terça-feira, 26 de novembro de 2013

António Pina - O sonho






 2013.11.26

Uma boa noite onde o sonho encontre o corpo e a mente parta à aventura.

Não o Sonho

Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.

Manuel António Pina, in "Atropelamento e Fuga"

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Victor Nogueira Eu a ler-te encantado como sempre, que bem que ela escreve, dum modo diferente e superior ao meu, apesar de ter tropeçado num "o" qd deveria ser um "a", e vou por aí adiante até que o encanto se esfumou, pk não foi a tua marca que encontrei, assinando.


segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Cecília Meireles - De que são feitos os dias?

De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias, 
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inactuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças.

Cecília Meireles, in 'Canções'
 — com Flora Machado.
1

Kahlil Gibran - O Louco


Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim: um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas
- as sete máscaras que eu havia
confeccionado e usado em sete vidas  –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns
correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado,
um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:
"É um louco!".

Olhei para cima, pra vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.

E, como num  transe, gritei:
"Benditos, bendito os ladrões que
roubaram minhas máscaras!"

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade
como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual que nos
compreende escraviza alguma coisa em nós.


~~~~~~~~~~


Ensaísta,filósofoprosadorpoetaconferencista e pintor de origem libanesa, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo.
Kalil Gibran
Kahlil Gibran
www.lebanon.com

Cecília Meireles - Mapa de anatonia: o Olho

Mapa de anatonia: o Olho

O Olho é uma espécio de globo,
é um pequeno planeta
com pinturas do lado de fora.
Muitas pinturas:
azuis, verdes, amarelas.
É um globobrilhante:
parece cristal,
é como um aquário com plantas
finamente desenhadas: algas, sargaços,
miniaturas marinhas, areias, rochas,
naufrágios e peixes de ouro.

Mas por dentro há outras pinturas,
que não se vêem:
umas são imagens do mundo,
outras são invetadas.

O Olho é um teatro por dentro.
E às vezes, sejam atores, sejam cenas,
e às vezes, sejam imagens, sejam ausências,
formam, no Olho, lágrimas.



Cecília Meirelles/WinKy


domingo, 24 de novembro de 2013

Vinícius de Morais - O casamento da Lua

PARA VIVER UM GRANDE AMOR

O CASAMENTO DA LUA

O que me contaram não foi nada disso. A mim, contaram-me o seguinte: que um grupo de bons e velhos sábios, de mãos enferrujadas, rostos cheios de rugas e pequenos olhos sorridentes, começaram a reunir-se de todas as noites para olhar a Lua, pois andavam dizendo que nos últimos cinco séculos sua palidez tinha aumentado consideravelmente. E de tanto olharem através de seus telescópios, os bons e velhos sábios foram assumindo um ar preocupado e seus olhos já não sorriam mais; puseram-se, antes, melancólicos. E contaram-me ainda que não era incomum vê-los, peripatéticos, a conversar em voz baixa enquanto balançavam gravemente a cabeça. 


É que os bons e velhos sábios haviam constatado que a Lua estava não só muito pálida, como envolta num permanente halo de tristeza. E que mirava o Mundo com olhos de um tal langor e dava tão fundos suspiros - ela que por milênios mantivera a mais virginal reserva - que não havia como duvidar: a Lua estava pura e simplesmente apaixonada. Sua crescente palidez, aliada a uma minguante serenidade e compostura no seu noturno nicho, induzia uma só conclusão: tratava-se de uma Lua nova, de uma Lua cheia de amor, de uma Lua que precisava dar. E a Lua queria dar-se justamente àquele de quem era a única escrava e que, com desdenhosa gravidade, mantinha-a confinada em seu espaço próprio, usufruindo apenas de sua luz e dando azo a que ela fosse motivo constante de poemas e canções de seus menestréis, e até mesmo de ditos e graças de seus bufões, para distraí-lo em suas periódicas hipocondrias de madurez. 


Pois não é que ao descobrirem que era o Mundo a causa do sofrimento da Lua, puseram-se os bons velhos sábios a dar gritos de júbilo e a esfregar as mãos, piscando-se os olhos e dizendo-se chistes que, com toda franqueza, não ficam nada bem em homens de saber... Mas o que se há de fazer? Freqüentemente, a velhice, mesmo sábia, não tem nenhuma noção do ridículo nos momentos de alegria, podendo mesmo chegar a dançar rodas e sarabandas, numa curiosa volta à infância. Por isso perdoemos aos bons e velhos sábios, que se assim faziam é porque tinham descoberto os males da Lua, que eram males de amor. E males de amor curam-se com o próprio amor - eis o axioma científico a que chegaram os eruditos anciãos, e que escreveram no final de um longo pergaminho crivado de números e equações, no qual fora estudado o problema da crescente palidez da Lua. 


Virgens apaixonadas, disseram-se eles, precisam casar-se urgentemente com o objeto de sua paixão. Mas, disseram-se eles ainda, o que pensaria disso o desdenhoso Mundo, preocupado com as suas habituais conquistas? O problema era dos mais delicados, pois não se inculca tão facilmente, em seres soberanos, a idéia de desposarem suas escravas. Todavia, como havia precedentes, a única coisa a fazer era tentar. Do contrário operar-se-ia uma partenogênese na Lua, o que seria em extremo humilhante e sem graça para ela. Não. Proceder-se-ia a uma inseminação artificial e, uma vez o fato consumado, por força haveria de se abrandar o coração do Mundo. 


E assim se fez. Durante meses estudaram os homens de saber, entre seus cadinhos e retortas, e com grande gasto de papel e tinta, o projeto de um lindo corpúsculo seminal que pudesse fecundar a Lua. Um belo dia ei-lo que fica pronto, para gáudio dos bons e velhos sábios, que o festejaram profusamente com danças e bebidas tendo havido mesmo alguns que, de tão incontinentes, deixaram-se a dormir no chão de seus laboratórios, a roncar como pagãos. Chamaram-no Lunik, como devia ser. E uma noite, em que o Mundo agitado pôs-se a sonhar sonhos eróticos, subitamente partiu ele, o lindo corpúsculo seminal, sequioso e certeiro em direção à Lua, que, em sua emoção pré-nupcial, mostrava com um despudor desconhecido nela as manchas mais capitosas de seu branco corpo à espera. Foi preciso que o Vento, seu antigo guardião, escandalizado, se pusesse a soprar nuvens por todos os lados, com toda a força de suas bochechas, para encobrir o firmamento com véus de bruma, de modo a ocultar a volúpia da Lua expectante, a altear os quartos nas mais provocadoras posições. 


Hoje, fecundada, ela voltou finalmente ao céu, serena e radiosa como nunca a vira dantes. Pela expressão com que me olhou, penso que já está grávida. Ou muito me engano, ou amanhã deve estar cheia.


Charles Baudelaire - Uma Heróica Morte

Pequenos Poemas em Prosa - Charles Baudelaire

XXVII

UMA HERÓICA MORTE


Fancioulle era um admirável palhaço e quase um dos amigos do Príncipe. Mas para as pessoas destinadas a ser cômicos, as coisas sérias têm atrações fatais e, ainda que possa parecer bizarro que as idéias de liberdade e de pátria tomem despoticamente o cérebro de um histrião, um dia Fancioulle entrou em uma conspiração formada por alguns cavalheiros descontentes,

Existem em todos os lugares homens de bem para denunciar ao poder esses indivíduos de humor melancólico que querem depor os príncipes e operar a mudança de uma sociedade, sem consultá-la. Os senhores em questão foram presos, como também Fancioulle, e condenados à morte certa.

Creio sinceramente que o Príncipe tenha ficado quase chocado por encontrar seu ator favorito entre os rebeldes.
O Príncipe não era nem melhor nem pior do que qualquer outro, mas uma excessiva sensibilidade tornava-o, em muitos casos, mais cruel e despótico do que todos os seus semelhantes. Amoroso, apaixonado, excelente conhecedor, também, das belas-artes, era, verdadeiramente, de insaciável volúpia. 

Muito indiferente em relação aos homens e à moral, verdadeiro artista, ele próprio, não conhecia inimigo mais perigoso do que o tédio. Os bizarros esforços que fazia para fugir ou para vencer tal tirano do mundo fariam exatamente que tivesse ganho, da parte de um historiador severo, o epíteto de “monstro”, se ele tivesse permitido, em seus domínios, que se escrevesse o que quer que fosse, que não tendesse ao prazer ou à surpresa, que é uma das mais delicadas formas de prazer. A grande infelicidade deste Príncipe foi não ter tido nunca um teatro suficientemente vasto para o seu gênio. Há jovens Neros que foram sufocados em limites muito estreitos, e os séculos futuros ignorarão sempre seus nomes e a sua boa vontade. A imprevisível Providência deu a ele faculdades maiores que seus Estados.

Subitamente correu o boato que o soberano queria perdoar todos os conjurados; e a origem desse boato foi o anúncio de um grande espetáculo onde Fancioulle deveria desempenhar um de seus principais e melhores papéis; e ao qual assistiriam mesmo, dizia-se, os cavalheiros condenados; sinal evidente, acrescentavam os espíritos superficiais, das tendências generosas do Príncipe ofendido.

Da parte de um homem tão natural e voluntariamente excêntrico, tudo é possível, mesmo a virtude, mesmo a demência, sobretudo se se pudesse ter a esperança de encontrar prazeres inesperados. Mas para aqueles que, como eu, puderam penetrar mais adiante na profundeza dessa alma curiosa e doente, seria infinitamente mais provável que o Príncipe quisesse julgar o valor dos talentos cênicos de um homem condenado à morte. Ele queria aproveitar a ocasião para fazer uma experiência fisiológica de interesse capital e verificar até que ponto as faculdades habituais de um artista poderiam ser alteradas ou modificadas pela situação extraordinária em que se encontrava; e mais, existiria mesmo em sua alma uma intenção mais ou menos predisposta à demência? Eis um ponto que jamais poderá ser esclarecido.

Enfim, chegado o grande dia, a pequena corte mostrou todas as suas pompas, e seria difícil conceber, a não ser que se tivesse visto tudo o que a classe privilegiada de um pequeno Estado, de recursos escassos, pode mostrar de esplendores para uma autêntica solenidade. Isso era duplamente verdade, primeiro pela magia de luxo exibido, depois pelo interesse moral e misterioso ao qual estava ligado.

O senhor Fancioulle era excelente sobretudo nos papéis não falados ou pouco expressos em palavras, que são, quase sempre, os principais nesses dramas feéricos cujo objetivo é representar simbolicamente o mistério da vida. Ele entrou em cena com leveza e naturalidade, o que contribuiu para fortificar, no nobre público, a idéia de doçura e perdão.

Quando se diz de um ator: “Eis um bom ator”, serve-se de uma fórmula implicando que, sob o personagem, deixa-se perceber o ator, quer dizer, a arte, o esforço, a vontade. Ora, se o ator chega a ser, relativamente ao personagem que ele está encarregado de representar. o que as melhores estátuas da antiguidade, miraculosamente animadas, vivas, caminhantes, vistosas seriam relativamente à idéia geral e confusa da beleza, isto é, sem dúvida, um caso singular e absolutamente imprevisto. Fancioulle foi essa noite uma perfeita idealização, que seria impossível que não se supusesse viva, possível e real. Este bufão ia, vinha, ria, chorava, entrava em convulsões, com uma indestrutível auréola em volta da cabeça, auréola esta invisível para todos, mas visível por mim e onde se misturavam, em estranho amálgama, os clarões da Arte e a glória do Martírio. Fancioulle introduziu, não sei por que graça especial, o divino e o sobrenatural até nas mais extravagantes pantomimas. Minha pena treme e lágrimas de uma emoção sempre presente sobem-me aos olhos enquanto procuro descrever esta incrível noite. Fancioulle provou-me, de maneira peremptória e irrefutável, que a embriaguez da Arte é mais apta do que qualquer outra para encobrir os terrores do abismo; que o gênio pode representar uma comédia à beira do túmulo com uma alegria que o impede de ver o próprio túmulo, perdido como está em um paraíso que exclui toda idéia de sepultura e de destruição.

Todo este público, por mais afetado e frívolo que pudesse ser, sofreu logo a poderosa dominação artística. Ninguém sonhou mais sobre a morte, o luto, nem sobre suplício. Cada um abandonou-se, sem inquietação, às volúpias multiplicadas da visão de uma obra-prima da arte viva. As explosões de alegria e de admiração abalaram várias vezes as cúpulas do edifício com a energia de um trovão contínuo. Até mesmo o Príncipe, inebriado, juntou seus aplausos aos da corte.

Entretanto para um olho clarividenteexatamente justificadas, mas não absolutamente injustificáveis, atravessaram meu espírito enquanto eu contemplava a face do Príncipe , sobre a qual uma palidez nova juntava-se sem cessar à palidez habitual, como a neve que cai sobre a neve. Seus lábios cercavam-se cada vez mais e os olhos brilhavam com um fogo interior semelhante ao do ciúme e ao rancor, mesmo quando aplaudia ostensivamente o talento de seu velho amigo, o estranho bufão, que gracejava tão bem com a morte. A um certo momento, vi Sua Alteza inclinar-se para um pequeno pajem que estava atrás dele e lhe falar ao ouvido. A fisionomia maliciosa do lindo jovem iluminou-se com um sorriso; depois ele deixou rapidamente o camarote do Príncipe, como para cumprir uma missão urgente.

Alguns minutos mais tarde um silvo agudo, prolongado, interrompeu Fancioulle em um de seus melhores momentos e feriu tanto os ouvidos quanto os corações. E do lugar da sala de onde havia brotado a desaprovação inesperada, um menino precipitou-se para um corredor em gargalhadas abafadas.

Fancioulle, agitado, acordado de seu sonho, inicialmente fechou os olhos, depois reabriu-os e, quase de imediato, arregalou-os desmesuradamente; em seguida abriu a boca como para respirar convulsivamente, cambaleou, um pouco para a frente, um pouco para trás e, depois, tombou morto sobre o assoalho,

O silvo, rápido como uma espadas frustrara realmente o carrasco? O Príncipe previra toda a homicida eficácia de seu ardil? E permitido duvidar. Deplorava ele a morte de seu caro e inímitável Fancioulle? É doce e legítimo acreditar.

Os fidalgos, culpados, haviam gozado pela última vez o espetáculo da representação. Naquela noite mesma eles foram apagados da vida.

Desde então, muitos mímicos justamente apreciados em diversos países vieram representar diante da corte de ***; mas nenhum deles fez lembrar os maravilhosos talentos de Fancioulle, nem conseguiu obter os mesmos favores.

o domingo na poesia segundo vários escritores - 18 - os bobos e truões - 03


24 de Novembro de 2013 às 22:43
* Cecília Meireles - Dia de Chuva
* Charles Baudelaire - A Tampa
* Charles Baudelaire - A Morte dos Artistas
* Paulo Henriques Britto - O funâmbulo
* Jean Genet - E a tua ferida, onde está?
* Kahlil Gibran - O Louco

~~~~~~~~~~

* Cecília Meireles

Dia de Chuva

As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de corça e estrela.

Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aéreos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.

Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armários,
enfermidades, heroísmos...

Quem passa é como um funâmbulo,
equilibrado na lama,
metendo os pés por abismos...

Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes
pelo pulso dos relógios...

Se um morto agora chegasse
àquela porta, e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e, com limo pela face,
ali ficasse batendo
— ali ficasse batendo
àquela porta esquecida
sua mão de eternidade...

Tão frenético anda o mar
que não se ouviria o morto
bater à porta e chamar...

E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto à surdez do dia.

Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois aéreos que trabalham
no arado do esquecimento.

(in Cecília Meireles, Antologia Poética, Relógio d'Água)
~~~~~~~~~~


* Charles Baudelaire


A Tampa (Le Couvercle )

Onde quer que ele vá, ou sobre mar ou terra,
Sob um clima de chama ou sol branco,
Servidor de Jesus, cortesão de Citera,
Mendigo tenebroso ou Creso rutilante.

Cidadão, camponês, vagabundo, sedentário
Que seu pequeno cérebro seja ativo ou lento,
Em todo lugar o homem sofre o terror do mistério,
E olha ao alto senão com olhar trêmulo.

Acima, o Céu! o muro da cova que sufoca,
Teto iluminado para uma ópera bufa
Onde cada histrião pisa um chão de sangue;

Terror do devasso, esperança do tolo eremita;
O Céu! Tampa escura da grande marmita
Onde se confina a sutil e vasta Humanidade.

.
Trad. livre: Leonardo de Magalhaens
~~~~~~~~~~

* Charles Baudelaire

A Morte dos Artistas  -  La Mort des Artistes (CXXIII)

Quantas vezes é preciso sacudir meus guizos
E beijar tua fronte baixa, morna caricatura?
Para furar o alvo, de mística natura,
Quantos, ó meu cesto, perder de dados?

Usaremos nossa alma em sutis complôs,
E destruiremos muita pesada armadura,
Antes de contemplar a grande Criatura
Cujo infernal desejo enche-nos de dor!

Não há quem não conheça seu ídolo,
E esses escultores condenados, em afronta,
Que vão se golpeando o peito e a fronte,

Sem uma esperança, estranho e sombrio Capitólio!
É que a Morte, tal um novo sol a planar
As flores de seus cérebros fará desabrochar!

.
Trad. livre: Leonardo de Magalhaens
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* Paulo Henriques Britto

O funâmbulo

Entre a palavra e a coisa
o salto sobre o nada.

Em torno da palavra
muitas camadas de sonho.
Uma cebola. Um átomo.
Uma cebola ávida.
Entre uma e outra camada
nada.

Saltam sobre o abismo
tomam o vazio de assalto.
De píncaro a píncaro
projetam-se, impávidas,
epifânicas, esdrúxulas,
teimosas e dançarinas.

O salto é uma dança,
a teima é uma doença.
Em torno da cebola
o ar é tenso de lágrimas.

(1951)

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* Jean Genet

E a tua ferida, onde está?

Pergunto onde fica,
em que lugar se oculta a ferida secreta
para onde foge todo o homem
à procura de refúgio
se lhe tocam no orgulho, se lho ferem?

Esta ferida
— que fica assim transformada em foro íntimo —
é que ele vai dilatar, vai preencher.

Sabe encontrá-la, todo o homem,
ao ponto de ele próprio ser a ferida,
uma espécie de secreto
e doloroso coração.

Se observarmos o homem ou a mulher
que passam com olhar rápido e voraz
— e também o cão, o pássaro, uma panela —
a velocidade do olhar é que nos mostra,
ela própria e com rigor máximo,
que ambos são a ferida
onde se escondem mal sentem o perigo.

O quê?
Já lá estão, já os conquistou
— deu-lhes a sua forma —
e para ela a solidão:
lá estão inteiros no retesar de ombros
em que passam a concentrar-se,
com toda a vida a confluir na ruga maldosa da boca,
e contra a qual nada podem nem querem,
pois dela é que sabem esta solidão absoluta,
incomunicável — este castelo da alma —
para serem a própria solidão.

È visível no funâmbulo que refiro,
no olhar triste
que deve reportar-se às imagens de uma infância miserável,
inesquecível,
em que ele teve consciência
de ser abandonado.

(...)

jean genet
o funâmbulo
trad. de aníbal fernandes
hiena editora
1984

~~~~~~~~~~

* Kahlil Gibran

O Louco

Perguntais-me como me tornei louco.
Aconteceu assim: um dia, muito tempo antes
de muitos deuses terem nascido,
despertei de um sono profundo e notei que todas
as minhas máscaras tinham sido roubadas
- as sete máscaras que eu havia
confeccionado e usado em sete vidas  –
e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente, gritando:
"Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"

Homens e mulheres riram de mim e alguns
correram para casa, com medo de mim.

E quando cheguei à praça do mercado,
um garoto trepado no telhado de uma casa gritou:
"É um louco!".

Olhei para cima, pra vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez minha face nua.

Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua,
e minha alma inflamou-se de amor pelo sol,
e não desejei mais minhas máscaras.

E, como num  transe, gritei:
"Benditos, bendito os ladrões que
roubaram minhas máscaras!"

Assim me tornei louco.

E encontrei tanto liberdade
como segurança em minha loucura:
a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele desigual que nos
compreende escraviza alguma coisa em nós.

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Ensaísta, filósofo, prosador, poeta, conferencista e pintor de origem libanesa, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo. (1883-1931)


vem de o domingo na poesia segundo vários escritores - 17 - os bobos e truões - 02

Retrato do Louco olhando através de seus dedos Atribuído a 'Maître de 1537

Retrato do Louco olhando através de seus dedos Atribuído a 'Maître de 1537


Bufão ou bobo - Gravura de J.A.Beauce et Rouget

Bufão ou bobo - Gravura de J.A.Beauce et Rouget


17th-century engraving of Will Sommers, Henry VIII's jester

17th-century engraving of Will Sommers, Henry VIII's jester


Peter Brueghel - Loucos brincando - 1642

Peter Brueghel - Loucos brincando - 1642


Um casal de bufões.[bobos] Desenho de Hans Sebald Beham

Um casal de bufões.[bobos] Desenho de Hans Sebald Beham