ficam as mágoas na lembrança, 
E do bem (se algum houve) as saudades. 

O tempo cobre o chão de verde manto, 
Que já coberto foi de neve fria, 
E em mim converte em choro o doce canto. 

E afora este mudar-se cada dia, 
Outra mudança faz de mor espanto, 
Que não se muda já como soía. 

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

Papiniano Carlos - Presente ainda hoje e sempre

Avante!

  • Fernando Miguel Bernardes 


Papiniano Carlos
Presente ainda hoje e sempre

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A voz e o gesto de Papiniano Carlos colocam-nos desde o primeiro contacto com a sua pessoa perante uma personalidade muito apreciável. Um misto de modéstia e de firmeza clamam perante nós que há um Homem em nossa frente que nos quer ouvir e nos quer falar, dar e receber o que de melhor houver no ser complexo que cada um de nós constitui e ali está presente.

A sua serenidade impõe-se, sem que de qualquer modo Papiniano dê mostras de querer suplantar-se a quem o acompanhe. Antes pelo contrário, Papiniano amodesta-se, como que oferece ao seu interlocutor a oportunidade de conduzir a relação amigável.

Um ser ameno e calmo foi o que sempre senti ao meu lado quando com ele tive a oportunidade de me encontrar. Um homem que sabe também não ser devedor de gentilezas, pois desta qualidade possui ele avonde no seu íntimo generoso.

Quando em 1958 obtive o seu livro de poemas Caminhemos Serenos não pude deixar de sorrir perante o título: onde um casamento mais perfeito entre a epígrafe de um livro e o seu autor? E pensei: se me propusessem a adivinha, mostrando-me a capa e ocultando-me em cima o nome do escritor, «Quem é ele?», perguntavam-me, e se principalmente no Porto nos encontrássemos, creio ainda hoje que não podia deixar de acertar: «Papiniano Carlos, pois quem mais poderá ser?»

Mas, atenção!, serenidade em Papiniano não rima com forçada calma; e muito menos com indiferença. Abro, para matar saudades, aquele velho livro e à sorte sai-me o poema:

INSCRIÇÃO
Aqueles que para vencer-te pulverizaram
tua carne teu último reduto grita-lhes
que no centro do último átomo resistes
esperas a primavera
 

Para consolo nosso, deixem-me pôr mais este:

RETRATO
Eis a montanha brava
mai-la sua face mansa:
É no fundo que dormem
as torrentes de lava: 

Violado, mísero homem,
em ti próprio guardas
tua cólera, tua esperança.
 


Aqui está, quanto a mim, nestes simples exemplos, o que diríamos um auto-retrato do autor: na sua face mansa guardadas andam sua cólera, sua esperança – e a Primavera. E sua revolta, sua confiança, acrescentarei, com a devida vénia eu, seu amigo de mais de meia vida.

Guardo na memória, rica de trágicos mas também de exaltantes acontecimentos vividos, uma passagem nos dias de Papiniano, que talvez tu, caro poeta e sensível autor de textos para crianças, tenhas olvidado: lembrar-te-ás certamente do julgamento, no Tribunal Plenário do Porto, dos 52 réus acusados de actividades contra a segurança interna e exterior do Estado, e recordarás que deles foste testemunha de defesa; aliás, como tantos outros homens e mulheres de prestígio em todo o País. O que talvez te tenha esquecido, pouco pensando em ti próprio como sempre, foi o episódio da tua identificação naquela qualidade. Perante os réus, os corajosos advogados que nos acompanhavam, e a assistência que, contra a vontade do tribunal e do regime que representava, sempre comparecia com o seu calor humano, perguntou-te o juiz presidente, às formalidades, o nome e a profissão. Declinaste a primeira parte, fizeste uma pausa; e o juiz: «Profissão?» Aí respondeste, sereno: «escrevo»... «Não lhe perguntei o que faz, pergunto-lhe a profissão!» Então tiveste mesmo de deixar a modéstia para outras ocasiões e, em voz alta, o que em ti era raro, avançaste: Sou escritor! Não calculas, querido amigo, como corei de prazer a essas palavras tuas. Ali tínhamos mais uma testemunha por inteiro, um homem assumido, uma profissão esclarecida, um humanista, um poeta que todos admirávamos.

E o melhor ainda foi depois: a defesa sincera, sentida, vivida, que fizeste, daquelas dezenas de jovens e outros já não tanto; e que com brio soubeste e quiseste assumir como um inconformado que também te sentias.

Assim apresentaste naquele acto, como testemunha de defesa, um libelo de acusação contra o regime que nos oprimia e ali nos julgava; como um resistente que tu próprio eras – e em nós serás, pois hoje não podemos de igual modo deixar concretizar aos «de cima» todas as iniquidades que pretendem, tal como naquelas datas não deixávamos o campo livre para que executassem todos os malefícios dos seus programas e respectivas intenções e práticas.

Assim interveniente, escritor comprometido, te vi e vejo, te conheci e conheço: mesmo agora, que em corpo nos deixaste.
Até sempre, companheiro! 
 __________

CAMINHEMOS SERENOS

(Para Julius e Ethel Rosemberg)
 

Sob as estrelas, sob as bombas,
 
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas,
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
 
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade,
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
 
sob a treva e os furacões de fogo
dos que nem com a morte podem vencer-nos,
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
 
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
 
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas,
 caminhemos serenos.


In «Caminhemos Serenos» - 1958

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

4 canções de José Afonso, ilustradas, para ver, ler e ouvir


por Victor Nogueira a Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2013 às 22:58 ·
*  A canção de José Afonso «A morte saiu à rua» [1971] é uma homenagem a José Dias Coelho, dirigente do PCP assassinado pela PIDE em 1961.12.19 

A morte saiu à rua num dia assim
Naquele lugar sem nome pra qualquer fim
Uma gota rubra sobre a calçada cai
E um rio de sangue dum peito aberto sai

O vento que dá nas canas do canavial
E a foice duma ceifeira de Portugal
E o som da bigorna como um clarim do céu
Vão dizendo em toda a parte o pintor morreu

Teu sangue, Pintor, reclama outra morte igual
Só olho por olho e dente por dente vale
À lei assassina, à morte que te matou
Teu corpo pertence à terra que te abraçou
~
Aqui te afirmamos dente por dente assim
Que um dia rirá melhor quem rirá por fim
Na curva da estrada, há covas feitas no chão
E em todas florirão rosas duma nação

ouvir em


* Cantar alentejano
 (Vicente Campinas / José Afonso) [1967 / 1971] 
 Homenagem a Catarina Eufémia, assalariada rural alentejana, assassinada pela GNR em 1954.05.19, durante uma greve por melhores condições de vida e de trabalho

Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer

Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou

Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou

Aquela pomba tão branca
Todos a querem p'ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti

Aquela andorinha negra
Bate as asas p'ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar

ouvir em



Era de noite e levaram [1969]
(Luís Andrade / José Afonso)

Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia

Sua boca amordaçaram
Sua boca amordaçaram
Com panos de seda fria
De seda fria, de seda fria

Era de noite e roubaram
Era de noite e roubaram
O que na casa havia
na casa havia, na casa havia

Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
casa vazia, casa vazia

Rosa branca, rosa fria
Rosa branca, rosa fria
Na boca da madrugada
Da madrugada, da madrugada

Hei-de plantar-te um dia
Hei-de plantar-te um dia
Sobre o meu peito queimada
Na madrugada, na madrugada

ouvir em


* Canto Moço [1971]
José Afonso


Somos filhos da madrugada
Pelas praias do mar nos vamos
À procura de quem nos traga
Verde oliva de flor nos ramos
Navegamos de vaga em vaga
Não soubemos de dor nem mágoa
Pelas praia do mar nos vamos
À procura da manhã clara
Lá do cimo de uma montanha
Acendemos uma fogueira
Para não se apagar a chama
Que dá vida na noite inteira
Mensageira pomba chamada
Mensageira da madrugada
Quando a noite vier que venha
Lá do cimo de uma montanha
Onde o vento cortou amarras
Largaremos p'la noite fora
Onde há sempre uma boa estrela
Noite e dia ao romper da aurora
Vira a proa minha galera
Que a vitória já não espera
Fresca, brisa, moira encantada
Vira a proa da minha barca.

ouvir em



litogravura de José Dias Coelho - imprensa clandestina do pcp

litogravura de Jisé Dias Coelho - asassinato de Catarina Eufémia

cartoon de João Abel Manta - preso político kladeado pela PIDE e pela GNR

litogravura de José Dias Coelho - manifestação

Álvaro Cunhal - desenhos da prisão

Álvaro Cunhal - Projectos


Cartoon de João Abel Manta - interrogatório e tortura pela PIDE dum preso político